Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Vamos ter um Presidente socialista. Resta saber qual

por Miguel A. Baptista, em 22.01.26

Nenhum dos dois candidatos em presença é um liberal no sentido político do termo. Nenhum defende uma sociedade estruturalmente mais livre, mais moderna ou mais pujante do ponto de vista económico. 

Ambos perfilham modelos marcadamente assistencialistas, justicialistas e, em diferentes graus, populistas. Divergem no discurso, no estilo e no folclore; convergem no essencial: na crença de que é o Estado que resolve os problemas das pessoas e de que esses problemas se resolvem, sobretudo, atirando dinheiro para cima deles. 

Chamar “socialista” a Ventura, como fiz deliberadamente no título, não é rigoroso em termos clássicos de ciência política. É uma provocação. Mas não é uma provocação absurda, e importa explicar porquê. 

A Argentina oferece um paralelo útil. Durante grande parte do último século foi governada por peronistas. Houve peronistas de esquerda, como Cristina Kirchner, e peronistas de direita, como Carlos Menem. Apesar das diferenças ideológicas nos costumes e nos valores sociais, ambos partilharam traços estruturais: populismo, desconfiança do liberalismo, estatismo económico e a convicção de que o Estado é o instrumento central de redistribuição e tutela social. 

As diferenças residiam mais no folclore e na moral pública do que no modelo económico. O peronismo de direita é mais conservador nos costumes; o de esquerda, mais progressista. Transpondo este quadro para o contexto português, António José Seguro encaixa quase na perfeição no arquétipo de um peronista de esquerda, enquanto Ventura se aproxima bastante do modelo de um peronista de direita. 

Para quem considere exagerado atribuir a Ventura uma veia “socialista”, os factos ajudam. No último Orçamento do Estado, PS e Chega votaram juntos 82 vezes em alterações orçamentais. Sempre que a solução passava por “dar coisas”, aumentar despesa ou socializar custos, PS e Chega encontraram-se. 

Se a questão for um pequeno ajustamento nas propinas, ainda que simbólico, aproximando-as do seu custo real e responsabilizando os estudantes, PS e Chega unem-se para impedir. 
Se a escolha for entre o pagamento de uma portagem pelo utilizador ou a sua diluição pelo contribuinte, PS e Chega convergem na promoção da ilusão da gratuitidade. 
Se a TAP escapar ao controlo do Estado, ambos chorarão o desaire. 

O estatismo de Ventura é, aliás, tão pronunciado que durante a vaga inflacionista causada pela guerra na Ucrânia defendeu preços tabelados e margens controladas — uma proposta que nem a própria Mariana Mortágua chegou a avançar. 

Mas a convergência não se esgota no que defendem; manifesta-se também no que não têm coragem de defender. Nenhum dos dois foi capaz de apoiar claramente o pacote laboral, mesmo quando este se apresentava como tímido e moderado. Nenhum teve a coragem política de se demarcar da greve geral, preferindo acenar à rua, aos sindicatos e ao descontentamento organizado, em vez de assumir uma posição responsável, ainda que impopular. Ambos revelam a mesma aversão ao conflito reformista e a mesma dependência do aplauso imediato. 

Tudo isto conduz a uma conclusão desconfortável para muitos dos seus apoiantes: ao nível do modelo económico, as diferenças entre Ventura e Seguro são reduzidas. Ambos defendem soluções assistencialistas incapazes de gerar crescimento sustentado e criação de riqueza a longo prazo. Nenhum parece disposto a promover as reformas estruturais, quase sempre dolorosas, de que o país necessita. Mantendo a terminologia provocatória do título: ambos são socialistas. 

A questão relevante passa então a ser outra. Até que ponto me incomoda ter um socialista em Belém? E, sendo essa uma inevitabilidade, como escolher entre os dois? 

A verdade é que isso, por si só, não me incomoda particularmente. O Presidente da República não governa nem legisla. A sua função é moderar, arbitrar e garantir o regular funcionamento das instituições. Idealmente, teria uma visão económica mais moderna e estaria disponível para apoiar reformas necessárias, ainda que impopulares. Mas isso é desejável, não essencial. 

O essencial é outro: entre estes dois socialistas, qual está mais talhado para a função moderadora? 
Qual deles, suficientemente afastado do seu partido de origem, será capaz de assumir o papel de árbitro isento? 
E qual corre maior risco de confundir cargos e funções, inclinando o terreno do jogo a favor do seu campo político, fragilizando a lógica de "checks and balances" que sustenta a função presidencial? 

Para mim, a resposta é absolutamente evidente. 

 


32 comentários

Sem imagem de perfil

De Figueiredo a 23.01.2026 às 16:50


O dr. António Seguro representa a facção do Partido Socialista que alinha com o bando do dr. Pedro Coelho: 


- ‘Passistas’ preparam apoio a António José Seguro https://expresso.pt/politica/eleicoes/presidenciais-2026/2025-10-16-passistas-preparam-apoio-a-antonio-jose-seguro-47299110


- Passos e Seguro não excluem possibilidade de governarem juntos https://sicnoticias.pt/pais/2014-05-10-Passos-e-Seguro-nao-excluem-possibilidade-de-governarem-juntos


O dr. André Ventura também faz parte do bando do dr. Pedro Coelho:


- Chega admite apoiar Passos Coelho nas eleições presidenciais» https://www.cmjornal.pt/politica/detalhe/chega-admite-apoiar-passos-coelho-nas-eleicoes-presidenciais


- Passos Coelho na apresentação da candidatura de André Ventura
https://www.youtube.com/watch?v=83OxOTUSFjo


Votar no dr. António Seguro ou no dr. André Ventura é o mesmo que votar no dr. Pedro Coelho e seu bando (do qual faz parte o Sr.º Presidente da República Marcelo Sousa, Sr.º Primeiro-Ministro Luís Esteves, Partido Chega, e Partido Iniciativa Liberal), é votar e favorecer o Partido Socialista e os seus aliados.


Você que ainda vota pensado que existe diferenças e partidos divergentes na verdade está a votar em mais do mesmo, mas eles fingem-se combater uns aos outros estando todos alinhados com o sistema político-constitucional ainda em vigor e defendem todos a mesma agenda política, económica, de engenharia social, e os interesses instalados.


Há fraude eleitoral nas Eleições Presidenciais de 2026 (e também nas Eleições Autárquicas e Legislativas) com os estrangeiros a votar: https://www.cne.pt/faq2/141/90


Os Portugueses ingénuos ou mais distraídos têm de perceber que estão a ser enganados e manipulados. 


Português não vote, não contribua para a fraude, diga não a este ilegítimo, criminoso, corrupto, e anti-democrático regime liberal/maçónico imposto pelo golpe de Estado da OTAN a 25 de Abril de 1974.
Sem imagem de perfil

De Silva a 23.01.2026 às 16:54

"O essencial é outro: entre estes dois socialistas, qual está mais talhado para a função moderadora? 
Qual deles, suficientemente afastado do seu partido de origem, será capaz de assumir o papel de árbitro isento? "


Miguel A. Baptista está equivocado ao assumir que qualquer um que seja eleito irá assumir o papel de árbitro isento.
Sampaio, por exemplo, correu com Santana Lopes e em eleições subsequentes os canalhas dos eleitores elegeram Pinócrates que afundou o país.



Sem imagem de perfil

De Manuel a 23.01.2026 às 17:22

Tem razão em muito do que escreve no post só que eu não acredito em árbitros isentos particularmente naqueles que vêm de áreas ideológicas bem defenidas um socialista será sempre um socialista é essa a sua matriz e decidirá sempre de acordo com ela. 
 Já o outro socialista que se apresenta pela direita é um proto ditador em formação, e é estatista empedernido porque é por aí que passa o caminho de todos os ditadores e aspirantes digam-se de direita ou de esquerda todos são pelo estado, o estado e as suas instituições são o instrumento através do qual exercem ou pensam vir a exercer o seu poder ditatorial.
As circunstâncias não permitiram que a área não socialista apresentasse em unidade um candidato ganhador e agora há que seguir em frente minimizando as consequências e tirando as lições para o futuro.
Nunca votei em nenhum socialista de esquerda e não é agora que o irei fazer certamente 
Já quanto ao socialista de direita nem vale a pena pensar,  se isto não está bom muito pior iria ficar
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 23.01.2026 às 19:14

"E qual corre maior risco de confundir cargos e funções, inclinando o terreno do jogo a favor do seu campo político, fragilizando a lógica de "checks and balances" que sustenta a função presidencial? 

Para mim, a resposta é absolutamente evidente. " 

Está tão dentro da Overton Window que não entende os próprios tabus.

Diga-me. 

O Presidente Seguro vai dizer ao PM Montenegro que a Lei da Imigração é para cumprir e as leis votadas na Assembleia da Republica não são opcionais?

Sem imagem de perfil

De Octávio dos Santos a 24.01.2026 às 00:05

«Chamar “socialista” a Ventura, como fiz deliberadamente no título, não é rigoroso em termos clássicos de ciência política. É uma provocação. Mas não é uma provocação absurda».


Não é uma provocação absurda, de facto; é uma provocação falaciosa. Não se é «socialista» por se querer fundamentalmente um Estado robusto e com capacidade de intervenção ao nível do incentivo-dinamização e da arbitragem-regulação, além da função primordial de proporcionar segurança e justiça.


«Para mim, a resposta é absolutamente evidente.»


Então, porque não a torna explícita? Assuma, Miguel A. Baptista, que prefere e/ou vai votar em António José Seguro. 

Comentar post


Pág. 2/2



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com



Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Anónimo

    Parecem coisas e mundos de Planos diferentes e irr...

  • Anónimo

    Está a tornar-seOs mecanismos de educação dos sist...

  • Anónimo

    Os países em que o mercado livre funciona sem amar...

  • Anónimo

    Parece-me, ninguém terá dúvidas, em rotular a habi...

  • Anónimo

    A IA marxista ??


Links

Muito nossos

  •  
  • Outros blogs

  •  
  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2026
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2025
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2024
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2023
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2022
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2021
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2020
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2019
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2018
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2017
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2016
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2015
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2014
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2013
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D
    183. 2012
    184. J
    185. F
    186. M
    187. A
    188. M
    189. J
    190. J
    191. A
    192. S
    193. O
    194. N
    195. D
    196. 2011
    197. J
    198. F
    199. M
    200. A
    201. M
    202. J
    203. J
    204. A
    205. S
    206. O
    207. N
    208. D
    209. 2010
    210. J
    211. F
    212. M
    213. A
    214. M
    215. J
    216. J
    217. A
    218. S
    219. O
    220. N
    221. D
    222. 2009
    223. J
    224. F
    225. M
    226. A
    227. M
    228. J
    229. J
    230. A
    231. S
    232. O
    233. N
    234. D
    235. 2008
    236. J
    237. F
    238. M
    239. A
    240. M
    241. J
    242. J
    243. A
    244. S
    245. O
    246. N
    247. D
    248. 2007
    249. J
    250. F
    251. M
    252. A
    253. M
    254. J
    255. J
    256. A
    257. S
    258. O
    259. N
    260. D
    261. 2006
    262. J
    263. F
    264. M
    265. A
    266. M
    267. J
    268. J
    269. A
    270. S
    271. O
    272. N
    273. D