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Vítor Matos, do Observador

por henrique pereira dos santos, em 23.02.17

"A performance de António Costa foi a de um perito nas artes políticas, mas neste caso no que a retórica parlamentar e a tática comunicacional tem de pior."

Vítor Matos escreve no Observador (mais que isso, é o editor de política do jornal) e tem uma curiosa concepção do mundo da política.

Logo depois da frase com que começo este texto, Vítor Matos escreve: "A notícia do Público sobre o escândalo das offshores — um caso gravíssimo em que a Autoridade Tributária fechou os olhos no tempo do Governo de direita –, oferecia-lhe a cortina de fumo ideal que permitia atacar o adversário".

Vítor Matos não gasta uma linha a explicar por que razão considera o caso gravíssimo. É verdade que estas transferências deveriam ter sido analisadas pelo fisco, mas sabendo-se quem são os operadores na origem da transferência, quem são os destinatários finais das transferências e qual é o motivo da transferência, tudo elementos de registo e reporte obrigatório, o mais provável é não haver questão nenhuma com as transferências, excepto uma omissão do fisco, portanto é um caso que precisa de ser esclarecido, mas qualificá-lo já de gravíssimo é uma fantasia do jornalista.

E embora haja razões para admitir que a cortina de fumo foi voluntariamente fabricada por Costa, exactamente com o objectivo de ser usada como foi, Vítor Matos só fala dessa possibilidade como sendo uma ideia do CDS, já não tem as mesmas certezas que sobre a gravidade das transferências.

Mas o mais interessante é mesmo a frase com que começo este texto, depois do próprio Observador ter ido verificar três afirmações de Costa e ter concluído que, em todas elas, Costa mentiu. Mais, Vítor Costa ainda consegue criticar a oposição por não ter dito que Costa mentiu, sem nunca criticar Costa por ter mentido, excepto naquele pequeno pormenor de entender que a performance do perito nas artes políticas ter sido no que essas artes têm de pior.

Resumindo, um primeiro ministro que mente reiterada e comprovadamente (e o Observador optou por nem fazer o fact check da frase mais relevante para a definição da performance de Costa, a inqualificável "É absolutamente escandaloso que um Governo que não hesitou e não aceitou em acabar com a penhora da casa de família, tenha tido a incapacidade de verificar o que aconteceu com 10 mil milhões de euros no país") não é simplesmente um mentiroso, é um perito em artes políticas que, calcula-se que por acaso, desta vez usou as suas assombrosas qualidades de maneira duvidosa.

Por mim, vou continuar a insistir que o que diminui a qualidade da democracia não são políticos aldrabões, isso é da natureza das coisas e é legítimo que os eleitores escolham aldrabões para governar, se é isso que acham melhor, o que diminui a qualidade da democracia é mesmo esta imprensa que tem medo de chamar os bois pelos nomes e se enreda em textos gelatinosos para não dizer o óbvio: Costa, enquanto primeiro ministro, pode dizer o que quiser na Assembleia da República, mas o jornalista, enquanto jornalista, tem a obrigação de dizer que quem mente reiteradamente é um mentiroso. E que misturar uma mera falha de verificação de transferências de que se conhece a origem, o destino, o montante e a data, com a penhora de casas por dívidas, já nem é demagogia, é pura ordinarice.

Fizesse o jornalista o seu trabalho e tenho a certeza de que o próximo debate seria mais elevado, porque nenhum político se atreveria a tamanha canalhice se tivesse a certeza de que no dia seguinte seria exposto nos jornais como antigamente os criminosos no pelourinho.



9 comentários

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De Renato a 26.02.2017 às 10:54

Eu não disse que o controlo teria de ser prévio, mas pelo que li, foi mesmo falta de tratamento de dados, coisa que só começou a ser feito no fim de 2016. Desqualificar isto como um simples problema de estatística não me parece razoável. Não digo que tivesse havido má fé, e quanto a prejuízos, logo se verá. Mas houve pelo menos negligência. Quem tinha como slogan o rigor máximo e as boas contas era o anterior governo. 
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De Fernando S a 26.02.2017 às 16:49

Na verdade, ainda não se sabe em detalhe e totalmente o que se passou.
O governo, aparentemente numa manobra de diversão e propaganda demagógica, resolveu reciclar uma noticia que já se conhecia sem dar detalhes nem esperar por um esclarecimento completo e definitivo (está em curso um inquérito pela Inspecção Geral de Finanças).
Há uma questão estatistica relativa à publicação de elementos na posse da Autoridade Tributária. Este aspecto não está ainda devidamente acertado. O antigo Secretário de Estado, Paulo Núncio, depois de ter remetido a questão para a AT, vei dizer que terá havido um problema de "percepção" e assumiu a responsabilidade "politica" pela não publicação (é a questão do "visto").
Seja como for, as consequências desta não publicação são menores e politicamente pouco relevantes na medida em que, só por si, não acarretam qualquer prejuizo para o pais (de resto, a publicação não se fazia antes de 2009).
Há ainda uma questão relativa ao contrôlo das transferências não publicadas. Foram ou não controladas e quando é que poderiam e deveriam ser controladas ? Também aqui há ainda aspectos por acertar. O facto de não terem sido publicadas não significa que não houve ou não haveria contrôlo. Um primeiro nivel do contrôlo é precisamente a declaração e a comunicação dos elementos relativos às transferências. Outros niveis decorrem no âmbito de uma pesada e complexa máquina burocrática. De qualquer modo, o tempo útil para o contrôlo não se esgotou, longe disso, na medida em que todos os elementos estão disponiveis e a lei prevê que possa ser feito ao longo de 12 anos. Se porventura tiverem existido ilicitos fiscais ou outros, a AT e a Justiça estarão sempre em condições e a tempo de os identificarem e de aplicarem as cobranças e sanções devidas.
Ou seja, tanto quanto se saiba por enquanto, até vêr, o erário público não teve ainda nenhum prejuizo.
Mas, mesmo que viesse a ser o caso, não é nada que não faça parte do curso normal das actividades económicas e das operações financeiras associadas bem como da acção fiscalizadora do Estado.
Ou seja, apresentou-se como "escandalosa" uma situação que, independentemente de alguma eventual disfuncionalidade burocrática, não tem nada de "escandaloso".
O cúmulo da demagogia foi ter-se procurado passar a ideia de que os 10 mil milhões transferidos teriam sido "roubados" ao Estado e aos portugueses quando se sabe que na realidade era dinheiro de particulares e de empresas, que em principio terá sido declarado e tributado, que foi normalmente utilizado em muitas operações financeiras necessárias e úteis para a economia, que foi registado e comunicado e que foi transferido no quadro dos mecanismos financeiros conhecidos e legalmente enquadrados.    

"O rigor máximo e as boas contas" deve ser o "slogan" de qualquer governo. Era do governo anterior e, que se saiba, desdizendo muito do que disseram antes os seus apoiantes, acaba por ser também do actual.
Como é natural, o "slogan" não implica automáticamente que o rigor é completo e que as contas são forçosamente boas.
Neste plano, a discussão pode ser muita e as opiniões diversas.
"Negligências", "faltas de rigor", "contas erradas", e todo o tipo de "trapalhadas" podem ser apontadas a todas as áreas politicas e a todos os governos. Ninguém tem o exclusivo e ninguém é perfeito.
Pela parte que me toca, não costumo avaliar a acção dos governantes em função da maior ou menor competência, da maior ou menor honestidade, ou de outros aspectos de carácter, mas sim em função das respectivas politicas.
Por exemplo, José Sócrates interessa-me sobretudo na medida em que encarnou uma certa politica e não tanto pelas questões mais pessoais e que são do âmbito da justiça.
Poderia dar muitos outros exemplos, para um lado como par o outro. 
Não faz sentido estar a apresentar esta questão dos "10 mil milhões transferidos para offshores", com os contornos já conhecidos mas ainda não completamente esclarecida, como sendo uma questão politicamente muito relevante.
    

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