Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Domingo

por João Távora, em 25.07.21

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo, Jesus partiu para o outro lado do mar da Galileia, ou de Tiberíades. Seguia-O numerosa multidão, por ver os milagres que Ele realizava nos doentes. Jesus subiu a um monte e sentou-Se aí com os seus discípulos. Estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus. Erguendo os olhos e vendo que uma grande multidão vinha ao seu encontro, Jesus disse a Filipe: «Onde havemos de comprar pão para lhes dar de comer?». Dizia isto para o experimentar, pois Ele bem sabia o que ia fazer. Respondeu-Lhe Filipe: «Duzentos denários de pão não chegam para dar um bocadinho a cada um». Disse-Lhe um dos discípulos, André, irmão de Simão Pedro: «Está aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas que é isso para tanta gente?». Jesus respondeu: «Mandai-os sentar». Havia muita erva naquele lugar e os homens sentaram-se em número de uns cinco mil. Então, Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados, fazendo o mesmo com os peixes; e comeram quanto quiseram. Quando ficaram saciados, Jesus disse aos discípulos: «Recolhei os bocados que sobraram, para que nada se perca». Recolheram-nos e encheram doze cestos com os bocados dos cinco pães de cevada que sobraram aos que tinham comido. Quando viram o milagre que Jesus fizera, aqueles homens começaram a dizer: «Este é, na verdade, o Profeta que estava para vir ao mundo». Mas Jesus, sabendo que viriam buscá-l’O para O fazerem rei, retirou-Se novamente, sozinho, para o monte.

Palavra da salvação.

Comentário: A multiplicação dos pães situa-se próximo da Páscoa. Hoje lemos o facto; nos dias seguintes ouviremos o comentário, a catequese que o próprio Senhor Jesus fará deste facto. Mas a multiplicação dos pães e dos peixes é apresentada nos termos da celebração eucarística. Depois da catequese sobre o Baptismo na fala com Nicodemos, depois da referência constante ao Espírito Santo, começamos hoje a catequese sobre a Eucaristia. Estamos no ambiente da iniciação cristã.

Casamento

por João Távora, em 24.07.21

"As crianças que crescem num casamento sólido são cada vez mais uma minoria — a minoria privilegiada. Seja ela negra, hispânica, asiática ou branca, uma criança faz parte da minoria privilegia­da se viver numa casa sem divórcio. É esta a grande clivagem, meus amigos: o casamento. Não é o género, não é a raça, não é a orientação sexual, nem sequer é a classe social. É o casamento. Quando se analisam as possibilidades de sucesso de uma criança, é claro que o fator fundamental é a classe social, e não o género ou raça. No entanto, se crescer numa família sólida, a criança pobre tem mais hipóteses de ascender pelo estudo. Tudo se torna mais difícil no contexto do divórcio e sobretudo no contexto de uma marca social do Ocidente do século XXI: a fuga do pai. Os homens, sobretudo negros, brancos e hispânicos, tendem a fugir das suas responsabilidades — o exato oposto do homem asiático (indiano, coreano, chinês), que permanece ancorado à família e à paternidade. Não por acaso, as crianças asiáticas estão a superar em todos os níveis as crianças negras e também as brancas pobres.

Para mais informação comparativa, leiam, por favor, na “Spectator”, uma peça de Edward Davies, “Forget race or class, marriage is the big social divide”. Aqui quero apenas salientar que este assunto, apesar de ser vital, é um tabu. Não se pode falar de casamento, porque é visto como um assunto ‘reacio­nário’. Não se pode falar de casamento, porque a agenda cool exige que se fale apenas de questões identitárias e de racismo e de machismo. Esses pontos são legítimos, sim, mas não são o nó górdio. Antes de ter a tez escura e de ser do sexo feminino, uma rapariga negra é, antes de tudo, pobre. E a sua pobreza é reforçada porque vive apenas com a mãe. Cerca de 70% das crianças negras nos EUA crescem sem o pai. É o inverso da miú­da asiática que tem de lidar com o mesmo contexto social: também é de uma minoria étnica, também é pobre. Só que esta rapariga asiática tem algo que a rapariga negra não tem: uma cultura familiar e, sim, conservadora, que mantém o pai preso ao casamento e à estabilidade que permite a ascensão social dos filhos.

O colapso da família é pior do que o desemprego. O emprego vai e vem. A família é a estrutura que suporta uma pessoa nos momentos de desemprego, dando-lhe uma sensação de segurança e, por arrasto, uma mente mais racional e calma. Portanto, tenhamos coragem para ver a evidência: antes de qualquer outro fator, o que atrasa a vida de uma rapariga negra não é o racismo ou o machismo, é o colapso do casamento, o divórcio, a fuga do pai às suas responsabilidades. E — repito — encontramos o mesmo fenómeno nos brancos pobres. A este respeito, sugiro que vejam um filme que retrata sem adjetivar a cultura de pobreza que se desenvolve nas mães solteiras brancas e pobres. Chama-se “The Florida Project”. É muito fácil criticar aquela mãe intempestiva, imoral ou amoral, sem noções básicas de educação. Mas ela e outras raparigas estão sozinhas com os filhos. Eles fugiram. A eterna adolescência dos homens é o grande problema da sociedade ocidental, é a causa da nossa decadência. “É só meninos”, como diz o meu velho."

Henrique Raposo aqui no Expresso

A metáfora dos pilaretes

por João Távora, em 21.07.21

Pilaretes.jpg

Sou sempre muito crítico com as regras e restrições que me impõem talvez porque fui educado para cumpri-las ao contrário da maioria dos meus compatriotas. A praga dos pilaretes que empestam as nossas cidades, e a de Lisboa em especial, é toda uma metáfora da nossa dificuldade de viver em liberdade. Os portugueses têm uma relação ambígua com as regras, relativizam os princípios que gostam de usar consoante as suas conveniências a cada momento – não, não somos rebeldes, apenas oportunistas (o exemplo chega-nos de cima). Se um automóvel estacionado em segunda fila bloqueia a sua saída, o português, ufano do alto do seu apurado sentido de justiça vocifera contra a falta de civismo alheia, independentemente de no dia anterior ter feito o mesmo – talvez sem consequências de maior a não ser empatar o tráfego - só para beber a bica ao fundo da avenida a caminho do escritório.

O que seria dos nossos passeios, das nas nossas ruas e calçadas, sem os pilaretes de que toda a gente se queixa por serem inestéticos ou armadilhas para os invisuais ou os mais distraídos? Todos nos lembramos a balburdia do estacionamento automóvel quantas vezes impedindo a passagem de peões antes de surgirem os malditos pilaretes.

Mas o importante é percebermos como nos relacionamos com as regras de civilidade estabelecidas e a atenção ao próximo para entender se merecemos ou não ser tratados como crianças pelas “autoridades” que no sofá em frente à televisão bajulamos a vê-las por na ordem os hooligans da equipa adversária, mas que desprezamos quando nos manda parar numa operação stop por excesso de velocidade, quando julgávamos que ninguém nos estava a ver.

Voltando ao início desta conversa: sou muito crítico com regras e restrições, gosto de indagar sobre o seu sentido e protestar pela falta dele, porque fui educado para obedecer.  No fim de contas acabo por entender o porquê de nesta fase da pandemia sermos um dos povos da Europa que ainda reclama por mais e mais restrições (caso contrário o goveno já as tinha aliviado há muito): isso acontece porque cultivando o chico-espertismo (o exemplo vem de cima), poucos são os que lhes obedecem verdadeiramente, pois que cada um se sente no direito de ser excepção.

Não nos queixemos portanto de viver num emaranhado de pinos e pilaretes. Essa é a única forma dos portugueses comportarem-se com civilidade, e um sinal do nosso grande atraso. Temos aquilo que merecemos, somos tratados como criancinhas com direito a uma ração ao final do mês. Triste sina a nossa.  

Domingo

por João Távora, em 18.07.21

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo, os Apóstolos voltaram para junto de Jesus e contaram-Lhe tudo o que tinham feito e ensinado. Então Jesus disse-lhes: «Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco». De facto, havia sempre tanta gente a chegar e a partir que eles nem tinham tempo de comer. Partiram, então, de barco para um lugar isolado, sem mais ninguém. Vendo-os afastar-se, muitos perceberam para onde iam; e, de todas as cidades, acorreram a pé para aquele lugar e chegaram lá primeiro que eles. Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e compadeceu-Se de toda aquela gente, porque eram como ovelhas sem pastor. E começou a ensinar-lhes muitas coisas.

Palavra da salvação.

Comentário: Sem a palavra de Deus os homens não encontram a união, são como ovelhas tresmalhadas de um rebanho a que falta o pastor. Jesus, ao contemplar a multidão que O seguia, mas que não era ainda a sua Igreja, sente por ela grande compaixão e vai-lhes dando o pão da palavra de Deus: “começou a ensinar-lhes muitas coisas”.

Os bares, as discotecas e o puritanismo impante

por João Távora, em 17.07.21
No início achava que demasiados artistas sobrevalorizavam a importância da dança e entretinha-me com boas canções e poemas desafiantes. Rapazes e raparigas que mal se conheciam a dançarem freneticamente melodias simples com ritmos fortes? Não percebia o interesse.

Chegado à adolescência, rapidamente fui convertido a esses rituais rebeldes, tantas vezes mal aceites pelos adultos: de tarde ou de noite, e quantas vezes até de madrugada, dancei até próximo da loucura, em festas particulares, do liceu ou em espaços próprios, fosse no Jamaica, no Tokyo ou no 2001 no Estoril de onde saia com os ouvidos a apitar - desse modo conheci algumas miúdas bem giras.

Foi assim que me fiz uma pessoa inteira e livre e escolhi o meu caminho, acidentado é certo; mas graças ao qual, anos mais tarde conheci a minha mulher com quem casei para fazer família. Livre, com conhecimentos de causa - sabe Deus!

Nesse sentido suspeito que ainda estão por avaliar as mais profundas cicatrizes da paranóia do Covid19 na geração dos meus filhos. Que têm da minha parte total autorização de serem livres para gozarem em plenitude o que é próprio da sua idade.

Na clandestinidade se assim tiver de ser - diga-se.

O VI Marquês de Abrantes, o exilado

por João Távora, em 11.07.21

Vilafrancada.jpg

Esta é a trágica história de D. José da Piedade, meu 4º avô paterno. Reconhecido como VI Marquês de Abrantes ainda em vida do seu pai, que lhe sobreviveu, cedo se iniciou nas lides políticas a seu lado, tendo começado precocemente a pagar o preço de ser o primogénito de uma das casas mais nobres do Antigo Regime em estertor. Com aquilo que pude apurar, vejo-o como um espírito forte e carácter intrépido, porventura algo ingénuo ou voluntarista, que se tornou uma espécie de mártir do regime, por via da forma como se entregou às suas crenças e se empenhou nas causas a que foi chamado dar o corpo ao manifesto. Primeiro enfrentando os invasores franceses e depois na luta pela causa tradicionalista, pelos valores e convicções contra-revolucionários de que a sua família emergia e era pilar. Desse modo, cedo se tornou valido do Infante D. Miguel, com quem desenvolveu uma relação de grande cumplicidade e ao lado de quem participou em conspirações e intentonas, até cair em desgraça acusado dum alegado assassinato. Certamente não sabia que estava a lutar contra os ventos que a História seguiria, e por isso pagaria um elevado preço. Todos nós pagámos e continuamos a pagar os custos desse maldito espírito revolucionário a que o povo português é especialmente volúvel.

Filho de D. Maria Xavier de Lima e de Dom Pedro de Lancastre, D. José Maria da Piedade de Lancastre Silveira Castelo Branco de Almeida Sá e Meneses nasceu em 1784 e foi o VI Marquês de Abrantes. Começou por seguir a carreira militar aos 17 anos como era próprio de um rapaz com aquele estatuto, tendo logo sido nomeado Ajudante de Campo do Marechal Duque de Lafões. Foi pouco mais de um ano depois de casar com D. Helena Vasconcellos e Sousa que viria a interromper o seu serviço no exército em 1807: por ocasião da primeira invasão francesa viu-se na obrigação de acompanhar o seu pai, presidente do Conselho de Regência, a Baiona numa delegação portuguesa para prestar vassalagem a Napoleão e negociar a entrega da coroa portuguesa que como sabemos se ausentara para o Brasil. Na sequência disso, perante as notícias da revolta dos portugueses apoiados pelos ingleses contra os invasores, com o seu pai sofre um grande revés, ficando detido em França como refém do Imperador até ao final das Guerras Peninsulares em 1814. Curiosamente chegam-nos notícias que durante esse cativeiro José da Piedade, então com 25 anos, tirou o curso agrícola do botânico André Thorin enquanto esteve detido em Paris. Regressado a casa mantém o gosto pela matéria e constitui-se sócio correspondente da Academia Real das Ciências de Lisboa.

Da sua vida política sabe-se que José da Piedade, envolvido nos negócios da corte, cedo abraçou a causa tradicionalista com o Infante Dom Miguel de quem foi valido. Dessas andanças lhe advém a maior das desgraças, envolvido que estivera nas insurreições da Vilafrancada e da Abrilada, e pior que tudo, com a acusação da autoria em conluio com Dom Miguel do alegado assassinato do Marquês de Loulé em Salvaterra de Magos, na noite fatídica de 29 de Fevereiro de 1824. Esse acontecimento irá valer-lhe a prisão, o exílio, e inevitavelmente o ostracismo da corte, incluindo de Dom Miguel também ele em posto em maus lençóis, enviado de castigo em passeio pela Europa por ordem de seu Pai depois da Abrilada.

salvaterra.jpeg

O que se terá passado em Salvaterra de Magos, onde uma boa parte da corte, fracturada nas duas facções beligerantes, se reunia no teatro do Paço local para celebrar o Carnaval em grande folguedo na companhia de Dom João VI, a ensaiar a farsa Manuel Mendes Enxúndia de António Xavier Ferreira de Azevedo e uns quantos “arremedilhos” (um antigo género de teatro baseado em imitações, comummente de figuras públicas) com que abrilhantariam a Terça-feira Gorda?

Para lá da jornada de festa, estavam de facto em acirrado confronto naqueles anos que antecedem a Guerra Civil, duas concepções antagónicas do Estado: o fundamento religioso e realista do mesmo – as velhas estruturas nacionais fundadas nas famílias e na religião, e o representativo e proto-republicano apoiado pela academia ascendente e pela maçonaria afrancesada, a “pestilenta cáfila dos pedreiros-livres”. Ao meio deste assanhado antagonismo, Dom João VI procurava empenhadamente os equilíbrios, que se mostravam insustentáveis. A disputa era fratricida.

A morte do Marquês de Loulé, Estribeiro Mor e pessoa muito próxima do Rei, naquelas misteriosas circunstâncias e sob um clima de acirrada intriga política, constituiu na época um enorme escândalo. Na sequência de um inquérito (devassa) imediatamente mandado instaurar por D. João VI, iniciado no dia seguinte em Salvaterra, foram inquiridas 130 testemunhas, num longo processo que resultou inconclusivo e foi encerrado um ano depois. Se para uns a morte de Loulé não teria passado de um terrível acidente, ocorrido na sequência de uma queda por uma “porta” que saía dum escuro corredor directamente para um saguão com quatro metros de altura, que ali surgira na sequência da derrocada do edifício anexo entretanto ardido, sob o “efeito dos vapores do álcool” que o sinistrado teria bebido durante o serão de ensaios e folia; para grande parte das testemunhas o acontecimento fora um crime perpetrado a mando de Dom Miguel em conivência com D. José da Piedade e o Sota Leonardo Joaquim Cordeiro, com 40 anos, cocheiro das reais cavalariças e pessoa muito próxima do Infante, morador nos Anjos e em casa de quem viria a reunir com os oficiais do exército na preparação da Abrilada. Sob suspeita estava também D. Francisco de Sales Lancastre, o único filho natural reconhecido ao VI Marquês de Abrantes então com 24 anos e que nessa ocasião acompanhava o seu pai. Tendo também sido interrogado como testemunha na devassa, não foi assinalado qualquer ilícito contra ele. Outras testemunhas porém atribuíram culpas a conspirações maçónicas, como é o caso de José da Piedade, que declarou na devassa ter-lhe sido dito por D. Miguel que o assassinato afinal “seria obra de pedreiros livres, por não querer o Marquês [de Loulé] fazer alguma coisa que eles lhes pedissem”. Pelo que nos é dado ver nas devassas transcritas no livro de António Cabral “Uma Tragédia na Corte - A Morte do Marquês de Loulé” (1936), todas elas constituem meras opiniões, sendo difícil através das mesmas chegar a conclusões irrefutáveis. 

Marquês_de_Loulé.png

Para a desgraça do Marquês de Abrantes, apenas um mês depois vai assumir grande protagonismo ao lado de Dom Miguel na Abrilada, um pronunciamento que resulta na capitulação deste (contra a vontade do Marquês de Abrantes) perante a posição intransigente do rei Dom João VI que mandaria prender os principais partidários do filho. Esta derrota resultaria na retirada “punitiva” do Infante para uma viagem pela Europa e na expulsão do Marquês de Abrantes para o exílio, depois de passar pelos calabouços da Torre de Belém onde os interrogatórios seriam de novo retomados para o inculpar do assassinato de Loulé. Estava Dom José da Piedade caído definitivamente em desgraça.

Advém desse facto que num Decreto Real de indulto publicado em 24 de Junho de 1825 a acusação ao VI Marquês de Abrantes é mantida sendo condenado ao exílio com os mais próximos participantes no pronunciamento. Nesse decreto pode ler-se a páginas tantas: 

“Da generalidade d’este indulto e perdão exceptuo somente os indivíduos, que mais se cumplicaram e manifestaram constituindo-se como chefes, e fautores da federação para tão abomonáveis crimes, os coaes deverão sahair em direitura para fora dos meus reinos, e não poderão voltar a eles, sem expressa licença minha, expedindo-se-lhes para esse effeito os passaportes necessários. Com esta limitação de que não pode prescindir a Minha indefectível justiça, gozarão estes mesmos réos das outras graças aos mais. Os exceptuados vão inscriptos na relação junta, assignada por Fernando Luís de Sousa Barradas, do meu Conselho de Estado e Meu ministro e Secretário d’ Estado dos Negócios Ecclesiasticos e de Justiça a qual faz parte do presente decreto.”

Eram eles os infelizes “exceptuados”: D. José da Piedade - Marquês de Abrantes; Inácio António de Paiva Raposo - Tenente de Caçadores 6; Dr. António de Paiva Raposo – Advogado; Carlos António de Gambôa – Ten. Corel. De Milicias de Trancoso; Manoel António Cotta Coelho de Araújo – Médico; Sebastião Duarte de Ponte de Andrade Negrão – Cap. Mor de Albufeira; José Veríssimo – Sarg. De Cavalaria da Polícia e o Leonardo Joaquim Cordeiro – Sota das Reais Cavalariças.

Mas importa, antes de continuarmos, saber quem era afinal Agostinho Domingos José de Mendoça Rolim de Moura Barreto, o Marquês de Loulé, estribeiro-mor de D. João VI. Era homem da confiança do rei que fora em tempos maçon de grande importância, tendo chegado a ser condenado à morte por traição, pela sua participação ao lado das tropas napoleónicas nas invasões francesas. Desse crime viria a ser perdoado por Dom João VI, na sequência duma viagem que empreendera ao Brasil com o propósito de lhe implorar perdão. Partidário das ideias liberais, a sua carreira política e militar alimentou uma forte rivalidade e hostilidade entre ele e o VI Marquês de Abrantes.

Palacio_MAbrantes.jpg

Considerado como o principal suspeito, recusando todas as acusações que sobre si incorriam, o meu 4º avô defendeu sem sucesso a tese de que o assassinato do Marquês de Loulé podia bem ter sido congeminado pelos seus antigos companheiros da maçonaria por causa da sua deserção ou até pelo facto de possuir segredos que os outros maçons, entre os quais o conde de Paraty, receavam pudessem vir a ser divulgados.

Aconteceu posteriormente que o VI Marquês de Abrantes foi preso na raia de Espanha para onde tentava escapar depois de falhada a Abrilada. Assim regressou aos calabouços da Torre de Belém, e sendo de novo interrogado, entra em graves contradições: por um lado defendendo a certeza da inocência do Infante, mas por outro afirmando que aquele Senhor “guardava grande reserva e dissimulação no que queria”, insinuando as suas suspeitas por saber da aversão que o Infante nutria por Loulé “por motivos particulares a que não estava autorizado a referir-se”, como por lhe parecer uma espécie de “reparação” a nomeação pelo Infante do filho natural de Loulé como seu camarista após a tragédia. Este testemunho desastrado, que revela um homem desesperado e abandonado, temendo pela pior das sortes, chegaria por certo ao conhecimento de Dom Miguel. De acordo com os ofícios do embaixador de Portugal na corte austríaca para Lisboa, Dom Miguel não mais abriu a correspondência do seu valido D. José da Piedade, a quem apelidaria de “desavergonhado”, e que do seu exílio em Londres implorava uma audiência que nunca aconteceu.

Noticia_morte_VImarques_abrantes.jpeg

Não sabemos até que ponto o Infante Dom Miguel estaria a agir em plena liberdade, tanto mais que permanecia “de castigo” em Viena, também ele num “exílio” ordenado pelo seu Pai, que era o Rei de Portugal, e a quem o embaixador respondia. Certo é que tendo o meu 4º avô morrido em 1827, não podemos saber qual seria a atitude do Infante para com ele, que afinal depois de regressar a Lisboa em 1828 continuaria a relacionar-se com o Sota Leonardo Joaquim Cordeiro, também ele feito bode expiatório e condenado ao exílio, pessoa de grande proximidade ao Marquês de Abrantes, de quem aliás tinha repetido na devassa os mesmos testemunhos ambíguos, nomeadamente que pelo facto do Senhor Infante nunca mais ter falado da morte de Loulé concluía que ele “ou por si ou por outrem tinha conduzido aquelle delicto para os fins que tinha em vista, que provavelmente erão os de trinta de Abril [a Abrilada], e os com elle conexos”.

Como terá passado o meu avô esses dois anos em exilio permanece um mistério. Que eu saiba não se encontra na posse da família qualquer correspondência desse período – mas por aquilo que nos chegou e que relato na crónica anterior, nessa altura a Casa de Abrantes não estaria ainda refeita de uma grave crise financeira. Julgando estar incluído na amnistia promulgada aquando da morte de D João VI, D. José da Piedade ainda tentou voltar a Lisboa, não tendo porém o ministério deixá-lo desembarcar. Tendo regressado a Londres onde chegou em Novembro de 1826, foi aí que estranhamente em Fevereiro do ano seguinte morreu de uma apoplexia, por ocasião duma visita ao embaixador de Portugal, suspeitando-se na família que tenha sido assassinado por envenenamento. Segundo notícia do jornal “Evening Mail” de 19 de Fevereiro de 1827 os seus restos mortais foram depositados nas criptas do templo católico de Moorfields, onde decorreram as cerimónias fúnebres, a que compareceram o próprio embaixador e muitos portugueses que viviam em Londres.

DHelena.jpg

Cerca de um ano depois, morreria o V Marquês de Abrantes. Por cá ficaria a Marquesa de Abrantes, D. Helena Vasconcellos e Sousa, a criar dois filhos pequenos, Pedro Maria e José Maria, ao mesmo tempo que procurava resgatar a Casa de Abrantes da ruína financeira. Filha dos Marqueses de Castelo Melhor, nascida em 1786, tem o seu retrato lugar de honra na minha casa: como conta o meu pai, “D. Helena foi senhora de carácter forte e intrépido e também como o marido, fiel partidária de Dom Miguel”. E com uma certa ironia, depois da morte do seu marido abandonado por todos em Londres, foi ela quem organizou a chamada “Pensão Alimentícia” ao Senhor Dom Miguel, recolhida de um grande número de seus partidários em Portugal. Acrescenta o meu pai que “ao ficar viúva, soube chamar a si a educação dos seus filhos, regendo e administrando a Casa, que ficara muito diminuída com a vitória do partido liberal”. Para reforçar a ideia do génio que possuía a Marquesa D. Helena, conta o meu pai que, não tendo ela aceitado bem o casamento do seu filho mais velho D. Pedro Maria da Piedade (VII Marquês de Abrantes) com a  filha dum desembargador, D. Joana Perpétua Feo Sanches Guião, “sempre ela se recusou a receber em casa o seu filho e nora”, atitude tão excêntrica “visto que, tendo o VI Marquês de Abrantes morrido antes da extinção dos morgadios, ficara sendo seu filho primogénito o único senhor de toda a Casa”. D. Pedro, diga-se, morreu aos 31 anos sem deixar geração, tendo a administração da Casa sido herdada pelo seu irmão José. 

Nunca na família se verificou qualquer rancor a estas desventuras do VI Marquês de Abrantes com o Infante Dom Miguel, tão angustiantes quanto mal contadas. Até o seu filho segundo, com o mesmo nome, Dom José de Lancastre, aquele austero poeta e filósofo que anteriormente biografei, foi um fiel partidário Tradicionalista. Dele, D. João de Almeida publica postumamente “Algumas notas coligidas em Bronnbach, após o falecimento de El-Rei D. Miguel I, pelo Sr. Marquês de Abrantes Dom José de Lancastre, sobre o assassínio do Marquês de Loulé em Salvaterra, e narrando a despedida do Senhor Dom Miguel de seu pai a bordo da nau inglesa, quando o Sr. Infante depois da Abrilada, foi mandado viajar pela Europa”. Uma brochura com que pretende provar a inocência do seu rei e do seu pai neste trágico evento, da qual possuo um exemplar.

Talvez não seja estranho a tudo isto que, da longa galeria de retratos dos marqueses de Abrantes e seus ascendentes que era propriedade da Casa de Abrantes (com alguns dos quais convivi quotidianamente), não exista qualquer imagem, pintura, desenho ou aguarela do VI Marquês de Abrantes com que era comum desde o século XVI a família perpetuar na história as seus maiores e principais personalidades. Dom José da Piedade, o exilado, é o único senhor da Casa que tendo chegado à idade adulta não possui qualquer imagem ou representação gráfica. Com uma existência curta, tão agitada quanto aventureira, imagino que pouco tempo deve ter tido para comungar com os seus filhos e mulher uma vida normal, muito menos terá tido sossego para posar umas dúzias de horas à frente dum retratista. 

Mas parece-me que o mais irónico que retiramos desta história toda plena de matizes e mistérios, é de como a Casa de Abrantes não muito tempo depois dela se viria de novo cruzar com a família Loulé, nomeadamente através do aluguer de parte do seu Palácio em Santos em 1853, então sob administração do filho segundo do VI Marquês, à infanta D. Ana de Jesus Maria casada com o 2.º Marquês e 1.º Duque de Loulé. Ironias do destino.

xxxxx

Imagens:

1) Chegada a Vila Franca do Inafante Dom Miguel

2) Aspecto do Real Teatro de Ópera de Salvaterra de Magos, hoje totalmente desaparecido.

3) Retrato de Domingos José de Mendoça Rolim de Moura Barreto, o Marquês de Loulé

4) Palácio dos Marqueses de Abrantes em Santos - Lisboa

5) Retrato da Marquesa de Abrantes, D. Helena Vasconcelos e Sousa

Fontes:

"A Heráldica da Casa de Abrantes", vol. 2 do Tomo 4, por Luís de Lancastre e Távora

"Le Palais de Santos" por Pierre Samoyault

"Quinta de Nossa Senhora da Piedade - História do Seu Palácio Jardim e Azulejos" por Celso Mangucci

“Patrocínio e «Performance Practice» em Lisboa e proximidades na segunda metade do século XVIII e começo do século XIX” Joseph Scherpereel - Revista Portuguesa de Musicologia, 1999

Documentos de família e testemunhos orais

Com um agradecimento especial ao meu amigo e bom conselheiro Nuno Pombo

Domingo

por João Távora, em 11.07.21

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo, Jesus chamou os doze Apóstolos e começou a enviá-los dois a dois. Deu-lhes poder sobre os espíritos impuros e ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, a não ser o bastão: nem pão, nem alforge, nem dinheiro; que fossem calçados com sandálias, e não levassem duas túnicas. Disse-lhes também: «Quando entrardes em alguma casa, ficai nela até partirdes dali. E se não fordes recebidos em alguma localidade, se os habitantes não vos ouvirem, ao sair de lá, sacudi o pó dos vossos pés como testemunho contra eles». Os Apóstolos partiram e pregaram o arrependimento, expulsaram muitos demónios, ungiram com óleo muitos doentes e curaram-nos.

Palavra da salvação.

Comentário: A missão dos Apóstolos é puro dom do Senhor; Ele escolhe os que quer, e envia-os a anunciar uma mensagem de salvação que vem d’Ele, o Salvador. E de tal maneira eles anunciam uma mensagem que não é sua, mas de Jesus, que não deverão ir apoiados em seguranças humanas, mas somente no dom do Senhor que os envia.

À conquista da liberdade

por João Távora, em 06.07.21

sala aula.jpg

Faz-me muita impressão a quantidade de moralistas por aí a julgar os pais dos alunos da escola de Famalicão por terem princípios e quererem aplicá-los na educação dos seus filhos. Esquecem-se que a coerência é a única maneira de nos fazermos entender com as crianças. Toda esta novela que ainda não acabou, é uma lição de amor condenada ao sucesso (a felicidade dos filhos), porque estes miúdos são uns privilegiados - têm pais que olham por eles.

Mal andam os pais que delegam acriticamente a responsabilidade da formação dos seus filhos ao Estado e às modas das maiorias ruidosas de circunstância.

O triângulo de género

por João Távora, em 05.07.21

nuno-lobo-o-triangulo-de-genero-figura.jpg

(...) "A explicação do triângulo de género mostra bem que há ainda todo um debate que está por fazer com o contributo de todos: cientistas das áreas biomédicas, filósofos, investigadores das áreas sociais e políticas, juristas, profissionais da saúde, educadores de infância, professores, famílias e alunos.

Se a decisão do Tribunal Constitucional servir apenas para os deputados verterem em lei as normas que agora foram consideradas inconstitucionais, então não serviu para grande coisa. Se for o toque de alvorada da sociedade civil e partidos políticos para uma questão que é nova, polémica e complexa, então terá valido a pena."

A ler na integra este artigo de Nuno Lobo no Observador, aqui.

Acidentes da natureza

por João Távora, em 29.06.21

Como são diferentes as coisas em Portugal e em Inglaterra. Lá, um ministro da saúde é apanhado a pregar um xôcho na secretária, e demite-se. Por cá o carro onde viaja o ministro da administração interna atropela mortalmente um trabalhador na estrada e fica a reclamar que foi por falta de sinalização.
Na verdade seria extremamente improvável uma secretária a beijar o Cabrita.

 

O V Marquês de Abrantes, ou o "Marquês Velho"

por João Távora, em 27.06.21

D_Pedro_Lancastre_V_Marques_Abrantes.jpg

Inicialmente, pensei em escrever esta crónica sobre o V e o VI Marquês de Abrantes em simultâneo porque o que nos chega das suas vidas mostram-nas bastante embrulhadas, entre as invasões dos franceses e as lutas contra os liberais, ou seja, ambos com excepcional protagonismo na viragem das mais trágicas páginas da História de Portugal. Refiro-me a D. Pedro de Lancastre, VII Conde de Vila Nova de Portimão e V Marquês de Abrantes – título e mercês que resgata à sua tia-bisavó, D. Maria Margarida de Lorena, IV Marquesa de Abrantes, que morreria sem geração - e seu filho José Maria da Piedade, VI Marquês de Abrantes, que no meio do turbilhão das lutas entre legitimistas e liberais morreria em 1827 com 43 anos desgraçadamente exilado em Londres longe da família, um ano antes do pai.

Mas concentremo-nos em D. Pedro de Lancastre, personalidade porventura excêntrica, sensível às artes e amante do requinte, chefe de uma das mais exuberantes casas nobres do Antigo Regime, de quem nos chegam testemunhos depreciativos através dos diários de William Beckford e das memórias do Marquês de Bombelle, embaixador de França em Lisboa entre 1786 e 1788, ambos o considerando “ridículo”, nomeadamente as suas “infantis e ostensivas manifestações piedosas”.   

No entanto foi o V Marquês de Abrantes o nomeado pela coroa como Presidente do Conselho de Regência na retirada da Família Real para o Brasil, sob “severas recomendações” deixadas pelo Príncipe Dom João para, em defesa da ordem pública, receber o exército francês invasor como “aliado”. Desse cargo viria a ser demitido três meses depois por Junot. Ainda assim, foi escolhido para integrar uma delegação portuguesa a Bayonne para a humilhante tarefa de cumprimentar Napoleão, coisa que terá feito certamente a contragosto acompanhado pelo seu filho primogénito José Maria de Lancastre. Certo é que, perante as notícias da revolta dos portugueses apoiados pelos ingleses contra os invasores, os dois ficaram detidos em França como reféns até ao final da Guerra Peninsular em 1814. Não tendo propriamente estado presos num carcere, presumem-se terem estes anos sido muito duros para os meus antepassados.

Sobre os gastos sumptuários do V Marquês de Abrantes, sabemos que Dom Pedro de Lancastre foi responsável por grandes obras no Palácio de Santos, empreendidas entre 1802 e 1805, incindindo sobre duas grandes áreas do edifício: o corpo principal da ala fronteira e respectivo acrescento de dois vãos, a ala paralela ao Tejo sobre os jardins, e a construção do coro da Igreja de Santos o Velho que inclui as duas grandes tribunas actualmente existentes, uma para a família e a outra para a Irmandade do Santíssimo de Santos o Velho. São da mesma altura os trabalhos de ornamentação das salas de recepção: casa de jantar, galeria e salão principal, orientadas por Felizberto António Botelho que dirigia uma equipa que chega a ser constituída por dez pintores, alguns deles artistas consagrados. Nem sonhava o “marquês velho”, como viria a ser chamado, os tempos conturbados que se aproximavam – não posso deixar de concluir que a má leitura das realidades da época evidenciada por esta figura representativa do antigo regime é prenúncio da sua queda.

Do bom gosto e erudição do V Marquês de Abrantes decorre também o seu apoio à música como refere Joseph Scherpereel num artigo publicado em 1999 na Revista Portuguesa de Musicologia, “Patrocínio e «Performance Practice» em Lisboa e proximidades na segunda metade do século XVIII e começo do século XIX”, tendo Dom Pedro de Lancastre chegado a desembolsar uma média anual entre seiscentos e setecentos mil réis (uma soma avultada para a época) em patrocínios musicais no decénio de 1790.

De resto a má gestão da Casa de Abrantes não estará certamente desligada do enorme rasto de filhos bastardos (comportamento já não muito aceitável na época) que Dom Pedro de Lancastre deixa para trás, dos quais legitimou três, o terceiro deles filho de Plácida Scapesis, cantora lírica italiana. Era literal e definitivamente um grande amante da música.

Certo é que Dom Pedro de Lancastre foi “demitido” da administração da Casa de Abrantes por decreto régio que a atribui ao seu filho José Maria da Piedade, assim como o uso do título de Marquês em vida do seu pai, facto que não sendo caso único, era pouco comum na época – a intervenção da coroa na “defesa” das grandes casas senhoriais - e terá certamente causado algum escândalo na sociedade.

palacio abrantes marvila.jpg

Casado com D. Maria Joana Xavier de Lima, filha dos primeiros Marqueses de Ponte de Lima, dessa união teve quatro filhos. Com uma vida aventurosa e acidentada, profundamente ligado à causa legitimista de Dom Miguel, ainda teve tempo de com ele participar na insurreição Vilafrancada, tendo-se retirado depois para o Palácio de Marvila onde morre em 1828 um ano depois da nomeação de uma junta administrativa para evitar a falência da sua Casa provavelmente sem saber porque fora nomeado Par do Reino por Dom Pedro IV um ano antes. O País ainda mal refeito das invasões francesas estava prestes a entrar em guerra civil, o seu filho mais velho morrera em Londres - suspeita-se que assassinado pelos seus adversários políticos por envenenamento – e a viúva Helena Vasconcelos e Sousa, tomava em suas mãos a administração da Casa e segurava o património de família. É sobre a vida trágica do seu marido e meu quarto avô, o VI Marquês de Abrantes, que versa a próxima crónica.

Legendas das fotografias:

  • Fotografia 1 

Dom Pedro de Lancastre, aguarela da autoria de Sta. Bárbara. 

  • Fotografia 2

Palácio do Marquês de Abrantes em Marvila

Fontes: 

"A Heráldica da Casa de Abrantes", vol. 2 do Tomo 4, por Luís de Lancastre e Távora

"Le Palais de Santos" por Pierre Samoyault

"Quinta de Nossa Senhora da Piedade - História do Seu Palácio Jardim e Azulejos" por Celso Mangucci

“Patrocínio e «Performance Practice» em Lisboa e proximidades na segunda metade do século XVIII e começo do século XIX” Joseph Scherpereel - Revista Portuguesa de Musicologia, 1999

Documentos de família e testemunhos orais.

Publicado originalmente aqui

Domingo

por João Távora, em 27.06.21

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo, depois de Jesus ter atravessado de barco para a outra margem do lago, reuniu-se uma grande multidão à sua volta, e Ele deteve-se à beira-mar. Chegou então um dos chefes da sinagoga, chamado Jairo. Ao ver Jesus, caiu a seus pés e suplicou-Lhe com insistência: «A minha filha está a morrer. Vem impor-lhe as mãos, para que se salve e viva». Jesus foi com ele, seguido por grande multidão, que O apertava de todos os lados. Ora, certa mulher que tinha um fluxo de sangue havia doze anos, que sofrera muito nas mãos de vários médicos e gastara todos os seus bens, sem ter obtido qualquer resultado, antes piorava cada vez mais, tendo ouvido falar de Jesus, veio por entre a multidão e tocou-Lhe por detrás no manto, dizendo consigo: «Se eu, ao menos, tocar nas suas vestes, ficarei curada». No mesmo instante estancou o fluxo de sangue e sentiu no seu corpo que estava curada da doença. Jesus notou logo que saíra uma força de Si mesmo. Voltou-Se para a multidão e perguntou: «Quem tocou nas minhas vestes?». Os discípulos responderam-Lhe: «Vês a multidão que Te aperta e perguntas: ‘Quem Me tocou?’». Mas Jesus olhou em volta, para ver quem O tinha tocado. A mulher, assustada e a tremer, por saber o que lhe tinha acontecido, veio prostrar-se diante de Jesus e disse-Lhe a verdade. Jesus respondeu-lhe: «Minha filha, a tua fé te salvou. Vai em paz e fica curada do teu mal». Ainda Ele falava, quando vieram dizer da casa do chefe da sinagoga: «A tua filha morreu. Porque estás ainda a importunar o Mestre?». Mas Jesus, ouvindo estas palavras, disse ao chefe da sinagoga: «Não temas; basta que tenhas fé». E não deixou que ninguém O acompanhasse, a não ser Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago. Quando chegaram a casa do chefe da sinagoga, Jesus encontrou grande alvoroço, com gente que chorava e gritava. Ao entrar, perguntou-lhes: «Porquê todo este alarido e tantas lamentações? A menina não morreu; está a dormir». Riram-se d’Ele. Jesus, depois de os ter mandado sair a todos, levando consigo apenas o pai da menina e os que vinham com Ele, entrou no local onde jazia a menina, pegou-lhe na mão e disse: «Talita Kum», que significa: «Menina, Eu te ordeno: Levanta-te». Ela ergueu-se imediatamente e começou a andar, pois já tinha doze anos. Ficaram todos muito maravilhados. Jesus recomendou-lhes insistentemente que ninguém soubesse do caso e mandou dar de comer à menina.

Palavra da salvação.

Comentário: Dois milagres, em que Jesus Se manifesta o Senhor da vida. Mais de uma vez, Ele próprio Se definiu como sendo a Vida. É assim, porque é o Filho de Deus. Fazendo-Se homem, a sua humanidade é agora o instrumento, bem próximo de nós, da sua divindade, de sorte que aproximar-se d’Ele é aproximar-se da Vida, como o pôde experimentar a mulher doente e a filha de Jairo, que morrera. É pela fé que nos podemos aproximar de Jesus, fé que, nos sacramentos, nos leva a ver o prolongamento dos gestos do Senhor no meio dos homens.

Domingo

por João Távora, em 20.06.21

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele dia, ao cair da tarde, Jesus disse aos seus discípulos: «Passemos à outra margem do lago». Eles deixaram a multidão e levaram Jesus consigo na barca em que estava sentado. Iam com Ele outras embarcações. Levantou-se então uma grande tormenta e as ondas eram tão altas que enchiam a barca de água. Jesus, à popa, dormia com a cabeça numa almofada. Eles acordaram-n’O e disseram: «Mestre, não Te importas que pereçamos?». Jesus levantou-Se, falou ao vento imperiosamente e disse ao mar: «Cala-te e está quieto». O vento cessou e fez-se grande bonança. Depois disse aos discípulos: «Porque estais tão assustados? Ainda não tendes fé?». Eles ficaram cheios de temor e diziam uns para os outros: «Quem é este homem, que até o vento e o mar Lhe obedecem?».

Palavra da salvação.

Comentário: Se a contemplação da obra da criação nos pode levar a reconhecer a presença de Deus junto dos homens, quanto mais a contemplação das obras realizadas por Jesus Cristo, o próprio Filho de Deus feito homem? E mais ainda do que acalmar a tempestade no lago da Galileia, o Senhor sempre presente na barca da Igreja, continua a trazer a paz e a bonança ao seu povo batido pelas vagas na travessia do mar desta vida a caminho do porto seguro da glória celeste.

São as histórias que nos salvam

por João Távora, em 17.06.21

manuscrito.jpg

Vem-nos da infância o irresistível fascínio por histórias. Uma história que nos resgate do vazio, dos medos e angustias, da fria solidão que se esconde na camada mais interior de nós mesmos. Talvez por isso, naquele sombrio lusco-fusco de alma que era a hora de adormecer, da criança largar as amarras ao dia agitado pelos espantos, afectos e sensações novas, antes do mergulho no escuro, na ausência, fosse tão precioso consolo ouvir uma boa história contada pelo pai ou pela mãe à beira da nossa cama.

Se na infância é uma boa história que nos salva a vida, não o é menos na maturidade; afinal passamos a vida à procura de histórias, somos caçadores de histórias, que nos restabeleçam as energias e o ânimo para abraçar a luta diária de deveres e maçadas. É assim que nos descobrimos ávidos por uma história oculta num retrato todo formal, numas ruínas duma casa, numa obscura gravação sonora antiga ou nas glórias passadas exibidas em símbolos, num emblema ou brasão de armas ou através de testemunhos confidenciados em documentos amarelecidos pelos séculos. A perdermo-nos num nunca acabar de pistas e enigmas, de parentescos por desvendar, contradições que reclamem pela nossa curiosidade e atenção, e a não menos necessária especulação, que no fim do dia nos permita ganhar uma história que nos resgate para longe das nossas misérias, da nossa precaridade, que nos expanda para outros horizontes temporais e existenciais. A descodificar, a investigar as pontas soltas duma história mal contada, numa relação íntima, o mais das vezes um mensageiro do passado, a que nos rendemos como a um velho amigo. Através de frases que nos chegaram por testemunhos vividos (quase sempre temos direito a uma tia ou parente com uma memória prodigiosa, repositório de mil e uma histórias), caracteres desvendados em vetustas fotografias que carecem de nomes; feições ou trajes, recados nas entrelinhas de diários ou cartas. As condecorações retratadas ao peito dum ufano antepassado do século XIX dizem muito das suas andanças políticas…  

Se é esse o trabalho do historiador, sistematizado com as suas ferramentas, métodos científicos e ciências auxiliares, esta é também uma actividade eminentemente humana, responder à democrática inquietação que nos desafia a enfrentar o mistério, descobrir os dramas que se escondem à nossa volta, as peças escondidas de um puzzle sempre inacabado, que reclama pela nossa curiosidade e onde vamos à procura de mais humanidade, quem sabe o projecto de Deus lá escondido. Era isso que procurava o meu pai, que venho redescobrindo tardiamente pela sua obra historiográfica, estudos e publicações, em particular à volta da genealogia e da heráldica medieval. Agora percebo que o que ele pretendia não era apenas listar nomes e ligações genealógicas, ou enumerar as regras e as formas dos antigos “emblemas” de famílias ou comunidades geográficas. O que o meu pai procurava era conhecer as pessoas que daí emanavam e quem sabe descobrir alguma história. Porque a história é feita de histórias com pessoas lá dentro, de onde resgatamos a nossa humanidade.  

Domingo

por João Távora, em 13.06.21

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo, disse Jesus à multidão: «O reino de Deus é como um homem que lançou a semente à terra. Dorme e levanta-se, noite e dia, enquanto a semente germina e cresce, sem ele saber como. A terra produz por si, primeiro a planta, depois a espiga, por fim o trigo maduro na espiga. E quando o trigo o permite, logo se mete a foice, porque já chegou o tempo da colheita». Jesus dizia ainda: «A que havemos de comparar o reino de Deus? Em que parábola o havemos de apresentar? É como um grão de mostarda, que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes que há sobre a terra; mas, depois de semeado, começa a crescer e torna-se a maior de todas as plantas da horta, estendendo de tal forma os seus ramos que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra». Jesus pregava-lhes a palavra de Deus com muitas parábolas como estas, conforme eram capazes de entender. E não lhes falava senão em parábolas; mas, em particular, tudo explicava aos seus discípulos.

Palavra da salvação.

Comentário: A pregação de Jesus, ao apresentar o mistério do reino de Deus, e, depois, a pregação continuada na Igreja, é comparada a uma sementeira. O seu desenvolvimento é lento, mas constante e vigoroso, porque é forte a vitalidade da semente, que é a Palavra de Deus. É essa a vitalidade que a faz germinar, crescer, chegar à hora da colheita. A humildade dos começos não é obstáculo à grandeza que o reino de Deus há-de atingir na hora da ceifa.

A maçã de Adão

por João Távora, em 08.06.21

4e676089be901ea7c72b6b2d05bd4644.jpg

Talvez a festa dos 50 anos do Adão e Silva inclua uma cimeira de chefes de Estado, uma ópera, um festival de cinema, outro de teatro, um pavilhão novo no Parque das Nações e uma ida à Lua - eventos é connosco. Talvez assim justifique o orçamento - afinal temos de gastar a massa da bazuca, não é?

Agora a falar a sério: acho um enorme disparate um festejo demasiado ostensivo do regime pelos seus autoproclamados donos. Cada vez é mais evidente a fractura social entre os que pagam e os privilegiados que usufruem economicamente dele - com pensões, empregos e privilégios garantidos. Se assim for, previsívelmente as celebrações dos 50 anos do 25 de Abril irão resultar ao contrário do pretendido - o nível de rejeição vai ser muito alto, mais ainda se a previsível crise económica post-covid se confirmar para os próximos anos. Somos um país muito, muito empobrecido, dos mais pobres da Europa, pouco preparado para o que aí vem. Por isso é que esta comissão do Adão e Silva é chocante, e uma enorme falta de sensibilidade política.

Domingo

por João Távora, em 06.06.21

Leitura do Livro do Génesis

Depois de Adão ter comido da árvore, o Senhor Deus chamou-o e disse-lhe: «Onde estás?». Ele respondeu: «Ouvi o rumor dos vossos passos no jardim e, como estava nu, tive medo e escondi-me». Disse Deus: «Quem te deu a conhecer que estavas nu? Terias tu comido dessa árvore, da qual te proibira comer?». Adão respondeu: «A mulher que me destes por companheira deu-me do fruto da árvore e eu comi». O Senhor Deus perguntou à mulher: «Que fizeste?». E a mulher respondeu: «A serpente enganou-me e eu comi». Disse então o Senhor Deus à serpente: «Por teres feito semelhante coisa, maldita sejas entre todos os animais domésticos e todos os animais selvagens. Hás-de rastejar e comer do pó da terra todos os dias da tua vida. Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. Esta há-de atingir-te na cabeça e tu a atingirás no calcanhar».

Palavra do Senhor.

A propósito da gestão da crise sanitária…

por João Távora, em 02.06.21

Estava há bocado a ouvir o Rui Ramos no programa “E o resto é história” a desmontar falácia por falácia o celebre ensaio “A Causa da Decadência dos Povos Peninsulares” (deu-me tanto gozo, meu Deus!), tão bem escrito pelo mestre da prosa que foi Antero de Quental, suportado nos mais cientificos e estruturados preconceitos republicanos da época, terminando o historiador por asseverar que a historiografia actual reconhece que em termos relativos Portugal foi muito mais avançado nos séculos XVII e XVIII. Foi quando me apercebi da inquietação em que ficou o João Miguel Tavares e fiquei a pensar como estamos sempre a cair na mesma esparrela da arrogância de querer encaixar a realidade complexa em explicações simples e convenientes que tranquilizem e caibam na nossa cabeça quadradinha. 

Morrer na praia… ou por não querer viver

por João Távora, em 01.06.21

Oura.jpg

Estranho é encontrar tanta gente convencida que era possível convidar os ingleses para vir ver a bola e beber uns canecos ao Porto e obrigá-los (à bastonada?) a usar máscara e a circular com distanciamento. Na sua habitual crónica no Jornal Público, João Miguel Tavares explica explica como o governo inglês recusou a realização da final da Liga dos Campeões que este ano se realizava entre duas equipas inglesas em Wembley, um estádio neutro, por rejeitar as isenções de quarentena exigidas pela UEFA. Tenho para mim que a razão terá sido outra, o ónos político duma "experiência social" deste calibre, assustada que anda a opinião pública britânica. Já o governo português aceitou o risco (político, não sanitário, evidentemente) de trazer cá os bifes “como se o país fosse uma casa de câmbio desesperada pela liquidez da moeda estrangeira” e António Costa, “um empregado de pastelaria da praia da Oura, nos anos oitenta” a destratar os portugueses. Ou seja, o que o cronista releva essencialmente é que somos muito pobres e que, quarenta anos de socialismo depois, talvez com um pouco mais de sofisticação, continuamos a ser um país de hoteleiros, uma gigante esplanada da Europa à beira-mar - melhor que nada. E salienta que as restrições relativas ao Covid-19 são uma panaceia de gente rica, que não está ao alcance do nosso bolso enquanto a economia dos portugueses for tão dependente do turismo – só ontem aterraram em Portugal 53 voos vindos de Inglaterra – “condenados” a receber muitos milhares de turistas para alívio dos empresários e da autoridade tributária. Desconfio que quase tão difícil quanto nos libertarmos do socialismo que nos oprime, vai ser reaprendermos a viver em liberdade, sem restrições, que o pessoal habitua-se a tudo. Ou então, como já reclamam as carpideiras hipocondríacas, estaremos nós condenados neste Verão a morrer na praia infectados com a estirpe indiana?

 

Tags:

Dona Maria II de volta ao Palácio da Ajuda

por João Távora, em 25.05.21

Estandarte Real.jpg

Esta é uma fotografia do estandarte liberal com 138 x 202 cm bordado pela Rainha D. Maria II aos 10 anos que estará na origem do pavilhão azul e branco oficial da Monarquia Portuguesa até Outubro de 1910, pertencente na actualidade à Câmara Municipal de Angra do Heroísmo. O Vasco Rosa escreve no Observador sobre a exposição "D. Maria II. De princesa brasileira a rainha de Portugal" que estará patente ao público a partir de amanhã no Palácio da Ajuda. Leia aqui



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes


Links

Muito nossos

  •  
  •  
  • Outros blogs

  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2021
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2020
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2019
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2018
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2017
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2016
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2015
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2014
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2013
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2012
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2011
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2010
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2009
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2008
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D
    183. 2007
    184. J
    185. F
    186. M
    187. A
    188. M
    189. J
    190. J
    191. A
    192. S
    193. O
    194. N
    195. D
    196. 2006
    197. J
    198. F
    199. M
    200. A
    201. M
    202. J
    203. J
    204. A
    205. S
    206. O
    207. N
    208. D


    subscrever feeds