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As fontes, sempre as fontes

por henrique pereira dos santos, em 18.04.18

Sobre toda a conversa à volta das peças que a SIC tem vindo a passar sobre o processo Marquês parece-me que vale a pena realçar um aspecto que não tenho visto por aí.

Os jornalistas têm a obrigação de proteger as suas fontes, em especial quando existe risco real para a fonte (por exemplo, o que denuncia um esquema mafioso e, por isso, corre o risco de ser assassinado pela organização mafiosa que denuncia).

Questão diferente é usar fontes anónimas com interesse directo nas peças a apresentar.

Os jornalistas sabem perfeitamente quem lhes deu acesso aos videos dos interrogatórios e sabem também que a sua divulgação é ilegal, mesmo não estando o processo em segredo de justiça.

Argumentar com o interesse público não faz sentido, tudo o que está nos videos divulgados está no processo e nem sequer é matéria nova.

Interesse público, que neste caso é oposto ao interesse do jornalista, é saber quem está a dar acesso dos jornalistas a peças processuais cuja divulgação é proibida (por boas razões, não se divulgam imagens de pessoas captadas sem que à sua captação as pessoas se possam opôr, em especial em situações de fragilidade como são sempre, sempre, interrogatórios judiciais).

Compreende-se que os jornalistas e a estação de televisão tenham interesse em não queimar as fontes, explicando tim-tim por tim-tim quem está a tentar manipular a opinião pública desta forma-

Mas para as pessoas comuns o verdadeiro interesse está em saber se estamos perante uma justiça venal, que troca peças processuais por qualquer tipo de vantagem, se estamos perante uma justiça que desiste de demonstrar a sua razão em tribunal e tenta ganhar o processo na opinião pública, ou se estamos perante um arguido e respectivos advogados que não hesitam em fazer-se de sonsos divulgando ilegalmente peças processuais para procurarem minar a legitimidade e credibilidade do sistema de justiça que os pode condenar.

Esse é o único verdadeiro interesse público nesta história toda e os jornalistas e respectiva estação de televisão preferem abdicar da sua responsabilidade social para preservar futuros conteúdos noticiosos.

Não se queixem dos outros pela progressiva perda de influência e credibilidade do jornalismo, queixem-se de vocês próprios, camaradas.

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Complexo de Édipo?

por henrique pereira dos santos, em 14.04.18

Estive a ver uma reportagem absolutamente absurda sobre o fogo do pinhal de Leiria.

Absurda porque ninguém com um mês de antecedência consegue antecipar condições excepcionais como as de 15 de Outubro em lado nenhum do mundo (muito menos uma conjunto alargado de madeireiros que fazem reuniões que não deixam rasto), absurda porque se mostram evidências como púcaros de resinagem num pinhal como evidências de fogo posto, absurda porque se mostram garrafas de plástico intactas e cheias de combustíveis em áreas em combustão, absurdas porque se encontram garrafas de vidro envolvidas em prata como forma de não explodirem (para a próxima que puser uma cerveja no congelador vou tentar esta técnica para evitar que a garrafa rebente, para o caso de me esquecer dela tempo a mais no congelador), absurda porque tanto se diz que se vendem pinhais por um décimo do preço depois de um fogo como se diz que o preço desceu menos de trinta por cento, etc..

Mau jornalismo não me espanta, embore me espante a quantidade de pessoas com informação, formação e treino na análise do mundo que está disposta a embarcar na primeira teoria de conspiração que lhes sirva para pôr responsabildiades "neles" em vez de pensar objectivamente no que podemos nós fazer, mesmo quando a teoria é tão infantilmente sustentada em coisa nenhuma.

Mas o que verdadeiramente me intriga na reportagem é isto: o que leva uma jornalista filha de um silvicultor, e que atribui suficiente importância a essa circunstância para o referir quando lhe dizem que não percebe nada de silvicultura, a fazer uma peça inteira, de quase meia hora de televisão, sobre fogos, gestão florestal e comércio de madeiras, sem entrevistar um único silvicultor ou qualquer pessoa qualificada para fazer gestão florestal, seja por formação ou experiência, com a excepção do presidente do ICNF que está ali a desempenhar um papel institucional e não técnico?

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A propriedade das paredes dos hospitais

por henrique pereira dos santos, em 10.04.18

Frequentemente vejo comentarios deste tipo (é um comentário real, não verifiquei os factos, mas isso é irrelevante para o essencial do que é dito no comentário): "Por outro lado, os hospitais privados também vivem pendurados no Estado. Mais de 50% das receitas vêm do SNS e ADSE. E nos laboratórios de análises privados a dependência do Estado é ainda maior, mais de 70%. Portanto, esta iniciativa privada também tem muito pouco a ver com capitalismo ou economia de mercado."

É esta ideia que leva o PC e o BE (e a ala bloquista do PS) a estar sempre a fazer propostas de nacionalização de todos os cuidados de saúde (todos, não, em rigor defendem que quem pode pagar que escolha, os outros que sejam obrigados a recorrer a hospitais cujas paredes são do Estado).

Há neste tipo de comentários um erro de base: o Estado não faz donativos aos prestadores de serviços de saúde, o Estado paga cuidados de saúde a pessoas concretas.

Se esses cuidados de saúde não forem prestados em hospitais cujas paredes são de privados, terão de ser prestados em hospitais cujas paredes fossem do Estado.

Para as pessoas concretas, é-lhes completamente indiferente de quem são as paredes dos hospitais em que estão, o que querem é ser tratadas.

Para os funcionários, é-lhes completamente indiferente quem é o dono das paredes do hospital, o que lhes interessa é que tenham condições para trabalhar e o seu trabalho seja justamente remunerado (ou, ao menos, se for injustamente remunerado, ao menos que seja a favor do trabalhador).

No caso da saúde, vindo os recursos, de uma maneira ou de outra, dos contribuintes, parece mais ou menos óbvio que mais vale o Estado ter os seus próprios hospitais, evitando pagar os custos de capital e os lucros dos privados.

Isto é verdade, isto é, se o que o Estado está a pagar é o mesmo que pagaria e ainda mais os custos de capital (os privados, de maneira geral, financiam-se a taxas mais altas que o Estado porque representam um risco maior para quem empresta) a que se somam os lucros que remuneram esses capitais, não faz o menor sentido pagar a privados o que de qualquer maneira tem de ser pago pelos contribuintes.

O erro deste raciocínio está em considerar-se que a eficiência no uso dos recursos é sempre igual, o que está longe de ser verdade, isto é, os ganhos de eficiência de gestão podem ser maiores que os custos de capital e os lucros dos privados, acabando numa factura global mais baixa.

Há um erro secundário que consiste em pensar que a gestão privada é sempre mais eficiente que a gestão pública. De maneira geral isso é verdade, mas na condição do privado ter o risco de perder dinheiro, porque quando o Estado gera rendas sem riscos para privado (o que tipicamente aconteceu em muitas PPP rodoviárias, mas não nas PPP da saúde), o privado gera uma gestão tão ineficiente como a generalidade da gestão estatal, tal como uma gestão estatal que consiga limitar o princípio de que uns comem os figos e aos outros rebenta-lhes a boca (que é o princípio geral de quem toma decisões sobre o dinheiro dos outros), pode ser tão eficiente como uma gestão privada.

Eu sei que tudo isto é básico para qualquer economista, mas achei que valia a pena lembrar aos que não percebem nada de finanças, nem consta que tenham bibliotecas, como eu, que a discussão sobre prestação de cuidados de saúde por privados ou pelo Estado é uma discussão de custos relativos em cada momento e para cada tipo de interacção entre trabalhadores de saúde e doentes.

Pôr a tónica da discussão em quem é o dono das paredes do hospital só atrapalha no momento de decidir as melhores opções para, por esta ordem, os doentes, os trabalhadores de saúde e, já agora, os contribuintes.

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O acusado inocente

por henrique pereira dos santos, em 10.04.18

Numa pequena troca de argumentos sobre as garantias do julgamento de Lula, uma advogada argumentava que era inconcebível que fosse preso quando ainda existem recursos pendentes, apelando a que quem discordasse se pusesse na posição de quem, sendo acusado, é inocente.

Seria bom que a discussão sobre aplicação da lei (vale sempre a pena vincar que os tribunais não administram a justiça, apenas aplicam a lei) em Portugal fosse razoavelmente mais racional e menos emocional, sobretudo quando o apelo emocional é feito em função do eventual acusado inocente, esquecendo que o centro da justiça é a vítima, e não o acusado (culpado ou inocente).

O exemplo de Armando Vara e do processo Face Oculta, descrito nesta peça do Observador, demonstra como a ideia, generosa, de que todos os recursos devem estar gastos antes da prisão de alguém, se traduz na prática numa grande falta de respeito pelos direitos das vítimas.

Tal como a rapidez de que a justiça brasileira tem dado prova (não, não é perseguição a Lula, desde 2014 a Lava Jato já investigou e deu origem a condenações em julgamento de 69 pessoas) por comparação com o que temos conseguido em Portugal em matéria de corrupção, nos deveria levar a olhar seriamente para a delação premiada como um instrumento válido de protecção das vítimas e não necessariamente como um abuso dos direitos de eventuais inocentes (que podem ser assegurados por muitas outras vias).

O triste espectáculo das dezenas de recursos de Sócrates sempre, sempre indeferidos (com excepção de um, decidido por um juiz acusado, noutros processos, de "vender" sentenças) é uma boa demonstração de uma das piores entorses criadas por uma justiça tão centrada em evitar condenar inocentes que esquece os direitos das vítimas: a existência de uma justiça para ricos, como Sócrates, que podem gastar rios de dinheiro em advogados e custas judiciais com recursos que não servem para mais nada se não retardar o seu julgamento; e uma justiça para pobres, os que não têm dinheiro para manipular passos e prazos processuais a seu favor.

Só que nada, rigorosamente nada, do que possa estar a correr mal no sistema judicial autoriza acusações gerais de perseguição política ou de estratégias complexas, por exemplo, para impedir Sócrates de ser Presidente da República, ou Lula de ser candidato, ou Puigdemont de ser Presidente em estados de direito e democracias maduras, como são as de qualquer dos três países citados (com todos os defeitos que tenham).

Em relação a processos ou decisões concretas todas as dúvidas são legítimas e todo o escrutínio é bem vindo, mas quando entramos na argumentação que implica a existência de estratégias concertadas por parte de todo o sistema judicial, tenham lá paciência, durmam sobre o assunto antes de dizer tanto disparate, só porque gostam do réu.

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De Monsanto a Lula

por henrique pereira dos santos, em 08.04.18

Há já alguns anos, o movimento anti-transgénicos resolveu fazer campanha a favor de um coitado de um agricultor que teria sido impedido pela Monsanto de usar as suas próprias sementes.

Como no fulcro da história estava uma decisão de um tribunal canadiano, estranhei: na minha visão das coisas, dificilmente a Monsanto conseguiria levar um tribunal canadiano a decidir em função dos seus interesses, se eles fossem ilegítimos.

Não porque eu tenha qualquer ideia de que um juiz é por definição impoluto (seria sem dúvida fácil à Monsanto comprar um juiz, ou meia dúzia, não tenho dúvidas), mas porque o sistema judicial, exactamente por partir do princípio de que a natureza humana é o que é, tem uma série de mecanismos de protecção dos mais frágeis que tornam a qualquer pessoa difícil comandar as decisões de vários juízes (a dificuldade da Monsanto, ou seja de quem for, não é comprar meia dúzia de juízes, é conseguir pôr esses juízes todos a decidir nos processos que lhe interessam, com exclusão de todos os outros).

No processo em causa, o coitadinho do agricultor perdia todos os recursos, em todas as instâncias, de forma esmagadora.

Tive então uma longa discussão com a principal dinamizadora do movimento anti-trangénicos em Portugal, que me obrigou a ir ler todas as decisões do tribunal (estavam todas on-line, muito facilmente acessiveis, num inglês suficientemente simples para eu perceber, sem rodriguinhos nem palha gongórica) fortalecendo, a cada leitura, a minha convicção de que se tratava de um caso em que um vulgar burlão se servia dos bons sentimentos anti-OGM para passar a perna à Monsanto, conclusão a que, muitos meses depois, o movimento anti-OGM aderiu, deixando cair o seu mártir acidental.

Muito tempo depois, no auge do processo Freeport (declaração de interesses, estive envolvido no processo de decisão da avaliação de impacte ambiental até ser substituído por outras pessoas), um amigo meu, sólido e importante militante do PS, fundamentava a sua posição (a de que havia uma cabala, etc.) com a ideia de que se recusava a acreditar que seria possível ter um primeiro-ministro corrupto no país onde vivia e que era o seu.

Foi nessa altura que percebi o que me separava da quantidade de amigos meus mais activisitas e mais militantemente esquerdistas (as duas coisas não se sobrepõem, há muitos activistas da mais extrema direita, tal como há muitos esquerdistas que não partilham desta visão instrumental da justiça, o processo mental é que os aproxima e não o posicionamento político) que sistematicamente questionavam a justiça quando as suas decisões se afastavam do que defendiam ser o bem comum: eu acho que o sistema de justiça pode falhar, e falha, com certeza, mas a probabilidade de haver um político que actua fora da lei é muito mais alta que a probabilidade de um sistema de justiça (não falo de um julgamento, falo do conjunto do sistema, que incluem os recursos para tribunais de diferentes instâncias) ser política e economicamente manipulado e comandado.

As minhas razões não se prendem com qualquer superioridade moral da justiça em relação à política, mas com o facto de um político ser ele só, e poder tomar decisões sozinho (se aceito ou não uma contrapartida para tomar uma decisão será sempre uma decisão individual), enquanto o sistema de justiça está estruturado de forma a que o escrutínio exista de forma sistemática, sendo a decisão formada pela decantação de muitas decisões individuais, todas elas bastante escrutinadas.

Por isso o advogado de Lula se vê obrigado a dizer que a questão é uma questão corporativa (os juízes protegem-se uns aos outros) e outras coisas que tais, que possam justificar, aos olhos dos convertidos, como é que Lula é condenado em duas instâncias judiciais não havendo qualquer sombra de prova.

Só o recurso a teorias de conspiração mais ou menos elaboradas, mais ou menos credíveis (dizer que os tribunais são corporativos é razoável, porque é parcialmente verdade, dizer que Rajoy é um ditador é simplesmente estúpido), permitem o sistemático clamor de cada vez que um herói da esquerda é apanhado nas malhas da justiça (alguém se lembra do menor murmúrio com a prisão da ex-Presidente da Coreia do Sul ou de Sarkozy?). Tal como não se ouvem os protestos, que seriam mais que justos, sobre a ampla liberalidade do sistema de justiça brasileiro em relação à quantidade astronómica de pessoas abrangidas por foro privilegiado, essa sim, uma crítica realmente relevante ao sistema de justiça brasileiro.

Sempre haverá pessoas, como eu, que não pondo as mãos no fogo nem por mim, darão mais crédito a sistemas de decisão complexos, com maiores contrapesos, necessariamente mais lentos e burocráticos, e sempre haverá pessoas que a com a pressa de chegar a um mundo melhor, seguirão homens providenciais.

E sempre haverá tensão entre estas duas crenças base sobre a melhor forma de nos organizarmos colectivamente.

O que me preocupa é ver tanta gente inteligente, informada e séria a dar tanto crédito às teorias de conspiração que justificam por que razão e de que forma "eles" controlam tudo e a facilidade com que actualmente qualquer caudilho que seja um fora-da-lei (e o facto de ser um fora-da-lei não diz nada sobre a nobreza do que tenha feito antes pelo mundo e pelos mais frágeis) consegue levar atrás de si uma multidão de pessoas dispostas a prescindir da separação de poderes e do respeito pelo sistema de justiça, só para que "um só de vós resista um pouco mais à morte que é de todos e virá".

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Eu sei que já disse isto

por henrique pereira dos santos, em 06.04.18

Ou melhor, não foi bem isto, o que disse foi o essencial disto, mas a propósito da ideia do governo pegar nos dinheiros do Fundo de Coesão e os investir nos metros de Lisboa e do Porto, isto é, pegar nos dinheiros que a União Europeia disponibiliza (os contribuintes europeus, para ser mais preciso, o que nos inclui a nós) para diminuir o fosso entre regiões mais pobres e mais ricas da União, e investi-lo nas regiões mais ricas do país.

Agora o que está em causa já não é o Fundo de Coesão, mas o Fundo Ambiental (o tal que paga meio milhão de euros para os festivais de música ficarem mais verdes e, para ficar feita a declaração de interesses, também entregará qualquer coisa perto de 50 mil euros a uma associação de que sou presidente, sob a forma de Prémio ICNF de conservação).

O Governo resolveu pegar nos dinheiros do Fundo Ambiental, nomeadamente do que antigamente era o Fundo de Carbono, e comprar carruagens de metro.

Primeiro a questão de linguagem: o Governo pega no dinheiro dos contribuintes, entrega-o ao Metro e diz que o Metro vai gastar 210 milhões. Saltemos por cima deste fait-divers.

O Ministro anuncia isto na Assembleia da República e, aparentemente, daí não resultam imediatamente perguntas da oposição (pelo menos os jornalistas não deram por isso) sobre as razões para, havendo recursos públicos para investir na descarbonificação da economia, o Governo optar por aumentar a macrocefalia do país, investindo onde estão os votos, e também a riqueza, em vez de investir nas economias que poderiam gerir o problema dos fogos, a conservação da biodiversidade e a criação de emprego nas regiões mais pobres.

Não vale a pena argumentar que não existem, ou não são possíveis essas economias, porque existem e o seu potencial de crescimento é grande, uma vez que lhes sejam pagos os serviços de ecossistema prestados, como demonstraram anteriores opções na aplicação dos fundos de carbono.

O que está em causa é uma verdadeira opção política: o Governo prefere investir em Lisboa em vez de pagar os serviços de ecossistema e depois persegue judicialmente as vítimas desta opção.

E é uma opção política com larguíssimo suporte político porque, tirando o Partido Comunista de vez em quando, não se ouve um pio das restantes forças partidárias, com medo de perder os votos dos utilizadores de metro de Lisboa e Porto.

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O problema não é Catarina

por henrique pereira dos santos, em 05.04.18

Catarina Martins tem hoje uma entrevista de várias páginas no Público que terá tido também um reflexo extenso na Renascença.

Em si, isto não me levaria a escrever um post, quer porque Catarina fala todos os dias, quer, o que é mais importante, o que diz tem muito pouco interesse e rara aderência à realidade.

Catarina, previsivelmente, diz: "Temos um problema na Saúde, na questão das PPP: neste momento, o que existe é um monstro que está a sugar serviços do SNS e a negar condições de acesso à saúde a toda a população. O SNS está em risco de ter falta de profissionais, de falta de meios, porque o Estado está a alimentar o monstro que o suga, que é a saúde privada."

Que o diga é irrelevante, como seria irrelevante se dissesse que a terra é plana, o que não é irrelevante é que os jornalistas que a ouvem não se preparem para estas tiradas demagógicas, documentadamente falsas, neste caso, e não a confrontem com os números que existem de avaliação dessas PPP e que desmentem por completo esta parvoíce.

O que permite a Catarina falar todos os dias, sobre todos os assuntos, a dizer as maiores barbaridades, como esta, sem que isso se reflicta na sua reputação e credibilidade, é exactamente o facto dos jornalistas que a entrevistam não perderem dois minutos a confrontar o seu discurso com os factos.

E isso é absolutamente lamentável.

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Deixemos por ora os factos de lado, porque não interessam à teoria

por henrique pereira dos santos, em 04.04.18

Retirei o título de um comentário de Ana Cristina Leonardo, que será uma citação de Rousseau (citado de cor e não verificada por mim porque agora não me interessa nada para post que a citação certa não seja, eventualmente, esta).

Quando li o comentário vi que me tinha caído no colo o título de um post que estava a magicar e que não sei se é uma característica portuguesa (eu tenho sempre muita dificuldade em atribuir à cultura de um país este tipo de características, acho sempre que somos todos basicamente iguais, reagimos é a estímulos diferentes) ou se é da natureza humana.

O post surgiu de uma pequena (e interessante) conversa sobre um bom artigo de Nuno Palma no ECO.

Nessa conversa, despreocupadamente, surge um dos argumentos clássicos da conversa sobre a evolução da educação durante o Estado Novo: "No ensino primário o EN até teve a originalidade de fazer de Portugal o único país da Europa onde a escolaridade obrigatória passou de quatro para três anos, para as meninas.". Noutros pontos da conversa surgem repetem-se os argumentos clássicos sobre o Estado Novo e a educação.

O ponto onde queria chegar é este: todos nós aprendemos na escola que o Marquês de Pombal foi um reformador do ensino e que no Estado Novo havia uma política deliberada para manter o analfabetismo em Portugal.

Há um ror de anos que repetimos exaustivamente estas ideias (no caso do Marquês, há mais de duzentos anos).

E no entanto, o Marquês reduziu a população escolar em 90% (só se retomando a população escolar de meados do século XVIII em 1930, já com Salazar), e Salazar escolarizou em 20 a 30 anos a quase totalidade da população em idade escolar, partindo de valores miseráveis, em torno dos 15 a 20% no fim da primeira república.

Deve ser esta nossa vontade de jamais deixar que os factos influenciam as nossas opiniões que tornam tão fácil ao actual Governo manter, no essencial, a política do Governo anterior (as diferenças, para além da propaganda, são essencialmente na calibração dos impostos, mudando impostos directos para impostos indirectos) ao mesmo tempo que todos os dias o espaço público está cheio de demonstrações de que o Governo anterior, ao contrário do actual, tinha uma política horrorosa, de cortes cegos, que levavam à emigração, à destruição do Serviço Nacional de Saúde, à asfixia da cultura (da cultura, Senhores, há lá coisa mais perversa que cortar na cultura e não haver um ministério da dita), sem que o facto dos valores da emigração serem basicamente os mesmos, dos cortes de investimento serem basicamente os mesmos, das dificuldades do Serviço Nacional de Saúde serem, pelo menos, os mesmos, ou da penúria na cultura ser a mesma, afecte minimamente a narrativa oficial.

No fundo, no fundo, nós gostamos mesmo de ser aldrabados, os factos são uma coisa demasiado chata para se perder tempo com eles.

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Prunus cerasifera variedade Pissardii

por henrique pereira dos santos, em 01.04.18

Na universidade tinha um colega que em todos os projectos que desenhava punha Prunus cerasifera Pissardii (uma pequena árvore, aliás muito bonita) porque são vermelhas e as suas iniciais são PCP (nos planos de plantação eram as iniciais que constavam).

Este meu colega, dono de um agudo senso de humor, estava na sua plena e inteira liberdade de projectista ao ter este critério rígido de projecto, estaria nas mãos dos seus potenciais clientes aceitar ou não projectos com esse critério.

Já se o meu colega resolvesse prever a plantação das árvores com a raiz para cima estaria muito para lá da sua liberdade de projectista, estaria simplesmente a ser parvo, porque as árvores não se podem plantar com a raiz para cima.

Vem esta historieta a propósito de uma chamada de primeira página do Público a propósito de um manifesto que diz respeito à Catalunha.

Chama o Público na sua primeira página "BE, PS, PSD, CDU e PAN unidos num manifesto pela Catalunha", titula a peça não assinada no seu interior da mesma maneira e diz no texto de enquadramento da publicação do manifesto: "Manuel Loff, André Freire e Fernando Rosas conseguiram o que o Bloco de Esquerda e PCP não conseguiram na Assembleia da República: que elementos do PS e do PSD juntassem a sua assinatura, e consequente apoio, a um texto que exige liberdade para os presos políticos catalães".

Publicar um manifesto, qualquer que seja, está dentro da liberdade de escolha da imprensa, não referir as mentiras factuais do manifesto, é feio, mas está dentro da liberdade de escolha da imprensa, mas mentir descaradamente dizendo que porque Pacheco Pereira (o eterno candidato falhado a mártir do passismo) assina um documento isso quer dizer que o PSD se uniu aos outros para dar apoio ao manifesto, ou mentir descaradamente dizendo que na Assembleia da República não houve elementos do PS a apoiar uma coisa do mesmo tipo, está muito para lá da liberdade de escolha da imprensa, é semelhante ao projectista que pretende plantar árvores com a raiz para cima.

O que o Público fez hoje não é má imprensa, é uma fraude, é pretender enganar os seus leitores, é quebrar o vínculo de confiança com os leitores.

Espero que o Público tenha a hombridade de tornar pública a assinatura da peça e que não só assuma que errou (isso é fácil) mas que levante um processo disciplinar a quem for responsável por esta fraude: a imprensa não pode passar o tempo a pedir consequências para o facto de políticos e gestores tomarem decisões erradas, ilegais ou irresponsáveis e, ao mesmo tempo, passar o tempo com panhinhos quentes em relação aos seus jornalistas que fazem isto.

Dizer isto não é atacar jornalistas e a liberdade de imprensa, dizer isto é defender os jornalistas responsáveis que nunca fariam uma coisa destas e que, por causa dos que o fazem, correm um risco muito maior de desemprego por se quebrar impunemente o vínculo de confiança entre os leitores e o jornal.

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Pensamento mágico e casas concretas

por henrique pereira dos santos, em 29.03.18

"Sempre pensei que a aversão de muitos à Matemática se materializa no horror à Economia. A Economia impõe balizas e limites às políticas e à discussão pública, tal como a Matemática impõe regras ao raciocínio. Quem não gosta de Lógica não pode gostar de Matemática, tal como quem prefere o pensamento mágico à análise objectiva dos factos não pode gostar de Economia."

Nestes últimos tempos tenho-me lembrado de ideias que estão muito bem sintetizadas por este parágrafo de Luis Aguiar-Conraria.

Talvez a melhor demonstração prática sejam dois artigos muito próximos de Fernanda Câncio que são o retrato de um mundinho "lesboeta" que tem uma representação claramente desproporcionada no espaço público, com reflexos na forma como se discutem políticas públicas e votamos, aceitando as fantasias que qualquer um nos vende, como se pode verificar olhando para as sondagens e o êxito da encenação do OE de 2017.

Não me passaria pela cabeça falar de um dos artigos, é só um compreensível panegírico em louvor de um amigo. O artigo confunde os clientes do Frágil e do Lux com o mundo, Portugal e Lisboa mas isso é apenas uma típica hipérbole das classes dominantes quando morre um dos nossos, não há muito a dizer sobre isso, a não ser sublinhar, para o quero dizer neste post, a ancestral confusão entre os interesses das classes dominantes e os interesses das pessoas comuns que é típica dos grupos sociais privilegiados: é sempre mais difícil reconhecer o outro quando se vive numa bolha social confortável.

O outro artigo é uma espécie de reportagem sobre as dificuldades dos clientes do Frágil e do Lux (estou evidentemente a exagerar, não é exactamente sobre estes clientes, mas sobre os grupos sociais que grosseiramente poderemos designar assim, aceitando esta descrição como uma caricatura) encontrarem casas decentes para arrendar, a preços decentes, nos sítios de Lisboa em que este grupo de pessoas acham decente.

Independentemente de termos um problema na definição de cada um dos "decentes" do parágrafo anterior, verdadeiramente relevante é o facto de, em nenhum momento, se discutir seriamente as razões dos proprietários para evitar ter as suas casas no mercado de arrendamento, tendo à cabeça o medo das dificuldades em se livrar de um inquilino que não cumpra as suas obrigações, para além do medo do Governo (qualquer governo) alterar as regras a meio do contrato e, por exemplo, estender o congelamento de rendas mais não sei quantos anos, como fez o actual.

Isto é, como diz o parágrafo que citei na entrada do post, toda a reportagem assenta num pensamento mágico sobre o que devem ser as cidades, independentemente da economia que as suporta, porque o drama, o horror, a carnificina (atenção, qualificar o mero efeito económico resultante da lei da oferta e da procura na qualidade de vida de grupos privilegiados como carnificina não é um exagero meu, é mesmo do artigo original, por interposta citação) é um conjunto de pessoas que ganham muito acima da média, e mais ainda acima da mediana, entrando mesmo nos 10% de redimentos mais altos do país, não poderem ter uma quinta com porta para o Chiado.

Pois bem, e isto deixa de ser mera literatura, a Senhora Secretária de Estado responde que pode haver pessoas com 3 mil euros por mês no programa da renda acessível. Programa esse que assenta em benefícios fiscais, isto é, para que pessoas que ganham 3 mil euros por mês possam ter uma casa mais próxima do que são os seus sonhos, pessoas que recebem o RSI têm de pagar mais IVA de cada vez que vão ao supermercado comprar um quilo de batatas.

A reportagem que fala sobre este drama, este horror, esta carnificina tem honras de chamada de primeira página, tal como a generalidade dos jornais que se pretendem nacionais fizeram as suas manchetes com a morte de um homem que terá sido notável (e acredito que sim) a fazer bares e discotecas elitistas em Lisboa.

Nunca fui ao Frágil, posso por isso ter uma ideia errada a partir das fotografias que circulam, mas do que vejo, as preocupações com os problemas da habitação do bairro do Aleixo entram tanto na reportagem citada como entravam chungas, pretos, indianos e chineses no Frágil e no Lux, sem que isso afectasse minimamente a consciência da beautiful people que os frequentava.

Será só coincidência?

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Desafinado

por henrique pereira dos santos, em 26.03.18

Porque a quantidade assombrosa de pessoas que acham muito útil que os médicos sensibilizem os doentes para os riscos das correntes de ar, em vez de receitar os antibióticos adequados à pneumonia que têm, resolvi fazer um artigo desalinhando da União Nacional de limpezas de matas que pretende ostracizar qualquer pessoa que tenha dúvidas sobre a bondade de pôr vinte membros do Governo e um Presidente a tentar explicar ao Ronaldo como se joga à bola.

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"Nascer, viver e morrer entre brutos é triste"

por henrique pereira dos santos, em 23.03.18

Um bom artigo de Fernando Alexandre que me deixou cheio de inveja.

É que, no fundo, no fundo, tudo aquilo que tenho dito e escrito sobre a gestão do fogo e da paisagem está, essencialmente, muito bem resumido aqui, num artigo que não é sobre o assunto.

"o que distingue as nações bem-sucedidas das nações que falham são as escolhas das sociedades. Isto é, as soluções de governação que encontram e as políticas que adoptam.

Ora, um dos riscos da incompreensão da natureza dos problemas da nossa economia [paisagem], e da não correcção no funcionamento das instituições e nas políticas económicas [de gestão do mundo rural], é ficarmos mais expostos aos choques do resto do mundo [às condições meteorológicas extremas]. Outro risco é o do agravamento dos problemas estruturais. E quando deixamos que isso aconteça com a pobreza e com as desigualdades [com as paisagens e o mundo rural] desistimos do progresso.

Depois de quase duas décadas a marcar passo e com o mundo em acelerada transformação, é exasperante a quase ausência de debate sobre as políticas e mudanças institucionais que temos de fazer para ultrapassarmos muitos dos atrasos que persistem na nossa sociedade e na nossa economia [e no nosso mundo rural]".

Limitei-me a pôr entre parêntesis rectos o que eu deveria ter sabido escrever para o que há a dizer sobre a gestão do fogo estivesse "claro, claro, mais claro que a clara de um ovo".

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Incendiar o país para andar de metro

por henrique pereira dos santos, em 22.03.18

O país tem um bolo financeiro robusto, oriundo da União Europeia, para apoiar políticas de coesão.

Naturalmente, estas políticas de coesão pretendem ajudar as regiões mais pobres a aproximar-se dos níveis sociais e económicos das regiões mais ricas.

Seria por isso de esperar que:

1) resultando os incêndios de problemas económicos estruturais do mundo rural;

2) tendo esses problemas na base uma séria falta de competitividade das economias que poderão gerir combustíveis;

3) sendo essa gestão essencial para ganhar controlo sobre o fogo,

o governo, qualquer governo (a percepção da falta de coesão territorial como um dos problemas centrais do país é largamente consensual), se empenhasse em usar os recursos disponíveis para a coesão na promoção da competitividade das regiões mais pobres.

Pois não é nada disso que se passa, o que se passa é o que governo decidiu (e essa é uma decisão nacional de afectação de recursos comunitários, não é uma decisão de Bruxelas) que os fundos de coesão, em grande parte, devem ser usados para aumentar o fosso entre as regiões mais ricas e as regiões mais pobres, alocando-os ao financiamento dos metros do Porto e Lisboa.

Economia circular, descarbonificação e outros narizes de cera que tais são os argumentos invocados, como se não fosse possível ter políticas de descarbonificação, economia circular e outras que tais nas regiões mais pobres, por exemplo, no desenvolvimento de um verdadeiro sistema de transporte a pedido que evitasse as centenas de camionetas vazias a circular todos os dias em regiões de baixa densidade, ou a gestão racional do fogo, para reduzir as emissões de carbono, ou o aumento da matéria orgânica do solo e na complexificação dos povoamentos florestais autóctones para aumentar as suas funções de sumidouro de carbono, só para citar três exemplos.

A responsabilidade política sobre as consequências dos fogos não se mede pelo que se passou no dia 15 de Outubro (ou não é sobretudo aí), a responsabilidade política sobre os fogos mede-se no facto do governo ter feito uma escolha clara: prefere deixar arder o país onde não há votos, se for esse o preço a pagar por aumentar um pouco menos o preço dos bilhetes nos metros de Lisboa e Porto, onde se ganham as eleições.

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Talvez ao contrário

por henrique pereira dos santos, em 20.03.18

Todos nós achamos que não deveria haver mortes nas estradas provocadas por incêndios.

Por isso todos achamos também que nos devemos pôr de acordo sobre as acções que é possível executar para diminuir o risco de isso acontecer.

A esmagadora maioria das acções que têm sido defendidas com este objectivo partem de uma lógica de gestão florestal: os grandes fogos resultam de falta de gestão logo, conclui-se, é preciso levar gestão florestal para onde fizer falta, custe o que custar.

Por isso temos um conjunto de regras que pretendem transformar todas as estradas seguras para quem nelas circular, afastando os combustíveis que alimentam os grandes fogos, na demanda, vã, de trazer segurança para a circulação em todas as estradas, mesmo durante um grande fogo.

Nessa demanda, vã, que parte do pressuposto de que a vida humana não tem preço e por isso se justifica o "custe o que custar", retira-se da equação a discussão económica e social das medidas que estamos a pretender adoptar.

Economicista me confesso e por isso acho que mesmo em circunstâncias destas é preciso trazer os números para a discussão, sob pena de estamos sempre a tentar aplicar soluções para as quais, simplesmente, não existem recursos.

Significa isto que se os números (como penso intuitivamente, sem os ver de perto) demonstrarem a inviabilidade da loucura a que a lei nos obriga, eu passo a estar no campo dos que resignam à fatalidade de ver gente morrer nas estradas por causa de grandes incêndios?

Não, de maneira nenhuma, significa apenas que acho que devemos voltar à equação base do problema, para ver se não é possível equacionar o problema de forma diferente para obter o mesmo resultado, isto é, a diminuição do risco de haver mortos nas estradas em consequência de incêndios em condições extremas.

Voltando ao essencial, para que morra gente nas estradas é preciso que existam condições na envolvente da estrada que sejam favoráveis a fogos de elevada intensidade (o problema que temos tentado resolver e que acredito que é o caminho errado, não por não ser lógico, mas por ser inviável) e é preciso o segundo factor que temos esquecido no momento de fazer a equação do problema: que existam pessoas a circular nessa estrada, naquele momento.

O que eu gostaria de ver discutido, sem preconceito, são os custos e benefícios sociais de medidas de redução do risco da estrada por intervenção da gestão da sua envolvente, face à alternativa de termos acções para evitar que circulem pessoas nas estradas de elevado risco, nos momentos de elevado risco.

O primeiro tipo de medidas exige intervenção física em milhares de hectares (terei ouvido, sem ter possibilidade de verificar, que o conjunto de áreas que estamos a querer gerir estritamente por razões de protecção civil, andará pelo milhão de hectares, 10% do país), de uma forma que é inerentemente deficitária: as recomendações técnicas exigem perda de produção por espaçamento das árvores e potenciam os custos de remoção de combustíveis por redução do ensombramento e da competição entre plantas em diferentes estratos, uma combinação que pontualmente pode fazer sentido mas que, à escala da paisagem, e de uma paisagem globalmente deficitária, é um desastre económico impossível de financiar.

O segundo tipo de medidas exige sobretudo gestão de informação e comunicação, que não é menos difícil que a intervenção física, é certo, mas que parece incomparavelmente mais barata e socialmente mais útil. Nesta aproximação ao problema, o que é preciso é saber com rigor e precisão quais são as estradas e regiões em que há risco em caso de incêndio, e quais são as situações meteorológicas que podem materializar esse risco, dois aspectos relativamente fáceis e corriqueiros, associando-se esta informação ao que é verdadeiramente difícil e levanta problemas que eu não sei avaliar se são, ou não, irresolúveis: um sistema de comunicação que rapidamente faça chegar às pessoas de uma região esta informação quando o risco passar um limiar a definir.

Com esta aproximação ao problema não é preciso estar a drenar recursos do país a manter, durante trinta anos, com gestão de combustíveis cada quatro a cinco anos, uma situação de risco compatível com uma situação meteorológica extrema que se admita que ocorra três dias nesses trinta anos, mas produzir informação, socialmente útil de vários pontos de vista, que permita rapidamente bloquear a circulação umas dezenas de vezes, nesses trinta anos, sempre que a probabilidade de ocorrência de fenómenos meteorologicos extremos ultrapasse o nível pré-definido numa determinada zona.

Talvez valha a pena deixarmo-nos da demagogia do "tem de se fazer alguma coisa, custe o que custar, porque não se pode repetir o que aconteceu" e olhar fria e racionalmente para o problema, tal como ele é, e é grande e complicado, sem deixar de fora qualquer solução possível.

Às vezes é preciso dar passos atrás para ganhar balanço que nos permita saltar o obstáculo.

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Lusoponte e Fertagus

por henrique pereira dos santos, em 12.03.18

Este artigo de Joaquim Sarmento merece muita atenção.

1) Porque é muito claro e racional na avaliação de duas PPP, demonstrando que o problema não é haver PPP, o problema é haver quem, do lado do Estado, as entenda como meras operações de desorçamentação e não como processos financeiros complexos que, para terem alguma hipótese de serem socialmente úteis, implicam que haja riscos essenciais do lado do privado (este aspecto é especialmente evidente quando se comparam a generalidade das PPP rodoviárias com as PPP da área da saúde, que funcionam razoavelmente bem e cumprem positivamente funções sociais relevantes);

2) Porque permite pôr a discussão sobre concessões de serviços públicos, não apenas sob a forma de PPP, mas também de exploração de transportes públicos e coisas que tal, num plano que não é o da discussão habitual, e habitualmente estéril, de gestão estatal face a gestão privada. Quer a gestão estatal quer a gestão privada de concessões têm riscos e oportunidades, vantagens e desvantagens e os resultados dependem muito mais das regras estabelecidas, e consequentes incentivos às decisões de gestão, que da natureza estatal ou privada do operador do serviço;

3) Porque, por último, permite tornar gritante a forma diferente como é tratada pela sociedade, com a comunicação social à cabeça, a ida de Ferreira do Amaral para a Lusoponte, gerir um contrato que na verdade já estava muito longe de ser o contrato que ele próprio assinou com a Lusoponte (pessoalmente, na posição de Ferreira do Amaral, mesmo reconhecendo que o risco de conflito de interesses está muito diminuído pelo tempo decorrido e pelas alterações contratuais, eu julgo que não aceitaria ser presidente da Lusoponte) e a ida de Jorge Coelho para a Mota-Engil, uma das principais beneficiárias das alterações contratuais feitas e promovidas por Jorge Coelho no contrato da Lusoponte. Estar do lado certo do espectro político é quase uma carta de alforria para as maiores barbaridas éticas e só este facto justifica que Sócrates tenha conseguido fazer o que fez e, acima de tudo, que isso não belisque minimamente um dos seus braços direitos, número dois do PS em 2011, coordenador da moção que Sócrates apresentou ao congresso em 2011, António Costa, o arguto político que vê sempre muito mais longe que os outros, mas foi incapaz de ver o que se passava ao lado, mesmo ali ao perto.

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O problema somos nós

por henrique pereira dos santos, em 09.03.18

"As alterações ocorridas, desde o seu início, na concessão podem ser identificadas através de três modelos contratuais distintos, que representam, na realidade, três sistemas diferenciados de repartição de riscos, de custos e de benefícios, entre o Estado e a Lusoponte, a saber: o modelo delineado no Contrato de concessão inicial; o modelo inerente ao Acordo (FRA 1); e o modelo subjacente ao FRA Global.

No actual modelo, ou seja, no subjacente ao FRA global de 2000, a evolução observada nos termos de afectação de riscos veio acentuar ainda mais o desequilíbrio do contrato de concessão, em favor da concessionária, ao permitir transferir para o Estado riscos que, normalmente, caberiam à concessionária.

O resultado final das sucessivas mutações sofridas pela arquitectura contratual da concessão acabou por se traduzir na celebração de um Acordo que não defendeu da melhor forma o interesse público, já que dele decorrem consequências financeiras mais elevadas para o erário público e, também, para os utentes das duas travessias sobre o Tejo, e uma situação objectivamente mais favorável para concessionária."

Esta é a principal conclusão da auditoria do Tribunal de Contas à concessão das pontes de Lisboa.

Para se perceber melhor, esta é uma das alterações de repartição de riscos alterada:

"Redução efectiva do risco geral do projecto pela anulação da obrigação da concessionária comparticipar nos encargos de manutenção da estrutura da Ponte 25 de Abril e do viaduto de acesso da margem norte do Tejo e pela garantia de uma componente fixa de cash-flow, sem risco de tráfego, a liquidar pelo concedente, entre 2001 e 2019, através do pagamento de rendas semestrais, no montante total de 61,372 milhões de contos.".

Ora o principal responsável por estas alterações, incluindo esta que especifiquei, é Jorge Coelho, e o governo que alterou as condições a favor da Lusoponte, essencialmente cedendo ao buzinão da ponte - uma decisão inqualificável do ponto de vista da coesão territorial, da gestão urbana, da sustentabilidade na mobilidade e da justiça social - foi o governo de António Guterres.

Não se pense que foi um caso único, Jorge Coelho, de forma sistemática, transferiu riscos dos concessionários para o Estado, renegociando concessões em posição de fragilidade: uma coisa é negociar uma concessão através de um concurso em que todos os concorrentes querem ganhar a concessão, outra coisa é negociar alterações a concessões quando já existe um contrato e só há um concessionário, que tem evidentemente a faca e o queijo na mão.

Jorge Coelho perseguia objectivos políticos de curto prazo, querendo obras mais rápidas para estarem prontas ou lançadas a tempo de eleições ou querendo motivar interessados em obras injustificáveis do ponto de vista da racionalidade económica, como algumas das auto-estradas que foram feitas (não deixa de ser uma deliciosa ironia que pelo menos um dos subscritores do processo judicial posto à troica seja um dos principais economistas envolvidos nas marteladas dadas aos números para justificar obras injustificáveis, sustentadas em empréstimos que só não deram pior resultado porque a troica nos pôs a mão por baixo, não sei se por sermos meninos, se por sermos borrachos).

Pois bem, sendo isto assim e estando perfeitamente documentado, o que mais se vê são referências à putativa promiscuidade entre Ferreira do Amaral e a Lusoponte, como justificação para o facto da manutenção da ponte ir agora sair do bolso dos contribuintes, mesmo na imprensa de referência e nos comentadores mais influentes, conseguindo Jorge Coelho (e Guterres) nunca ser responsabilizado pela captação do Estado a favor dos seus interesses políticos (dos outros não falo, a polícia que tome conta do assunto, se houver matéria para isso, do que aliás duvido, neste caso).

Uma sociedade que funciona assim, que em qualquer caso raramente aceita que os factos influenciem as suas opiniões, só pode dar os resultados que temos tido.

O que aliás é bem visível na quantidade de imbecis encartados e cheios de títulos académicos que acham que uma experiência de quatro anos como primeiro ministro, nas condições em que foram exercidas por Passos Coelho (e o mesmo é válido para Guterres, Sócrates, Costa), não qualifica ninguém para dar aulas num instituto de ciência política.

Aparentemente comportamo-nos como meninos mimados que se recusam a comer bróculos por não gostarem, achando que todas as decisões do mundo se tomam com base nesse critério, assumindo-nos como o centro de um mundo que pode prescindir da teimosia dos factos.

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Vem a meus braços, camarada Centeno

por henrique pereira dos santos, em 07.03.18

"Mário Centeno
‏Conta verificada
@mariofcenteno
Seguir
Seguir @mariofcenteno
Mais
Interview w/ Athens News Agency: 8 years of adjustment was too long a process. Stronger ownership by #Greece could’ve delivered much sooner good results we see today."

Mais vale tarde que nunca: Centeno faz um dos mais rasgados elogios ao Governo anterior, reconhecendo, finalmente, que a opção de Passos Coelho foi bem melhor que o, nessa altura, proposto por António Costa.

"Para o secretário-geral do PS, António Costa, o triunfo do Syriza nas eleições gregas é "um sinal de mudança" que dá força a Portugal e a outros países europeus para seguirem a mesma linha.
"Este é mais um sinal da mudança da orientação política que está em curso na Europa, o esgotamento das políticas de austeridade e a necessidade de termos uma outra política que permita que a moeda única seja efectivamente uma moeda comum, que seja uma moeda que efetivamente gere ganhos para todos os povos e todas as economias da zona euro", declarou António Costa.
O líder socialista lamentou que não se tenham tirado logo todas as consequências com os resultados das eleições europeias, embora saliente que há alguns "passos positivos", como o plano Juncker e a recente decisão do BCE.
"É importante que outros países europeus deem força a esses resultados na Grécia, que dão força a essa mudança. É preciso contrariar a vontade do Governo português, que não quer a mudança e procura contrariar a mudança. Hoje, os gregos disseram que essa mudança tem que chegar", afirmou.
Segundo António Costa, é necessário travar uma estratégia política que não tem conseguido sucessos económicos, nem a consolidação das finanças públicas. "A Europa tem de ter uma reorientação da sua política se quer ser capaz de manter o apoio dos cidadãos à moeda única", disse.
O líder socialista elogiou ainda o povo grego, que "resistiu a todas as pressões", elegendo "livre e democraticamente" o Syriza, defendendo que a União Europeia (UE) tem que respeitar a decisão do país."

Agora só lhe falta a coragem de dizer o mesmo em Portugal, com todas as letras, explicando que o que tem vindo a dizer de há uns anos a esta parte não é mais que uma fraude para aceder ao poder, enganando os eleitores com um discurso que a prática contraria.

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Talvez seja tudo simples

por henrique pereira dos santos, em 01.03.18

fogo álvaro oleiros.jpg

Paulo Fernandes usou esta fotografia, tirada perto e Álvaro, Oleiros, num comentário sobre o incêndio Sertã/ Oleiros, de 15 de Outubro.

À esquerda temos um povoamento de eucalipto, à direita um povoamento de pinheiro, sensivelmente do mesmo tamanho.

Aparentemente, o fogo foi menos intenso do lado do eucalipto que do lado do pinheiro, o que se percebe pela cor e pelo facto das folhas dos eucaliptos não estarem totalmente calcinadas. Paulo Fernandes fala de um fogo de superfície no eucalipto e num fogo de copas no pinhal.

O relevante aqui é chamar a atenção para o erro que seria dizer, a partir desta fotografia, que o pinheiro é muito mais perigoso que o eucalipto, do ponto de vista dos fogos.

Neste caso pode dizer-se que os pinheiros à direita constituíram um problema maior que os eucaliptos à esquerda. Por serem pinheiros? Não, seguramente, do lado esquerdo está um povoamento, provavelmente gerido, e do lado direito está um conjunto de árvores sem gestão, ser uma ou outra espécie não é muito relevante para o que aqui se vê.

A chave aqui é a gestão.

Esta noite uma colega minha mandava-me uma imagem de uma quinta, cujos combustíveis são geridos por cabras, e com centenas de árvores, carvalhos, castanheiros, oliveiras, fruteiras e alguns pinheiros, pedindo-me conselhos sobre o que fazer.

Se a lei fosse aplicada cegamente, as casas entretanto recuperadas, tal como a quinta, deixariam de ter metade do interesse para os seus proprietários, para a biodiversidade e deixariam de ser uma ilha de diversidade e amenidade numa mar de eucaliptos de produção na envolvente. E com o sol e a luz a entrar francamente até ao chão, o mato explodiria, aumentando, em vez de diminuir, o risco de fogo.

Sugeri-lhe que procurasse fazer, junto da Comissão Municipal de Defesa da Floresta, aquilo que penso que a Câmara de Lisboa terá feito em Monsanto: alegar a qualidade do arvoredo e a gestão de combustíveis que é feita, para que se aplique uma excepção, aliás prevista na lei, que evite o corte estúpido, socialmente absurdo e inútil do arvoredo.

Mais uma vez, a chave aqui é a gestão.

Alegar-se que "quanto mais cortar menos risco existe" é de uma inacreditável indigência e uma poderosa demonstração de como a ignorância é atrevida.

Alegar-se que o problema é não se ter aplicado a lei nos últimos doze anos e portanto agora a coisa resolve-se com um esforço excepcional de cortar a eito, mesmo que seja um bocadinho a mais, é esquecer que a vegetação cresce todos os dias, independentemente do que diz o Diário da República: mesmo que há doze anos a lei tivesse sido aplicada, já teria tido tempo para voltar tudo a crescer, estando em ponto de rebuçado para arder.

Dizem-me que um cálculo preliminar da área envolvida nestas obrigações de cortar a esmo andará pelo milhão de hectares, entre 50 metros de cadas isoladas, cem metros de povoamentos, margens de infraestruturas, redes primárias de gestão de combustíveis, etc..

Ao preço do corte moto-manual seriam mil milhões de três em três anos. Com fogo poder-se-ia reduzir para um quarto, mas a dificuldade técnica é maior e está-se dependente das condições meteorológicas (pretender queimar 300 mil hectares por ano quando o objectvivo do Governo é queimar 15 mil hectares por ano dá bem a ideia da dificuldade da coisa). Mesmo assim, 250 milhões de três em três anos, é muito dinheiro (o governo anda muito satisfeito porque disponibilizou um empréstimo às autarquias de 50 milhões, já não é mau, já deve dar para 20% do que seria preciso fazer com esta lógica, mais coisa, menos coisa).

No fundo, no fundo, a coisa está muito bem caracterizada neste comentário que eu gostaria de ter escrito: "Este pessoal não percebe o que acontece a um terreno quando deixa de ser explorado. Pensarão com certeza que cortam as árvores e o terreno fica assim, sem nada, sem mato, para sempre...".

Que um ou outro responsável pense isto, enfim, é triste mas acontece, mas que uma sociedade inteira deixe que esta ideia parva seja a base da gestão do fogo com que o Estado pretende garantir a segurança de pessoas e bens, é para mim um mistério que me deixa completamente atordoado.

Confesso que não sei mais que fazer nesta matéria, há alturas em que baixar os braços parece ser o mais sensato.

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Declaração de voto

por henrique pereira dos santos, em 01.03.18

Se as eleições fossem hoje, nas actuais circunstâncias, provavelmente eu votaria no PC (Partido Comunista, para que não restem dúvidas).

Por definição costumo votar por exclusão de partes: vou eliminando possibilidades até não sobrar ninguém em quem votar, depois faço o percurso inverso, repescando possibilidades, depois volto a eliminar até ao momento em que sobra um: voto nesse.

Começo por opções ideológicas, o que normalmente elimina os inimigos da democracia, do mercado e do direito das pessoas comuns fazerem o que entendem, em especial o seu exercício do direito à asneira.

Depois costumo eliminar coisas em forma de assim, como o PNR ou o BE.

Só então me começo a focar na formação de governo.

Essencialmente teria de optar, hoje, por um governo de Costa ou um governo de Rio (um governo dos dois é possível, mas o meu voto é irrelevante para isso. De qualquer maneira não seria muito diferente do que está).

Hoje (pode ser que mude de opinião no futuro, eu costumo discordar muito de mim) não vejo grande diferença entre votar Rio ou Costa, ao contrário do que acontecia antes em que, à falta da possibilidade de votar na troica (isso era mesmo a minha primeira opção), votava com gosto em quem não demonstrou o menor gosto pela captura do Estado pelos grupos de interesse, o menor gosto pelo condicionamento da justiça, o menor gosto pelo controlo da imprensa e, ainda por cima, demonstrou uma grande solidez institucional e coragem política para fazer o que tinha de ser feito para pôr as finanças do país num plano minimamente gerível sem sobressaltos, mantendo os níveis de prestação social bastante altos (com a evidente limitação do elevado desemprego, questão inevitável nas circunstâncias): Pedro Passos Coelho.

Por outro lado, não vejo grande possibilidade de uma maioria politicamente apoiada em manter o rumo de reforço da solidez financeira e libertação da economia do espartilho criado pela aliança entre o Estado e os compadres, privatizando empresas, concessionando serviços públicos de transporte, reduzindo o peso do Estado na economia, na educação e na saúde, mantendo e reforçando o apoio aos mais frágeis e arrefecendo o consumo assente em crédito.

Resumindo, a solução que está, sendo péssima, é a solução que parece ser a escolha da sociedade e não vejo como poderia o meu voto ajudar a uma alternativa real.

Assim sendo, o que o meu voto pode fazer é apenas procurar influenciar a solução que está, tal como votei em Alegre, na sua primeira candidatura, para chatear Sócrates e Soares, objectivo perfeitamente conseguido (que Alegre tenha depois pensado que o milhão de votos que teve eram sua propriedade é um problema que só lhe diz respeito).

Não faz sentido votar em Costa, porque em si mesmo era excessivo, mesmo para um pragmático como eu.

Para além disso, ter um PS com maioria absoluta, dirigido por braços direitos de Sócrates, é um risco que gostaria de minimizar, estando ainda associada a certeza de um assalto partidário ao Estado ainda maior que o que se verifica actualmente.

Votar em cata-ventos e balões coloridos não é muito o meu género, e votar no BE, ou contribuir para um governo PS/ BE, é um risco ainda maior que a maioria absoluta do PS.

Resta-me então contribuir para ter gente crescida a pôr um mínimo de ordem no recreio, com posições institucionais sobre a protecção da pequena propriedade florestal ou o acordo ortográfico que são perfeitamente razoáveis e sensatas, mantendo o PS minimanente controlado.

Tem o preço de aumentar o problema de manter articialmente vivo um sindicalismo que representa muito pouca gente e que tem um contributo excessivamente negativo para a economia, mas enfim, é um preço suportável. Claro que preferia evoluir para um sindicalismo de empresas em vez de manter o anacronismo centralista existente, mas paciência, é o que há.

E é isto, votar no PC é, nas actuais circunstâncias, o menos mau dos votos, pelo menos enquanto Adolfo Mesquita Nunes não mandar no CDS.

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Separados à nascença

por henrique pereira dos santos, em 28.02.18

George W. Bush (2002)

Bush Offers Plan To Stop Forest Fires - Cut Down Trees

António Costa (2018)

" Sobre a limpeza das matas Mais vale cortar a mais do que a menos, quanto mais cortar menos risco existe"

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