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Vacas frias

por henrique pereira dos santos, em 07.02.23

A crónica de Ana Sá Lopes tem andado nas bocas do mundo desde Domingo, porque uns apontam para ela e fazem notar como a realidade nos faz mudar de ideias quando nos afecta directamente, outros porque dizem que Ana Sá Lopes não diz nada, não fundamenta e desatam a dar exemplos de gestão privada com problemas, para concluir que não existem problemas na gestão do Estado (ou, se existem, não deveriam existir).

O facto é que o Tribunal de Contas já tinha dito o que diz Ana Sá Lopes, em 2021 mas, aparentemente, isso não afecta a discussão política, aliás, a única pergunta que tinha interesse ser feita a Ana Sá Lopes era sobre as razões que a levaram a não dar crédito à avaliação do tribunal de contas.

Note-se como em 2020 a Esquerda.net afirmava a pés juntos que o fim da PPP de Braga beneficiava os utentes. Com base em alguma avaliação objectiva? Não, claro que não, com base em declarações da administração que entrou com o fim da PPP.

O que nos devia inquietar era uma pergunta simples: o que nos leva, em especial aos jornalistas, a aceitar as parvoíces que diz o BE sem qualquer base factual e a desvalorizar relatórios crediveis com informação objectiva?

Por causa do meu post sobre os imigrantes, alguém afirmava "Em Odemira, as explorações agrícolas que produzem simultaneamente mirtilos, framboesas e amoras são sustentáveis do ponto de vista humano. As que que só produzem mirtilos (uma colheita por ano) deviam ser proibidas.". Perguntado por que razão deveriam ser proibidos, a resposta é clara: "Não garantem trabalho durante todo ano, quem aceita trabalhar na colheita dos mirtilos são sempre os mais desesperados.".

O que para mim é extraordinário é que aqui chegados, seja tão difícil fazer a pergunta seguinte: e se forem proibidas, esses desesperados ficam em melhor ou em pior situação?

Ou, usando o comentário do post sobre imigrantes, uma das mulheres da Mouraria, quando perguntada se ia voltar para a sua terra de origem, responde com uma simplicidade desarmante: não, lá é muito mau para as mulheres.

O problema é bem caracterizado por Fabrice Luchini "gostava muito de ser de esquerda, mas faltam-me as qualidade humanas necessárias para isso".

A mim também me falta a capacidade para aceitar que uma das maneiras de deixar de ver desesperados é proibir as actividades que atraem os desesperados, isto é, as actividades que, sendo más, podem ser bem melhores que aquelas que eles conhecem, afundando-os num desespero que, por ser longe da vista, é longe do coração.

 



5 comentários

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De Anónimo a 08.02.2023 às 08:38

Muito bem observado e escrito. Opinião pessoal, naturalmente, discutível certamente, mas a respeitar.
António Cabral 
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De entulho a 08.02.2023 às 08:58

o mal não está nos políticos, mas nas suas políticas.
o kamarada kosta criou a bosta marxista e folclórica a que chamam geringonça e com ele nunca sairemos dela, apesar de 'a poia do' pela kumunicação dos avençados
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De Terry Malloy a 08.02.2023 às 14:38


"A única pergunta que tinha interesse ser feita a Ana Sá Lopes era sobre as razões que a levaram a não dar crédito à avaliação do tribunal de contas."



É exactamente isso, mas ainda mais.


A única pergunta que tinha interesse ser feita a Ana Sá Lopes era porque é que nunca viu, nem percebeu, o que agora (que lhe toca a ela) viu e percebeu.


Desinteresse (pelo que acontecia a outros, enquanto acontecesse apenas a outros)?


Défice de entendimento (o que o curou, então)?


Ignorância (com que legitimidade, então, escrever sobre o tema)?


Ou aquele tipo de activismo ideológico que nos permite conviver bem com pilhas de mortos por défice de organização do SNS, adiamento de consultas, tempos de espera infinitos, incúria, más práticas, falta de meios, desresponsabilização?


Conquanto os mortos sejam outros, e não aparentados até ao 3º grau...
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De jo a 09.02.2023 às 19:01

Proibir atividades que só aceitam desesperados parece-me mal. Já não será má ideia forçar estas herdades a cumprirem as leis nacionais no que se refere a horário de trabalho, pagamento e instalações para os trabalhadores.
Ter autênticos campos de escravos com a desculpa que na terra deles é pior parece-me muito hipócrita. E fingir que não existe uma verdadeira máfia que vive à custa destes trabalhadores, desde que essa máfia não incomode as "pessoas de bem" é execrável.
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De henrique pereira dos santos a 10.02.2023 às 06:53

Não percebi o seu comentário. As autoridades para a fiscalização das condições de trabalho passam a vida a fazer inspecções (mesmo que sejam menos que as que deveria haver) e chegam quase sistematicamente à conclusão de que a legislação está a ser cumprida, portanto talvez seja boa ideia ir chamar hipócrita a outro.

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