Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



O Público e a desinformação

por henrique pereira dos santos, em 03.10.22

Não há muito tempo, tive uma troca de mails com Manuel Carvalho, director do Público, e penso não estar a fazer nenhuma inconfidência, nem a divulgar conversas privadas, se disser que Manuel Carvalho ficou indignado com o facto de eu ter escrito que o Público, a propósito dos fogos, espalhava muita desinformação.

Diga-se que eu percebo a reacção de Manuel Carvalho, nenhum director de jornal gostará de ouvir que o seu jornal espalha desinformação, só que estou mesmo convencido de que um dos problemas do jornalismo está no facto de serem dos últimos agentes económicos que se ofendem com as críticas, não reconhecendo o papel essencial que a crítica dos consumidores pode desempenhar na melhoria do desempenho.

Vou ilustrar com uma notícia do Público, já com alguns dias, sobre um assunto de que sei pouco.

"Rendas aumentaram mais de 40% em cinco anos", era o titulo da notícia, que me pôs logo de pé atrás.

Rapidamente verifiquei que era uma notícia sobre os relatórios do INE sobre "novos" contratos. O INE tem sempre o cuidado de falar de "novos contratos", explicitamente, e por boas razões: a percentagem de novos contratos no mercado de arrendamento, em Portugal, é muito baixo (e regem-se por regras diferentes das que se aplicam aos contratos mais antigos), logo não se podem extrapolar os aumentos nos novos contratos para o conjunto mais abrangente referido no título da notícia "Rendas", que diz respeito a todos os arrendamentos.

Ou seja, o título a disseminar desinformação.

No texto da notícia vai-se intercalando a referência correcta ao objecto da notícia os "novos contratos", com extrapolações completamente abusivas "a renda mediana em Portugal atingiu os 6,55 euros por metro quadrado, uma subida de 8,6% em relação a igual período do ano passado".

Pura desinformação, este valor atira a renda mediana de uma casa de 50 metros quadrados para 327,5 euros mensais (655, para uma casa de 100 metros quadrados) , mas basta consultar os dados provisórios dos censos de 2021 para se ficar a saber que das pouco mais de 923 mil casas arrendadas, pouco mais de 650 mil (cerca de 70%), têm rendas abaixo de 400 euros.

Confesso que verdadeiramente o que me fez ir olhar para os números foi esta frase extraordinária: "Este aumento acelerado das rendas acontece apesar da retracção da procura". O que o jornal escreve é que o número de novos contratos celebrados  diminuiu, mas como não acreditei que a jornalista estivesse a confundir número de contratos celebrados com procura, achei por bem ir à procura de qualquer coisa que pudesse indiciar uma diminuição da procura.

Fui obrigado a render-me à evidência de que nem escrevendo uma frase tão extraordinária como "os preços aumentaram apesar da diminuição da procura", a jornalista tenha reparado que a celebração de contratos não traduz apenas a procura, mas sim o ponto de encontro entre a procura e a oferta, isto é, os preços sobem ou porque a procura aumenta, ou porque a oferta diminui ou as duas coisas ao mesmo tempo, agora subirem com diminuição da procura, não sendo uma impossibilidade (não existem mercados perfeitos), é seguramente uma raridade.

E existem dezenas de indícios na evolução dos números da habitação, nomeadamente nos que dizem respeito ao arrendamento, de que Portugal está com um problema sério de oferta habitacional e, dentro desta, de oferta para arrendamento, matéria que os jornais raramente tratam com um mínimo de rigor.

Infelizmente o que confirmei, agora num assunto que não domino, é mesmo que o Público, como a generalidade do jornalismo, anda mesmo a espalhar desinformação, ao mesmo tempo de se multiplica em fact check's e coisas afins, sobre afirmações de terceiros.

Por mim, dois conselhos simples, um empresarial, outro sobre a natureza do jornalismo.

1) Senhores jornalistas, deixem de se amofinar com as críticas dos vossos leitores, não só porque tendo poucos clientes é um bocado estúpido alienar os poucos que ainda têm, como sobretudo porque as críticas são o mais poderoso e barato instrumento de melhoria do desempenho;

2) Senhores jornalistas, acabem lá dos fact checkers e polígrafos e vejam se aplicam isso internamente, às notícias que fazem todos os dias.

Eu sei que se os conselhos valessem de alguma coisa, eram vendidos, não eram dados.

Os campeões da virtude

por henrique pereira dos santos, em 02.10.22

O post parte de um programa de rádio concreto, com pessoas concretas, mas na verdade diz respeito ao ar do tempo, não apenas às pessoas e circunstâncias concretas que lhe servem de base.

"foi o seu patriarcado que deu guarida a um criminoso internacional ... que aliás fugiu ... tudo leva a crer que aqui há fumo, e também há fogo" diz Susana Peralta, no seu estilo Chega de falar de terceiros, quando estes são acusados do que Susana Peralta entende ser inadmissível.

Não vou fazer o post sobre a forma como o assunto Ximenes Belo foi tratado neste programa, nem mesmo em relação ao paralelismo feito em relação à forma como a sociedade reagiu ao caso Casa Pia, mas não queria de deixar de realçar o reaccionarismo do que citei.

Saltemos por cima do facto de não ter havido qualquer tribunal a determinar se fulano ou sicrano é criminoso, até porque no caso de Ximenes Belo parece haver indícios mais que suficientes para, independentemente de se poder determinar juridicamente o que realmente se passou, se partir do princípio de que se passaram coisas graves e inadmissíveis, que provavelmente são crime (que, se provadas em tribunal, transformarão Ximenes Belo num criminoso).

O que me interessa é fazer notar que Susana Peralta entende que os criminosos devem ser ostracizados e castigados, são pessoas a quem não se pode dar guarida, e não podem recuperados para a sociedade porque os seus crimes são horrorosos.

É essa opção que é profundamente reaccionária.

Digamos que Susana Peralta - e grande parte da sociedade woke que reage aos crimes sexuais de forma totalmente diferente da forma como reage aos restantes crimes, isto é, um criminoso que mata um banqueiro num assalto tem direito a muitas explicações sociológicas sobre como a sociedade produziu este criminoso, mas isso não se aplica aos criminosos sexuais - está do lado dos lapidadores da mulher adúltera, rejeitando o "vai, e não tornes a pecar".

E esta é a primeira nota sobre os campeões da virtude: repetem o velhíssimo princípio de que o sistema penal serve para castigar o criminoso pelo que fez no passado, rejeitando os modernos princípios, filhos do iluminismo, de que o castigo inerente ao sistema prisional visa a futura reintegração do criminoso na sociedade, para além da prevenção de crimes futuros.

Desse ponto de vista, portanto, Susana Peralta, e grande parte da sociedade woke, parecem o Chega, que também está convencido que é com repressão, aumentos de penas e etc., que se resolvem os problemas sociais complexos associados ao facto da natureza humana ser ela, em si, imensamente diversa.

Como pegar neste exemplo nos leva demasiado depressa para campos diferentes do que me interessa, fiquemo-nos pelo que nesse programa se disse sobre Paula Amorim (mesmo esquecendo a tolice, anterior ao programa, de se defender que um imposto sucessório leonino era bom para dar a Paula Amorim um bocadinho de noção, como se o objectivo dos impostos fosse a correcção moral dos cidadãos e não o financiamento do Estado).

"ela diz com orgulho, eu deixei a escola, para quê ir para a universidade, para quê estudar ... isto é bem o retrato do que são as elites portuguesas ... ela está a dar um sinal de desvalorização total da escola ... ela seria certamente uma pessoa bem mais capaz hoje ... teria outro mundo e outra sofisticação se tivesse ido para Universidade".

Paroquialismo das elites portuguesas, diz Jorge Fernandes.

É extraordinário como a academia portuguesa é paroquial, na defesa de que ir para universidade é, em si, garantia de ser mais capaz e melhor, mais sofisticado, com mais mundo.

Bill Gates (microsoft), Mark Zuckerberg (facebook), Larry Page (google), Jack Dorsey (twitter), Henry Ford, Thomas Edison, John Rockfeller, Bob Dylan e muitos, muitos outros das elites de muitos países, também escolheram abandonar a escola.

Pelo contrário, há milhões de outras pessoas, alguns académicos encartados com doutoramentos e os mais altos graus da academia, que não valem um caracol.

Sim, é verdade que nos grandes números a escola é útil e é bom que a maior parte das pessoas frequentem a escola, mesmo que todos saibamos que seria um desperdício de talento esperar que Ronaldo acabasse um curso universitário para se poder dedicar a jogar futebol a sério.

Agora, dizer que frequenter a madrassa socialista a que dão a alcunha de sociologia do ISCTE (só para dar um exemplo), ou seguir o ensino de Boaventura Sousa Santos, torna alguém mais culto, com mais mundo, mais capaz, e etc., parece-me muito discutível.

Se se quiser criticar Paula Amorim, critique-se pelo que ela faz, agora fazer o barulho que vários académicos fizeram só porque ela escolheu, e disse que escolheu, não ir para a escola (o que é muito diferente de não estudar), isso, francamente, é a usual sinalização de virtude em que os moralistas de todos os tipos, tempos e mundos, sempre se basearam para se valorizar socialmente.

Concentrem-se em fazer melhores academias, meus caros académicos, e deixem os mexericos para as conversas com os amigos, porque como dizia alguém um dia destes, "se os meus filhos que conhecessem total e integralmente tudo o que fiz na vida, eu provavelmente morreria de vergonha".

O ambientalismo silencioso (parte cinco)

por henrique pereira dos santos, em 01.10.22

Os efeitos deste ambientalismo de manada em que as ideias são indiferentes aos factos tem implicações muito mais profundas e relevantes do que poderia parecer.

Um bom exemplo é o que se passa na outrora cautelosa burocracia europeia.

Ursula von der Leyen precisava de ter um pacto ecológica europeu nos primeiros cem dias da sua investidura como presidente da Comissão Europeia, sendo razoavelmente indiferente a eficácia do que lá está escrito, desde que ficasse claro o amor da Comissão Europeia pela questões ambientais que os movimentos sociais, leia-se, Greta Thundeberg e afins, conseguiam tornar visiveis.

Como boa burocracia que é a europeia, há sempre avaliações sobre o que foi feito antes e, em matéria de biodiversidade, as conclusões são as que são conhecidas: as metas tomadas em diversos momentos anteriores nunca foram alcançadas.

Para mim, um pobre homem da Póvoa, se repetidamente se vão estabelecendo objectivos que, nem de perto, nem de longe, são cumpridos, seria preciso avaliar os métodos usados, e tentar perceber e explicar as razões para os sucessivos desaires.

Para a burocracia europeia não é assim.

Os objectivos não são atingidos porque os Estados não fazem o que a Comissão acha imprescindível, portanto o que é preciso é reforçar os processos que não deram resultado, passando-os de voluntários para vinculativos, passando de metas mais ou menos indefinidas como "parar a perda de biodiversidade até 2010" (não escolhi inventar um objectivo, escolhi um objectivo concreto e formalmente assumido) para metas vinculativas e verificáveis como "ter 10% do território europeu sob protecção estrita em 2030" (mais uma vez, não estou a inventar hipóteses, é mesmo isto que está aprovado).

Qualquer pessoa com um mínimo dos mínimos de conhecimento sobre gestão da paisagem e gestão da biodiversidade sabe que ter 10% do território nacional sem intervenção humana (por mais voltas que se dêem para alargar o conceito de "sem intervenção humana" de maneira a que se possa dizer que é sem intervenção humana, mas se possa intervir) é, para além de uma impossibilidade prática, uma grossa asneira técnica.

O que não faltam são pessoas responsáveis, quer na administração, quer na academia, quer nos movimentos sociais, que reconhecem que de facto não faz sentido nenhum ter este objectivo, desde que seja em privado.

Sem surpresa, desde 2019, quando foi apresentado, até hoje, três anos depois, ainda não se passou das discussões semânticas sobre o que quer dizer "sem intervenção humana".

O reconhecimento é sempre feito em privado, no que escrevem e dizem publicamente, afastam-se do confronto dizendo que, independentemente do que cada um possa pensar, é uma política europeia aprovada por todos, portanto não faz sentido contestá-la, passando a dispender o seu tempo, como Sísifo, a carregar uma pedra que sabem que, antes de chegar ao destino, vai de novo rolar para o ponto de partida.

Em 2030, quando se fizer a avaliação de resultados, lá estaremos a discutir formas mais eficazes de impor o mesmo objectivo, com os mesmos métodos, porque é evidente que as medidas são positivas para a conservação, a realidade é que está errada.

A simples constatação de que modelos de intervenção pública como o de Greta Thundberg, simplistas, unidireccionais, assentes em histriónicos juízos morais, diabolizando a economia e as motivações das pessoas comuns, sem qualquer consideração pela complexidade da realidade, é arrumada para debaixo do tapete, tratando-a como uma mera reacção dos interesses contra a perda dos privilégios das classes dominantes que beneficiam do status quo que não aceitam alterar e nos está a conduzir ao abismo.

Mais que a pobreza material a que a irracionalidade dá origem, é mesmo a pobreza intelectual da discussão dentro do movimento ambientalista que me entristece ("a nossa casa está a arder", dizem eles): tanta gente com boas cabeças, com bons instrumentos de análise, com boas condições de trabalho, agachada atrás do sofá por ter medo dos anátemas a que se arriscam se se limitarem a dizer que talvez seja boa ideia baixar o tom da gritaria e olhar para a realidade com mais atenção e rigor.

Será assim tão difícil dizer que pretender ter 10% de Portugal sob protecção estrita não é só é estúpido em si mesmo, por não contribuir grande coisa para a conservação da biodiversidade, como é estúpido porque corresponde a gastar recursos a tentar materializar uma impossibilidade prática?

A sinalização de virtude a propósito da Universidade Católica

por henrique pereira dos santos, em 29.09.22

Tinha a intenção de fechar hoje a série sobre o movimento ambientalista, e depois faria um post sobre a reacção de sinalização de virtude a propósito da aplicação de regras de acesso a curso de medicina da Universidade Católica.

João Miguel Tavares, publicando hoje no Público uma crónica tão representativa dessa sinalização de virtude, acabou por me trocar as voltas e vou fazer primeiro este post, deixando o outro para outra altura.

No primeiro curso de medicina da Universidade Católica há um aluno que entrou no contingente de vagas supranumerárias, por ser descendente em linha recta de um benemérito insigne da Universidade.

Aqui d'El Rey, "é totalmente inaceitável numa instituição que beneficia do estatuto de universidade pública", escreve João Miguel Tavares e, acrescenta, "sobretudo, numa instituição que se assume orgulhosamente católica".

Note-se que o mesmo João Miguel Tavares responde a si mesmo "a Católica poderia sempre argumentar que queria ser uma Harvard portuguesa: o preço de aceitar os filhinhos de papás multimilionários traduzir-se-ia em rios de dinheiro para construir uma uma universidade de topo".

Descontando o habitual tom com que em Portugal se fala dos muito ricos, João Miguel Tavares explica bem o problema: para fazer boas universidades são precisos recursos e as melhores do mundo usam mecanismos de financiamento que, frequentemente, conduzem à introdução de regras cujo objectivo é cativar o interesse dos muito ricos em desviar parte dos seus recursos para essas universidade.

Portanto, e em primeiro lugar, esta é a questão: a captaçãode recursos para que seja possível ter melhores universidades (não vou perder tempo com o argumento de que incluir o filho da senhora da secretaria nos mesmos 3% de vagas supranumerárias é beneficiar a endogamia porque penso que o próprio João Miguel Tavares, quando lhe passar a indignação, reconhecerá que é um argumento completamente absurdo).

A sinalização de virtude assenta em dois ou três argumentos, uns falsos, outros grosseiramente pouco rigorosos e em muita omissão de informação.

Diz João Miguel Tavares que o candidato com 15,8 valores ultrapassou uma boa vintena de outros candidatos que existirão entre os 16,9 da seriação geral e esses 15,8. Sim, é verdade que se não fosse pelo mecanismo excepcional esse aluno de 15,8 não entraria no curso, mas nenhum dos outros o substituiria, ficariam todos de fora, na medida em que se trata de vagas supranumeárias, o seu não preenchimento não aumenta as vagas do contingente geral.

Ou seja, a ausência da regra apenas tinha uma consequência para os alunos: todos ficavam pior, haveria menos um aluno no curso, nada mais.

Mas João Miguel Tavares diz mais: "atribuem vantagens aos filhos e netos dos funcionários e patrocinadores da casa, independentemente dos seus méritos individuais".

O problema com esta afirmação é o de que é falsa, porque para que estes alunos possam entrar há critérios mínimos, que aliás se aplicam a todos os candidatos, nomeadamente uma média de 15 valores, ou seja, não basta ser o filho da senhora da secretaria ou o neto de um benemérito insigne - estatuto que é atribuído por um órgão colegial da universidade, não é uma decorrência directa do valor de uma determinada contribuição-, é preciso juntar a essa possibilidade de concorrer pelos 3% de vagas supranumerárias o mérito individual de ter, pelo menos, média de 15.

O maior erro de análise desta sinalização de virtude, parece-me, está no facto de se considerar que a seriação por nota traduz essencialmente o mérito individual dos candidatos, omitindo que o factor que, em Portugal, está mais correlacionado com as notas dos alunos, é a condição sócio-económica das famílias, esse sim, o verdadeiro escândalo do nosso sistema de ensino, em primeiro lugar, e do nosso sistema de acesso à universidade, em segundo lugar, em especial nos cursos com notas mais altas de ingresso.

João Miguel Tavares reconhece que injustiças sempre haverá, omitindo que a principal injustiça está na forma como o nosso sistema de ensino e de acesso ao ensino superior penaliza quem vem de famílias com menos recursos, para se concentrar no "descaramento desta injustiça em particular".

Depois de reconhecer que a generalização de regras deste tipo poderia resultar em melhores universidades (e, acrescento eu, em universidades mais inclusivas com base no mérito, porque liberta recursos para o apoio a alunos sem recursos para pagar os custos de frequência em universidades de topo), depois de reconhecer que injustiças sempre haverá, omitindo que estas regras se aplicam apenas a vagas supranumerárias, não afectando as entradas no contingente geral, omitindo que essas vagas só existem no máximo até 3% do contingente geral, e na medida em que existam candidatos que, simultaneamente, demonstrem que cumprem requisitos mínimos de nota e os critérios de acesso a esse contingente especial, afinal o escândalo é que esta injustiça é descarada.

E, sendo o respeitinho muito bonito, podemos esquecer o escândalo do nosso sistema de ensino produzir resultados em notas que se correlacionam com o estatuto económico das famílias e podemos esquecer o escândalo de este problema só existir por causa da cedência do Estado aos médicos instalados e à ordem dos médicos, porque esses são escândalos que não são descarados.

Se dúvidas houvesse sobre o que está em causa nas reacções de que a crónica de João Miguel Tavares é apenas um bom exemplo (há as habituais reacções jacobinas, trogloditas e infantis, eu escolhi comentar um texto que não é nada disso), a comparação final entre a venda de indulgências e o estabelecimento de regras deste tipo, desfaria qualquer dúvida: é apenas a sinalização de virtude que está em causa.

O problema real não é a católica ter regras destas, o problema é termos sempre a mania contestar regras eficazes para mobilizar recursos, do que resultam melhores soluções sociais, com o argumento de que há alguém em particular que é mais beneficiado que outros, sendo por isso preferível ficarmos todos pior a aceitar a realidade tal como ela é.

O ambientalismo silencioso (parte quatro)

por henrique pereira dos santos, em 28.09.22

Na prática, em que é que se traduz este ambientalismo de manada, em que discussão sobre a melhor forma de intervir sobre realidades complexas foi substituída pela fronteira moral que separa os "bons" dos "vendidos aos interesses"?

Uma história recente ilustra bem o resultado prático das opções que têm vindo a dominar o movimento ambientalista (que, volto sempre a insistir, é muito mais diverso do que se poderia supor a partir do que se ouve comummente por aí).

Depois dos fogos de 2017, houve umas quantas iniciativas para alterar estruturalmente as condições que estão na base desses fogos.

O Estado entreteve-se a tomar decisões administrativas, como proibir o aumento da área de eucalipto, ou a fazer planos e papéis afins, com especial destaque para os Planos de Transformação da Paisagem, uma matriosca de planos, operações, estratégias e as coisas do costume em que o Estado se entretém nestas situações. Cinco anos depois, nada disso tem qualquer tradução no terreno: nem a área de eucalipto alterou as suas tendências, nem há qualquer indício de que haja qualquer tendência diferente na evolução das paisagens.

Outros actores tomaram decisões filantrópicas, como a Jerónimo Martins, que resolveu apoiar um projecto de florestação em Arganil, e outras coisas que tais. Menos mal, há coisas a acontecer no terreno, é cedo para saber a sua sustentabilidade a prazo. Sempre são coisas melhores que as iniciativas desgarradas de plantações de árvores, sem associação a qualquer plano de gestão de longo prazo.

As celuloses, através da sua associação, a CELPA, entendeu empenhar-se na melhoria da gestão de áreas de produção de eucalipto, suponho que também apertada pela dificuldade em ter novas áreas de produção eficiente de eucalipto, face ao puzzle administrativo e legal que rodeia da produção de eucalipto que liquida a produção racional e legal e potencia a produção irracional e ilegal. Para isso, pretende mobilizar proprietários, financiando operações iniciais de plantação, de acordo com projectos que visam contrariar o abandono e a falta de gestão. Há execução de alguma coisa no terreno, embora seja difícil saber como vão evoluir os projectos porque, aparentemente, não está definido o modelo de compensação entre proprietários que permita aos que têm produções economicamente viáveis financiar as áreas dos proprietários que cederam áreas para outras produções que não o eucalipto.

O problema central na gestão do fogo, de acordo com a melhor ciência que existe sobre o assunto neste momento, é o abandono e a falta de gestão, mas o movimento ambientalista escolheu concentrar-se no eucalipto (e, marginalmente, no pinhal), como maus da fita (tal, como aliás, fazem alguns dos consultores e investigadores a quem o Estado resolveu entregar o desenvolvimento dos tais planos de transformação da paisagem).

Como o inimigo são as celuloses, o movimento ambientalista é muito passivo em relação à ineficiência do Estado ao fim destes cinco anos, mas muito sensível ao que está a ser feito pelas celuloses.

É este o contexto em que começam a aparecer notícias sobre o projecto "Replantar Pedrogão", um dos quatro projectos apoiados pelas celuloses, já executado no terreno, envolvendo várias dezenas de proprietários, e formalmente apresentado pela associação florestal que, por isso, ficou responsável formal pela execução do projecto.

Desde sempre é muito claro que se trata de um projecto promovido pelas celuloses, que não é a Santa Casa da Misericórdia, e alinhado com os seus interesses de abastecimento das suas fábricas.

Nas notícias de Agosto, uma associação ambiental, a QUERCUS, e uma fraude, a Acréscimo, acusam as celuloses de andarem a enganar toda a gente apresentando um projecto que prevê a plantação de medronheiros e depois plantam eucaliptos.

Os factos eram claros: em cerca de 130 hectares de projecto, havia uma desconformidade em quatro hectares.

O ICNF fez uma verificação da situação, levantou um processo de contra-ordenação à associação florestal (quem tinha formalmente apresentado o projecto de florestação) por ter verificado que dois proprietários, nas partes que lhes diziam respeito, tinham feito coisas diferentes do previsto.

Sem surpresa, o movimento ambientalista esquece os factos, e perante o levantamento do processo de contra-ordenação, volta a fazer mais uma manobra de propaganda que visa atacar as celuloses, e não os problemas reais com que estamos confrontados como sociedade.

Posteriormente a CELPA fez um levantamento total da execução do projecto, e verificou mais algumas desconformidades como uma redução de áreas de circulação porque o proprietário resolveu que ainda tinha espaço para mais uma fila de eucaliptos, não prevista no plano, mas que o proprietário entendeu que era espaço desperdiçado (só quem nunca executou projectos, em especial projectos deste tipo, espera que não haja discrepâncias nenhumas entre previsto e executado).

Grande parte destas desconformidades de projecto, em especial os quatro hectares de eucaliptos indevidamente plantados, estão hoje corrigidas ou em vias de o ser.

Por influência deste escrutínio público, com certeza, não é esse escrutínio que está em causa, é a forma como se manipulam os factos que se verificam nesse escrutínio, com o objectivo de impor opções a terceiros.

Em que é que este projecto, que é do interesse das celuloses, se cruza com o interesse público?

Sendo o problema central dos fogos o abandono e a falta de gestão, qualquer projecto que traga gestão para zonas em sério risco de abandono, é um projecto útil (pode ser melhor ou pior, ter coisas mais ou menos aceitáveis, mas a ideia base é a de que é um projecto socialmente útil).

Para uma parte relevante do ambientalismo, o problema é o eucalipto, portanto qualquer projecto que se baseie na produção de eucalipto, é um projecto para abater, mesmo que o resultado seja mais abandono, mais pobreza e um padrão de fogo socialmente inaceitável.

E esta cisma é de tal maneira profunda, que mesmo uma fraude como a Acréscimo, uma associação uninominal de uma pessoa sem qualquer credibilidade técnica e ética, consegue manipular uma quantidade enorme de ambientalistas para quem os factos não interessam nada, desde que haja a possibilidade de fazer andar a sua agenda pré-definida.

Farei ainda uma quinta parte sobre como o ambientalismo silencioso é um problema global, influenciando a forma como burocracias poderosas, como a da União Europeia, acabam a tomar decisões completamente irracionais, para responder a este ambientalismo de manada, que se afirma pela superioridade moral de estar "livre de interesses", o que o torna evidentemente vulnerável a qualquer escroque que resolva apresentar-se como um corajoso defensor da "linha justa": quando se impede que os factos influenciem as nossas ideias, é muito fácil que terceiros nos levem a moldá-las a partir das fantasias mais infantis.

O ambientalismo silencioso (parte três)

por henrique pereira dos santos, em 27.09.22

Mas e tantos ambientalistas e investigadores (de várias áreas científicas) podem estar assim tão enganados?

Sim, podem.

Comecemos pela questão da competência dos investigadores (de várias áreas científicas).

Eu posso ser o maior especialista de Linaria ricardoi do mundo e não saber nada das práticas agrícolas que favorecem a espécie nem dos factores económicos e sociais que as influenciam, desconhecendo por completo como está a evoluir o mercado de azeite, para dar um exemplo.

Posso dizer, por exemplo que aparece em "Searas, pousios e prados em olivais tradicionais ou montados, raramente em taludes e bermas de caminhos. Em solos calcários.". Posso mesmo acrescentar que é um "Endemismo restrito à região de Ferreira do Alentejo, Beja, Cuba e Serpa. Embora possa ser localmente abundante em alguns locais, as alterações de uso do solo (intensificação) nesta região constituem uma séria ameaça à sua persistência.", sem registar que se referem os solos calcáreos na descrição da sua ecologia e depois se descreve a sua localização numa zona em que os calcáreos são relativamente raros (as duas coisas podem não ser contraditórias, a Linaria poderia estar situado nos poucos calcáreos da região).

Ao mesmo tempo, a lista vermelha da flora justifica a alteração do seu estatuto de ameaça de "quase ameaçada" para "em perigo", entre outras razões, porque existe "uma redução populacional superior a 30% suportada pelo quase desaparecimento da planta dos Barros de Beja".

Nestas circunstâncias, a minha opção mais natural, tanto mais que sendo o maior especialista do mundo na espécie forçosamente sei que há muita coisa que não compreendo na ecologia da espécie, é uma opção de precaução: proibir tudo o que possa afectar a espécie, incluindo eventuais núcleos que eu desconheça, ou seja, o melhor é parar de expandir o olival intensivo e manter os usos tradicionais.

Porque o que sei é de Linaria ricardoi, não vejo a menor contradição em ser contra o regadio, cuja principal razão para se expandir é a falta de competitividade dos tais usos tradicionais. A proibição da expansão do regadio não garante que os usos tradicionais se mantenham, pelo contrário, o mais natural é que sejam abandonados, diminuindo as perturbações que tornam possível a sobrevivência da Linaria ricardoi (embora com ganhos para a renaturalização dos sistemas naturais, mas nesses sistemas a Linaria ricardoi tem condições de sobrevivência muito dificeis, porque vive de aproveitar a perturbação dos sistemas, o que é verdade para outros grupos, como as aves estepárias, por exemplo).

Fechado nas minhas certezas, é difícil que me chegue aos ouvidos a história de um grande produtor de olival superintensivo que comprou sete hectares abandonados há mais de dez anos, sem Linaria ricardoi e sem qualquer valor natural relevante, era um terreno que estava por ali, com um valor social marginal ou, usando a terminologia tradicional, não dava palha nem dava espiga.

Depois das tramitações administrativas e legais, dá-se início às operações para trazer esses sete hectares para o olival intensivo e é feita uma gradagem em todo o terreno. Porque a vida é como é, nada correu como planeado, não havia plantas disponíveis para a plantação, e o terreno, depois de gradado, ficou à espera de melhores dias.

Para surpresa para todos, os especialistas na Linaria ricardoi e os produtores de olival superintensivo, depois de uma Primavera, todo o terreno está coberto de outras coisas antes desconhecidas no local, incluindo Linaria ricardoi e outras oportunistas que gostaram da perturbação que não tinha existido nos últimos dez anos.

Algumas peripécias depois, os sete hectares continuam a integrar a área do grande produtor de olival intensivo, mas agora como um banco de sementes para projectos de gestão, conservando-se a Linaria ricardoi e companhia, sendo possível ao produtor, porque gere muito mais área de olival superintensivo, manter esses sete hectares como área de conservação, com gestão activa, se for caso disso, para manter o nível de perturbação favorável à Linaria ricardoi. Ao contrário do que aconteceria se se pretendesse impor administrativamente usos tradicionais que o mercado não valoriza o suficiente para que o gestor mantenha o nível de gestão que, teoricamente, garantiria a conservação da espécie.

Portanto, o primeiro ponto (os outros serão rápidos) está fixado: o facto de se ser o maior especialista num assunto (uma espécie, motas, parafusos, pão, camisas, seja qual for o assunto), diz muito pouco sobre a minha capacidade para integrar esse conhecimento num processo de gestão que seja socialmente útil.

O segundo ponto é muito rápido porque vou remeter para um post meu anterior, sobre como um investigador inegavelmente considerado, pode acabar a dizer disparates sobre um assunto que não estudou, mesmo que esse assunto se relacione com a sua área de investigação.

E chego ao terceiro ponto, conclusivo, que o post vai longo: o que a ciência diz sobre os impactos ambientais dos eucaliptos, é uma coisa, o que diz o movimento ambientalista, é outra, o que a ciência diz sobre o glifosato é uma coisa, o que o movimento ambientalista diz, é outra, o que a ciência diz sobre a relação entre espécies de árvores e fogos, é uma coisa, o que o movimento ambientalista diz, é outra, e há mais assuntos em que é igual (regadio, nitrificação de solos, agricultura intensiva, agricultura biológica, pastoreio, etc.).

Mesmo que a ciência e o movimento ambientalista dissessem as mesmas coisas - uma hipótes muito pouco plausível, nem a ciência, nem o movimento ambientalista são monolíticos - isso não alteraria o essencial: as opções de desenvolvimento social são opções políticas, preferentemente influenciadas pelo melhor conhecimento disponível, mas cujo processo de decisão será sempre um processo complexo em que os governos e os sábios contam muito menos do que pensam.

Que a ciência diga que o regadio, na mesma parcela, é incompatível com a conservação da Linaria ricardoi, é pacífico.

Que a partir dessa constatação se defina qual é a melhor forma de conciliar o regadio e a conservação da Linaria ricardoi é que já não é do domínio da ciência, é do domínio da política, ou seja, da arte do possível, democraticamente legitimada.

O ambientalismo silencioso (parte dois)

por henrique pereira dos santos, em 26.09.22

Talvez seja útil confrontar as declarações do Senhor Secretário-Geral da ONU com os dados existentes, como forma de começar este post.

Disse António Guterres, a propósito das cheias no Paquistão, que terão provocado à volta de 1500 mortes: "I have never seen climate carnage on the scale of the floods here in Pakistan."

Agora os dados de um século para o conjunto de desastres naturais, incluindo cheias.

Deaths-from-disasters-bubbles-1.jpeg

E comecei por aqui porque esta é a outra face da visão moralista e conspirativa do mundo, a da pura manipulação.

Não tenho nenhuma dificuldade em aceitar que a afirmação de Guterres seja sincera e verdadeira: nunca terá visto cheias maiores e mais letais que as do Paquistão neste ano.

Guterres sabe perfeitamente que o que vê é uma pequeníssima parte do mundo, no espaço e no tempo, e sabe perfeitamente que ninguém, na posição dele, trabalha apenas com o que vê, sendo impossível que desconheça as estatísticas que estão acima.

O que está em causa, no movimento ambientalista - o movimento ambientalista está longe de ser monolítico, é tão diverso que até me inclui a mim, sempre que nestes post escrever "movimento ambientalista", estou a generalizar a partir daquilo é que a sua corrente dominante -, sempre existiu no mundo e pode ser muito bem avaliado a partir da evolução do marxismo e suas evoluções.

Rosa Luxemburgo é uma das fundadoras do partido social democrata alemão,  mas já nesse momento de fundação pertencia à sua corrente mais radical, que a levou a afastar-se e a morrer assassinada, depois de uma vida dedicada à revolução.

À medida que a complexidade da realidade se impõe no quotidiano de quem tem de tomar decisões, há sempre quem considere, uma vez ou outra com razão, todos os desvios em relação ao mundo ideal como cedências "aos interesses".

Esse foi o caminho que levou ao grupo Baader-Meinhoff ou às Brigadas Vermelhas, e a muitos outros grupúsculos radicalizados, a maior parte dos quais sem consequência de maior para a sociedade, felizmente.

É impossível não ver sombras deste processo nisto: "“Para que é que estamos a ir às aulas, se não temos um futuro?”, pergunta Teresa Núncio, questionando o statu quo que se vive, em que se estuda e trabalha como se o futuro estivesse assegurado, apesar da progressão actual das emissões de CO2 (se nada for feito, a temperatura média da Terra facilmente aumentará três graus, com consequências devastadoras). “O absurdo é a normalidade”, constata. Porquê? “Porque é um sintoma de que as pessoas não estão conscientes em relação ao estado da crise climática”, diz a estudante, que também está a ajudar a preparar a ocupação no estabelecimento de ensino que frequenta, a Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa."

Está cá tudo: a infantilização da argumentação ("para quê estudar se não temos futuro"), a troca da racionalidade cartesiana pela emoção, a crítica aos que não seguem a "linha justa" e a conclusão de que é preciso agir, mesmo que temporariamente contra a maioria, para benefício de todos.

Estamos ainda longe da defesa da violência sobre alguns como forma de atingir a felicidade para todos, mas os passos que o movimento ambientalista está a dar, estão a ir nesse sentido: "Neste contexto e tendo em conta as limitações das greves enquanto forças de mudança, o manifesto publicado no The Guardian anunciou uma nova táctica: a ocupação de escolas e universidades feita por estudantes durante os meses de Outono."

E, naturalmente, há opções a fazer.

A minha opção é claramente diferente da de António Guterres.

"No entanto, de 2020 para cá, as emissões de CO2 voltaram aos valores pré-pandémicos, catástrofes naturais, como as mais recentes cheias no Paquistão, continuaram a suceder--se e a invasão russa da Ucrânia produziu uma guerra e uma crise energética que, nos próximos meses, ameaça tornar-se uma crise social europeia de grandes proporções. Ao mesmo tempo, as grandes empresas petrolíferas arrecadaram tamanhos lucros que, no início de Agosto, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, acusou-as de uma “ganância grotesca”."

No que conseguir e me for possível, tenciono manter-me no campo da racionalidade cartesiana e dos factos, matéria para o terceiro post sobre este assunto, entre outras razões por ter visto até onde nos levou a manipulação da informação como instrumento para obter um valor maior, praticado de forma sistemática pelos defensores dos amanhãs que cantam.

O ambientalismo silencioso (parte um)

por henrique pereira dos santos, em 25.09.22

Por coincidência, tinha intenção de fazer uma crónica sobre um dia dedicado a questões ambientais, e hoje o Público tem duas páginas sobre Rachel Carson, em que, sem surpresa, lá aparecem os comentários de Viriato Soromenho Marques, para ilustrar a tese do tal post que tinha intenção de fazer.

Pediram-me (a mim e a mais um monte de pessoas, não sei com que critérios, nem isso me interessa muito), para comentar um plano de gestão de valores naturais de uma empresa. Para isso, a empresa organizou uma sessão, no campo, mandando antecipadamente o documento que queria discutir.

Tudo normal, portanto, para mim.

Mas não para uma das pessoas que estavam presentes que fez questão de dizer, no fim, que embora depois se tenha esbatido essa ideia, a sensação de partida era a de que a empresa a estava a usar.

Por lhe pedir umas horas de trabalho gratuito, o que eu compreenderia?

Não, era mesmo porque, achando-se a pessoa em causa muito importante (não o disse, claro, é a minha interpretação), a empresa só poderia estar a convidá-la para fazer o que agora se chama greenwashing.

Confesso que nem percebi a lógica do raciocínio: a empresa está a fazer um documento interno para ter melhores práticas de gestão dos valores naturais nos milhares de hectares que gere, contrata uns consultores para os ajudar a fazer o plano, pede a um conjunto de pessoa diversificado que comentem o plano para o rever e melhorar, e uma das pessoas convidadas, imediatamente, se sente usada e envolvida num processo de greenwashing.

Note-se que a empresa não fez uma sessão pública, não tinha jornalistas metidos ao barulho, mandou o plano a pessoas cuja opinião considerou útil ouvir, não pediu nada em troca - para além da leitura do plano e umas horas de uma sessão no campo, a quem, por cortesia, serviu um almoço normal e no fim deu um saquinho com três produtos da empresa -, mas há quem, imediatamente se sinta a ser usado para esverdear a imagem da empresa.

De onde vem isto?

Exactamente de uma visão moral do ambientalismo que Viriato Soromenho Marques sintetisa maravilhosamente num dos seus comentários sobre Rachel Carson e o seu "Primavera Silenciosa", publicado há sessenta anos: "Rachel Carson mostrou muita coragem nos anos 60 - e ainda hoje há poucas pessoas que o fazem - que, se analisarmos, dos departamentos e institutos que trabalham na área dos insectos [nos EUA], só 2% se focam em controlo biológico (controlo natural das pragas), sendo que os restantes 98% recebem financiamento da indústria química. E esta entrada em cena do dinheiro faz toda a diferença".

Passemos por cima do facto de Viriato Soromenho Marques estar a dizer que o que diz resulta de quem lhe paga, visto ser esse o critério que usa para falar de terceiros, e note-se como esta formulação elimina toda a discussão racional sobre o uso de químicos: são intrinsecamente maus e se, por acaso, houver investigação que diga o contrário, é porque é financiada pelos interesses da indústria química.

Esta visão conspirativa do mundo é muito, muito generalizada, ao ponto da jornalista que faz o artigo varrer para debaixo do tapete o maior problema criado pela publicação de "Silent spring" e de toda a manipulação emocional associada ao uso de químicos (curiosamente, só na agricultura, quando se trata da química da saúde, há sempre muita teoria de conspiração sobre os interesses da "Big Farma", mas ninguém se lembraria de dizer que só uma percentagem mínima da investigação é que se dedica à homeopatia, ou à acunpuntura, ou outra coisa qualquer que se queira escolher, e por isso a investigação farmacêutica não é válida, porque a "entrada em cena do dinheiro faz toda a diferença").

"O DDT era apresentado como uma panaceia para a malária em países africanos - e, por isso, os detractores acusaram Rachel Carson de "assassinar" milhões de crianças afectadas pela doença".

Mais uma vez, deixemos de lado o facto da jornalista que escreve sobre o assunto não saber que a malária não era um problema dos países africanos, mas um problema quase global, que apenas poupava as regiões demasiado frias para que o vector da doença se aguentasse.

O controlo da malária em países pobres foi fortemente prejudicada pelas restrições no uso do DDT, morrendo muito mais gente anualmente de malária que pessoas afectadas pelo DDT desde a sua invenção, mesmo nos anos de uso desregrado do DDT, sem qualquer consideração pelos seus efeitos secundários.

A Organização Mundial de Saúde ainda hoje apoia o uso de DDT no interior de casas nas regiões onde a malária é um problema maior (ainda hoje morrem milhares de pessoas de malária e outras doenças em que o DDT pode ser útil, enquanto componente dos programas integrados de gestão do vector dessas doenças), coerentemente com o facto da convenção sobre pesticidas persistentes (convenção de Estocolmo) ter uma excepção para o seu uso por razões de saúde.

Rachel Carson tinha razão quanto ao facto de ser necessário mais conhecimento sobre tecnologias novas, mais controlo independente do seu uso e sobre o facto dos poluentes persistentes se espalharem nos ecossistemas, com problemas ambientais potenciais muito relevantes.

Não tinha razão nenhuma sobre a forma como se deve lidar com isso (todas as suas previsões sobre o futuro, mais ou menos como acontece com qualquer pessoa que resolva descrever hoje o que vai acontecer amanhã, revelaram-se grosseiramente erradas), ao pretender que a solução era não recorrer aos químicos de síntese e diabilizar os interesses dos que ganham dinheiro criando soluções para problemas reais.

No fundo, um bocado como o que define o ponto de ruptura entre a parte do movimento ambientalista de que faço parte (em qualquer caso, ultra-minoritária) e a generalidade do movimento ambientalista (o tal das teorias de conspiração) sobre o regadio.

Para a esmagadora maioria do movimento ambientalista, o regadio e, genericamente, a intensificação agrícola (um bocadinho selectiva, é muito divertido ver a diferença de encarnecimento contra o olival intensivo por comparação com a razoável complacência para com a vinha), deve ser combatido na raiz, defendendo-se o montado, a produção extensiva de alimentos e outras coisas que tais que conhecemos há duas ou três gerações.

Não consigo perceber como ao introduzir água e nutrientes, ou seja, aumentando a produtividade primária, que o mesmo é dizer a base das cadeias tróficas, se obtêm sistemas piores ou com menos opções.

É verdade, é nessa parte em que estamos todos de acordo, que ao intensificar o uso agrícola (ou florestal) estamos a simplificar sistemas (desde sempre, desde que deixámos de ser caçadores-recolectores, portanto muito antes do capitalismo e da "entrada em cena do dinheiro"), e que nessa simplificação se perde diversidade.

Ganhamos riqueza, morremos mais tarde, alimentamo-nos melhor, somos mais a usar o engenho humano para gerir melhor as nossas vidas e o nosso mundo, somos mais criativos, vivemos vidas com mais liberdade, ou seja, há benefícios decorrentes das tecnologias, incluindo a química, com largo destaque. Gostaria de sublinhar esta contribuição da química para a nossa qualidade de vida para contrariar a ideia de que para se ser ambientalista é preciso ser quimiofóbico (embora isso não pareça incoerente com o facto de se defender que o uso de contraceptivos químicos foi fundamental para redefinir o papel das mulheres na sociedade).

Se, para ter tudo isto, temos de simplificar sistemas e perder valores que não queremos perder, o que temos é de melhorar os nossos modelos de gestão, usar melhor o génio humano, para reintroduzir complexidade nesses sistemas, mantendo os benefícios que resultam do facto de sermos capazes de manipular a água e os nutrientes para aumentar a produtividade dos sistemas.

Comigo não contam para a posição dominante no movimento ambientalista, que essencialmente é uma posição reaccionária de medo da mudança e de recusa da tecnologia.

Tenho muito respeito pelas comunidades Amish, que se mantêm fiéis aos seus valores, mas eu não partilho esses valores: eles que vivam como entenderem, e que me deixem a mim viver como entender.

A capital

por henrique pereira dos santos, em 24.09.22

O meu post anterior, repetindo uma ideia, que não é minha, mas que carrego comigo há mais de trinta anos - mudar a capital de Portugal para Castelo Branco - teve muito mais reacções do que esperaria, umas a dizer que não pode ser porque faz muito calor em Castelo Branco, outras a dizer que Coimbra é a capital de Portugal e fantasias que tais, outras centradas na afirmação de que a minha terra é que é, umas vezes com argumentos, outras vezes nem isso, e ainda uma ou outra reacção sobre o fundo da questão: a capitalidade prejudica Lisboa, pode ser usada para contrariar tendências que não são favoráveis à gestão do território e é uma decisão estritamente política.

Primeiro ponto: mudar a capital é, antes de mais, uma questão simbólica, e os países foram encontrando soluções que pareciam boas e equilibradas em cada momento. Dessas soluções constam a criação de capitais novas praticamente do nada (Madrid, por exemplo), constam a sua localização em cidades intermédias, diferentes dos centros económicos, sociais, culturais do país ou mesmo soluções menos usuais, como a dos Países Baixos, que têm uma capital política e outra capital administrativa.

Por mim, se quiserem continuar a ter Lisboa como capital política, não é o que defenderia, mas enfim, não é o essencial, o que me interessa é a capital administrativa.

Segundo ponto: as minhas razões para escolher Castelo Branco são bastante simples: está mais ou menos a meio do país no sentido Norte/ Sul (Guarda fica a uma hora mais de Faro que Castelo Branco, só para responder à hipótese da Guarda), está desequilibrada para o interior, o que me parece melhor para atingir os objectivos que se pretendem, que é levar emprego para onde faz falta, e tem boas condições fisiográficas para a sua expansão urbana (o que não acontece, por exemplo, nem com a Guarda, nem com a Covilhã, nem com Abrantes).

Ou seja, é uma solução simples, baseada em razões de paisagem simples, daí que não me interesse nada a discussão sobre se é melhor esta ou aquela localização.

Também não percebo o argumento da mudança de capital, versus o argumento da descentralização: Lisboa é capital há um ror de anos e não há descentralização nenhuma de jeito, mais, quando a Administração Pública decide lançar um programa de estágios - estágios são oportunidades de formação para pessoas, não são mecanismos de resolução das dificuldades de contratação de pessoas - são criadas mais oportunidades para as pessoas de Lisboa que no resto de todo o país, no seu conjunto, e isso, aparentemente, não escadaliza quase ninguém.

Para mim, parece-me claro que mudar a capital para fora de Lisboa facilita a tomada de decisões relacionadas com a descentralização, não se lhes opõe.

Vejamos, a bazuca tinha lá pelo meio uns valentes milhões para a descarbonificação.

Havia duas opções muito claras (uma manifestamente mais fácil, a outra mais complexa): usar o dinheiro para gerir a sério o problema dos fogos e a utilização do solo como sumidouro de carbono, ou usar o dinheiro para transportes públicos nas grandes cidades (sobretudo Lisboa, e um bocadinho no resto para não ser demasiado acintoso).

Estas duas opções têm efeitos diferentes no país, independentemente da bondade intrínseca de cada uma das soluções, matéria que nem chegou a ser discutida: no primeiro caso leva economia para a parte do país que não tem gente, não tem economia, não tem dinamismo social, no segundo caso acentua a tendência de concentrar economia onde há gente, oportunidades, criação de riqueza, libertação de meios de investimento.

Se a capital não fosse Lisboa, a mim parecer-me-ia mais fácil forçar a discussão das vantagens e desvantagens de cada opção, assim, continuamos sempre na mesma lógica: Lisboa é que tem gente, portanto temos de dar resposta às pessoas, logo investimos o dinheiro de todos (note-se que não estou a falar do dinheiro dos lisboetas, esse acho muito bem que seja gasto em transportes públicos) a resolver os problemas das pessoas, e portanto fazemos residências para estudantes, transportes públicos, escolas, etc., tudo em Lisboa.

Por cada um desses investimentos, aumenta a macrocefalia do país porque a cada um desses investimentos há um reforço da diferença económica de Lisboa em relação ao resto do país, como se uma espécie de buraco negro atraísse todos os recursos, a começar pelo capital humano, para Lisboa.

Se me disserem que não se podem deslocar as cadeias para longe das pessoas, por razões sociais relacionadas com a visitação e a reintegração dos presos, de acordo, é uma argumento que percebo, mas qual é o problema de pôr a Presidência da República em Castelo Branco?

Ou a Assembleia da República?

Ou os estágios da Administração Pública?

Devemos pôr o dinheiro dos contribuintes a resolver o problema da escassez de habitação nas grandes cidades, ou devemos reservá-lo, pelo menos em parte, para a criação de emprego nas cidades em que a habitação não é um problema de maior?

Esta é a discussão a fazer, o resto, se faz calor em Castelo Branco, ou se Abrantes está mais perto do centro geométrico do país, ou se a Guarda tem mais estradas a passar por lá, e coisas que tais, não tem interesse nenhum.

Do que tenho a certeza é que se a capital fosse em Castelo Branco, a ligação ferroviária entre as linhas da Beira Baixa e da Beira Alta seria levada muito mais a sério, com benefícios para todos, incluindo os lisboetas.

Mudar a capital para Castelo Branco

por henrique pereira dos santos, em 22.09.22

De vez em quando volto à ideia de que Portugal devia mudar a capital para Castelo Branco.

E digo-o a sério, não é uma piada.

Eu sei que custa dinheiro - e capital não é coisa em que Portugal esteja a nadar, muito menos o estado português -, eu sei que tem muitas contra-indicações (incluindo a discussão interminável sobre a escolha do sítio para onde mudar a capital, se não se consegue decidir onde localizar um aeroporto, imagine-se discutir para onde mudar a capital) e por aí fora.

Mas quando vejo isto, a ideia volta a tropel.

estagios.jpg

O Estado cria um programa de estágios (eu acho uma chinezice, mas enfim) e Lisboa tem mais vagas que o resto do país todo junto.

E cada uma das pessoas que trabalham em Lisboa precisa de um sítio onde dormir, de espaço para se deslocar do sítio onde dorme para o sítio onde trabalha, escolas para os filhos, centros de saúde, postos de correio, balcões bancários, etc., etc..

Podíamos começar por coisas simbólicas e que não exijam muito investimento: mudar a Presidência da República para Castelo Branco (só a quantidade de jornalistas que iriam atrás já daria para se fazer notar nos próximos censos da população).

Depois a presidência do Conselho de Ministros.

Depois os ministérios, um a um.

Depois da Assembleia da República.

E, aos poucos, os serviços de apoio.

Tudo isso gera ineficiência?

Sim, gera.

Eu acho é que, no longo prazo, gera muito menos ineficiência que ter uma administração que acha normal ter mais lugares de estágio na administração pública em Lisboa que no resto do país todo junto.

A EFTA e o resto

por henrique pereira dos santos, em 21.09.22

Nota prévia: Irene Pimentel não gostou do meu post anterior, o que é compreensível porque o post está longe de ser simpático, e respondeu-me, o que gostaria de realçar como uma atitude positiva, pouco vulgar. Infelizmente respondeu sem responder, na medida em que não contestou nenhum dos factos que invoquei, e limitou-se a reafirmar um facto que eu não tinha negado, o que torna o progresso na discussão muito pouco provável.

Chamaram-me a atenção para o facto de que ter situado o período de maior crescimento e convergência dos últimos 200 anos, em Portugal, entre a adesão à EFTA e o primeiro choque petrolífero.

Não sou historiador e a utilização destes dois marcos temporais era suficiente para mim, mas percebo que alguém os leia como a minha opinião sobre uma eventual relação de causa/ efeito entre os marcos temporais que citei e o andamento do desenvolvimento económico de Portugal.

Não é o caso, nem sei o suficiente para ter opiniões definidas sobre o asunto, embora seja sensível ao facto de me fazerem notar que o período de crescimento começa uns dez anos antes da adesão à EFTA, tanto mais que há quem defenda que esse período de crescimento do país se deve à guerra e ao pós guerra, e outros que realmente enfatizam a adesão à EFTA (incluindo os anos prévios que estão associados a uma abertura económica que permitiu a adesão à EFTA).

Há também quem admita que o aumento do potencial humano propiciado pela escolarização rápida a partir dos anos 30 teria influenciado positivamente o desempenho económico do país.

Infelizmente, não me parece que os fundamentos do crescimento desse período estejam suficientemente estudados ou, pelo menos, eu não os conheço, parece-me natural que muitos factos concorram para isso e eu não os sei distinguir.

O que posso dizer, a partir da minha posição de quase leigo, é que quando fiz a minha tese - que se baseia no mapeamento de indicadores de população e produções agrícolas e pecuárias, por concelho, ao longo do século XX - reparei que depois do aumento generalizado de população em praticamente todos os concelhos do país nas primeiras décadas do século XX (apesar da emigração para o Novo Mundo, emigração que praticamente acabou com a crise dos anos 20, até meados dos anos 50, quando a emigração é retomada, agora com outros destinos), começa a haver concelhos com perda de população entre os censos de 1930 e 1940, de maneira geral os mais pobres, dos xistos centrais.

Sem ter estudado o assunto, a sensação com que fiquei foi que, fechados os destinos de emigração externa, e diminuindo o trabalho dos "ratinhos" no Alentejo e Ribatejo, em consequência da segunda vaga de mecanização da agricultura (primeiro foram as debulhadoras, no princípio do século XX, depois começaram a chegar as ceifeiras mecânicas, mais perto do meio do século XX), Lisboa era o destino desta gente, tanto mais que Lisboa estava em franco crescimento, como inúmeras obras, quer públicas, quer privadas (a figura do pato bravo, identificada com uma origem em Tomar, frequentemente, deve ter começado aqui).

É bem possível que, sendo normal começar-se a trabalhar aos 13/ 14 anos, grande parte destes que se dirigem a Lisboa já sejam letrados, e portanto constituindo um capital humano com maior potencial, mas não tenho nenhuma ideia do que isso poderia significar em impacto sobre a economia.

O que me parece, sem nenhuma base concreta para o afirmar, é que a estabilidade política, financeira e institucional pode ter desempenhado algum papel na confiança para o investimento.

Eu sei que uma parte pequenina desta historiografia anti-fascista (na verdade a ordem dos conceitos está trocada, primeiro é anti-fascista, depois é que é historiografia) insiste no papel que a repressão dos movimentos operários poderá ter desempenhado nesse investimento e desenvolvimento económico, protegendo os grandes grupos económicos. Eu, que não sou historiador, tenho as maiores dúvidas de que alguém consiga demonstrar que os movimentos operários têm um papel relevante na diminuição do potencial de crescimento de uma economia, portanto não percebo o argumento.

O que sei é que não sei por que razão o país cresce tanto, em termos absolutos e em termos relativos, algures entre os anos 50 e 70, mas sei que é uma tontice anti-científica negar o evidente crescimento económico e a melhoria generalizada das condições sociais, que ocorreu nessa altura.

Pretender que quem se limita a verificar a esmagadora evidência dos factos que corroboram esta tese está a legitimar um regime político, como se o bom desempenho de um regime ilegítimo o tornasse legítimo, não passa de um truque para manter reputações que se fizeram mais no combate político que na discussão académica, que continua a ser fortemente condicionada por esse combate ideológico em que se refugiam os beneficiários da situação.

Sem grandes esperanças

por henrique pereira dos santos, em 20.09.22

Um indigente artigo de um diplomata e escritor (assim se apresenta), e antigo Ministro da Cultura (assim o apresento eu), acaba com o seguinte parágrafo: "E pensar que, segundo o economista Nuno Palma, da Universidade de Manchester, esses anos constituíram o período mais glorioso do crescimento económico de Portugal nos últimos anos...".

É uma boa introdução para o que vou repetir, mais uma vez.

"Desde logo, acaba, não imediatamente, com as Escolas do Magistério Primário, porque as considerava o alfobre do republicanismo. Estavam, segundo ele, cheias de professores e professoras republicanos. Portanto, há aí um projeto totalizante e isso faz de tal maneira mal à educação que, nos anos 50, não há sequer professores da escola primária porque há uma destruição da sua formação a partir dos anos 30.", diz Irene Pimentel numa entrevista.

Que o primeiro acabe um artigo vagamente poético sobre as suas memórias, com um parágrafo que mais que ser verdadeiro, se quer que assinale a virtude do autor, aproveitando para distorcer o que diz Nuno Palma introduzindo ali um "glorioso", onde Nuno Palma se limita a confirmar o que é do mais alargado consenso na historiografia económica do país (que o período de maior crescimento e convergência do país dos últimos 200 anos se situa entre a adesão à EFTA e o primeiro choque petrolífero), enfim, é o que é.

Que a segunda aproveite a sua aura de historiadora para contrabandear ideias políticas, distorcendo a realidade histórica, isso é outra coisa.

Que o Estado Novo - já agora, antes dele, a ditadura militar, que também suspendeu as escolas do magistério primário, embora só por quatro meses - entendesse que era preciso liquidar a influência republicana no ensino primário e, por isso, tenha fechado as inscrições nas escolas do magistário primário, é do domínio dos factos conhecidos e das interpretações razoáveis.

A razão invocada pelo regime - o excesso de professores para o serviço que havia - é desmentida pelo próprio regime quando, quatro ou cinco anos depois, resolve publicar legislação de emergência para resolver a falta de professores com que estava confrontado, sendo por isso razoável pensar que o regime terá querido reduzir a influência política do republicanismo no ensino primário.

Da mesma forma que o regime republicano entendia o ensino primário como um instrumento poderoso de inculturação (acho que foi ao artigo de Paulo Guinote sobre os regentes escolares que fui buscar esta ideia e palavra, adequada para o que está em causa), o Estado Novo entendia que era na escola, ideologicamente formatada, que estava uma das maneiras mais eficazes para assegurar o apoio social ao regime.

Como Nuno Palma e Jaime Reis enfatizam no seu artigo "Can autocracy promote literacy? Evidence from a cultural alignment success story", será em grande parte porque os republicanos pretendiam mudar mentalidades criando uma escola que manifestamente se opunha ao consenso social, onde o Estado Novo pretendia reforçar os sentimentos sociais prevalecentes entre as pessoas comuns, que o Estado Novo teve muito mais sucesso na mobilização das famílias para que mandassem os seus filhos à escola, sem correrem o risco de virem de lá os rapazes como maus cristãos e as filhas umas perdidas (uma tia-avó minha, professora primária numa aldeia, e considerada uma fera sem coração, justificava a sua férrea disciplina com o facto de ter de ensinar o programa todo até Março, que depois entravam as regas e as sachas do milho e os miúdos desapareciam todos da escola).

Não é pois a ideia de que o ataque que o Estado novo fez às escolas do magistério primário era, em primeiro lugar, um ataque que visava o controlo ideológico do que se passava na sala de aula, que me incomoda no que diz Irene Pimentel.

O que me incomoda, sendo ela historiadora e especialista neste período da história, é que diga uma barbaridade como esta: " isso faz de tal maneira mal à educação que, nos anos 50, não há sequer professores da escola primária porque há uma destruição da sua formação a partir dos anos 30".

E incomoda-me porque é uma rotunda mentira e não há maneira de Irene Pimentel não saber que está a mentir, provavelmente por cegueira política.

Tirando os tais quatro meses da ditadura nacional em que estas escolas estiveram fechadas, há um período entre 1936 e 1942 em que as inscrições nestas escolas não existem, o mesmo é dizer que as escolas estão fechadas.

Mas, ao contrário do que diz Irene Pimentel, isso não se traduz numa escassez de professores nos anos 50, porque o regime fez duas coisas essenciais para o que veio a ser o desbloqueio da escolarização generalizada das crianças, coisa que nunca tinha sido conseguida.

Por um lado, em 1940, lança mão de um modelo excepcional de contratação de professores, que diminui a exigência para o exercício da profissão, é certo, que diminui os custos para o Estado porque os regentes escolares não ganham o mesmo que os professores, é certo, garante o controlo político dos escolhidos, é certo, mas que permite a contratação de mais de mil "professores", grande parte dos quais em regiões do país em que não havia escolas, isto é, garantindo uma maior capilaridade no ensino do básico: ler, escrever e contar.

E logo em 1942 reabre o ensino do magistério primário, reduzindo a formação de três para dois anos, o último semestre dos quais já leccionando debaixo da supervisão de um professor.

Do sistema anterior, que vai permanecer como provisório muitos anos, é verdade, mas crescentemente mais exigente (ver Paulo Guinote "O Lugar da(o)s Regentes Escolares na Política Educativa do Estado Novo: Uma Proposta de Releitura (anos 30–anos 50, que beneficia muito da tese de Ana Paula Rias, que não li por não a encontrar na internet, embora tenha lido, com proveito, "O ensino em discurso feminino, o caso singular das regentes escolares", que esse sim, se encontra facilmente na net), retêm-se os exames de admissão e de Estado, que garantem uma exigência mínima - e crescente - para o provimento dos lugares.

É impossível que Irene Pimentel, que sabe que as matrículas foram suspensas em 1936, não saiba que foram reabertas em 1942 e que o número de professores e de regentes escolares, nos anos 50, era muito maior que nos anos 30 e que a eventual escassez não se devesse ao facto de, finalmente, o país ter quase todas as suas crianças em idade escolar onde deviam estar: na escola.

Como muito bem diz Paulo Guinote, "Muitos investigadores e autores tendem a aceitar muito rápida e acriticamente o valor retórico, facial, do discurso legislativo como a realidade efectiva das coisas, quando sabemos que existem importantes desfasamentos entre o que é postulado no aparato legislativo e o que é depois levado à prática, num processo em que os diplomas originais vão sendo adaptados progressivamente, à medida que as circunstâncias concretas exigem que a vontade política ceda, em maior ou menor escala, perante a realidade."

A questão central é que não são só "os investigadores e autores" que têm uma marcada preferência pelo discurso, em detrimento da avaliação da acção: esse é um traço distintivo da nossa sociedade.

Um bom exemplo é uma recente troca de argumentos entre Alexandra Leitão e Carlos Guimarães Pinto sobre cortes: Alexandra Leitão diz que há uma diferença muito grande entre ganhar 1000 e passar a ganhar 950, isso é um corte, ou haver inflação, não havendo corte, e Carlos Guimarães Pinto contra-argumenta que a diferença é meramente estética: uma inflação de 10% põe os 1000 a valer 900, portanto um aumento nominal de 5% é, em termos reais, um corte semelhante ao descrito por Alexandra Leitão, num cenário sem inflação (não me macem com os 10% ou 5% não darem exactamente os números redondos que citei, para o caso é igual e escusam de fazer a demonstração de como o acessório dito é mais importante que o essencial feito, para muita gente).

Vai demorar muito tempo até que os historiadores (e o resto das elites) que dão mais importância à sua sinalização de virtude anti-fascista saiam da frente e deixem de travar o aumento do conhecimento da realidade que, por não ser preto e branco, às vezes não cabe nos seus preconceitos.

Como a estafada mentira de que analfabetismo e a pobreza são resultados voluntários e prosseguidos politicamente pelo regime salazarista, com êxito, como forma de controlo social.

Louçã e o povo

por henrique pereira dos santos, em 15.09.22

Francisco Louçã escreveu qualquer coisa comparando Godart e Isabel II.

Qualquer pessoa comum, qualquer pessoa do povo, facilmente esquece o que escreveu Louçã, de tal forma é evidente a sua cabotinice.

O que me interessa é notar, pela enésima vez, que os mais vocais defensores de que é "o povo que mais ordena", são frequentemente os menos capazes de reconhecer o que é povo, olhando para os funerais de Godart e Isabel II.

Louçã não tem dúvidas: "Para o que interessa, que é a cultura, ou o que nos faz partilhar a vida, as ilusões, os encantamentos, as nostalgias, a esperança e a realidade, é de Godard que nos vamos lembrar. E essa memória e respeito pela obra será a homenagem que nenhum poder dinástico jamais alcançará."

Aquele "nos", aquela ideia de "partilhar", diz respeito ao grupo de Louçã, aos que pensam como Louçã, aos que sentem como Louçã, aos que que se encantam como Louçã, não há, nessa ideia de colectivo de que Louçã se reclama, a mais ténue sombra do povo.

Enxurradas e erosão

por henrique pereira dos santos, em 14.09.22

A propósito das enxurradas destes últimos dias e, em especial, da que provocou prejuízos sérios numa aldeia de Manteigas, acabei metido numas discussões sobre fogos, erosão, enxurradas e afins.

Essencialmente o que procurava explicar, nessas discussões, é que a gestão de enxurradas, cheias repentinas e etc., era essencialmente um problema de hidráulica, que convém não ser confundido com a gestão do solo.

Em grandes bacias hidrográficas, a cobertura do solo faz muita diferença na gestão das grandes cheias, essencialmente por retardarem a chegada da água aos pontos críticos, permitindo "achatar a curva" (que prazer que me dá usar esta expressão neste caso) e reduzir o pico de cheia.

As grandes cheias não resultam de uma chuvada especialmente intensa num curto espaço de tempo, como acontece nas enxurradas características das bacias torrenciais, em que as cheias são quase repentinas, com uma capacidade de transporte enorme, mas muito rápidas e curtas.

As grandes cheias resultam de precipitações acumuladas ao longo de um tempo relativamente longo em que o que chove é mais que o que se infiltra no solo ou se encaixa em zonas de alagamento.

Na gestão das grandes cheias, a gestão da bacia hidrográfica é relevante, quer para gerir a velocidade de escoamento criando rugosidades, obstáculos e derivações, quer para gerir a capacidade de encaixe, através de zonas que podem alagar, sem prejuizo, armazenando água que depois é libertada fora do risco de cheia.

Claro que há limites para a criação desta capacidade de encaixe, em especial se o período de chuva for suficientemente prolongado para ir enchendo os "depósitos", e depois sobrevier uma precipitação intensa, os depósitos, estando cheios, não desempenham a função de encaixe.

Só que, numa enxurrada, tudo de passa de forma mais intensa e mais rápida, em bacias hidrográficas com fraca capacidade de encaixe.

Nestas circunstâncias, o revestimento do solo da bacia hidrográfica só tem relevância até ao seu ponto de saturação, que é atingido muito rapidamente, se a chuva for mesmo intensa (e a velocidade de infiltração é sempre baixa, em relação ao que chove, portanto pode ser descartada nas contas que pretendem medir o risco).

Os obstáculos e a rugosidade, que são úteis nas grandes cheias para "achatar a curva" dos caudais, têm aqui uma relevância menor e podem ter o efeito contraproducente se o efeito de retenção não for suficiente para impedir o movimento descontrolado da água, visto que esses obstáculos (árvores, arbustos, edifícios, postes, infraestruturas, carros, etc.) podem ser incorporados na enxurrada, tornando-a ainda mais destrutiva.

Foi isto que se passou na aldeia de Sameiro, e passar-se-ia, provavelmente, com ou sem fogos a montante (talvez houvesse diferenças marginais, que duvido que alterassem o resultado final, que dependeu essencialmente de uma chuvada muito intensa e curta, a que se somou o bloqueio do canal de escoamento, por más opções urbanísticas).

Questão muito diferente, gerida por factores completamente diferentes, é a da erosão do solo.

Há uma equação universal de perda do solo (está sempre em discussão e vai sendo alterada aqui e ali), sobre a qual se pode ter aqui uma visão equilibrada, da wikipedia. Há outros factores que provocam erosão do solo, mas o mais relevante, para a generalidade das situações socialmente relevantes, é a água e esta equação diz respeito à erosão provocada pela água, apesar de se chamar universal.

Como se pode ver com mais pormenor na página para que fiz ligação, há seis factores, na equação e o objectivo da equação é estimar a perda média anual de solo num determinado local, coisa completamente inútil para a discussão de enxurradas e seus efeitos.

A gestão do solo, uso do solo e técnicas usadas, que inclui o efeito dos fogos sobre o coberto vegetal, apenas influencia dois dos seis parâmetros e, mesmo assim, com elevadas incertezas que obrigam a que os seus valores sejam determinados empiricamente (com certeza há aproximações que simplificam a sua aplicação).

Os grandes fogos de Verão, nas nossas condições - não confundir com os fogos controlados, cujos efeitos são substancialmente diferentes -, são um problema sério do ponto de vista económico e social, mas são relativamente pouco impactantes do ponto de vista ambiental - cuidado com esta generalização, os efeitos do fogo variam muito em função das circunstâncias concretas em que ocorre o fogo -, com duas relevantes excepções: 1) o seu papel na expansão de espécies invasoras pirófitas, como acácias e háqueas, para citar as mais preocupantes; 2) a calcinação da matéria orgânica do solo, com o consequente atraso na regeneração do solo.

Há duas razões principais que me levam a não considerar a erosão do solo como um problema ambiental maior decorrente dos fogos do Verão: 1) À escala da paisagem, grande parte da erosão que se verifica em algumas encostas alimenta a acreção das zonas de acumulação, contribuindo para uma maior recuperação dos solos nessas áreas; 2) Mais importante, para que haja perda de solo relevante, é preciso que haja solo, e as áreas mais susceptíveis à erosão, em que ocorrem incêndios, são áreas de solos esqueléticos sem qualquer perda relevante possível de um solo que não existe.

Misturar os problemas decorrentes das enxurradas (que são problemas de curto prazo que se prendem apenas com a capacidade de encaixe de bacias hidrográficas torrenciais e os erros de ocupação de solo que ignoram o poder destrutivo das enxurradas - porque são fenómenos que ocorrem com muitos anos de intervalo, é fácil esquecer) com a gestão do solo e da erosão (e a necessidade de investir no aumento de matéria orgânica nos nossos solos - daí a necessidade de transferir os fogos de Verão, terríveis para a matéria orgânica do solo, para fogos de Outono/ Inverno/ Primavera, inócuos para a matéria orgânica do solo), é misturar alhos com bugalhos.

Daí não viria mal ao mundo se esta falta de cultura de gestão da paisagem não se traduzisse em políticas erradas e desperdício permanente de recursos, nomeadamente na repetição dos mesmos erros, ano, após ano, após ano.

As cheias e o pensamento mágico

por henrique pereira dos santos, em 13.09.22

O Senhor Presidente da Câmara de Manteigas é um jovem evidentemente empenhado e com uma enorme qualidade: presta contas publica e frequentemente.

É de um post deste senhor Presidente de Câmara a fotografia da aldeia de Sameiro depois da enxurrada desta noite.

306967384_181612211096604_8396009308833283914_n.jp

Sem surpresa, algumas pessoas que discordam de mim, chamaram-me a atenção para o post que relata o que sucedeu esta noite na aldeia de Sameiro, Manteigas, aparentemente para contestar um post que eu tinha feito, em 13 de Agosto, lamentando que o Observador desse voz a completos ignorantes nos assuntos sobre os quais falavam.

Em concreto, lamentava que com jornalismo assim e pérolas como esta "“Quando olho para o meu concelho vizinho, Manteigas, com aqueles encostas íngremes que arderam, se não forem colocadas barreiras ao longo daquelas encostas, a vila de Manteigas vai ser soterrada, com toda a matéria, com toda a água, com toda a terra, com toda a pedra, com toda a madeira, que for arrastada por aquelas encostas abaixo”, alertou Luís Tadeu, presidente da Comunidade Intermunicipal das Beiras e Serra da Estrela.", fosse impossível discutir serenamente assuntos sérios e complexos.

Na opinião dos meus amigos que me chamaram a atenção para a publicação do Senhor Presidente de Câmara de Manteigas - que é uma publicação factual, sem grandes considerações, dizendo, erradamente, que as imagens da cheia repentina na aldeia dispensam comentários - as fotografias do sucedido na aldeia de Sameiro demonstrava que eu não tinha razão e o Senhor Luís Tadeu tinha, pelo menos parcialmente, razão.

Como acho que as fotografias da cheia urbana rápida da aldeia do Sameiro não dispensam comentários, aqui vão os meus comentários.

1.jpg

Esta é uma imagem do Google Earth que mostra, com clareza suficiente, a posição topográfica da aldeia de Sameiro, sendo evidente que está na embocadura de uma ribeira, provavelmente torrencial.

Esta localização é perfeitamente justificada: o arrastamente de sedimentos pela ribeira diminui quando o vale se alarga, permitindo a acumulação de solo - a erosão é um processo que se relaciona com a acreção, uma verdade simples, frequentemente ignorada - que a mão do homem aproveitou e enriqueceu com estrume e a gestão adequada da água da ribeira.

2.jpg

Quando se aproxima a imagem no Google Earth, o que se torna evidente é que a ocupação urbana tradicional evitou sempre fechar o escoamento do vale - são muitos anos a ver as cheias passar - e o largo tradicional da aldeia, visível por ser onde se localiza a igreja, está na enconsta sobranceira aos campos agrícolas e longe do canal de escoamento das enxurradas.

Há dois núcleos urbanos (não recorri ao google street para tentar perceber épocas de construção, por me parecer suficiente perceber que há dois núcleos de cada lado do canal de escoamento das enxurradas, mas refiro que não investi grande coisa na confirmação do que estou a dizer neste ponto, por não me parecer necessário), separados pelo canal de escoamento da água e que, evidentemente, não ocupam leitos de cheia, quer porque aí se localizam os terrenos mais férteis, quer porque é desagradável ver património ir por água abaixo, para dizer o mínimo.

Pois bem, mais recentemente, alguém achou por bem ter um parque desportivo mesmo no caminho da enxurrada e aumentar as linhas de circulação urbana, estradas e caminhos, por cima da ribeira, acontecendo o que acontece sempre, sempre, nestas circunstâncias: quando há uma precipitação anormal, no sentido em que não ocorre todos os anos, mas normal no sentido em que é possível que ocorra a cada cem anos, foi tudo à frente da enxurrada, carros, campos desportivos, árvores, troncos, etc..

Argumenta-se que a área ardida a montante é a causa desta enxurrada.

Mas este argumento não é verdadeiro, a razão para o que sucedeu em Sameiro é uma precipitação muito elevada num curto espaço de tempo (a Guarda registou 20 mm numa hora entre as quatro e as cinco da manhã e a estação da Quinta da Lajeosa regista o mesmo, uma hora antes) e uma errada gestão urbana que desvaloriza este tipo de fenómenos meteorológicos recorrentes, pouco frequentes, mas recorrentes.

Dizem alguns dos meus amigos que se a bacia hidrográfica da aldeia estivesse com matas maduras de folhosas autóctones isto não sucedia e que é uma evidência que entra pelos olhos dentro o facto de não ser indiferente ter um carvalhal maduro com dois palmos de solo saturado de matéria orgânica ou ter uma área ardida.

Este tipo de argumentação corresponde exactamente à argumentação dos que entendiam que não valia a pena olhar para as contas de Copérnico porque é uma evidência que entra pelos olhos dentro que é o Sol que anda à volta da Terra.

Se se fizerem as contas à quantidade de água que cai num episódio de chuva como o que aconteceu, num curto período de tempo, à velocidade de infiltração no solo (curiosamente, ao fazer-se notar que um solo com maior teor de matéria orgânica tem uma velocidade de infiltração mais baixa que um solo arenoso, não é impossível levar de volta com argumentos que incluem o deserto do Sahara) e à capacidade de intercepção da copa de uma árvore, rapidamente se percebe que ao fim de dez minutos, um quarto de hora, a água que escorre é alguns 90%, pelo menos, da água que cai, sendo portanto bastante irrelevante ser uma área queimada ou um carvalhal maduro que está a montante.

É por isso que a abordagem ambientalista deste assunto se deve focar no respeito pelos canais de escoamento de precipitações que ocorrem uma vez em cada cem anos (ou no tempo de retorno que se quiser escolher, desde que suficientemente longo), na não ocupação de leitos de cheia com usos que geram perdas quando a cheia ocorrer e na criação de bacias de retenção de água a montante.

No actual jardim da Praça de Espanha, em Lisboa, pode ver-se um modelo de intervenção deste tipo, é apenas um jardim, com certeza, mas é um jardim que sabe que cheias haverá sempre e usa o facto de ser um jardim para contribuir para a gestão da cheia na cidade.

Infelizmente a ideia que vai prevalecer é a de que o se passou na aldeia de Sameiro resultou de ter havido um fogo e não se terem executado medidas de emergência pós fogo suficientes.

E, com base nessa ideia, errada, vão-se definir políticas de gestão do território ineficientes, continuar a pôr trambolhos no percurso de ribeiras torrencias e a ocupar leitos de cheia com usos indevidos para essa localização.

Estranhamente, com o apoio de grande parte do movimento ambientalista.

"Comam brioche"

por henrique pereira dos santos, em 12.09.22

A famosa frase "Se não têm pão, comam brioche", quase 230 anos depois de Maria Antonieta perder a cabeça, continua a ser-lhe atribuída, por muito boa gente instruída e de boa-fé, apesar de estar hoje mais que demonstrado que não há o menor indício sólido de que tenha usado esta frase, usada por Rousseau uns bons anos antes dela ser rainha (provavelmente uma boa piada inventada por ele).

Mais de 260 anos depois do Marquês de Pombal ter reduzido a população escolar do país em 90%, os livros escolares continuam a descrever a sua acção na área da educação como inovadora, renovadora e globalmente muito positiva.

Quase 50 anos depois da queda do Estado Novo, é quase uma heresia falar objectivamente do grande progresso que se verificou nos rendimentos per capita, na saúde, na educação, no desenvolvimento tecnológico, na melhoria das cidades, no enriquecimento da alimentação, e mesmo na segurança social, durante os quase cinquenta anos desse regime, havendo um evidente desfasamente entre a historiografia séria sobre o assunto, e a realidade social e mediática, em que pessoas como Nuno Palma são selvaticamente atacadas por escreverem coisas objectivas e verificáveis sobre esse período da história.

Não tenho, por isso, qualquer esperança de ver algum equilíbrio na forma como a opinião publicada, e comentários avulsos, falam do período de Cavaco e muito menos sobre o tempo de Passos Coelho, achando normal que haja quem minta sistematicamente sobre esses períodos - Ana Catarina Mendes terá dito, na Assembleia da República, não no tasco da esquina, que aos pensionistas foram retirados dois subsídios, no tempo de Passos Coelho, mas o que li sobre isso não me permite dizer que verifiquei o que de facto disse, sendo certo que a ideia geral de como fala sobre este período é esta.

Ana Sá Lopes, num artigo a defender a taxação de lucros inesperados das empresas associados ao aumento de preços - omitindo que, pelo menos no caso português, o maior receptor de receitas extraordinárias e não previstas decorrentes desta situação é o Estado -, exemplifica primorosamente o estado das coisas, em matéria de leitura do passado recente.

"O Governo está preocupado com as "contas certas", um slogan que lhe permitiu a consolidação no poder por oposição àquilo que a direita chamava o "despesismo" de José Sócrates (ignorando que foi a própria Comissão Europeia que consensualizou o "despesismo", ou seja, o investimento público como primeira resposta à crise financeira de 2008 - e depois virou o bico ao prego)."

Este parágrafo é tão extraordinário como considerar que quem diminuiu e população escolar em 90% é o grande renovador da educação em Portugal.

Primeiro Ana Sá Lopes considera o equilíbrio orçamental e a prudência no uso de dinheiros públicos como um slogan.

Depois considera que o despesismo de José Sócrates não existiu, era uma mera acusação da direita.

Depois de considerar que esse despesismo era uma mera acusação da direita, diz que esse despesismo que não existiu foi consensualizado pela União Europeia, sob a forma de investimento público como resposta à crise de 2008.

Depois considera, implicitamente, que não existe investimento público bom e mau, se é para gastar, não há despesismo, seja qual for o destino escolhido para esse tal investimento público.

Por fim, e é aqui o cerne da questão, considera, implicitamente, que a União Europeia virou o bico ao prego, tramando Sócrates, não pondo sequer a hipótese de que tenha "virado o bico ao prego" por muitas e boas razões que Sócrates não quis ouvir.

Tantos anos passados, Ana Sá Lopes ainda está perfeitamente convencida de que o governo de Sócrates foi um excelente governo, tal como, provavelmente, acha que reduzir em 90% a população escolar se justifica perfeitamente, porque a educação dos jesuítas era proselitista, e isso era péssimo para o país.

Antes analfabetos que instruídos por jesuítas é um princípio central do país que convém manter vivo e aplicar em toda a sua extensão, até porque deu muito bons resultados.

"Matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem"

por henrique pereira dos santos, em 11.09.22

Uso muito esta frase de Caetano Veloso, enquanto era intensamente vaiado num festival de música.

A estação meteorológica da Guarda já registou, há uns dias, pouco mais de sete milímetros de chuva.

Nos próximos três dias (o tempo em que as previsões meteorológicas têm um mínimo de fiabilidade) está previsto mais alguma chuva, e nos dois dias seguintes é natural que ainda possa haver mais qualquer coisa de precipitação.

E, no entanto, anda gente muito atarefada a exigir, a desenhar, a projectar e, um dia, executar, medidas de emergência pós fogo porque, dizem, se não se fizer nada, vai ser um desastre de erosão e arrastamente de solos.

Com certeza, depois de um fogo como que ocorreu, em algumas lados com bastante intensidade, foi calcinada muita vegetação, e portanto o solo está coberto de cinzas e carvões, que em algumas circunstâncias formam uma camada impermeável sobre o solo, dificultando a penetração da chuva e favorecendo a escorrência.

Alguns desses carvões e cinzas irão ser arrastados com as chuvas, com certeza (o arrastamento de solo é menos óbvio, depende muito das características das primeiras chuvas)

Mas, e essa é a questão central, a natureza não está morta, isso só acontece com as maçãs do Cézanne, a natureza prossegue o seu caminho e já hoje são visíveis os rebentos de pé de castanheiros e carvalhos, os que, tendo reservas e estando programados para isto, não precisam de esperar pela chuva.

Com esta chuva que no prazo de uma semana vai entrar em cena (e a que já ocorreu na semana passada) tudo o resto vai reagir e a cobertura do solo vai deixar de ser só carvões e cinzas, como nos sítios em que o incêndio teve maior intensidade (há muitos outros em que há muito mais coisas a cobrir o solo), passando a ter também vegetação que, por sinal, tende a diminuir o efeito de impermeabilização de que falei em cima.

Ou seja, quando as medidas de emergência chegarem ao terreno, provavelmente vão ser úteis num pequeno número de situações, vão estragar mais que ajudar noutro pequeno número de situações, e serão dinheiro deitado à rua na maior parte das situações - há anos, não me lembro se Paulo Fernandes, se José Miguel Cardoso Pereira, mandaram-me uma avaliação dos serviços florestais americanos sobre a eficácia das medidas de emergência pós fogo e as conclusões eram estas que acabei de escrever.

Não fazer nada, esperar pela resposta da natureza, salvo em situações muito específicas em que a instabilidade geológica possa favorecer o deslizamento de terras, é, de maneira geral, a coisa mais sensata a fazer, mas a fazer alguma coisa, era até hoje, de hoje para a frente, continuar a falar de medidas de emergência pós fogo, não faz o menor sentido, do que precisamos é de medidas de gestão da regeneração natural e de modelos de gestão sustentáveis, incluindo do ponto de vista económico, para os próximos 15 anos, quando é natural que ocorra um novo fogo (mais ano, menos ano, que isto não é matemática).

Pode haver dúvidas sobre o que escrevi.

Seria fácil resolvê-las, se alguém tivesse avaliado o resultado dos milhões gastos com a mesma lógica, em 2017 (e nos outros anos de maior área ardida), só que não há.

É pena.

Oliveira da Figueira

por henrique pereira dos santos, em 08.09.22

Senhor Primeiro Ministro, a inflação vai ter um impacto brutal nas contas públicas, primeiro positivo, por aumento do IVA e dos impostos sobre o trabalho, desde que, por exemplo, não se mexa nos escalões do IRS, mas depois muito negativo por via dos mecanismos automáticos do cálculo das pensões.

Senhor Ministro, quer isso dizer que temos folga agora e temos um problema no futuro que afecta um dos nossos principais grupos de votantes?

Exactamente, Senhor Primeiro Ministro.

Senhor Ministro, vamos então fazer o seguinte: damos agora uma parte da folga que temos este ano senhor .

Tem de ser em coisas com impacto, por exemplo, não podemos fazer um desconto no IRS, que é uma coisa que se vê mais tarde, as pessoas percebem mal e, além disso, não é sentido por metade dos portugueses que não pagam IRS.

Senhor Primeiro Ministro, isso é fácil, é dar uma bolada de uma só vez, em cheques com a sua assinatura.

Bem visto senhor Ministro, fazemos então isso, e dizemos que é para compensar a perda de poder de compra em 2022.

Senhor Primeiro Ministro, parece-me bem para os que estão no activo.

E até nos ajuda na negociação dos aumentos salariais da função pública, em 2023. Vamos dizer que não é preciso compensar a perda de compra de 2022, e portanto discutir a inflação de 2022 na negociação dos aumentos, porque isso foi resolvido com a tal bolada que vamos dar agora, em Outubro, e partimos da discussão da inflação de 2023, que como é uma previsão, podemos sempre prever com um bocadinho de jeito.

O problema, Senhor Primeiro Ministro, é que isso não nos resolve o problema dos pensionistas e vai ser muito difícil discutir aumentos de 3 a 4% nos ordenados quando as pensões vão ter um aumento de 7 a 8%.

Resolve-se já, senhor Ministro, damos já em Outubro metade do que teríamos de dar em 2023, até porque temos folga, podemos até argumentar que estamos a beneficiar as pessoas porque antecipar pagamentos em tempos de inflação é benéfico para quem recebe.

E como já demos em Outubro, podemos alinhar o aumento das pensões para as percentagens que estamos a pensar dar de aumento de ordenado dos activos.

Senhor Primeiro Ministro, mas isso significa que não estamos a compensar os pensionistas pela inflação de 2022!

Tanto tempo a trabalhar comigo e não aprende, senhor Ministro? As pessoas vão receber agora dinheiro vivo, vão receber um aumento numa percentagem que é maior que o que tem sido nos últimos anos, e você acha que se vão pôr a pensar no facto de não estarem a ser compensados pela inflação de 2022, ao contrário do que acontece aos que estão no activo?

Bem visto, senhor Primeiro Ministro, mas isso significa que os pensionistas vão ficar prejudicados em 2024 e anos seguintes, visto que baixámos a base de cálculo.

Dizemos que essas previsões têm a credibilidade da previsão do Diabo que vinha aí e, sobretudo, fica toda a gente a discutir o eventual prejuízo de 2024 e anos seguintes - e nós dizemos que os portugueses nos conhecem e sabem que nunca faríamos cortes nas pensões como o Passos - e já ninguém vai discutir o facto das pensões terem perdido 7% do poder de compra em 2022, sem que haja um cêntimo de compensação, ao contrário do que estamos a fazer aos do activo.

Até porque como vamos pagar uma coisa extraordinária a todos, em Outubro, ficam convencidos de que estamos a tratar todos de forma mais ou menos igual.

Senhor Primeiro Ministro, acho que isso não vai passar assim tão facilmente, toda a gente vai rapidamente perceber a moscambilha.

Óptimo, vão todos estar a chamar-me trapaceiro e a discutir as perdas dos pensionistas em 2024, sem que haja um único que perca tempo a fazer notar que os pensionistas foram ludibriados já em 2022, ao ficarem de fora do pacote de resposta à inflação.

Trabalhar para vos alimentar

por henrique pereira dos santos, em 06.09.22

Por estes dias, li o livro de Carlos Neves, "Desconfinar a agricultura".

Não se deixem enganar pelo título do livro - percebo-o, depois de ler o livro, mas não o acho feliz - e suponho que terão gosto em o ler.

Carlos Neves é um produtor de leite - na opinião de uma leitora do Observador, não é um produtor de leite nenhum, é um chulo de vacas, que elas é que produzem leite - e é sobre o seu dia a dia que escreve.

Eu gosto muito destes livros sobre nada e coisa nenhuma, sobretudo quando me ajudam a ver mundos que me interessam, mas de que estou distante (não sei bem porquê, mas lembrei-me das Memórias da Condessa de Mangualde, que li com gosto igual, pelas mesmas razões).

Conheci há tempos Carlos Neves.

Leu, ou ouviu, uma das minhas habituais diatribes contra o facto do dinheiro para o mundo rural ser gasto com fileiras que deveriam resolver os seus problemas no mercado, em vez do dinheiro dos contribuintes ser gasto a pagar os serviços que muitas actividades prestam à sociedade sem que seja possível (ou, pelo menos, fácil), mercantilizá-los, atribuir-lhes um preço e encontrar consumidores disponíveis para os pagar.

Como é muito frequente, falo do sector do leite (intercalando com a suinicultura intensiva) como bom exemplo de fileira que nunca (ou raramente) deveria receber apoios públicos dos dinheiros do mundo rural.

E foi para contestar a minha diatribe contra a produção de leite - na verdade a diatribe é contra o uso dos dinheiros dos contribuintes para manter o preço artificialmente baixo dos alimentos - que Carlos Neves me convidou para ir visitar a sua exploração, em Vila do Conde, o que aceitei imediatamente (repito-me, gosto muito de entrar pelo mundo dos outros, para ver se o meu se alarga).

Um verdadeiro senhor, afável, com uma capacidade de comunicação muitíssimo boa, lá me fez andar ali pela sua exporação e por outras, ligadas à agricultura intensiva, para eu perceber melhor como se trabalhava para nos alimentar a todos.

Devo dizer que, independentemente de ter gostado muito da visita e de Carlos Neves - ele não se esqueceria de incluir a família que está omnipresente no livro e no seu dia a dia, e que também conheci -, continuei convencido que o sector do leite tem é de se organizar para ser justamente pago pelo produz, pelos consumidores, e não há razão nenhuma (há poucas, e muito específicas, para traduzir mais rigorosamente o meu ponto de vista) para que os contribuintes estejam a subsidiar os bens alimentares que têm mercados e procuras sólidas.

O livro já me foi útil, numa sessão recente sobre sustentabilidade no sector primário, para lembrar que se é verdade que o retrato que se faz dos agricultores em Portugal - envelhecidos, descapitalizados, com pouca inovação, etc. - tem suporte estatístico, mas esse suporte estatístico só é válido quando a unidade de medida é o agricultor.

Quando é a produção, isso não é assim, porque ao lado de muitos desses agricultores que correspondem ao retrato robot que corresponde à percepção pública do agricultor em Portugal (e que não é assim tão verdadeiro, mesmo tendo algum suporte estatístico), há outros agricultores, como Carlos Neves, em que cada um destes produz o mesmo que cem dos outros.

Estes são agricultores modernos, apoiados tecnicamente, que fazem muito bem contas - pretender que problemas como a aplicação de azoto em excesso se resolve com campanhas de esclarecimento junto dos agricultores é partir do princípio de que os agricultores não fazem contas ao dinheiro e não avaliam permanentemente a sua actividade para saber como podem cortar custos de factores de produção cujo preço tem vindo a subir enormemente, sem que o preço dos seus produtos finais acompanhe essa subida, isto é, que não são os agricultores os principais interessados em saber como se produz de forma mais eficiente - e são estes agricultores os que, de facto, enchem as prateleiras dos supermercados.

Não vale a pena procurarem o livro na feira do livro - trouxe ontem caçadores, camponeses e energias fósseis, de Ian Morris, para isso a feira do livro é boa e também ajuda a perceber pessoas como Carlos Neves - porque é uma edição de autor e por isso têm mesmo de o pedir a Carlos Neves (um blog que vale a pena https://carlosnevesagricultor.blogs.sapo.pt/) através deste endereço de correio electrónico: carlosneves74@sapo.pt

Aproveito para dizer que, para quem tem facebook, a página Carlos Neves Agricultor, é mais actualizada que o blog.

Vão por mim, é um livro muito fácil de ler e em que se aprende bastante (excepto a senhora que acha que produtoras de leite são as vacas, Carlos Neves é só o chulo delas, porque para pessoas assim não há qualquer esperança de redenção que não passe por um epifania para a qual este livro, um livro tranquilo e nada proselitista, não está talhado).

O Público (que vive da caridade da família Azevedo)

por henrique pereira dos santos, em 05.09.22

Fizeram-me chegar uma coisa extraordinária, um curso da Academia Público "A qualidade e rigor a que está habituado, agora em cursos online. O PÚBLICO em parceria com as mais conceituadas instituições de ensino portuguesas, criou a ACADEMIA PÚBLICO", como o Público define a sua academia.

O curso é sobre "O Século XX português, Ponto de vista da história dos quatro regimes políticos" e a conceituada instituição de ensino a que a Academia Público recorre, neste caso, é a Academia do Tinteiro (eu tenho uma certa tendência para a ironia, mas neste caso é mesmo assim), uma coisa da editora Tinta da China, tanto quanto percebi.

Por extenso, e nas próprias palavras: "Este curso debruça‑se sobre o século xx português do ponto de vista da história dos quatro regimes políticos que o atravessaram, da evolução económica do país, das transformações sociais que conheceu, da «aventura das mulheres» na longa luta pelos seus direitos, do processo das mudanças sociais e, finalmente, do pesado lastro deixado pelo passado colonial. Três ideias essenciais perpassam o conjunto da obra: a persistência da desigualdade, o papel central do Estado e das políticas dominantes na produção e reprodução da oligarquização económica, social e cultural e o peso ideológico do colonialismo enquanto passado e presente".

E quem é o corpo docente deste curso que pretende ser o ponto de vista da história sobre o século XX português?

Fernando Rosas (do Bloco de Esquerda e com um trabalho académico que ninguém reconhece fora das fronteiras de Portugal, para não dizer fora das fronteiras do seu grupo social), Francisco Louçã (do Bloco de Esquerda e cujo trabalho académico no domínio da história é desconhecido, até pelo seu grupo social), João Teixeira Lopes (do Bloco de Esquerda, sociologicamente académico de sociologia, sem trabalho histórico relevante, fora do seu grupo social), Miguel Cardina (do Bloco de Esquerda, historiador, mestre em utopias e doutorado em qualquer coisa), Luís Trindade (companheiro de investigação de Fernando Rosas e colaborador do Esquerda.net, historiador de cenas) e Andreia Peniche (cabeça de lista pelo Bloco e especialista em género).

De uma coisa o Público não pode ser acusado: o jornal bem avisa que os cursos da academia do Público estão em linha com "A qualidade e rigor a que está habituado" no jornal.



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • jose

    Meu caro, a sua ignorância, felizmente, não é cont...

  • Anónimo

    Jorge de Sena era um pária que escarrou na Pátria ...

  • Carlos Sousa

    Como é que uma pessoa que nunca viveu em Monarquia...

  • balio

    Obrigado por informar. Eu não sabia.

  • Anónimo

    Subscrevo.Este é o Tempo de júbilo dos cínicos : e...


Links

Muito nossos

  •  
  • Outros blogs

  •  
  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2022
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2021
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2020
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2019
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2018
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2017
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2016
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2015
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2014
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2013
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2012
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2011
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2010
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2009
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D
    183. 2008
    184. J
    185. F
    186. M
    187. A
    188. M
    189. J
    190. J
    191. A
    192. S
    193. O
    194. N
    195. D
    196. 2007
    197. J
    198. F
    199. M
    200. A
    201. M
    202. J
    203. J
    204. A
    205. S
    206. O
    207. N
    208. D
    209. 2006
    210. J
    211. F
    212. M
    213. A
    214. M
    215. J
    216. J
    217. A
    218. S
    219. O
    220. N
    221. D


    subscrever feeds