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Zandingas

por henrique pereira dos santos, em 22.11.20

No dia 11 de Novembro fiz um post que começava assim:

"António Diniz, pneumologista e membro do grupo que acompanha a covid na ordem dos médicos, diz que daqui a 15 dias vamos ter, por dia, 125 novos doentes com covid nos cuidados intensivos.

Manuel Carmo Gomes, biólogo e professor de epidemiologia, diz que vamos ter 10 mil casos de covid por dia, no princípio de Dezembro, 530 internados em UCI uma semana depois e uma mortalidade à volta das cem pessoas por dia na primeira quinzena de Dezembro.

Eu, porteiro do hotel Alcazar, digo que dentro de uma semana, ali por meados do mês de Novembro, estaremos a parar o crescimento do número de casos diários e portanto não vamos chegar aos números citados acima (sendo mais preciso, um dia ou outro com dez mil casos não significa nada fora desta minha previsão Zandinga, uma média a sete dias de 10 mil casos, sim, significa que a previsão está errada).

Agora é simples, é deixar correr o tempo e ver quem fica mais próximo da realidade (errar vamos todos errar, isso é seguro)."

Estava à espera dos quinze dias ou do princípio de Dezembro para olhar para estas previsões feitas a 11 de Novembro por diferentes Zandingas, mas como o Governo resolveu tomar decisões com base no que seria a epidemia se o Governo a não controlasse, vou fazer um post intermédio e logo veremos no princípio de Dezembro se volto ao assunto.

Mais ou menos 11 dias depois da previsão do pneumologista António Diniz, em quem a ordem dos médicos confia para dizer coisas sobre a epidemia, a sua previsão de haver 125 pessoas por dia a entrar em cuidados intensivos, confrontada com a realidade, revela-se o que sempre foi: ver o gráfico abaixo, é verdade que houve uns dois dias com aumentos de 25 ou 26 pessoas em cuidados intensivos, é verdade que é possível que ainda venha haver subidas diárias relevantes em cuidados intensivos, mas estar à espera de 125 pessoas de aumento por dia nos cuidados intensivos, só para lunáticos.

interna.jpg

Nota sobre este gráfico: note-se o desfasamento entre a inclinação da curva de internados e a inclinação da curva de cuidados intensivos, um padrão que se encontra praticamente em todos os países mas que aparentemente não é muito valorizada pelos lunáticos.

Manuel Carmo Gomes, entretanto, já refez a sua previsão (escassa meia dúzia de dias depois), baixando a média de dez mil casos diários para sete mil. A realidade, neste momento, é de alguma estabilização ligeiramente abaixo dos seis mil, ou seja, a previsão dos sete mil para início de Dezembro é razoável, a previsão dos dez mil, feita ali por 10 ou 11 de Nombembro, parece fora de causa.

E eu, o porteiro do hotel Alcazar, previ nessa altura que uma semana depois estariam a estabilizar os números, previsão que terei falhado por dois ou três dias, talvez, e a previsão de que não íamos chegar aos números previstos pelos outros zandingas parece certa em relação ao número de casos, é mais duvidosa em relação aos internados UCI de Manuel Carmo Gomes (530 parece perfeitamente possível, estamos com 485) e a mortalidade de 100 pessoas em meados de Dezembro não é descabida (estamos por volta dos 75 diários, parece haver alguma estabilização, mas é muito cedo, é normal um desfasamento em relação ao número de casos e esta estabilização parece ser temporã).

Aqui o porteiro do hotel Alcazar sabe mais que os outros Zandingas por ter feito previsões mais certas, neste caso?

Claro que não, apenas foi por outro caminho: o primeiro achou que andar na lua era o mais adequado para falar do futuro, o segundo usa métodos mais sólidos de previsão, que assentam na mera projecção de tendências para o futuro, e o porteiro do hotel Alcazar usou o padrão de evolução da epidemia noutros países.

O que me espanta é que ao fim deste tempo todo os que fazem previsões lunáticas, e os que fazem previsões seguindo os mesmos métodos mas de forma mais sólida, nomeadamente evitando projectar tendências muito mais que uma semana, continuem a ser ouvidos como oráculos de Delfos e não como o que são: pessoas a tentar prever o futuro.

E os que usam padrões matemáticos de situações que se podem considerar similares, sejam simplesmente classificados e tratados como negacionistas.

A diversidade é uma coisa boa, ajuda-nos a gerir melhor problemas complexos, não há vantagem nenhuma em querer calar os que simplesmente usam caminhos diferentes dos nossos para pensar.



4 comentários

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De Anónimo a 22.11.2020 às 09:38

como na bola
pulhiticos e cientistas fazem previsões com Bola de Berlim
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De Carlos Sousa a 22.11.2020 às 11:02

O problema é que são esses zandingas que fazem de nós atrasados mentais.
Então parece que há um novo estudo que diz que a limpeza de superfícies é teatro higiénico. Depois de se ter gasto rios de dinheiro em produtos de limpeza, porque alguém tornou obrigatório a limpeza das superfícies é que aparece um estudo a chamar totós a quem cumpriu.
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De Anónimo a 22.11.2020 às 16:49

Dir-se-ia que o porteiro do hotel Alcazar ou usa uma bola de cristal com melhor "performance" ou usa simples senso comum, cadeira corricular que aparentemente não é ministrada na Faculdade de Medicina e na de Ciencias.
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De Anónimo a 22.11.2020 às 23:05

Nesse post de 11 de Novembro, comentei que extrapolando o que se tinha passado anteriormente, presumia que lá para meados de Dezembro estivéssemos com níveis de mortalidade semelhantes a Junho e início de Setembro. Para fundamentar a extrapolação, deixei na altura imagem (colhida no ourworldindata) de gráfico da média móvel de 7 dias da mortalidade diária por milhão de habitantes.


Para uma análise mais fina, fui hoje consultar o gráfico da mortalidade diária para Portugal ao worldometers, o qual pode ver-se nesta imagem: http://prntscr.com/vo0p5i 


Daquilo que pode observar-se, ressalta uma diminuição de mortalidade diária em 4 dias consecutivos (17 - 20 de Novembro), registando-se no dia 21 um aumento pouco expressivo de 1 óbito relativamente ao dia anterior. Este decréscimo registado em 4 dias consecutivos, de 91 para 61 óbitos, era algo que já não se via há meses e coloca os valores da mortalidade diária a par daquilo que se verificava há 12 dias atrás.


Mas, o que seria das indústrias noticiosa e farmacêutica sem arautos da desgraça e profetas do fim do mundo?

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