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Cansaço

por henrique pereira dos santos, em 23.11.20

"Não havia grandes dúvidas que a segunda vaga iria atingir a Europa depois do verão, quando as pessoas retomassem as atividades normais, os empregos voltassem a ser maioritariamente presenciais e os alunos voltassem às escolas."

Há séculos, para não dizer milénios, que se pensava que havia um padrão sazonal nas mais importantes doenças infeciosas respiratórias nas regiões temperadas.

Há séculos, para não dizer milénios, que se pensava que as mais importantes doenças infecciosas respiratórias, nas regiões temperadas, diminuiam na época quente e aumentavam na época fria.

Mas agora parece que isso afinal não é assim, as pessoas no Verão estão sempre em casa, não se juntam, não se deslocam, não estão com a família, não se divertem em zonas cheias de gente e, por isso, a actividade viral diminui.

O resultado é conhecido e o esperado.

Quando as pessoas voltam à vida normal no Outono/ Inverno, a actividade viral aumenta, impulsionada pelos contactos que toda a gente sabe que ficam suspensos no Verão, como se está a verificar, de maneira que a conclusão é evidente para qualquer pessoa de boa fé: é preciso voltar ao padrão de contactos do Verão, que é o que se pretende com as medidas administrativias que estão a ser tomadas.

Penso não me estar a enganar com a interpretação do primeiro parágrafo deste post, que retirei de uma peça de hoje do órgão oficial do apocalipse, mas cujo conteúdo tenho visto repetido incessantemente pelos mais reputados especialistas que têm falado publicamente sobre o assunto, em especial os que estão ligados a Manuel Carmo Gomes ou a Baltazar Nunes.

Zandingas

por henrique pereira dos santos, em 22.11.20

No dia 11 de Novembro fiz um post que começava assim:

"António Diniz, pneumologista e membro do grupo que acompanha a covid na ordem dos médicos, diz que daqui a 15 dias vamos ter, por dia, 125 novos doentes com covid nos cuidados intensivos.

Manuel Carmo Gomes, biólogo e professor de epidemiologia, diz que vamos ter 10 mil casos de covid por dia, no princípio de Dezembro, 530 internados em UCI uma semana depois e uma mortalidade à volta das cem pessoas por dia na primeira quinzena de Dezembro.

Eu, porteiro do hotel Alcazar, digo que dentro de uma semana, ali por meados do mês de Novembro, estaremos a parar o crescimento do número de casos diários e portanto não vamos chegar aos números citados acima (sendo mais preciso, um dia ou outro com dez mil casos não significa nada fora desta minha previsão Zandinga, uma média a sete dias de 10 mil casos, sim, significa que a previsão está errada).

Agora é simples, é deixar correr o tempo e ver quem fica mais próximo da realidade (errar vamos todos errar, isso é seguro)."

Estava à espera dos quinze dias ou do princípio de Dezembro para olhar para estas previsões feitas a 11 de Novembro por diferentes Zandingas, mas como o Governo resolveu tomar decisões com base no que seria a epidemia se o Governo a não controlasse, vou fazer um post intermédio e logo veremos no princípio de Dezembro se volto ao assunto.

Mais ou menos 11 dias depois da previsão do pneumologista António Diniz, em quem a ordem dos médicos confia para dizer coisas sobre a epidemia, a sua previsão de haver 125 pessoas por dia a entrar em cuidados intensivos, confrontada com a realidade, revela-se o que sempre foi: ver o gráfico abaixo, é verdade que houve uns dois dias com aumentos de 25 ou 26 pessoas em cuidados intensivos, é verdade que é possível que ainda venha haver subidas diárias relevantes em cuidados intensivos, mas estar à espera de 125 pessoas de aumento por dia nos cuidados intensivos, só para lunáticos.

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Nota sobre este gráfico: note-se o desfasamento entre a inclinação da curva de internados e a inclinação da curva de cuidados intensivos, um padrão que se encontra praticamente em todos os países mas que aparentemente não é muito valorizada pelos lunáticos.

Manuel Carmo Gomes, entretanto, já refez a sua previsão (escassa meia dúzia de dias depois), baixando a média de dez mil casos diários para sete mil. A realidade, neste momento, é de alguma estabilização ligeiramente abaixo dos seis mil, ou seja, a previsão dos sete mil para início de Dezembro é razoável, a previsão dos dez mil, feita ali por 10 ou 11 de Nombembro, parece fora de causa.

E eu, o porteiro do hotel Alcazar, previ nessa altura que uma semana depois estariam a estabilizar os números, previsão que terei falhado por dois ou três dias, talvez, e a previsão de que não íamos chegar aos números previstos pelos outros zandingas parece certa em relação ao número de casos, é mais duvidosa em relação aos internados UCI de Manuel Carmo Gomes (530 parece perfeitamente possível, estamos com 485) e a mortalidade de 100 pessoas em meados de Dezembro não é descabida (estamos por volta dos 75 diários, parece haver alguma estabilização, mas é muito cedo, é normal um desfasamento em relação ao número de casos e esta estabilização parece ser temporã).

Aqui o porteiro do hotel Alcazar sabe mais que os outros Zandingas por ter feito previsões mais certas, neste caso?

Claro que não, apenas foi por outro caminho: o primeiro achou que andar na lua era o mais adequado para falar do futuro, o segundo usa métodos mais sólidos de previsão, que assentam na mera projecção de tendências para o futuro, e o porteiro do hotel Alcazar usou o padrão de evolução da epidemia noutros países.

O que me espanta é que ao fim deste tempo todo os que fazem previsões lunáticas, e os que fazem previsões seguindo os mesmos métodos mas de forma mais sólida, nomeadamente evitando projectar tendências muito mais que uma semana, continuem a ser ouvidos como oráculos de Delfos e não como o que são: pessoas a tentar prever o futuro.

E os que usam padrões matemáticos de situações que se podem considerar similares, sejam simplesmente classificados e tratados como negacionistas.

A diversidade é uma coisa boa, ajuda-nos a gerir melhor problemas complexos, não há vantagem nenhuma em querer calar os que simplesmente usam caminhos diferentes dos nossos para pensar.

"Os pombos da senhora Alice"

por henrique pereira dos santos, em 19.11.20

É um livro de Ana Catarina André, para a colecção retratos da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

É mais jornalismo que literatura e vale a leitura: a velhice é tramada para muita gente, e convém ter isso presente quando se decide gastar o dinheiros dos impostos a impedir a TAP de falir, a promover o hidrogéneo em fases precoces da tecnologia, a desenhar paisagens sonhadas que se pagam a através de programas de transformação da paisagem orientados pelo Estado, etc..

Sendo as coisas o que são, gastar dinheiro num sítio é sempre tirá-lo de outro.

E financiar instituições é sempre limitar o financiamento das pessoas que usam estas instituições, levando as instituições a responder aos seus financiadores em vez de responder aos seus utilizadores potenciais e reais.

Conflitos de interesses

por henrique pereira dos santos, em 18.11.20

Quando hoje li a peça do Público em que se põe em causa a fundamentação científica da decisão da Relação de Lisboa sobre testes não queria acreditar que o Público tinha achado adequado pedir uma opinião sobre o assunto ao dono de um dos laboratórios que mais beneficiam com a política de testes existente.

Miguel Esteves Cardoso escreveu recentemente uma crónica sobre uma senhora que, em tribunal, quando o advogado de um dos acusados a confrontou com o facto do seu cliente negar que tinha ido para a cama com ela, como ela tinha testemunhado, respondeu qualquer coisa como, "nunca diria que sim, não acha?".

Pelos vistos no Público não lêem as crónicas que publicam e acharam bem perguntar ao dono de um laboratório se os testes que faz eram mesmo bons e servem para o que se pretende (uma declinação da habitual pergunta sobre se a mousse é mesmo caseira).

Como dizia Luís Aguiar-Conraria, exactamente a propósito de um comentário sobre este assunto em que se defendia a honorabilidade de Germano de Sousa, é bom ter bem presente que identificar conflitos de interesse não depende da honorabilidade das pessoas envolvidas e é evidente o conflito de interesses entre o facto de se ser um dos principais beneficiários da política de testes adoptada e qualquer opinião, que se pretenda independente, sobre a utilidade dessa política.

Isto não diz nada sobre a honorabilidade de Germano de Sousa, apenas diz sobre a agenda do jornalista do Público (prefiro partir do princípio de que alguém tem uma agenda a partir do princípio que é tão incompetente que não consegue identificar um conflito de interesses desta dimensão).

Para o que eu não estava verdadeiramente preparado era para ficar a saber agora que a segunda pessoa que a peça do jornalista cita é um investigador que tem dois financiamentos que dependem da mesma política de testagem.

Neste caso a questão é um bocado diferente porque o investigador escreve um artigo de opinião no Público on-line, o que o jornalista do Público cita na peça em papel, sem o investigador se lembrar de escrever uma linha, por pequenina que seja, a avisar os seus leitores do que está escrito nesta imagem.

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Portugal tem um problema sério, muito sério, de qualidade institucional.

O problema com este exemplo não é o facto de Vasco M. Barreto se pronunciar sobre a área que é objecto da sua investigação, parece-me muito bem vinda a atitude dos investigadores participarem da vida da Pólis, o problema é não ser capaz de identificar a necessidade de fazer uma simples declaração de interesses neste caso.

Com o que se passou com Centeno e a quantidade de gente incapaz de ver o conflito de interesses associado à sua transferência directa do Ministério das Finanças para o Banco de Portugal, a questão não é este exemplo que cito acima, é mesmo o grave problema de um país em que as instituições estão capturadas pelos "devoristas" e as pessoas comuns acham isso normal.

Nova York, et alii

por henrique pereira dos santos, em 18.11.20

Grande parte da argumentação contra a adopção de uma estratégia epidemiológica clássica, como a defendida na declaração de Great Barrington ou pelas autoridades suecas, assenta em especulações sem grande base empírica.

Uma das teses centrais pode resumir-se e simplificar-se nesta frase: "se cumprissem o que lhes pedimos e evitassem os contágios as coisas poderiam ficar abertas".

Outra das teses centrais é a de que uma protecção focada nos vulneráveis não protegeria eficazmente os vulneráveis, é preciso quebrar as cadeias de contágio para que a infecção não chegue aos vulneráveis.

Comecemos por avaliar este segundo argumento, avaliando se a estratégia dominante em curso tem protegido eficazmente os vulneráveis, porque esse é o cenário base contra o qual deve ser avaliada a hipótese da protecção focada, como alternativa à busca pela quebra generalizada de contágios.

À volta de 40% tem sido a mortalidade em lares, e continua a ser. Vamos esquecer as primeiras fases da epidemia em que em várias das zonas afectadas os lares foram usados como instalações de suporte aos hospitais (Lombardia, Madrid, Nova York, Bélgica, por exemplo) com resultados dramáticamente negativos.

Já depois de abandonada esta prática, os lares continuam a ser a grande origem da mortalidade, mesmo concentrando neles os esforços de protecção. Os 40% acima devem ser lidos com cuidado: na Suécia, onde para além dos 40% em lares avaliaram a mortalidade das pessoas mais velhas que tinham apoio domiciliário dos serviços sociais, a percentagem da mortalidade, somando as duas situações, ronda os 70%.

Note-se que, com uma doença que afecta sobretudo os mais frágeis dos mais velhos (não entendo as sistemáticas referências deste tipo "Os jovens em geral não morrem. Mas os idosos sim. E a sua morte é dada como certa." pela ansiedade injustificada que criam em milhares de pessoas fragilizadas: nove em cada dez pessoas com mais de setenta anos não morrem quando são infectadas, e sendo verdade que 10% é uma percentagem elevadíssima que  não pode ser desvalorizada, também é certo que quase todos esses 10% têm outras fragilidades para além da idade, sendo completamente escusado andar a assustar pessoas de 90 anos que não têm, à partida, nenhuma razão para supôr que um teste positivo, que era melhor que não existisse, é um anúncio da sua morte certa e próxima) é natural que as percentagens de mortes de pessoas que estão em lares ou recebem apoios sociais sejam muito altas, porque são as pessoas com menos autonomia que, maioritariamente, estão em lares ou precisam de cuidados de terceiros para o seu quotidiano.

Ou seja, em primeiro lugar, convém ter muito clara a ideia de que a actual estratégia também não tem protegido eficazmente os mais frágeis e, dito isto, gostaria de deixar claro que não tenho nenhuma certeza de que seja possível ser doutra maneira, o que me interessa é apenas discutir se concentrar esforços a tentar fazer isso não será mais útil que dispersar esforços a parar o vento com as mãos.

Discutamos agora a ideia de que "se cumprissem o que lhes pedimos e evitassem os contágios as coisas poderiam ficar abertas".

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Estes quatro gráficos dizem respeito a duas regiões vizinhas do mesmo país: o estado do Illinois, um estado sem ninguém com umas cidadezinhas rurais simpáticas, como Chicago, e o estado de Nova York, uma cidade de perdição em que as pessoas se misturam em altas densidades.

Não esqueçamos que a comparação entre casos até Abril e Maio e daí em diante é estultícia, porque a disponibilidade de testes e opções de testagem são completamente diferentes, mas é útil a comparação dos diferentes estados na mesma altura, para além da mortalidade que, apesar de tudo, é um indicador relativamente fiável.

Ora o que verificamos é que ou as pessoas de Nova York não cumpriam nada e as de Chicago cumpriam tudo em Março/ Abril e agora inverteram os comportamentos, ou simplesmente a evolução da epidemia tem outras forças modeladoras mais fortes que essas explicações simples e simplistas.

Aliás o padrão verifica-se abundantemente pelo mundo, com as localizações mais poupadas na primeira fase a ter incidências e mortaldidades na segunda época (é o que acontece na Europa de Leste, por exemplo, mas também me muitos estados americanos), as zonas mais afectadas inicialmente a suportar melhor a segunda época (aparentemente o vírus não lê o que se escreve sobre a inexistência de uma progressiva imunidade de grupo) e uma zonas de transição, medianamente poupadas no primeiro Outono/ Inverno e agora medianamente afectadas no segundo Outono/ Inverno, como Portugal ou, surpresa das surpresas, a Alemanha, que hoje chegou à media de sete dias de 198 mortes diárias, semelhante às 200/ 220 da mesma média em Março/ Abril.

Provavelmente há quem acredite que os Alemães não aprenderam nada da Primavera para agora e deram em malucos promotores de festas e jantares de família, sendo por isso que estão, em mortalidade, nos níveis semelhantes aos da Primavera passada.

Pessoalmente acho que há simplesmente um viés que impede pessoas inteligentes, cultas e informadas de ver o que está à frente no nariz.

Vasco M. Barreto, um comentador de muito bom nível deste blog, que teve a paciência de fazer uma série de posts sobre mim no seu próprio blog, só para demonstrar como tudo o que eu dizia da epidemia era uma patetice (depois deve ter percebido que ao contrário do princípio, em que para além de André Dias e eu, pouca gente mais apresentava dúvidas sobre o modelo de gestão da epidemia que estava a ser adoptado, que eu não tinha importância nenhuma e as dúvidas entretanto se tinham espalhado à boleia dos vários cientistas credenciados que lhes iam dando visibilidade e credibilidade) dá hoje, no Público, uma das melhores demonstrações desse viés que já vi.

Duas juízas do tribunal da relação fazem um acórdão demolidor para a gestão da epidemia, como referi no meu último post. O Público, que primeiro ignorou o acórdão (como ignorou a manhosice da licenciatura de Sócrates), acabou por deixar de o poder fazer, e portanto fez uma peça a descredibilizar o acórdão (não vou fazer nenhum comentário sobre o paralelismo com a licenciatura de Sócrates).

Para isso convida uma pessoa com interesses fortíssimos no negócio dos testes - Germano de Sousa - e Vasco M. Barreto para comentarem o acórdão.

Diz o acórdão (ao contrário dos jornalistas, eu cito o original, e não a citação escolhida pelo Público): “A um limiar de ciclos (ct) de 25, cerca de 70% das amostras mantém-se positivas na cultura celular (i.e. estavam infectadas): num ct de 30, 20% das amostras mantinham-se positivas; num ct de 35, 3% das amostras mantinham-se positivas; e num ct acima de 35, nenhuma amostra se mantinha positiva (infecciosa) na cultura celular (ver diagrama). Isto significa que se uma pessoa tem um teste PCR positivo a um limiar de ciclos de 35 ou superior (como acontece na maioria dos laboratórios do EUA e da Europa), as probabilidades de uma pessoa estar infectada é menor do que 3%. A probabilidade de a pessoa receber um falso positivo é de 97% ou superior”. Note-se que esta citação é uma mera tradução de um artigo científico cujo original está reproduzido no acórdão, em nota de rodapé.

Vasco M. Barreto considera as afirmações das juízas falsas e irresponsáveis e, no caso concreto desta citada, argumenta (de acordo com o que o Público diz que Vasco M. Barreto diz): "a informação não é precisa. Por exemplo, no Cedoc, onde Vasco M. Barreto trabalha, para 42% dos testes positivos foram precisos apenas 25 ou menos ciclos e há evidência científica da alta capacidade de propagação do vírus de casos "positivos" a menos de 25 ciclos".

Ou seja, Vasco M. Barreto não diz nada sobre o que quer contestar, confirma que só acima de 25 ciclos é que 58% dos testes são positivos, ou seja, confirma o que dizem as juízas: um teste positivo com 35 ciclos ou mais não dá garantias suficientes para se pôr alguém em prisão domiciliária porque é infecciosa.

E estamos nisto há meses: repetições absurdas que argumentos a que falta sustentação empírica, com base nos quais se tomam medidas com efeitos sociais e económicos negativos demonstrados empiricamente, para lá de qualquer dúvida razoável.

Nestas circunstâncias, o que acha Sakelarides e outros que recentemente têm escrito?

Que não é altura para ter opiniões, o que é preciso é perfilarmo-nos todos atrás do caudilho e é inaceitável que se dê tanto espaço mediático a quem tem dúvidas sobre a bondade de uma sociedade se perfilar atrás de um caudilho, adiando toda a capacidade crítica para quando o caudilho nos levar outra vez às terras onde corre o leite e o mel.

O estado da imprensa

por henrique pereira dos santos, em 17.11.20

Há já vários dias que é conhecido um acordão do Tribunal da Relação de Lisboa que é arrasador para a gestão da epidemia, quer porque questiona a legalidade da quarentenas, quer porque questiona a utilidade dos testes PCR, tal como têm vindo a ser usados.

O acordão chegou ao meu telefone há 4 dias, no dia 13 de Novembro.

Aparentemente parte do jornalismo achou irrelevante o facto de um tribunal fazer equivaler as quarentenas a detenções ilegais, fora o resto. A Sábado, honra lhe seja, e talvez outros que eu não tenha visto, trataram do assunto há três dias.

Mas hoje o Jornal de Notícias faz manchete de primeira página com esse acordão (não sei o que diz a notícia) e, em consequência, quer o Observador, quer o Público, finalmente perceberam que o acordão existe e a sua importância.

Em qualquer caso, o Público e o Observador (foram os que li) omitem qualquer referência à contestação da utilização dos testes feita pelo Tribunal da Relação de Lisboa, apenas noticiando as questões relacionadas com a ilegalidade das quarentenas.

Calculo que o Jornal de Notícias omita também as referências a esse aspecto bem relevante do acordão.

A razão para eu pensar assim é deprimente: os dois jornais que li, para fazer as suas peças, que assinam - apesar de em grande parte do texto serem iguais, portanto calculo que sejam basicamente trabalho da Lusa - não têm o menor pejo em citar o Jornal de Notícias, sem nunca dar a menor ideia de que tenham lido o acordão, como um dia destes disse que fez uma jornalista do Público que, em vez de ir às fontes primárias - nesse caso, o ECDC, neste o acórdão - preferem citar jornais que citam as fontes primárias.

Raios vos partam, caramba, se querem leitores que vos garantam o ordenado trabalhem com um mínimo dos mínimos do respeito pelos vossos leitores, façam alguma coisa de jeito, ou acham que é por afirmar muitas vezes que fazem serviço público que ficam dispensados de fazer bem feito o vosso trabalho?

"Que farei quando tudo arde?"

por henrique pereira dos santos, em 16.11.20

“Não espera razões, tudo é despeito,
tudo soberba e força; faz, desfaz,
sem respeito nenhum; e quando em paz
cuidais que sois, então tudo é desfeito.”
Sá de Miranda

A verdade é que não me liberto desta maldição de estar sempre a escrever sobre a epidemia

A experiência social

por henrique pereira dos santos, em 14.11.20

Uma amiga que não conheço (estranho mundo este) recusou-se a aceitar a classificação de "experiência social" que usei para falar da gestão da epidemia.

Argumentou que as pessoas que tomam decisões, e as que apoiam tecnicamente quem toma decisões, simplesmente chegaram à conclusão de que não havia alternativa a estas opções de gestão da epidemia, mas não pretendem fazer experiência social nenhuma.

O que pretende quem toma decisões, e quem apoia tecnicamente quem toma decisões, e quem apoia socialmente quem toma decisões, é matéria em que não me meto: o mundo é grande e diverso e com certeza há muitas intenções diferentes dentro dos três grupos que referi acima.

Centremo-nos no que é objectivo.

Que é uma experiência social o que estamos a viver, não vejo como negar.

Nunca, em nenhuma altura da história, se pretendeu esmagar um vírus, ou manter a pressão na mola, para manter o elevado nível do discurso oficial sobre o assunto, através da supressão dos contactos entre pessoas saudáveis.

Isso é uma novidade absoluta e, forçosamente, uma experiência social que consiste em formatar todos os contactos sociais de uma espécie gregária, e com estruturas sociais complexas, em função do objectivo único de bloquear a actividade de um vírus.

Pode argumentar-se que não há alternativa a esta opção para bloquear um vírus que nos ameaça.

Este pressuposto exige respostas a duas questões centrais "sine qua non":

1) A ameaça é de tal ordem que justifique os efeitos negativos associados a essa opção?

2) Mesmo que o seja, esta opção é exequível e gera o resultado previsto?

Deveria ser na resposta a estas duas questões que deveria entrar a ciência ou, pelo menos, o tal apoio técnico à decisão, deixando a decisão, que é forçosamente social e política, a quem tem legitimidade para definir "o bem comum": os nossos representantes, não os técnicos.

A ciência, ou tecnicidade, por trás das respostas que têm sido dadas a estas duas perguntas é, infelizmente, nenhuma.

A resposta à primeira pergunta, insuflada e validada pela Organização Mundial de Saúde, não se tem baseado em mais que modelação matemática cuja adesão à realidade é, para ser delicado, questionável.

A resposta ao escrutínio sobre a imensa distância entre os resultados dos modelos e a verificação da realidade é a de que as medidas adoptadas para controlar a epidemia têm sido muito eficazes, ao ponto de reduzirem a incidência da infecção entre dez a vinte vezes (é essa a diferença que se verifica entre os resultados dos modelos e a realidade).

Só que essa resposta tem um problema central: ninguém, até agora, demonstrou com a dados da experiência dos últimos oito meses, de forma clara, de que forma essas medidas conseguiram esse resultado, e como se explicam diferenças brutais de incidência em localidades sujeitas às mesmas medidas, nem como se explicam semelhanças estruturais das curvas de evolução da epidemia por regiões, independentemente das medidas diferentes em cada local. A resposta a estas objecções tem assentado, de novo, em modelação matemática que tem como pressuposto o que se pretendia demonstrar: o efeito das medidas.

Para além de, naturalmente, estar a ser difícil explicar a simultaneidade, geográfica e temporal, das variações da curva da epidemia, ao arrepio dos resultados das tais modelações matemáticas (são os modelos que têm vindo a seguir a realidade em vez de cumprirem a sua única função útil, que é prevê-la).

A resposta à segunda questão, a da exequibilidade da aplicação da solução adoptada - bloquear a actividade víral pela supressão dos contactos sociais - é a de que, salvo condições muito estritas, como na Nova Zelândia, o facto é que tem sido impossível reduzir os contactos abaixo de níveis considerados eficazes, com a agravante de que as tentativas para o conseguir estarem a fazer crescer exponencialmente (posso usar também aqui o peso desta palavra, mesmo quando na realidade não quer dizer grande coisa, podemos estar a falar de exponenciais mais ou menos preocupantes?) os efeitos sociais negativos que lhes estão associados.

É aqui que voltamos à tenebrosa experiência social em que estamos metidos para fazer notar o seguinte:

a opção entre bloquear a actividade viral por supressão dos contactos sociais, ou adoptar o modelo de protecção focada nos vulneráveis que conhecemos da epidemiologia clássica (não há como coisas destas para revelar os vultos intelectuais mundiais que se escondem em Portugal, como é o caso do pneumologista Filipe Froes, durante tantos anos ignorado pela inteligentzia mundial da epidemiologia, que agora pode finalmente reduzir os regentes de epidemiologia de Oxford, Harvard e Stanford à sua real condição de três médicos, nada mais que isso), é uma opção social e política com muito pouca relação com questões médicas.

Somos nós, os nossos jornais (extraordinária a peça de hoje do Público em que Maria João Guimarães aplica as técnicas de jornalismo mais sofisticadas como citar os relatórios do ECDC europeu a partir do Guardian, e não do original, para zurzir na Suécia), os nossos técnicos de saúde, a nossa Direcção Geral de Saúde (aproveito para explicar por que razão critico tão pouco Graça Freitas, penso que é uma vítima da epidemia, e não mais que isso), os nossos políticos (ontem era o Vice-Presidente do PSD a querer já que evitássemos a onda de Março/ Abril, que esta em que estamos já está a borregar) que decidimos, em conjunto, atirar cem anos de epidemiologia pela janela, trocando-a por uma bruxaria moderna que substitui bolas de cristal por ecrans de computador.

Há muitos cientistas envolvidos nisto, isso é certo, mas ciência, muito pouca.

Os horários dos invisíveis

por henrique pereira dos santos, em 13.11.20

Com a eventual abertura de supermercados às seis e meia da manhã apareceu uma espécie de coro grego a falar da violência dos horários dos trabalhadores.

A mim fez-me lembrar o barulho que foi quando no tempo de Passos Coelho se pôs a hipótese de fechar o Metro às onze, em vez da uma da manhã, para reduzir custos operacionais, o que gerou um barulho gigantesco por parte da tout Lisbonne que escreve e fala de forma audível, sem que ninguém aproveitasse para defender que se era para fechar às onze da noite, o Metro começasse às cinco, em vez das seis e meia.

Compreende-se, os milhares de trabalhadores que cruzam o Terreiro do Paço a correr entre os barcos e autocarros a essas horas são completamente invisíveis para muita gente: são pobres, maioritariamente pretos e mulatos, não lêem jornais, não dão entrevistas e não querem confusões que desfaçam o frágil equilíbrio das suas finanças.

E ainda por cima fazem trabalhos pouco criativos, como limpar os escritórios e casas que queremos impecáveis, ainda tendo de aturar o cinismo politicamente correcto de Francisco Louçã a falar da "senhora que ajuda lá em casa" para designar o trabalho que fazem e que só valorizamos quando alguma coisa ficou desarrumada ou menos bem limpa.

Já agora, por falar em hiprocrisias sobre limpezas, talvez caiba aqui lembrar que nos tempos do confinamento da Primavera, quando a burguesia que pretende deter o monopólio da compaixão pedia aos seus pares para por favor deixarem as suas empregadas ficar em casa, pagando-lhes por inteiro, para não as expor à infecção, a CGTP mantinha o serviço de limpeza da sua sede, um outsourcing que diz mais sobre os efeitos da lei laboral que outra coisa qualquer, quando até a CGTP prefere contratar empresas externas a dar vínculos definitivos aos trabalhadores que garantem a limpeza das suas instalações.

A que horas pensam que se levantam os padeiros, os distribuidores de jornais, os merceeiros, os polícias, etc.?

Quando a Rosarinho abria o quiosque às cinco e meia, e a pastelaria abria pelas seis, eu não era o único cliente habitual, ou menos habitual, a estar por ali a beber um café e ler o jornal, depois de ter vindo pela rua a cumprimentar as senhoras que estavam a acabar o seu turno na minha rua, essas também com um horário difícil (uma delas ainda me deve um euro para tabaco, que a noite tinha sido má, ainda me cruzo com ela de vez em quando por aqui, mas dou por muito bem gasto esse euro que nunca me pagará, à conta das vezes que a ouvi cantar fado muitíssimo bem, nos dias em que lhe dava para aí).

Há vidas duras, há vidas muito duras, e há as nossas vidas, as de quem pode escolher horários e preços e ainda ter tempo para vir achar que não há ninguém que vá ao supermercado às seis e meia da manhã, só porque no conforto das vossas vidas são incapazes de imaginar que o mundo é muito grande e diverso, e que o vosso mundinho não é o mundo.

Daí não viria mal ao mundo se esse barulho todo não fosse feito pelas elites que se conseguem fazer ouvir por governos fracos que passam a tomar decisões em função desse bruáá, sem a menor consideração pelas vidas dos outros, os invisíveis.

E já agora, uma vez por outra, a comprar o jornal no quiosque ainda me cruzei com Alexandre Soares Santos, a caminho de qualquer sítio, a comprar o jornal sem sequer sair do carro, algures entre as seis e as seis e meia.

Dar contexto

por henrique pereira dos santos, em 12.11.20

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Publicar, com alguma regularidade, este gráfico sobre a mortalidade em grande parte da Europa não é desvalorizar a epidemia, é dar-lhe contexto.

A mortalidade, com todas as suas dificuldades de registo e interpretação, continua a ser o dado mais fiável para avaliar o efeito de uma epidemia.

Claro que é preciso saber que a mortalidade tem um desfasamento em relação à infecção, detecção de casos e hospitalizações, e claro que é preciso saber que ninguém sabe como vai evoluir a mortalidade no resto do Outono/ Inverno, mas isso não invalida um facto central: até este momento, esta época de Outono/ Inverno está a ser diferente por provocar uma mortalidade excessiva mais cedo (volta da semana 41 em vez das semanas 46 ou 47), mas não há nenhuma razão para se insistir no discurso de que se está a passar alguma coisa nunca vista, até agora a mortalidade excessiva está ao nível normal de qualquer dos anos anteriores.

O Pingo Doce e os impostos nos Países Baixos

por henrique pereira dos santos, em 12.11.20

É certinho: sempre que há qualquer questão com o Pingo Doce, há dezenas de pessoas a falar dos impostos que o Pingo Doce pagará nos Países Baixos.

O Pingo Doce, tal como a Padaria Portuguesa e outras empresas de sucesso em Portugal que se recusam a ceder à chantagem de sindicatos com representatividade marginal nos seus trabalhadores, são regularmente malhados por boa parte dos portugueses pelo crime hediondo de criar riqueza.

Até aqui, nada de novo, a opção portugueza pela pobreza é uma evidência com uma longa história, que se fundamenta, em grande parte, no facto de haver uma fracção muito importante da população que jamais deixará que os factos influenciem as suas opiniões.

É por isso que por mais que se explique que o Pingo Doce paga os seus impostos em Portugal - incluindo a grossa maquia da tributação do trabalho que resulta de ser dos maiores empregadores nacionais e o Estado achar boa ideia tributar os factores de produção em detrimento da tributação do consumo - e que é a holding que detém o Pingo Doce que paga impostos nos Países Baixos (como todas as maiores holdings portuguesas), nunca se deixará de ouvir a conversa de que o Pingo Doce não paga impostos em Portugal.

Em traços largos, se eu tiver uma barbearia, uma pastelaria e um bate-chapas, o Estado considera que o dinheiro que eu consiga ganhar com estas empresas, depois de deduzidos todos os impostos, é meu e eu posso gastá-lo onde quiser, incluindo o clássico mulheres e vinho verde, que ninguém tem nada com isso.

Mas se resolver consolidar estas três empresas numa holding, cujas receitas sejam o tal dinheiro que seria meu sem holding nenhuma, há uns espíritos iluminados que querem voltar a tributar esse dinheiro.

Naturalmente, o mais razoável é fazer a holding num país em que esses iluminados mandem pouco e, de preferência, escolho um país com um bom rating porque isso influencia o rating da minha holding e me facilita o acesso ao crédito que preciso para gerir as minhas empresas.

Por isso todas as grandes holdings portuguesas estão fora de Portugal.

O que exige o povo português?

Um sistema fiscal mais simples e inteligente, mais amigo da criação de riqueza?

Não, o que exige é que o Estado se substitua às empresas e tome decisões de gestão corrente como definir horários de abertura de lojas e coisas que tal, independentemente do resultado final ser menor criação de riqueza e ficarmos todos mais pobres.

Carlos Guimarães Pinto fez hoje um post exemplar exactamente a chamar a atenção para o verdadeiro caso de estudo que é a relação de uma das poucas multinacionais portuguesas bem sucedidas com a sociedade que serve e com a qual cria riqueza.

Sermos um país pobre não é karma, é mesmo a nossa opção.

Ribeiro Telles

por henrique pereira dos santos, em 11.11.20

Pelo Vasco Rosa, no Observador, fiquei a saber que morreu Ribeiro Telles.

Serei, talvez, dos poucos arquitectos paisagistas com críticas públicas feitas a Ribeiro Telles, que aliás começam no tempo em que fui seu aluno (por exemplo, aqui).

Um dia num blog fiz uma crítica a um jardim projectado por Ribeiro Telles (não encontro esse post). Poucos dias depois, por circunstâncias fortuitas, levei uns sobrinhos meus a esse jardim. De repente reparo num senhor que vem direito a mim, e acto contínuo reconheço Ribeiro Telles. Imediatamente me fala da conservação do jardim, repetindo duas ou três vezes que era sempre o mesmo problema, a manutenção comprometia frequentemente o projecto.

Conhecendo-o como conhecia, concluí que alguém lhe terá mostrado a crítica que fiz ao jardim e que Ribeiro Telles, com a mulher, aproveitou a primeira ocasião para ir ver directamente o assunto com os pés bem na terra e os olhos abertos. Como me viu, aproveitou para, de forma directa e clara, responder à crítica sem nunca se lhe referir.

Sempre o conheci assim: terra a terra, directo e com uma capacidade imensa de ouvir críticas sem se perturbar e, mais importante, sem as desvalorizar, por mais que discordasse delas.

Da última vez que estive com Ribeiro Telles, há já uns anos, ia eu a correr pela Rua de São José abaixo, atrasado para um compromisso - e como eu detesto atrasar-me - quando ao passar por um café reparo em Ribeiro Telles, sozinho a ler o jornal numa mesa.

Parei, voltei atrás e entrei para o cumprimentar, o que provavelmente não faria com muita gente, dado o atraso.

Como sempre, começou a fazer perguntas, verdadeiramente interessado no que se passava à sua volta e quando lhe falei da compra de terrenos em que estava envolvido por via de uma associação de conservação da natureza, sorriu da forma que sempre o caracterizou, com uma ligeira troça, e perguntou se não era mesmo para especular e explorar turisticamente.

Sempre o conheci assim, curioso, interessado e sem ponta de pretensões ou tiques de figura pública, respondendo-me a mim, um ex-aluno sem nenhuma relevância, ou à pessoa mais importante do mundo, com a mesma atitude.

Sabia que a notícia da sua morte provavelmente não demoraria muito mas, ainda assim, preferia que tivesse sido amanhã.

Zandinga ataca de novo

por henrique pereira dos santos, em 11.11.20

António Diniz, pneumologista e membro do grupo que acompanha a covid na ordem dos médicos, diz que daqui a 15 dias vamos ter, por dia, 125 novos doentes com covid nos cuidados intensivos.

Manuel Carmo Gomes, biólogo e professor de epidemiologia, diz que vamos ter 10 mil casos de covid por dia, no princípio de Dezembro, 530 internados em UCI uma semana depois e uma mortalidade à volta das cem pessoas por dia na primeira quinzena de Dezembro.

Eu, porteiro do hotel Alcazar, digo que dentro de uma semana, ali por meados do mês de Novembro, estaremos a parar o crescimento do número de casos diários e portanto não vamos chegar aos números citados acima (sendo mais preciso, um dia ou outro com dez mil casos não significa nada fora desta minha previsão Zandinga, uma média a sete dias de 10 mil casos, sim, significa que a previsão está errada).

Agora é simples, é deixar correr o tempo e ver quem fica mais próximo da realidade (errar vamos todos errar, isso é seguro).

Os dois de cima são mais sabedores e inteligentes que eu, de maneira que vão já avisando que os cenários que fazem é se nada for feito, mas se as medidas forem eficazes, os números ficarão abaixo.

Aliás, dizem o mesmo há meses: que é preciso diminuir os contactos (primeiro para assegurar a capacidade de encaixe do Serviço Nacional de Saúde, no período em que era evidente haver uma grande folga nos serviços de saúde, passou a ser para liquidar a actividade viral na origem, agora volta a ser para proteger o serviço nacional de saúde, mas o resultado é sempre o mesmo, recomendar mais e mais medidas para impedir as pessoas e a sociedade de serem o que são. No fundo, estão a pedir à economia que pague a falta de investimento do serviço nacional de saúde, não através dos impostos cuja alocação é da responsabilidade dos governos, mas através de decisões administrativas, não escrutináveis na sua fundamentação, suportadas no aparelho repressivo do Estado).

Quando as coisas acalmam, é porque os portugueses foram fantásticos e confinaram mesmo antes do Governo impôr medidas, quando as coisas correm mal, as medidas foram ineficazes e os portugueses são uns bandalhos que só querem é visitar a família, em vez de ficarem quietos em casa, como deviam.

Nesta altura explicarem quanto vale cada medida de contenção da epidemia - por exemplo, quanto se espera que o recolher obrigatório ao fim de semana represente de dimunuição face ao que prevêem - isso já é mais difícil, nenhum se atravessa e limitam-se a dizer que apoiam todas as medidas que diminuam contactos, porque todos os contactos contam.

Quando alguém lhes pergunta se não acham uma tragédia humanitária estimar-se em 100 milhões o número de pessoas que foram empurradas para baixo do limiar que define a miséria extrema, respondem, com ar grave e sério, que isso já são outras questões, os seus comentáros são estritamente epidemiológicos e científicos, todas essas questões económicas e sociais são de outra esfera sobre a qual não têm opinião (com razão, que opinião científica se pode ter sobre 100 milhões de pessoas empurradas para a miséria extrema?).

Como eu sou um bocado mais básico limito-me a dizer que se dentro de uma semana os números não estiverem a estabilizar ou descer, é porque a minha previsão está errada e eu disse asneiras, demonstrando-se, mais uma vez, que percebo pouco de epidemias e que isto evolui de forma diferente da que eu estava convencido que ocorreria.

E, em percebendo isso, mudo de opinião com a maior das tranquilidades.

Pessoas

por henrique pereira dos santos, em 10.11.20

"Um dia fui falar com a engenheira na Câmara e disse-lhe: Engenheira, é preciso queimar aquela área rapidamente pois aquilo não tarda pode arder.

Ela respondeu que agora não podia ser, que o tempo não era favorável e tal…

Eu disse-lhe: Engenheira, eu não me responsabilizo!

A caminho de casa, passei no sítio, acendi com o isqueiro e aquilo queimou logo."

Há semanas seguidas que quase só escrevo sobre a epidemia.

Invasões

por henrique pereira dos santos, em 09.11.20

Como tinha uma reunião a caminho da qual poderia passar pelo talhão em que, voluntariamente, vou fazendo o meu braço de ferro com as mimosas, às sete da manhã lá estava a descascar acácias.

As espécies invasoras são um dos problemas mais dificeis de gerir em conservação da natureza ao ponto de haver um número cada vez maior de técnicos de conservação que acham que, uma vez estabelecidas populações viáveis de invasoras, suficientemente grandes, mais vale aceitar o facto e deixar de gastar de recursos no seu controlo.

Qualquer pessoa que conheça o problema da introdução de espécies invasoras em novas geografias sabe perfeitamente que é completamente idiota usar a mesma estratégia na fase de contenção - quando a presença da invasora é detectada precocemente, está geográficamente contida e uma acção determinada tem alguma probabilidade de sucesso na erradicação da espécie - e na fase de mitigação - quando a espécie está largamente disseminada e não há qualquer hipótese de ter recursos suficientes para a erradicar, passando apenas a falar-se do seu controlo ou da sua gestão.

No caso das várias acácias - são várias, na Mata da Machada, de que falo, são sete diferentes -, do chorão - não da árvore mas daquela planta rasteira carnuda e com uma flores belíssimas -, da háquea, do bico de lacre, dos papagaios de kramerii, do achegã, dos penachos, e muitas e muitas outras espécies, não faz sentido, nas nossas condições, falar de erradicação, mas apenas de controlo.

É raro haver vacinas para conter a expansão de invasoras, embora o trabalho notável de Hélia e Elizabete Marchante, usando elementos biológicos para bloquear a produção de sementes da acácia de espigas, se possa considerar como uma espécie de vacina.

Mas há tratamentos.

Claro que a coisa mais eficaz a fazer é evitar que se instalem novos focos de invasão: uma planta isolada, tanto quando possível, deve ser eliminada antes que tenha tempo para se instalar e reproduzir, dando origem a uma mancha nova de invasoras.

Mas essa é uma situação relativamente difícil de acontecer nos 9 milhões de hectares do país, onde todos os dias os processos naturais ocorrem, indiferentes às nossas opiniões sobre eles.

O mais provável é ninguém ligar nenhuma a uma invasão até que ela tenha uma dimensão que comece a ter efeitos negativos reconhecíveis.

É aí que há escolhas sobre os diferentes modelos possíveis.

O mais habitual é o modelo bruto de quem reconhece o problema mas não o estuda o suficiente para saber como lidar com cada uma das invasoras: gerir acácias não é o mesmo que gerir háqueas. O mais vulgar, nessas circunstâncias, até por ser o mais intuitivo, é procurar os meios para poder arrasar aquilo tudo, numa intervenção musculada, cara e com resultados espectaulares no curto prazo. O resultado, passadas as primeiras impressões, é desastroso e o efeito de boomerang agrava substancialmente o problema, sendo mais difícil controlar as invasoras e, entretanto, os recursos foram gastos.

No outro extremo estão os que acham que não vale a pena e encolhem os ombros. Menos mal, pelo menos não agravam o problema, mas a invasão vai-se expandindo lentamente.

Há ainda os que acham que todas as acções contam, por pequenas que sejam, e vão fazendo intervenções dispersas, às vezes bem feitas, quase sempre bem intencionadas, mas sem persistência, são "um vôo cego a nada": a árvore morre com um descasque bem feito, mas a invasão prossegue porque está lá todos os dias e nós só estamos em alguns dias, a fazer intervenções pontuais, sem continuidade.

O "tem de se fazer qualquer coisa, que aquilo não pode ficar assim" é dos maiores problemas da gestão de invasoras porque consome a maior parte dos recursos, incluindo o inestimável recurso que é a vontade de resolver o problema, consumido pela desilusão da falta de resultados.

As invasoras gerem-se com suavidade e persistência, com brutalidade e persistência, com astúcia e persistência, com boa vontade e persistência, com investigação e persistência, qualquer que seja a abordagem, a questão chave é a persistência.

Abandonar a guerra a meio é perdê-la, não há meias vitórias ou empates nesta matéria.

Pretender brutalmente submeter as invasoras à força dos recursos que temos é também perder a guerra.

A única hipótese de ter alguns resultados - não, não é erradicar, é apenas limitar o problema de maneira a que não cresça ao ponto de causar perdas irreparáveis de biodiversidade, de serviços de ecossistema, etc. - é ter a humildade de saber que só no longo prazo, com intervenções sistemáticas no mesmo sentido, que estejam dentro dos recursos disponíveis, se podem atingir objectivos previamente definidos.

Como disse no início, é por isso que no talhão pelo qual estou responsável, vou passando uma vez por outra, insistindo do pequeno para o grande, de fora para dentro, de montante para juzante, de forma a ir limitando a expansão, primeiro, e enfraquecendo a invasão, segundo e, com alguma sorte e persistência, limpar aquele triângulo de mimosas daqui a alguns anos.

Se por acaso algum leitor habitual, ao chegar aqui, respirou de alívio por, finalmente, eu escrever sobre outro tema que não a epidemia, tenho pena de desfazer a ilusão, mas é mesmo disso que estou a falar, também.

Chão comum

por henrique pereira dos santos, em 06.11.20

pinóquio.jpg

Este boneco apareceu algures, no meio de uma discussão sobre a epidemia.

Ao que parece, a intenção de quem fez o boneco era demonstrar que eu sou um idiota e só digo coisas idiotas sobre a epidemia, destacando a frase assinalada, esquecendo o que a precede.

Não me interessa nada discutir se sou idiota ou não, dou isso de barato, o que me interessa é a ideia de que vale a pena ler a frase em causa sem ler o que a precede. Os gráficos apresentados no boneco são a demonstração do que é dito sobre a excepção à frase em causa, sendo discutível o rigor de caracterização que fiz das situações intermédias que se verificam em Portugal, referido por mim, Suíça e Áustria, que estão no boneco.

Já agora, para se ter a perspectiva sobre o que se está a passar na Europa no que diz respeito à mortalidade, o ideal é sempre olhar para o Euromomo, que assinala já alguma mortalidade excessiva, um pouco mais cedo que o habitual para as doenças pulmonares infecciosas, cuja comparação com o pico da primeira época da Covid é muito instrutiva.

semana 44.jpg

Acho normal que se critique a falta de rigor, ou as asneiras que realmente escrevo, o que acho pouco útil é a ideia de que faz sentido ler uma frase fora do seu contexto para ilustrar o pensamento de terceiros, expressa pela pessoa que primeiro me chamou a atenção para este boneco, insistindo que eu estava a dizer coisas que de facto não disse: "“Acho que ainda não percebeu, que eu não tenho nenhuma intenção de manter conversa com esta gente. … Ser ignorante sobre os factos existentes não significa que exista "incerteza". Brincar com "incertezas" é o que fazem os negacionistas para criarem dúvidas na população. Ignorância ou negação não é incerteza. … A incerteza é sua, as dúvidas são suas, a ciência não tem que andar a responder às suas dúvidas quando tais dúvidas estão mais que respondidas.”

É esta maneira de olhar para a divergência "Brincar com "incertezas" é o que fazem os negacionistas (eu, no caso) para criarem dúvidas na população", típica de cabeças totalitárias, que é preocupante: o populismo não tem geração espontânea, nasce da vontade de queimar qualquer chão comum que possa existir entre pessoas diferentes.

É preciso criar um ponto de vista moralmente desqualificado - criar dúvidas na população durante uma epidemia, tendo como resultado favorecer a progressão do surto - atribuí-lo a terceiros que se juntam num rótulo - negacionistas - para fundamentar a opção de bloquear qualquer divergência e tornar impossível qualquer discussão civilizada.

Felizmente a vontade de "esmagar os negacionistas" raramente assume a forma ilustrada acima, não há assim tantos trogloditas, de maneira geral manifesta-se de forma mais civilizada.

Carlos Antunes é um matemático que trabalha no grupo de Manuel Carmo Gomes e faz umas análises interessantes sobre a evolução da epidemia (já agora, o último post que fez no facebook foi exactamente a dizer que há um conjunto de países em que já é observável um abrandamento do crescimento de novos casos), sendo absolutamente civilizado a responder às críticas, mesmo quando elas próprias são pouco civilizadas.

O que me deixa nervoso é sentir a falta de vontade de verdadeiramente discutir a realidade, confrontando as análises que faz com as críticas, que ilustro com um pequeno episódio.

Num post sobre a mortalidade excessiva (em que Carlos Antunes tem toda a razão em moderar a ideia de que toda a mortalidade excessiva não covid resulta de redução de cuidados de saúde prestados, o que está longe de ser verdade), Eduardo Rego, outro matemático, pede esclarecimentos sobre uma falácia da análise: “De qualquer modo, devo chamar a atenção que as suas estimativas assentam numa falácia: considerar que as mortes por covid saem fora do efeito do excesso por envelhecimento! Num modelo realista algum parâmetro deveria ser atribuído para o efeito de absorção pela covid da susceptibilidade devida ao envelhecimento. E o ideal seria então apresentar várias estimativas em função desse parâmetro. Já que, claro, o valor dessa absorção só no futuro poderá ser estimado com alguma realidade. Supôr que as vítimas de covid, que na sua larga maioria são (muito) idosos, sobreviveriam não fosse por ela, não contribuindo assim para o excesso de mortalidade "por envelhecimento", é uma simplificação incompreensível.”

O observação é clara, civilizadíssima e bastante certeira: a mortalidade covid não se soma inteiramente à mortalidade esperada, é de esperar, tendo em atenção o perfil da mortalidade covid, que grande parte dos que morrem com covid (sem entrar na discussão sobre como se regista essa morte, é notório que prefiro discutir isso a partir da mortalidade excessiva, e não a partir de classificações administrativas) tivessem uma baixa esperança de vida e não é absurdo admitir que dois terços das pessoas que morrem com covid morreriam de outra razão qualquer no prazo de um ano.

Gostaria de ser claro num ponto: é melhor morrer seis meses mais tarde que seis meses mais cedo, fazer a constatação anterior não traduz qualquer desvalorização dessas mortes, é apenas uma constatação para explicar por que razão tratar o conjunto de mortes covid e o conjunto de mortes esperadas como conjuntos disjuntos é "uma simplificação incompreensível".

O normal seria que, perante uma crítica clara, civilizada e bastante sustentada, Carlos Antunes procurasse fundamentar a opção que fez ou, concordando com a crítica, alterasse os pressupostos da sua análise.

Para meu espanto e desilusão, não foi nada disso que se passou: Carlos Antunes ignorou a crítica por várias vezes e quando à última insistência resolveu responder, chutou para canto, sem a menor intenção de aproximar a sua análise da realidade, incorporando a ideia de que grande parte da mortalidade covid diz respeito a pessoas cuja esperança de vida seria sempre baixa, tendo em atenção a sua condição de saúde, mesmo sem covid.

Esta falta de disponibilidade para verdadeiramente ouvir o outro faz-me confusão, mesmo muita confusão, quer do lado, maioritário, de que discordo, quer do lado, minoritário, de que estou mais próxima na interpretação da evolução da epidemia.

Aparentemente todos deveríamos ficar satisfeitos se o modelo sueco de abordagem da epidemia se revelasse comportável do ponto de vista sanitário, porque de outros pontos de vista é bastante melhor para todos, mas aparentemente há mais gente interessada em demonstrar que os suecos têm uma abordagem absurda da epidemia, para afirmar a correcção da alternativa, que em avaliar objectivamente o que correu bem e mal e possamos aproveitar para definir melhores políticas.

A dimensão da negação da possibilidade de um chão comum em que se movem pessoas diferentes é deprimente.

Outra vez?

por henrique pereira dos santos, em 05.11.20

Ontem, por acaso, ouvi de raspão, e já ia a meio, um matemático com um discurso muito importante e urgente sobre como vinha aí o apocalipse.

Não é o único, no último mês ressurgiram os Buescus que há entre nós, os que projectam para o futuro tendências do presente, achando que assim descrevem o futuro, porque nunca leram Camões: "outra mudança faz de mor espanto: que não se muda já como soía".

Neste caso, dizia o matemático para a jornalista: as mortes estão a crescer 7% ao dia, veja os milhares de mortos que vamos ter continuando assim até ao Natal.

O matemático (não me lembro do nome, tenho ideia de Henrique Oliveira, mas não garanto) tem razão, progredindo ao ritmo do último mês (ou lá qual foi o período que escolheu para estabelecer a regra), no Natal temos mais de 1300 mortos por dia.

Nem o facto de não haver qualquer país no mundo com essa taxa de mortalidade demove o matemático de considerar essa hipótese como sendo séria.

Na verdade, ao fim de um mês de subida forte da actividade viral - que apanhou toda a gente de surpresa por ter sido muito temporã na época das doenças infecciosas respiratórias - o que se verifica na Europa, de forma generalizada, embora incipiente, é o que parece ser o início de um abrandamento no crescimento de infecções - comparar o número de casos de agora com os de Março/ Abril não tem qualquer base, dadas as diferenças de testagem, mas comparar os números de infecções desde meados do Verão até agora, tem alguma utilidade - embora ainda seja cedo para esse abrandamento se reflectir na mortalidade diária.

O que é relevante é que tirando algumas regiões, como a República Checa e, parcialmente, Portugal, em que a incidência da primeira época desta doença foi particularmente benigna, não há nenhum país em que a mortalidade desta segunda época esteja acima da primeira.

É cedo para conclusões, as coisas ainda vão evoluir, mas essa menor mortalidade da segunda época de actividade viral tem alguma lógica, quer porque as intervenções médicas beneficiam da experiência anterior, quer porque os mais susceptiveis são, de maneira geral, afectados mais rapidamente, quer ainda porque alguma imunidade que se vai construindo limita a velocidade de transmissão da infecção.

Nada disso elimina a hipótese de longos planaltos desta doença, ou de um comportamento de altos e baixos ao longo da época das doenças infeccioas respiratórias, com vários picos na mesma época, em vez de um só, mas para já, não há nenhuma razão para supôr que a actividade viral se vai manter a crescer ao mesmo ritmo do último mês.

Há muitos anos li um livro notável de Susanne Daveau "Répartition et rythme des précipitations au Portugal" em que apresentava quantidades de precipitação substancialmente diferentes das que o então Instituto de Meteorologia apresentava para o território português.

A diferença era metodológica: o então Instituto de Meteorologia apresentava distribuições calculadas por interpolação dos dados entre as diferentes estações e postos onde se media a chuva que caía, eliminando ou corrigindo valores discrepantes, como erros de medição (frequentes nessa altura, totalmente assente em registos mecânicos e manuais), Susanne Daveau resolveu olhar para os dados a partir do território, tentando compreender os dados discrepantes em função da posição geográfica do ponto de medição, a partir da interpretação do tempo que fazia nesses dias e dos elementos meteorológicos dominantes associados à chuva, fazendo a ligação entre território e meteorologia para estimar e refinar as interpolações.

E tinha razão.

Nisto estamos na mesma: há padrões de evolução geográfica dos surtos que a mim me parecem mais que evidentes, mas que são descartados com a ideia de que não é o vírus que comanda a epidemia mas os nossos comportamentos.

Com a maior das tranquilidades afirma-se que foi a abertura das escolas e a retoma da normalidade que deu origem aos surtos europeus actuais, com total desprezo pelo facto da abertura das escolas ter calendários bem diferentes em toda a Europa mas o início dos actuais surtos ser mais ou menos simultâneo em toda a Europa.

E pronto, lá temos outra vez os profetas da desgraça a advogar medidas sem qualquer demonstração de que sirvam para alguma coisa, parcialmente com base na ideia, errada, de que mal não faz, e parcialmente baseadas em previsões catastróficas que só não se verificarão se cada um de nós se tornar num apóstolo anti-epidemia.

Enquanto a actividade viral aumenta fortemente - como sempre tem acontecido com as doenças infecciosas respiratórias - insistem que ninguém está a cumprir as medidas e é preciso fiscalizar mais, punir mais, para obrigar toda a gente a cumprir.

Quando a realidade desmentir as suas previsões catastróficas, passam a afirmar, com a mesma convicção, que foi o comportamento das pessoas, o tal que por não existir era preciso garantir manu militarii, que derrotou o vírus e travou o surto.

Buescus há muitos.

A negação do outro

por henrique pereira dos santos, em 04.11.20

Rui Tavares tem hoje, no Público, uma crónica que vale a pena ler.

Não tanto pela qualidade literária que, apesar das pretensões, parece tirada da Corin Tellado, não pela lucidez política, que está no nível habitual de Rui Tavares, mas pela forma como involuntariamente retrata o mainstream bem pensante que mora nos jornais.

Para praticamente toda a esquerda - incluindo a que faz parte do PSD - e boa parte da direita moralmente robusta, na sua própria opinião, claro, Trump pode ser equiparado a um qualquer ditador, e a democracia segregacionista do Sul dos Estados Unidos ao nazismo, sem que isso atrapalhe muito a argumentação.

Até aqui isto é o trivial e a crónica não vale por repetir a banalidade da caracterização maniqueísta de Trump.

Onde a crónica é verdadeiramente reveladora - é raro este aspecto ser tão explícito, de maneira geral existe, mas é implícito - é no sectarismo que divide as pessoas entre o nós, que nos preocupamos, que somos vítimas, que sabemos o que é bom para todos, que nos empenhamos num mundo melhor, e os outros, os que votam Trump.

A crónica, pretendendo ser sobre as pessoas comuns, exclui os que votam em Trump, que só aparecem como uma caricatura: um grupo de homens brancos amantes da violência gratuita sobre pessoas inocentes.

Não há uma linha sobre as razões dos que votam Trump, como se Trump tivesse poderes especiais de manipulação do mundo que lhe permitissem ter milhões de votos provenientes de ninguém.

Não há uma linha sobre o que faz tanta gente decente votar num candidato com as características de Trump.

Não há uma linha de empatia em relação aos medos, às convicções, às inquietações que levam ao voto em Trump.

Nada disso interessa às elites bem pensantes que, na sua própria opinião, sabem muito bem como deve ser governado o mundo e estão convencidas de que, com um mínimo de inteligência, bom senso e conhecimento, qualquer pessoa pensa da mesma maneira que eles.

No fundo é gente que jamais deixará que os factos influenciem as suas ideias e que ficará sempre espantada - e ressentida - de cada vez que os deplorables lhes resolvam negar o poder para o entregar a pessoas que essa elite considera totalmente desqualificadas.

A humildade é uma coisa duplamente difícil, não só reconhecer que somos pó e em pó nos havemos de tornar é difícil, como é ainda mais dificil ter a humildade necessária para reconhecer a necessidade da humildade concreta em cada dia e em cada momento.

Ou, dito de outra forma, é precisa muita humildade para reconhecer no outro uma possibilidade de superioridade para cujo reconhecimento nos falta inteligência e capacidade.

Tal como a Rui Tavares, a mim Trump não me interessa nada, o que me choca nesta crónica é ver que os milhões de pessoas que, pelas mais variadas razões, votam em Trump, valem tanto para Rui Tavares (enquanto símbolo da elite que nos governa) que na verdade lhe são completamente invisíveis.

Custa alguma coisa ser transparente?

por henrique pereira dos santos, em 02.11.20

ocupa.jpg

Artur Rodrigues resolveu ir aqui e explorar os dados.

Com esses dados fez este gráfico da ocupação hospitalar (calculo que sejam apenas os hospitais estatais).

Quando se fala na pressão sobre o sistema de saúde fala-se exactamente de quê?

"Abandonai toda a esperança"

por henrique pereira dos santos, em 02.11.20

"O ministro do Ensino Superior não teve sintomas da Covid-19 e acredita que foi contagiado em refeições, quando não tinha máscara."

Ao fim de oito ou nove meses de informação constante sobre a epidemia o Ministro do Ensino Superior, não é o Zé das Iscas, é mesmo um ministro, e não é um ministro qualquer, para este efeito, é o Ministro do Ensino Superior, o que tutela a ciência, que, aparentemente, não sabe que a sua probabilidade de ser contaminado não diminui com o uso de máscaras cirúrgicas, como as que tem usado.

A tese sobre o uso generalizado de máscaras assenta na ideia de que com uma máscara projectamos menos as partículas que vão com o ar que expelimos, e o seu efeito potencial é reduzir o contágio de terceiros por essa via, é claríssimo que as máscaras cirúrgicas não protegem o seu utilizador.

É certo que ouvindo a entrevista, não nos ficando por esta frase espantosa escolhida pelos jornalistas, as afirmações de Manuel Heitor são menos lineares, ao falar das refeições em que estavam todos sem máscara, mas em lado nenhum se percebe, com clareza, a distinção entre a protecção própria (que só é assegurada por outro tipo de máscaras) e a protecção de terceiros que se pretende obter com o uso de máscaras cirúrgicas ou sociais.

O facto é que se o momento de contágio resultasse das tais refeições em que todos estavam sem máscara, com certeza seria possível saber em que seria a pessoa em frente de Manuel Heitor, ou muito próxima, que o teria contagiado, o que manifestamente não foi possível estabelecer.

Esta é talvez uma das mais evidente demonstrações de como o nome da ciência tem sido usado em vão na gestão desta epidemia: um ministro da ciência a fazer afirmações com a validade do zé das iscas para justificar com a ciência o que é uma opção de gestão sem qualquer relação com a ciência estabelecida.

Para já não falar da dificuldade em passar informação básica a pessoas qualificadas - que as máscaras que usamos não são para protecção própria mas para protecção de terceiros - quer ao ministro da ciência, quer aos dois jornalistas (conheço profissionalmente os dois e gosto deles, acho-os bons jornalistas) que perdem a oportunidade de fazer notar ao ministro da ciência que a sua explicação não tem qualquer base científica, provavelmente, porque também não têm absolutamente presente que estas máscaras não protegem o próprio.



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