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Uma piada socialista de mau gosto

por Pedro Picoito, em 12.10.18

Todos percebemos que o ex-Ministro da Defesa tinha os dias contados quando o Público de hoje noticiou que o PS já pedia a sua cabeça e Costa só o ia segurar até à votação do OGE. Mas, em bom rigor, Azeredo já não tinha condições para continuar desde que o seu ex-Chefe de Gabinete admitiu ter recebido o famoso memorando com o teatrinho de Tancos. Como é que nem ele nem o Primeiro-Ministro viram isso, eis um pormenor deprimente que em muito ultrapassa as conversas de café sobre "o estado a que isto chegou". Com episódios surrealistas, entre os quais a tirada de que "não compete ao Ministro estar à porta dos paióis", uma singela frase que revoluciona toda a teoria do poder executivo desde Montesquieu. Portugal é um país que pergunta a crianças de nove anos qual a sua orientação sexual para combater a discriminação, mas não assegura funções básicas de soberania como impedir o roubo de armas num quartel ou que centena e meia dos seus cidadãos morra num incêndio por incompetência do Estado. Aliás, Portugal em 2018 não é bem um país, é uma piada socialista de mau gosto. 

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Fascistas! Fascistas!

por Pedro Picoito, em 12.10.18

Há dias, o deputado do CDS Michael Seufert dizia no Facebook que o adjectivo fascista tem sido tão usado ultimamente que já não quer dizer nada. E dava um exemplo: quando se chama fascista a Passos Coelho, faltam palavras para Bolsonaro.  

Tem razão, mas não é de agora. Em Portugal, a esquerda sempre se considerou dona do regime democrático. A direita é tolerada porque alguém tem que estar na oposição. Mas se, por inexplicável acaso, a direita está no Governo ou em Belém, cruzes canhoto que vem aí a ditadura. AD, Cavaco, até a Merkel quando nos visitou e lhe chamaram nazi... E agora, o que é que chamam à Alternativa Para a Alemanha?

Vá lá, camaradas, enriqueçam o vocabulário.

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E agora?

por Pedro Picoito, em 08.10.18

Bolsonaro venceu a primeira volta das presidenciais brasileiras, com 47% dos votos. Haddad foi segundo, com 28%. A grande quastão, agora, é saber qual deles consegue agregar os votos suficientes para ganhar na segunda volta. Aparentemente, Bolsonaro tem a tarefa facilitada: a sua vantagem é enorme e basta-lhe ter um voto. Mas tem também uma taxa de rejeição altíssima. Será suficiente para gerar um "efeito anti-Le Pen", como sucedeu em França na campanha que deu o segundo mandato a Chirac? Não creio porque Haddad tem uma taxa de rejeição tão grande ou maior. O antipetismo, aliás, é o grande responsável pela votação de Bolsonaro. O Brasil que elegeu Lula não se tornou fascista de repente.  Tudo isto são evidências, mas diz muito dos nossos "tempos perigosos" que as tenhamos de repetir. 

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Umbilicus Mundi

por Pedro Picoito, em 04.10.18

No fundo, o que eu queria era ficar no meu canto, com os meus livros, a minha música e o meu cachimbo. Os clássicos davam o nome de aurea mediocritas a esta quietude contemplativa, e parece-me bem mais áurea do que o desassossego estéril a que tantos chamam vida. Mas não posso desentender-me da sorte dos outros, até porque a defesa da liberdade de todos é também a defesa da minha liberdade. A democracia em que acredito, fruto imperfeito das grandes revoluções modernas, prometeu-nos com a cidadania o direito à felicidade. Está na Declaração de Independência americana. É essa a sua força e a sua fraqueza. Porque não há nada que mais separe os homens do que a felicidade. Nenhuma bússola indica o caminho, nenhuma lei traduz na língua do quotidiano a gramática do absoluto. Sim, alguns falam em bem comum, mas receio que seja no sentido de vulgar, não de colectivo. O poder doce e omnipresente que cresce à sombra dos egoísmos, como o descreveu Tocqueville.

Deveria ser de outro modo? Não creio. Dou-me bem com esta anomia, embora sinta por vezes a nostalgia da cruzada. Por exemplo, quando querem impor-me a novilíngua de turno como se fosse a revelação divina. Deus não morreu, ao contrário do que ameaçava Nietzsche: minimizou-se em milhões de trolls e passeia na brisa da tarde das redes sociais. Nada tenho contra a descoberta do próprio umbigo. Segundo a Declaração de Independência, trata-se de uma viagem tão legítima como a ida à Lua ou a Jerusalém. Mas já tenho alguma coisa a dizer sobre o erro de rota de quem descobre o centro do mundo no próprio umbigo. Ir à Lua ou a Jerusalém obriga a partir, a sair de casa, a cruzar mares e céus distantes. E cruzar mares e céus distantes é também uma forma de cruzada. Pouco exaltante, já se sabe. Afinal, não passa de combater umbigos. Mas o que assim se ganha é nem mais nem menos do que a liberdade de pensar. Também está na Declaração de Independência. 

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Tempos perigosos (2)

por Pedro Picoito, em 03.10.18

E por cá? Aparentemente, o centro aguenta-se, ao contrário do que dizia Yeats num célebre poema sobre a sua Irlanda em vésperas de guerra civil ("things fall apart, the centre cannot hold"). O PS e o PSD, juntos, têm uma confortável maioria do voto dos portugueses. Acrescentemos, à direita, um CDS que sempre fez parte do sistema e, à esquerda, um PCP que domesticou o voto de protesto (veja-se como o número de greves diminuiu com a "geringonça"), e temos uma ausência quase total dos extremos na política portuguesa. O BE, com a sua retórica contracultural, seria o óbvio candidato, mas o caso Robles mostrou que a única coisa contracultural no BE, hoje, é precisamente a sua retórica. Na prática, os velhos e novos revolucionários aburguesaram-se. 

Quer isto dizer que os Portugueses, povo de brandos costumes, são mais imunes ao extremismo do que os outros? De modo nenhum. Afinal, entre o caos da I República e o caos do PREC, tivemos uma ditadura de meio século: não abona muito a favor das nossas credenciais democráticas. Isto quer dizer é que temos pouca imigração, e a que temos (Brasil, PALOP, Leste europeu) se tem integrado menos mal, e que a percepção pública da corrupção é ainda limitada, apesar dos esforços de Sócrates e dos quarenta ladrões para acabar com este estado de inocência. 

Porque este estado de inocência pode mesmo acabar. Basta que Sócrates e algum dos quarenta ladrões não vão a julgamento, ou que vão e sejam absolvidos, ou que vão e tenham uma pena simbólica, ou qualquer outro desfecho que alimente o sentimento popular de que "eles", mais uma vez, fugiram a justiça. Uma coisa é certa: o Processo Marquês terá um impacto social e político que em muito ultrapassa os tribunais. 

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Tempos perigosos (1)

por Pedro Picoito, em 02.10.18

De acordo com as sondagens, as eleições presidenciais no Brasil serão disputadas na segunda volta entre Bolsonaro e Haddad. Ganhe quem ganhar, o Brasil já perdeu. Primeiro, porque a escolha é entre um saudosista da ditadura e um cúmplice da corrupção. Depois, porque o presidente eleito terá sempre metade do país contra ele. Tal como na Europa e nos EUA, a tragédia presente do Brasil é o desaparecimento do centro político. Os moderados de direita e de esquerda estão encostados às cordas. Mesmo em Inglaterra, onde a polarização é menos intensa, Theresa May está a ser cortada às fatias pelos eurocépticos do Partido Conservador, muito próximos do UKIP, e por Corbyn, que nunca deixou de ser um eurocéptico. Só Macron, em França, parece resistir, mas por quanto tempo? 

Como é que chegámos aqui? Há causas locais, por exemplo a violência no Brasil, mas também há traços comuns. A crise económica, que trouxe o medo à classe média, coluna vertebral de qualquer democracia. A imigração, que reforçou esse medo com o refúgio no nacionalismo. E, sobretudo, a decadência da classe política, da qual a corrupção e a demagogia são os exemplos mais vertiginosos: Lula no Brasil, Sócrates em Portugal, o PP em Espanha, todos em Itália e França, Boris Johnson e Corbyn em Inglaterra, etc.

O que é se segue? Tempos perigosos. 

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Boa tarde e obrigado

por Pedro Picoito, em 01.10.18

Obrigado ao João Távora pelo convite. Como ele subtilmente recordou, já ando na blogosfera há alguns anos  - resta saber se com proveito de alguém. Quando comecei, na Mão Invisível (não se lembram, pois não?), era um jovem de trinta anos (hoje tenho 47), com dois filhos (hoje tenho seis) e dedicado ao ensino (hoje só faço investigação). E era mais idealista: ainda acreditava que as palavras podem mudar o mundo. Hoje, tenho a certeza que o mundo não muda sem mãos à obra. Se um cínico é um idealista desiludido, espero que este realismo me impeça de ser um cínico. E o Corta-Fitas é um excelente ponto de partida. Ou de regresso. Boa tarde a todos. 

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