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Um grande livro e uma grande tristeza

por José Mendonça da Cruz, em 19.03.19

Estou a traduzir um grande livro de um grande autor, livro do ano para muita imprensa realmente de referência, uma obra magnífica de história e literatura, que em outubro se verá. É um trabalho tão difícil e compensador quanto são compensadores os trabalhos difíceis. (Isso aí foi uma habilidade retórica, e diz-vos quem é o retratado.)

Dois reparos, apenas -- estranhos ao livro, ambos.

É útil o corrector ortográfico (o «corretor», será? Ou esse é só o da Bolsa?) para nos lembrar que nos esquecemos de uma vírgula. Mas de resto, que vastidão espantosa a da lacuna do instrumento! As coisas que ele ignora, ou julga que sabe, as palavras que  o deixam perplexo, e as que julga que estão erradas... O corrector ortográfico convence-me do triunfo da ignorância.

E depois, há essa coisa vil do acordo. Já não falo do «aspeto» e do «espeto», nem da «recessão» e da «receção», nem do ar estúpido dos meses reduzidos à minúscula. É pior, é a redução à incultura, o alheamento em relação às raízes, o desfiguramento, a falta de justificação e jeito deste português expeditamente acordado, pedestre, feio na página.

O acordo ortográfico convence-me do triunfo da mediocridade.

Estou a traduzir um grande livro de um grande autor, do inglês culto para o português equivalente («rente ao texto», como recomendava Sophia Andersen).

Depois, despeja-se-lhe o acordo em cima, e ele distorce-o torpemente. 

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Deixem o Titanic navegar!

por José Mendonça da Cruz, em 18.01.19

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Há a seguinte tese sobre o Titanic:

- que mesmo que a meteorologia tivesse avisado sobre a existência de icebergs e sua localização;

- que mesmo que o imediato, e o contramestre, e o patrão nas máquinas, e os marujos todos soubessem da existência de um iceberg, e da localização dele na rota exacta do navio;

- e que mesmo que todos os passageiros, ou metade, ou um terço soubessem de fonte segura que havia icebergs e os icebergs estavam na rota exacta do navio;

...que ainda que tudo isso acontecesse, o comandante do navio devia ser deixado em paz, para continuar a comandar serenamente o navio até ao iceberg que o esperava na rota exacta que seguia.

Mais de 50% da tripulação e passageiros do PSD votaram para deixar o comandante seguir a rota que vem seguindo. O Titanic sulca os mares na sua rota, serenamente.

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Parvoíces mascaradas de notícias

por José Mendonça da Cruz, em 29.12.18

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Esta é uma fotografia de 2008, e - a acreditar no que se disse agora da viagem de Trump ao Iraque - mostra Obama, ainda senador, «a fazer campanha eleitoral junto das Forças Armadas».

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Esta é uma fotografia de 2012, e mostra a primeira dama, Michelle Obama - segundo o que se diz agora da viagem de Trump ao Iraque - «a fazer campanha eleitoral junto das Forças Armadas» nos EUA.

A primeira fotografia também mostra - segundo o que se diz agora da viagem de Trump ao Iraque - Obama a revelar as caras de soldados em localizações e missões secretas.

Seguidamente, alguns pormenores que era fácil verificar, mas os palermas de serviço nos media não verificaram, porque leram a Newsweek ou o Guardian e ficaram muito excitados:

- toda a gente sabia que há Navy Seals no Iraque; a sua presença não é secreta (covert); se fosse «covert» nunca apareceriam, nem perante o presidente, porque «covert» significa a possibilidade de negar a autoria de qualquer acção ou sequer a presença;

- os militares que aparecem junto a Trump na foto do seu tweet não são Seals, são da 3ª divisão de infantaria;

- e sim, é claro que depois de criticarem Trump por nunca ter visitado tropas americanas destacadas para teatros de guerra, os media das fake news necessitavam agora de criticar Trump por ter visitado tropas americanas destacadas para teatros de guerra. Passarão a seguir para a «construção do muro» que, no entanto,  já está meio construído por Clinton e Obama. Estes jornalistas estão próximos em sagacidade e conhecimento daquele rapper que comparava o muro EUA/México ao Muro de Berlim «construído pelos nazis», ou da infeliz que o comparava à muralha de Adriano (a qual, para infortúnio dela, serviu integralmente os seus propósitos).

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Auto Europa - está a ir, vai, foi-se ?

por José Mendonça da Cruz, em 13.12.18

Será verdade que decorrem «negociações ao mais alto nível», ou seja, entre Costa e o director-geral da VW, para que a Auto Europa não feche?

Será verdade que o último automóvel sairia da linha de montagem às 24 horas de hoje, quinta feira, após o que a fábrica encerraria por 20 dias?

Será verdade que, pendendo as altas negociações, essa data foi adiada para as 24 horas de sexta-feira?

Será verdade que os motores já deixaram de ser enviados para Portugal, e vão antes para a nova fábrica no Norte da Alemanha, visto que a VW tem cerca de 50 milhões de euros paralisados em Setúbal, e os correspondentes clientes sem carros?

Será verdade que todos os fornecedores de peças já foram informados para não enviarem mais nada?

Será verdade que um dos equipamentos mais caros -- uma das duas prensas de peças da carroçaria -- já foi desmontada e enviada para a Alemanha?

Será verdade que não se ouve, lê, nem vê uma notícia?

 

 

 

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Algumas diferenças...

por José Mendonça da Cruz, em 23.11.18

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Quem quiser assistir a um exercício de inteligência, pensamento abstracto, cultura e senso político deve seguir este debate realizado pelo Observador não apenas sobre touradas, mas sobretudo sobre civilização e política, com especial recomendação para a intervenção de Jaime Gama, a partir do minuto 3.20. Depois, para melhor enquadramento e inevitável tristeza, deve pensar que Gama foi ministro da administração interna em 1978 ( e agora o ministro é Eduardo Cabrita), que Gama foi presidente do grupo parlamentar do PS em 1991 ( e agora o presidente é Carlos César), e que Gama foi presidente da AR em 2005 (e o presidente da AR agora é Ferro Rodrigues).

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A geringonça é que nos dá o que Salazar recomendava

por José Mendonça da Cruz, em 21.11.18

O «milagre económico» é como o «fim da austeridade» e a «redução da carga fiscal» – não existe. Portugal é pobre e está em vias de empobrecimento relativo. As políticas socialistas garantem-nos, digo eu no Observador, a modéstia, a renúncia e a pobreza que o Dr. Salazar nos aconselhava.

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Mentira, censura, subsídio... e a abulia da direita

por José Mendonça da Cruz, em 06.11.18

«...A esquerda política e jornalística sim, quer calar as vozes que a critiquem ou contrariem, nos media e nas redes sociais. A esquerda política e jornalística quer a censura em nome da "democracia".» Estes e mais uns considerandos no Observador

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O grau zero da informação

por José Mendonça da Cruz, em 25.10.18

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Hoje, no Jornal das 8 da Tvi, chegou-se a novas profundezas de incompetência e desorientação. Judite de Sousa entrou em directo para anunciar que estava numa situação «absolutamente inédita». E que situação «absolutamente inédita» era essa? Apenas o facto de estar, em directo, a dois metros do candidato Jair Bolsonaro, que dava a última conferência de imprensa antes das eleições presidenciais de domingo no Brasil. Judite estava (tinha ali um furo jornalístico, mesmo), mas, pelos vistos, não sabia nem percebia nada de nada.

Fez Judite de Sousa alguma pergunta?

Não.

Esperou Judite de Sousa que o candidato terminasse e outros fizessem perguntas?

Não

Permitiu, ao menos, Judite de Sousa que se ouvisse o que dizia o candidato?

Não.

De costas para o candidato, falando em surdina, pálida e franzida, queixou-se apenas da sua situação, após o que passou a emissão para uma reportagem da chegada do filho de Bolsonaro, gravada horas atrás, a uma reunião com Paulo Marinho.

Do estúdio, José Alberto Carvalho passou depois a emissão para Victor Moura Pinto, que opinou sobre as hipóteses de Haddah e deu parte de um comício, gravado, do PT.

Estes apontamentos congelados foram sendo acompanhados das imagens de Bolsonaro, a falar em directo e perante Judite (de costas), obviamente sem som. 

Em anos de jornalismo e de atenção à profissão este foi, sem dúvida, o momento mais ridículo, incompetente e vergonhoso a que me foi dado assistir. Digo ridículo, incompetência e vergonha porque não posso crer nem por um segundo que se tratasse de enviesamento ou incómodo ideológico -- manifestá-los dessa forma seria demasiado estúpido até para a própria estupidez.

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As memórias que faltam

por José Mendonça da Cruz, em 24.10.18

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 Só se fala de Cavaco, o ex-presidente em cujas memórias surgem bastas queixas sobre o actual e lamentável primeiro-ministro, esse mesmo primeiro-ministro cujo futuro ele, Cavaco, garantiu ao marcar eleições para um momento em que já não podia dissolver a Assembleia e convocar novas eleições. É um livro acabado de sair, cheio de interessantes bisbilhotices e autojustificações, eu sei... mas as memórias que gostaria de ler, a vida que realmente me intriga é a de Francisco Pinto Balsemão, o magnata da comunicação social. Gostaria, nomeadamente de saber, por que vias e motivações o antigo líder do PSD, o antigo primeiro-ministro, criou uma colecção de orgãos de (digamos assim) informação -- Sic, Expresso, Visão, etc. -- que constituem , hoje, o abono de família da esquerda, e cuja linha editorial consiste, resumidamente, em promover o socialismo cá e em todos os países estrangeiros, calando tudo o que possa diminui-lo ou contrariá-lo, e atacando com notícias verdadeiras e sobretudo falsas todos os adversários ou opositores.

Hoje, a propósito de bombas enviadas para personalidades do Partido Democrata americano, a Sic, depois da reportagem, ouviu o seu correspondente em Washington, Luís Costa Ribas, a quem perguntou se os investigadores já tinham descoberto os autores do atentado. E Ribas, depois de confirmar que os investigadores nada tinham dito ainda, acrescentou que os atentados eram certamente de autoria de apoiantes de Trump. Seguidamente, desesperada com as preferências da maioria do eleitorado brasileiro, a Sic dedicou vários minutos a propaganda pró-Haddad e anti-Bolsonaro. Em resumo: as invenções de um palhaço, seguidas de propaganda pêtista. É a Sic.

No combate aos adversários do socialismo, o Expresso, por seu lado, mostra-se capaz, até, de ir às bruxas, como se vê. E logo após consultar as bruxas, o autor da pecinha faz sobre o seu detestado juiz alguns considerandos meio tontos, cuja fiabilidade vos convido a confrontar com a seriedade e o tom do blog do Supremo Tribunal americano ou com o teor das intervenções reais de Kavanaugh que podem consultar nesta transcrição.

A Visão e o Expresso, sendo semanais, optam por temas de longo prazo. Expresso e Visão (que embora vendida a Delgado, mantém a linha do criador) mostram agora grande nervosismo e atenção ao que chamam fake news (no que os julgo acompanhados por Sic, Público, Tvi, DN, e demais orgãos de desinformação nacionais). «Fake news», na acepção do Expresso e da Visão (e da Sic, e de... etc.) não são notícias falsas,como a tradução faria supor; são, sim, todas as notícias que contrariem a narrativa pró-socialista, politicamente correcta, conformista e conformadora que produzem, e todas as notícias que desmascarem as omissões e os processos da desinformação. As «fake news», nesta curiosa acepção, são emitidas exclusivamente pelos «fassistas» que ExpressoVisão ( e Sic e... etc.) vislumbram em todo o lado. Ou, a contrario: para este tipo de centrais de intoxicação, quando uma jovem brasileira apoiante de Haddad diz que apoiantes de Bolsonaro a agrediram e lhe gravaram uma suástica no pescoço, isso é notícia; quando se descobre que a piquena se automutilou para acusar os eleitores de Bolsonaro, como ficou provado que aconteceu, isso nem é notícia, nem torna fake a «notícia» anterior.

As redacções de Sic, Visão, Expresso, etc. sabem, evidentemente, que este tipo de «jornalismo» abre boas perspectivas de futuro. Por enquanto, abre. Como abriu a Nicolau Santos, o jornalista que previu que «cai(u) a pique» o défice durante o governo de Sócrates -- o qual em vez disso disparou para 11% -- ; ou que proclamou que o «FMI já não vem» -- o qual veio semanas depois-- ; ou que atacou o governo de Passos Coelho com a ajuda de burlões; ou que celebrou vitórias socialistas que só ele vislumbrou. Por suas acções meritórias, Santos ganhou a presidência da Lusa, uma agência de...

O que me traz de volta às memórias. Eu anseio por ler as memórias de Balsemão. Como, porquê e para quê, com que intenções ou desgostos ou benefícios decidiu o Dr. Balsemão constituir e desenvolver a maior e mais zelosa central portuguesa de promoção e defesa do socialismo, contra todos os factos e adversários. Terá sido por gosto, ou por convicção, ou por projecto de poder ou popularidade, ou a contragosto, ou por pragmatismo? Não sei. Gostava de saber. A mim, ter-me-ia dado urticária ou algum outro problema de pele.

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Como o jornalismo de causas português vai mudar o Mundo todo

por José Mendonça da Cruz, em 19.10.18

O Público online de hoje denuncia «o clima de intimidação, de violência e de perseguição» imposto por Bolsonaro e os terríveis 60% de eleitores que o apoiam. Celebra, também, o facto de o PT pedir a impugnação da candidatura de Bolsonaro, caso a que também dedica uma coluna de opinião. E publica ainda uma crónica de um tipo qualquer que se diz «infiltrado» num grupo de apoio a Bolsonaro, infiltração que lhe permite garantir que 99% das notícias promovidas pelo grupo são falsas.

O DN diz que Sonia Braga, Caetano Veloso e mais uns artistas exigem que o tribunal se explique sobre fake news de Bolsonaro, porque acham que andam umas empresas estrangeiras a pagá-las. O DN titula ainda que «Haddad e Ciro vão pedir impugnação de candidatura de Bolsonaro».

E há uma semana o Expresso esclarecia-nos em chamada de primeira página: «Portugueses contra Bolsonaro». Não eram os 10 milhões todos, eram só uma ou duas «personalidades, sobretudo da cultura».

O Brasil está, portanto, salvo. Foi seguramente por estarem concentrados nessa tarefa patriótica que os mesmos orgãos de «informação» se esqueceram de salvar a Venezuela da devastação homicida de Maduro (o Haddad dos venezuelanos), ao menos com uma noticiazinha.

 

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Medo, ódio e fúria

por José Mendonça da Cruz, em 17.10.18

Visto que a governação medíocre e imprudente afinal é muito hábil; visto que Catarina Martins é uma luminária e as manas Mortágua grandes figuras; visto que os homens de Sócrates são o melhor governo de sempre e Galamba um secretário de Estado... visto tudo isso, mas apesar disso, o Observador teve a bondade de publicar hoje um artigo meu. Visto o que fica escrito acima será um artigo «extremista», «populista» e «facista» mesmo.

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Ases pelos ares

por José Mendonça da Cruz, em 13.10.18

 A cobertura noticiosa do terrível ciclone, aliás tempestade, aliás vento... é uma parábola do jornalismo português: reportagens veementes, excitadas e em directo de acontecimentos que, afinal, não sobrevieram; o desenvolvimento de boas histórias a que só falta serem reais.

Quanto à Protecção Civil demontra mais uma vez que é tão excelente a alarmar como óptima a desproteger.

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Há semanas o Dr. Marques Mendes determinou que os eleitores brasileiros deveriam eleger Fernando Haddad, do PT, para presidente da República, porque tendo em conta a alternativa Bolsonaro, Haddad seria o mal menor. Pormenor despiciendo: os brasileiros discordam. Então, ontem, o Dr. Marques Mendes determinou o reverso da sua opinião: disse que a rejeição do PT (que ele menosprezara) era tal, que Bolsonaro seria eleito, mas por essa única razão.

O Dr. Marques Mendes é um homem inteligente, mas vive e pensa num círculo muito restrito. Pode-se chamar-lhe oligarquia, ou círculo dos old boys, ou meio político. Esse círculo normalmente restrito tem, em Portugal, a pequenez correspondente à pequenez do país, mas fechou-se no mesmo casulo em que se fechou a oligarquia de EUA, Brasil, França, Alemanha, Itália, Áustria.

  

O Dr. Marques Mendes e seus amigos nacionais e internacionais convivem, conhecem-se, e têm uma enorme admiração pela inteligência uns dos outros. Ouvem-se, portanto, muito e reciprocamente. E ouvem muito pouco tudo o que se pense ou diga ou, aliás, aconteça, fora do círculo. Fundamentalmente, as coisas estão muito bem como estão. E em cada medalha vêem verso e reverso, mesmo quando não há medalha nenhuma. Fazem assim com Portugal, fazem assim com os EUA, fazem assim com o Brasil.

O PT transformou-se num coito de corruptos, tiranetes e ladrões? Sim, mas Haddad terá que flectir para o centro se quiser ser eleito.

As cidades brasileiras transformaram-se em selvas de bandidagem e homicídio, medo e insegurança? Sim, mas temos que ter atenção aos condicionalismos sociais.

As empresas públicas transformaram-se em centros de prejuízos, compadrio, roubo e incompetência? Sim, mas terá servido de lição.

A crise económica persiste, a dívida pública dispara e o elevador social avariou? Sim, mas devemos considerar as melhorias em sectores mais desfavorecidos.

 

O centro, a oligarquia, os old boys usam da mesma complacência para questões igualmente graves em países cujos eleitorados mostram sinais de igual cansaço.

O terrorismo, a insegurança, a imigração descontrolada, a recusa de assimilação, os conflitos culturais? Temos que nos mostrar melhores, temos que ser acolhedores, temos que ser multiculturais.

A concorrência internacional desleal e a falência de sectores nacionais inteiros? Temos que nos reinventar.

A perda de poder político e económico, a estagnação? Sim, mas a história, a cultura milenar...

 

Mas perante inevitabilidades como um Trump ou um Bolsonaro, ei-los que ficam perplexos. Primeiro, atiram epítetos:  fascista, xenófobo, desclassificado, extremista, inimigo da democracia! Depois, ofendem os eleitorados: deploráveis, ignorantes, retrógrados -- e recusam-se a compreender como e porquê. Por fim, perante resultados (como, por exemplo, os que Trump prometeu e cumpriu em termos de crescimento económico, investimento, baixa de impostos, emprego, política externa e renegociação de acordos comerciais) refugiam-se no silêncio ou na discussão de um penteado, um gesto de mão, um tweet.

O Dr. Marques Mendes e os seus amigos nacionais e internacionais refastelaram-se na armadilha do centro. Fazem como Boris Vian dizia que Proust fazia: vão bebendo golos da água do banho de imersão em que se confortam. O mundo que pula e avança é que já não é o deles.   

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O PT dá a cartilha.

por José Mendonça da Cruz, em 04.10.18

A Globo escreve hoje que a subida das intenções de voto nas presidenciais brasileiras em Jair Bolsonaro causou divergências no PT. Nomeadamente:

«Uma das propostas discutidas, segundo relato de um integrante da campanha ao blog, era a de pregar que, se eleito, Jair Bolsonaro faria "com uma ditadura" o que Temer "não conseguiu com a democracia": as chamadas reformas estruturais. Mas, o PT se recusou, porque quer manter a narrativa de que já vivem um "golpe" após a prisão de Lula.»

Pronto, rapaziada da Sic, Tvi, DN, Expresso, etc. já têm aqui a cartilha para o quê e como «noticiar».

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Estamos assim...

por José Mendonça da Cruz, em 03.10.18

No intervalo da coisa a que chama Jornal, a Sic anuncia uma grande reportagem. O tema: «Nos labirintos do capitalismo as más acções têm caras».

No intervalo da coisa a que chama Jornal, a Tvi anuncia, orgulhosa, uma «entrevista exclusiva» com Haddad, após o que passa uma conversa de rua em que o candidato que representa Lula à frente do gangue do PT compara Bolsonaro a Salazar.

Nas duas coisas a que chamam Jornal, Sic e TVi dizem (provavelmente recitando uma nota da Lusa) que Trump fez troça da mulher que acusa de assédio o juiz Kavanaugh, nomeado para o Supremo Tribunal dos EUA. Trump não fez troça; repetiu as afirmações da acusadora: foi assediada mas não se lembra de onde, nem de como lá foi ter, nem como regressou a casa.

Nem Sic nem Tvi noticiaram como esta acusação começa a ficar descredibilizada, nem a completa descredibilização de outras acusações contra Kavanaugh; como não noticiaram os resultados da renegociação do NAFTA para o interesse nacional americano, nem o crescimento económico acima dos 4%, nem os níveis de emprego recorde, nem o que a reforma fiscal devolveu aos agregados familiares da classe média. Amanhã, esperam eles, terão algo escandaloso para «noticiar» sobre a laca que Trump usa.

Não há como os travestis de jornalistas para proclamar que as críticas aos media «fazem perigar a democracia». Não fazem. Mas o travesti de jornalismo praticado por estes media, sim, além de ridículo, fá-la perigar. Embora seja muito eficaz na propaganda e promoção de todas as acções (e em todas as omissões)que nos conduzam ao lugar de mais pobre país da UE.

 

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Regras simples para arranjar má imprensa

por José Mendonça da Cruz, em 25.09.18

A economia dos EUA está a crescer 5%; a reforma fiscal aprovada deu a uma família de classe média com um filho um corte de impostos que se traduz num aumento de rendimento anual de mais de 2200 dólares, mais de 180 dólares por mês (não é 1 dólar, como nos aumentos de pensões cá, é 180); a taxa de emprego dos afro-americanos bateu todos os recordes; o Estado Islâmico, que Obama fez nascer, deixou de existir. O pária Coreia do Norte senta-se à mesa das negociações. Eis por que razão as notícias sobre Trump nos media portugueses têm a ver com o penteado e se dá ou não a mão a Ivanka.

Já no Brasil, e segundo os media portugueses, Bolsonaro é fascista (claro!) e racista (evidentemente!) e homofóbico (com certeza!). No entanto, havendo realmente jornalistas e imprensa realmente livre no Brasil, podemos ter uma ideia mais clara de quem é Bolsonaro, aqui, e podemos ter a certeza de que nunca ouviremos falar do seu braço direito e talvez ministro da economia, Paulo Guedes, porque pensa e fala assim .

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Brown noses

por José Mendonça da Cruz, em 25.09.18

Há hoje nas redacções dos media portugueses, e também muito nas respectivas chefias e direcções, abundância de criaturas que adoptam surpreendentemente a denominação de jornalistas. O dever do jornalista, o cerne da sua profissão, consiste em informar. Não é o objetivo das criaturas. As criaturas querem dar a «informação» que convém às suas convicções -- calando o resto -- e aos seus ídolos, na medida em que as criaturas julguem que essa «informação» lhes convém.

Ontem, a Tvi entrevistou uma senhora qualquer com sotaque e um ar arremelgado ao tipo de Raquel Varela (e apresentada como «especialista em assuntos internacionais», daqueles), que disse, sem contestação, que dos portugueses presos na Venezuela não se pode falar, porque isso é da justiça; que há muitos países a ajudar o regime venezuelano, por exemplo Cuba; e que a oposição venezuelana é torpe.

Hoje, a Sic fez no seu jornal um elogio ao ministro Azeredo Lopes, por ter dito que «em última análise nem tinha havido roubo» em Tancos. Lopes, inculcava a Sic, é fantástico porque já via tudo.

Há, nos Estados Unidos, uma expressão brutal (e brutalmente certeira) para designar essa gente que sai do caminho e se dá a todos os esforços para louvar e apoiar os mandantes que ama: brown noses.

Abstenho-me de explicar o significado da expressão, mas deixo-vo-la para que lhe admirem a justeza,

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 Rui Rio não é apenas um político medíocre. É um político com propostas e convicções empobrecedoras. Posso dizer isto do alto da insignificância do meu voto singular. Mas posso também esperar e desejar (e espero e desejo veementemente) que este homem -- que como líder do PSD já demonstrou em poucos meses mais nojo à iniciativa privada do que o Bloco e mais avidez de novos impostos do que o PS -- consiga o pior resultado de sempre do PSD nas legislativas. Desejo-lhe um desastre eleitoral. Desejo-lhe com inteira sinceridade um resultado vergonhoso, para ele e para o seu partido. Desejo-lhe uma morte política o mais humilhante possível. E a quem o escolheu como líder.

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O fogo segundo o DN

por José Mendonça da Cruz, em 13.08.18

Podemos ficar descansados, o chamado Diário de Notícias consultou ontem um pastor e a Quercus e descobriu os culpados do maior incêndio europeu do ano. São, respetivamente, o eucalipto, Das Kapital, e o anterior governo. Os 10 leitores do DN gostaram muito.

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O Balido dos Culpados

por José Mendonça da Cruz, em 08.08.18

Ouviste o que disse o pastor, ovelha? Monchique confirma o sucesso. Arderam mais de 20 mil hectares, arderam casas e carros, mas não importa, é uma exceção, foi um sucesso. Não viste o pastor nutrido apontando o mapa no ecrã, garboso e ativo no domicílio de férias, no comando do teu destino? Viste? O sucesso foi ele. Diz que amas o pastor, ovelha, prova que o amas verdadeiramente. Bale agora, ovelha:

«Méééééééééééééééé»

Foste tu, acaso, ovelha, uma das que foram arrancadas a uma casa em Monchique (por vezes, 5 vezes -- ou 100, ou nenhuma, é a mesma coisa --, como uma família irlandesa) e metida num redil, não fosses arder como os 100 de Pedrógão? Dobra as mãozinhas em vénia, ovelha, faz o que te mandam, como votaste e gostas. Recolhe. Que importam a tua casa, as tuas árvores centenárias,o teu carro, as tuas alfaias, a tua fabriqueta sem importância, as tuas coisas, as tuas fotografias e recuerdos. Essa treta leva-a o vento, nem fica rasto de notícia nos media de reverência. Mas se ardesses, como os de Pedrógão, já não havia exceção nem sucesso, até a reverência dos media lá teria que ficar brevemente (o mais brevemente possível) posta entre parêntesis. De maneira que agradece, ovelha. Vá, fala:

«Mééééééééééééééé»

Mas terás tu, por absurdo, ovelha, alguma desconfiança, algum reparo sobre o descontrolo de Monchique, quererás tu aventar, ovelha, menoridades sobre a total desorientação dos bombeiros, as constantes rajadas de informações contraditórias -ora apaga, ora descontrola -, os gastos desvairados e inconsequentes, ou a geral falta de competência? Ingrata ovelha! Não ouviste o ministro Cabrita? Não sabes quem é o Cabrita? Mas tu aplaudiste-o, ovelha, já o aplaudes há tanto tempo, hás de lembrar-te dele, o homem de confiança de José Sócrates (como o Costa, os dois Silvas, o Campos, o Pereira, enfim, o governo todo) para a campanha do Magalhães, essa bugiganga qu o grande vendedor da banha enfiou pela garganta de escolas e famílias, com grande lucro e contentamento de uns amigos que tinham uma fábrica de computadores e hão de ter lucrado, sem comissão para o vendedor, é claro. Isso, o Cabrita! Esse! E não ouviste o que este teu sub-pastor querido disse? Disse que não se critica! Chiu, ovelha, agora, é calar a boca! Agora é tentar apagar o fogo (que nunca mais se apaga, raios partam!) Boca calada, portanto, ovelha. Mas antes de calar a boca, a tua saudaçãozinha, ovelha:

«Méééééééééééééééééé»

E quando o tempo apagar o fogo, ovelha, agradece ainda, ovelha. Agradece o caos no Serviço Nacional de Saúde. (E agradece conjuntamente o fato de os media falarem disso o menos possível, não como no tempo do odioso anterior governo; os media fazem isso para teu bem, ovelha, são teus familiares, ovelha, não querem apoquentar-te). Agradece o estado comatoso de INEM e 112 (e agradece que os media não te aflijam com notícias de partos em ambulâncias ou pessoas de 137 anos que, salvo erro, foram vítimas do anterior governo). Agradece que os comboios não andem, agradece que haja menos comboios nas linhas onde são mais necessários, agradece que não haja comboios nenhuns onde a CP gere camionetas. Os comboios são sucata ou não existem, mas são teus. Que querias, ovelha, comboios a funcionar e a horas para encherem os bolsos dos horrorosos privados? E agradece a emigração, que bateu recordes este ano (e agradece que os media não vejam, nem ouçam, nem cheirem a coisa, senão iam pôr-se numa choradeira como no tempo do anterior governo, a cada vez que algum jovem profissional talentoso decidia que valia mais que isto, ovelha).

Aplaude agora, ovelha, agradece outra vez, ovelha:

«Méééééééééééééééééééééééééé»

E agora, ovelha, faz como os media de reverência: diz que foram os incendiários, diz que foi o anterior governo, diz que foi o Trump, diz que foi a União Europeia, diz que foram os eucaliptos, diz que é pior na Califórnia, diz que foi um tornado, diz que é o aquecimento, diz qualquer coisa reverente, diz como dizem os media de reverência:

«Mééééééééééééééééééééé»

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Comentários recentes

  • Anónimo

    Muito bom!

  • Anónimo

    Obrigada pelo excelente comentário.

  • João Cabral

    Apenas duas correcções: "outubro" deve ser Outubro...

  • Anónimo

    vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo!!! Nesse...

  • Luís Sebastião

    Belíssima homenagem a um homem notável, Henrique. ...


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