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Nenhum dos dois candidatos em presença é um liberal no sentido político do termo. Nenhum defende uma sociedade estruturalmente mais livre, mais moderna ou mais pujante do ponto de vista económico.
Ambos perfilham modelos marcadamente assistencialistas, justicialistas e, em diferentes graus, populistas. Divergem no discurso, no estilo e no folclore; convergem no essencial: na crença de que é o Estado que resolve os problemas das pessoas e de que esses problemas se resolvem, sobretudo, atirando dinheiro para cima deles.
Chamar “socialista” a Ventura, como fiz deliberadamente no título, não é rigoroso em termos clássicos de ciência política. É uma provocação. Mas não é uma provocação absurda, e importa explicar porquê.
A Argentina oferece um paralelo útil. Durante grande parte do último século foi governada por peronistas. Houve peronistas de esquerda, como Cristina Kirchner, e peronistas de direita, como Carlos Menem. Apesar das diferenças ideológicas nos costumes e nos valores sociais, ambos partilharam traços estruturais: populismo, desconfiança do liberalismo, estatismo económico e a convicção de que o Estado é o instrumento central de redistribuição e tutela social.
As diferenças residiam mais no folclore e na moral pública do que no modelo económico. O peronismo de direita é mais conservador nos costumes; o de esquerda, mais progressista. Transpondo este quadro para o contexto português, António José Seguro encaixa quase na perfeição no arquétipo de um peronista de esquerda, enquanto Ventura se aproxima bastante do modelo de um peronista de direita.
Para quem considere exagerado atribuir a Ventura uma veia “socialista”, os factos ajudam. No último Orçamento do Estado, PS e Chega votaram juntos 82 vezes em alterações orçamentais. Sempre que a solução passava por “dar coisas”, aumentar despesa ou socializar custos, PS e Chega encontraram-se.
Se a questão for um pequeno ajustamento nas propinas, ainda que simbólico, aproximando-as do seu custo real e responsabilizando os estudantes, PS e Chega unem-se para impedir.
Se a escolha for entre o pagamento de uma portagem pelo utilizador ou a sua diluição pelo contribuinte, PS e Chega convergem na promoção da ilusão da gratuitidade.
Se a TAP escapar ao controlo do Estado, ambos chorarão o desaire.
O estatismo de Ventura é, aliás, tão pronunciado que durante a vaga inflacionista causada pela guerra na Ucrânia defendeu preços tabelados e margens controladas — uma proposta que nem a própria Mariana Mortágua chegou a avançar.
Mas a convergência não se esgota no que defendem; manifesta-se também no que não têm coragem de defender. Nenhum dos dois foi capaz de apoiar claramente o pacote laboral, mesmo quando este se apresentava como tímido e moderado. Nenhum teve a coragem política de se demarcar da greve geral, preferindo acenar à rua, aos sindicatos e ao descontentamento organizado, em vez de assumir uma posição responsável, ainda que impopular. Ambos revelam a mesma aversão ao conflito reformista e a mesma dependência do aplauso imediato.
Tudo isto conduz a uma conclusão desconfortável para muitos dos seus apoiantes: ao nível do modelo económico, as diferenças entre Ventura e Seguro são reduzidas. Ambos defendem soluções assistencialistas incapazes de gerar crescimento sustentado e criação de riqueza a longo prazo. Nenhum parece disposto a promover as reformas estruturais, quase sempre dolorosas, de que o país necessita. Mantendo a terminologia provocatória do título: ambos são socialistas.
A questão relevante passa então a ser outra. Até que ponto me incomoda ter um socialista em Belém? E, sendo essa uma inevitabilidade, como escolher entre os dois?
A verdade é que isso, por si só, não me incomoda particularmente. O Presidente da República não governa nem legisla. A sua função é moderar, arbitrar e garantir o regular funcionamento das instituições. Idealmente, teria uma visão económica mais moderna e estaria disponível para apoiar reformas necessárias, ainda que impopulares. Mas isso é desejável, não essencial.
O essencial é outro: entre estes dois socialistas, qual está mais talhado para a função moderadora?
Qual deles, suficientemente afastado do seu partido de origem, será capaz de assumir o papel de árbitro isento?
E qual corre maior risco de confundir cargos e funções, inclinando o terreno do jogo a favor do seu campo político, fragilizando a lógica de "checks and balances" que sustenta a função presidencial?
Para mim, a resposta é absolutamente evidente.
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