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Os inassimiláveis

por Pedro Picoito, em 15.07.19

Aqui fica a minha opinião sobre o artigo de Fátima Bonifácio e a respectiva polémica. Hoje, no Observador. 

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Os bárbaros sempre eram uma solução

por Pedro Picoito, em 25.06.19

A ideia ficou no ar, desde as eleições europeias: a direita está em crise. Sim, está. Mas não é de agora e não é só cá. Em Portugal, PSD e CDS não chegam à maioria absoluta desde 2011, e coligados. Lá fora, as coisas não estão melhor. Dizer que a direita cresceu em França, Itália, Inglaterra, Polónia ou Hungria é ignorar que as novas direitas, nacionalistas ou liberais, partilham pouco ADN com a direita conservadora ou democrata-cristã. Em Inglaterra, Farage venceu, mas os Tories afundaram-se. Em França, Marine Le Pen suplantou por muito os Republicains. Em Espanha, o PP perde terreno para o Ciudadanos a cada eleição. Para já não falar nos trágicos travestis da DC italiana - Berlusconi, Bossi, Salvini e tutti quanti. Só se salva a CDU, que ligou o seu destino à reunificação alemã graças à teimosia de Kohl, e há anos vive dos rendimentos (resta saber até quando). 

Quais são as causas do desastre? Três, pelo menos, e estão relacionadas. (Há muitas mais, mas nem vocês têm paciência para as ler nem eu tempo para as escrever.)

Primeira: a Queda do Muro de Berlim. Sim, 1989 foi um triunfo da democracia liberal, da economia de mercado e da sociedade aberta, defendidas pela direita do pós-guerra na sua batalha contra o comunismo, dentro e fora de portas. Houve até quem falasse no fim da História. Mas a História voltou, e mais depressa  do que se esperava. Em Tiananmen, nas Torres Gémeas, em Bagdad, no Kremlin, no Mediterrâneo, na Síria, em Wall Street. Entretanto, a direita, que fizera do anticomunismo um seguro de vida, adormeceu sob os louros da vitória. Perdeu, com o fim do inimigo, a razão de ser. Como diz aquele poema do Kavafis, os bárbaros sempre eram uma solução.

Segunda: a direita não soube criar um pensamento que respondesse às mudanças pós-89. Durante a Guerra Fria, as suas ideias eram uma clara alternativa ao socialismo democrático, e ainda mais ao comunismo, mas hoje não tem nada de substancial a dizer sobre migrações, ecologia, multiculturalismo, desemprego, a Europa, a crise financeira de 2008 ou operações para mudar de sexo no SNS. Não é coisa que se improvise. E já vai tarde. Entretanto, o espaço vazio foi ocupado por populistas, eurocépticos, xenófobos, demagogos que fazem política de terço na mão e o Boris Johnson. De quem é a culpa? 

Terceira: em consequência, a direita tradicional tem dificuldade em distinguir-se do centrão socialista. Ou são os eleitores que têm dificuldade em distingui-los, o que vai dar ao mesmo. No governo ou na oposição,  a direita tende a optar por políticas pragmáticas e consensuais. Daqui não vem mal ao mundo, pelo contrário, desde que sejam claras as diferenças de fundo e, portanto, a possibilidade de escolha. Mas não é isso o que tem acontecido. Os resultados estão à vista. PSD e CDS que o digam.  

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As pessoas não são estúpidas

por Pedro Picoito, em 27.05.19

Não estou muito preocupado com a abstenção. Os eleitores já mostraram que vão votar quando a escolha é clara ou o seu voto conta. É uma das enormíssimas vantagens da democracia. O que explica, parece-me, a menor abstenção na generalidade dos nossos vizinhos europeus: as ameaças eram maiores. Mas quem arranca o tuga à praia para escolher entre o PS de Pedro Marques e o PSD de Rui Rio, um líder que "estaria no PS se não fosse Sá Carneiro"? As pessoas não são estúpidas.

Rui Rio, que  tinha uma imagem de seriedade e rigor, conseguiu a proeza de ceder essa imagem a Costa, um dos principais ministros de Sócrates. É obra. Com a "crise dos professores", entregou de bandeja o seu único trunfo, destruiu o trabalho de meses e ainda mostrou que não acompanha de perto a política educativa do partido. Os resultados estão à vista. As pessoas não são estúpidas. 

Em parte, o mesmo se pode dizer do CDS, mas com uma agravante. O problema do CDS não é de liderança, é de discurso. Quer crescer ao centro, mas sem perder à direita. Quer ganhar novos eleitores, mas sem perder os fiéis. Numa semana é complacente com o Vox, na outra pinta as passadeiras de arco-íris. As pessoas ficam baralhadas. Mas não são estúpidas.

Santana, afinal, não vale tantos votos como pensa. O oportunismo paga-se (que o digam os Tories). As pessoas não são estúpidas.

Basta de Basta. Por enquanto (mas eles hão-de voltar). As pessoas não são estúpidas.

A votação do PAN é uma tragédia civilizacional. Só o terror do fim do mundo explica o resultado de um partido que quer legislar sobre a sesta nas escolas. As pessoas não são estúpidas, mas às vezes parecem.

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São Pedro, tu que foste imigrante no Mediterrâneo e chegaste a Itália vindo da Síria, livra-nos dos católicos.

Não de todos, claro, mas pelo menos do Salvini, que é tão, tão, mas tão católico que saca do terço num comício e dá a Nossa Senhora o lugar da Marine Le Pen à frente da extrema-direita europeia.

Que ele vá para casa fazer filhos, muitos filhos, a única maneira de combater a ameaça islâmica. Se não conseguir, então que reze o terço.

Que ele deixe em paz Nossa Senhora, que teve de fugir para o Egipto por causa de outro político que não gostava de crianças nascidas fora da aldeia dos pais.

Que  ele não invoque São Bento, que já teve muitas chatices com uns bárbaros do Norte parecidíssimos com o Geert Wilders, e recorra a São Paulo, o turco que evangelizou Roma, e a Santo Agostinho, o africano que se converteu em Milão.

Que ele não cite João Paulo II, Bento XVI e o Cardeal Sarah só para contrariar o Papa Francisco, e cite o actual Papa, um tal de Francisco.  

E, sobretudo, ah, sobretudo, que não cite o Chesterton sem perceber nada. Que o leia antes. Por exemplo: "Os piores nacionalistas não amam a Inglaterra, mas uma teoria da Inglaterra. Se amamos a Inglaterra por ser um império, talvez exageremos o nosso sucesso no domínio dos Indianos. Mas se a amamos por ser uma nação, podemos enfrentar qualquer acontecimento  porque seria uma nação mesmo que os Indianos nos dominassem. Só aqueles cujo patriotismo depende da história permitem que o seu patriotismo falsifique a história. Um homem que ama a Inglaterra por ser inglesa não se preocupa como é que ela nasceu. Mas um homem que ama a Inglaterra por ser anglo-saxónica é bem capaz de ir contra todos os factos  por uma fantasia." 

Ámen.    

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Sic transit

por Pedro Picoito, em 17.05.19

Então é assim. Houve um tempo em que Berardo, Sócrates e companhia, Faustos lusos e lusos faustos, patos bravos e patos mansos,  pequenos e grandes burgueses, venderam a alma ao poder, à glória, ao dinheiro, velhos afrodisíacos dos pobres de espírito. Tiveram mulheres, carros, viagens, acções, bancos, empresas, partidos, governos, assembleias gerais, maiorias absolutas, apartamentos em Paris, montes no Alentejo, museus em Belém e a terrível embriaguez de impor a sua vontade a todos os mortais. Hoje, arrastam-se pelos corredores vazios dos palácios por pagar, das casas emprestadas ou simplesmente da prisão, sem que o destino lhes permita ir ao café da esquina  ou olhar-se ao espelho. Valeu a pena? Cá me parece: a alma era muito pequena. E, mesmo que não fosse, o mundo de nada serve ao homem se perder a sua alma, quanto mais Portugal.

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A lição espanhola

por Pedro Picoito, em 10.05.19

Um dos motivos pelos quais continuo a comprar o Público, apesar de todas as irritações, é a qualidade dos seus artigos de opinião. A crónica de Nuno Garoupa na edição de hoje ("A lição espanhola") é um bom exemplo. Garoupa analisa as recentes eleições espanholas e a reconfiguração do sistema partidário, com a passagem de dois grandes partidos a cinco partidos médios, e pergunta-se, como tanta gente, porque é que em Portugal não se está a passar algo semelhante, uma vez que a impopularidade do regime, traduzida na abstenção, é a mesma. E conclui que os partidos tradicionais gozam de "um contexto bem mais favorável em Portugal": acesso privilegiado à comunicação social, legislação que dificulta o aparecimento de novos partidos, maior finaciamento público, maior centralização da vida pública em Lisboa, sociedade envelhecida, ausência de uma crise territorial e um Estado central muito mais influente.

Concordo com tudo. De resto, não acredito em qualquer demonstração da nossa excepcionalidade que invoque os famigerados "brandos costumes" e a longa noite do fascismo. Só há quatro aspectos que se poderiam acrescentar, um referido de passagem, os outros ignorados. O primeiro é a corrupção. Garoupa diz que não é assim tão diferente nos dois países, mas por cá, apesar de Sócrates e dos Quarenta Ladrões, não sofremos um assalto generalizado ao dinheiro dos contribuintes como em Espanha, sobretudo por parte do PP (que está a pagar agora com língua de palmo: não basta invocar a unidade da pátria e o papão da extrema-esquerda para convencer o eleitorado conservador - também dá jeito ter mínimos éticos). O segundo é o clima de antifranquismo artificial criado pela "Lei da Memória Histórica", que só serviu para polarizar uma sociedade nunca esquecida da Guerra Civil, despertar o revanchismo da direita e catapultar o Vox. O terceiro é o próprio surgimento do Vox, que, em sentido contrário, mobilizou o eleitorado de esquerda em torno do PSOE contra a ameaça da extrema-direita. E o quarto, talvez o mais importante, é que não há em Portugal qualquer problema de imigração, e muito menos de imigração muçulmana, ao contrário do que se passa em toda a Europa (e esta, parece-me, constitui mesmo a principal razão da nossa excepcionalidade).

Mas, enfim, isto sou eu a falar com Vossas Mercês. Leiam o Garoupa, que vale a pena.

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Great again

por Pedro Picoito, em 07.05.19

Resultados da política externa de Trump: o Irão retomou o seu programa nuclear, depois de os EUA terem abandonado o acordo de contenção assinado entre Obama, a China, a União Europeia e o regime iraniano; Sergei Lavrov, Ministro dos Negócios Estrangeiros russo, anunciou ao mundo que niguém (leia-se: Trump) intervirá militarmente na Venezuela e que a Rússia irá mesmo aumentar a sua presença no país.

"Make America great again"? Defina "greatness"...

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O complexo edipiano do PP

por Pedro Picoito, em 02.05.19

O caso bué farsolas das passadeiras arco-íris propostas pelo PP resume-se a uma coisa muito simples: o eterno complexo de direita do partido. É uma das razões pelas quais, pertencendo à mesma área ideológica, nunca votei "centrista" (ou lá como eles gostam de se definir). Mas estamos em 2019.  Não será tempo de matarem o pai e portarem-se como pessoas crescidas? 

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25 de Abril às vezes

por Pedro Picoito, em 01.05.19

Para os portugueses mais amigos de Maduro do que dos venezeluanos, o 25 de Abril é só para consumo interno. A Venezuela não tem direito à liberdade. Nada que surpreenda: o único problema da extrema-esquerda com as ditaduras é não serem as suas ditaduras. 

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Ponto de ordem

por Pedro Picoito, em 23.01.19

O que os incidentes no Bairro Jamaica mostram é que continua a haver às portas da Lisboa trendy , melhor-destino-turístico-do-universo-e-arredores, bolsas de pobreza onde as pessoas vivem como bichos. E quando as pessoas vivem como bichos, comportam-se como bichos. Antes de fazer discursos inflamados sobre o "racismo" ou a "subsidiodependência", devemos garantir a todos os cidadãos portugueses condições mínimas de dignidade. É certo que não basta acabar com o ghetto para mudar a cultura de exclusão, mas seria um primeiro passo. E seria um melhor uso dos nossos impostos do que salvar bancos arruinados por mafiosos de botões de punho. Quanto a figuras menores como Mamadou Ba e José Pinto Coelho, que se alimentam um do outro e precisam um do outro para ter os seus quinze minutos de fama, não vale a pena dar-lhes muita atenção.

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Santana à espreita, com o populismo em fundo

por Pedro Picoito, em 21.01.19

A entrevista de Santana Lopes à TSF e ao DN de ontem, em que defende uma grande coligação de direita para derrotar o PS, ajuda a esclarecer a sua estratégia e a razão por que saiu do PSD. Não há muita ideologia, aparentemente. Santana percebeu que, se continuasse no partido, o seu destino seria o da restante oposição interna: ficar fora das listas de deputados nas próximas legislativas, quanto mais não fosse por um mínimo de coerência. Vai daí, quer voltar ao poder correndo por fora. Se o PS não tiver maioria absoluta, como todas as sondagens sugerem, a Aliança oferece-se para fiel da balança de uma geringonça de direita. Os jornalistas podiam ter-lhe perguntado, preto no branco, se também está disposto a coligar-se com o PS, o que esclareceria ainda mais os eleitores, mas estavam mais preocupados em arrancar-lhe um soundbite (o que obviamente não conseguiram) sobre a guerra civil na São Caetano à Lapa.

Interessante, mesmo muito interessante, é que a Aliança se presta a cavalgar a onda anti-europeísta, embora lhe chame outra coisa. Diz Santana que "é preciso uma nova atitude em Bruxelas". Que atitude? "É chegar a Bruxelas e a primeira preocupação não ser beijar a mão à senhora Merkel. É levar as nossas preocupações e não desistir delas." Pobre senhora Merkel, culpada dos males da Lusitânia. Claro que Santana, sendo Santana, não promete fazer tremer as pernas dos banqueiros alemães. Mas se este discurso tiver algum sucesso nas próximas europeias, ficaremos a saber que a Lusitânia, afinal, não é assim tão imune ao populismo.

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Três filósofos à boleia de um artigo

por Pedro Picoito, em 20.01.19

Recomendo vivamente a entrevista de Teresa de Sousa ao cientista político Jacques Rupnik, no Público de hoje. É um belo exemplo de como se pode e deve pensar o populismo, exercício muito recomendável porque, na pressa de condenar o fenómeno, muitos decidem ignorar as suas causas. A esquerda, geneticamente moldada pela abstracção das utopias, revela, como sempre, especiais problemas em olhar para a realidade. A célebre crítica de Marx (os filósofos têm tentado compreender o mundo em vez de o mudar) esquece que o primeiro passo para mudar o mundo é compreendê-lo. Mas até Max Weber, um pensador usualmente contraposto a Marx, concorda com ele, em certo sentido, quando distingue a ética de convicção, que procura o bem absoluto, da ética de responsabilidade, que aceita um certo compromisso com o mal para "mudar o mundo". A primeira pertenceria à ciência e à religião, a segunda à política. Sucede, porém, como diz Ralf Dahrendorf num comentário à dicotomia weberiana, que a ética da responsabilidade deixa de ter sentido e eficácia quando se torna neutralidade perante o mal. O que nos leva à relação da direita com o populismo. Despida dos últimos escrúpulos da democracia cristã e do conservadorismo liberal, a direita corre hoje o sério risco de ficar refém de palavras antigas como povo, nação e comunidade, que têm um sentido perverso na boca dos novos paladinos do Ocidente branco e cristão. Talvez a condição básica para combater o populismo seja encontrar uma "ciência" comum a todos os seus adversários, de esquerda, de direita ou de centro. Faz-nos mesmo muita falta "compreender o mundo". 

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Nada mais

por Pedro Picoito, em 11.01.19

Alertado por alguns comentários no Facebook, fui ver a já célebre reportagem da TVI sobre a não menos célebre terapia da psicóloga Maria José Vilaça para "converter" homossexuais. Antes de mais, duas ressalvas. Primeira: este é um daqueles posts que preferia não escrever porque o tema é complexo, foge à simplificação das redes sociais e só me vai trazer dissabores. Segunda: conheço a Dra. Maria José Vilaça e, mesmo que não conhecesse, tenho fraco apreço por linchamentos públicos, com ou sem fogueiras. Não esperem, portanto, que vá dar uma no cravo e outra na ferradura só para parecer tolerante. De qualquer modo, tenho a pele dura, já perdi a ilusão de agradar a toda gente e prefiro chatices mediáticas a silêncios cúmplices. 

Indo directo ao assunto, a reportagem é sensacionalista (com uma musiquinha de fundo que parece saída do Tubarão do Spielberg), cínica ("salvar almas perdidas"? pleeease...) e ofensiva para os católicos. Chocaram-me, muito em particular, as filmagens ocultas no confessionário. O segredo de confissão é uma das coisas mais sagradas do catolicismo e quebrá-lo é um gravíssimo pecado. É um exemplo de manual do que se pode considerar um sacrilégio. Revelar o que se passa num confessionário sem autorização da competente autoridade eclesiástica (um dilema tão bizarro, aliás, que deu para o Hitchcock fazer um filme) é tão grave como profanar a Eucaristia ou matar a tiro Monsenhor Romero no altar. Que a jornalista Ana Leal não veja isto, ao mesmo tempo que se diz católica praticante, não é só um problema dela. É também um problema meu, que me sinto ofendido pelo abuso de confiança especialmente canalha de quem filmou as imagens e as editou. E duvido que os padres entrevistados às claras, num truque tão velho como pueril para dividir a Igreja em bons e maus, concordem com este tipo de "jornalismo". Já nem falo da violação da confidencialidade relativa às sessões de terapia. Compreendo que nem todos tenham a minha sensibilidade religiosa. O que não compreendo é que, em nome da tolerância, se desrespeitem as convicções mais profundas de milhões de pessoas.

Isto bastaria para tornar a reportagem repugnante. Mas há mais. Pela maneira como é montada, fica-se com a impressão de que as pessoas expostas à terapia são sujeitas a uma espécia de lavagem cerebral. Ora, convém lembrar que, mesmo que a terapia seja discutível do ponto de vista científico (e em psicologia, para não dizer em ciência, o que é que está acima de discussão?), os "pacientes"  seguem-na de livre vontade. Ninguém os obriga a participar nas sessões organizadas, a acatar os conselhos dados ou a concordar com o que lhes dizem. Nem poderia ser de outra forma. Há muito que a homossexualidade deixou de ser crime em Portugal (embora não no Irão, na Arábia Saudita, na Indonésia e em vários países simpáticos que aguardam a visita de Ana Leal). Sugerir que pessoas adultas, livres, conscientes, com uma vida sexual activa, estão a ser forçadas seja ao que for é um insulto à sua inteligência e à nossa. Talvez para espanto de muitos, há mesmo homossexuais que querem deixar de o ser. A TVI autoriza?

Porque, no fundo, o verdadeiro problema é este. A terapia de mudança do comportamento homossexual comete uma heresia: propõe, imaginem, mudar o comportamento homossexual. Isto é imperdoável nos tempos que correm. Não porque se duvide realmente que um homossexual pode deixar de o ser. Na era do amor líquido, as identidades sexuais imutáveis passaram à história. De resto, os apóstolos do progresso pregam em abundância a mudança de comportamentos. Que troquemos o tabaco pela canábis, a carne pela soja, o carro pela bicicleta, o plástico pelo papel, as manhãs da TVI com Mário Machado pelas noites da TVI com Ana Leal. E ninguém nega que um viciado no jogo ou no álcool possa mudar. Não é isso. O verdadeiro problema está na condenação moral da homossexualidade. O "politicamente correcto" não quer apenas que deixemos os gays em paz (o que já acontece, excepto no Ribatejo e nos tais países que Ana Leal devia visitar). Não quer a sua liberdade, nem o casamento, nem a adopção (que já têm). Quer, isso sim, normalizar qualquer comportamento sexual e, portanto, a homossexualidade (para usar os conceito sociológicos de desvio e norma). Ou, por outras palavras, quer que ninguém possa dizer que um comportamento sexual, seja qual for, é moralmente errado. Só a pedofilia fica de fora. Por enquanto.

E é aqui que a coisa fia ainda mais fino. A Igreja sempre considerou a homossexualidade uma desordem moral. Acolher os homossexuais, como o Papa Francisco tem dito, não significa aprovar o seu comportamento. Significa aceitar as pessoas pelo que são, não pelo que fazem. Doutrina tão antiga como o Evangelho. Quando Jesus, diante da mulher adúltera, diz aos seus acusadores "quem de vós estiver sem pecado que lhe atire a primeira pedra", diz-lhe também "vai e não voltes a pecar". O perdão não anula a consciência do pecado. Pelo contrário, pressupõe-na. Querer impedir a Igreja católica, ou a Dra. Maria José Vilaça, ou um americano ignoto de defenderem a mudança de comportamento dos homossexuais por razões morais e religiosas é, nem mais nem menos, apelar à censura e atacar a liberdade de expressão. Mais uma vez, não vejo aqui grande tolerância. Vejo um combate democrático a travar, por muito impopular que seja. Note-se que ninguém está a defender a violência contra os gays, ou a criminalização da homossexualidade, ou a terapia de choque  aplicada ao Presidente da Opus Gay in illo tempore. Deixem-se de mitos urbanos. O que está em causa é que uma psicóloga possa propor uma terapia de mudança comportamental. E que um homossexual possa segui-la. Nada mais.

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Deixem-no trabalhar

por Pedro Picoito, em 11.01.19

Não sou propriamente um entusiasta de Rui Rio, mas a actual agitação no PSD não me parece nada saudável. Por princípio, defendo que os mandatos devem ir até ao fim, salvo em circunstâncias excepcionais. Ora, ao contrário do que hoje disse Luís Montenegro, não houve nenhuma "alteração brutal das circunstâncias" porque Rio está a fazer exactamente o tipo de oposição que prometeu fazer e que se sabia que ele faria.  Se todos gostam ou não é outra conversa, mas o verdadeiro teste devem ser as eleições nacionais e não as golpadas dos barões. 

De resto, e isto é que é deprimente, facilmente se percebe que isto não passa de uma questão de poder (ou da falta dele). O que leva Montenegro a desafiar Rio, e outros a apoiarem-no, é apenas o pânico de que o PSD não tenha um bom resultado - já nem digo a vitória - nas próximas eleições. Por outras palavras, que haja menos lugares para distribuir, o que deixa muita gente nervosa. Entre os descontentes, com honrosas excepções (o Miguel Morgado, por exemplo, e não o digo por ser ser meu amigo), ninguém tem uma ideia para o país, uma visão de futuro, política. Quando Montenegro enche o peito e declara não se resignar à derrota, vale a pena perguntar para que quer ele a vitória. O que é que defende? Em que é que acredita? O que é que quer para a justiça, a defesa, a saúde, a educação, o ambiente? Alguém sabe? 

Eu também não.

 

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Do sucesso em literatura

por Pedro Picoito, em 25.11.18

Há dias, numa tertúlia de amigos, arrisquei a hipótese de que o Raul Brandão e o Vergílio Ferreira seriam os maiores escritores portugueses do século XX. Fui massacrado, claro. Atiraram-me logo com o Saramago e o Lobo Antunes à cabeça. Os mais velhos foram até buscar o Torga às profundas da memória, valha-me Deus. Vencido, mas não convencido, fiquei a pensar na receita do sucesso literário. Eis um dos temas mais fascinantes da sociologia da literatura. O mérito conta, mas é a base da pizza: tem que levar em cima os ingredientes que lhe dão sabor. Uma boa máquina editorial, o favor da crítica, os contactos certos, a pose,  o mito, as ideias (de preferência à esquerda, mas não necessariamente, veja-se o Houellebecq) e, sobretudo, essa coisa intangível: a sintonia com o zeitgeist, o ar do tempo, a conjuntura. Numa palavra, a moda.

Também conta. No caso do Saramago, talvez a dissonância entre o agora revelado machismo e os efeitos do movimento Me Too provoque algum desdouro. Não sei, mas não me preocupa. Seria um absurdo tão grande deixar de lê-lo por causa do machismo como começar a lê-lo só por causa do Nobel. Se a moda ajuda ao sucesso, não contribui para o génio. Fará um bestseller, mas não uma obra-prima. Quando me querem obrigar a ler o Saramago, ou o Lobo Antunes, ou o Torga, lembro-me do velho professor de Cambridge que respondia sempre, a quem lhe perguntava se já tinha lido o último êxito: "Não tive tempo. Ainda me faltam uns diálogos do Platão..." 

A esta hora, o próximo Platão há-de estar a escrever num T2 da Brandoa ou de Argenteuil, findo o dia de trabalho no McDonald`s. O Mestrado em Semiótica não lhe serviu de nada, mas se tiver a sorte de publicar (depois da recusa de várias editoras) será lido, conhecido e amado - mais tarde ou mais cedo. Pode não ser em vida, mas o seu tempo chegará. Chega sempre porque os grandes livros, dizia o Steiner, esperam toda a eternidade pelos seus leitores. 

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De pé, ó vítima da fome

por Pedro Picoito, em 23.11.18

Segundo a recente biografia de Saramago escrita por Joaquim Vieira, o nosso Nobel era um "machista" e terá tido, como diz a entrevista ao biógrafo no Público de hoje, os seus "avanços físicos não consentidos" sobre algumas mulheres, que compreensivelmente preferiram manter-se no anonimato. É mais um curto-circuito do politicamente correcto. Ainda me lembro do embaraço de um jornalista da RTP que, num directo em Estocolmo, quando a pátria inteira alçava o escritor ao panteão dos imortais, quis elogiar Pilar del Rio e soltou a banalidade "atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher." Saramago, com aquele seu jeito de estalinista ribatejano, trovejou de imediato: "Atrás? Atrás não, ao lado..." E o jornalista, corrigido diante de toda a turma pelo mestre-escola, desculpou-se com "a emoção do momento". Eu vi. Mas, de algum modo, a revelação não surpreende. Quem não respeita os inimigos, dificilmente respeitará as amigas. Se escavarem um bocadinho mais, ainda descobrem que o homem gostava de touradas. Aguardo agora, com raro optimismo antropológico, o devido comunicado das Capazes e outras amazonas. 

(For the record: considero Saramago um bom romancista, mas sobrevalorizado. Gostei muito do Memorial do Convento, bocejei na História do Cerco de Lisboa. Da poesia não falo porque nunca li. E o Nobel, para o caso, é totalmente irrelevante. Quem diria que um escritor consagrado, ainda por cima de extrema-esquerda, andava por aí a assediar senhoras das suas relações como qualquer porco burguês?)

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As costas largas do nacionalismo

por Pedro Picoito, em 15.11.18

Em entrevista ao Público de hoje, Jerónimo de Sousa volta a afirmar  o velho nacionalismo do PCP e, de resto, da generalidade da esquerda. Enquanto o BE divide os despojos de futuros ministérios, ainda não votados (mas isso que interessa? para aqueles lados, a democracia burguesa é apenas um pormenor, já se sabe), o PCP marca terreno e distância para previsíveis negociações de uma nova geringonça. É uma das razões pelas quais tão cedo não nos veremos livres do pessoal da Soeiro Pereira Gomes, apesar de todas as profecias de social-democratização. O que talvez nem seja assim tão mau. Prefiro o voto de protesto no punho fechado de um contínuo façanhudo do que nos devaneios  dos filhos da burguesia  que fumam umas ganzas no recreio.

Seja como for, diz o camarada Jerónimo que a culpa do "desenvolvimento das forças xenófobas e racistas" é do "mandonismo da União Europeia" (a fórmula é um pouco proletária, mas percebe-se a ideia). E porquê? Porque, e aqui vem a pièce de resistance,  "mal ou bem, as pessoas assumem como questão fundamental poder decidir da vida e do futuro do seu país. e se a União Europeia é um obstáculo a isso - e é - surge como reflexo a resposta inquietante desses movimentos, que capitalizam para si a defesa da soberania e do desenvolvimento económico e social. A melhor resposta que se pode dar a essas forças é a garantia e a afirmação da nossa soberania nacional, não no quadro isolacionista, que não defendemos."

Para um comunista, não dá para fugir à velha suspeita de que o adversário está sempre a capitalizar. Mas não é isso que interesa. O que interessa é a reafirmação da "soberania nacional", mesmo rejeitando o "isolacionismo", o que significa, na prática, que o PCP aceita as imposições orçamentais de Bruxelas, uma condição primária para apoiar uma possível maioria parlamentar liderada pelo PS. Geringonça oblige. Ou, por outras palavras, temos Governo PS com o apoio do PCP, dentro ou fora. O BE que se cuide.

Já agora, e deixo isto para outro post, convinha ter um bocadinho de cuidado quando se acusa o nacionalismo de todos os males presentes. O camarada Jerónimo deixa bem claro, nos termos supracitados, que há um nacionalismo de esquerda, como há de direita. Maduro não é menos nacionalista que Trump ou Bolsonaro. Mélenchon não é menos nacionalista que Le Pen. Corbyn não é menos nacionalista que Boris Johnson. E, por supuesto, os separatismos catalão ou escocês não são menos nacionalistas que a Liga italiana. A próxima batalha das democracias liberais não será entre fascistas e anjos, mas entre o nacionalismo certo e o errado. E sabem que mais? O PCP, que não defende o "isolacionismo", Deus os abençoe, é bem capaz de vir a dar uma mãozinha.

 

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Nos cornos de Cronos

por Pedro Picoito, em 08.11.18

Proclamou a Senhora Ministra da Cultura, com pompa e circunstância, que a penalização fiscal da tourada é a novel causa fracturante da modernidade doméstica. "Uma questão civilizacional", proclamou a Senhora Ministra. Ah, grande e bela coisa, a civilização. Tão grande e bela como a cultura que a Senhora Ministra ministra. Cesse tudo o que a musa antiga canta, os mortíferos incêndios, os assaltos à tropa, as caóticas urgências, os combóios antediluvianos, as greves dos professores, que outro valor mais alto se alevanta: a civilização.

Bem-haja a Senhora Ministra por nos apontar o caminho do progresso, qual liberdade guiando o povo (sim, porque a liberdade e o progresso também são grandes e belas coisas). E bem-haja o PCP por chumbar a eutanásia, abrindo caminho a este outro avanço civilizacional de não descer o IVA para o espectáculo obscurantista de bandarilhar um boi. Eu sei que ainda há, na Chamusca e em Aljustrel, meia dúzia de velhos proletários que não viram a luz, mas o camarada Jerónimo há-de enviar-lhes a camarada Rita Rato, como fez no casamento gay. Com a ajuda da camarada Rato, um velho proletário até engole um boi (a eutanásia é que não).

Bem-hajam, pois, a Senhora Ministra e a geringonça que a suporta por nos trazerem ao concerto das nações esclarecidas, como outrora nós trouxemos os índios e os cafres ao grémio da civilização (ah, grande e bela coisa). Que seria de nós, povo de bárbaros, se o governo do Dr. António Costa não nos iluminasse com a ciência e a virtude? Eu vos digo o que seria: a tribo do redondel a pagar o mesmo IVA que a exposição do Mapplethorpe. Parece-vos bem, brutos? Pois a mim, e à Dra. Graça Fonseca, não.

Pode o Museu de Arte Antiga falecer de funcionários, pode o financiamento das artes gerar eternos protestos, pode até o país ser representado na Bienal de Veneza por Joana Vasconcelos... Que importa, se o mundo civilizado, de Caracas à Rive Gauche, sabe que ninguém, por estas brenhas incultas, gritará "Olé!" sem pagar 13% de IVA? 

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A culpa não é só do Lula

por Pedro Picoito, em 29.10.18

A vitória de Bolsonaro veio confirmar que há um movimento global de recomposição política e que um certo nacionalismo iliberal, historicamente associado à direita, continua a ganhar votos e eleições um pouco por todo o lado. Vale para Bolsonaro, mas também para Trump, Salvini, a AfD ou, em menor medida, o Brexit. É uma completa ilusão de óptica fora do Ocidente, ou seja, com Putin e Erdogan, herdeiros de nacionalismos imperiais de forte base ideológicaa ou carismática (o czarismo e o estalinismo na Rússia, o Império otomano e Ataturk na Turquia). Os comentadores da direita liberal (vamos simplificar) tendem a culpar a esquerda pelo fenómeno. Não vou bater mais no ceguinho. Mas o que esta direita, mais tarde ou mais cedo, terá de fazer é o esforço intelectual de compreender porque é que também ela está em recuo. Líderes moderados como May ou Merkel parecem acossados pela ala radical dos seus partidos. O centro-direita tradicional perde terreno em Espanha, França, Itália, Inglaterra, Holanda, países escandinavos, EUA, Brasil.

Onde é que falhámos? Onde é que está a voz da direita da liberdade e da responsabilidade individuais, defensora da sociedade aberta mas também da soberania, desconfiada tanto do proteccionismo como do federalismo, avessa a fronteiras fechadas mas não a fronteiras, respeitadora da instituição militar e de que a instituição militar se dê ao respeito, amiga da sociedade civil e do pluralismo político, crítica da engenharia social mas não do Estado social, partidária da economia livre e da regulação económica, favorável à liberdade de imprensa e à liberdade de não ler a imprensa, avessa a causas fracturantes e a confessionalismos, oposta a políticas identitárias e a qualquer desigualdade perante a lei, atenta aos clássicos e à arte moderna não subsidiada?

A culpa não é só do Lula. Churchill venceu Hitler e Reagan o comunismo. Talvez a direita democrática, hoje, tenha a missão histórica de vencer a própria inércia.

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Tancosgate

por Pedro Picoito, em 26.10.18

O caso de Tancos está para lavar e durar. Não me refiro à comissão parlamentar de inquérito pedida pelo CDS que, como sempre, não há-de apurar absolutamente nada e apenas servirá para os deputados aparecerem uns segundos no Telejornal. Refiro-me à justiça propriamente dita. Para termos uma ideia do que aí vem, basta pensar que o Presidente da República, por uma vez, não disse a  primeira coisa que lhe veio à cabeça quando os jornalistas lhe estenderam um microfone. Em visita ao DCIAP, Marcelo "prometeu fazer uma declaração ao país logo que tenha matéria para tal", segundo o Público. Porque, agora que não restam grandes dúvidas de que o ex-Ministro da Defesa sabia da farsa, a questão é saber se o Primeiro-Ministro também sabia. E se a resposta for sim, Costa só tem uma alternativa: a demissão. Nem mais, nem menos. O resto é teatro, e fraquinho. 

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