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Não foi isto que os meus pais me ensinaram

por henrique pereira dos santos, em 15.04.21

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Este gráfico começa a 24 de Dezembro, naqueles dias que, na opinião dominante, nos portámos tão mal, mas tão mal, que a epidemia disparou para um nível impensável.

Felizmente fomos salvos por um grupo de matemáticos que, pelo menos desde antes de Setembro, vinha a prevenir para o desastre que estava para vir. A pressão que fizeram, com largo apoio da opinião pública e publicada, obrigou o governo a fechar as escolas a 22 de Janeiro.

Dizem eles que sem esse fecho seria impossível fazer descer os números de forma relevante e, mais ainda, acrescentaram, na altura, que mesmo com esse fecho, porque era tardio, a descida ia demorar meses.

De repente passaram a dizer que esse fecho a 22 de Janeiro tinha dado resultados tão fantásticos, que a 28 de Janeiro a queda se acentuou tão bruscamente que afinal os números desceram em poucas semanas.

Mas atenção, nem pensar em abrir nada, disseram, logo no princípio de Março, que o facto de no último fim de semana de Fevereiro ter estado bom tempo e as pessoas terem ido todas para a rua, nos ia sair muito caro, com uma inevitável subida de casos aí por 15 de Março, que iria impedir a abertura de escolas.

15 de Março passou, abriram muito mais escolas do que eles pretendiam, a ameaçaram-nos com os efeitos evidentes desse erro, que iria impedir uma maior abertura de escolas a 5 de Abril, se o governo insistisse nessa teimosia, íamos pagar caro, sofrendo uma quarta vaga, talvez com a dimensão do que se viu depois do Natal.

5 de Abril passou, abriram mais escolas, e as esplanadas (meu Deus, as esplanadas, como é possível?) e ameaçaram-nos com uma subida estonteante do R(t), que seria imparável e avisaram-nos para a loucura de abrirmos mais a sociedade em cima desse crescimento do R(t), que iríamos pagar quinze dias mais tarde.

Agora, que estamos a 15 de Abril, avisam que é preciso esperar mais uma semana para ter mais informação sobre o impacto de medidas que, em Março, demoraram apenas uma semana a ter um efeito brutal, na opinião deles.

Caramba, desde o tal fim de semana de Fevereiro, cujos efeitos se iam ver em quinze dias, passou um mês e meio e raio da quarta onda não dá sinais visíveis para os leigos (para os especialistas os sinais não só existem, como são evidentes desde Agosto e vamos pagar muito caro o facto de não lhes darmos ouvidos).

Meus caros, eu sei que não foi assim que me ensinaram em casa, mas se ao fim deste tempo todo, com toda a informação que já existe, continuam a manifestar o mais completo desprezo pela vida de todos e pelos efeitos dos vossos conselhos na vida de terceiros (estou como o Johnn Lennon, "How can you sleep at night?" sabendo como os vossos fantasmas têm mantido presos e longe de todos milhares de velhinhos cuja principal alegria é exactamente estar perto de quem gostam?), é mesmo a altura de pedir desculpa aos meus pais e dizer-vos para irem à merda mais ao mau uso que fazem da vossa influência.

Amanhã, se se começar a formar uma onda brutal, cá estarei para assumir responsabilidades intelectuais pelo que escrevo (outras não tenho) mas, infelizmente, nenhum de vocês manifestou, até agora, qualquer intenção de assumir qualquer responsabilidade nas imensas perdas e sofrimento que os erros das vossas previsões (compreensíveis, só não erra com previsões quem não faz previsões, não é esse o problema, o problema é insistirem em apresentar previsões que sabem ter uma enorme incerteza como certezas que obrigam a opções únicas e inevitáveis), dizia, que os erros das vossas previsões induzem.

Custo de oportunidade

por henrique pereira dos santos, em 15.04.21

Recentemente, numa conversa sobre o controlo de háqueas (uma invasora cujo controlo é muito complicado e que pode estar no mesmo sítio anos a fio sem problema, tendo uma expansão explosiva após fogo), lá apareceu alguém, como  de costume, a falar na necessidade de arrancar eucaliptos também (a ideia absurda de gastar recursos a controlar o que pode ser facilmente controlado, renunciando a alocar recursos para o controlo de invasoras agressivas que estão presentes no mesmo local, é uma ideia muito difundida e aceite, mesmo entre elites que têm a obrigação de estar bem informadas).

No movimento ambientalista a ideia de custo de oportunidade é muito mal conhecida, com efeitos reais na vida de todos nós. Um bom exemplo é exactamente a legislação sobre espécies invasoras, uma péssima regulamentação que resulta da péssima qualidade das nossas instituições, muito permeáveis aos poderes fácticos e muito pouco ancoradas na produção de informação socialmente validada, de forma aberta e racional.

Não tive qualquer envolvimento na elaboração ou discussão deste diploma legal, mas há anos estive envolvido na revisão da legislação então existente e o processo era todo ele absurdo: de um lado um movimento ambientalista - e uma academia - fortemente radicalizado, que sem grande enraizamento social tenta sistematicamente usar a legislação para ter ganho de causa, do outro processos de decisão obscuros, pouco transparentes e, sobretudo, conduzidos de forma timorata, que procuravam garantir que se evitavam muitas ondas políticas e sociais (ao dizer isto, não posso deixar de dizer que, nessa altura, eu era vice-presidente do ICN e a proposta dessa legislação passava directamente por mim, portanto a descrição do processo de decisão que faço é com conhecimento de causa e não pretendo omitir as minhas responsabilidades nesses processos de decisão, sejam elas quais forem, o que não estou a discutir agora).

Em vez de se procurar, de forma aberta, uma legislação aceite por todos (o que é diferente de ter uma legislação com que todos estão de acordo, todos nós aceitamos no nosso dia a dia milhares de coisas com que não estamos de acordo), em que se procurasse atender à realidade de haver espécies invasoras muito agressivas e de elevado risco, espécies comprovadamente invasoras mas de baixo risco, espécies potencialmente invasoras, mas cuja presença entre nós não demonstra, até agora, qualquer evidência de comportamento invasor e espécies não presentes ainda, potencialmente invasoras, tratando cada um destes grupos de forma diferenciada, o que se procura é bem mais complicado.

De um lado, um grupo muito pequeno de pessoas, muito conhecedoras e conscientes dos riscos associados às espécies invasoras, que pretendem aproximar-se, tanto quanto possível, do risco zero associado ao uso de espécies exóticas, sabendo como o problema é relativamente fácil de controlar inicialmente (mas com o problema, inevitável, de nos faltar quase sempre a informação necessária para termos a visão correcta e atempada do problema antes dele se tornar grande), mas virtualmente impossível de resolver uma vez atingida uma certa dimensão (como acontece com um fogo ou uma epidemia).

Do outro uma administração pública incapaz de tomar decisões e correr riscos, pressionada por regulamentos e disposições europeias ou globais, expressas em convenções ou outros tratados internacionais a que Portugal se obrigou, sem capacidade nem recursos para ter instituições suficientemente crediveis e fortes na produção de informação de gestão consistente nos domínios nos quais se detem competências, dependendo, portanto, do primeiro grupo para a produção da informação de gestão de que necessita.

Em consequência, o que está na legislação a que fiz ligação acima, é que uma albizia julibrissin, há décadas nos nossos jardins, sem dar sinais de comportamento invasor (o que não quer dizer que não seja potencialmente invasora), é tratada com o mesmo rigor das háqueas, sendo proibida a sua detenção, comercialização, utilização, etc..

E o resultado dessa legislação é que a espécie continua a ser usada, incluindo pelo Estado, que ignora a sua própria legislação e, evidentemente, a ninguém passa pela cabeça andar a arrancar todas as albizia julibrissin que existem por aí, ao mesmo tempo que são muito raras e inconsistentes a maioria das acções necessárias de controlo de verdadeiras invasoras de alto risco.

Um bom exemplo são as milionárias intervenções do Estado (sim, há muito dinheiro alocado a isso) de emergência e recuperação pós fogo, que brotam como cogumelos depois de grandes incêndios, que tratam os riscos de expansão de invasoras  - sobretudo acácias e, em especial nos xistos, háqueas - como uma questão menor, em vez de ser o principal problema em que investir recursos, quer porque é depois do fogo que há uma maior expansão destes dois grupos de invasoras, quer porque é nessa altura que é mais fácil o seu controlo, nomeadamente o controlo da germinação dos milhões de sementes de háquea que o fogo liberta da prisão em que a planta as segura até que o corte, a secura ou o fogo consigam abrir as cápsulas que as protegem.

O problema destas invasoras muito agressivas no pós fogo é um problema social e de gestão de recursos naturais incomparavelmente maior que o eventual comportamento invasor do eucalipto, que o problema da erosão pós fogo, que o problema da reposição do potencial produtivo, que o problema da transformação da paisagem e todos essas coisas em que gastamos os recursos disponíveis.

O custo de oportunidade associado aos recursos gastos a fazer plantações pós fogo - é tão mais giro e reconfortante plantar carvalhos, quando comparado com o arranque das jovens háqueas antes que comecem a dar semente outra vez, em dois anos -, ou a fazer controlo da erosão e da torrencialidade, apesar de brutal, é totalmente invisível para a generalidade das pessoas comuns, para a generalidade dos decisores (públicos e privados, a quantidade de voluntariado corporativo que insiste em fazer plantações, em vez de controlar invasoras, é inacreditável) e para a generalidade dos poucos para quem a gestão de invasoras é um problema realmente sério (incluindo o grupo, ainda mais pequeno, mas em crescimento, dos que acham a guerra das invasoras uma guerra perdida, não valendo a pena gastar recursos num problema sério, sim, mas insolúvel).

Precisaríamos de um grupo de economistas com boas capacidades pedagógicas para fazer umas acções de formação em "custos de oportunidade" ao movimento ambientalista.

E, já agora, talvez fosse boa ideia reservar alguns dos lugares disponíveis nesses cursos para epidemiologistas, suspeito que também aí os custos de oportunidade sejam invisiveis.

Não é ele, são os outros

por henrique pereira dos santos, em 14.04.21

Quando Guterres ganhou as eleições, em 1995, fez um governo de coligação PS/ independentes.

Nessa altura Elisa Ferreira fazia parte dos independentes e José Sócrates fazia parte do aparelho do PS e, como acontecia em vários ministérios, a tensão entre os independentes e o aparelho do PS era alta, e era gerida com pinças pela cúpula do PS e do governo.

Em muitos ministérios os independentes eram ministros, mas na verdade não escolhiam integralmente os seus secretários de Estado, pelo contrário, tinham secretários de Estado que estavam ali para reestabelecer o equilíbrio entre PS e independentes (e, aparentemente, também para serem controleiros dos ministros).

No caso desse Ministério, Elisa Ferreira fazia questão de marcar a sua independência, trazendo Ricardo Magalhães, em que depositava confiança pessoal, como seu secretário de Estado a quem atribuiu todas as competências mais relevantes do Ministério à época (água, conservação da natureza, etc.), e a José Sócrates atribuiu a posição formal de secretário de Estado adjunto, ou seja, a segunda figura do ministério, ao mesmo tempo que lhe dava competências em matérias que, na altura, eram marginais (resíduos, defesa do consumidor, etc.) ao ponto do próprio se intitular a si próprio como o "Zé das Sobras".

Elisa Ferreira nomeou para a presidência do ICN Teresa Andresen e isso teve um resultado inesperado: eu fui nomeado vice-presidente do ICN, o que me levou a ser uma testemunha relativamente próxima dos métodos de actuação de José Sócrates, mesmo que o meu secretário de Estado de tutela fosse Ricardo Magalhães e não Sócrates.

Uma pequena história ajuda a perceber a natureza das coisas.

Sócrates estava profundamente empenhado na co-incineração dos resíduos nas cimenteiras e uma das cimenteiras ficava (e fica) localizada no Parque Natural da Arrábida.

O director da área protegida fez umas declarações moderadíssimas sobre o assunto: se houvesse decisões de nível nacional sobre o assunto não caberia ao director da área protegida ter opinião sobre o assunto, mas estritamente do ponto de vista da área protegida, preferiria que a co-incineração fosse feitas noutras cimenteiras e não na que se localizava na Arrábida.

Sócrates, a braços com a contestação do movimento ambientalista à co-incineração - inicialmente Sócrates foi apoiado pelo movimento ambientalista na gestão dos resíduos, mas a opinião depois mudou - considerou estas declarações inaceitáveis (punham em causa a ideia de que a incineração era inócua e não tinha qualquer problema ambiental) mas não tinha tutela directa sobre o ICN e estava em permanente conflito com a ministra e os independentes para ganhar espaço político (o que sempre fez com enorme eficácia).

Esperou pelas férias da ministra, nas quais assumia o papel formal de ministro em substituição, para chamar ao seu gabinete, sem dar conhecimento à cadeia hierárquica, o director da área protegida, para o destratar e ameaçar (escuso-me a pormenores, a forma como Sócrates tratava os seus subordinados, a quem exigia fidelidade absoluta, é do conhecimento público) com o objectivo de condicionar a sua opinião e eventual decisão numa matéria a que Sócrates dava importância política.

As questões formais, a lei, a decência ou a mera urbanidade no tratamento eram, para Sócrates, meros pormenores sem qualquer relevância face ao seu ganho político (não falo dos outros, não tenho informação concreta sobre isso) em cada situação.

Se eu, um mero subalterno sem ligação funcional directa (e que sempre procurei manter uma distância higiénica de Sócrates e do seu círculo próximo, muito influente na área da conservação da natureza em que sempre trabalhei), sabia perfeitamente quais eram os métodos de actuação de Sócrates e a forma como sempre tratou as pessoas (primeiro tentando seduzi-las para os seus pontos de vista, em falhando, tentando comprá-las, em falhando, ameaçando e perseguindo), e de como as regras, a lei e a decência se submetiam sistematicamente aos seus objectivos pessoais, como é que os outros, todos os outros que lidavam todos os dias com ele, anos seguidos, não sabiam de nada e nunca perceberam os riscos institucionais associados à atribuição de poder a uma pessoa que agia sem o menor respeito por o que quer que achasse um obstáculo para os seus objectivos?

A lei e a justiça são importantes, claro, mas antes disso a questão está em perceber que raio de pessoas e que raio de princípios seguem as pessoas que durante anos seguiram Sócrates, sabendo perfeitamente quem era e como actuava?

Eles, como eu, sabiam perfeitamente que a enorme eficácia política de Sócrates - é dos melhores nisso - assentava na sua amoralidade e na forma como lhe era completamente indiferente a forma como obtinha ganho político, desde que o obtivesse, o que nos distingue é que eu valorizo mais os meios que os resultados, ao contrário dos apoiantes de Sócrates que sempre desvalorizaram os meios, desde que os resultados lhes parecessem bons.

Em louvor do fogo

por henrique pereira dos santos, em 13.04.21

Há semanas que ocorre um debate num grupo que se interessa por questões florestais sobre o uso do fogo na gestão do território.

A maior parte do debate tem de um lado as pessoas que gerem concretamente terrenos com alguma dimensão, e que, com variações, admitem o uso do fogo, tendo uma ideia muito clara de que a opção não é entre arder ou não arder, mas entre arder da forma que se entende, nos sítios que se entende, nos tempos em que se entende, com as melhores condições para controlar os efeitos potencialmente negativos do fogo, ou arder descontroladamente quando calha e nas condições que potenciam os efeitos negativos do fogo.

O outro lado tem uma série de pessoas que nunca conseguem explicar que áreas gerem - há um pequeno grupo que gere áreas agrícolas, não áreas marginais, que alinham neste lado do debate - e que têm ideias definitivas sobre o fogo, tendo a absoluta certeza de que é possível eliminar o fogo dos sistemas naturais que ocorrem nas nossas condições.

Até aqui, nada de anormal, a discussão entre quem se baseia no "honesto estudo, com longa experiência misturado" e aqueles que jamais deixarão que os factos influenciem as suas ideias é um debate eterno (e útil, é fundamental que os primeiros avaliem os argumentos dos segundos e consigam dar-lhes resposta racional porque nenhum dos grupos alguma vez terá todo conhecimento).

O que mais me espanta não é a existência destes dois grupos na discussão, o que me espanta são os poucos que seguramente praticam o "honesto estudo com longa experiência misturado" mas se fixam num aspecto do problema, esquecendo todos os outros e as relações entre os diferentes factores envolvidos em processos complexos.

São os que sabendo muito, reconhecendo que os outros podem saber muito de fogo, decretam que não sabem nada de ecossistemas e vegetação, para concluir que não se percebe por que razão alguém perde tempo a queimar giestais quando os giestais beneficiam com o fogo.

É bem verdade que os giestais se dão bem com vários padrões de fogo e é bem verdade que são dos principais beneficiários do padrão de fogo dominante actualmente em Portugal, os grandes fogos de Verão, com frequências que em média andarão pelos doze a quinze anos de intervalo, situação que, aparentemente, em muitas circunstâncias, conduz a um bloqueio da sucessão ecológica, com dominância esmagadora do giestal.

Quando um giestal se instala - e instala-se facilmente porque a giesta está especialmente adaptada a este tipo de fogos, comportando-se como uma invasora muito agressiva, só não sendo considerada uma espécie com comportamento invasor porque a definição de espécie invasora implica que não seja uma espécie autóctone - o tempo relativamente longo até ao fogo seguinte, os tais dez ou quinze anos, permitem o domínio quase total do giestal, que forma uma massa densa de giestas que impede a insolação do solo, dificultando enormemente a germinação do banco de sementes que possa existir no meio desse giestal.

Quando ocorre um fogo intenso de Verão - e ocorre sempre, mais cedo ou mais tarde - a camada superficial do solo é profundamente afectada, o banco de sementes que exista é destruído, a matéria orgânica existente na camada superficial do solo é calcinada, ao mesmo tempo que as sementes da giesta beneficiam de todo o processo por estarem preparadas para essas circunstâncias, a dormência das suas sementes é quebrada pelo fogo, sendo beneficiárias desse fogo intenso.

O resultado é a rápida reinstalação da dominância do giestal, momentaneamente quebrada pelo fogo, retomando a evolução que mantém o giestal denso como esmagadoramente dominante.

A questão a que aparentemente alguns ecólogos, que se recusam a estudar a ecologia do fogo, parecem não dar importância é que ao mexer nas características do fogo - frequência e intensidade - é possível quebrar o processo de auto-perpetuação do giestal.

Ao fazer um fogo controlado - o giestal arde muitíssimo bem nos fogos intensos de Verão, mas é dos sistemas mais difíceis de queimar com fogos prescristos porque, não havendo continuidade de combustiveis no solo, a propagação tem de ser feita através de um fogo de copas no giestal, com riscos muito elevados de ultrapassar a intensidade pretendida, aproximando-se de um fogo de Verão, nas suas consequências - não há afectação da camada superficial do solo, não há afectação do banco de sementes de outras espécies que existam e a vantagem das giestas face a outras espécies é bastante menor que a que existe em fogos intensos de Verão, abrindo oportunidades à germinação e sucesso reprodutivo de muitas outras espécies.

Ainda assim, se se mantiver a frequência de fogos de dez/ quinze anos, é natural que o giestal vá retomando a sua anterior preponderância, mesmo que com maior dificuldade dada a presença de outras espécies que competem pela luz, nutrientes e água.

Mas se se encurtar a frequência de fogo para quatro ou cinco anos, repetindo o fogo controlado - o segundo fogo será muito mais fácil que o primeiro dado que a continuidade de combustíveis no solo é maior e não será preciso fazer um fogo de copas para assegurar a progressão da chama - quebram-se as vantagens competitivas do giestal e a evolução vai tomando outro caminho.

Claro que todo o processo pode ser acompanhado por outras medidas de gestão entre fogos que garantam a progressiva perda da dominância do giestal, aumentado a diversidade ecológica e, sobretudo, mudando a agulha na evolução dos sistemas naturais, fugindo ao beco sucessional do giestal denso.

A solução ideal é juntar a este processo o pastoreio, por razões que não vou agora explicar (seria outro post tão igualmente extenso como este e com provavelmente tão poucos leitores interessados como este), mas nem sempre isso é possível.

O que me interessa é mesmo esta dificuldade que todos temos de pensar de forma diferente em assuntos que conhecemos muito bem: já olhámos para eles tantas vezes, já os estudámos tanto, como é possível que haja uma coisa básica que nos tenha escapado?

Não só é possível, como acontece frequentemente, como até é o mais natural que aconteça, é por isso que a democracia, isto é, o governo das pessoas comuns, de maneira geral é bastante mais eficiente, no longo prazo, que a tecnocracia, isto é, o governos dos técnicos.

Uma pessoa que sabe que não sabe está, por definição, muito mais disponível para admitir que talvez haja outra maneira de ver um assunto que o maior especialista nesse assunto.

Max Planck sintetisou bem a coisa "“A new scientific truth does not triumph by convincing its opponents and making them see the light, but rather because its opponents eventually die, and a new generation grows up that is familiar with it.”

Um jornalismo militantemente contra teorias de conspiração

por henrique pereira dos santos, em 12.04.21

O Público é, neste post, um mero exemplo de como o jornalismo militantemente contra teorias de conspiração tem dias.

O Público, como a generalidade da imprensa, recusa dar a voz ao contraditório em matéria de epidemia porque não alinha em teorias de conspiração e entende que os terraplanistas não devem ter espaço mediático por serem um perigo público, embora até agora ninguém tenha encontrado nenhuma evidência do efeito das teorias de conspiração na evolução da epidemia.

O mesmo Público, militantemente contra terraplanistas com teorias de conspiração, por outro lado, acha normal entregar uma página inteira sem qualquer contraditório a um aldrabão que mercadeja o seu cargo e vende a sua personalidade, para que possa explicar pormenorizadamente a sua teoria de conspiração, assente, aliás, em mentiras comprovadas, como a de dizer que o tribunal demonstrou que tudo de que era acusado era mentira.

Com a agravante de que os efeitos sociais negativos deste terraplanista, vendedor de ilusões e teorias de conspiração, estão absolutamente comprovados.

E, já agora, esses efeitos sociais negativos foram grandemente amplificados por esta mesma imprensa que sempre tratou com displicência, brandura e compreensão as mais variadas teorias de conspiração com que este terraplanista justificava as mais mirabolantes peripécias da sua longa carreira política, pelo menos desde o aterro da Cova da Beira que, já em 2003 (2003, senhores, há 18 anos), levou a PJ a querer fazer buscas em casa de Sócrates (o que o Ministério Público não autorizou, sem que a imprensa achasse o assunto suficientemente sumarento para investigar seriamente o que se tinha passado).

E continuam a tratar o negacionismo (ele nega tudo de que é acusado, claro) de Sócrates como mera matéria de opinião a que é preciso dar espaço mediático.

E se?

por henrique pereira dos santos, em 10.04.21

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O Instituto Nacional de Estatística publicou na sexta feira este gráfico com  mobilidade em Portugal desde o início da epidemia Covid.

Com todos os defeitos e limitações que este gráfico possa ter como retrato dos contactos, parece-me incomparavelmente mais sólido que os modelos esquisitos e inescrutináveis que têm sido usados por alguns investigadores para defender a tese de que a evolução da epidemia é sobretudo o resultado dos nossos contactos sociais e, consequentemente, se queremos controlar a epidemia, o que temos de fazer é ter medidas de restrição de movimentos.

Desta ideia por demonstrar nascem medidas de restrição directa de movimentos, como proibir a circulação entre concelhos, e medidas indirectas que visam restringir movimentos, como fechar escolas ou fechar restaurantes à uma da tarde ao fim de semana (o uso da primeira com este objectivo é simplesmente imoral, o uso da segunda é melhor, é só estúpido). 

Agora olhemos para a evolução do número de casos da epidemia (tenhamos em conta que até ao Verão do ano passado o número de casos é fortemente condicionado pela escassez de testes) e tentemos estabelecer um paralelismo entre os dois gráficos.

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Exactamente, não há, essa é a conclusão a tirar e não há maneira de fazer qualquer ligação lógica entre o grau de confinamento e o número de casos, mesmo dando o desconto de uma semana a dez dias entre uma coisa e outra, como será normal para integrar o tempo entre o contágio e o registo de um caso positivo.

Mais rigorosamente, até há uma ligação lógica, mas é a inversa: quando as pessoas se apercebem de aumentos relevantes de casos (estou convencido que até é mais com o aumento de mortes) as pessoas resguardam-se mais, independentemente das medidas tomadas, quando sentem os casos a descer, mesmo que as medidas restritivas não sejam levantadas, as pessoas resguardam-se menos (isso é muito evidente com o facto da mobilidade começar a crescer de novo na segunda semana de Fevereiro e as medidas de desconfinamento só começarem a ser tomadas a 15 de Março).

Resumindo, as medidas coercivas de confinamento parecem razoavelmente inúteis: as pessoas confinam por si quando se sentem ameaçadas, desconfinam por si quando sentem a ameaça a diminuir e os governos tendem a ir atrás desses sentimentos, acabando por tomar medidas de confinamento em cima dos picos de incidência e tomar medidas de desconfinamento muito depois das pessoas já estarem na rua.

Ou seja, as medidas coercivas são largamente inúteis para o controlo da epidemia e, da forma como são tomadas, agravam os efeitos secundários negativos sobre a economia e sociedade.

Agora para os que pretendem dizer que o pico de Janeiro em Portugal não pode estar ligado à anomalia meteorológica que começa a 24 de Dezembro, porque em Manaus estava calor e também havia um pico (alguém faltou às aulas de filosofia em que se estudou a lógica formal) conto uma pequena história.

O Paulo Fernandes fez uma brincadeira simples mas útil, uns gráficos de vários em que a curva de evolução de casos ou de mortes (fez com os dois indicadores) de 2020 e 2021aparecem na mesma base temporal, e o resultado para a Suíça (no caso das mortes) é este.

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Podia ter escolhido vários outros países, mas ao olhar para este gráfico fiquei com curiosidade em ir ver o boletim mensal de monitorização do clima dos serviços meterológicos suíços para Outubro (neste gráfico a subida é do fim de Outubro mas é mortalidade, portanto fui ver o que aconteceu aos casos e há uma súbita subida em Outubro) e, sem surpresa, o que lá está escrito (aquilo está em alemão, portanto usei a tradução automática do google para o ler) é isto: "Na Suíça, outubro foi extremamente frio e muito difundido chuvoso. Várias vezes houve neve fresca até camadas médias. A duração do sol permaneceu abaixo da norma na maioria das áreas. No início do mês caiu no lado sul dos Alpes e nas áreas adjacentes precipitação maciça e pesada, localmente em quantidades recordes."

A tradução é o que é, mas dá para perceber, tal como dá para perceber este mapa, desde que eu diga que se trata da anomalia da temperatura face à normal 1981/ 2010.

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É certo que evidências contingentes como estas não demonstram nada, são meras hipóteses, mas ao menos há correlação entre uma coisa e outra, ao contrário do que acontece entre mobilidade (e, mais ainda, medidas coercivas que pretendem condicionar a mobilidade) e epidemia, em que nem correlação séria existe.

A hipótese de ter actividade viral relacionada com as condições ambientais pode estar totalmente errada, mas evidentemente não se rebate dizendo que no mesmo Outubro em que isto acontecia na Suíça havia um país ou região qualquer nos trópicos em que havia um surto e estava calor.

Os da ciência e os outros

por henrique pereira dos santos, em 09.04.21

Camaradas, vejam se percebem uma coisa: uma das razões das esplanadas estarem cheias é o facto de todos os outros sítios onde uma pessoa se pode sentar a tomar um café continuarem fechados.

Abram lá os cafés e restaurantes que as esplanadas ficam automaticamente mais vazias.

Se quiserem uma formulação mais científica da coisa, posso ir ali a uns manuais escolher umas definições de densidade para explicar com números e equações por que razão a mesma quantidade num espaço mais pequeno resulta numa maior densidade.

Se preferirem demonstrações empíricas, podem lembrar-se dos excelentes resultados de concentrar os compradores nas manhãs proibindo os supermercados de abrir à tarde.

O que convém não esquecer é que a ciência em que se baseia a gestão da epidemia é a mesma em todo o lado, embora as regras mudem de sítio para sítio e as vacinas da AstraZéneca ... (bom, sobre a solidez da base científica é melhor ficar por aqui).

Manuel Carmo Gomes, os jornais e as escolas

por henrique pereira dos santos, em 07.04.21

Manuel Carmo Gomes volta à carga hoje.

Um artigo de que é co-autor, já com mais de um mês e ainda em revisão na Nature, largamente noticiado por volta de 4 e 5 de Março, faz a manchete do Público de hoje "Com ritmo de vacinação ainda lento, reabertura total das escolas pode levar a quarta vaga de covid-19".

Note-se que o próprio Público (com base na Lusa) já tinha dado a mesma notícia no dia 4 de Março, com a pequena diferença de Manuel Carmo Gomes fazer, há um mês, a mesma previsão, não especificamente com as escolas mas com o desconfinamento.

De resto, Manuel Carmo Gomes tem uma fixação no ensino presencial há muito tempo, sem qualquer base factual.

Nunca responde às perguntas, não dos jornalistas, que nunca as fazem, mas de muitas outras pessoas que no espaço público alertam para os problemas de ter as escolas fechadas, perguntando onde está o efeito do fecho das escolas para férias de Natal nos dados, e como se explica que a súbita subida de contágios e do Rt com que se inicia o surto de Janeiro tenha ocorrido ainda com as escolas fechadas, nas férias de Natal.

Manuel Carmo Gomes justifica-se com raciocínios crípticos como este: [as dificuldades de Janeiro] "Teriam sido evitadas se tivéssemos tomado medidas em Novembro que evitassem termos chegado ao Natal ainda na zona dos 3500 casos por dia. Era desejável que estivéssemos em menos de 2000 casos/dia no Natal. Tenho muitas dúvidas acerca da eficácia de um Natal «proibido» em Portugal, por isso prefiro colocar as coisas desta forma. Teríamos também amenizado a situação se, logo a partir de dia 5 ou 6 de Janeiro, quando nos apercebemos da situação em que estávamos, tivéssemos tomado logo as medidas que só vieram a ser tomadas após o Conselho de Ministros do dia 21 de Janeiro". Note-se que esta pequena entrevista no blog da Fundação Francisco Manuel dos Santos é de 15 de Fevereiro, ou seja, a ideia do fecho das escolas está sempre implícita, quaisquer que sejam as circunstâncias.

Por que razão Manuel Carmo Gomes (e a sua criação mediática, Carlos Antunes) é ouvido tão frequentemente, sem nunca haver qualquer contraditório, nos jornais?

Penso que a minha experiência com os fogos e a imprensa me ajuda a compreender.

Não sou, nunca fui, especialista de fogos, faço questão de o dizer frequentemente (aliás, quando a mesma Fundação Francisco Manuel dos Santos me pediu um artigo sobre fogos, indiquei dois ou três nomes alternativos que sabiam muito mais do assunto que eu e, mantendo a Fundação a sua opção de querer um artigo meu, fiz questão de deixar bem claro que não era especialista no assunto), mas frequentemente pedem-me opiniões sobre fogos.

É certo que já antes escrevia sobre a relação entre a paisagem e o fogo - a primeira vez que me convidaram para falar numa iniciativa académica cheia de especialistas no assunto, perguntei pela razão de me convidarem, não sendo eu um académico nem tendo trabalho de investigação sobre fogos e explicaram-me que (na altura, hoje não é bem assim) eram raras as pessoas que falavam de fogos à escala da paisagem - mas foi imediatamente depois do fogo de Pedrogão que passei ao estatuto mediático de especialista no assunto.

Na altura, escrevi rapidamente um artigo que Ana Fernandes me pediu (apesar de ter sido feito a correr, até saíu bem) porque fiz uma opção ética diferente da maioria dos especialistas no assunto que se recusaram a falar a quente, em cima da morte de dezenas de pessoas: eu recusei-me a deixar o espaço mediático livre para os Jaime Marta Soares desta vida.

Lembro-me bem de um dia ter convencido uma excelente jornalista de televisão a ir ouvir Paulo Fernandes sobre o assunto, a Vila Real. Quando lhe perguntei que tal tinha corrido, respondeu-me que tinha aprendido imenso, que a visita de campo tinha sido fantástica, mas não conseguia aproveitar nada da entrevista com o Paulo porque a completa negação comunicacional do Paulo a impedia de passar o resultado numa televisão.

Felizmente o Paulo melhorou muito nesse aspecto - era mesmo muito mau a comunicar, o que hoje está longe de ser verdade. Mas enquanto ia melhorando nesse aspecto, era muito mais fácil para qualquer jornalista falar comigo, que tenho uma capacidade de comunicação maior (provavelmente para o que contribui o facto de saber menos e ter menos hesitações, menos dúvidas e não ter uma reputação académica a defender, o que me faz ser mais indiferente ao facto de às vezes dizer asneiras de palmatória).

Infelizmente para todos nós, parte do interesse da imprensa em Manuel Carmo Gomes tem esta origem: fala sempre muito bem, de forma muito estruturada e é sempre agradável ouvi-lo, independentemente de dizer coisas certas ou erradas.

Basta ouvir Henrique Barros, com um discurso bem mais confuso, uma dicção bem menos escorreita, com hesitações, para perceber como é atractivo, para um jornalista, ouvir antes Manuel Carmo Gomes ou Filipe Froes, pessoas que dão sempre a impressão de nunca terem dúvidas e raramente se enganarem, ao contrário de Henrique Barros, que sabe muito mais e tem muito mais experiência que os outros dois em matéria de epidemias.

Parte não é isto, parte é mesmo ostracização, o que é mais bem ilustrado com Jorge Torgal, que até comunica bem, mas diz coisas menos dramáticas e isso é evidentemente menos interessante para uma imprensa focada na alimentação incessante do drama, do horror que nos espera amanhã, se não nos portarmos convenientemente.

Por tudo isto, Manuel Carmo Gomes continuará, sem contraditório, a sua campanha permanente contra a abertura de escolas, como qualquer fanático para quem o mundo tem apenas uma dimensão: no seu caso, a urgência em diminuir contactos que, erradamente, Manuel Carmo Gomes confunde com contágios.

E nem o facto das previsões que Manuel Carmo Gomes fez no princípio do Março, sobre os efeitos do desconfinamento (é bom lembrar, já vamos com três semanas de aligeiramente das medidas, mas vamos com quase mês e meio desde que foi toda a gente para a rua no fim de semana de 27 e 28 de Fevereiro), estarem longe de confirmar o seu ponto de vista o vai fazer mudar de ideias: quando os casos subirem qualquer coisa, como é fatal que subam, lá aparecerá a dizer, mais de um mês depois, que resultou da abertura das escolas apesar de, na sua opinião, ter sido apenas preciso uma semana para o fecho escolas impactar a descida de casos.

E quando em Maio voltarmos à linha base do Verão, com números baixos de casos, folga nos serviços de saúde e um ou outro pico local, o discurso vai ser o de que é preciso aproveitar essas condições para esmagar o vírus e, por isso, é preciso apertar mais as regras, aumentar a testagem e quebrar as cadeias de contágio.

Não há discussão racional possível com base em abstrações.

Sem a realidade concreta do mundo real, tudo, e o seu contrário, é possível de ser explicado logicamente.

E, no mundo real, ter escolas fechadas é a demonstração da nossa incapacidade enquanto sociedade.

"Ui! Ui! Ui!, vem aí o chui!"

por henrique pereira dos santos, em 06.04.21

Tenho ideia do título deste post ser do Sérgio Godinho, algures numa peça de teatro, no tempo dos afonsinhos.

Foi dela que me lembrei hoje, ao olhar para a banca dos jornais: no I ataca Manuel Carmo Gomes, no Público ataca Carlos Antunes e o Observador faz de caixa de ressonância.

Manuel Carmo Gomes não faz a coisa por menos: “Podemos resvalar para um ressurgimento da epidemia como tivemos depois do Natal ou conseguir manter a epidemia controlada. Neste momento estamos ainda num limbo: existe ainda população suscetível o suficiente para termos um aumento de casos e mesmo de hospitalizações”.

É certo que eu disse algures que se os casos depois do Natal não subissem 25% podíamos deitar fora as previsões catastróficas sistemáticas sobre o apocalipse. Os casos subiram muito mais que 25%, o que significa que a hipótese de correlação entre contactos no Natal e subida de casos se poderia manter. Acontece que, ainda durante Janeiro, desenvolvi um ponto de vista sobre o que estava a acontecer e sobre a possibilidade do aumento de casos se dever mais à anomalia meteorológica que começou a 24 de Dezembro e acabou a 20 de Janeiro, o que explica razoavelmente algumas coisas estranhas com o pouquíssimo tempo entre o pico de casos e de mortalidade, por exemplo.

Bem sei que agora, na Páscoa, se tomaram uma série de medidas para impedir os contactos (eu acho-as meros placebos, mas vamos admitir que não, que até servem para alguma coisa), mas o que todos os dados de mobilidade indicam é que quer antes da Páscoa, quer na Páscoa, não houve uma restrição de movimentos por aí além.

Froes, Carmo Gomes, Antunes, a redacção do Observador e outros continuam convencidos de que uma epidemia evolui em função do contacto entre as pessoas, e nada mais, por isso Froes estava absolutamente seguro do disparo de casos que iria aparecer duas semanas depois do fim de semana de 27 e 28 de Fevereiro, em que foi tudo para a rua aproveitar o Sol, depois de um longo período de chuva e dos números da epidemia terem descido brutalmente. O facto de nenhum efeito dessas frescuras se notar na evolução da epidemia não os consegue convencer de que estão errados, a haver alguma coisa errada, é a realidade, não eles.

Por isso continuam com a cantilena de que abrir escolas é uma coisa perigosíssima e a cada nova abertura aparecem a procurar influenciar mais e mais tempo de confinamento, como se os confinamentos não tivessem efeitos secundários.

Nem com a mortalidade global abaixo de 300 pessoas por dia (abaixo do que seria de esperar para esta altura do ano, indiciando que parte da mortalidade excessiva de Janeiro foi antecipação da mortalidade esperada ao longo do ano, pessoas mais velhas e mais frágeis, com escassa esperança de vida), com os hospitais com imensa folga, com uma testagem altíssima para a incidência existente, a vacinação nos lares concluída e em forte progressão noutros grupos de risco (progressão essa que só não é maior pela absurda opção de vacinar professores e outros profissionais de risco residual à frente de pessoas pretencentes a grupos de risco para esta doença) estes profetas do confinamento e doutras medidas de restrição de contactos ganham juízo.

O mais que conseguem é admitir a hipótese de que talvez a epidemia esteja controlada, como faz Manuel Carmo Gomes na citação acima, ao mesmo tempo que acrescenta que, na dúvida, e para evitar o que aconteceu depois do Natal, o melhor é atrasar a abertura do ensino e da sociedade à espera de dados mais seguros.

Esta citação é abolutamente extraordinária: "um possível aumento de infeções quer durante na última semana quer nesta nova etapa de desconfinamento que se iniciou esta segunda-feira só será passível de avaliar pelo menos daqui a 15 dias, alerta o investigador, o que coincidirá já com a data prevista para continuar a reabertura do país e regresso às aulas dos alunos do secundário e ensino superior. “O terceiro passo do desconfinamento é muito forte e devíamos ser capazes de estar mais seguros antes de o dar. Não vejo que a janela temporal dê para isso. Se estamos a abrir dia 5, daqui a 15 dias quando formos avaliar podemos não ter informação suficiente”, diz Manuel Carmo Gomes, defendendo por isso que fosse ponderado o adiamento de uma semana na decisão de prosseguir para a terceira etapa".

Os mesmos profetas que anunciam urbi et orbi que foi o fecho das escolas a 22 de Janeiro que deu origem à descida de contágios uma semana depois - começou antes de 22 de Janeiro e foi-se acentuando como seria de esperar que acontecesse, em qualquer caso -, vêm agora dizer que são precisos pelo menos quinze dias para perceber os efeitos do levantamento das medidas de restrição de contactos existentes. Daqui não tiram a consequência lógica de que a descida de casos no fim de Janeiro não se deveu ao fecho das escolas, apesar de agora dizerem que uma semana é pouco para avaliar resultados.

E não contentes com isso, absolutamente indiferentes aos efeitos do fecho das escolas na vida de todos, mas sobretudo dos mais pobres, indiferentes ao descalabro no acompanhamento de doentes crónicos, indiferentes à solidão dos mais velhos e ao crescimento expressivo dos problemas de saúde mental, indiferentes ao desemprego e à destruição de riqueza, resumindo, completamente indiferentes às pessoas concretas e aos seus problemas, que afectam especialmente os mais pobres e frágeis, claro, defendem que mais uma semanita ou quinze dias de confinamento, só para termos mais dados e estarmos mais seguros, não tem a menor importância.

O aleijão moral que os caracteriza é o mesmo aleijão moral que caracteriza uma sociedade, a cavalo da sua imprensa, que assistiu impávida e serena à enorme operação de propaganda que consistiu em vacinar pessoas sem risco à frente de pessoas com risco de mortalidade elevado com o pretexto de que era preciso abrir as escolas com segurança.

Não, não estão a salvar vidas, como dizem, isso é uma mentira absoluta, estão apenas às voltas dos seus fantasmas, dos seus números e dos seus computadores a exorcizar os seus medos, à custa da vida de milhares de pessoas.

Não há perdão para o papel que estão a desempenhar, quer eles, quer a imprensa que os ouve permanentemente sem contraditório.

"...com a cabeça entre as orelhas"

por henrique pereira dos santos, em 05.04.21

Um dia destes, um dos mais ouvidos especialistas nesta epidemia - trata-se de uma especialização especial, há especialistas em epidemias, que há anos que se dedicam ao estudo e gestão de epidemias e há os especialistas nesta epidemia, que nunca tinham estudado nenhuma antes mas são especialistas nesta - perguntava se alguém lhe explicava onde estava a sazonalidade quando a Índia estava a braços com um aumento de casos com 40º de temperatura.

Não vale muito a pena explicar que à medida que se sobe em latitude as diferenças do foto-período são mais acentuadas ao longo do ano e portanto as estações do ano mais marcadas pela resposta do mundo natural a essas variações.

As plantas não abrolham porque faz frio ou calor, abrolham porque o tempo de luz disponível é o adequado, fazer frio ou calor apenas adianta ou atrasa uns dias o abrolhamento. Se houver uma semana muito fria em Agosto as plantas de folha caduca não perdem a folha, da mesma forma que não abrolham a meio de uma semana de temperaturas altas em Dezembro.

É por isso que num mundo temperado nós distinguimos a Primavera, do Verão, do Outono e do Inverno, e existem muitas árvores de folha caduca, mas no mundo mais próximo do equador as estações dividem-se entre as estações das chuvas e estações secas e são mais raras as espécies de folha caduca.

E distinguimos ainda os climas pela diferente combinação entre estes elementos. Por exemplo, o clima mediterrânico, sendo temperado e com quatro estações bem definidas, distingue-se pelo facto da estação quente coincidir com a estação seca.

O que em lado nenhum se faz é caracterizar ambientes externos exclusivamente a partir da temperatura, muito menos a partir da temperatura num determinado momento.

Também não vale a pena explicar que a Índia é enorme e dizer que a Índia está com temperaturas de 40º é uma tolice: com certeza haverá vastíssimas áreas da Índia que não estão a 40º e seria preciso ver se os sítios onde está a haver surtos são os mesmo onde está a haver temperaturas de 40º para, ao menos, formular uma hipótese minimanente consistente.

Repare-se como a conversa das ondas é uma tontice quando avaliadas por país e não por regiões, com o exemplo da Alemanha que teve uma onda perto do Natal e agora está a braços com outra, na opinião dos tais especialistas que evitam olhar para distribuições geográficas pormenorizadas de incidência.

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Sem surpresa, as duas ondas são na Alemanha, mas não são no mesmo sítio, como seria de esperar.

Perguntar onde está a sazonalidade na Europa temperada com base no facto de haver surtos com 40º de temperatura noutro lado qualquer - depois de ter escrito um artigo sobre o mito do Natal, em vez de receber contestações aos argumentos usados o normal era perguntarem-me como era possível ter razão se em Manaus estava calor e havia um surto - é uma demonstração de incompreensão total sobre o que se está a passar, para além de ser uma demonstração de desconhecimento da bibliografia básica sobre sazonalidade das doenças infecciosas respiratórias. A sazonalidade das regiões temperadas está razoavelmente bem estudada, até por ser bem marcada, mas a sazonalidade das regiões tropicais está muito menos compreendida, parecendo relacionar-se mais com a humidade que noutras regiões (o que é coerente com o facto de ser esse o factor principal de distinção das estações no ano nessas latitudes).

Olhar para estes gráficos e não ver sazonalidade, já não é ignorância, é cegueira mesmo.

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E é com base nesta cegueira evidente que se andam a propôr medidas de controlo de terceiros, não admirando por isso que do processo resultem coisas tão estúpidas como fechar parques infantis ou determinar o fecho de restaurantes à uma da tarde de Sábados e Domingos.

É a vida, "cá se vai andando, com a cabeça entre as orelhas".

Miguel B. Araújo

por henrique pereira dos santos, em 03.04.21

O Miguel resolveu fazer um exercício que deveria ser feito periodicamente por investigadores: pensar, escrever e dar ao escrutínio, em liguagem acessível, o que lhe parece ser o contributo social dos muitos anos de investigação.

Conheço o Miguel há muitos anos e foi um dos meus três orientadores do doutoramento: Teresa Andresen, que foi a minha orientadora principal e sem a qual eu não teria feito doutoramento nenhum, Miguel B. Araújo e Carlos Aguiar.

Estarei sempre em dívida para com eles porque qualquer deles foram fundamentais para o resultado final (hesitei bastante nesta concordância verbal. Eu sei que a regra é dizer nem ele, nem ela foram eleitos deputados, porque os dois poderiam ser eleitos, e nem ele, nem ela foi eleito presidente da república, porque só um poderia ser eleito, mas tenho dúvidas sobre a concordância na frase que escrevi).

Todos tiveram uma enorme paciência para as minhas idiossincrasias e, ao mesmo tempo, um respeito intacável pela minha liberdade na forma como decidi fazer a tese. Penso que não me enganarei muito se disser que nenhum deles terá concordado com as minhas decisões sobre a forma de fazer a tese e todos eles terão acahado que poderia ter feito uma coisa muito mais sólida que o que fiz, se seguisse os seus conselhos em matéria de praxis académica.

No fundo, no fundo, penso que partilharão da opinião de um dos arguentes da tese: isto era como se fazia ciência no século XIX, actualmente já ninguém faz ciência assim (e eu tendo a concordar com esta observação).

O Miguel, academicamente, é o exacto oposto de isto tudo, é o que eu ironicamente caracterizo como um industrial da publicação: publica muito, bem e com um sentido apurado do mercado para que está a produzir ciência.

Acresce que publica numa área que para mim é mais metafísica do que eu estou disposto a ler, portanto nem sou um grande leitor dos artigos do Miguel, mas quando preciso de perceber alguma coisa neste domínio, o que o Miguel escreve é sólido e é-me útil.

Talvez eu possa dizer que o Miguel parte das grandes abstracções associadas à modelação de processos naturais para tentar ter respostas sobre o concreto, exactamente o percurso inverso de Carlos Aguiar, que parte da observação atenta do concreto para a compreensão das questões gerais e estas duas perspectivas complementares foram igualmente fundamentais para o que fui fazendo na tese.

A verdade é que não tenho a menor apetência para a tralha académica e para a formatação académica do pensamento e não fora o esforço dos meus três orientadores, seguramente não teria feito tese nenhuma: eu não tenho a menor vocação para investigador, a metafísica interessa-me pouco e gosto mesmo, mesmo, é de pensar o que tenho de fazer hoje para obter um resultado amanhã, fazê-lo, ver se o resultado é o que esperei, que nunca é, claro, para poder olhar para os desvios à procura de corrigir o que pensei mal antes.

É por isso que este exercício do Miguel para que faço ligação no primeiro parágrafo me parece tão interessante e, já agora, tão útil para me dar algum alívio intelectual em relação às minhas dúvidas sobre o que tenho escrito sobre a epidemia.

O que o longo post faz é uma retrospectiva sobre o caminho intelectual de alguém que tenta capturar os processos naturais em modelos, e por isso, por ter dedicado tanto esforço e tempo ao assunto, do que mais fala é de incerteza e da evidente dificuldade em reproduzir processos naturais em modelos, um trabalho nunca acabado porque não é possível reproduzir processos naturais complexos em modelos, o mais que conseguimos é ir tornando os modelos cada vez mais úteis, à medida que vamos percebendo por que razão se afastaram na realidade na tentativa anterior.

Trata-se de uma enorme diferença para esta tendência recente de substituir a realidade pela produção de modelos, partindo do pressuposto de que sabemos o suficiente para tomar decisões com base nos modelos que estão suficientemente próximos da realidade para isso.

Quando o Miguel escreve: "Os desafios futuros nesta matéria são, portanto, menos de cariz científico—onde os progressos das últimas décadas foram tão notáveis como subutilizados—e mais na área da transferência de conhecimento e da tecnologia, assim como no domínio normativo e dos interfaces entre a ciência e a política" eu só posso discordar (como discordo muitas vezes de qualquer destes meus três orientadores, apesar de saber que qualquer um deles sabe muito mais que eu) porque decorre de posições sociais e políticas em que estamos em pontos muito distantes.

Ao contrário do Miguel, não estou convencido deste papel da ciência e, muito menos, de que a sub-utilização dos progressos científicos não se deva também à natureza da ciência tal como ela é produzida hoje, de forma manifestamente desligada da sociedade.

Claro que existem os factores que o Miguel enuncia acima, o que não existe é a possibilidade de isso se resolver por mera transferência dos resultados científicos, como se esses resultados científicos não fossem inerentemente parcelares e incapazes de integrar a imensa diversidade do mundo e das sociedades.

O que é notável, para mim, não são estas diferenças - algumas irreconciliáveis - mas sim o Miguel, reconhecendo a incerteza e as limitações do seu trabalho, continuar empenhado em chegar ao mundo das pessoas e do concreto.

Tenho a certeza de que questionado com a pergunta que tenho ouvido frequentemente ser feita a outros modeladores, ao longo deste ano, "mas acha que isto vai ser mesmo assim?" o Miguel nunca se satisfaria com a resposta que também tenho ouvido frequentemente: "é o que diz o modelo".

Tenho a certeza que depois de dizer que "é o que diz o modelo", acrescentaria, mas o modelo não é a realidade, e há este e aquele aspecto que devem ser tidos em atenção, se se quiser utilizar o modelo como orientação para as opções a tomar, o que não deve ser feito sem compreender bem o modelo que está a ser usado.

A ideologia do contacto

por henrique pereira dos santos, em 02.04.21

Grande parte desta epidemia foi gerida com base na ideologia do contacto, que consiste em postular que sem contacto não há contágio - o que é verdade - tirando daí a conclusão de que há uma relação directa entre contacto e contágio - o que é uma rotunda mentira -, o que leva à ideia de que a gestão da epidemia se faz gerindo contactos.

Um bom exemplo é um estudo que há pouco tempo foi referido pela generalidade da imprensa, sempre através da leitura de um dos seus autores, Manuel Carmo Gomes, e não através da leitura dos jornalistas, numa boa ilustração de jornalismo de pé de microfone.

O estudo chama-se "Controlling the pandemic during the SARS-CoV-2 vaccination rollout: a modeling study" e, na leitura de Manuel Carmo Gomes, transmitida pelos jornais, dá muitas indicações sobre a elevada probabilidade de uma quarta vaga, na hipótese de se fazer um desconfinamento diferente do que defende Manuel Carmo Gomes, cuja obsessão com o fecho de escolas é conhecida e, infelizmente, reconhecida como tendo alguma base científica.

Eu já raramente leio coisas sobre a epidemia que se baseiem em modelação matemática - já há tempo e dados empíricos suficientes para andar a gerir esta epidemia com base em borras de café, bolas de cristal, modelações matemáticas e outras mistificações semelhantes - mas face às repetições dos avisos de Manuel Carmo Gomes sobre o que o estudo demonstrava da relação entre contactos e evolução da epidemia, resolvi ir ver que dados tinham sido usados para avaliar os contactos e procurar a correlação com a evolução da epidemia.

Se bem percebi o estudo, e admito que não, de tal maneira são absurdas as afirmações de Manuel Carmo Gomes quando lidas à luz das minhas conclusões sobre o estudo, os contactos não são medidos empiricamente através dos dados de mobilidade existentes, e outros do mesmo tipo (com todas as dificuldades e limitações que os dados de mobilidade têm, são, ainda assim, o que há de base empírica), os contactos são inferidos a partir da evolução da epidemia, para depois se concluir que se os contactos evoluirem assim ou assado, então a evolução da epidemia será assim ou assado, num raciocínio circular que acharia que seria impossível encontrar num artigo científico.

Em qualquer caso, se eu estiver a ler mal o estudo (a ligação está acima) apenas invalida a utilização deste estudo como boa ilustração da ideologia do contacto como questão chave para a gestão da epidemia, não elimina a existência e influência da ideologia do contacto cujo paralelismo com a ideologia das ignições na gestão do fogo tem sido referida por mim várias vezes e que vou resumir de novo:

Sem ignição não há fogo. Mas 1% das ignições são responsáveis por qualquer coisa como 90% da área ardida, logo, a questão não está na redução das ignições (a maioria não têm problema nenhum, tal como a maioria dos contactos não resultam em contágios) mas sim na compreensão das circunstâncias em que uma ignição (ou um contacto) se transforma num fogo (ou num contágio).

No caso do fogo isso está razoavelmente estudado e é hoje consensual que é muito mais perigoso ter poucas ignições em contextos muito favoráveis ao fogo, quer ter muitas ignições em contextos menos favoráveis, que é até vantajoso para a gestão dos grandes efeitos negativos dos fogos.

O que é diferente na epidemia é que não sabemos tão bem caracterizar as circunstâncias favoráveis ao desenvolvimento da epidemia com efeitos sociais mais negativos (essencialmente, as circunstâncias que provocam maior mortalidade).

Sabemos algumas coisas.

1) que as probabilidades de contágio crescem muito com a proximidade física entre pessoas, com o tempo em que essas pessoas estão juntas e com as circunstâncias em que estão juntas (a tal caracterização dos contactos de elevado risco como sendo entre pessoas que estão mais de quinze minutos a menos de dois metros em ambientes fechados) e que no caso do fogo podemos fazer o paralelo com as condições meteorológicas;

2) que os efeitos mais severos (estou a usar terminologia dos fogos propositadamente) se verificam quando há uma concentração de pessoas mais susceptíveis e mais frágeis, o que se traduz em cerca de 40% de mortalidade em lares, mais ou menos em todo o mundo, cujo paralelismo com os fogos se encontra nas condições de acumulação de combustível;

3) nos fogos sabemos também que uma vez um fogo ateado, há circunstâncias meteorológicas e de acumulação de combustível que rapidamente levam o fogo para lá da capacidade de extinção, sendo inútil procurar apagar esses fogos com ataque directo, havendo apenas a possibilidade de reduzir o combustível nas áreas que estão na linha de progressão do fogo. Esta é uma matéria em que é mais difícil fazer o paralelismo com a epidemia porque não podemos dar ninguém como perdido para a progressão da epidemia, por razões éticas (ao contrário do que podemos fazer com o fogo), e porque sabemos menos sobre o processo de retirada do combustível. Reconhecendo o atrevimento da minha ignorância, e não desconhecendo os custos brutais e as dificuldades logísticas associadas, eu me atrever-me-ia a dizer que uma vez identificado um surto num lar, a medida mais eficaz para salvar vidas seria a retirada imediata de todos os utilizadores para instalações de "isolamento" de cada utilizador, na ausência de vacinas, claro, apoiado cada um por pessoas dedicadas apenas a essa pessoa. Isto porque me parece evidente que, tal como acontece nos fogos, as medidas de supressão da epidemia em lares se revelaram largamente inúteis: nunca se impediu, em lado nenhum, a entrada da epidemia em lares e, uma vez declarado um surto, nunca se conseguiu travá-lo dentro do lar, fossem quais fossem as medidas tomadas.

Infelizmente a ideologia do contacto, com a sua parafernália de proibições gerais, restrições de direitos individuais e barragem de propaganda em jornais e nos meios do Estado, tem impedido uma discussão racional dos seus parcos resultados para os elevadíssimos custos que acarreta.

Mas a esperança é a última a morrer (via Eduardo Maximino), quando até o Guardian chega aqui: "Whitty said the majority of experts believed Covid was not going to go away and it would eventually have to be managed in a similar manner to flu. In a bad year, flu can kill 20,000 to 25,000 people. “It is not flu, it is a completely different disease, but the point I am making is, here is a seasonal, very dangerous disease that kills thousands of people every year and society has chosen a particular way around it,” he said.

While Whitty noted that factors such as variants and population density were important, he cautioned against trying to explain how Covid had affected different countries by focusing on just one or two factors, noting that Germany was now facing a difficult situation despite its previous success in tackling Covid largely being put down to its diagnostic capabilities.

“It is actually usually a large combination of factors, some of which are under our control, many of which are not. And more of it is chance than I think people are prepared to accept,” he said."

Admitir que não controlamos muitos factores é a questão chave para a gestão da epidemia, não os contactos entre as pessoas.

O que verdadeiramente importa

por henrique pereira dos santos, em 01.04.21

Alexandre Homem Cristo resume bem o Estado a que isto chegou:

"Concluo com um desabafo. É impossível olhar para este estudo do IAVE, para o silêncio crítico que o enquadra e para o actual debate à volta da recuperação da aprendizagem dos alunos sem sentir um grande desânimo. Viver este último ano em pandemia ensinou-me muitas coisas e uma delas é que a Educação, em Portugal, permanece pouco apreciada (excepto nos discursos, claro, onde é a rainha das prioridades). Se o país levasse a educação das crianças a sério, estaríamos indignados com a incapacidade do Estado em medir o impacto da pandemia na aprendizagem dos alunos, estaríamos inquietos com a indisponibilidade orçamental para investir na recuperação da aprendizagem, estaríamos impressionados com a falta de monitorização do sistema educativo, estaríamos intolerantes perante a possibilidade de alguma criança ficar para trás pelo azar de ter nascido pobre. Mas, como em Portugal muito pouco se leva a sério, andamos ocupados a imaginar crises políticas. Daqui a uns anos, pagaremos a factura".

É trocar neste texto educação por qualquer problema social que nos preocupe e estará sempre certo: nós, as pessoas comuns, os que aqui andamos, não levamos a sério a medição do impacto do que fazemos colectivamente e entretemo-nos a imaginar coisas.

O resultado é que fazemos erros, o que é uma inevitabilidade, mas também repetimos erros, o que, a cada repetição, nos aproxima da bovinidade em que vamos pastamos a erva que vamos encontrando, sem cuidar de saber se não poderíamos ter vidas melhores que as que temos.

Nós e a conservação da natureza

por henrique pereira dos santos, em 31.03.21

Miguel Esteves Cardoso dedica a sua crónica de hoje, no Público, ao Pinhal dos Ingleses, em Carcavelos.

"Seria magnífico ... [se] se mostrasse aos bichos, às árvores e aos milhões de portugueses que não enriquecem com a destruição da natureza que ainda há quem pense neles".

Esta ideia de que existem uns quantos que beneficiam da destruição da natureza e muitos outros que são prejudicados com essa destruição é uma ideia muito popular, mas tem o pequeno problema de ser uma ideia errada.

De cada vez que comemos, de cada vez que nos vestimos, de cada vez que nos abrigamos em casa, de cada vez que nos deslocamos, de cada vez que escrevemos num papel, de cada vez que lemos um jornal, somos nós, e não outros, que provocamos as alterações na paisagem que, como no caso desta crónica, achamos inconcebíveis e ilegítimas.

Se há muitas casas no litoral é porque há mais gente a querer viver ao pé do mar que em Alcaravelas, não é porque há uns que querem enriquecer com a destruição da natureza e outros que preferiam manter intocado o Pinhal dos Ingleses.

São muito poucos os que querem manter intocado o Pinhal dos Ingleses: se fossem muitos, era fácil arranjar dinheiro para o comprar.

A verdade é que quando, com outros, estive na fundação da Montis, o nosso objectivo era gerir directamente terrenos com objectivos de conservação.

É também verdade que quando decidimos comprar os primeiros terrenos, com recurso a uma subscrição pública, o que não faltaram foram pessoas a dizer que isso em Portugal não funcionava.

É também verdade que quando a Terra Chã procura gerir o território da aldeia de Chãos de forma sustentável, tem muito menos interessados em pagar os queijos que produz do que seria desejável para permitir essa gestão.

É ainda verdade que quando a Terra Maronesa procura quem queira pagar a carne que ajuda a gerir um notável sistema de gestão da natureza, encontra mais palmadinhas nas costas que consumidores dispostos a pagar o custo que essa gestão implica.

É mais verdade que quando os rebanhos da serra do Açor precisam de retorno para o trabalho de gestão de serviços de ecossistema que fazem, facilmente arranjam boa vontade, euros é que é mais difícil.

Quando o Hugo Novo se dedica à Quinta Lógica e outros projectos de gestão do património natural, corre tudo pelo melhor, excepto a tal parte de enriquecer, por falta de quem queira pagar o que produz e é do interesse de todos.

Quando eu persisto em andar à procura de quatro milhões para um projecto de conservação que não me sai da cabeça, é apenas porque sou parvo, sei perfeitamente que levantar quatro milhões para isso é muito mais difícil que para andar a contar bichos mortos ao longo das estradas.

Note-se que a dita Montis tem em curso uma campanha para ver se passamos dos 400 tontos que estamos dispostos a dar 20 euros por ano para ter quem vá fazendo gestão de terrenos com objectivos de conservação e eu nem sequer consigo captar mais sócio nenhum (em minha defesa tenho a dizer que nesses 400 há vários que já não me podem ouvir falar dessa coisa de gastar 20 euros por ano em conservação).

Se alguém tiver dúvidas de que na verdade não queremos saber da conservação para nada, é dar um salto a este despacho sobre a afectação das verbas do Fundo Ambiental e ver como é tratada a conservação da natureza, sem que haja o menor murmúrio sobre o assunto.

Ao contrário da ideia de que há milhões de vítimas da ganância de alguns, a gestão que fazemos do nosso património natural é apenas o reflexo das nossas opções, que incluem a opção de se estar nas tintas para o assunto todos os dias e no dia 29 de Fevereiro, a cada ano bissexto, escrever um texto bem radical a acusar os outros daquilo que é apenas responsabilidade nossa, ou de vez em quando ir plantar umas árvores ou arrancar uns eucaliptos, para lavar a alma e expiar os nossos pecados.

Mortalidade

por henrique pereira dos santos, em 30.03.21

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O principal indicador para avaliar o impacto de um surto epidémico é a mortalidade excessiva, de tal forma as epidemias são complexas e têm efeitos tão diversos na sociedade.

Desde meio de Fevereiro que a mortalidade excessiva desapareceu em Portugal (e, já agora, em quase todos os países que são aderentes do Euromomo, o sistema de vigilância da mortalidade europeu que é usado, por exemplo, para avaliar os efeitos dos surtos gripais anuais ou o efeito dos extremos meteorológicos) e desde meio de Março que está mesmo abaixo dos quartis dos dez anos anteriores, isto é, estamos com uma mortalidade global abaixo do que seria de esperar para esta época do ano.

Pois bem, com mortalidades abaixo do que seria de esperar para esta época do ano, com os serviços de saúde dentro do que é normal (acho extraordinário que se pretenda que o país pare para que os serviços de saúde consigam trabalhar normalmente durante um surto epidémico, como se não fosse normal os serviços de saúde trabalharem excepcionalmente durante períodos sanitários excepcionais), continuamos concentrados em olhar para a árvore covid em vez de olhar para a floresta social, que tem árvores covid, com certeza, mas tem muitas outras coisas para que é necessário olhar.

Note-se que esta mortalidade abaixo do que seria de esperar nesta época do ano tem sido justificada com a vacinação covid, e em parte essa explicação será válida na medida em que a vacinação prevenirá grande parte da mortalidade que possa ser atribuível à covid (em qualquer caso, neste momento, anda bem abaixo dos 5% da mortalidade global), mas o mais natural é que se relacione com a elevada mortalidade excessiva de Janeiro, que levou muitos dos mais frágeis e mais susceptíveis.

Se assim for, o surto epidémico de Janeiro teve o efeito que seria de esperar numa doença cuja mortalidade se concentra nos grupos etários mais altos e mais fragilizados, antecipando em algumas semanas mortes que seriam de esperar ao longo do ano.

Espero que não me interpretem mal, seria bom que pessoas que morreram em Janeiro pudessem ter morrido antes em Outubro, pelo menos em grande parte dos casos, mas esqueçamos o argumento de que estamos a salvar vidas porque, na verdade, estamos a prolongar vidas (algumas com muito pouca qualidade de vida) por algumas semanas.

Há riscos no levantamento da generalidade das restrições que pretendem diminuir os nossos contactos sociais? Eu acho que não há muitos - as regiões do mundo que o fizeram não demonstram nenhuma relação forte entre esse levantamento de restrições e a evolução da epidemia - mas a minha opinião é irrelevante: mesmo que o risco seja razoável e eu esteja enganado, o facto é que as consequência sociais parecem ser marginais face às consequências sociais da situação actual.

A estratégia de abertura a conta-gotas, que nunca teve fundamentação científica e técnica sólida, parece não ter também fundamentação empírica, continuando a ser o que sempre foi: a gestão política de expectativas dos que mais se fazem ouvir na imprensa, à custa do sofrimento dos que não têm voz no espaço público.

Duas coisas para ler

por henrique pereira dos santos, em 29.03.21

"Repare-se que a inclusão dos professores na lista de prioridades contradiz não só o que o Governo sempre defendeu – que as escolas não eram locais de contágio – como cria o risco de se abrir uma caixa de Pandora. Se os professores são prioritários, porque não os funcionários do comércio alimentar? E os empregados dos restaurantes que fazem “take away”? E os que transportam a comida até à casa das pessoas? E os cabeleireiros? A lista ia crescendo, na lógica de “é só mais um”, até que o grupo que grita mais baixo, os idosos, acabasse a ficar em último".

Helena Garrido disse o que eu tencionava escrever sobre a inqualificável vacinação prioritária de professores. Só ficou de fora, e eu percebo que assim seja, um comentário sobre o papel da imprensa que faz referências imensas à fantástica operação de logística que é a vacinação de professores sem que, em quase nenhum momento, se pergunte por que raio estão os professores a ser vacinados primeiro que grupos de risco muito mais elevado.

"A primeira é o facto de fazer pouco de um acontecimento histórico que é reconhecido pelo país onde é Conselheiro de Estado, Portugal, no documento Nº 233/XIII, 2 de Março de 2017, votado no Parlamento, que reconhece o Holodomor de 1932-1933 como genocídio do povo ucraniano".

Aline Beuvink diz meia dúzia de coisas acertadas sobre o inimputável Louçã e eu não consigo deixar de me perguntar: se algum conselheiro de estado fizesse sobre o holocausto a piadinha desonesta que Louçã fez com base no holodomor, continuaria ser conselheiro de estado no dia seguinte?

Coronóia2020 e liberdade de andar a 200

por henrique pereira dos santos, em 28.03.21

A discussão sobre a epidemia e a melhor forma de a gerir parece estar bloqueada.

De um lado temos os partidários da Coronóia2020, ou da fraudémia, do outro os que acham, como Pacheco Pereira (compro todos os dias o Público, mas raramente o leio, li desta vez por causa de um comentário num post anterior), que quem se manifesta em defesa da liberdade está a defender a liberdade de andar a 200 Km à hora.

Sobre os partidários da coronóia2020 acho que não vale muito a pena dizer grande coisa porque estão na mó de baixo, são uma minoria, não têm impacto relevante nas nossas vidas e, por muitas asneiras que digam - uns dizem, outros nem tanto -, são muito úteis para nos lembrar, por exemplo, que é verdade que existem falsos positivos e é incompreensível, agora que há muitos testes, que o protocolo não seja alterado na definição do que é um caso positivo, em especial agora que parece que vamos embarcar na loucura dos testes em massa, sem indicação clínica prévia. Comprimir liberdades é um assunto sério e não basta um teste laboratorial positivo com fortes probabilidades de ser um falso positivo para essa compressão, sobretudo porque passar a definição para a melhor de três testes reduz a uma expressão insignificante a probabilidade de falsos positivos, sem grandes custos sociais.

Já sobre os outros vale a pena perder alguns minutos.

É fácil, é prático, dizer que a liberdade não é um valor absoluto (a vida também não, é por isso que existe a legítima defesa e as atenuantes e agravantes num homicídio, incluindo o homicídio por negligência ou sem dolo, e existem protocolos médicos para triar doentes) e que a liberdade de cada um acaba na liberdade de terceiros. E depois dizer que quem defende a liberdade numa epidemia está a pôr em causa a vida em comunidade, a levar ao extremo o individualismo e a pretender ter a liberdade de andar a 200 à hora na estrada, sem consideração para o risco que daí advém para terceiros.

Só que não é de nada disto que se trata, mas sim de lembrar que a liberdade é um assunto sério e a sua ponderação nas medidas de saúde pública é tão importante como a ponderação das implicações sanitárias de qualquer acção individual.

Parece óbvio (mesmo para mim, que passo a vida a dizer que o óbvio é uma coisa muito subjectiva) que defender a liberdade de andar a 200 não é o mesmo que defender a liberdade das crianças andarem de baloiço ou a liberdade de acesso ao ensino.

Andar a 200 não faz parte das liberdades básicas de ninguém, é intrinsecamente perigoso e nas nossas sociedades há mecanismos razoavelmente consensuais de limitação dessa liberdade. Apesar disso, pode-se andar a 200 em alguns países, pode-se andar a 200 em algumas circunstâncias (em situações de urgência ou em provas desportivas, por exemplo), mas não passa pela cabeça de ninguém proibir o tráfego automóvel para garantir que ninguém anda a mais de 200, apesar da proibição do tráfego automóvel gerar milhares de mortos todos os anos, por muitas razões, incluindo andar a mais de 200.

Já andar de baloiço ou aceder à escola sim, são liberdades razoavelmente consensuais nas nossas sociedades e a compressão dessas liberdades deve ser seriamente ponderada, pondo de um lado da balança os benefícios sanitários daí decorrentes, e do outro os efeitos sociais negativos da privação dessas liberdades.

Eu sei que dá muito jeito procurar enfiar todos os que não desistem da discussão da liberdade no contexto de uma epidemia no grupo da coronóia2020 (como canhestramente Manuel Pinheiro tentou fazer comigo para defender o jornalismo que escreve hoje "Números parecem estabilizar nos Estados Unidos depois de uma subida exponencial de casos e número de mortos" quando qualquer pessoa pode, com meia duzia de cliques, verificar a estupidez desta frase sem qualquer relação com os factos), mas era o que mais faltava deixar passar em claro essa tentativa de desqualificação dos que pensam de forma diferente.

Eu gostava de saber as razões sanitárias para os alunos do secundário poderem estar numa esplanada a partir de 5 de Abril, mas não na escola, para ser proibida a venda de alcoól depois das vinte, para ser proibido o consumo de alcoól no espaço público, para estarem parques infantis vedados, para não poder entrar numa loja deserta, para não poder passar de um concelho para outro, para não poder fazer um pic-nic com os meus irmãos, etc., etc., etc..

Não levar a sério a discussão dos fundamentos sanitários da maior parte das normas sanitárias em vigor - que são tão científicas que variam enormemente de país para país, quando não de região para região - , confrontando esses fundamentos com a razoabilidade da compressão das liberdades individuais associadas, está tão próximo do pensamento mágico como a coronóia2020.

Que tanta gente que se afirma defensor das liberdades individuais as abandone à mínima alusão a um elusivo benefício sanitário, é deprimente, muito deprimente.

Obrigado, Miguel Pinheiro

por henrique pereira dos santos, em 25.03.21

Adenda: Vários dos meus amigos falam da coragem de ter escrito o que escrevi sobre o Observador. Gostaria de dizer duas coisas sobre isso: 1) não é preciso coragem nenhuma para escrever um texto qualquer num jornal, não vivemos em nenhuma ditadura e não me acontece nada de especial por causa do que escrevo, coragem é Navalny voltar para a Rússia; 2) a haver alguma coragem, ela está do lado de quem decidiu publicar o texto no Observador, não só por ser precisa alguma coragem para aceitar dar publicidade a críticas tão ácidas, como o mais natural é que essa publicação seja uma fonte de problemas dentro da redacção do Observador

Hoje o Observador publica um texto meu, acidamente crítico da cobertura que o Observador faz da epidemia (o que digo sobre o Observador é, em grande medida, extensível ao resto da comunicação social, mas o Observador merece-me mais respeito que uma boa parte do resto da imprensa).

Gostaria em primeiro lugar de sublinhar o fair play que o Observador demonstra ao publicar este texto: eu perceberia perfeitamente se fosse recusado.

Miguel Pinheiro, director executivo do Observador não resistiu ao habitual abuso de posição dominante que consiste em atribuir sempre ao jornalista a última palavra, e publicou ao mesmo tempo a sua resposta às minhas críticas.

Talvez por inépcia minha, não encontrei maneira de fazer comentários a qualquer dos textos, e por isso não pude agradecer no sítio adequado a deferência de Miguel Pinheiro dar importância suficiente ao que escrevi para, excepcionalmente, responder a um texto de opinião que faz paralelismos entre o Secretariado Nacional de Informação do Estado Novo e a redacção do Observador (no que à epidemia diz respeito, claro).

Embora eu tenha procurado fundamentar claramente o paralelismo que estabeleci, talvez agora possa ser mais claro usando uma citação da enciclopédia britânica sobre o totalitarismo: "The totalitarian state pursues some special goal, such as industrialisation or conquest, to the exclusion of all others. All resources are directed toward its attainment, regardless of the cost. Whatever might further the goal is supported; whatever might foil the goal is rejected. This obsession spawns an ideology that explains everything in terms of the goal, rationalising all obstacles that may arise and all forces that may contend with the state. The resulting popular support permits the state the widest latitude of action of any form of government. Any dissent is branded evil, and internal political differences are not permitted. Because pursuit of the goal is the only ideological foundation for the totalitarian state, achievement of the goal can never be acknowledged.".

A minha opinião é de que o essencial do que é dito acima caracteriza a cobertura que o Observador faz da epidemia, o que está muito longe de querer dizer que a redacção do Observador, e muito menos o Observador, são totalitários, ou defendem qualquer totalitarismo - não é de mais sublinhar o facto de terem publicado o meu texto.

Sobre isso, o que tem Miguel Pinheiro a dizer?

1) Que eu confundo as opiniões dos jornalistas sobre a actualidade com jornalismo. É verdade, neste ponto Miguel Pinheiro tem toda a razão, eu, e a generalidade das pessoas, acham que se há um programa em que os jornalistas analisam a actualidade, isso faz parte da oferta informativa, mas Miguel Pinheiro tem razão na distinção formal entre isso e a publicação de notícias. O corolário da aceitação dessa distinção formal é a de que não se compreende para que raio convidam jornalistas para fazer programas de opinião sobre a actualidade se não é jornalismo mas opinião, e a sua condição de jornalistas é irrelevante, não havendo outra que os qualifique para emitir opiniões sobre o que quer seja.

2) Miguel Pinheiro pretende que eu sou um conspiracionista, baseando-se numa interpretação abusiva do que escrevi. Miguel Pinheiro diz que sugiro que a redacção do Observador tem um comando central que determina a forma como a redacção cobre a epidemia. Simplesmente isso não está no meu texto - eu limito-me a constatar que a redacção adoptou o princípio base de pôr toda a gente com uma única ideia na cabeça, em lado nenhum sugiro, sequer, que isso resulte de qualquer comando na redacção e não da livre opção de cada um dos jornalistas, é o que habitualmente se chama "jornalismo de rebanho". Não há nada de conspiracionista nisto, é uma mera opinião que pode facilmente ser contestada mostrando onde estão as peças da redacção do Observador que saiam do padrão geral em que se chega a afirmar que uma variante com uma letalidade de 4% é mais letal que outra variante com uma letalidade de 5%. Sobre isso, Miguel Pinheiro, aos costumes disse nada.

3) Miguel Pinheiro, em vez de responder aos meus argumentos, passa grande parte do texto a fazer comentários pessoais, alguns bastante estranhos como dizer que colaborei brevemente com a redacção do Observador quando fiz parte de um painel de não jornalistas que conversavam sobre ambiente num programa da Rádio Observador. É verdade que na única reunião que tive com Miguel Pinheiro, no âmbito da preparação desse programa, essa foi uma das promessas de Miguel Pinheiro aos participantes no programa - alguma interacção com a redacção do Observador para mútuo benefício no tratamento de questões ambientais - mas sucede que isso nunca aconteceu, portanto nem percebi a que propósito essa conversa aparece no texto de resposta ao que escrevi.

4) Miguel Pinheiro entra depois num registo bem mais grave. No meu texto digo que não se entende por que razão, ao fazer um livro branco sobre a epidemia, o Observador não escolheu nenhum epidemiologista com provas dadas. É uma crítica geral aos métodos da redacção do Observador, não faz a menor referência aos conteúdos expressos por esses especialistas. Miguel Pinheiro confirma que quatro dos cinco especialistas ouvidos não são epidemiologistas - sem perder tempo a explicar esse estranho critério de elaboração de um livro branco - e refere um quinto como sendo mesmo epidemiologista e, evitando dizer de quem fala, acrescenta "aliás, é membro do Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge". Por exclusão de partes, devo conluir que se trata de Ricardo Mexia, que é médico de saúde pública (sim, eu sei que se apresenta também como epidemiologista), ou seja, Miguel Pinheiro, em vez de explicar por que razão o único epidemiologista ouvido é Ricardo Mexia, não só tem o desplante de omitir o nome do visado, como me atribui a mim intenções escusas ao fazer uma pergunta simples: que critérios usa o Observador para ouvir quem ouve e para escolher quatro não epidemiologistas e meio, mais meio epidemiologista sem trabalho reconhecido pelos pares nessa especialidade, para apoiar um livro branco sobre a epidemia? Não, meu caro Miguel, não se trata de eu gostar ou não gostar das opiniões das pessoas escolhidas (por exemplo, gosto imenso de ouvir Roberto Roncón, sobretudo naquilo em que tem verdadeira competência, e é perfeitamente justificado que o ouçam no capitulo sobre a resposta do SNS à epidemia), trata-se da obrigação do Observador explicar por que razão, na elaboração de um livro branco sobre a epidemia, resolve não ouvir epidemiologistas com provas dadas. E convenhamos que é ridículo dizer que ao referir "com provas dadas" eu esteja a querer dizer "com os quais concordo". Trata-se de um truque de retórica de Miguel Pinheiro para manter o seu registo de comentários sobre mim, para responder a uma opinião sobre o Observador, fugindo ao que seria útil: discutir os argumentos de substância que estão no meu artigo, como por exemplo, erros crassos (sempre no sentido da catástrofe) ou a escolha da citação de Henrique Oliveira, em assuntos que não fazem parte das suas competências e que as conclusões do livro branco contrariam de forma muito sustentada.

Em síntese, obrigado Miguel Pinheiro pelo grande fair play em publicar o que escrevi e, mais ainda, muito obrigado pela eloquente demonstração do que digo no meu artigo que a sua resposta é.

A manifestação

por henrique pereira dos santos, em 24.03.21

IMG_20210320_152211.jpg

Esta fotografia foi tirada por mim na fase inicial da manifestação de Sábado contra as medidas de gestão da epidemia.

Não sei o que se passou na manifestação depois desta fase inicial porque só estive nesta altura, tendo voltado para casa quando começaram a descer para o Rossio.

Esperava encontrar 50 a 100 pessoas mas, para minha surpresa, eram bastantes mais, com gente muito variada, desde os radicais que aparecem nas fotografias mais publicadas, até famílias pacíficas como estas do primeiro plano da fotografia, cumprindo todas as regras em vigor (o uso de máscara não é obrigatório na rua, só quando não é possível manter o distanciamento, convém lembrar).

Não tencionava escrever sobre esta manifestação, apesar de me surpreender quer a quantidade de comentários de pessoas verdadeiramente zangadas que falam em três mil atrasados mentais e a quantidade de notícias sobre o facto de uma das pessoas ter testado positivo nos dias seguintes. Infelizmente, já não me surpreende, de todo, a opção do jornalismo alinhar com o poder contra o direito de expressão e manifestação das pessoas comuns.

O que me fez mudar de ideias foram as notícias de que a mesma polícia que acompanhou a manifestação, não fazendo qualquer intervenção para garantir a legalidade do que se passava, vir agora anunciar que vai fazer uma queixa crime contra os organizadores por causa de comportamentos individuais de manifestantes.

Alguém se lembra da polícia alguma vez ter perseguido os organizadores de uma manifestação por causa de comportamentos ilegais e violentos de alguns dos manifestantes?

Eu não me lembro, e não fico nada tranquilo quando a polícia decide não intervir no momento para garantir que alguém cumpre a lei para, depois, responsabilizar os organizadores da manifestação por não fazer o trabalho que competia à polícia no momento da manifestação: garantir o cumprimento da lei.

No entanto, a quantidade de gente que acha normal este comportamento do Estado, que defende este comportamento do Estado, que acha adequado estar do lado do poder contra as pessoas comuns, com base na ideia não demonstrada de que a manifestação de Sábado tem um potencial impacto na saúde pública maior que a actuação do Estado na gestão de lares, por exemplo, é que é verdadeiramente inquietante.

Eu não tenho nenhuma proximidade com grande parte das ideias que aparecem retratadas em imensas fotografias de cartazes desta manifestação, mas procuro não confundir o essencial com o acessório: muitas das medidas de política de gestão da epidemia são excessivas, desproporcionais e causam mais sofrimento do que aquele que evitam.

Para além de serem pura irracionalidade sem qualquer base factual, como acontece com o fecho das escolas.

Eu conheço, e até reconheço, o argumento de outros moderados radicais sobre máscaras: se for preciso usar máscaras em todo o lado para nos aproximarmos de uma vida de relação social normal e sossegar os medos que são inevitáveis durante surtos epidémicos, então mais vale não contestar as máscaras.

É o único bom argumento para aceitarmos a imposição do uso de máscaras na rua, medida sem qualquer demonstração de utilidade prática.

Só que as máscaras deixaram há muito de ser uma medida de gestão da epidemia e passaram a ser, essencialmente, um símbolo de virtuosidade, para os que defendem o seu uso na via pública, e um símbolo de liberdade, para os que contestam a necessidade da obrigatoriedade no uso de máscaras na via pública.

E enquanto se manteve este status quo simbólico eu fui-me mantendo agnóstico nesta discussão, não discuto o uso de máscaras, não uso quando acho que não devo usar, uso quando é obrigatório ou quando as pessoas com quem estou se sentem mais tranquilas se eu a usar, evitando fazer do seu uso ou não uso a questão simbólica e fracturante que se tornou dominante.

O que a intenção da PSP vem tornar claro é que se está a dar um passo diferente e muito mais perigoso: o uso de máscara é a gazua que o Estado está a usar para controlar o direito de manifestação por portas travessas, incluindo o direito a manifestar-se contra o uso de máscaras.

O resultado futuro parece-me claro: a radicalização e tribalização tenderão a substituir a discussão racional e a política aberta que permite a discussão civilizada de posições inconciliáveis.

E isso não é nada, nada bom.

Há limites para a indecência

por henrique pereira dos santos, em 23.03.21

Henrique Oliveira (também Silveira, depende dos contextos) é um dos mais espalhafatosos membros dos quatro matemáticos do apocalipse.

O Observador acha-lhe graça e cita-o na qualidade de especialista (que é, sobretudo em música, acessoriamente em matemática).

"De qualquer modo, com apenas sete dias de desconfinamento, é cedo para concluir se o plano governamental está ou não a correr bem, numa Europa onde a pandemia anda a várias velocidades. Os primeiros sinais do sucesso deste plano de desconfinamento só devem ser claros com os números que tivermos a meio da semana, acredita o matemático Henrique Oliveira, do Instituto Superior Técnico".

Comentário: estes grupo de matemáticos sempre subscreveram a tese de que menos de dez a quinze dias, preferencialmente três semanas, era pouco para avaliar o efeito de quaisquer medidas não farmacêuticas tomadas na evolução da epidemia, excepto quando os casos começaram a cair estrondosamente no fim de Janeiro, altura em que desenvolveram a tese de que só o fecho de escolas, uma semana antes, poderia explicar uma queda que consideravam inexplicável. Agora parece que voltaram à tese de que uma semana é pouco. Até aqui, nada de novo, trata-se da permanente alteração da base teórica para explicar o desajuste entre as suas previsões e a realidade em que são exímios, o que lhes evita a maçada de explicar os erros de previsão.

"Henrique Oliveira avisa que os óbitos continuam em valores mais altos do que era expectável face à incidência registada agora, o que significa que as mortes por Covid-19 que se estão a verificar são ainda de pessoas infetadas há cerca três semanas.

Por outro lado, isso também pode indiciar uma maior disponibilidade do próprio SNS no tratamento aos doentes. Quando Portugal atingiu médias de 10 mil casos diários (com picos de 16 mil) e chegou às 303 mortes registadas em 24 horas (em dois dias, 28 e 31 de janeiro), esse intervalo era inferior — cerca de duas semanas. Mas isso denunciava os problemas que se verificavam nos hospitais: sem espaço nas unidades de cuidados intensivos, muitos doentes acabavam por morrer no internamento geral, sem usufruir de tratamentos que lhes teriam prolongado a vida".

Comentário: Aqui o caso é muito mais sério. Um professor universitário faz umas correlações matemáticas entre número de casos e mortalidade e, ao verificar que o tempo que medeia entre o pico de um e o pico de outros não bate certo, em vez de concluir o que parece evidente - que não está a perceber nada do que se passa e tem de ir procurar explicações para a inconsistência - inventa, o termo é mesmo inventa, uma explicação completamente idiota: a de que os cuidados de saúde prestados aos doentes covid são necessários para que as pessoas demorem mais uma semana a morrer.

Que a explicação seja idiota em si mesma e que não tenha qualquer base nos factos é absolutamente irrelevante para Henrique Oliveira (Silveira), desde que lhe permita manter a tese de que temos de estar todos fechados em casa porque as epidemias têm um crescimento exponencial e, consequentemente, quando se entra na exponencial, é preciso atacar o mais cedo possível (o facto de o eminente investigador ter identificado um efeito supersónico no fecho de escolas que consistiu em aumentar a velocidade de descida dos casos que já ocorria antes, não demove o cientista de defender a tese de que só atacando a exponencial na base se podem esperar resultados robustos).

Francamente, o que citei acima ultrapassa qualquer limite normal para se ser aceite como opinião racional e sólida, não passa de conversa de café para justificar erros e asneiras na leitura da evolução da epidemia e manter o estatuto de especialista num assunto de que se percebe raspas.

Pura indecência, portanto.



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