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Economia e sustentabilidade

por henrique pereira dos santos, em 17.02.20

Uma boa parte das políticas de sustentabilidade que conheço partem do princípio de que o fundamental é dar cabo do capitalismo (um dos gurus mais vocais dessa tese é João Camargo, que vale a pena ouvir para ter a certeza sobre o que não fazer).

Aqui vão três exemplos de que talvez o problema não seja capitalismo a mais, mas literacia económica a menos.

No século XIX, um trabalhador em Lisboa gastaria cerca de 70% do seu rendimento em comida, dos quais 30% em pão. Hoje gastamos cerca de 16 a 17% do nosso rendimento em comida, o que inclui os cerca de 30% de desperdício alimentar que ocorre nas nossas casas - coisas que compramos e deixamos estragar, restos que não comemos, partes dos alimentos que são usáveis e comestíveis e deitamos fora, etc..

Se quisermos reduzir o desperdício alimentar, temos duas opções:

1) esperar (de preferência sentada, por causa das varizes) que toda a gente tenha a consciência do desperdício alimentar que geramos, por isso tenha a vontade de o diminuir e, depois, ainda tenha o tempo e a sabedoria para estar no supermercado e na cozinha o tempo suficiente para optimizar o uso de alimentos, gastando uma hora de trabalho para reduzir em 30% uma despesa que representa 17% do rendimento que se poderia obter gastando essa hora de trabalho a aumentar os rendimentos;

2) optimizar a eficiência da economia de produção, logística, conservação e preparação de alimentos, diminuindo desperdícios e aumentando a competitividade e o valor da nossa actividade económica.

Boa sorte para os que apostam todas as fichas na primeira hipótese, mesmo sabendo que quanto mais conseguirmos resultados na primeira hipótese mais facilmente obtemos resultados na segunda.

Os segundos e terceiros exemplos tomam-me menos tempo por estarem escritos em dois artigos de hoje do Observador.

"Durante alguns anos temos assistido à resistência dos moradores de Lisboa ao dito alojamento local o que é, no mínimo, irracional. Se os ditos moradores colocarem as suas casas numa plataforma de alojamento de curta duração e forem viver para junto da praia, não só é financeiramente proveitoso, como a sua qualidade de vida crescerá em muito se o seu local de trabalho também se deslocar."

Quem quiser aprender mais sobre isto, é ir ler o João Pires da Cruz.

"Do abandono, a que muito do nosso espaço florestal está votado, o fogo não é uma causa, mas sim um sintoma, uma consequência. Não estamos a pagar a pronto um padrão aceitável de fogo. Acabamos por pagar, a prazo e com juros, uma elevada factura (em vigilância, em meios aéreos, em reconstruções, em falências, em cheias, em poluição, etc.) que não apaga a dimensão trágica deste fenómeno recorrente, e que afecta tudo e todos: mortes, paisagens horríveis, perda de valor, bens destruídos, animais mortos, etc, etc… É desta forma dolorosa que queremos pagar a conta do fogo?"

Quem quiser aprender mais sobre isto, é ir ler o João Adrião.

 

Coisas

por henrique pereira dos santos, em 16.02.20

Frequentemente escrevo coisas de que me esqueço e que, às vezes, me voltam a aparecer sem que eu tivesse a mínima lembrança de que as tinha escrito.

É caso disto, de que transcrevo um pequeno excerto:

"A desvalorização das falhas de mercado associadas à gestão do território e a obsessiva preocupação com os produtores que existem, em detrimento dos produtores que poderiam existir, tem o mesmo quadro mental de quem entende que proteger a azinheira é proibir o seu abate, desvalorizando-a e aos terrenos em que existe, em vez de a conservar pela multiplicação do seu valor, promovendo o seu uso e potenciando o interesse do agricultor em ter azinheiras."

Há dias em que concordo comigo.

Isabel Camarinha

por henrique pereira dos santos, em 16.02.20

"7 euros para os que pior ganham e 650 milhões para o Novo Banco".

Ora aqui está uma boa ilustração do que é hoje boa parte do movimento sindical.

A frase revela confusão entre o valor de um pagamento pessoal e o valor de um pagamento para uma organização e confusão entre um pagamento anual e um pagamento único.

Não admira que a actual secretária-geral da CGTP, Isabel Camarinha, não perceba muito de como funcionam as empresas: em 40 anos de vida profissional, nunca trabalhou numa empresa: começou aos 19 anos como funcionária de um sindicato e nunca, mas nunca, teve outro patrão que não sindicatos e confederações sindicais.

Quando um dia Portugal quiser ser um país crescidinho, faz uma coisa simples: a negociação entre patrões e trabalhadores passa a fazer-se empresa a empresa, com comissões de trabalhadores das empresas, e não entre confederações patronais e sindicais onde se podem encontrar representantes sindicais que nunca trabalharam fora do mundo sindical, isto é, que nunca verdadeiramente foram trabalhadores comuns como os que supostamente representam.

Os fantasmas e a sustentabilidade

por henrique pereira dos santos, em 14.02.20

O movimento ambientalista, que na origem tinha os pés na terra e era muito cauteloso na fundamentação científica e técnicas das suas posições, procurando responder a problemas reais das pessoas comuns, tem evoluído para uma deriva mediática em que o activo central que procura valorizar é o medo do futuro.

Abandonou a solidez da base científica e técnica do que diz - a ciência é uma coisa chata que umas vezes confirma as nossas crenças, outras destroi-as sem dó nem piedade - e prefere lidar com fantasmas.

Tem mantido posições totalmente acientíficas, não são anti-científicas como as dos terra-planistas ou dos criacionistas, ignorando toda a produção científica que diminua o dramatismo associado a coisas como os eucaliptos, os fogos, o glifosato, os organismos geneticamente modificados, e muitas outras coisas.

E, para se manter na crista da onda, o movimento ambientalista, ou melhor, a componente dominante do movimento ambientalista, há outras componentes minoritárias que não funcionam assim, tem uma grande necessidade de saltar de drama em drama, que vai elegendo em cada momento.

Um bom exemplo disto é a estridência da sua guerra contra o glifosato, ao mesmo tempo que ignora, por completo, que a diminuição do consumo de glifosato, em Portugal, tem vindo acompanhada pelo aumento de consumo de outros químicos, menos mediáticos, mas ambientalmente mais agressivos. Nota: o consumo de químicos por unidade de produção tem diminuído bastante e, sobretudo, tem havido uma enorme alteração da sua natureza, sendo hoje usados químicos bem menos impactantes que há quarenta anos, portanto esta tendência que refiro não pode ser lida de forma totalmente linear, apenas serve para ilustrar como a atenção mediática concedida a um problema eleito como drama - o uso de glifosato - convive perfeitamente com o silêncio sobre problemas mais graves, mas menos úteis mediaticamente - a sua eventual substituição por químicos mais agressivos, mas menos mediáticos.

Vem tudo isto a propósito de uma pequena frase de David Neeleman nesta entrevista: "o mesmo avião já não consegue chegar tão longe se partir de Madrid ou de Paris, o que dá uma enorme vantagem competitiva a Lisboa, pois o A321 LR consome metade do combustível nessa viagem do que um A330, que é o avião que habitualmente é utilizado. Foi por isso que encomendei 19 destes aviões".

Ainda ontem tinha ouvido referências ao facto do crescimento em torno de 20% no números de passageiros no aeroporto da Portela corresponder a um aumento em torno de 1% no número de vôos, o que aponta no mesmo sentido: a aviação está a evoluir rapidamente no sentido de se tornar mais sustentável.

Ora a aviação tem sido um dos alvos preferenciais dos radicais ambientalistas, por causa das suas emissões e efeito nas alterações climáticas.

O problema é real, e merece atenção, sobre isso não tenho qualquer divergência com a generalidade do movimento ambientalista.

Pessoalmente nem viajo muito e, recentemente, tendo de ir a uma conferência em Barcelona, andei à procura de maneira de lá chegar de comboio. Acabei por decidir ir de carro, articulando com pelo menos mais uma pessoa e, eventualmente, com um bocadinho mais de esforço, ainda daria para apanhar mais algum espanhol pelo caminho. A diferença de custo não é muito relevante para os vôos directos, embora seja alguma para vôos com escalas, a diferença do tempo de viagem (contando horários disponíveis e tempos de aeroportos, incluindo atrasos) é gerível e a alternativa do comboio é incomparavelmente pior em tempo e flexibilidade. Mas tudo seria muito mais simples se fosse de avião (há um ano ou dois fui de carro, aproveitando para fazer férias, a Bordéus, para uma conferência para que me convidaram e, apesar de ter combinado que me pagariam o dinheiro do avião para abater nas despesas da viagem, a verdade é que para os organizadores seria muito simples terem-me pago o avião e, até hoje, acabei por nunca receber o dinheiro correspondente, porque as organizações não estão preparadas para lidar com modelos alternativos de financiamento de viagens).

Há muito trabalho a fazer para melhorar a sustentabilidade da forma como nos deslocamos, e uma boa parte desse trabalho é mesmo na aviação.

Mas insistir que a única maneira de ser mais sustentável é viajar menos de avião, não construir aeroportos e coisas que tais é muito pouco útil, excepto para a tal opção de dramatizar tudo o que for possível para reforçar o medo do futuro de que se alimentam as organizações basicamente reacionárias, como são grande parte das que fazem parte do movimento ambientalista dominante.

Nasci para ser radical

por henrique pereira dos santos, em 08.02.20

Claro que é absurdo estar a Assembleia da República a tomar decisões sobre projectos concretos de linhas de metro ou preços de alterações no cartão de cidadão.

Mas convém ser radical e ver onde está a raiz desta coisa absurda.

E a raiz está no facto de ser preciso discutir o financiamento nacional de linhas concretas de metro, ou preços de actos administrativos, no orçamento de estado em vez de termos um sistema racional que confia nas pessoas e nas instituições, dando-lhes liberdade e autonomia para tomar decisões, dentro de um quadro de regras abstractas bem definidas e escrutináveis, que incluem o princípio do utilizador/ pagador.

Claro que se se considera a descida (ou a eventual gratuidade) do preço dos passes sociais das duas principais áreas metroplitanas do país como uma reforma estrutural nacional e, ao mesmo tempo, se pretende financiá-la com decisões anuais contigentes, tomadas em sede de Fundo Ambiental (um fundo nacional para o qual todos contribuímos), o assunto, tarde ou cedo, acabará a ser decidido pelos senhores deputados, no orçamento de estado, quando acabar o tempo das vacas gordas.

O que se resolve de forma radical e simples: as áreas metropolitanas que façam a gestão que quiserem dos seus transportes, desde que tratem também do seu financiamento, deixando de passar o tempo a saquear o resto do país para resolver os seus problemas.

Nesse dia as decisões sobre o metro de Lisboa dirão respeito aos lisboetas (aqui entendidos como os que vivem na área metropolitana, e não os que vivem em Lisboa cidade) e deixarão de ser condicionadas por circunstâncias particulares da composição do parlamento nacional.

As pessoas e os planos

por henrique pereira dos santos, em 06.02.20

Esta discussão sobre a gestão de trânsito em Lisboa, em que me meti voluntariamente apenas na óptica da participação pública, e fui metido involuntariamente por causa do programa da rádio Observador em que passei a participar, acabou por me levar a um ponto interessante do conteúdo do plano.

No regulamento previsto, pode ser mudado porque ainda haverá uma discussão pública em Março, os taxis podem circular na área de exclusão, mas os Uber só podem se forem eléctricos.

Algures fiz um comentário a dizer que não entendia a lógica desta distinção, excepto na óptica da gestão política da execução do que se pretende: o que os promotores do plano gostariam seria tirar todos os carros do centro de Lisboa (eu também gostaria, num mundo ideal), não podendo, preferem restringir aos carros eléctricos, mas comprar uma guerra com os taxistas era um suicídio político e portanto aceita-se que entrem na zona de exclusão.

Um amigo contrapõe a esta minha visão cínica do assunto (já agora, os processos de participação pública, começando desde o início da discussão do problema, visam exactamente limitar interpretações como a minha, eventualmente resultante de má ou nenhuma informação, o que me impede de ver a racionalidade de tratar os Uber de forma diferente dos táxis) esquece que para ser taxista há todo um procedimento e custos que faz com que ninguém queira ser taxista só para poder levar o carro para o centro de Lisboa, mas é bem possível que muitos condutores se registassem como Uber para contornar a limitação de entrada na Baixa.

É possível que haja alguma racionalidade neste argumento (embora seja fácil contornar isto definindo outro tipo de critérios para o acesso, nomeadamente em articulação com as plataformas que registam todos os pedidos de serviços) mas o que esta discussão me mostrou foi que na verdade os taxistas têm todas as razões para apoiar fortemente este plano da Câmara: passam a garantir a quase exclusividade do mercado na zona de maior concentração da procura de serviços de transporte, apenas tendo de concorrer com autocarros, metro e as pernas dos seus utlizadores.

As discussões públicas abertas, desde estados iniciais, são excelentes para identificar ganhadores e perdedores em decisões públicas e, neste caso, os taxistas estão, de longe, entre os maiores ganhadores.

Nada contra (excepto os efeitos negativos que as reservas de mercado sempre acarretam para os consumidores e contribuintes), o que acho é que este tipo de coisas devem ser bem claras.

É mesmo estupidez, não tem outro nome

por henrique pereira dos santos, em 05.02.20

Na novela da taxação da actividade florestal (uma tolice sem nome e com efeitos contraproducentes) a única coisa que verdadeiramente me espanta é a facilidade com que jornais e jornalistas chamam isto "taxa das celuloses".
Não entro na discussão sobre se isto é uma taxa ou um imposto, mas seguramente não é "das celuloses" é de muito mais gente: "“taxa de base anual a incidir sobre o volume de negócios de sujeitos passivos de IRS ou IRC que exerçam, a título principal, atividades económicas que utilizem, incorporem ou transformem, de forma intensiva, recursos florestais”.

Perante um problema sério de ausência de competitividade num sector que atenua o gravíssimo problema do abandono e falta de gestão do território, lembram-se de aumentar os custos de contexto, com base numa ideia que a investigação sobre o assunto desmente cabalmente.

É muita estupidez, peço desculpa, mas não arranjo outra maneira de classificar isto de outra maneira.

"Nasci para estar ali"

por henrique pereira dos santos, em 04.02.20

Talvez sendo a Joacine eu possa dizer isto sem me lapidarem.

Sim, eu sei, a formulação é infeliz, presta-se a boas piadas mas, caramba, toda a gente percebeu o que a Joacine estava a dizer, e não estava a dizer nada de especial (tal como toda a gente percebeu a piada infeliz da devolução do que veio de África, tal como toda a gente percebeu o "não podemos ser piegas", ou o "aguenta, aguenta" ou dezenas de outras coisas ditas ligeiramente, ou não tão ligeiramente, "fora do tom, sem melodia" como dizia o Caetano Veloso quando o pública vaiava o seu "proibido proibir").

Em relação a afirmações deste tipo não podemos simplesmente fazer uma piadas e seguir em frente, em vez de nos indignarmos?

Razão teve o Bernardo Silva em queixar-se de que hoje em dia já nem se pode brincar com um amigo.

E eu acrescento que toda a gente diz asneiras, umas vezes mais conscientemente, outra vezes menos conscientemente, e esta mania de lutar por uma linguagem asséptica, neutra, sem imperfeições é uma coisa bastante estúpida, e só não digo que é perigosa e chata porque, felizmente, as pessoas continuarão, por necessidade ou descuido, a dizer coisas erradas ou coisas certas da forma errada, independentemente das várias facções das polícias de costumes.

Estou absolutamente farto deste policiamento permanente da linguagem, como se fosse a linguagem que moldasse o mundo, e não fosse a linguagem uma mera expressão da vida.

Aos que esperam que "o tédio de um mundo feliz nos persiga", eu sugiro que esperem sentados.

E, no entretanto, deixem toda a gente dizer coisas imperfeitas ou de forma imperfeita, que isto fica muito mais divertido assim.

E eles a dar-lhe

por henrique pereira dos santos, em 03.02.20

Via Campo Aberto (não encontrei o original do texto da QUERCUS), encontrei este parágrafo notável a propósito da discussão pública do Plano Integrado para a Gestão de Fogos Rurais, que decorre até ao próximo dia 5 de Fevereiro (participem na discussão, eu preferiria um documento mais conciso, mas vale a pena influenciar a sua evolução para uma orientação mais focada na resolução do problema da falta de remuneração da gestão de largas partes do país):

"No documento para consulta há princípios orientadores positivos, como a governação, a qualificação e a comunicação, mas continua-se a fazer referência a mais controlo de vegetação (ou seja mais desmatação) e ao uso de fogo (ou seja fogueiras, queimadas e fogo controlado). Ora numa abordagem regenerativa, não há “uso correto do fogo”! O máximo de biomassa possível tem de ser incorporada no solo e sequestrar carbono (e outros materiais)." 

De uma penada a QUERCUS consegue negar toda a investigação sobre o assunto, defender a posição completamente irresponsável de que a gestão de combustíveis não é a questão chave do controlo sobre o fogo, dizer uma barbaridade sem nome, totalmente infundada e sem a menor base científica e técnica "não há "uso correcto do fogo", e defender soluções que só existem num pensamento mágico sem qualquer aderência à realidade.

Por volta de 2030, se posições como esta prevalecerem e se continuar a gastar rios de dinheiro em acções sem qualquer efeito prático na gestão do problema do fogo à escala da paisagem, voltaremos à situação de 2003, 2005, 2017, com as consequências conhecidas.

Espero que nessa altura alguém se lembre destas posições místicas de organizações como a Campo Aberto e a Quercus (há outro notável parágrafo que não consigo perceber se é uma citação que a Campo Aberto faz do que diz a QUERCUS, se é uma elaboração da Campo Aberto a partir das tolices da QUERCUS, mas é notável na sua tentativa de explicar a negação da investigação científica com processos de intenções de que nunca se encontrou o menor vestígio de fundamento "Repare-se que estes fogos rurais, que não há muito se chamavam "florestais", são na verdade, mesmo quando começam em matos e terrenos agrícolas marginais, exponenciados pelas grandes extensões de eucalipto e pinheiro que alimentam o volume e dimensão dos fogos, que nunca atingiriam essas proporções se se limitassem a matos e terrenos marginais. Quem estará interessado em não associar estes fgogos às "florestas artificiais e de espécies amigas do fogo"?") e lhes peça responsabilidades pela contribuição que estão a dar para a criação de condições para desastres da dimensão de 2017.

Por mim, há muito que defendo soluções simples e focadas no problema central que podem ser discutíveis na sua concepção ou na sua aplicação prática, e não deixo de me espantar com a profundidade da penetração do pensamento mágico no actual movimento ambientalista quase totalmente capturado por activistas que vivem nas nuvens, sem a menor preparação e experiência sobre gestão do teritório.

Tribalistas

por henrique pereira dos santos, em 01.02.20

Hoje, estava eu preparado para fazer um post sobre esta notícia (atenção, é de 2007, não vá alguém não reparar), salientando o facto de já em 2007 Francisco Ferreira (mas poderia dizer, de forma mais geral, o movimento ambientalista, não só por ser verdade, mas também porque o Francisco pode ser considerado, com toda a legitimidade, o ambientalista do regime) dizia, sobre o mesmo aeroporto de Lisboa, o mesmo que diz hoje: que é preciso avaliar mais estrategicamente.

A principal diferença é que agora as alternativas que é preciso avaliar já não são apenas as diferentes localizações para o aeroporto, mas também as alternativas de mobilidade, como o comboio, até porque a contestação anterior dizia que era preciso avaliar o Portela + um (principal candidato ao mais um: Montijo), e agora para contestar o Montijo era difícil manter o argumento.

Amanhã, se as hipóteses do comboio estiverem incluídas no processo de decisão, vai-se pedir que se avaliem também as hipóteses de ir de barco ou de trotinete e avaliar se se recorre aos tribunais.

Estava eu a preparar-me para me divertir com tudo isto - e ainda com o facto de raramente uma associação ambientalista mudar de opinião por causa das avaliações de impacte ambiental, se a avaliação confirmar a opinião é porque é boa, se não confirmar, não se muda de opinião, contesta-se a competência e lisura de processos da avaliação - quando resolvo fazer um inocente post a perguntar se alguém sabia alguma coisa da discussão pública deste plano ontem apresentado por Fernando Medina para a Baixa de Lisboa.

O pequeno comentário que fiz resulta do plano ter sido apresentado como um facto consumado, ou seja, como uma decisão tomada, para entrar em vigor em Agosto, sem qualquer destaque ao facto de ainda haver um processo de discussão pública em Março, indiciando aquilo que é a prática geral do Estado, central ou autárquico, na maioria dos casos: as discussões públicas de planos são minudências administrativas que é preciso cumprir, nada mais.

Tanto bastou para que amigos meus, com os quais, aliás, estou basicamente de acordo sobre a necessidade de condicionar o acesso automóvel ao interior de Lisboa, se zangarem comigo, achando que eu estava só com vontade de dizer mal de Medina.

Confesso que estranhei, achei que a ideia de que a participação pública num plano se faz desde a sua origem, desde que se admite a necessidade do plano, era consensual, pelo menos entre as pessoas que têm uma visão de sustentabilidade democrática do planeamento. Achei que quase toda a gente reconheceria que essa é a forma das pessoas compreenderem as decisões tomadas, concordem ou não.

Tenho de me render à evidência de que o tribalismo está a chegar muito mais longe do que imaginei e de que conceitos básicos sobre as características dos processos democráticos são, afinal, contestados.

Aparentemente, é cada vez mais importante definir o lado em que se está, o grupo a que se pertence, e menos importante olhar simplesmente para os factos e os argumentos.

E isso é inquietante.

Manual para arranjar inimigos

por henrique pereira dos santos, em 25.01.20

"Se tu olhas para uma mulher com a cara toda esmurrada e começas logo a procurar justificar aquilo que lhe aconteceu, desculpando quem lhe fez aquilo, és uma besta" (André Solha)

"Para mim ser liberal também é isto: na dúvida assumir a posição de defesa do indivíduo quando do outro lado está uma organização - o Estado - que tem o monopólio do uso da força." (Carlos Guimarães Pinto)

"Se a senhora foi esmurrada já depois de algemada, dentro do carro da polícia, o seu cadastro interessa zero e a duração dos murros também" (João Miguel Tavares)

Três citações que parecem inquestionáveis (enfim, a do meio, de Carlos Guimarães Pinto, só é inquestionável para liberais).

E uma boa base para discutir o papel do jornalismo no combate ao racismo.

Estas afirmações são perfeitamente compreensíveis e admissíveis como comentários a uma situação "que por violenta e injusta/Ofendeu o coração de um pintor chamado Goya/ Que tinha um coração muito grande, cheio de fúria e de amor" (sim, poderia ter parado a citação em "coração", o que a tornaria mais compreensível neste contexto, mas achei que, embora menos evidente, valia a pena lembrar que a raiz da ofensa é a injustiça, se perde na origem dos tempos e tem uma expressão muito maior que a causa concreta a que cada um dos corações ofendidos dedica mais afecto).

Para os jornalistas de causas, o seu papel é apenas o de amplificar "a fúria e amor" dos ofendidos e deserdados, por isso este registo emocional chega-lhes e sobra, tanto mais que, frequentemente, confundem a injustiça com a desigualdade, com o que isso acarreta de viés.

Em matéria de racismo o Público tem um bom exemplo neste tipo de jornalismo e por isso, sobre o assunto em torno de Cláudia Simões tem três artigos, em três dias seguidos, assinados pela mesma jornalista (Joana Gorjão Henriques), ilustrados sempre com a mesma fotografia da tal cara esmurrada citada acima. Em dois dos três artigos, Joana Gorjão Henriques repete textualmente "Peixoto Rodrigues, que foi candidato na lista do líder de extrema-direita de André Ventura às eleições europeias, lidera o sindicato ao qual pertencem 16 dos 17 polícias da esquadra de Alfragide que foram a julgamento acusados de racismo e tortura contra seis jovens da Cova da Moura  - oito foram condenados por agressão e sequestro" (para este tipo de jornalismo, a proposito de Cláudia Simões, o importante é publicar, em dois dias seguidos, este texto manifestamente marginal para o que está em causa). Claro que para este tipo de jornalismo é irrelevante que, em julgamente, as acusações de racismo e tortura tenham caído para os 17 acusados e que nove dos acusados tenham sido ilibados das acusações porque os factos interessam menos que a agenda anti-racista e o importante é passar a ideia que se quer defender.

Um jornalismo sério (e, por isso, anti-racista) teria feito algumas coisas básicas: pedir a médicos experientes que interpretassem os sinais da cara esmurrada de modo a que tivéssemos informação sólida sobre o tipo de agressões que lhe poderão estar na origem (eu, ignorante me confesso, não sou capaz de saber a gravidade das escoriações a partir do que vejo, nem que tipo de agressão as poderá ter provocado), teria feito todos os esforços para ouvir o motorista em causa (já agora, há notícias de um motorista da Vimeca agredido ontem, não havendo certezas sobre a sua identidade, o que é suficientemente grave para chamar a atenção para a limitação do princípio, com que concordo, enunciado acima por Carlos Guimarães Pinto, e que se prende com as consequências da fragilidade das instituições na defesa dos outros indivíduos envolvidos nesta história), teria procurado outros passageiros (para além do sobrinho da vítima) e, jamais, poderia ter assumido como factuais as versões das diferentes partes envolvidas (a vítima e a polícia). A ideia de que os testemunhos das vítimas merecem ser mais credibilidade que os outros é uma ideia perversa em crescimento, confundindo-se atenção (que, essa sim, é devida mais às vítimas que a quaiquer outros) com credibilidade.

O jornalismo sério ter-se-ia concentrado naquele "se" de João Miguel Tavares, que é a questão chave.

Que existem abundantes exemplos de uma polícia pouco transparente e capaz de fazer o que a advogada de Cláudia Simões diz que aconteceu em relação à primeira queixa feita contra o polícia, não há qualquer dúvida (a única referência da queixa à actuação da polícia seria ao mata-leão e nada sobre agressões, mas isso dever-se-ia ao facto da polícia não ter registado adequadamente a denúncia que, em qualquer caso, foi assinada por Claudia Simões, no dia seguinte de manhã. Uma pessoa pode sempre assinar coisas sem as ler convenientemente, mesmo 11 horas depois dos factos, porque está com pressa para ir para o hospital depois, como foi o caso). Isso é verdade e é um problema estrutural das nossas instituições (não escrevi da nossa polícia, porque é uma questão bem mais geral, e as nossas instituições, incluindo os nossos jornais, são férteis na manipulação de testemunhos e na falta de respeito pelas pessoas concretas que confiam nelas).

Por exemplo, ainda esta noite o Diário de Notícias (Suzete Henriques) dizia que a fita do tempo da ocorrência refere três minutos entre a saída do carro patrulha da paragem do autocarro e a chamada telefónica para o 112 a pedir "assistência para uma cidadã detida com escoriações no rosto", o que é totalmente incompatível com uma hora de espancamento referido por Cláudia Simões, não na denúncia registada e assinada por ela na Segunda de manhã, mas nas versões que foi apresentando depois, já com apoio do SOS Racismo (voltemos à cara esmurrada, o que vejo também me parece incompatível com um espancamento dessa dimensão, mas não sou médico, nem jornalista, posso escrever isto aqui porque sei que ninguém lhe atribui mais importância que a devida a um mané qualquer que tem uma opinião não fundamentada sobre um assunto que desconhece). E o Diário de Notícias, e bem, tem o cuidado de explicitar as suas dúvidas: "Uma questão que se coloca e que não foi possível ainda esclarecer com os bombeiros é, caso esta fita de tempo esteja correta, porque demorou praticamente uma hora entre a chamada e a entrada no hospital".

E esta é a questão, caro João Miguel Tavares: se houve espancamento de uma pessoa presa, é evidente que o curriculum das pessoas ouvidas é irrelevante, mas para saber se esse "se" é provável ou não, o curriculum das pessoas e instituições ouvidas não é nada irrelevante.

O problema central em Portugal é que quer a polícia, quer os jornais, nesta matéria, justa ou injustamente, são considerados como fontes pouco idóneas de informação, havendo muita gente a achar que têm mais cadastro que curriculum.

E, aí, voltamos à citação de Carlos Guimarães Pinto: para um liberal, fazer das instituições do Estado entidades confiáveis é, seguramente, uma das principais prioridades políticas em Portugal. Isso não se faz contra o Estado, mas discutindo seriamente as regras que regem as relações entre as pessoas comuns e o Estado: neste caso, desde o primeiro momento, há um conjunto de informações (incluindo a famosa fita do tempo das ocorrências) que me parece que deveriam ser de acesso público e fácil.

Quanto aos jornais, enfim, são o que são e não vejo muita forma do corporativismo dos jornalistas aceitar um verdadeiro escrutínio que permita separar o trigo do joio na profissão.

Um bocado de sentido crítico seria útil

por henrique pereira dos santos, em 13.01.20

Numa peça do Observador, lê-se: "No Irão, o estratega militar Soleimani era uma das figuras mais amadas, um herói do regime. Prova disso foi o funeral do general, presidido por Khamenei e com a presença de milhares de iranianos nas ruas, que choraram a morte de um líder.".

Estas coisas acontecem, é certo, e eu não gostaria de ser injusto para com o jornalista, mas admitir como prova de amor do povo a um dirigente, a presença de milhares de pessoas no funeral de um dirigente de um regime autocrático, parece-me que é ir longe de mais para um jornalista.

Por essa ordem de ideias, quase todos os ditadores do mundo são amadíssimos pelos seus povos, a julgar pelas milhares de pessoas em manifestações promovidas pelos respectivos regimes (os exemplos não faltam, desta a triunfal deslocação de Marcelo Caetano a África, já quase nas vascas do regime, até ao enterro de Fidel Castro).

Teresa Andresen e Gonçalo Ribeiro Telles

por henrique pereira dos santos, em 12.01.20

Este é um post invulgarmente longo (parece que coisas deste tamanho não se escrevem em blogs) porque essencialmente reproduz o discurso de Teresa Andresen na aceitação da primeira edição do prémio Gonçalo Ribeiro Telles.

De meu tem apenas a introdução que é irrelevante para o essencial, mas que preferi fazer para deixar claro o que penso numa matéria sobre a qual quem me conhece poderá ter dúvidas.

Hoje, à procura de um outro texto, tropecei no que escrevi em 2012 sobre Ribeiro Telles: "Ao passar à porta de um café vi Ribeiro Telles sentado a ler os jornais do dia. Quem tem lido o que escrevo sabe que, de maneira geral, onde estiver Ribeiro Telles eu estarei na oposição. Mas nunca confundi as minhas divergências de opinião com a genuína simpatia que tenho por Ribeiro Telles pelo que, apesar do tempo contado, entrei no café e fiquei por ali dez minutos a conversar sobre o projecto da Faia Brava ou sobre o que estamos a fazer em Vila Pouca de Aguiar com o controlo de combustíveis através do pastoreio dirigido. Como sempre a curiosidade de Ribeiro Telles, as perguntas que faz, o interesse pelo que desconhece é cativante e saí dali, atrasado (coisa que me incomoda profundamente) mas a achar que tinha valido a pena." e, depois, encontrei um texto de 2011 em que era mais explícito no que são as minhas divergências conceptuais com Ribeiro Telles, mas também o respeito inequívoco que merece, a que Teresa Andresen, com muito mais propriedade, dá corpo neste discurso que acho notável e subscrevo praticamente na íntegra.

Senhor Presidente da República
Conselho de Administração da FCGulbenkian
Caros membros do Júri do Prémio Gonçalo Ribeiro Telles para o Ambiente e a Paisagem
Senhor Presidente do Conselho de Gestão do Instituto Superior de Agronomia, Professor António Guerreiro de Brito
Senhora Presidente da Direção Nacional da Causa Real, Teresa Lobo de Vasconcellos Corte-Real
Senhor Presidente do Colégio Nacional de Eng. Agronómica da Ordem dos Engenheiros, Eng. Fernando Manuel Moreira Borges Mouzinho
Senhor representante da Família Ribeiro Telles, Miguel Ribeiro Telles
Senhor Presidente da Associação Portuguesa dos Arquitetos Paisagistas, arquiteto paisagista Jorge Cancela

Quatro instituições que representam interesses e causas diferentes e um representante da família Ribeiro Teles uniram-se em torno de Gonçalo Ribeiro Telles para perpetuar o nome e o legado de uma figura singular e uma referência incontornável na vida pública portuguesa. Criaram um prémio para o Ambiente e Paisagem por ele inspirado.
Agradeço a decisão do júri pela distinção que me fizeram. Gostava de lhes dizer que é de forma muito sentida que lhes expresso o meu reconhecimento e louvo a vossa iniciativa. Não escondo que foi com surpresa e emoção que recebi a notícia da atribuição do prémio a mim.
Gonçalo Ribeiro Telles é um homem com uma vida intensa dedicada à intervenção pública, empenhado em diversas causas cívicas. Partilho com Ribeiro Telles uma formação em engenharia agronómica e em arquitetura paisagista no Instituto Superior de Agronomia, uma combinação que nos preparou para um modo próprio de compreender o mundo, em que a prática profissional se torna uma forma de estar na vida. A formação recebida instrui-nos e responsabiliza para a intervenção, educa a mente e, em particular, educa o olhar e a capacidade de ler os sinais inscritos na paisagem. Aproveito para testemunhar o meu apreço ao Instituto Superior de Agronomia e aos mestres que aí tive e que continuam a ser uma referência na minha vida. Fui professora durante 30 anos, dos quais dois anos no Instituto Superior de Agronomia. A muita alegria e motivação que vivi na sala de aula, ao longo de 30 anos de ensino universitário em Aveiro e no Porto, deveram-se em grande parte a esses mestres.

Gonçalo Ribeiro Telles é um nome maior da arquitetura paisagista portuguesa. Para ele, o exercício da arquitetura paisagista e a luta política como que se confundem. No 40º aniversário da Associação Portuguesa de Arquitectos Paisagistas, aqui nesta sala a pedido de Jorge Cancela, seu Presidente, proferi uma palestra fazendo uma síntese sobre o percurso da arquitetura paisagista portuguesa. Disse então que Gonçalo Ribeiro Telles tinha o enorme mérito de ter transposto para o discurso político português a frescura e o vanguardismo da teoria e prática da arquitetura paisagista, da causa ecológica, da sustentabilidade avant la lettre. Referia-me concretamente ao legado de uma legislação decisiva nos domínios do ordenamento do território, do ambiente e da conservação da natureza. A paisagem portuguesa de hoje – apesar das vicissitudes – deve muito dos valores que nela perduram à visão e a gestos maiores de Gonçalo Ribeiro Telles. Nessa ocasião, disse ainda que só por isso, ele já merecia o nosso reconhecimento e que se não tivesse feito mais nada, já tinha feito muito. Acrescentei que – “no entanto, Gonçalo Ribeiro Telles tinha ainda feito muito mais do que isso”. Daí o nosso imenso reconhecimento.
Gonçalo Ribeiro Telles é um exemplo de cidadania ativa. Recorro-me das palavras do voto de saudação da Assembleia da República a Gonçalo Ribeiro Telles, por ocasião do seu aniversário já depois dos tremendos incêndios rurais de 2017: “o que o País e os Portugueses mais lhe continuam a dever é essa capacidade permanente de sonhar e acreditar num futuro melhor e mais justo, ensinando-nos que a construção da Paisagem é uma exigência cívica e uma obrigação das mulheres e dos homens livres.”
Recebo assim este prémio que tomo como um compromisso que aqui assumo de promover este legado. Gostaria de o fazer conjuntamente com o júri do prémio Gonçalo Ribeiro Telles para o Ambiente e a Paisagem.
A 1ª vez que ouvi falar de Gonçalo Ribeiro Telles foi um momento marcante da minha vida. Pertenço àquela geração que fechou o ciclo dos exames de admissão ao liceu no dia 31 de julho de 1967. Passei assim ao lado das reformas educativas. Nos princípios da década de 1970, tomei a decisão de enveredar pela alínea g) para ingressar na Faculdade de Economia do Porto. Eis senão quando a minha Mãe me diz que eu deveria ser arquiteta paisagista como um senhor chamado Gonçalo Ribeiro Telles, que tinha feito um jardim lindo que ela tinha visitado no Algarve. Com minha Mãe aprendi a jardinar num enorme quintal, na Praia da Granja, que ela converteu num jardim. Minha Mãe já não assistiu aos mil tormentos porque passei para abandonar a tal alínea g) das Ciências Económicas e conseguir ingressar no Instituto Superior de Agronomia para ser arquiteta paisagista.
No ano em que nasci, Gonçalo Ribeiro Telles terá tido o maior revés da sua vida profissional pois entrou em conflito com a Câmara Municipal de Lisboa. A rainha Isabel II de Inglaterra visitava Portugal coincidindo com as obras da Avenida da Liberdade. Francisco Caldeira Cabral e Gonçalo Ribeiro Telles eram os autores da execução do projeto de renovação da avenida e Gonçalo Ribeiro Telles, que era então funcionário da Câmara Municipal de Lisboa, depois da partida da rainha, recebeu ordens para desfazer a obra que tinha sido feita... Gonçalo Ribeiro Telles opôs-se a cumprir a ordem. O sistema e o establishment reagiram à ousadia do projeto deles. Gonçalo Ribeiro Telles deixou a Câmara Municipal de Lisboa .... Mesmo assim, a cidade de Lisboa esteve sempre no centro da intervenção de Gonçalo Ribeiro Telles.
Que coincidência estarmos aqui hoje, a escassas horas da inauguração da Lisboa Capital Verde Europeia 2020. Quanto este prémio que a cidade de Lisboa recebeu deve a Gonçalo Ribeiro Telles!
O meu cruzamento com Gonçalo Ribeiro Telles aconteceu em Lisboa em ambiente familiar nos finais da década de 1970. Eu estudava no Instituto Superior de Agronomia e Gonçalo Ribeiro Telles dava os primeiros passos na então jovem Universidade de Évora na criação da nova licenciatura em arquitetura paisagista. Quando a Fundação Calouste Gulbenkian em 2001, me convidou para fazer a exposição “Do Estádio Nacional ao Jardim Gulbenkian. Caldeira Cabral e a 1ª geração de arquitetos paisagistas” adquiri um vasto conhecimento sobre a obra projetual de Gonçalo Ribeiro Telles. Impressionada com o elevado número de projetos para a cidade, e em particular com a exemplar intervenção na envolvente da Capela de São Jerónimo em Lisboa, perguntei-lhe qual o projeto que mais tinha gostado de fazer. A resposta que Gonçalo Ribeiro Telles então me deu teve um grande impacto em mim e, hoje, partilho-a aqui convoco. Disse-me: “O último”.
O jardim é o ecossistema de partida do arquiteto paisagista. Do jardim para a paisagem, a paisagem total. O arquiteto paisagista que pratica a arte do jardim e da paisagem é portador de um conhecimento ancestral. Não podemos permitir que se dispense ou apague conhecimento seja qual for. No exercício da jardinagem e da arte do jardim e da paisagem estamos sempre a ler sinais, a interpretar, a dialogar, a experimentar, a fruir ...
O jardim pode ser visto como um microcosmo a partir do qual se entende o macrocosmo. A construção das grandes cidades nasceu da experiência da construção dos jardins. Os jardins são laboratórios de aclimatação de plantas, guardando soluções para a adaptação às alterações climáticas. Os jardins são redutos para a contemplação, intrínseca à condição humana. São lugares de encontro dos seres humanos com a natureza. Os jardins são um dos poucos redutos do belo na sociedade contemporânea. Gonçalo Ribeiro Telles é um homem que sabe sobre muitas coisas e que tem o jardim bem no centro da sua intervenção e inspiração.
No entanto, a arquitetura paisagista é uma pequena profissão - uma profissão de poucos, em contraste com engenheiros, médicos ou advogados. Isso faz dos arquitetos paisagistas uma comunidade em modo de resistência e sobrevivência. Tornamo-nos um alvo vulnerável nos momentos de afirmação da mudança de políticas.... Depois de 40 anos de organização associativa, não conseguimos igualar as outras profissões – inclusivamente algumas bem recentes - e ver a Ordem dos Arquitetos Paisagistas reconhecida. Na academia, quando chega o momento de os órgãos de gestão tomarem decisões tíbias e se permitem a gestos pretensamente assertivos, o ensino da arquitetura paisagista é extinto ... Não tem sido fácil nem será fácil. A adversidade leva ao combate e fortalece-nos, cria oportunidades. Mas não devia ser sempre assim ... Vamos resistir, atentos aos sinais ... Sabemos que as comunidades pequenas são vitais – pelo conhecimento e prática que transportam, pela possibilidade de renovação e inovação que representam, porque podem fazer a diferença.
Gonçalo Ribeiro Telles é um exemplo marcante desta circunstância, o seu estatuto de monárquico, arquiteto paisagista, ecologista colocou-o sempre no combate, tantas vezes desigual, mas tanto consenso que ele foi gerando!
Gonçalo Ribeiro Telles tem uma alegria inata e contagiante e é um esteta. É um homem que sonha. Como ele, eu também ainda sonho e procuro o belo.
Gostava de ver as instituições do ensino pré-escolar motivadas para educar jardineiros. Os meninos deviam passar horas a jardinar ... a ler e a interpretar os sinais da horta, do jardim, da mata, da paisagem ... a pintar, a fazer música, a brincar ...
Gostava de ver os nossos parques naturais, os nossos parques e jardins públicos, os nossos corredores verdes e azuis, os nossos jardins históricos amados como lugares únicos e sagrados. É preciso dizer não à sua “disneylandização” ....
Gostava de ver a figura de “paisagem cultural” há mais de 20 anos consagrada na Convenção do Património Mundial da UNESCO transposta para o quadro legal português.
Gostava de ver políticas dirigidas para o património que dessem uma oportunidade à perpetuação da diversidade e da sustentabilidade das nossas paisagens enquanto obras combinadas do homem e da natureza.
Gostava de ver as políticas públicas com uma forte base territorial.
Gostava de construir uma política pública de agricultura e floresta para Portugal que fosse simultaneamente um instrumento ordenador do território.
Gostava que as politicas públicas atacassem o âmago do problema da nossa paisagem contrariando o abandono da gestão da paisagem, promovendo o cultivo sustentável da paisagem, inventando novos modelos de apropriação, e que se deixassem de pequenos gestos imediatos de reconstruir o edificado depois de atingido por flagelos naturais quando se sabe que casas, fábricas e fabriquetas não devem permanecer ali ...
É necessário olhar para a paisagem. É necessário ler os sinais da paisagem ... A paisagem fala-nos, quando estamos predispostos a ouvi-la. A paisagem é um arquivo da nossa identidade e nela residem também as soluções para o nosso futuro viável ... No entanto, as soluções estão cada vez mais em nós. O caminho que temos pela frente reclama desprendimento, inteligência, reinvenção, ousadia, e parece sem fim.
A causa ambiental e da paisagem sustentável não nos pode deixar distraídos nem alheados. Gonçalo Ribeiro Telles esteve sempre alerta e agindo. Hoje, a tragédia que vivem os cidadãos australianos, os coalas, os cangurus, os corais do reef, as suas florestas não é mais um problema deles, lá longe – também é nosso, aqui nesta sala. Reunidos em nome de Gonçalo Ribeiro Telles.
Obrigado Gonçalo Ribeiro Telles por tudo o que aprendemos consigo. Devemos-lhe um pedido de desculpa coletivo por as vezes que nos alertou para a causa ambiental e da paisagem sustentável e não o ouvimos ou o levamos a sério. Mas, as suas lições e os seus gestos permanecerão.
Obrigado Gonçalo Ribeiro Telles.
Lisboa, 10 de janeiro de 2020
Teresa Andresen

Em veículos eléctricos, Senhor Primeiro Ministro?

por henrique pereira dos santos, em 12.01.20

Parece que ontem o Senhor Primeiro Ministro anunciou, no contexto do lançamento de Lisboa capital verde da Europa 2020 (não fui verificar o nome certo, mas a ideia é esta e, de qualquer maneira, qualquer nome que eu escolha não deve ser pior que os cartazes e o logo que escolheram), que neste ano e no próximo os senhores ministros, nas suas deslocações urbanas, o farão em veículos eléctricos.

"“É a prenda simbólica que o Governo gostaria de dar à cidade de Lisboa ao longo deste ano, mas também para servir de exemplo para todos os outros”, salientou."

Na verdade estou a deturpar voluntariamente as declarações (onde está veículos, o Senhor Primeiro Ministro disse viaturas) para poder dar publicidade ao judicioso comentário de João Pires Cruz: mas isso (acrescento eu, isso é a prenda que o Rei Sol, na sua magnanimidade, oferece à cidade de Lisboa) é o que fazem todos os dias milhares de pessoas em Lisboa, deslocam-se num veículo eléctrico que se chama Metro.

Há já bastantes anos, propuz, sem qualquer êxito (como de costume) ao Governo que adoptasse uma política simples de mitigação climática, que não exigia mais nada que uma decisão própria: todos os membros do Governo (no sentido alargado que inclui os membros dos gabinetes) assumiam o compromisso de 10% das suas deslocações serem em transportes públicos (incluindo bicicletas, na altura não havia trotinetes, que se podem também incluir agora, ou mesmo motas), excluindo desta contabilidade os aviões.

Senhor Primeiro Ministro (e, já agora, senhores jornalistas presentes que não fazem perguntas e senhores ambientalistas presentes que não fazem comentários), isso de pôr os seus ministros a andar de carro eléctrico é para meninos (na verdade, em qualquer caso, quem tem de resolver os problemas dos carros são os motoristas e quem paga é o desgraçado do trabalhador têxtil do Ave que tem mesmo de ir de mota para o emprego, por falta de alternativa, e sustena, na bomba de gasolina, o Fundo Ambiental que paga os carros eléctricos do Governo), deixe-se de mariquices e ponha toda a gente a andar de transportes públicos (ou a pé, grande parte das deslocações do seu Governo em Lisboa estão perfeitamente ao alcance de qualquer pessoa que decida andar a pé).

Menos que isso é simples treta.

Se quer dar o exemplo, dê exemplos que possam servir as pessoas comuns, ou acha que alguém vai passar a andar de carro eléctrico porque vislumbrou um ministro a passar de carro eléctrico quando esperava o sinal na passadeira que ia atravessar para chegar à paragem do autocarro?

"terrível destruição de riqueza nacional na era da troika"

por henrique pereira dos santos, em 28.12.19

A frase de título do post é exemplar para explicar os problemas profundos do jornalismo dominante.

A frase está no editorial do Público de hoje, é escrita por Manuel Carvalho (há por lá outros editorialistas que é natural que escrevam coisas destas sem que se justifique qualquer sobressalto por parte dos leitores) que não é propriamente um novato em questões de economia. Aliás, estou convencido de que a frase aparece apenas num automatismo de escrita sobre os activos que se vendem em Portugal, sem ser propriamente uma frase pensada para dizer o que diz.

Só que a frase está tão errada que, aparecer assim, como se fosse normal escrever isto, diz mesmo muito sobre a nossa iliteracia económica: a diminuição do PIB no tempo da troica não corresponde exactamente à destruição de riqueza, mas sim ao mero ajustamento entre economia e finanças no país.

Durante anos, antes da troica, fomos paulatinamente destruindo riqueza, ao mesmo tempo que o endividamento nos permitia disfarçar o que estava a acontecer. Criar dívida é o resultado de se gastar mais que o que se ganha, ou seja, é consumir riqueza, pelo menos temporáriamente. Se essa dívida servir para aumentar activos que depois nos permitem produzir mais riqueza, compensa esse consumo de riqueza temporária, mas se não servir para aumentar a nossa capacidade futura de criar riqueza, então criar dívida é destruir riqueza.

O que se fez, no tempo da troica, foi resolver, parcialmente, os mecanismos de destruição de riqueza que estavam instalados, repondo a nossa capacidade futura de produzir riqueza e pagar dívidas, ou seja, o que se fez no tempo da troica foi parar a destruição de riqueza e lançar as bases para a futura criação de riqueza.

Que, ainda hoje, o editorial do Público, subscrito por Manuel Carvalho, persista em espalhar histórias da carochinha inventadas por destruidores profissionais de riqueza, diz mais sobre a crise da imprensa e os problemas estruturais do país que sobre o tempo da troica.

Não admira por isso que a conclusão geral do editorial seja o reforço do proteccionismo de Estado como solução para Portugal, retomando exactamente a base da destruição de riqueza que nos conduziu à "era da troika".

O efeito perverso da simplificação

por henrique pereira dos santos, em 22.12.19

No mural do Facebook de um amigo que manifesta a sua solidariedade para com os seus amigos australianos, a propósito da situação dos fogos, uma australiana responde: " It’s pretty bad. And so many people still denying the links to climate change, including our government".

Não conheço a situação australiana, não sei qual é a relação que é possível estabelecer entre as alterações climáticas e a situação concreta destes fogos e por isso não me passa pela cabeça negar essa ligação.

O que me parece perverso é a facilidade com que se faz a ligação entre estes fogos e o facto de um governo concreto negar a sua ligação às alterações climáticas.

Com ou sem alterações climáticas, os fogos gerem-se gerindo paisagem, gerindo combustíveis, e o padrão de fogo nos países desenvolvidos (tanto quanto sei, que é alguma coisa para Portugal, mas bastante pouco para o resto do mundo, tenho um conhecimento do assunto tipicamente paroquial) tem acompanhado a evolução da paisagem, sobretudo a diminuição da gestão das terras marginais.

Tal como os efeitos destas cheias decorrem mais de opções de gestão do território que de alterações climáticas. O que pode depender de alterações climáticas é a frequência ou dimensão da cheia, agora ter estradas, linhas de comboio ou casas alagadas depende, essencialmente, das opções de traçado das estradas e caminhos de ferro bem como da localização das casas.

Ao passarmos o tempo a atirar responsabilidades para as alterações climáticas, sem mais, o que estamos a fazer é a perder foco na identificação concreta do que podemos fazer, do que se fez no passado e nas responsabilidades que devemos exigir a cada decisor, em cada nível de decisão, incluindo as nossas decisões individuais.

É fácil e cómodo dizer que é o meu governo que nega as alterações climáticas e por isso é responsável pelos fogos que ocorrem, admitir que são os meus padrões de consumo (incluindo, muitas vezes, a minha oposição concreta aos programas de fogo controlado cujo o fumo me incomoda) que determinam o contexto do fogo é bastante mais desconfortável.

"Unite behind the science"

por henrique pereira dos santos, em 21.12.19

O título deste post é um dos lemas da campanha "Fridays for future", de Greta Thundberg, que em Portugal tem vindo ser, em grande medida, promovida e apoiada pela Climáximo, uma espécie de marca comercial do Bloco de Esquerda para a fileira das alterações climáticas.

Aliás, a estrutura de apoio a Greta Thundberg apoiu-se na Zero, na Fridays for Future Portugal e, exactamente, na Climáximo, para organizar a sua passagem por Lisboa, a caminho de Madrid.

Apesar da razoável opacidade da Climáximo, é público que uma das pessoas que mais vezes aparecem associadas à Climáximo é João Camargo, um activista, como agora se diz de quem faz qualquer coisa por causas escolhidas subjectivamente e sem avaliação de resultados da qualquer coisa que se faz, anticapitalista porque não acredita em magia.

Todas estas organizações insistem, e bem, no tal lema do "Unite behind the science" a propósito de alterações climáticas.

O que me parece estranho é que estas organizações - corrigindo, a Zero é de facto uma organização, os outros são colectivos, não gostam de se confundir com a organização -, pelo menos duas delas (não sei o que faz a Fridays for Future, para além de organizar passeios às Sextas-Feiras), em várias outras matérias, como Organismos Geneticamente Modificados, Glifosato, Eucaliptos, etc., passem o tempo a desconsiderar os resultados da ciência com o argumento de que "a academia está toda capturada pelos interesses da indústria".

Aparentemente a Ciência atrás da qual nos devemos unir é como o Natal, é quando um homem quiser.

Os privados são bons é para pôr o dinheiro

por henrique pereira dos santos, em 13.12.19

Esta semana foi apresentado o European Green Deal.

É uma definição de políticas ambientais interessantes, tem muita coisa útil, um bocado de metafísica a mais para meu gosto e, como é normal em documentos estratégicos, o que interessa é o que vier depois disto, ou seja, a forma como cada uma das frases bonitas e correctas da estratégia se transforma em coisas concretas.

Há, no entanto, um aspecto que não gostaria de deixar passar em branco.

"Para atingir o nível de ambição fixado pelo Pacto Ecológico Europeu, são necessários investimentos significativos. A Comissão estimou que a realização dos atuais objetivos em matéria de clima e energia para 2030 exigirá um investimento anual suplementar de 260 mil milhões de EUR, ou seja, cerca de 1,5 % do PIB de 2018. Este fluxo de investimento terá de ser sustentado ao longo do tempo. A magnitude do desafio de investimento exige a mobilização dos setores público e privado."

Este parágrafo (é relativamente fácil encontrar parágrafos destes nos documentos mais globais sobre políticas ambientais e de conservação) retrata bem a forma como os privados (isto é, nós todos) são encaixados neste tipo de estratégias: fala-se neles quando chega a altura de discutir quem paga a conta.

É razoavelmente normal que documentos destes, feitos por entidades públicas, se centrem no que é suposto que essas entidades públicas façam mas, e essa é a questão, o ponto de vista adoptado é, de maneira geral, o de ignorar o facto da vida ser das pessoas e não dessas entidades públicas.

É só quando as contas ao dinheiro necessário para executar as políticas definidas aparecem, que alguém se lembra de dizer que é uma pipa de massa e os Estados não têm recursos suficientes para comandar a vida das pessoas e a economia das sociedades.

Nessa altura, e não antes, na definição de políticas como deveria ser, é que alguém se lembra de dizer que a participação dos privados é fundamental.

É pena, porque provavelmente seria possível chegar a soluções muito melhores para todos se desde o primeiro minuto se compreendesse que sem as pessoas comuns, sem as empresas, sem a filantropia, sem a liberdade destes todos fazerem o que melhor lhes aprouver, as políticas públicas tendem a reflectir mais o que os burocratas (como eu) pensam sobre a realidade que a realidade propriamente dita.

O mito do eterno retorno

por henrique pereira dos santos, em 12.12.19

Ludwig_Binder_Haus_der_Geschichte_StudentenrevolteUma manifestação de estudantes na Alemanha, em 1968, contra a guerra no Vietname (ou melhor, contra a participação dos EUA na guerra do Vietname).

Lembrei-me disto a propósito da quantidade de gente que vejo dizer que nunca se viu nada como o que se vê actualmente, em matéria de envolvimento da juventude na política, em participação em manifestações e na exigência de soluções dos governos para os problemas que afectariam o seu futuro.

Neil Young, pelos vistos, poderá estar velho, mas ainda tem memória, ao contrário do que parece acontecer na generalidade da comunicação social: "Though Neil Young is concerned about the troubling times, it’s also nice to see him so optimistic about the youth of this country. He continues talking about the way people will be connecting with one another, saying, “We had the Vietnam War in the ’60s, and there was a draft. The students didn’t believe in it, and it unified them. That brought the people together and made the ’60s like they were. The youth were very unified against the status quo—against the old line and the new old line. It’s the same exact thing today. Social media and young people, art, music, all communications make this one of the most active times for activism. It will be a time of change.”".

Mas ter memória não significa ter lucidez, a previsão "It will be a time of change" não é de hoje, é de 2016 e referia-se à mobilização do activismo anti-Trump, cujos resultados, mais de três anos depois, já permitem admitir que o seu optimismo não teve grande tradução nos factos.

Isto, claro, para não recuar mais no tempo à procura de grandes exemplos que iam mudar o mundo e esquecendo a velha imprecação de Caetano Veloso (também em 1968, o tal ano em que as manifestações nunca vistas da juventude iriam virar a ordem social do avesso), quando foi vaiado por essa juventude militante que enchia o festival de música a que concorria, incapaz de reconhecer o verdadeiro vanguardismo: "São a mesma juventude que vai sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem Vocês não estão entendendo nada, nada, nada! Absolutamente nada! ... Se vocês forem... se vocês em política forem como são em estética, estamos feitos!".

Que ferro, os factos

por henrique pereira dos santos, em 06.12.19

Uma das coisas que me separam dos meus amigos que se enternecem com uma rapariga de 16 anos que move o mundo é o facto de achar profundamente negativa, para o que temos de fazer seriamente, a visão catastrofista da forma como têm evoluído as questões ambientais e relacionadas com as alterações climáticas.

É falso que não se esteja a fazer nada. É perfeitamente razoável discutir se o que se tem feito é suficiente, discutir o que se pode fazer para responder à urgência em andar mais depressa, mas é absolutamente falsa a alegação de que ninguém faz nada e que os políticos são todos uns hipócritas vendidos aos interesses, uma alegação central para tudo o que vem por arrasto.

E quando tento demonstrar que esta alegação é falsa, uso essencialmente a informação destes dois gráficos.

emissões china.jpg

 

EsEsemissões USA.jpg

Estes gráficos, e bastante mais informação objectiva (por exemplo, os mesmos gráficos podem ser apresentados por capita, em vez de emissões totais) podem ser vistos aqui, para quem tiver dúvidas sobre eles.

O que é claro, a partir destes gráficos, é que as emissões estão a baixar nos Estados Unidos (o mesmo se passa na Europa). Não está nestes gráficos, mas é fácil verificar que esta diminuição de emissões não decorre de se produzir menos (o PIB tem crescido), mas sim de se ser mais eficiente no uso dos recursos.

O argumento habitual dos que acham que os problemas todos do mundo são da responsabilidade dos americanos, é que as emissões diminuem nos Estados Unidos e Europa porque exportámos a produção e a poluição para os países que exploramos.

Ora os gráficos têm duas linhas, uma com a medição das emissões na óptica da produção, e outra na óptica do consumo, sendo evidente que a linha do consumo tem valores um pouco mais altos que a da produção nos Estados Unidos e um pouco mais baixos na China, mas a tendência global não é determinada pela deslocalização da produção, é mesmo pelo aumento brutal do nível de vida em muitos dos países mais pobres, em especial China e Índia.

Greta Thundberg bem pode dizer que a minha geração lhe roubou a infância, que haverá milhões de outras crianças e adolescentes no mundo que, mesmo que o não saibam, beneficiaram muitíssimo do facto da percentagem da população mundial a viver em pobreza extrema ter diminuído de 42% em 1981 para menos de 10% em 2015.

Se não se tivesse feito mais nada, a minha geração, e as que as precederam, mereciam pelo menos o respeito por esta evolução extraordinária.

É verdade que isto foi conseguido à custa de pressões enormes sobre os valores naturais, que estamos perante um gravíssimo problema de perda de biodiversidade e perante um dramático desafio na gestão das alterações climáticas.

E é exactamente por isso, porque a situação é tão complexa e difícil, que não embarco facilmente em discursos de treta que nos desviam dos factos essenciais: é no mundo desenvolvido que estão a ocorrer as maiores transformações no sentido certo, feitas pelas pessoas, pelas empresas e, complementarmente, pelos Estados, como os gráficos acima demonstram claramente.



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