Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



30%

por henrique pereira dos santos, em 21.09.18

Raramente me entretenho com cenários do futuro, mesmo sendo eu uma pessoa do planeamento e do ordenamento do território, que entendo como disciplinas que visam manter abertas, o mais possível, as possibilidades do futuro, ao contrário da esmagadora maioria dos meus colegas, que querem, em cada plano, reduzir as possibilidades do futuro.

Dei por mim a ler este artigo de Passos Coelho, e a pensar que as notícias sobre a sua morte política me parecem manifestamente exageradas.

A coisa parece-me clara: Passos Coelho deu o tiro de partida das próximas presidenciais, em que tenciona afrontar Marcelo, sabendo que 30% é um resultado que lhe abre as portas para a eleição seguinte.

Passos sabe que são muito poucos os políticos que uma boa parte do eleitorado (no seu caso, entre 40 e 50%) caracteriza espontaneamente como "uma pessoa decente" e sabe que isso o distingue, manifestamente, de Costa e Marcelo.

30% contra a expectativa de um resultado esmagador de Marcelo é uma boa rampa de lançamento para a eleição seguinte.

Mas sabe também que, com um bocado de audácia, de sorte e de desgaste de Marcelo (e a história de Marques Vidal em cima da história de Pedrógão tem um efeito corrosivo que não vale a pena tentar esconder), pode chegar aos 35%, que somam aos 15% das carinhas larocas do BE e PC, mais 2% de candidatos desalinhados, o que faria Marcelo sofrer a humilhação de ir a uma segunda volta, mesmo que a ganhasse, como é de esperar, folgadamente.

Como de costume as elites desvalorizam esta gente sem pedigree, como fizeram com Cavaco.

Mas os resultados dessa cegueira, no caso de Cavaco, falam por si.

E Passos sabe disso.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Já aqui há dias, Vera Barros Gouveia, lúcida e sensatamente como é seu costume, explicava: "Quando se fala em tabelar o preço de venda e de arrendamento das casas está-se, imagino eu, a pensar em impor um limite que seja inferior ao preço normalmente praticado (para ser mais alto não valia a pena). Ora, isso significa que a quantidade que era oferecida acima desse tecto desaparece do mercado, até porque os imóveis não são bens que pereçam facilmente, logo é fácil guardá-los para vender em altura mais favorável".

O mesmo artigo, aliás, cita uma observação judiciosa de Fernanda Câncio: "ao deliberarem intervir no mercado do arrendamento no sentido de o tornar cada vez mais penalizador para os proprietários estão a certificar que cada vez menos gente – mesmo no BE, ahah – queira investir nele ou nele permanecer".

João Pires da Cruz também lembra que o chão não produz (no sentido económico do termo), o que produz é o trabalho que se faz nesse chão: "na realidade, o espaço não vale absolutamente nada tirando aquilo para o qual as pessoas o usam".

Claro que há sempre umas pessoas que acham que "aqueles que andam a provocar preços especulativos paguem um imposto superior àqueles que não o fazem" porque, provavelmente, acham que os preços do espaço sobem por vontade dos vendedores e da sua ambição em ficar ricos depressa.

Ora o que me interessa é que escusam de testar nos centros urbanos o que é facilmente demonstrável no mundo rural.

Um amigo meu, respondendo ao argumento frequente de que os fogos se justificam com os negócios da madeira queimada, argumentando que os madeireiros ganham muito em comprar a madeira mais barata, depois de um fogo, lembrava, bem, que compram a madeira mais barata pelo simples facto de valer menos, tal como uma casa que ardeu tem um preço mais baixo que uma casa intacta porque o fogo a fez perder valor.

O que está a acontecer há muitos anos, no mundo rural, é que o valor económicos das terras marginais (que existia enquanto o mato tinha valor, fosse para aquecimento, para estrume ou para pastoreio) tem vindo a baixar na medida em que os usos que poderiam ser feitos nessas terras deixam de ser usos competitivos (o pastoreio não paga assim tanto, a madeira de pinho tem perdido valor relativo à medida que o preço dos factores de produção sobem, o que é agravado pelo risco de fogo, a resina esteve pelas ruas da amargura e ainda não é uma actividade assim tão interessante, os produtores de eucalipto queixam-se do preço pago pela indústria, e a indústria argumenta com o preço do mercado internacional de matéria prima, etc.).

Mas, como lembra Vera Barros Gouveia, os terrenos não bens que pereçam facilmente, e portanto podem ser guardados para melhores dias, já que agora não há quem os queira comprar a preços que interessem aos seus proprietários porque o que lá se pode fazer não paga preços mais interessantes.

Como lembra Fernanda Câncio, as medidas que penalizam os proprietários apenas asseguram que cada vez menos gente queira investir ou permanecer neste mercado.

Ou seja, o chão deixa de ter valor, como diz João Pires da Cruz mas, estranhamente, os especuladores capazes de produzir preços especulativos capazes de os tornar instantaneamente milionários, não aparecem e preferem actuar em mercados muito mais arrsicados e povoados de gente, como o do imobiliários dos centros históricos de Lisboa e Porto.

O resultado final é que sem valor económico o destino do chão é o abandono.

Já foi assim nos centros históricos de Lisboa e Porto, tendo como consequência o despovoamento e a ruína dominantes não há muitos anos, com gente pobre mas muito típica, que não tinha recursos para procurar casas com condições mínimas de habitalidade e, por isso, continuava ali, no meio das ruínas, porque era aquilo que o seu rendimento permitia pagar para estar perto do seu trabalho.

É assim em grande parte do mundo rural, com a diferença de que não havendo pessoas não há actividade económica, não havendo actividade económica não há trabalho e as pessoas foram-se embora, deixando os terrenos sem gestão.

O mais extraordinário é que enquanto a discussão nos centros urbanos é uma discussão económica entre os que acham que os preços são um equilíbrio entre oferta e procura e os que acham que há especuladores que provocam preços especulativos comprando e vendendo rapidamente, a discussão sobre o mundo rural é sobre coimas, obrigações e o mau carácter dos proprietários ou, na melhor das hipóteses, sobre os amanhãs que cantariam se se resolvessem os problemas de propriedade, de associativismo, de capacidade técnica, etc..

Os negócios do fogo, de que muitos falam, são iguais aos negócios do alojamento local: ou há procura, rendimento, investimento, valor económico, e os proprietários ficam felizes por ter na sua mão um património que lhes resolve a vida e paga os estudos dos filhos, ou não há procura, não há rendimento, não há investimento, não há valor económico e é preciso ir tratar da vidinha para outro lado.

Robles especulou em Lisboa (felizmente para ele e para todos nós) mas o BE pode estar descansado: nas actuais circunstâncias, não há o menor risco de ter vereadores ou dirigentes a fazer especulação com terrenos rurais marginais, infelizmente para esses vereadores, dirigentes e para todos nós.

A verdade é que ainda não perdi a esperança de ver a discussão sobre fogos (dos que têm chama) ser feita na mesma base da discussão sobre fogos (dos que têm rendas), isto é, numa base económica minimamente sensata.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Da lagosta e da mais valia

por henrique pereira dos santos, em 11.09.18

Uma das minhas filhas, quando estava a acabar o curso, andava à procura de uma organização para fazer um voluntariado relacionado com micro-crédito.

Essa minha filha e uns amigos acharam que não havia nenhuma organização suficientemente atractiva e resolveram fundar eles próprios uma organização e desenvolver um projecto na Ilha de Moambique que, nessa altura, era mais que paupérrima e ainda não estava a beneficiar do turismo actual.

A organização cresceu, mas na altura era muito pequenina e duas das minhas filhas bem como dois dos meus sobrinhos estiveram nos programas iniciais (na altura eram poucos os candidatos a passar uns meses no fim do mundo a ajudar pessoas a serem menos pobres), o que me fez ficar com uma boa colecção de histórias, porque são todos diferentes uns dos outros (embora todos, ao fim de algum tempo, estivessem fartos de camarão e lagosta e suspirassem por poder ir a um Mc Donalds).

Uma das histórias mais interessantes, porque ilustra muito bem as dificuldades das diferenças culturais associadas à ajuda ao desenvolvimento, era a de um empreendedor que costumava comprar produtos na ilha e ia vender mais longe, no continente, nunca percebendo por que razão o negócio não prosperava. Foi a equipa do projecto que finalmente descobriu o problema: ele vendia os produtos exactamente pelo preço que os comprava, visto que era o valor que achava justo.

Lembrei-me desta história quando ouvi hoje um político que, seguramente, teria o voto deste homem, se votasse em Portugal: "uma coisa é comprarmos e mantermos durante ‘x’ tempo e outra coisa é andarmos a comprar e a vender todos os dias só para gerar uma mais-valia meramente artificial".

O problema é ter a sensação de que há muito mais gente do que eu gostaria que olha para a mais-valia da mesma maneira.

Serão muito menos os que, coerentemente, chegam ao corolário desta visão sobre a mais valia: "propriedade é roubo".

Mas todos juntos ajudam a explicar por que razão temos tanta dificuldade em sermos um país um bocadinho mais rico.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Objectivos e medidas

por henrique pereira dos santos, em 10.09.18

Joaquim Miranda Sarmento tem hoje um bom artigo no ECO, sobre um assunto que me interessa: mobilidade sustentável (na verdade o artigo não é sobre isso, mas há uma ligação estreita entre o artigo e esse assunto).

O que me interessa realçar é a distinção entre os méritos de um objectivo e os méritos das medidas para o atingir.

No caso concreto das medidas sobre os transportes públicos de Lisboa, não basta que haja vantagem em ter os preços mais baixos possível para concorrer com outros meios de transporte que têm externalidades negativas maiores, o que interessa é saber a resposta a esta pergunta fundamental: "Seria preferivel usar os 65M€ que dizem que a medida custa na melhoria da oferta e ou na redução do preço?"

O mesmo tipo de questões se põe, por exemplo, para a avaliação da proposta do BE que consiste em criar uma taxa sobre transacões imobiliárias de curto prazo, supostamente para combater a especulação e os altos preços das casas em Lisboa e Porto. Por mim, não vejo grande problema na especulação, mas percebo as dificuldades que preços definidos a partir do mercado internacional possam criar a quem tem rendimentos baixos, como os portugueses. O que não entendo é como quer o BE fazer baixar preços de casas aumentando os custos de transação e diminuindo a oferta.

Também eu, a propósito, por exemplo, dos sapadores florestais, tenho insistido que a sociedade poderia obter muito melhores resultados com o mesmo dinheiro se em vez de subsidiar equipas de sapadores, apoiasse as fileiras económicas que podem fazer a gestão de combustíveis. Isso não é ser contra os sapadores ou desconsiderar o seu trabalho, é apenas chamar a atenção para a definição de objectivos associados às equipas de sapadores: se existem para apoiar a gestão florestal, isso é uma coisa e nesse caso os sapadores deveriam estar todos afectos aos produtores florestais e às suas organizações. Se o objectivo é a gestão do fogo, então há maneiras muito mais baratas para obter resultados muito melhores.

Em todos estes casos, e muitos outros, ser contra medidas concretas não significa ser contra os objectivos pretendidos por quem defende essas medidas concretas, muitas vezes significa apenas que se entende que as medidas propostas são erradas para os objectivos pretendidos ou que há medidas mais eficientes para obter os mesmos resultados.

O estranho disto é a dificuldade de, com frequência, separarmos os objectivos das medidas, discutir primeiro os objectivos pretendidos e, uma vez fechada essa discussão, discutir as medidas concretas para chegar a esse objectivo, havendo uma radicalização imediata: quem é contra as medidas é contra o objectivo (e isso explica-se porque se tem interesses inconfessáveis) e, rapidamente, passa-se para a desqualificação de quem se limita a pensar coisas diferentes.

Que façamos isto num blog, em redes sociais, na tasca, não é grave, é da natureza das coisas, mas que na imprensa seja em grande parte assim que se estruturam as discussões sobre medidas de política, isso sim, já é mau jornalismo: não me lembro de ouvir um único jornalista perguntar a Catarina Martins como quer diminuir preços reduzindo a oferta.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Transportes e concessões

por henrique pereira dos santos, em 06.09.18

A recente proposta de Medina não nasceu recentemente e por isso talvez valha a pena olhar para a sua genealogia.

Até à chegada da troica Portugal tinha um problema seriíssimo com as suas empresas públicas de transportes, com um serviço medíocre, prejuízos operacionais imensos, dívidas colossais, mantidas artificialmente fora do perímetro de consolidação do défice do Estado e um peso dos sindicatos que simplesmente mantinham as gestões reféns da agenda política do PC.

Durante o governo de coligação troica/ Passos Coelho, esta situação foi muito alterada: o serviço continou no mesmo patamar de mediocridade, aqui e ali diminuiu o serviço prestado mas sem por em causa o essencial do serviço publico, foi atingido o equilíbrio operacional e começou-se a resolver o enorme problema da dívida, primeiro estancando o seu crescimento, depois, mais lentamente do que eu gostaria, foi-se começando a diminuir a dívida e a capitalizar as empresas.

Isto foi possível porque foram cortados rendimentos aos trabalhadores destas empresas, para além das melhorias de eficiência, nomeadamente com o fecho de serviços ruinosos.

Para além disto, o tal governo de coligação, fez a concessão dos serviços de transportes públicos de Lisboa e Porto, através de concursos internacionais, o que o PC e os sindicatos entenderam, aliás bem, como um golpe fortíssimo na sua capacidade para influenciar as políticas do país e manter a sua influência social através da manipulação política das greves no sector dos transportes, o último grande reduto (a par do ensino, mas neste caso com menos impacto social) da actividade sindical controlada pelo PC.

A então oposição e actual governo, estrebucharam o que puderam e prometeram, cumprindo, reverter a concessão dos transportes, que acusavam de estar mal feita, não garantir a melhoria do serviço prestado e essas coisas do costume. Davam até como exemplo a Fertagus, uma concessão caríssima, segundo dizem, ao contrário do que está expresso na avaliação dessa concessão. E em relação ao Metro do Porto conseguiram convencer (olá jornalistas preguiçosos) uma boa parte da opinião pública de que se estava a fazer uma concessão que alterava alguma coisa, como se o Metro do Porto não tivesse sido, desde o primeiro momento, uma concessão.

Para fazer esta reversão, o Estado central assumiu a dívida da Carris (o que é razoavelmente pacífico) e, num processo nebuloso (ao contrário dos processos transparentes de concessão a que a Câmara Municipal poderia ter concorrido se quisesse), entregou a gestão da Carris à Câmara de Lisboa, que prometeu revolucionar o serviço prestado, melhorando-o substancialmente, sem custos para os contribuintes de todo o país e assentando nos recursos próprios da Câmara Municipal.

O resultado é, até agora, deprimente.

O serviço tem estado numa degradação rápida, o Governo central, de forma muito pouco transparente, tem estado a financiar o investimento, nomeadamente em novos autocarros, através do Fundo de Carbono (e, com isso, ficando sem dinheiro para pagar os serviços de ecossistema que nos poderiam fazer ganhar controlo sobre o fogo e aumentar a riqueza criada nos territórios marginais do país) mas, como era de esperar, o dinheiro continua a ser curto para a operação, tanto mais que foram tomadas um conjunto de medidas demagógicas que aumentam o custo operacional, sem tradução em aumento de receita.

A proposta agora feita por Medina é simplesmente a forma engenhosa (em bom português, uma esperteza saloia) para voltar a ter o Estado central, quer dizer, os contribuintes de todo o país, a subsidiar a operação da Carris, através de uma medida de suposto interesse social e reforço do transporte público, como é a subsidiação dos passes sociais.

É isto que está em causa, é fechar o ciclo da reversão das concessões com a subsidiação da operação da Carris por parte de todos os contribuintes, o resto é fogo de artifício.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A ética do dinheiro público

por henrique pereira dos santos, em 04.09.18

Saltemos por cima da velha citação de Thatcher (there is no such thing as public moneythere is only taxpayers' money) e concentremo-nos na discussão sobre a proposta de pôr os impostos de todos a financiar a mobilidade das regiões mais ricas do país.

Este governo (tal como os anteriores, de resto) está longe de demonstrar grande preocupação com a coesão territorial quando chega à decisão pura e dura de afectação dos dinheiros públicos, como se pode ver nas suas decisões de pôr o Fundo de Coesão a financiar os transportes públicos de Lisboa e Porto, ou de afectação das verbas para o mundo rural, ou ainda na afectação do Fundo Ambiental.

Este governo, onde vai mais longe, é mesmo em decisões extraordinárias como a de pôr o dinheiro do Fundo Ambiental a financiar festivais de música, nisso temos de reconhecer alguma originalidade.

Já aqui me diverti ao ver a esquerda a defender que quem paga mais impostos (tipicamente os que mais têm ou mais ganham) tem direito a uma parte desses impostos, por exemplo, na subsidiação dos passes para os transportes públicos.

Ainda assim, achei que valia a pena fazer um ou dois comentários.

1) O facto de se ser contra o financiamento dos transportes públicos das regiões mais ricas com os impostos de todos não significa que se seja contra o financiamento público de transportes públicos, significa apenas que se discorda da opção de financiar a mobilidade das regiões mais ricas com os impostos das regiões mais pobres;

2) A Câmara de Lisboa tem muitas alternativas para financiar as suas propostas, começando pelo aumento de IMI sugerido, por exemplo, por Paulo Ferreira, até ao aumento do preço do estacionamento em espaço público, passando pela famosa taxa turística (ou será que acabar o Palácio da Ajuda, quando existe tanto património edificado sem função adequada, é assim uma prioridade tão grande?) e muitas outras possibilidades (uma das que mais me agradam é acabar com o financiamento de festas e festarolas em que os impostos de todos servem para o povo poder asssistir à borla a um espectáculo da Rosita, aplicando o dinheiro poupado em transportes públicos). Estranho seria se as regiões mais ricas não tivessem capacidade para gerar os recursos de que necessitam para ter uma mobilidade sustentável.

Aparentemente há alguma falta de consciência de que os impostos de todos incluem os impostos dos que menos têm, mesmo dos mais miseráveis e, por mais pequena que seja a percentagem do dinheiro dos mais pobres no conjunto, a verdade é que é imoral usar esse dinheiro para beneficiar quem vive muito melhor.

Claro que há muitas coisas em que procurar levar este preceito moral às últimas consequências pode conduzir a soluções menos eficientes para todos.

Por exemplo, no caso concreto dos transportes públicos, seria eticamente preferível que o custo para os utilizadores fosse o que resulta dos custos reais de prestação do serviço, financiando-se directamente os que não pudessem pagar esse preço justo dos transportes, mas isso pode conduzir a soluções de verificação de rendimentos tão complexas que os benefícios se percam pelo caminho.

Porque as contas nem sempre são fáceis, estas são matérias raramente consensuais, mas ao menos o princípio geral de não usar dinheiros públicos como forma de transferir riqueza dos mais pobres (sejam indivíduos, sejam regiões) para os mais ricos, deveria estar perfeitamente claro e adquirido.

A julgar pelas propostas em cima da mesa, infelizmente nem esse princípio é consensual e as regiões mais ricas, à boleia da sua maior capacidade eleitoral, continuam a concentrar os recursos de todo o país na resolução dos seus problemas, sempre com justificações excelentes de benefício para todos, claro, como a descarbonificação da economia.

É pena é que essas justificações, por mais diversas e bondosas que sejam, resultem sempre no mesmo: a concentração de riqueza nas regiões mais ricas e o abandono do resto do país que, como sabemos, é só paisagem.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Por falar nisso

por henrique pereira dos santos, em 03.09.18

Vinha só lembrar que o argumento de que não há problema nenhum em os impostos dos pescadores de Rabo de Peixe e os pastores da Serra da Estrela pagarem os transportes da imensa maioria de lisboetas e tripeiros porque são estes últimos que pagam a maioria dos impostos é um argumento muito perigoso num país em que 9% dos contribuintes pagam 70% do IRS (dos quais os 1% de rendimentos mais altos pagam 28% de todo o IRS).

Autoria e outros dados (tags, etc)

As elites e o pensamento mágico

por henrique pereira dos santos, em 30.08.18

Tinha ouvido um Vice-Presidente da Comissão Europeia a dizer que “one of the reasons that wildfires have such a devastating effect, this is a lot to do with the eucalyptus plants”.

Tinha lido uma ex Vice-Reitora da universidade de Coimbra e ex Presidente da Unidade de Missão para o interior falar dos chorudos subsídios públicos que motivaram a expansão do eucalipto (também a propósito de fogos).

Noutra altura já tinha ouvido o Presidente da República a falar da responsabilidade do eucalipto no padrão de fogo que temos.

O actual governo, não só pelos fogos, mas muito assente nisso, tem uma agenda de limitação da plantação de eucaliptos forçada pelo seu compagnon de route, Bloco de Esquerda.

E poderia citar um larguíssimo número de pessoas, inegavelmente pertencendo às elites do país e da União Europeia, divulgam e promovem mitos como o da ligação forte entre eucalipto e fogos que, na essência, são semelhantes aos mitos do carácter cancerígeno do glifosato, da ligação entre vacinas e autismo e várias dessas teorias new age em que o conhecimento científico e o pensamento mágico se equivalem.

E foi nessa altura que choquei com dois comentários irritados em que Nuno Gracinhas Guiomar respondia a um amigo que vinha com a conversa do costume sobre os interesses que justificariam estar a negar-se o que o amigo considerava uma evidência, como era o caso da ligação entre eucaliptos e fogos.

Com a autorização do autor, e ligeiras adaptações, aqui fica uma das melhores sínteses do que é o consenso científico sobre o tema, largamente esmagador, mas que uma boa parte das elites que decidem teimam em negar.

"Choca-me a leveza como atiras rótulos de incompetência ou de ausência de idoneidade a pessoas que lidam diariamente com estes temas há décadas. … o que me interessa é o conhecimento e independência do José Miguel Cardoso Pereira, do Paulo Fernandes, e de outros reputados investigadores reconhecidos internacionalmente, e com os quais já tive o prazer de trabalhar.

Nunca nenhum dos investigadores portugueses algum dia escreveu que o eucalipto não é parte do problema … . Mas daí a centrar o discurso da resolução dos incêndios no eucalipto é um erro tremendo. Cerca de ~75% da área ardida anualmente é explicada por incêndios superiores a 100ha, que correspondem a menos de 5% do total de incêndios (em média ocorrem cerca de 11000 incêndios em Portugal continental com mais de 0,1ha).

Se procurasses uma relação entre a área ardida anualmente e o número de incêndio por classe de dimensão, o melhor ajuste que conseguirias era com incêndios superiores a 1000ha, uma curva exponencial com R2 de ~76%.

Uma série de investigadores analisaram as áreas ardidas em função da ocupação do solo em Portugal (conheço seis estudos publicados em revistas importantes feitos por diferentes equipas, e utilizando diferentes abordagens e bases de dados, e eu participei num dos mais recentes). Nos estudos de susceptibilidade (selectividade ou preferência do fogo por tipos de ocupação do solo ou tipos de ocupação florestal), os matos destacaram-se das restantes classes de ocupação do solo, os carvalhos ardem mais em função da sua disponibilidade, os pinheiros e eucaliptos são moderadamente "seleccionados" pelo fogo, e o sobreiro e a azinheira são menos "seleccionados".

No entanto quando se estratifica a amostra por classes de dimensão de incêndio, esta selectividade "desaparece", ou seja, em situações de elevada perigosidade meteorológica (e se os combustíveis estiverem disponíveis - idade, humidade dos combustíveis finos...) arde tudo até que as condições permitam novamente o sucesso das acções de supressão.

No estudo que efectuámos (de 2016), em que nos centrámos na análise de 609 incêndios superiores a 100ha, a composição florestal não explica a variabilidade da amostra, mas sim a continuidade da área florestal, independentemente da espécie.

Noutro estudo que fizemos (de 2014), verificámos alteração do regime de fogo nas áreas sujeitas ao regime florestal nos anos 70 (temos dados para estas áreas desde a década de 1940), em que passámos de um regime de fogo controlado pela disponibilidade de combustível, para um regime de fogo dirigido pela meteorologia. Nestas áreas (baldios, perímetros florestais e matas nacionais) o problema do eucalipto não se põe, a florestação destas áreas foi essencialmente com pinheiro bravo. O que todos estes estudos nos dizem é que temos um problema geral de acumulação de combustíveis, e que essa continuidade vertical e horizontal dos combustíveis resulta do abandono do território, da ausência de gestão dos espaços florestais.

O aumento da área de eucalipto contribuiu para o problema, nenhum destes estudos contraria isso, e referir os factos tal como eles são não pode transformar-se numa luta de que há uns a favor e outros contra, isso é absurdo … .

Hostilizar a espécie antes de se encontrar um caminho viável para a sua substituição, assim como criminalizar o uso do fogo, são dois caminhos perigosos que, de acordo com o conhecimento formalizado, poderão agravar ainda mais o problema que temos, pois a estes processos sucede-se por norma o abandono.

Os dados que temos permitem-me ainda dizer que uma parte considerável da minimização do problema pode estar mais nas políticas agrícolas do que nas políticas florestais.

Sobre "onde começam os fogos" (157068 incêndios devem constituir uma amostra estatisticamente significativa, certo?): apenas 5% destes incêndios iniciaram em eucaliptais, e os incêndios aqui iniciados correspondem a 6% da área ardida gerada por todos os incêndios analisados. 50% dos incêndios iniciam-se nas áreas peri-urbanas, e 26% iniciam-se em áreas agrícolas.

Centrar nas causas ou no número de incêndios também não nos leva a grande coisa, e desvia-nos do essencial que é o da necessidade de gerir a acumulação de combustíveis.

E não nos leva a nada porque cerca de 50% dos incêndios concentram-se em pouco mais de 10% do território, e porque os grandes incêndios ocorrem aleatoriamente no espaço, embora nas áreas onde a recorrência do fogo é maior, haja menor probabilidade de ocorrência de grandes fogos.

As motivações para as ignições são muitas, e embora eu concorde com a necessidade de se encetarem esforços na sua diminuição, é difícil que tal se traduza na diminuição efectiva da área ardida. Se os esforços se concentrarem nos dias críticos (configurações sinópticas que favorecem a propagação do fogo acima da capacidade de extinção) talvez se consigam alguns resultados, mas só é possível concluir alguma coisa se o sistema se mantiver durante alguns anos de modo a atenuar o efeito imediato de um ano catastrófico.

O gráfico que partilhei é após 1980 porque a robustez dos dados permite que o façamos a partir daí à escala nacional (mas também porque é o período de maior crescimento da área de eucalipto). … E esse gráfico não defende, apenas demonstra que não há uma relação causa-efeito, no que se refere ao fogo (é o que eu estudo, não estudo outros efeitos).

E quem te disse a ti que não havia incêndios antes?

Tivemos de facto um período de tréguas que correspondeu à primeira metade do século XX [nota minha: neste ponto em concreto, que é um ponto em que há pouca informação directamente verificável, eu tendo a não subscrever esta tese, preferindo dizer que nessa época há uma alteração do padrão do fogo que o torna socialmente menos visível, mas trata-se de uma divergência de pormenor], mas antes disso não faltava fogo no país (tenho muitas páginas escritas depois de muitas horas de leituras de corografias e documentos técnicos do século XIX para contextualizar o fogo antes desse período de menor piro-actividade), e provavelmente havia ainda mais do que hoje (os relatos do final do século XIX apontam para incêndios nos montados e charnecas do Alentejo que duravam semanas), mas sem as consequências que a actual dispersão de edificado e pessoas traz.

Esse período de tréguas coincidiu com o auge da agricultura, ainda assim sistematizavam-se os dados de fogos (desde 1943) nas áreas sujeitas ao regime florestal. Esses anos foram o suficiente para apagar a memória colectiva do fogo em Portugal (distribuição, causas, combate). A década de 1960 é uma década de alteração, o vale do Zêzere era especialmente afectado todos os anos, mas é no Algarve que sucede um dos maiores incêndios do século XX, em Monchique, em 1966.

Nesta década registam-se vítimas mortais quase todos os anos, em diferentes pontos do país, sendo de destacar os 25 militares que morreram no fogo da Serra de Sintra em 1966.

Mas já em 1961 havia ocorrido um fogo catastrófico, conhecido como o incêndio de Vale do Rio.

Também tenho algumas páginas escritas sobre este período, aqui nos meus apontamentos, depois de ter massacrado os neurónios a tentar perceber como tinha evoluído o fogo antes de se terem iniciado os registos das ocorrências e da área ardida. O facto de não existirem dados sistematizados não quer dizer que não existia fogo.

Hoje é tudo muito mais fácil, com as imagens de satélite (ainda assim, no que respeita a áreas ardidas conseguimos recuar até 1975). Os registos de ocorrências nacionais começaram em 1978, mas nas áreas sujeitas ao regime florestal em 1943.

Tudo isto está publicado … . Podes ler os artigos e questionar os métodos, se as conclusões são suportadas pelos resultados, se a hipótese foi colocada correctamente.

Dispenso … o fomento de teorias da conspiração. … podias ter-te questionado sobre a razão pela qual os fogos se estenderam por extensões impressionantes no Caldeirão. Podias ter-te questionado porque razão é que o 2º pior ano de sempre (só superado por 2017) tem grande parte do Distrito de Portalegre como área de calamidade.

Por fim, uma pequena informação, a aceleração do fogo de Monchique coincide com a chegada da frente de incêndio aos estevais e montados da parte Este da Serra."

Autoria e outros dados (tags, etc)

Dos interesses

por henrique pereira dos santos, em 26.08.18

Um destes dias tive uma discussão civilizada e cordata sobre o corporativsmo dos jornalistas, com um jornalista, e a páginas tantas usei este artigo para ilustrar as minhas teses sobre jornalistas que torcem as coisas até que a peça diga o que querem, mas sem que possam ser acusados de mentir directamente.

Perante os dados verificáveis, que contrariam a tese a que o jornalista quer dar força, opta-se por ouvir duas pessoas.

Uma das pessoas, Paulo Fernandes, é um investigador reconhecido internacionalmente pelo trabalho científico na área a que diz respeito o artigo e que contraria a tese a que o jornalista tem afeição.

Outra das pessoas, João Camargo, é um dirigente político que nunca escreveu nada de reconhecidamente relevante sobre o assunto em causa (na altura do artigo tinha uns artigos de opinião com muita circulação, mas cujo conteúdo técnico nunca foi avalizado pelos que produzem conhecimento sobre o tema em questão), tendo a grande vantagem de dizer as coisas que o jornalista quer que estejam escritas, sem que seja ele próprio a escrevê-las.

Perante a diferença de credibilidade dos dois testemunhos com estas proveniências sobre o assunto em causa, o jornalista usa um truque comum: o da suspeição sobre os interesses que motivam o testemunho que não lhe interessa para a defesa da sua tese.

O mais interessante disto é que se considere o eventual interesse económico pessoal como uma questão pertinente, mas não o mais que óbvio interesse político pessoal de outro dos intervenientes, não havendo necessidade de adaptar a pergunta feita a Paulo Fernandes, tendo em atenção a condição de dirigente do BE, casado com uma assessora do grupo parlamentar do BE "Esta condição [totalmente omissa na peça em causa] não levanta suspeitas quanto à isenção das suas opiniões?".

Esta duplicidade de critério no tratamento dos interesses pessoais económicos e os interesses igualmente pessoais, mas políticos, está muito longe de ser uma questão portuguesa: "Is it really true that political self-interest is nobler somehow than economic self-interest?" já é uma pergunta com bastantes anos e então feita nos Estados Unidos.

É pena o nosso jornalismo esquecer-se sistematicamente de que interesse próprio temos todos e de que não há nada de estruturalmente diferente entre o interesse económico do sindicalista que exige melhores condições salariais ou interesse pessoal do político que defende qualquer coisa que o possa beneficiar na eleição seguinte.

A diferença que interessa é apenas entre a defesa de interesses próprios de forma legítima e a defesa de interesses próprios de forma ilegítima.

Na peça que usei como exemplo, a grande diferença é entre quem diz umas coisas suportadas em coisa nenhuma para fazer avançar a sua agenda política e quem diz o que sabe a partir de investigação avaliada e avalizada pelos sistema científico.

O resto é a manipulação habitual de muitos jornalistas (que também têm interesses próprios) e com a qual muitos outros, corporativamente, contemporizam, aparentemente sem perceber que estão a minar o único activo que conta na sua profissão: a confiança dos seus leitores.

Autoria e outros dados (tags, etc)

100 euros por hectare

por henrique pereira dos santos, em 23.08.18

Um dia destes encontrei na rua o Senhor Ministro do Ambiente e conversa puxa conversa, falou-me do estudo que estava a ser feito sobre a valorização dos serviços de ecossistema, para poder desenhar uma política de pagamento desses serviços.

Não estou a fazer nenhuma inconfidência sobre conversas privadas visto que o próprio já se referiu ao assunto publicamente, várias vezes.

A conversa foi viva, embora limitada pelo meu atraso para um baptizado em que eu deveria estar, sobretudo porque assentou em várias das minhas divergências em relação às políticas deste governo e deste ministro em particular, incluindo esta forma de lidar com o problema de remunerar a gestão de serviços de ecossistema.

Eu penso que o governo está a lidar com isto da forma mais mainstream: temos de avaliar estes serviços, depois valorizar, depois arranjar um modelo justo para o seu pagamento, depois definir as regras de acesso a esse financiamento, depois abrir uns concursos (ou coisa do género, o modelo projectos piloto também tem muita saída), depois ter um júri muito isento que respeita escrupulosamente um caderno de encargos definido ao pormenor numas coisas e com buracos noutras (é uma inevitabilidade), depois um sistema de fiscalização, etc..

Confesso que gosto de coisas mais simples que vou procurar ilustrar com a gestão de combustíveis que precisamos de fazer para ganhar controlo sobre o fogo.

O Estado hoje assegura o financiamento de 50% de equipas de sapadores, num valor na ordem dos 26 mil euros por ano, e a média de gestão de combustíveis anda nos 40 hectares por equipa. Se fizessem só esta função (que não fazem), isto daria um valor na ordem dos 650 euros por hectare de combustíveis geridos.

Por outro lado, o governo lançou dois concursos, para uso do fogo controlado e de pastoreio na gestão das faixas de gestão de combustíveis da rede primária, em que assegura um pagamento de 100 euros por hectare.

O que proponho é simples: independentemente dos estudos e etc., talvez fosse útil ao governo confiar nas pessoas e pôr o problema ao contrário pagando, em função de resultados verificáveis, os mesmos 100 euros por hectare de gestão de combustíveis.

Para mim é indiferente saber se essa gestão de combustíveis seria feita com cabras, com fogo controlado, por resineiros, por caçadores, por conservacionistas, por produtores de medronho, por centrais de biomassa, por pensamento mágico (a base da maioria das propostas que conheço para gerir o fogo em Portugal) ou outra coisa qualquer, desde que o resultado fosse verificável.

Se se quiser, podem impôr-se restrições, como não aceitar propostas de limpeza de matos com pás frontais, ou retroescavadoras (ou, se se quiser uma formulação mais geral, que impliquem destruição de solo), não aceitar propostas de fileiras que se considere que têm condições para incorporar o custo desta gestão no seu modelo de negócio, como o eucalipto, o olival ou a vinha, enfim, as restrições que se entendessem para assegurar que o dinheiro servia para o que se pretende: remunerar a gestão do serviço de gestão de combustíveis (isto é, de controlo sobre o fogo) que o mercado é incapaz de remunerar.

Ponha-se um limite financeiro, abra-se um sistema de concursos que permita escolher as propostas com maior valor social dentro das que asseguram os objectivos do programa, mas dê-se às pessoas a liberdade de escolher a forma como chegam a esse resultado.

Há muitos anos, Michael Porter e Claas van der Linde escreveram o artigo Green and Competitive, que bem poderia ser usado para definir este tipo de políticas ambientais: regras claras e rígidas para todos e foco nos resultados, deixando as empresas e os indivíduos organizar-se como entenderem para obter os resultados.

Infelizmente continuamos a usar os mesmos modelos germânicos de uma silvicultura estatal e dirigista, de base tecnocrática, que até dão bons resultados quando o Estado é o dono do problema, mas são um desastre quando, como acontece em Portugal, uns fazem as regras mas outros é que lhes sofrem as consequências.

Por isso insisto tanto nesta proposta simples: 100 euros por hectare para garantir uma gestão socialmente útil de combustíveis, o resto vê-se depois, avaliando os resultados e introduzindo alterações que permitam resolver os problemas que necessariamente aparecerão, e potenciando as soluções que eventualmente tenham melhores resultados que o esperado.

Autoria e outros dados (tags, etc)

"Ugly little facts" e "só não vê quem não quer"

por henrique pereira dos santos, em 14.08.18

José Miguel Cardoso Pereira escreveu um texto exemplar, em muitos aspectos, essencialmente procurando sintetizar o que encontraram os que passam a vida à procura de "ugly little facts" sobre fogos e eucaliptos.

As reacções dos que têm certezas que só não vê quem não quer são hilariantes (uma das mais interessantes é a de um neófito no assunto que garante que o artigo não tem pés nem cabeça porque José Miguel Cardoso Pereira só estudou os fogos com mais de 5 hectares, ignorando os outros, o que é inadmissível visto que qualquer grande fogo começa por ser pequeno).

Mas vão ganhar a discussão.

Carlos da Câmara explicou pragmaticamente o problema citando Max Planck "A scientific truth does not triumph by convincing its opponents and making them see the light, but rather because its opponents eventually die and a new generation grows up that is familiar with it."

Quem procura "ugly little facts" faz artigos chatos, cheios de factos, ainda por cima pequenos e feios, desinteressantes na maior parte dos casos e falando da realidade, uma coisa que nos inferniza a vida e só atrasa o avanço do mundo que, como sabemos, só acontece quando um homem sonha.

E, sobretudo, não encontra um culpado rico, bem parecido, influente em quem possamos descarregar a indignação que nos causa a injustiça, a dor e a morte, sem que para evitar qualquer destas coisas tenhamos que mexer uma palha.

Para além disso, torna qualquer discussão muito fácil: se alguém diz que a terra anda à volta do sol, quando só quem não quer é que não vê que o sol é que anda a volta da terra, só pode ser por interesse e, quanto mais difícil for identificar esse interesse, mais se demonstra que esse interesse é inconfessável e digno de censura.

Uma boa demonstração disto é a quantidade de fotografias e comentários sobre a enorme regeneração de eucalipto, por semente, que muitas pessoas que levam anos e anos de trabalho de campo garantem nunca ter visto em anos anteriores, o que as leva a tirar conclusões gerais sobre o carácter inegavelmente invasor do eucalipto.

Que isso seja um fenómeno mais que conhecido de todas as pessoas que estudam a evolução pós fogo e que, mais que isso, a discussão do que significa esse facto desagradável tenha chamado tanto a atenção que Patrícia Tinoco Fernandes fez uma tese de doutoramento sobre isso, confirmando que a esmagadora maioria dessa rebentação de semente não tem qualquer viabilidade futura, é completamente irrelevante face a uma fotografia dramática.

É assim, somos assim, a realidade pesa-nos muito e temos mesmo necessidade de que o pensamento mágico esteja tão presente na nossa vida como o pensamento racional e daí não vem mal ao mundo.

Que as politicas públicas sejam crescentemente influenciadas mais pelo pensamento mágico e menos pelas serenas discussões sobre "little ugly facts" é que é pior porque, tarde ou cedo, vamos pagar com língua de palmo o esquecimento a que votamos a realidade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Dados e fantasias

por henrique pereira dos santos, em 11.08.18

Pedro Venâncio publicou ontem dados concretos sobre o fogo de Monchique, avaliando a severidade do fogo em três classes e cruzando a informação da área ardida com o uso do solo (tendo como base o COS, Carta de Ocupação do Solo, 2015).

Penso que a equipa de José Miguel Cardoso Pereira também produzirá dados do mesmo tipo rapidamente permitindo aferir melhor se há discrepâncias relevantes.

Deixando de lado os outros usos para nos concentrarmos nos três principais usos do território, eucalipto, matos e sobreiro, que no seu conjunto representam mais de 88% da área do concelho, os resultados são consistentes com aquilo que os que produzem dados sabem, contrariando a vox populii.

Como previsível, os matos ardem mais que o esperado, isto é, para uma ocupação do solo de 26,88% do concelho, os matos representam 31,77% da área ardida, os eucaliptos, para uma área de 44,47% de ocupação representam 41% da área ardida e os sobreiros, para uma área de ocupação de 17,36%, representam 15% da área ardida.

Ou seja, os matos ardem mais que o que representam na ocupação do solo, os eucaliptos e sobreiros ardem na proporção da sua presença no terreno.

Quando se olha para a severidade, os dados confirmam o que é verificado noutros fogos e é de esperar a partir do conhecimento que existe sobre a relação entre o fogo e a estrutura dos combustíveis: a severidade é maior nos matos (84% na classe mais alta, 12% na intermédia e apenas 4% na classe mais baixa de severidade), seguindo-se o sobreiro na escala de severidade (68%, 23%, 10%) e depois o eucalipto (55%, 34% e 12%). E antes que me moam o juízo com pormenores sem interesse, as percentagens foram arrendondadas por mim e por isso não dão exactamente 100%.

Resumindo, este fogo confirma o que tem sido observado na generalidade dos outros fogos, demonstrando que nem é verdade que os eucaliptos ardam mais, nem é verdade que ardam mais intensamente que o sobreiro.

O interessante nisto é que quem faz um post como este, estritamente citando dados, é imediatamente acusado de estar sistematicamente a branquear o eucalipto por ser um vendido às celuloses, como se verificar que está a chover fosse defender a chuva.

Já quem propaga fantasias, como troncos a rebentar, bolas de gases voláteis incendiados e etc., pode dizer o que quiser, desde que seja para malhar no eucalipto (ou noutro menino mau à escolha) usando argumentos sofisticados como "se gostas tantos de eucaliptos planta-os ao pé da tua casa", ou "vê-se logo que nunca andaste a apagar fogos, doutra forma saberias que um incêndio em eucaliptal é muito pior que no resto", ou ainda, um dos meus preferidos, "se sabes tanto do assunto, vai lá tu apagar o fogo".

Socialmente, e para a nossa imprensa, vale tanto o trabalho esforçado de pessoas como o Pedro Venâncio, que publicou estes dados no Facebook e teve a delicadeza de produzir dados complementares sobre severidade por uso de solo quando eu disse que gostaria de ter essa informação, e o trabalho de fundo feito por José Miguel Cardoso Pereira, ou Paulo Fernandes, como as afirmações de curiosas que imediatamente reagem dizendo que todos estes números têm de estar errados porque fizeram uma viagem pela autoestrada A1 e é evidente que há muito mais eucalipto, e mais eucalipto ardido, do que esses números, sabe-se lá obtidos como, dizem.

Ontem, aliás, vi a melhor demonstração disso: um curioso que tentou demonstrar a Paulo Fernandes que um artigo do próprio Paulo Fernandes diz o contrário do que o Paulo Fernandes diz que o artigo diz, criando um post hilariante, que deu origem a uma série de comentários surrealistas bem demonstrativos de como é fácil evitar que os factos nos influenciem as ideias.

O problema é que é com base nestes teatros do absurdo que se desenham políticas públicas e temos ministros que conseguem dizer que estão a celebrar o facto das pessoas estarem vivas, depois de arderem quase nove mil hectares de eucalipto, mais de 3 mil e trezentos hectares de sobreiro, um número incontável de colmeias, instalações agrícolas e gado, como se a economia que sustenta essas vidas seja um pormenor sem importância e com o qual o Estado não tem de perder tempo nem gastar recursos.

Somos um país muito estranho.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A sociedade e o fogo

por henrique pereira dos santos, em 10.08.18

Em Janeiro (não agora), Jaime Pinto, preocupado com o facto da sua aldeia, em Góis, ter ficado no intervalo não ardido dos fogos do ano passado, decidiu contribuir para que o risco da aldeia ser arrasada por um fogo, que virá, mais cedo ou mais tarde, diminuísse.

Para isso convidou o Pedro Bingre, o Henk Feith e eu para uma sessão, co-organizada com a Câmara de Góis, em que se discutiu o fogo e a forma das pessoas se prepararem, em cada aldeia, para os dias em que tudo arde à nossa volta.

Uma sala cheia no Loural, uma discussão interessante, uma presença empenhada da Câmara e uma sala com bastante gente permitiram alguma discussão, da qual resultou depois um documento que deveria servir para que a Câmara tomasse as suas decisões e desse alguma orientação a quem dela precisa para perceber melhor o que se passa e, sobretudo, para se defender melhor.

Não sabemos se porque entretanto o Governo lançou o programa aldeia segura, a verdade é que o documento então feito, subscrito por Pedro Bingre, Henk Feith e eu (e quem nos conhece aos três sabe que seria impossível que todos concordássemos com todos os pormenores de um texto comum, é portanto um texto de compromisso entre visões diferentes do problema) ficou esquecido em qualquer lado.

O Jaime continua preocupado com a sua aldeia (com razão) e pediu-nos que ao menos circulássemos o texto da forma como nos parecesse melhor.

Sendo um texto relativamente longo (deveria ser a base para um folheto, ou qualquer solução desse tipo), acabámos por achar que eu o publicaria aqui, esperando depois que cada um usasse os canais de comunicação que tem para lhe dar alguma visibilidade como parte da intervenção cívica que todos podemos ter em relação ao problema da gestão do fogo e das suas consequências.

 

E eu?

Os fogos que hoje temos resultam da falta de gestão e serão, provavelmente, mais perigosos no futuro.

A quantidade de combustível (matos, folhada, silvas, ervas) acumulado à volta e dentro das aldeias, terá tendência para aumentar.

É normal que qualquer pessoa,que viva sempre, ou passe uns dias numa aldeia, se pergunte se está segura a dormir em sua casa.

Esta pergunta não pode ser respondida por mais ninguém a não ser cada uma das pessoas da aldeia.

E a esta pergunta não se pode responder quando tudo arde, é preciso saber responder-lhe hoje, amanhã ou em qualquer altura em que ainda exista tempo para resolver cada um dos problemas que nos façam sentir inseguros.

Em primeiro lugar não vale a pena pensar que talvez o fogo não chegue à aldeia, mais vale prevenir e partir do princípio de que podemos não saber quando chega o fogo, mas sabemos que é uma questão de tempo até que chegue.

Comecemos então por avaliar se a nossa casa está preparada para esse momento, ou seja, se há sítios em que uma fagulha qualquer, vinda de um fogo que ainda pode estar a centenas de metros, pode cair em qualquer coisa que possa arder: caruma e folhas no telhado e nos beirais, um silvado no quintal, um sótão em que possa haver uma fresta por onde a fagulha entre, um vidro partido numa janela de um compartimento que não é muito usado, uma telha partida ou em falta, etc.. Recordemo-nos que grandes incêndios florestais podem provocar fortes ventanias capazes de abrir janelas mal fechadas e levantar telhas soltas.

Olhemos para toda a casa lembrando-nos que essas fagulhas podem vir pelo ar, de bastante longe, e que são muito pequenas, facilmente entram em pequenos buracos ou frinchas que existam. De maneira geral não representam nenhum risco, excepto se caírem em cima de qualquer coisa que arda facilmente, como por exemplo em antigos sótãos, sobrados e soalhos de madeira.

Depois olhemos em volta da casa, num raio de 20 metros convém avaliar bem o que pode arder facilmente, ervas, matos, folhas, sobretudo coisas muito finas a que rapidamente o fogo se possa propagar. Todos os galhos, ramos e raminhos que estejam espalhados nos quintais e pudessem servir como acendalha numa lareira vão comportar-se como tal em caso de incêndio.

É então a altura de conversar com os vizinhos, com os que estão por ali todos os dias, mas também com os que aparecem uma vez por outra, para ver se todos olham para cada uma das casas da mesma maneira: quatro olhos vêem mais que dois.

Já agora aproveitemos para ver que sítio mais seguro existe na aldeia para onde se possa ir se tudo estiver cheio de fogo e fumo.

É muito importante ter a noção de que com tudo cheio de fumo, o que pareciam caminhos fáceis que todos fariam facilmente, podem ser armadilhas se não se tiver a absoluta certeza do que se está a fazer. No momento da fuga, não se pode percorrer um caminho que esteja rodeado de matas ou matos a arder, pois mesmo que as chamas não atinjam as pessoas, o calor intenso e a falta de oxigénio poderão ser fatais a quem estiver por perto. Devemos manter-nos sempre a uma distância do fogo igual ou superior a quatro vezes a altura das chamas. Os caminhos seguros são aqueles sem matos ou matas espessas nas bermas.

 Se há um ou dois sítios na aldeia para que quem não se sinta seguro na sua casa possa ir, então é bom que o caminho para lá chegar seja muito bem conhecido e definido, evitando andar às apalpadelas numa altura em que se vê mal com o fumo e a calma tem fortes probabilidades de ter desaparecido com o medo que é inevitável que apareça numa situação de risco. Em casos extremos, se sentir que o fumo começa a intoxicá-lo apesar de o fogo se encontrar longe, rasteje ou gatinhe de modo a poder respirar o ar rente ao chão, com mais oxigénio e menos fuligem.

Olhemos então para o que rodeia a aldeia, para saber como se pode fazer para diminuir os riscos.

O mais importante não é evitar que haja fogo, o mais importante é que o fogo não seja tão alto e forte que ninguém possa fazer nada dele, deixando-o à solta.

Há três maneiras principais para poder deixar ao fogo menos combustível, ou seja, para criar condições para que haja menos fagulhas pelo ar, a chegar mais longe e para que o fogo possa ser conduzido para onde não possa fazer tanto mal ou até, se for possível, pará-lo antes que chegue ao que tem mais valor: floresta com valor comercial, campos e pomares, casas e pessoas.

  • Roçar o mato (sobretudo estevais, urzais e tojais), desbastar as matas demasiado espessas (removendo as árvores débeis, especialmente no caso dos pinhais miudinhos em “pêlo de cão”), desramar os ramos baixos quando estes impedirem a passagem das pessoas. É a maneira mais cara, deve ser usada se outras maneiras não forem possíveis e se não houver actividades que possam garantir que isso se faz. É escusado abater as árvores maiores e podar as suas pernadas mais robustas, pois não é daí que provém o principal perigo;
  • Usar fogo controlado para diminuir o que arde. Há muita gente com medo do fogo controlado, pensando que é igual ao fogo de Verão, mas na verdade é um fogo que pode ser feito apenas onde se quer, nos dias em que se tem a certeza de que tem menores efeitos negativos e menores probabilidade de fugir. Deve ser feito apenas por quem sabe e da forma adequada. Normalmente é preciso abrir umas faixas de dois metros, em que os 30 cm centrais estão totalmente limpos até ao chão, para delimitar o fogo e não o deixar fugir para onde não se quer. Pode ser feito em áreas com árvores: desde que bem feito, não estraga as árvores e não lhes diminui o valor. Juntar os vizinhos, pedir ajuda ao Gabinete Técnico Florestal da câmara municipal e definir muito bem o que se pretende é um caminho possível para usar mais o fogo controlado como forma de diminuir o risco dos grandes fogos entrarem pela aldeia;
  • Usar gado, em especial o caprino. Nem todo o gado serve igualmente para todas as situações, mas se houver oportunidade de ter gado e o usar nas áreas que possam ajudar a defender a aldeia, deve fazer-se um esforço nesse sentido.

Se existirem recursos para cortar mato, é bem possível que com os mesmos recursos se possa fazer muito mais usando o fogo e o gado, deixando o corte de mato para as situações em que não é possível resolver de outra maneira.

Deixar tudo como está, acreditando que connosco nunca vai acontecer, é a única opção que não é possível.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A estupidez pode ser uma fatalidade, mas a ignorância é uma escolha

por henrique pereira dos santos, em 09.08.18

chave incêndios.jpg

Gonçalo Elias resumiu bem a simplicidade que é usada na discussão sobre fogos e, na verdade, o modelo pode ser aplicado em muitas outras situações.

Vem isto a propósito de uma ideia que Miguel Sousa Tavares terá difundido e que muita gente, incluindo uma série de jornalistas, repetem frequentemente a propósito do fogo de Monchique: aquilo arde tudo porque 70% (nas versões aproximadas), 73% (nas versóes rigorosas), do concelho é eucalipto.

Não é preciso conhecer Monchique para saber que esta percentagem de ocupação por um tipo de povoamento florestal é, com certeza, fantasiosa.

Mas ainda assim, repete-se, repete-se, repete-se, como se fosse um facto.

O estranho disto tudo não é Miguel Sousa Tavares dizer isto, a sua relação aberta com os factos é do domínio público e traz bastante sal e pimenta para o seu comentário político, sempre muito saboroso.

O estranho é a quantidade de pessoas razoáveis e preocupadas em manter-se dentro dos limites da realidade nas discussões, bem como a quantidade de jornalistas e afins que repetem isto sem fazer o que me parece mais evidente: verificar os números.

Eu recorri o Nuno Gracinhas Guiomar (uma fonte inesgotável de informação fiável em matéria de ocupação do solo, fogos florestais e outras coisas mais) porque era mais fácil para mim, mas qualquer pessoa facilmente encontra dos dados da ocupação do solo do país, incluindo análises de transição que permitem saber como tem evoluído essa ocupação do solo, o que aumentou e diminuiu, e esses pormenores que permitem discussões um bocadinho mais rigorosas sobre o assunto, evitando a enorme surpresa que vejo frequentemente quando explico que o eucalipto ocupa menos de 10% da área de Portugal.

Para Monchique temos então, de acordo com o COS 2015, 44,47% de eucalipto, 17,36% de sobreiro, 1,55% de outras folhosas e castanheiros e 26,88% de matos, ou seja, uma ocupação mano a mano entre eucalipto e a famosa vegetação autóctone cuja suposta falta é responsável por estes fogos (a soma do sobreiro e matos é 44,28%).

É claro que não se pode pedir às pessoas que deixem os factos influenciar as suas ideias, mas ao menos aos profissionais da comunicação seria razoável exigir que confirmem os dados que os especialistas que escolhem ouvir vos querem impingir para sustentar as suas agendas políticas, sociais e económicas.

Mas reconheço que escolher a ignorância é uma escolha perfeitamente legítima.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Monchique, eucaliptos e espantalhos

por henrique pereira dos santos, em 06.08.18

O grande fogo de Monchique, que anda, neste momento, pelos 15 a 20 mil hectares ardidos, foi anunciado de várias maneiras e feitios.

Andou a ser anunciado como um inevitabilidade nos últimos meses, Monchique foi identificado como o concelho de maior risco de incêndio por José Miguel Cardoso Pereira e a sua equipa de investigação, foi anunciado dias antes por Paulo Fernandes, foi anunciado por Carlos da Câmara, resumindo, todas as pessoas que verdadeiramente estudam os fogos em Portugal tinham identificado a inevitabilidade deste fogo e, quando as condições meteorológicas se começaram a desenhar no horizonte, com uma quase inacreditável precisão, previram quando iria acontecer.

Paulo Fernandes, numa das primeiras fases do fogo, reagindo à expressão usada pela Protecção Civil "o início do fogo foi explosivo", escreveu, com seis ou sete horas de antecedência, que ir-se-ia ver o que era ser explosivo se não agarrassem o fogo até às sete horas da tarde desse dia, como realmente não aconteceu, dando origem à noite mais complicada em Monchique.

Apesar disso, o coro de vozes que se levanta sempre a prometer "matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem" para usar a fantástica caracterização que Caetano Veloso fez dos reaccionários que o assobiavam num festival, lá apareceu com o espantalho da moda: é o eucalipto, o problema é o eucalipto.

Saltemos por cima da hipótese de Henk Feith (tanto mais que o próprio a apresentou como uma mera hipótese não confirmada): "Até ontem à hora de almoço arderam 2 500 ha, em 48 horas, o que dá numa média de 52 ha/ hora. Desde então arderam estimadamente mais 15 mil ha, que dão uma média de 625 ha/ hora. O que se passou então. Na minha modesta opinião: o fogo andou nos primeiros dois dias nos densos eucaliptais a Norte de Monchique. Depois passou para sul da estrada para Alferce e entrou no esteval seco que caracteriza a área até Odelouca. Daí a diferença de velocidade do fogo: bosques densos e mais humidos de eucalipto contra vegetação arbustiva seca". Antes de passar adiante, notemos que Paulo Fernandes confirma a razoabilidade da hipótese: "O simples facto do fogo mudar de floresta para matos duplica a velocidade do vento que actua sobre a chama e reduz a humidade do combustivel".

Mais que isso, perante um coro de alucinados eucaliptofóbicos que nunca estudaram o assunto, mas que não têm qualquer dúvida em qualificar os melhores investigadores do assunto como ignorantes, o próprio Paulo Fernandes confessa a sua dificuldade em responder a argumentos absurdos, filhos do atrevimento da ignorância:

"O comportamento do fogo, no que toca à vegetação, depende globalmente da estrutura e da quantidade de combustível. A composição em árvores é pouco, por vezes nada, influente. Isto está tão bem estudado, descrito, modelado e constatado empiricamente que até me custa responder. Vendo isto a outra escala não há um único estudo que mostre que os incêndios em Portugal são maiores ou mais severos por causa do eucalipto".

Mas ainda que tudo isto seja do mais claro, mesmo pessoas que antes explicavam que Monchique não tinha ardido como ardeu Pedrogão no ano passado por causa da maior presença de sobreiro, azinheira e outras autóctones, em mosaico, insistem que basta olhar para o mar de eucaliptos de Monchique para ser evidente que o fogo de Monchique resulta, na sua velocidade e violência, do excesso de eucalipto.

O facto de em 1966, em que Monchique quase não tinha eucalipto, ter ardido tanto ou mais que neste último fogo, o facto de ter ardido larga e violentamente em 1983, 1991, 2003 e, agora, em 2018, independentemente da cobertura florestal e dentro do que é previsível para a região (um retorno do fogo em torno de 15 anos), o facto de em 2004 e 2012 ter ardido violentamente o Caldeirão (mais ou menos 80% em sobreiro no primeiro, e dominantemente em sobreiro se considerarmos a árvore dominante, mas sobretudo esteva, no segundo), não demove o coro da alucinação eucaliptofóbica que tem dificuldade em perceber que se arde em Monchique, que tem muito eucalipto, arde eucalipto, mas que se arde no Sabugal (como no ano passado), que tem muito carvalhal, arde carvalhal.

Lembro-me bem do grande fogo (sobretudo em pinhal) de Macinhata do Vouga, em 1972, de que se culpou o comboio a vapor do vale do Vouga.

Lembro-me bem do Verão de 1975, em que o PC culpava a reacção e a reacção culpava o PC do ano especialmente difícil no que diz respeito a fogos (o primeiro verdadeiramente generalizado, mais ou menos quinze anos depois de iniciado o grande abandono dos anos sessenta, sinalizando a progressiva acumulação de combustíveis daí resultante).

Mais tarde o espantalho eram os negócios dos madeireiros (um clássico que continua com indefectíveis defensores, como José Gomes Ferreira, que ainda hoje fala disto com a mesma fundamentação com que um dos meus filhos me falava de um urso que lhe desarrumava o quarto).

Depois eram os negócios imobiliários, espantalho que deu origem a uma grande quantidade de legislação sobre a impossibilidade de construir em áreas ardidas.

Os incendiários são outro clássico, hoje um pouco desvalorizados, ao fim de anos e anos de investigação da Polícia Judiciária concluírem que não encontra motivações económicas relevantes nas acções dos incendiários.

Actualmente o espantalho mais vulgar é o eucalipto.

É um espantalho conveniente (como os outros), porque evita qualquer necessidade de informação e trabalho intelectual (quem se arriscar, como faço neste post, a dizer que a ligação entre fogos e eucalipto é uma treta, é porque é um vendido aos interesses económicos, argumentação sempre com muitos adeptos) e, sobretudo, evita a discussão difícil e que exige decisões políticas complicadas.

Enquanto andamos nisto, de espantalho em espantalho, escusamos de discutir o essencial do que temos a fazer: pagar a gestão de serviços ambientais que possam trazer gestão para onde ela faz falta, limitando os efeitos da raiz do problema, a ausência de gestão que permite a acumulação insensata de combustíveis.

Adenda: Ontem, no longo período em que escrevi este post, a protecção civil falava insistentemente, ao início da tarde, em ter 95% do perímetro dominado. Ao mesmo tempo, pessoas como Emanuel Oliveira, ou Nuno Gracinhas Guiomar, iam respondendo à perplexidade das pessoas que, não sabendo muito disto, como eu, mas tendo um bocadinho de informação estruturada que vão coligindo, queriam saber o que era isso de ter 95% do perímetro controlado: não liguem a informação desse tipo, é típico dizer-se no princípio do dia que os fogos estão a evoluir favoravelmente e a ceder ao combate, na parte da manhã e, depois do almoço, falar-se em violentos reacendimentos em consequência de mudança de ventos. Q.E.D., o resto do dia e da noite.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Do teatro

por henrique pereira dos santos, em 01.08.18

Num comentário que fiz noutro lado, acabei a juntar a exclusividade da deputada Catarina Martins com a exclusividade do presidente de câmara António Costa.

Na verdade são coisas muito diferentes.

António Costa usou uma interpretação criativa da lei para aceitar que o pagamento de serviços pela produção de comentário político na quadratura do círculo fosse paga como direitos de autor, o que lhe permitia receber 7 mil euros por mês por essa prestação de serviços, e cinco mil como presidente de câmara em exclusividade (doutra maneira o seu ordenado como presidente de câmara seria metade), para além de um benefício fiscal simpático. É uma típica esperteza saloia para sacar mais dinheiro ao contribuinte, nada mais que isso, matéria que em Portugal é mais um medalha que um estorvo.

Quando Catarina Martins simula uma venda à família de uma empresa da qual é dona em 50% para se poder apresentar como deputada em exclusividade (podia ter mantido a actividade de empresária, foi uma opção de Catarina Martins) tenho poucas dúvidas de que o que a motivou não foi o poder encaixar qualquer coisa mais pela exclusividade, mas o teatro político a que o Bloco se entrega desde a sua fundação: era preciso distinguir politicamente os deputados do Bloco, exclusivamente empenhados na representação política dos seus eleitores, sem quaisquer interesses económicos pessoais à mistura e, para isso, era fundamental ser deputada em exclusividade de funções, ou as funções paralelas serem daquelas que não causam mossa ao discurso do Bloco, como professor numa universidade pública, artista e coisas assim.

Toda a história da Catarina empresária parece-me um assunto menor e um fait divers, mais que isso, para mim, como eleitor, prefiro saber que os que me representam são pessoas como eu e não heróis, parece-me muito mais tranquilizador.

Nem mesmo a utilização de fundo europeus e coisas que tal me parece levantar qualquer dúvida: eu posso achar que seria bom que andássemos mais de transportes públicos, ao mesmo tempo que perante situações concretas me pareça que ir de carro é a melhor solução, isto é, parece-me absurdo exigir uma coerência total entre o que se defende e o que se pratica (o que seria se todos os católicos praticantes de Portugal se decidissem por uma prática radical do que defendem).

O problema de Catarina, e de qualquer dirigente de partidos assentes no sectarismo da superioridade moral, é mesmo a sua preocupação com o teatro, é a sua opção de pretender elevar a fasquia moral a um nível que é o dos santos, e não o das pessoas comuns, adoptando uma imagem pública que nem sempre corresponde à vida real das pessoas.

A vida dos dirigentes do Bloco é entendida como um símbolo político e não como aquilo que é: a vida normal de pessoas normais.

Para essas, as pessoas comuns, como a Catarina e eu, era incomparavelmente mais razoável, tranquilo, digno e etc., que Catarina simplesmente lidasse de forma transparente com a sua condição de empresária, em vez de a procurar esconder em esquemas manhosos envolvendo a família.

Tal como no caso de Robles, o problema de Catarina não está no que fez, que é banal, está essencialmente correcto e não levanta problemas, está no que diz sistematicamente e no embuste do discurso do Bloco, um discurso completamente desfasado da realidade e da vida das pessoas comuns, tornando o Bloco no partido mais populista que existe em Portugal.

Às vezes corre mal, quando se torna evidente a distância entre o discurso sobre a vida dos outros e a vida quotidiana de cada um de nós.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A árvore ou a floresta

por henrique pereira dos santos, em 31.07.18

eucaliptos.jpg

Esta fotografia é de um comentário irónico de Francisco Barros (um dos melhores naturalistas que conheço) que traduz uma ideia geral e, genericamente, correcta: "Assim, sim! Floresta bem gerida, sem mato, sem fogos.... sem nada! Só o solo e eucaliptos. Até uma vinha intensiva é mais biodiversa que isto...."

Do que me interessa falar neste post não é dos eucaliptos que estão na imagem, mas do resto.

Do ponto de vista dos fogos, do solo, da retenção de água, da biodiversidade, da gestão da matéria orgânica no solo, enfim, de qualquer das questões que se possam levantar sobre esta fotografia, estarem ali eucaliptos, pinheiros, carvalhos, oliveiras, milho, magnólias ou margaridas é, essencialmente, indiferente: o que é relevante são as acções de gestão associadas ao que quer que seja que se pretenda produzir, ou não produzir, naquele solo.

Pode argumentar-se que este tipo de gestão só se usa no eucaliptal intensivo, mas isso está longe de ser verdade (o comentário do Francisco fala da vinha, mas podia falar do olival, do milho ou de qualquer outra cultura intensiva, não acontecendo com grande parte das outras espécies florestais apenas porque não pagam este tipo de gestão e, por isso, ardem mais).

É aqui que vale a pena falar das diferentes escalas de análise que nos devem preocupar.

Uma escala de análise é a da parcela (ou da propriedade), que é a escala do dono do terreno, em que discutir, por exemplo, a biodiversidade deste campo é muito pouco útil, seria como discutir a biodiversidade da avenida dos Aliados: se o objectivo é a produção de eucalipto, de espaço urbano, de batatas, é um pouco inútil argumentar que a biodiversidade é mínima, seria como criticar uma exploração leiteira por produzir pouco whiskey.

Outra escala é a da paisagem: se estendêssemos a todo o país o modelo de ocupação do solo da avenida dos Aliados, aquilo que é um belíssimo espaço urbano passaria a ser uma banalidade tenebrosa.

À escala da propriedade que, insisto, é a escala do proprietário, o que interessa é notar que o solo não não se mantém como está na imagem durante todo o ano e que se não houver novas acções de gestão, rapidamente aquilo se enche de mato, melhorando muito a diversidade biológica, a cobertura do solo, a gestão dos ciclos de nutrientes e da água, mas potenciando enormemente o risco de incêndio. Se o objectivo do proprietário for produzir biodiversidade, óptimo, com eucaliptos, magnólias ou margaridas, a ausência de gestão dará origem a uma aproximação ao que se pretende, à custa de um risco de fogo muito maior. Se o objectivo for produzir eucalipto para vender, o proprietário irá gerir esta propriedade com esse objectivo e, na medida em que o retorno económico compensar, vai procurar manter o terreno, tanto quanto possível, na forma como se vê na imagem, com um risco de fogo mínimo (independentemente da espécie que lá esteja), mas também com níveis mínimos de biodiversidade, e máximos de exposição do solo aos elementos, elevada probabilidade de escorrência de água e erosão, etc..

Ao resto da sociedade, que não é dona do terreno, interessa, em simultâneo, a criação de riqueza, mas também de biodiversidade, ciclos da água e dos nutrientes equilibrados, bons solos, etc..

Esta contradição entre querer simultaneamente coisas cuja obtenção implica modelos de gestão opostos não é fácil de resolver à escala da propriedade, embora possa ser amenizada com as melhores práticas disponíveis que não ponham em causa o objectivo principal de produçao económica, por exemplo, plantação ao longo das curvas de nível, manutenção da vegetação nas linhas, limpeza das entrelinhas em anos alternados, etc., mas pode, em grande medida, ser resolvida à escala da paisagem, diferenciando os objectivos das diferentes parcelas, por exemplo, na produção florestal certificada, 10% da área de produção deve ser dedicada à conservação.

O que implica que a sociedade remunere os proprietários pela gestão da produção de serviços de ecossistema nas parcelas que perdem potencial económico, de forma a que as parcelas dedicadas à produção possam fazer a sua função adequadamente (quando Nova York resolveu aplicar isto na cidade, não andou a dizer que os proprietários eram uns malandros que tinham de assegurar funções sociais nas suas propriedades, tratou de reservar 341 hectares para funções sociais, pagas socialmente, para o Central Park).

Mas para que a sociedade chegue a este ponto da discussão, parece-me que, previamente, tem de deixar de confundir a árvore com a floresta, concentrando-se mais nas necessidades de gestão do território e repectivos modelos de gestão, e menos numa discussão, pouco útil, sobre espécies demoníacas e espécies celestiais.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pontos no ii sobre eucaliptos, fogos e Estado

por henrique pereira dos santos, em 30.07.18

Se se olhar para os números, ver-se-á que o eucalipto se vai expandindo paulatinamente até aos anos 80 do século passado, tem uma expansão bastante rápida nesses anos 80, e depois passa a uma expansão mais lenta a partir dessa altura, com uma quase estabilização nos últimos tempos.
Nada disso tem qualquer relação com o Estado, e passo a explicar.
A expansão inicial corresponde à procura, pelas pessoas comuns, de alternativas ao abandono de terras: a vida era miserável e as pessoas foram procurar uma vida melhor nas cidades, em França, na Alemanha, nos EUA (tal como tinham feito no fim do século XIX, princípios do século XX em relação ao Brasil e América, até à crise dos anos 20).
Na altura, plantar eucaliptos ou pinheiros era mais ou menos indiferente, mas o eucalipto, em Portugal, tem uma área de produção bastante mais restrita que o pinheiro, para além de exigir plantação, enquanto o pinhal já estava instalado e tinha boa regeneração natural. Note-se que ainda hoje o eucalipto não ocupa um milhão de hectares, mas o pinheiro já ocupou bem mais de um milhão de hectares, no seu apogeu, tendo-se hoje reduzido para metade, em poucas décadas.
Acontece que à medida que o consumo de papel aumenta e os processos industriais permitem o fabrico de uma excelente pasta de papel a partir de eucalipto glóbulos, o valor da madeira de pinheiro vai estabilizando ou mesmo diminuindo.
Ao mesmo tempo o abandono agrícola levou ao abandono do aproveitamento dos matos e o pinhal, cujo sub-bosque era gerido pela agricultura e a pastorícia, e começa a acumular-se combustível, dando origem à alteração do padrão de fogo tradicional (muitos fogos, pouco intensos e em mosaico) para o padrão de fogo actual (menos fogos, mas muito mais intensos e contínuos). Este processo está longe de ser específico de Portugal, afecta toda a Europa e está na base do crescimento da ideia de Rewilding, mas a velocidade a que se desenvolvem as plantas é que é, no Noroeste da Península Ibérica (Portugal a Norte do Tejo, Galiza litoral e Astúrias), bastante maior que na maior parte da Europa.
O pinheiro convive muito mal com padrões de fogo abaixo dos vinte a vinte e cinco anos, porque precisa de vinte anos para produzir um bom banco de sementes, ao contrário do eucalipto que convive razoavelmente com fogos com um período de retorno em torno dos 12 a 15 anos, visto que dá um corte aos 10 a 12 anos e rebenta de toiça após fogo.
Esta evolução deu uma vantagem enorme ao eucalipto e, nas zonas do país em que o eucalipto produz bem (essencialmente a faixa litoral a Norte do Tejo, o vale do Tejo, Mochique, e uma ou outra coisa fora destas zonas), o pinhal foi substituído por eucaliptal como alternativa ao abandono, a que acrescem os matos que foram transformados em povoamento florestal, primeiro sobretudo de pinheiro, depois sobretudo de eucalipto.
O eucalipto está mais ou menos no limite da sua área de boa produtividade, em especial porque os custos de produção aumentaram mas o valor da madeira estabilizou, o que vai reduzindo a área em que é rentável produzir eucalipto (o pinheiro, salvo áreas em que está instalado e uma ou outra região, há muito que deixou de ser rentável, ainda por cima com o risco de fogo que existe).
Ora o papel do Estado nisto tudo é um papel marginal (com alguma excepção no tempo do programa florestal do Banco Mundial, que financiou muita florestação, incluindo com eucalipto. A maior parte destas florestações desapareceram por falta de gestão, excepto o eucalipto, quando tinha gestão), entre outras razões porque os instrumentos administrativos têm alguma relevância para conduzir processos económicos dinâmicos, mas são razoavelmente inúteis quando não há processo económico (da mesma forma que uma barragem pode tirar partido de um rio, mas não produz água onde ela não existe).

Se se quiser continuar a ignorar a realidade e achar que são manobras obscuras de interesses inconfessáveis, continue-se, mas o mais provável é simplesmente não se ir a lado nenhum naquilo que verdadeiramente interessa: trazer gestão para onde ela faz falta e o mercado não a financia.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sugestão aos partidos a propósito de Robles

por henrique pereira dos santos, em 29.07.18

O caso de Robles tem duas lições essenciais:

1) O desfasamento entre o que se diz e o que se faz tem limites (aparentemente a desorientação do BE na reacção ao caso resulta de não reconhecer esses limites, o que é compreensível visto que há três anos que o BE faz o mesmo que Robles, isto é, dizer uma coisa e fazer outra, e sempre conseguiu resolver os poucos problemas que isso tem criado no espaço público com histórias da carochinha como a deputada Mariana Mortágua dizer-se enganada pelas cativações de um ministro que só é ministro porque o BE quer);

2) O mercado imobiliário em Lisboa é hoje um mundo de oportunidades.

Juntando estas duas lições, tenho uma proposta a fazer aos partidos, ilustrando-a com o PS mas válida para todos.

A sede nacional do PS é no meio de Lisboa, numa das zonas mais valorizadas do país do ponto de vista imobiliário, num edifício que valerá hoje vários milhões, a julgar pelo valor atribuído aos prediositos de Robles.

O PS tem batalhado bastante, no discurso, claro, pela descentralização, tendo mesmo apoiado o governo na heróica decisão de mudar o Infarmed para o Porto.

Este discurso tem um problema, é que pode alguém perguntar por que razão o partido, qualquer partido nacional, tem a sua sede em Lisboa, ao mesmo tempo que clama pela descentralização, a revitalização do interior, o benefício de quem vive e cria economia no interior, etc. (uso aqui interior por economia de comunicação, que o país não tem interior, é todo litoral).

A oportunidade política de reforçar a confiança dos eleitores no que dizem parece-me evidente: vendem o património em Lisboa, que está muito valorizado e permite financiar os custos desta alteração estrutural, contribuem para o aumento da oferta de edifícios em Lisboa, ao mesmo tempo que deslocam funções, pessoas, economia para outras cidades menos pressionadas, como Braga, Viseu, Castelo Branco, Beja, já para não falar na hipótese de ter a sede nacional em Pedrogão (a associação nacional em cuja fundação me envolvi, por acaso, tem a sede em Vouzela, por mim podemos fazer uma parceria com qualquer um dos partidos que queira levar a sua sede nacional também para Vouzela).

O que Robles fez foi lembrar-nos de António Aleixo: "Vós que lá do vosso império prometeis um mundo novo, calai-vos que pode o povo querer um mundo novo a sério".

Por isso talvez fosse boa ideia antecipar-vos à pergunta que, cedo ou tarde, alguns eleitores vos farão: afinal devemos acreditar no vosso discurso sobre o equilíbrio territorial, ou na vossa prática organizacional?

Autoria e outros dados (tags, etc)

A segurança social e o prédio Robles

por henrique pereira dos santos, em 28.07.18

Vale a pena avaliar os resultados das diferentes opções que a segurança social tinha pela frente face ao prédio Robles.

Uma hipótese seria fazer o que fez Robles: reabilitar com objectivos de mercado e vender com a valorização daí decorrente.

Era uma hipótese muito interessante porque tinha todos os benefícios da hipótese que foi adoptada, com a única diferença de que a mais valia seria da segurança social. Esta hipótese tinha vários problemas: a segurança social precisaria de ter o capital para o fazer, precisaria de ter a competência técnica para a sua execução, teria de ter a competência de gestão para manter o controlo de custos. Ainda que tivesse tudo isto, enfrentaria problemas complicados: o processo de decisão seria muito mais pesado, fazendo derrapar prazos e custos mas, sobretudo, teria pela frente uma forte oposição política, provavelmente com Ricardo Robles à cabeça, porque poucos de nós aceitaríamos que a Segurança Social actuasse como qualquer promotor privado, fazendo sair os inquilinos por acordo, aumentando um andar, vendendo para o mercado de luxo. Ou seja, seria uma hipótese politicamente inviável.

Outra hipótese seria vender melhor, sobretudo eliminando um factor de incerteza muito elevado que é o da decisão que seria tomada pela Câmara Municipal face às obras propostas. Na realidade, comprar um edifício numa zona histórica de Lisboa tem, em si, um factor de incerteza no que diz respeito ao licenciamento que obriga os compradores a pagarem menos para cobrir o risco de não autorização das obras ou, um risco bem mais real, o risco de arrastamento do processo no tempo, que tem custos relevantes. A segurança social poderia, portanto, licenciar primeiro, e vender depois. Ainda assim, aqui, mais uma vez, o mero licenciamento nos termos em que foi mais tarde licenciado ao promotor teria pela frente uma forte oposição política, provavelmente capitaneada por Ricardo Robles, protestando com um programa de onze apartamentos entre os 25 e os 41 metros quadrados, evidentemente desfasado de um programa de habitação social adequado a famílias.

Outra hipótese, a que se terá verificado por muitos anos (e a verdadeira especialidade do actual governo) é não fazer nada.

Comparemos custos e benefícios sociais da situação que existia, face à situação que existe.

O prédio estava degradado, dando abrigo a cinco inquilinos em condições sociais degradantes. A situação actual permitiu que todos os inquilinos melhorassem a sua situação, quer sejam os que ficaram, que têm hoje uma casa em boas condições (aparentemente mais cara que antes, mas com uma melhor relação custo/ benefício), quer os que mudaram para melhor, noutro sítio.

Havia uns edifícios degradados, hoje existem edifícios reabilitados.

A economia associada aos edifícios era marginal (cinco inquilinos em condições degradadas, embora um deles um pequeno restaurante), a economia associada a 11 apartamentos arrendados tem bastante mais potencial (em especial na criação de emprego, o maior problema social que existe em Portugal), para além de ter motivado um investimento de um milhão de euros (dos quais, mais de 300 mil reforçaram o orçamento da segurança social), com um potencial encaixe de investimento, provavelmente estrangeiro, de cinco milhões que a família Robles aplicará no que quiser gerando nova economia.

Dir-se-á que a situação actual pressiona os preços da habitação, aumentando-os e expulsando os residentes tradicionais de Alfama.

Na realidade não é assim: o edifício, tal como estava, não estava no mercado, reduzindo a oferta e pressionando os preços para cima pela limitação na oferta. Tal como está hoje, aumenta a oferta e, por essa via, pressiona os preços para baixo, e não para cima.

O que tem pressionado os preços para cima não é o alojamento local, a promoção imobiliária e a dinâmica do mercado imobiliário, o que tem pressionado os preços para cima é a procura de alojamento e de habitação, matérias que não dependem assim tanto de haver ou não haver oferta (a oferta no centro de Amesterdão não cresce tanto como em Lisboa, e os preços continuam a ser pressionados para cima, enquanto houver procura para isso, o que se resolve pelo aumento de preço se não houver aumento de oferta).

O que o aumento da oferta permite é, pelo contrário, diminuir a pressão da procura e ter um ponto de equilíbrio entre oferta e procura num nível mais baixo que o que se teria se a política de gestão da cidade (e, neste caso, da segurança social) fosse a de manter a oferta anterior, à medida que a procura continuava a aumentar.

Poder-se-á argumentar que a Segurança Social (e o Estado) no seu todo, deveria pôr o seu património no mercado de arrendamento de preços controlados, aumentado a oferta e limitando administrativamente a subida dos preços, com efeitos benéficos no arrefecimento global do mercado.

Por mim, nada contra, mas é útil que se diga que isso não se faz porque o Estado (incluindo a Câmara Municipal e a Segurança Social) prefere usar os seus recursos em aplicações alternativas: aumentar a sua participação no capital da TAP, aumentar a exposição do sector social ao Montepio, pagar festas por dá cá aquela palha, e dezenas de outros destinos cuja utilidade social é discutível. E que a experiência empírica da promoção estatal moderna (já houve tempo em que não era assim) tem tido resultados deprimentes.

O facto é que entre os benefícios sociais operados pela operação imobiliária de Ricardo Robles e a manutenção da situação anterior, não há a menor dúvida que o ganho social global é largamente favorável a Ricardo Robles e deve ser glorificado por isso, não atacado.

A minha esperança é que tendo percebido isto para Ricardo Robles, uma boa parte dos bloqueios políticos a uma gestão socialmente mais responsável, sempre em nome dos deserdados, claro, acabem por desaparecer ao constatar-se que é com investimento e capital que se valorizam os activos e não com conversa de Miss Mundo sobre os probrezinhos.

É com o que Ricardo Robles fez que criamos riqueza e melhoramos a nossa vida, e não com o que Ricardo Robles habitualmente diz.

Autoria e outros dados (tags, etc)



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Anónimo

    Se fala do PCP, sim.Meter o BE no mesmo saco é ceg...

  • Anónimo

    Como é óbvio, o Passos nem sequer vai tentar. Como...

  • Carlos Gonçalves

    Eis, calma aí. O trampolineiro, pelo menos, já não...

  • Anónimo

    Caiu a máscara ao Marcelo. O outro nem máscara usa...

  • Carlos Gonçalves

    Eis, calma aí. O trampolineiro, pelo menos, já não...


Links

Muito nossos

  •  
  •  
  • Outros blogs

  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2017
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2016
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2015
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2014
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2013
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2012
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2011
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2010
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2009
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2008
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2007
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2006
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D

    subscrever feeds