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Abstencionistas, somos só 60%!

por Duarte Calvão, em 26.01.21

 

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Estou bastante decepcionado com os comentários que tenho ouvido sobre a abstenção de 60% nestas presidenciais – percentagem para a qual contribuí alegremente, como já tinha feito para os não-pandémicos 51% de 2016 e os 53% de 2011. Em vez de, como de costume, esta opção da maioria absoluta do eleitorado em mandar à fava os candidatos semi-presidenciais provocar a necessidade de uma “profunda reflexão”, agora há um sentimento de alívio por a abstenção não ter sido ainda maior. Foi a pandemia, foi não sei quê com cadernos eleitorais e emigrantes, foi as reeleições serem sempre menos participadas (esquecendo, claro, os 70% com que Mário Soares conseguiu o segundo mandato em 1991).

Políticos, comentadores e demais especialistas que passam horas a examinar meticulosamente sondagens garantem-nos que “esperavam muito pior”. Pois eu esperava muito melhor, porque confiei em sondagens meteorológicas e queria ver a abstenção superar os 70%, já que não estava a ver o eleitorado esperar em filas ao ar livre, à chuva e ao vento previstos, para cumprir o seu “dever cívico”.

Por falar em “civismo”, parece que é isso que nos falta a nós abstencionistas em presidenciais. Isso e não sermos suficientemente espertos, deixando que “outros decidam por nós”. Claro que não mereceríamos essas classificações se apoiássemos candidatos do comunismo, do venturismo ou do tinoismo. Ou se fossemos contribuir com o nosso voto para eleger semi-presidentes de uma república falida, venal, imbecilizada com esquematismos esquerda x direita, que nem sequer consegue identificar os motivos da sua decadência, quanto mais mudar de rumo para os ultrapassar. E vamos mas é avançar, porque temos de novo um “presidente de todos os portugueses”, eleito, de facto, por 23% dos eleitores.

Nota: Quadro de abertura retirado da página de Facebook de Nuno Garoupa

March_on_Rome.jpgJá li, sem nunca ter vontade de parar, as mais de 850 páginas de “M – O Filho do Século”, de Antonio Scurati, a “biografia ficcionada” ou “romance documental” sobre Mussolini, que incide sobre os anos que vão de 1919 a 1924, quando conquista o poder. É um excelente livro e aprendi imenso sobre um período e uma personagem a que nunca tinha dedicado grande atenção. A primeira coisa que mais impressiona é o grau de selvageria com que os fascistas actuam, com execuções sumárias de adversários, muitas vezes com requintes de crueldade - como, por exemplo, matar pais em frente aos filhos - batalhas de rua, queima de edifícios, fazendo da apologia da violência um programa político. É certo que, do outro lado, estavam socialistas radicais (a cisão que daria origem ao Partido Comunista Italiano ocorreria em 1921) que davam vivas a Lenine e agiam muitas vezes com igual violência sobre quem consideravam adversários, incluindo os militares regressados da Primeira Guerra, que acusavam de ter lutado numa “guerra burguesa”. Uma época de barbárie.

A segunda coisa que mais me surpreendeu no livro foi precisamente a proximidade que há entre os primeiros fascistas e os socialistas/comunistas. Achava que a passagem de Mussolini pelo Partido Socialista Italiano tinha sido episódica, um “desvio de juventude” como tantos tiveram. Qual o quê. O futuro Duce nasceu em 1883 e desde 1902 - então emigrante na Suíça - que militava pelo socialismo (aliás, o seu pai era um operário socialista) e, quando voltou a Itália, continuou a defender a revolução socialista e o derrube do capitalismo, à boa maneira bolchevique, chegando a director do “Avant!”, o jornal oficial do partido. Só em 1914 foi expulso, não por grandes divergências ideológicas, mas sim porque defendeu a intervenção de Itália na Primeira Guerra, contrariando a direcção socialista.

Para se ter uma ideia, em 1919, o programa dos “Fasci di Combattimento”, conforme o livro revela, inclui muitos temas caros aos socialistas revolucionários: jornada laboral de oito horas, salário mínimo, representação sindical nos conselhos de administração, gestão operária das indústrias, distribuição aos camponeses das terras não cultivadas, impostos extraordinários de carácter progressivo sobre o capital, confiscação de todos os bens das congregações religiosas, entre várias outras medidas de que nenhum bolchevique desdenharia. Aliás, não era só Mussolini, também outros dos principais dirigentes fascistas vinham das fileiras do socialismo revolucionário, caso dos influentes Cesare Rossi, Michele Bianchi, Giovanni Marinelli, Roberto Farinacci ou Mario Giampaoli. Já no poder, Mussolini funda a sua polícia política, a Ceka, inspirado na Tcheka de Lenine. Só mais tarde, precisamente por darem combate violento aos “vermelhos”, os fascistas - que tiveram resultados ínfimos nas eleições - passariam a ser oportunisticamente apoiados por latifundiários e industriais, iniciando-se a viragem à direita.

Devo ainda referir outro facto que me impressionou no livro, tanto mais que sou monárquico. A inacção quase cúmplice com que o rei de Itália permite a “marcha sobre Roma” (na fotografia) e a ascenção e consolidação no poder de Mussolini, não se fazendo valer dos seus poderes constitucionais para defender o regime democrático. Tenho a impressão que é um dos piores exemplos da actuação de um monarca europeu no século XX e devíamos estudar mais o caso e aprender com ele.

Parece que Antonio Scurati está a preparar, ou já tem preparados, dois novos volumes sobre Mussolini que dão continuidade a este. Mal posso esperar. É bom ver confirmadas em obras destas as razões porque sou alérgico a “movimentos de massas”, sejam de esquerda sejam de direita.

À volta do xadrez

por Duarte Calvão, em 26.11.20

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Já despachei os sete episódios de “O Gambito de Rainha”, minissérie da Netflix. É muito bem feita e representada, embora a história seja banal, do tipo “jovem heroína vence todas as adversidades, apesar de vir de baixo, graças a uma vocação extraordinária”. É uma espécie de “Karate Kid” do xadrez, filme de êxito nos anos 80, que motivou várias sequelas. Adivinho que este “Gambito” também terá mais temporadas, porque de facto a fórmula funciona e eu vi a série com rapidez e agrado, facto ao qual o recolher obrigatório não é alheio. Ao que consta, a minissérie está a causar interesse pelo xadrez um pouco por toda a parte, sobretudo entre os jovens, o que é louvável. O mais estranho é que, apesar de ter consultores ilustres (como o antigo campeão Garry Kasparov), pareceu-me que quase não se aprende sobre o xadrez, nem se percebem as jogadas para quem vê a série descontraidamente. Talvez voltando atrás, parando as imagens e analisando-as, mas não estou para isso.

 

Foi impossível não me lembrar do celebérrimo encontro entre Boris Spassky e Bobby Fischer, ocorrido em Reiquiavique em 1972, que, embora só tivesse 9 anos de idade, acompanhava todas as noites nas reconstituições que a RTP de então transmitia em horário nobre. Sete anos mais tarde, acompanhei no Rio de Janeiro, onde vivia, um torneio interzonal (uma espécie de eliminatória para decidir quais os candidatos a desafiar o campeão) e vi como o xadrez pode ser absorvente. Durante mais de três semanas, para mim e alguns amigos adolescentes igualmente entusiastas pelo xadrez, o mundo esteve todo no Copacabana Palace – o fantástico hotel onde decorria o torneio – e, quando não estávamos lá, íamos para casa uns dos outros reconstituir as partidas e discutir as peripécias do dia. Encontrei na Internet um recorte de um jornal da altura, em que estão os participantes, que acima reproduzo. Foi ganho pelo húngaro Lajos Portisch, ficando em segundo o soviético-arménio Tigran Petrosian, que já tinha sido campeão do mundo, perdendo o título precisamente para Spassky, em 1969. Pude então confirmar algo que se vê no “Gambito”, que os jogadores soviéticos, apesar de competirem entre si, se ajudavam mutuamente nos intervalos das sessões. Lembro-me de ver Petrosian, sempre acompanhado pela mulher, numa sala à parte a analisar as suas partidas com Balashov e Vaganian. Rezavam as más-línguas que estas sessões se prolongavam noite fora, com muita vodka à mistura.

 

O que me pareceu pior na série da Netflix foi dar a ideia que tudo se resolve numa só partida, quando é quase sempre em longos (e, por vezes, enfadonhos) encontros com várias partidas. Mas aceito que, para a economia dramática da ficção, resultasse melhor desta maneira. Há ainda algo que continua a intrigar-me: porque é que existem campeonatos só para mulheres? Sendo-lhes permitida a participação dos campeonatos ditos “masculinos” - como se vê na série - e não havendo as razões físicas que motivam a separação entre sexos noutras modalidades, julgo que é extremamente sexista organizá-los. Deve haver uma boa explicação, sobretudo quando temos no mundo de hoje tanta atenção a estes assuntos (e ainda bem), mas não consigo encontrá-la.

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Não conheço ninguém, absolutamente ninguém, que à direita não esteja desiludido, ou até mesmo zangado, com Marcelo Rebelo de Sousa. O que não deixa de ser extraordinário. É claro que na hora das eleições muitos destes eleitores, por falta de opções, poderão acabar a votar nele - e que terá conquistado muitos votos entre os socialistas -, mas a verdade é que é quase impossível que se reeleja com os miríficos mais de 70% com que, segundo os entendidos, ambicionava superar o Soares do segundo mandato. Além disso, 70% de quê? Nas últimas eleições presidenciais, a abstenção foi de 51,3%, na anterior foi de mais de 53%. Pelo menos, no tempo de Soares (1991) era “apenas” de 38%. Nas próximas, com a direita neste estado de espírito e com a pandemia a ajudar, vamos ver com quantos votos vamos eleger o “presidente de todos os portugueses”.

Talvez Marcelo esteja a debater-se interiormente (“sou tão bom, tão inteligente, sei tanto de política, que seria um pecado privar os portugueses da luz com que os ilumino”), mas parece-me agora mais plausível a hipótese de ele não se recandidatar e deixar, como ouvi por aí, a tarefa para Leonor Beleza. Sendo pessoa que admiro, não me faria deixar de ser abstencionista nas presidenciais, porque a acho mal empregada para tão funesto cargo. Como, aliás, Marcelo e Cavaco já o foram.

 

Foto: DN

 

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Numa entrevista nesta semana, o novo director do ABC (Julián Quirós, na foto) afirma que o jornal pretende “atender e inspirar as amplas camadas liberais e conservadoras da sociedade espanhola”. Mais adiante, sublinha que o jornal não está “subordinado aos partidos”. Imagino que se a entrevista fosse com um hipotético novo director do El País, este diria que iria “atender e inspirar as amplas camadas socialistas e progressistas”. Sinto falta desta clareza e pluralismo na Comunicação Social portuguesa, onde quase todos os meios têm redacções com a mesma mundividência, basicamente de esquerda, que implica as mesmas agendas, as mesmas hierarquizações de temas a desenvolver, as mesmas fontes, a mesma confusão entre o que é seguir uma tendência politica e o servir partidos. Até aqueles meios que, por causa das secções de Opinião, julgamos que são diferentes, mas cuja informação praticamente não se distingue da enfadonha mesmice instalada.

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Vai por aí uma grande excitação entre os republicanos com os problemas de Juan Carlos. No fundo, esperam que isso leve ao fim da monarquia espanhola. Compreensivelmente, o êxito desta monarquia dói de perto aos republicanos portugueses. Para acalmar, deveriam ouvir o socialista Pedro Sánchez, que respondeu aos jornalistas que uma coisa são pessoas outra são instituições e que Juan Carlos, se for necessário, estará disposto a responder perante a justiça.
 
Não deixa de ser curioso que os republicanos - ao contrário do que fazem em relação às monarquias - nunca ponham em causa a natureza do regime quando há dirigentes como os actuais em repúblicas como, por exemplo, os EUA, Rússia, China, Brasil, Filipinas, Coreia do Norte, Venezuela, Cuba ou Hungria. Não quer isto dizer que o comportamento de Juan Carlos seja desculpável. As monarquias vivem muito do exemplo e ele deu péssimos exemplos neste final de vida. Mas também é verdade que é suposto a continuidade monárquica aprender com os erros que são cometidos e tudo indica que Filipe VI não repetirá os do seu pai. Apesar dos frequentes casos de corrupção, Espanha, muito graças a Juan Carlos, é hoje uma sólida democracia. O que não se poderá dizer de algumas das principais repúblicas do mundo.
 
Nota: Fotografia de Filipe VI a jurar a constituição perante o parlamento espanhol
 

Em busca de um candidato

por Duarte Calvão, em 24.05.20

 

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Marcelo cola-se a António Costa porque António Costa é popular. Se não fosse, não se colava. Não percebo porque se perde tanto tempo a analisar as evidências do nosso lindo e original sistema semi-presidencial, que prevê eleições directas para a presidente da República. Parece que na minha área política, as melhores cabeças se ocupam em arranjar um candidato alternativo, alguém que nos venha vingar das derrotas nas urnas nas eleições legislativas. A “dupla legitimidade” do voto no seu esplendor, o país que se lixe. Outros apostam em fortalecer Marcelo para ele combater São Bento a partir de Belém num segundo mandato redentor. E o país que se entretenha a assistir, deliciado, a quem melhor esgrime o florete no duelo.

Eu compreendo perfeitamente que nem todos consigam ser monárquicos – foram demasiadas aulas a mostrar os sentidos em que a História progride, demasiado filmes e séries de Hollywood -, mas ao menos os republicanos podiam parar um pouco para pensar se, depois de 44 anos (quarenta e quatro anos) de semi-presidencialismo, não seria melhor adoptarmos um sistema parlamentar, com eleições indirectas para presidente, como, por exemplo, acontece na Alemanha ou Itália. Ou então que se presidencialize o regime de uma vez, como se fez em França.

Não percebo como gente inteligente e que ainda tem esperanças no futuro do país, não tire nenhuma ilação do que aconteceu nas eleições presidenciais da nossa III República. O resumo é rápido de fazer: Eanes, hoje santificado pela nossa proverbial falta de memória, fez a vida negra aos primeiros-ministros eleitos, Soares e Sá Carneiro, e acabou a patrocinar a partir de Belém um partido inspirado na sua figura. Soares apoiou Cavaco no primeiro mandato - desiludindo o PS, despachando Vítor Constâncio e acabando com o partido de Eanes – e fez tudo para o derrubar no segundo. Sampaio colaborou activamente no descalabro guterrista, dissolveu a maioria absoluta de Santana, lançou Sócrates. Cavaco - o primeiro presidente de direita, que ia finalmente mostrar as virtudes do semi-presidencialismo português – deixou Sócrates à solta no primeiro mandato, foi impotente para contê-lo no segundo, quando o desvario já era evidente, e acabou por não conseguir impedir a geringonça. Marcelo é o que se vê. Acham, realmente, que agora é vai aparecer alguém que vai mostrar as grandes vantagens nosso ridículo e medíocre semi-presidencialismo?

O Bom Governo num puzzle

por Duarte Calvão, em 20.03.20

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Nada como um período de confinamento obrigatório para me poder dedicar, sem sentimentos de culpa, a puzzles de 1000 peças. Gosto especialmente daqueles que reproduzem obras de museus que vou visitando, comprados nas lojas à saída. Neste momento, todas as atenções vão para o “Jardim das Delícias”, de Bosch, adquirido no Museu do Prado, em data que já não recordo, mas que milagrosamente se encontrava ainda por fazer aqui em casa.

No Inverno passado, tinha sido a vez do “Bom Governo” (“Effetti del Buon Governo in città ed in campagna", na fotografia, depois de concluído), fresco de Ambrogio Lorenzetti que figura numa das paredes da Sala da Paz, também chamada do Conselho dos Nove, do Pallazzo Pubblico, sede do antigo poder em Siena, contrastando com uma parede oposta, que representa o “Mau Governo”, pintados entre 1337 e 1339. Quando vi estes espectaculares frescos, uma alegoria dos efeitos da boa e má governação, ocorreu-me que bem perto dali, em Florença, cerca de 150 anos depois, Maquiavel escreveria “O Príncipe”, obra de mérito que dispensa defesa, mas que teve o condão de influenciar mal analistas, jornalistas e comentadores políticos dos séculos XX e XXI, que vêem nele um manual para interpretar a acção dos governantes, admirando sobretudo aqueles que melhor se equilibram no poder e destroem os adversários. O julgamento da boa ou má governação passou para segundo plano, para o da “ingenuidade” dos frescos de Siena, já não interessa a pintores nem a ninguém.

Mas o importante aqui são os puzzles. Que têm vantagem de poderem ser acompanhados por música e até ocasionarem danças celebrativas, motivadas pelo encaixe de peças mais difíceis de encontrar.

 

Gin tónico, vinho branco e Miguel Morgado

por Duarte Calvão, em 11.11.19

 

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Presentes ao acto, da esquerda para a direita, o Fundador, Miguel Morgado, Vasco Rosa, Henrique Pereira dos Santos, João Távora, Maria Teixeira Alves, Vasco Mina e João Afonso Machado

 

Foi ainda na fase gin tónico que eu alvitrei um renascimento da blogosfera motivado pelo desencanto de gente civilizada pela superficialidade do Facebook, Twitter e Instagram. Desafortunadamente, senti logo que os meus digníssimos colegas do Corta-fitas que se encontravam presentes não acompanhavam com grande entusiasmo este optimismo. Julgo que recebi mesmo um ou outro olhar de esguelha. Pareciam pensar: “Olha este, que já não escreve um post nem quando o rei faz anos, agora vem com histórias...”. Creio que decidiram mesmo punir-me, obrigando-me a escrever este relato do jantar. Mas eu, valendo-me do meu estatuto de fundador que resta do blog,  vou fazê-lo só pela rama. É para aprenderem a não me encarregarem de assuntos sérios.

Estávamos nas cercanias do Parlamento, no simpático restaurante Parlatório, na Rua de São Bento, e esperávamos pelo nosso convidado, Miguel Morgado, sem dúvida uma das vozes mais interessantes que existem no Portugal não-socialista. Empenhado em construir uma “federação de direitas”, tendo já fundado o Movimento 5.7, a sua intervenção tem muito a ver com o que tem sido a vivência deste blog desde que surgiu, em pleno primeiro mandato de José Sócrates, quando, tal como acontece um pouco hoje, parece que quem não é de esquerda não é bem visto em Portugal. No mínimo. Ora no Corta Fitas sempre albergámos diversas maneiras de ser não socialista, desde que tolerantes e respeitadoras da democracia burguesa.

Foi na fase vinho branco que a conversa com o convidado se desenvolveu e Miguel Morgado não desiludiu. Entre bacalhau à Brás, rosbife e empadão de vitela, trocámos impressões sobre o futuro do CDS, PSD e Iniciativa Liberal, sobre a Comunicação Social portuguesa, comparámos a governação socialista com a de Passos Coelho (à qual Miguel Morgado pertenceu), sobre as dificuldades de ser de direita entre nós, quando muitas vezes até falta apoio de quem naturalmente pertence a este espaço, e sobre várias outras coisas de que agora não me lembro.

Lembro-me sim do que achei na altura e que confirmou o que já conhecia do nosso convidado. A sua geração apresenta uma série de pessoas bem-educadas, cultas e desassombradamente não-socialistas, que estão - ou estiveram - na política pelos melhores motivos. Mas nem todas possuem uma grande qualidade que me parece distinguir Miguel Morgado, a combatividade. Atrever-me-ia mesmo a considerar que ele gosta do cheiro a pólvora, que nunca se queixa de se ter metido na política partidária, sabendo de antemão o que isso implica. Por outro lado, também se distingue por não se deixar limitar e intimidar pelo discurso da esquerda. Não esperem dele frases que comecem com “sou de direita, mas em certas coisas...”, perdendo tempo em intervenções públicas a justificar que não é “ultramontano” ou que não tem nada a ver com salazarismos ou regimes autoritários afins. Nele é tão evidente que não precisa de ser enunciado.

Tivemos, portanto, um convidado excepcional e, a julgar pelo tempo que demorou e pela animação das conversas, fico com a ideia de que Miguel Morgado também gostou da jantarada. Venham mais como ele e nós cá continuaremos a estar no Corta-fitas para os ouvir. Afinal, digam o que disserem os moderninhos, os blogs ainda são o melhor lugar para estar.

 

Nota: O nosso convidado bebeu só uma (1) cerveja

Uma tradição recuperada

por Duarte Calvão, em 03.09.17

 

Julgava que era como cuspir para o chão, tinha felizmente desaparecido no Portugal actual. Mas não, por cá nunca podemos dar nada por adquirido e nos últimos tempos sou frequentemente sobressaltado com canos de escapes extremamente ruidosos, quase sempre de motos. Os problemas que isto causa numa sociedade civilizada são tão evidentes que me dispenso de enumerá-los. Parece que, além de absoluta falta de civismo e de bom gosto, são também sintomas de impotência sexual e de imbecilidade, segundo especialistas que já vi citados. E são também ilegais, mas isso em Portugal não quer dizer nada.

A maior república do mundo

por Duarte Calvão, em 06.11.16

 

Os EUA são vistos, mesmo pelos monárquicos que conheço, como uma república natural, onde é impensável uma mudança do regime presidencialista. Nasceram assim, cresceram assim, afirmaram-se no mundo assim e certamente continuarão assim. Deste modo, é bastante ridículo verificar que a república mais influente do mundo tem actualmente para apresentar para a chefia de Estado um tipo horroroso como Donald Trump e uma péssima candidata, Hillary Clinton, cuja principal virtude é não ser Trump.

 

Os americanos sempre acharam que têm o melhor sistema do mundo e, a par da antiga União Soviética, foram os principais responsáveis pela imposição de regimes republicanos nos países que puderam influenciar, mesmo quando a reimplantação de monarquias (democráticas, evidentemente) poderia ser ponderada como solução mais adequada. Basta ver o que aconteceu recentemente no Afeganistão e no Iraque ou em alguns países da Europa de Leste. Curiosamente, os mais optimistas, como eu, julgam que, mesmo que Trump seja eleito, as instituições americanas serão fortes suficientes para o enquadrarem e não deixarem que faça disparates perigosos. Ou seja, o mesmo que aconteceria numa monarquia constitucional que tivesse o azar de ter um mau rei. A diferença é que em países democráticos dificilmente se poderá imaginar um rei que dê tanto trabalho institucional a enquadrar como Trump, sobretudo num regime republicano altamente personalista, que acredita que os melhores chefes de Estado são escolhidos pelo povo em eleições. E que, passada a efervescência eleitoral, acredita que todos aceitam o escolhido

Fico a saber pelos periódicos que no domingo à noite as três televisões generalistas portuguesas disputaram audiências com os programas “The Voice” (RTP1), que quer promover talentos portugueses, “Best Bakery” (SIC), que quer promover a pastelaria portuguesa, e “Secret Story” (TVI) que, enfim, não sei bem se quer promover alguma coisa. Se promover a parolice do “falar estrangeiro” pagasse imposto em Portugal, já há muito que não tínhamos comissários europeus a ralhar connosco.

Abstenção violenta

por Duarte Calvão, em 07.01.16

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Completamente alheio às eleições presidenciais, abri hoje uma excepção, por gosto pelo confronto, para ver o debate entre Sampaio da Nóvoa e Marcelo Rebelo de Sousa. Foi engraçado em alguns momentos, mas como é evidente só reforçou as minhas convicções monárquicas. O mais ridículo neste nosso absurdo regime semi-presidencialista é que, após 40 anos de "sufrágio directo", um dos pontos que está sempre em acesa discussão é quais são os poderes de que, afinal, o chefe de Estado dispõe, onde começam e onde terminam, se são suficientes ou excessivos. se entram em conflito com os outros poderes, como devem ser interpretados, etc, etc. Se ainda houver país, talvez daqui a outros 40 anos cheguem a uma conclusão.

A Voz do Povo

por Duarte Calvão, em 05.05.15

Ouvir o noticiário das 9 h da TSF desta manhã dá bem uma ideia de como isto anda. Acredite se quiser, mas as quatro notícias principais, de abertura, incluíam declarações de uma associação de professores de Português, do sindicato dos pilotos (aqui até faz sentido), do sindicato dos funcionários judiciais e do sindicato dos trabalhadores do fisco. E ainda dizem que o movimento sindical está em declínio entre nós.

Uma reflexão profunda

por Duarte Calvão, em 26.05.14

Estou um bocado farto desta conversa de que “o sistema partidário não reflecte os anseios dos eleitores”, de que há um “divórcio entre representantes e representados”, de que a enorme abstenção deve levar a uma “profunda reflexão” sobre não sei o quê…Estão descontentes com a oferta partidária? Pois levantem-se do sofá e formem novos partidos e movimentos ou filiem-se nos que existem e transformem-nos. Mas deixem de maçar as pessoas com lamúrias e contentem-se com o Marinho e Pinto, o Rui Tavares, o Syriza e a Le Pen, o inglês xenófobo e todos os outros que “desafiam o poder partidário vigente”. Ou abstenham-se, mas silenciosos e bem sentados. 

Apesar da crise

por Duarte Calvão, em 28.06.13

Neste Verão, quando estiver sentado numa esplanada, é melhor estar preparado para a qualquer momento ser interpelado por um jornalista de microfone em riste a perguntar: "apesar da crise, essa cerveja está a saber-lhe bem?".  Hoje, nas notícias da manhã, havia mais portugueses com intenção de viajar de férias do que no ano passado "apesar da crise", os festivais de música de Verão estão cheios "apesar da crise", as estatísticas de criminalidade tinham diminuído "apesar da crise". Há poucos dias, as reportagens sobre os festas dos Santos Populares incluíam sempre o "apesar da crise" antes de mostrarem ruas inundadas de gente a divertir-se,  a dançar, a comer e a beber. Tendo, claro, a extraordinária variação: "para esquecer a crise", os lisboetas ou os portuenses saíram à rua, etc. etc. Noutro exemplo recente, nas inúmeras reportagens sobre a Feira do Livro de Lisboa, que foi um êxito de público e de vendas extremamente arreliador para diversas "narrativas", lá estava o "apesar da crise", mas também vi "os portugueses procuram esquecer a crise mergulhando na leitura"...Que a crise existe estamos fartos de saber, que tenhamos esta doentia necessidade de nos estarmos sempre a lembrar dela, mesmo nos momentos de férias, de lazer, de festa, diz mais sobre a nossa triste sociedade do que não sei quantos estudos e análises.

A III República no seu melhor

por Duarte Calvão, em 26.04.13

Mário Soares, no seu segundo mandato presidencial, fez guerra aberta ao Governo de Cavaco Silva. Hoje, é apontado como "um exemplo". Jorge Sampaio deitou abaixo um Governo com apoio da maioria parlamentar, creio que um caso único na Europa Ocidental. Hoje, é “uma referência”. O próprio Cavaco, no primeiro Governo Sócrates, quando se reunia com ele numa “mesa de trabalho” redonda e com pé-de-galo, era considerado por embevecidos politólogos de esquerda quase uma “alma gémea” do primeiro-ministro socialista. Agora, bastou um discurso que não correspondeu às expectativas delirantes da esquerda, sobretudo de eleições antecipadas que nos enterrariam de vez no buraco, para tudo cair em cima do chefe de Estado e qual “respeito institucional” qual nada.
Apesar do tom de melindre de António José Seguro ser prometedor de futuros momentos divertidos, o prémio para reacção mais engraçada vai até agora para o deputado socialista João Galamba que, segundo o “Público”, meteu no Twitter a seguinte pérola: “um discurso miserável de um miserável presidente”. Na II República e creio que na I República também (os meus amigos historiadores poderão ajudar-me), insultos como este ao chefe de Estado republicano (ao contrário do que acontecia na Monarquia com o rei) davam cadeia. Hoje, felizmente, já não dão, mas mostram bem como a arquitectura da nossa triste III República está mal desenhada e como os seus defensores mudam de opinião conforme as conveniências políticas do momento.

Pela liberdade de João Távora

por Duarte Calvão, em 08.04.13

Fiz muitas asneiras na vida, mas também fiz algumas coisas boas. Uma delas foi ter-me lembrado de convidar o meu amigo João Távora para se juntar ao Corta-fitas, passado pouco tempo sobre a sua fundação. Ele estava preocupado com o facto de não ser jornalista, de nunca ter tido nenhuma profissão ligada às "letras", receando não se saber exprimir bem por escrito. Aquilo que ele via como uma desvantagem, a mim parecia-me uma enorme oportunidade de variar de estilo de escrita, de temas e de pontos de vista de um blog que até então era formado exclusivamente por jornalistas (eu, na altura, ainda o era). Rapidamente se provou que tinha razão e o João Távora conquistou logo um lugar na blogosfera sem nunca ceder nas suas sólidas convicções, sem nunca precisar fingir ser algo que não é. Já há algum tempo que ele é a verdadeira alma deste blog, relegando-me com toda a justiça para a discreta posição de "fundador que resta" e, apesar de ele me estar constantemente a espicaçar, continuo com a minha preguiça e descrença no poder das palavras. Sem ele, este blog hoje já não existiria e eu estou-lhe profundamente agradecido pela sua persistência e invencível optimismo. 

Não sendo conservador, mas detestando o discurso "progressista", sendo agnóstico, mas com repulsa por "mata-frades", nunca estas minhas características afectaram as relações com o João Távora, o que mostra bem o seu espírito de tolerância, embora certamente ajude sermos ambos fervorosos monárquicos e sportinguistas. Infelizmente, devido a razões profissionais, é-me de todo impossível comparecer amanhã ao lançamento do seu livro Liberdade 232, às 18.30h, no Instituto Amaro da Costa (Rua do Patrocínio, 128, Campo de Ourique, Lisboa), mas fico muito satisfeito em ver que entre os admiradores do João Távora estão pessoas com a qualidade de Francisco José Viegas e do padre Pedro Quintela, que farão a apresentação, ou de Henrique Raposo, que escreveu o prefácio. Prometo não faltar ao lançamento das próximas obras do João Távora, porque se há algo de que tenho a certeza é de que ele ainda tem muito para nos dizer.

Vasco Rosa organiza Raul Brandão

por Duarte Calvão, em 06.03.13

 

O nosso Vasco Rosa lança amanhã, às 18.30h, no Centro Nacional de Cultura, ao Chiado (Largo do Picadeiro, 10, 1º), o livro "A pedra ainda espera dar flor" (Editora Quetzal), que reúne textos dispersos de Raul Brandão, escritos entre 1891 e 1930. A apresentação está a cargo de Maria João Reynaud, Vítor Viçoso e Otavio Rios. Nós, aqui no Corta, somos suspeitos, mas cito de cor o que ouvi de Rui Ramos, num debate quase clandestino que ele mantém no Canal Q com Clara Ferreira Alves, sublinhando a importância desta obra: "É inacreditável que nós em Portugal tenhamos textos de escritores como Raul Brandão, que está entre os nossos melhores, e eles fiquem sem ser lidos durante cem anos ou mais". 

Tanta nabice já irrita

por Duarte Calvão, em 14.02.13

 

É evidente que é fácil defender que um desvio de 0,2% numa previsão económica de 3% é quase um êxito de acerto. No entanto, pelo que vi distraidamente pelos telejornais de hoje, salvo num rodapé na RTP Notícias que referia uma reacção qualquer do PSD, o Governo foi hoje massacrado na Comunicação Social por ter errado nas previsões de queda no PIB em 2012. Falou-se de "economia a afundar", de "espiral recessiva", de não sei que mais. Por causa de um desvio de 0,2% nas previsões... Até Marques Guedes, de quem tenho a melhor das impressões, no fim do Conselho de Ministros, questionado pelos jornalistas, limitou-se a remeter burocraticamente o assunto para o Ministério das Finanças quando bastaria uma frasezinha do género "olhe que 0,2% não é lá grande desvio" para que os telejornais fossem diferentes. Não adianta o PSD e o Governo continuarem a queixar-se da Comunicação Social. Toda a gente sabe há anos que os jornalistas são na sua grande maioria de esquerda. É um dado adquirido. Por isso, façam o favor de não lhes darem mais pretextos e deixem de cometer nabices como esta.

Fotografia:  Arronches em Notícias



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