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Uma república coroada?

por João Távora, em 15.03.26

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Marcelo Rebelo de Sousa e a sua Casa Civil, durante o mandato agora encerrado, sempre trataram a Família Real Portuguesa, em especial os Duques de Bragança, com elevado respeito pessoal e institucional nos (não poucos) eventos de Estado em que se justificou a sua presença como representantes dos reis de Portugal.

Agora, são bons os sinais que vêm do novo inquilino de Belém. Para a recepção inaugural do seu mandato realizada no Palácio da Ajuda no passado dia 9, António José Seguro teve a delicadeza de convidar os Duques de Bragança àquela casa que foi dos seus avós. Mostrou grandeza.

Na minha opinião, além da sua própria agenda, já de si exigente em face dos recursos de uma Casa Real não reinante, e sempre que solicitada, ela tem o dever participar na vida pública do regime em que lhe é oferecido viver. Os portugueses, com quase 900 anos de história merecem o Rei.

A participação da Casa Real em actos públicos especiais da república é justificada por uma legitimidade histórica, alicerçada no compromisso que assumiu perante as instituições nacionais e o povo português. Ao marcar presença nestes eventos, a Família Real não apenas honra o passado, mas também reafirma o seu papel actual na vida pública, demonstrando assim o regime respeito pelas suas tradições e história.

Este envolvimento não diminui em nada a dignidade ou a essência da Casa Real, mesmo quando as suas acções se desenvolvem no seio das instituições republicanas. Pelo contrário, evidencia uma postura de serviço desinteressado e uma disponibilidade para colaborar em iniciativas que valorizam a coesão nacional, o património cultural e histórico nacional.

Veja-se como a descomplexada república da Roménia convoca a sua Casa Real pela pessoa da Princesa Margarida “guardiã da coroa” para participar nos principais acontecimentos nacionais, como a abertura do parlamento e outras cerimónias diplomáticas, uma Casa Real focada em questões culturais, históricas e de cooperação internacional, operando de forma paralela ao governo republicano. Restituído que foi à Família Real o Palácio Elisabeta em Bucareste, ela cumpre actualmente um importante papel agregador fundamental na promoção duma imagem de continuidade histórica da nação.

Se é verdade que a abertura da nossa Presidência choca com a sensibilidade dos mais acérrimos e zelosos republicanos com reminiscências jacobinas – que fruto dum natural processo de extinção são cada vez menos notados no espaço público – os protestos mais veementes, surpreendentemente têm vindo dos monárquicos fundamentalistas nas redes sociais que rejeitam aquilo a que chamam “subjugação”.

Conheço bem o universo dos monárquicos em Portugal. Se a maioria deles são desprendidos e cordatos simpatizantes, pessoas verdadeiramente realistas – por vezes militantes em diferentes partidos da paleta democrática – integradas profissional e academicamente no panorama político nacional e europeu, outros há que projectam para esta nobre Causa ressentimentos de guerras e traições antigas, afundando-se nas suas fundas trincheiras, em grupos cada vez mais restritos contra as injustiças do mundo. Afirmam-se monárquicos não porque acreditam nas virtudes dessa Chefia de Estado, mas como afirmação de “diferença”, revolta e rejeição da realidade. O problema é que, na sobreposição de sectarismos e causas perdidas, acabam sempre na mais completa esterilidade.

Entendamo-nos: jamais se poderá pretender um rei como um chefe de facção ou um caudilho, que venha resolver os sonhos frustrados dos perdedores, numa luta insana contra as mais terríveis conspirações engendradas pela realidade madrasta. Há partidos com grande potencial de acolhimento destes espíritos da sombra. Jamais um rei.

A modernidade, gostemos dela ou não, trouxe uma complexidade às sociedades modernas que é incompatível com modelos políticos ancestrais, idealizados quase sempre. Pela minha parte, considero um caso extraordinário, que Portugal, com a história vivida nos últimos 120 anos, tenha conseguido preservar uma Família Real exemplar como aquela que tem, uma reserva de valor incomensurável para a coesão das comunidades com origem na nossa língua, na nossa cultura, na nossa história. Nesse sentido é de realçar o papel que vem cumprindo o Senhor Dom Duarte na diáspora portuguesa. Onde houver uma comunidade que fale português, o Duque de Bragança lá vai, para ser recebido de braços abertos, na consolidação de pontes que ligam uma história comum que não pode ser esquecida. Foi disso exemplo a recente visita ao Bangladesh onde foi homenageado.

O regime que temos e os seus operadores, comunicação social incluída, deveriam dedicar-se com mais afinco a resgatar esta nossa preciosa instituição. Porque nem toda a fortuna é material, e porque há mais vida para lá das fatais lutas e intrigas políticas entre partidos e ideologias.

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Imagem: Sala do Trono no Palácio da Ajuda

Domingo

por João Távora, em 15.03.26

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo, Jesus encontrou no seu caminho um cego de nascença. Os discípulos perguntaram-Lhe: «Mestre, quem é que pecou para ele nascer cego? Ele ou os seus pais?». Jesus respondeu-lhes: «Isso não tem nada que ver com os pecados dele ou dos pais; mas aconteceu assim para se manifestarem nele as obras de Deus. É preciso trabalhar, enquanto é dia, nas obras d’Aquele que Me enviou. Vai chegar a noite, em que ninguém pode trabalhar. Enquanto Eu estou no mundo, sou a luz do mundo». Dito isto, cuspiu em terra, fez com a saliva um pouco de lodo e ungiu os olhos do cego. Depois disse-lhe: «Vai lavar-te à piscina de Siloé»; Siloé quer dizer «Enviado». Ele foi, lavou-se e ficou a ver. Entretanto, perguntavam os vizinhos e os que antes o viam a mendigar: «Não é este o que costumava estar sentado a pedir esmola?». Uns diziam: «É ele». Outros afirmavam: «Não é. É parecido com ele». Mas ele próprio dizia: «Sou eu». Perguntaram-lhe então: «Como foi que se abriram os teus olhos?». Ele respondeu: «Esse homem, que se chama Jesus, fez um pouco de lodo, ungiu-me os olhos e disse-me: ‘Vai lavar-te à piscina de Siloé’. Eu fui, lavei-me e comecei a ver». Perguntaram-lhe ainda: «Onde está Ele?». O homem respondeu: «Não sei». Levaram aos fariseus o que tinha sido cego. Era sábado esse dia em que Jesus fizera lodo e lhe tinha aberto os olhos. Por isso, os fariseus perguntaram ao homem como tinha recuperado a vista. Ele declarou-lhes: «Jesus pôs-me lodo nos olhos; depois fui lavar-me e agora vejo». Diziam alguns dos fariseus: «Esse homem não vem de Deus, porque não guarda o sábado». Outros observavam: «Como pode um pecador fazer tais milagres?». E havia desacordo entre eles. Perguntaram então novamente ao cego: «Tu que dizes d’Aquele que te deu a vista?». O homem respondeu: «É um profeta». Os judeus não quiseram acreditar que ele tinha sido cego e começara a ver. Chamaram então os pais dele e perguntaram-lhes: «É este o vosso filho? É verdade que nasceu cego? Como é que ele agora vê?». Os pais responderam: «Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego; mas não sabemos como é que ele agora vê, nem sabemos quem lhe abriu os olhos. Ele já tem idade para responder; perguntai-lho vós». Foi por medo que eles deram esta resposta, porque os judeus tinham decidido expulsar da sinagoga quem reconhecesse que Jesus era o Messias. Por isso é que disseram: «Ele já tem idade para responder; perguntai-lho vós». Os judeus chamaram outra vez o que tinha sido cego e disseram-lhe: «Dá glória a Deus. Nós sabemos que esse homem é pecador». Ele respondeu: «Se é pecador, não sei. O que sei é que eu era cego e agora vejo». Perguntaram-lhe então: «Que te fez Ele? Como te abriu os olhos?». O homem replicou: «Já vos disse e não destes ouvidos. Porque desejais ouvi-lo novamente? Também quereis fazer-vos seus discípulos?». Então insultaram-no e disseram-lhe: «Tu é que és seu discípulo; nós somos discípulos de Moisés. Nós sabemos que Deus falou a Moisés; mas este, nem sabemos de onde é». O homem respondeu-lhes: «Isto é realmente estranho: não sabeis de onde Ele é, mas a verdade é que Ele me deu a vista. Ora, nós sabemos que Deus não escuta os pecadores, mas escuta aqueles que O adoram e fazem a sua vontade. Nunca se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. Se Ele não viesse de Deus, nada podia fazer». Replicaram-lhe então eles: «Tu nasceste inteiramente em pecado e pretendes ensinar-nos?». E expulsaram-no. Jesus soube que o tinham expulsado e, encontrando-o, disse-lhe: «Tu acreditas no Filho do homem?». Ele respondeu-Lhe: «Quem é, Senhor, para que eu acredite n'Ele?». Disse-lhe Jesus: «Já O viste: é quem está a falar contigo». O homem prostrou-se diante de Jesus e exclamou: «Eu creio, Senhor». Então Jesus disse: «Eu vim a este mundo para exercer um juízo: os que não veem ficarão a ver; os que veem ficarão cegos». Alguns fariseus que estavam com Ele, ouvindo isto, perguntaram-Lhe: «Nós também somos cegos?». Respondeu-lhes Jesus: «Se fôsseis cegos, não teríeis pecado. Mas como agora dizeis: ‘Nós vemos’, o vosso pecado permanece».

Palavra da salvação.

Domingo

por João Távora, em 08.03.26

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo, chegou Jesus a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, junto da propriedade que Jacob tinha dado a seu filho José, onde estava o poço de Jacob. Jesus, cansado da caminhada, sentou-Se à beira do poço. Era por volta do meio-dia. Veio uma mulher da Samaria para tirar água. Disse-lhe Jesus: «Dá-Me de beber». Os discípulos tinham ido à cidade comprar alimentos. Respondeu-Lhe a samaritana: «Como é que Tu, sendo judeu, me pedes de beber, sendo eu samaritana?». De facto, os judeus não se dão com os samaritanos. Disse-lhe Jesus: «Se conhecesses o dom de Deus e quem é Aquele que te diz: ‘Dá-Me de beber’, tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água viva». Respondeu-Lhe a mulher: «Senhor, Tu nem sequer tens um balde, e o poço é fundo: donde Te vem a água viva? Serás Tu maior do que o nosso pai Jacob, que nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu, com os seus filhos e os seus rebanhos?». Disse-Lhe Jesus: «Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede. Mas aquele que beber da água que Eu lhe der nunca mais terá sede: a água que Eu lhe der tornar-se-á nele uma nascente que jorra para a vida eterna». «Senhor, – suplicou a mulher – dá-me dessa água, para que eu não sinta mais sede e não tenha de vir aqui buscá-la». Disse-lhe Jesus: «Vai chamar o teu marido e volta aqui». Respondeu-lhe a mulher: «Não tenho marido». Jesus replicou: «Disseste bem que não tens marido, pois tiveste cinco e aquele que tens agora não é teu marido. Neste ponto falaste verdade». Disse-lhe a mulher: «Senhor, vejo que és profeta. Os nossos antepassados adoraram neste monte, e vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar». Disse-lhe Jesus: «Mulher, acredita em Mim: Vai chegar a hora em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. Mas vai chegar a hora – e já chegou – em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade, pois são esses os adoradores que o Pai deseja. Deus é espírito e os seus adoradores devem adorá-l’O em espírito e verdade». Disse-Lhe a mulher: «Eu sei que há de vir o Messias, isto é, Aquele que chamam Cristo. Quando vier, há de anunciar-nos todas as coisas». Respondeu-lhe Jesus: «Sou Eu, que estou a falar contigo». Nisto, chegaram os discípulos e ficaram admirados por Ele estar a falar com aquela mulher, mas nenhum deles Lhe perguntou: «Que pretendes?», ou então: «Porque falas com ela?». A mulher deixou a bilha, correu à cidade e falou a todos: «Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será Ele o Messias?». Eles saíram da cidade e vieram ter com Jesus. Entretanto, os discípulos insistiam com Ele, dizendo: «Mestre, come». Mas Ele respondeu-lhes: «Eu tenho um alimento para comer que vós não conheceis». Os discípulos perguntavam uns aos outros: «Porventura alguém Lhe trouxe de comer?». Disse-lhes Jesus: «O meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que Me enviou e realizar a sua obra. Não dizeis vós que dentro de quatro meses chegará o tempo da colheita? Pois bem, Eu digo-vos: Erguei os olhos e vede os campos, que já estão loiros para a ceifa. Já o ceifeiro recebe o salário e recolhe o fruto para a vida eterna e, deste modo, se alegra o semeador juntamente com o ceifeiro. Nisto se verifica o ditado: ‘Um é o que semeia e outro o que ceifa’. Eu mandei-vos ceifar o que não trabalhastes. Outros trabalharam e vós aproveitais-vos do seu trabalho». Muitos samaritanos daquela cidade acreditaram em Jesus, por causa da palavra da mulher, que testemunhava: «Ele disse-me tudo o que eu fiz». Por isso os samaritanos, quando vieram ao encontro de Jesus, pediram-Lhe que ficasse com eles. E ficou lá dois dias. Ao ouvi-l’O, muitos acreditaram e diziam à mulher: «Já não é por causa das tuas palavras que acreditamos. Nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é realmente o Salvador do mundo».

Palavra da salvação.

Na hora do adeus

por João Távora, em 07.03.26

Chegada a hora da sua despedida, quando entre os jornalistas, comentadores e nas redes sociais toda a sorte de gente se aplica a atirar ovos podres e a vituperar Marcelo Rebelo de Sousa, gostava se salientar uma das suas qualidades que desconfio virei a ter saudades: Marcelo e a sua Casa Civil durante o seu mandato sempre tratou a Família Real Portuguesa, em especial os Duques de Bragança, com elevado respeito pessoal e institucional, nos (não poucos) eventos de Estado em que se justificou a sua presença como representantes dos reis de Portugal. Nisso Marcelo teve grandeza.

Veremos o que se segue.

Desventuras da minha Pátria

por João Távora, em 06.03.26

Tornei-me, por força das circunstâncias vividas no resgate financeiro de Portugal entre 2011 e 2014 admirador de Passos Coelho, pela sua capacidade de resistência à pressão política e social, e pelo sentido de Estado exibido na execução do duro programa, contra ventos e marés. A forma como as esquerdas se uniram numa insólita geringonça para gerir a seu gosto a expectável retoma da economia foi por certo um golpe difícil de encaixar e a dignidade exibida na sua retirada de cena notável. Cheguei a admitir que Passos Coelho não mais teria vontade de assumir as dores do nosso atraso persistente e assumir um retorno à ribalta. Tanto mais que tenho sérias dúvidas que haja uma sólida maioria de portugueses que aceitassem a terapia de que o país verdadeiramente (ainda) precisa.

São as mesmas dúvidas que tenho, que tais reformas sejam desejadas pelo eleitorado do Chega, como referia aqui há dias o Henrique Pereira dos Santos: por alguma razão André Ventura lidera um grupo parlamentar (tirando honrosas excepções mais parece um bando de marginais), que rejeita qualquer reforma que cause alguma perturbação ao status quo, defendendo constantemente em busca de aprovação popular despesa pública absolutamente desmedida. Será uma estratégia de “quanto pior, melhor”?

Por diferentes razões sou grande admirador do historiador Rui Ramos, cuja seriedade intelectual, capacidade de trabalho, investigação e produção erudita, sigo com atenção e proveito. Uma e outra figura da nossa vida pública são demonstração dum novo e mais evoluído panorama intelectual que emergiu no espaço público português, fruto da crescente estabilização da democracia nos moldes ocidentais.

Pelo atrás referido soa-me muito estranha a complacência destas figuras gradas do país com o Chega. Acreditam mesmo que o Chega se irá encher de brios e sentido de Estado para se tornar num fiável agente de mudança de direita? Acreditam mesmo que há uma maioria sociológica reformadora à direita no eleitorado e que o problema está na falta de audácia de Luís Montenegro? Vislumbram alguma estratégia de conversão de Ventura ao realismo político necessário a um Estadista que eu não esteja a ver? Custa-me a acreditar.

Estamos todos convidados

por João Távora, em 06.03.26

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Eis acabada de chegar às minhas mãos a prometida obra maior de Tomás A. Moreira, meu amigo e companheiro de luta nas lides monárquicas, o livro “No Terramoto de 1975” (que bem esgalhado o título!). Trata-se de uma minuciosa investigação documental, recolha de testemunhos e relatos de uma iníqua e revoltante história da prisão, no início do Verão Quente, do seu pai Ruy Moreira, o empresário de sucesso e fundador da fábrica Molaflex pelo poder revolucionário, cujos operários da fábrica ousaram confrontar, mesmo assim sem sucesso. Em consequência disso foram oito meses de cárcere sem julgamento ou culpa formada, um inferno infligido pelo poder militar pró-comunista a um homem inocente. Por apurar estão aos dias de hoje número de prisões arbitrárias ocorridas nesse período negro da nossa história de que me lembro bem, que se calculam terem sido acima de um milhar.

A obra, que é também um acto amor filial, será apresentado na próxima terça-feira dia 10 às 18,30hs na livraria Buchholz em Lisboa pelo historiador Rui Ramos. Estamos todos convidados.

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O que vale uma boa ideia?

por João Távora, em 01.03.26

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Parece-me fundamental reconhecermos que nem todas as boas ideias ou pensamentos sérios têm como objectivo principal a eficácia. Frequentemente, pensamentos profundos ou inovadores surgem sem a intenção de gerar resultados práticos imediatos, representando apenas a busca pela compreensão ou pela expressão intelectual.

Ademais, a eficácia de um pensamento não se define necessariamente pela sua capacidade de transformar ou convencer, mas sim pela forma como é comunicado, especialmente junto daqueles que discordam. Ou seja, o valor de uma ideia reside menos na sua aplicação concreta e mais no modo como consegue ser apresentada e discutida em ambientes de divergência, promovendo o diálogo e a reflexão. É da (boa) natureza humana.

Tomemos como exemplo a tese político-filosófica de António Sardinha, A Teoria da Nobreza, uma obra que se distingue pela sua perfeição formal e estética, escrita no início do século XX. Muito resumidamente, nessa tese, António Sardinha defende que há uma inclinação natural do operário para abandonar o trabalho físico e em gerações subsequentes ambicionar a fortuna, para depois, seja pelo seu sucesso no comércio ou pela manufactura, alcançar a erudição e aspirar a cargos de serviço aristocrático, numa dinâmica de crescente “democratização” da excelência. Apesar da solidez e profundidade desta reflexão, ironicamente, o contexto histórico das décadas seguintes foi marcado por uma aceleração sem precedentes do individualismo, em claro prejuízo da família tradicional, e o conceito de Nobreza foi confirmado pela modernidade como “um arcaísmo estéril”.

Como sabemos, este fenómeno traduziu-se numa degradação significativa das estruturas familiares, impulsionada pelos efeitos provocados pela democratização da contracepção e pela crescente liquefacção do casamento e da família natural, hoje com fraca reputação e utilidade, substituída que foi pelo Estado. O grande Leviatã de Thomas Hobbes prefere a indistinção e a padronização, a docilização e a domesticação dos indivíduos, ainda que esse fenómeno acarrete o seu alheamento da vida da comunidade, ou seja, a abstenção na construção e na preservação do que é de todos.

Posto isso, importa questionarmo-nos sobre a contemporânea decadência das elites, (ou talvez apenas do seu prestígio), subjugadas pelo imediatismo e igualitarismo da vida moderna, e a autofagia do sistema político pelo hiperindividualismo predominante.

A explicação pode ser encontrada no contexto político e social das democracias liberais que privilegiam a rápida obtenção de resultados (económicos ou eleitorais) e a valorização cultural do prazer imediato em detrimento do pensamento estruturado e da tradição, num processo de acentuada alienação colectiva. Consequentemente, as elites, que outrora detinham reconhecimento devido à sua erudição, capacidade de reflexão e serviço à coisa pública, enfrentam agora uma erosão do seu papel distintivo, perdendo espaço para o consenso igualitário e para a padronização promovida pelo Estado moderno.

Neste caldo cultural contemporâneo, contribui decisivamente para a decadência o já referido hiperindividualismo, que subtilmente alimenta uma dinâmica autofágica no sistema social e político. À medida que os indivíduos valorizam cada vez mais a autonomia pessoal em detrimento das estruturas familiares e comunitárias, observa-se uma atomização das bases tradicionais que sustentavam o prestígio das elites. Essa fragmentação é acelerada pela permissibilidade nos costumes e pela substituição das estruturas sociais básicas pelo Estado, o que resulta num ambiente de indistinção e domesticação dos indivíduos, afastando-os do envolvimento político e da preservação do bem comum.

Os Integralistas Lusitanos, de onde provém o já citado António Sardinha, tiveram razão antes de tempo. Viam na valorização do poder local, e nas suas instituições profundamente humanistas e personalistas, uma forma de promoção da liberdade das comunidades – logo, dos indivíduos – contra a cegueira do centralismo macrocéfalo, economicista, burocrático e quase sempre ideológico. Os concelhos e as freguesias (e antigamente as paróquias) seriam o nosso chão comum primário, comunidades de pertença fundamental, espaço privilegiado de realização humana, só ultrapassados em importância e proximidade pela célula familiar, o primeiro garante da liberdade. Os integralistas entendiam que só em sociedades muito evoluídas e participadas, chamemos-lhes “intrinsecamente democráticas”, é possível que a figura de topo do Estado não fosse eleita, porque historicamente e constitucionalmente legitimada. Refiro-me ao Rei – primum inter pares.

Para que serve então uma boa ideia, sem eficácia, portanto destinada ao desdém ou ao fracasso? Julgo que a utilidade de uma boa ideia é exactamente o oposto à das opiniões supérfluas que se sobrepõem e se digladiam nas redes sociais e caixas de comentários, numa enorme e ruidosa berraria. É uma contribuição a longo prazo, água na fervura nas resoluções imediatistas, que, subliminarmente, quem sabe, talvez um dia forneça alguma luz e razão, e desse modo os vindouros enfrentem com sucesso os seus desafios. Na busca do Bem, do Belo e do Verdadeiro, a tríade inseparável e superior defendida por Platão, onde o Bem é a forma suprema e fundamento de tudo.

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Domingo

por João Távora, em 01.03.26

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e levou-os, em particular, a um alto monte e transfigurou-Se diante deles: o seu rosto ficou resplandecente como o sol e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele. Pedro disse a Jesus: «Senhor, como é bom estarmos aqui! Se quiseres, farei aqui três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias». Ainda ele falava, quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra e da nuvem uma voz dizia: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O». Ao ouvirem estas palavras, os discípulos caíram de rosto por terra e assustaram-se muito. Então Jesus aproximou-Se e, tocando-os, disse: «Levantai-vos e não temais». Erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus. Ao descerem do monte, Jesus deu-lhes esta ordem: «Não conteis a ninguém esta visão, até o Filho do homem ressuscitar dos mortos».

Palavra da salvação.

Coisas que já (quase) não interessam a ninguém

por João Távora, em 27.02.26

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Num recente podcast da rádio Observador “Português Suave”, excelente programa sobre os enigmas que a língua portuguesa encerra realizado pelo linguista Marco Neves, foi abordado o tema das marcas que se tornaram nomes comuns como "tupperware", ou "Jeep" e outras. Nesse programa notei num erro, ou pelo menos uma omissão, quanto à origem do nome “Jeep” que considero pertinente esclarecer, até pela graça da história. Nele afirma-se que Jeep é uma marca, que com o tempo se tornou a designação de todos os veículos todo-o-terreno, e é aqui que importa explicar o equívoco. A marca a que Marco Neves se queria referir é a americana Willys, cujo modelo usado na II Guerra Mundial foi baptizado com o nome “Jeep” devido à coincidência da sua versatilidade com a do espantoso personagem "Eugene, the Jeep" das tiras de quadradinhos do Popeye, que apaixonou a América de então, em especial os militares deslocados para o teatro de guerra. Por causa disso, nas referidas viaturas e em diverso material bélico era pintado um decalque da mágica criatura, que os militares acreditavam dar sorte nas missões.

Eugene the Jeep é um fantástico ser mágico, uma ternurenta personagem amarela, com habilidades sobrenaturais, criada por E.C. Segar em 1936 para a banda desenhada Thimble Theatre (Popeye). Importado da África como presente para Olivia Palito, a namorada do Popeye, o "Jeep" é um animal sábio, capaz de comunicar por telepatia, adivinhar o futuro e atravessar dimensões, comunicando apenas com a palavra "Jeep".

Tempestade cerebral...

por João Távora, em 25.02.26

"Mas há um sentido mais existencial, e por isso mesmo mais grave, na queda de um príncipe. Não é apenas, nem sequer é sobretudo, a ideia de monarquia que é atacada com isto. É a própria ideia de elite. E a elite, a preservação das elites, importa ser defendida em modos mais convictos do que na sua versão aguada, que consiste simplesmente em acreditar na justiça social que leva os melhores (seja lá o que isso for) a serem recompensados. A ideia de que as elites devem ser preservadas, de que um país perde quando não procura manter os privilégios – essa palavra tão infame no vocabulário moderno – das suas elites perdeu todas as defesas que um dia pareceram óbvias e vale a pena recuperar algumas."

Carlos Maria Bobone no Observador.

Quem não sabe, não invente

por João Távora, em 24.02.26

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Há histórias que, ao longo dos anos, se entrelaçam nos cantos da memória colectiva, até que já não sabemos bem onde começa uma e acaba a outra. Tal é o caso de “Pedro e o Lobo”, obra musical composta por Serguei Prokofiev em 1936, e da fábula ancestral “O Pastor Mentiroso e o Lobo”, frequentemente atribuída a Esopo, escritor da Grécia Antiga conhecido pelas suas fábulas. Curiosamente, vem sendo a fama de uma a dar nome ao protagonista da outra – uma troca que diz tanto sobre a força da ignorância como sobre o poder das coincidências. Assim, comecemos por explicar o que é uma e outra coisa:

Prokofiev compôs “Pedro e o Lobo” a pedido do Teatro Central Infantil de Moscovo, com um objectivo pedagógico: ensinar às crianças os sons e os timbres dos instrumentos da orquestra. Cada personagem ganha vida através de um instrumento: Pedro, corajoso, representado pelas cordas; o pássaro, ágil, pela flauta; o pato, desajeitado, pelo oboé; o gato, furtivo, pelo clarinete; o avô, grave e ponderado, pelo fagote; e o lobo é evocado de forma ameaçadora pelas trompas. Os caçadores chegam com os tiros de percussão. A narrativa mistura aventura e aprendizagem, onde Pedro, com astúcia e a ajuda dos seus amigos animais, captura o lobo, transformando o medo em triunfo e a música em lição.

Por outro lado, encontramos a fábula “O Pastor Mentiroso e o Lobo”. Trata-se de um conto muito mais antigo, datado provavelmente do século VI a.C. e atribuído ao lendário Esopo, cuja obra atravessa séculos e fronteiras. Na fábula, um jovem pastor, aborrecido e ávido por atenção, grita “Lobo!” apenas para ver o alvoroço na aldeia. Quando, num certo dia o perigo se torna real e o lobo aparece, ninguém acredita no seu apelo, e as ovelhas foram devoradas pela fera. A moral é clara: quem mente perde a confiança dos outros. Curiosamente, o pastor nunca recebeu nome próprio nas versões clássicas; é apenas “o pastor”, uma figura anónima, personagem tipo, que serve de espelho à humanidade e aos seus vícios.

A coincidência surge ironicamente quando, devido à popularidade da peça de Prokofiev, jornalistas e contadores de histórias ignaros começaram a chamar “Pedro” ao pastor da fábula de Esopo. Não sei se se passa assim noutros países. Assim, no imaginário infantil, ambos os protagonistas – o corajoso menino da música russa e o mentiroso da fábula grega – tornaram-se um só. Mas é um erro, uma confusão: na verdade, o valente “Pedro” pertence exclusivamente à obra musical, enquanto o cobarde pastor da fábula não tem nome.

Para muitos talvez seja irrelevante o nome que damos aos protagonistas, mas é fascinante observar como uma peça musical do século XX acaba por influenciar a forma como contamos uma fábula com mais de dois milénios. A minha educação musical foi profunda e precocemente marcada pela obra de Serguei Prokofiev, e irrita-me solenemente que chamem Pedro ao pastor preguiçoso, e parece-me da maior conveniência a reposição da verdade neste aspecto. O universo agradece, e os Pedros também.

Domingo

por João Távora, em 22.02.26

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo Diabo. Jejuou quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome. O tentador aproximou-se e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’». Então o Diabo conduziu-O à cidade santa, levou-O ao pináculo do templo e disse-Lhe: «Se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: ‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’». Respondeu-lhe Jesus: «Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’». De novo o Diabo O levou consigo a um monte muito alto, mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória, e disse-Lhe: «Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares». Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto’». Então o Diabo deixou-O e aproximaram-se os Anjos e serviram-n'O.

Palavra da salvação.

A prisão de André Mountbatten-Windsor

por João Távora, em 19.02.26

A detenção do irmão do Rei de Inglaterra esta quinta-feira “por suspeita de má conduta no exercício de cargo público” constitui um escândalo para um monárquico que exige dos elementos que representam essa instituição uma conduta irrepreensível.

Por outro lado, essa detenção é em si um sinal de que os britânicos podem confiar no seu sistema político, a monarquia, em que vivem: o sistema, “onde ninguém está acima da lei”, funciona. A situação leva-nos a supor que só numa democracia extremamente evoluída a justiça consegue funcionar deste modo independente, onde, como diz o Vice-primeiro-ministro britânico "Ninguém neste país está acima da lei". Perguntamo-nos em quantas repúblicas por esse mundo fora (desde logo a nossa) tal seria possível.

Mas hoje é um dia infeliz para os monárquicos. Nos sistemas políticos modernos, complexos e transparentes, que só são possíveis com instituições fortes, os representantes da coroa (que nos dias que passam possuem um papel em grande medida simbólico) carregam sobre si a exigência do exemplo, de uma conduta irrepreensível. Para aqueles que acreditam que a Família Real é um importante activo para os equilíbrios políticos e sociais nas mais antigas (e livres) nações europeias, a prisão de André Mountbatten-Windsor é uma má notícia. Uma má notícia para a civilização ocidental.

O que nos vale é que a má notícia em si mesma significa a capacidade de um regime se corrigir e regenerar. Os outros, também feitos por seres humanos, não se corrigem, e quando o fazem é à custa de rupturas muito mais dolorosas e sangrentas. Para sofrimento do povo.

Publicado originalmente aqui

As cinzas da civilização

por João Távora, em 18.02.26

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Num zapping rápido ao chegar a casa constato que os canais de notícias estão todos a debater em grande berraria o caso acontecido ontem durante o jogo entre o Benfica e o Real Madrid na Liga dos Campeões, em que o extremo benfiquista Prestianni, tapando a boca, alegadamente e sem que se possa fazer disso prova, terá proferido insultos racistas contra o jogador madrileno Vinícios. Pelo tom dos debates, tudo leva a crer que o jogador benfiquista está condenado à partida e sem julgamento, porque a expressão de racismo é, nos dias que passam, o mais hediondo crime à face da terra. Por isso se exige-se uma educativa imolação de um cordeiro sacrificial para pedagógica lição da populaça.

Sinal destes laicos tempos, pensei eu, lembrando-me que hoje é Quarta-Feira de Cinzas, início da Quaresma. Para quem não sabe, explico que as cinzas, que num ritual da tradição católica hoje serão na Missa impostas na testa dos crentes em forma de cruz, possuem um carácter simbólico, como chamamento à conversão, à penitência e à mudança de vida, bem como à recordação da condição frágil e transitória da existência humana. Do pó todos viemos e ao pó retornaremos – negros, brancos, amarelos, peles vermelhas e outras etnias.

Vale a pena tanta gritaria por causa duma altercação entre jogadores de futebol?

A ideia de propósito

por João Távora, em 17.02.26

(…) "Há um último aspecto que é talvez o mais significativo para a compreensão do pensamento político de S. Tomás, mas também o mais indirecto. Há, na maneira contemporânea de olhar para o problema político, uma tentativa de o afastar de alguma ideia de propósito. Na tentativa de encontrar um ponto de consenso a partir do qual se possa discutir a política, a democracia liberal prescindiu de tentar saber quais são os seus fins.

Ora, uma das preocupações fundamentais de São Tomás, preocupação essa que atravessa todo o seu pensamento e está presente quer em opúsculos de juventude, como O Ser e a Essência, quer nas questões basilares dos seus tratados teológicos, tem que ver com a impossibilidade de fugir a este problema. Não é possível, segundo S. Tomás, procurar explicar alguma coisa sem perceber o seu propósito. Não é possível termos uma «Essência do Político», para evocar um título bem contemporâneo, desligada, não daquilo que a política é, mas daquilo que pretende ser. Está na própria definição das coisas: nenhuma definição de uma coisa a partir dos seus atributos é completa, nenhum barco é apenas madeira, nem nenhuma casa apenas tijolos. A função é uma causa substantiva, e como nunca podemos ter uma função completa de nenhuma causa humana — tudo existe, em última análise, em remissão para alguma coisa — qualquer discurso sobre o mundo é um discurso sobre Deus. A melhor maneira de perceber o homem não passa pelo entendimento daquilo que o afasta dele próprio e daquilo que, fazendo parte dele, não é ele. O verdadeiro discurso sobre o Homem é o discurso sobre Deus." (...)

"São Tomás de Aquino - O que lhe deve a política", por Carlos Maria Bobone in Crítica XXI, n. 13 Outono 2025

Domingo

por João Távora, em 15.02.26

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas completar. Em verdade vos digo: Antes que passem o céu e a terra, não passará da Lei a mais pequena letra ou o mais pequeno sinal, sem que tudo se cumpra. Portanto, se alguém transgredir um só destes mandamentos, por mais pequenos que sejam, e ensinar assim aos homens, será o menor no reino dos Céus. Mas aquele que os praticar e ensinar será grande no reino dos Céus. Porque Eu vos digo: Se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos Céus. Ouvistes que foi dito aos antigos: ‘Não matarás; quem matar será submetido a julgamento’. Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que se irar contra o seu irmão será submetido a julgamento. Quem chamar imbecil a seu irmão será submetido ao Sinédrio, e quem lhe chamar louco será submetido à geena de fogo. Portanto, se fores apresentar a tua oferta ao altar e ali te recordares que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar, vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão e vem depois apresentar a tua oferta. Reconcilia-te com o teu adversário, enquanto vais com ele a caminho, não seja caso que te entregue ao juiz, o juiz ao guarda, e sejas metido na prisão. Em verdade te digo: Não sairás de lá, enquanto não pagares o último centavo. Ouvistes que foi dito: ‘Não cometerás adultério’. Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que olhar para uma mulher com maus desejos já cometeu adultério com ela no seu coração. Se o teu olho direito é para ti ocasião de pecado, arranca-o e lança-o para longe de ti, pois é melhor perder-se um só dos teus olhos do que todo o corpo ser lançado na geena. E se a tua mão direita é para ti ocasião de pecado, corta-a e lança-a para longe de ti, porque é melhor que se perca um só dos teus membros, do que todo o corpo ser lançado na geena. Também foi dito: ‘Quem repudiar sua mulher dê-lhe certidão de repúdio’. Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que repudiar sua mulher, salvo em caso de união ilegítima, expõe-na ao adultério. E quem se casar com uma repudiada comete adultério. Ouvistes ainda que foi dito aos antigos: ‘Não faltarás ao que tiveres jurado, mas cumprirás diante do Senhor o que juraste’. Eu, porém, digo-vos que não jureis em caso algum: nem pelo Céu, que é o trono de Deus; nem pela terra, que é o escabelo dos seus pés; nem por Jerusalém, que é a cidade do grande Rei. Também não jures pela tua cabeça, porque não podes fazer branco ou preto um só cabelo. A vossa linguagem deve ser: ‘Sim, sim; não, não’. O que passa disto vem do Maligno».

Palavra da salvação.

Não é proibido proibir

por João Távora, em 13.02.26

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A pesada herança do Maio de 68 teve ontem mais um pequeno revés, mesmo que simbólico, na proclamação da sacrossanta liberdade individual face aos repressivos limites morais e sociais. Entre os derrotados desse desígnio da modernidade, imagine-se, esteve em São Bento o Partido Chega inconformado com as restrições aprovadas por sólida maioria. Refiro-me à proposta que ontem foi vencedora no parlamento de proibição do acesso autónomo a redes sociais, serviços de partilha de vídeos e de comunicação aberta por crianças menores de 16 anos. Nesses conteúdos disponíveis sem qualquer filtro, na selva a que os pequenos ecrãs acedem ao simples premir do indicador, encontram-se as mais inconcebíveis aberrações e excitações imediatistas. Evidentemente que a medida levanta questões que não se esgotam numa resposta simples. Entre o zelo pela saúde mental dos nossos infantes e o respeito pela liberdade, desenha-se um debate que toca o coração de todos. Mas o sinal é largamente positivo: já não é “proibido proibir”.

Numerosos são os estudos que alertam para os impactos negativos das redes sociais na saúde mental das crianças e adolescentes: ansiedade, depressão, distúrbios do sono e até a chamada “dependência digital” são frequentemente apontados como consequências do uso excessivo. O corpo e o cérebro em desenvolvimento das crianças reagem de forma diferente à exposição constante a estímulos digitais, podendo comprometer o seu bem-estar e acuidade a longo prazo. Há quem diga que com esta proibição se está a ignorar a importância da literacia digital, mas é um erro só justificado vindo de quem não sabe como se procede à formação de um bom utilizador das tecnologias – exige concentração e estudo. Por certo que não é com jogos electrónicos ou partilha de mensagens ou vídeos curtos.

Certo é que pela primeira vez na história moderna, estudos indicam que os filhos apresentam um Quociente de Inteligência (QI) inferior ao dos pais, fenómeno conhecido como Efeito Flynn inverso. A principal causa apontada pelos especialistas, como o neurocientista Michel Desmurget, é o consumo excessivo de tecnologia e ecrãs (telemóveis, tablets, computadores) que substituem as normais brincadeiras, investigações, jogos e convívios entre crianças e jovens.

É fundamental a protecção da infância da vertigem dos ecrãs dos telemóveis. Sei por experiência própria o desafio que constituiu defender as nossas crianças da irresistível atracção pelo digital, num tempo em que as redes sociais ainda eram algo incipientes. O hipnótico poder de distracção do telemóvel face ao estudo e à leitura, para não falar do convívio social e familiar foi um factor desde o início evidente para nós pais. O esforço de orientação e imposição de regras para o seu uso foi exigente, convenhamos que nem sempre bem-sucedido, e tenho dúvidas que muitas famílias tivessem capacidade ou condições de o exercer como fizemos em nossa casa.

Reconheço que, se por um lado, as redes sociais podem isolar, criando bolhas de solitários, por outro, também permitem novas formas de convívio, aproximação e partilha. Tenho dúvidas que a proibição consiga grandes resultados no regresso da miudagem ao contacto presencial, aos jogos no recreio, à confraternização e confronto cara a cara, mas é um passo no bom sentido. O desafio está em criarem-se espaços seguros para a interacção online, valorizando o equilíbrio entre ambos os mundos, sempre com a supervisão parental. Não vejo problema que a liberalização só aconteça depois dos dezasseis anos. No entanto, temos de admitir que legislar é mais fácil do que garantir o cumprimento da medida. Como controlar, de forma eficaz, o acesso de menores em plataformas globais, muitas delas sediadas fora do país? A tecnologia oferece sempre vias de contorno: falsificar a idade, usar contas de familiares, recorrer a VPNs.

Os pais, com a ajuda do Estado, podem e devem salvaguardar o bem-estar dos menores, mas sem esquecer que cada jovem é um ser em formação, capaz de aprender, errar e crescer. Simplesmente proibir para proteger pode ser um paradoxo, se o resultado for a limitação da autonomia e da responsabilidade pessoal. A questão fulcral reside aqui: até onde vai o direito à liberdade individual? As crianças têm direito à informação, à expressão e ao convívio, mas o seu maior direito é à protecção.

Voltemos ao Maio de 68, que tanto dano trouxe às estruturas sociais e comunitárias do ocidente liberal. Assim como a venda de álcool e cigarros é restringida a adultos, supostamente capazes de moderar e assumir os riscos do seu consumo; assim como se exige a maioridade a um individuo para conduzir um automóvel, que afinal pode constituir uma arma letal, parece-me muito bem a restrição do acesso autónomo das crianças a redes sociais, serviços de partilha de vídeos e de comunicação aberta.

Publicado também aqui

Tanta água...

por João Távora, em 11.02.26

Esta chuva persistente faz-me lembrar a cena em Macondo, de “Cem anos de Solidão”, quando após décadas de acontecimentos extraordinários, por quatro anos, onze meses e dois dias uma chuva interminável caiu sobre a cidade. Como nos acontece por estes dias em Portugal, no conto de Gabriel Garcia Marquez a chuva constante tornou-se parte da rotina dos habitantes de Macondo trazendo uma melancolia silenciosa e alterando a paisagem, até que o esquecimento e o isolamento se instalaram de vez. É o que dá tanta água, que, além das cheias e derrocadas, nos encharca a alma, e nos faz ansiar por uns raios de sol, que tardam.

Só nos falta perder a fala…

O Corta-fitas celebra 20 anos de vida

por João Távora, em 06.02.26

Corta.png

O blog Corta-fitas celebra duas décadas de história. Ao longo destes 20 anos, mantivemos a essência de “cortar” em tudo o que mexem, fieis ao nosso lema: presentes nas inaugurações e implosões, sempre prontos para panegíricos e vitupérios. Esta trajectória é uma verdadeira prova de resistência e perseverança, construída com a dedicação de todos os colaboradores e leitores.

Com orgulho, mantemos uma média de mais de mil leitores diários que nos acompanham e dão vida a esta coisa, de que não conseguimos prescindir. Porque gostamos de escrever.

O nosso sincero agradecimento a todos que tornam possível esta aventura colectiva, reforçando que o Corta Fitas é, acima de tudo, obra de quem lê, comenta e participa.

 Juntos, seguiremos a cortar, brevemente numa nova plataforma!

 

No pasa nada (só um dilúvio)

por João Távora, em 04.02.26

fotomontagem-seguro-ventura.jpg

A segunda volta das Presidenciais promete ser uma eleição tão empolgante quanto assistir à pintura de uma parede a secar num dia de chuva. Não haverá surpresas, ninguém irá surpreender ninguém, e Seguro vai ganhar limpinho, limpinho. Lamento informar os mais lunáticos.

Como contraste, o ambiente da campanha eleitoral que emana das redes sociais (o desinteresse pela eleição e o diluvio em curso tiraram a campanha das ruas), é um espectáculo de exagerada agressividade e dramatismo, totalmente desproporcional para um resultado tão previsível e… inconsequente. Estamos condenados a cinco anos de António José Seguro que promete uma postura institucional, aborrecida e cinzenta, a contrastar com dez anos de prolixa informalidade do incontinente Marcelo. Não posso afirmar que “é melhor que nada” porque sinceramente acho que “nada” seria sempre melhor que isto.

Talvez houvesse algum motivo para sobressalto se Ventura, marcado pelo seu frenético histrionismo hedonista, tivesse alguma hipótese de vencer. Secretamente até gostaria de assistir ao mandato a comer pipocas: seria a definitiva descredibilização do “Presidente da República”. Sejamos francos: como poderia Ventura, subitamente assumir uma postura séria, aprofundar dossiers, impedir bloqueios, fazer diplomacia (!) promover reformas difíceis e dizer coisas ponderadas e sensatas à entrada ou saída dos eventos? Mas desiludam-se, as sondagens deixam claro: quase três em cada quatro eleitores ou têm medo dele, ou simplesmente não o levam a sério. Não conta.

Por isso é que eu mantenho que a direita persiste minoritária em Portugal. O Chega é a secreta bênção, o autêntico seguro de vida das esquerdas. As linhas vermelhas são inúteis. André Ventura, apesar de protestar mais do que uma buzina avariada, não tem qualquer idoneidade ou talento para construir algo. Não é fiável para fazer parte de algum projecto sério, liberal, conservador ou tradicionalista, com que a esquerda verdadeiramente tivesse de se preocupar. Se um dia ele resolvesse falar a sério, se deixasse de lado as suas frases bombásticas e inconsequentes com intenção de fazer parte duma solução, já ninguém nele acreditaria, diriam que estava possesso por uma alma do outro mundo.  O seu “verdadeiro povo”, que é como uma claque, sentir-se-ia traído, para rapidamente o abandonar – já viram quão imprevisíveis são as claques? Suspeito que Ventura para a História constará apenas como um curto episódio, perturbador, é certo, mas sem deixar obra ou legado, um desperdício de tempo e emoções.

As eleições de Domingo serão apenas a confirmação de que, por falta de comparência, um socialista fará sozinho e em ombros o percurso para o Palácio de Belém, numa eleição que, se marcar a história, será apenas por ter batido o recorde nacional de abstencionismo e votos nulos ou brancos.

Imagem daqui


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