Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Um conselho, leiam os evangelhos.

por Miguel A. Baptista, em 24.08.21

A Bíblia Sagrada é uma compilação de diversos livros escritos por autores distintos em diferentes épocas.  

A Bíblia não é um todo coerente. Ao Deus irado e vingativo do Antigo Testamento sucede o Deus de amor e compaixão do Novo. 

Como tal, em muitos casos, ler a Bíblia, sem um esforço de contextualização e reflexão (exegese) não é grande exercício. Por exemplo, sempre que o livro do Genesis foi lido literalmente, como se de um livro científico se tratasse, tal deu mal resultado, ainda que eu ache belíssima a descrição da criação do mundo e, curiosamente, relativamente semelhante ao que entendemos com sendo o Big Bang. 

No entanto, existe uma parte da Bíblia, a mais importante, que, normalmente, não exige grande esforço de contextualização, os evangelhos. Os evangelhos, que contam a passagem de Cristo pela terra, podem ser lidos quase com literalidade. São mais actuais do que o jornal da manhã. 

Para mim é sempre surpreendente o número de cristãos que nunca se dedicou a leituras bíblicas. Pois bem, se me permitem um conselho, comecem pela leitura dos evangelhos. Este conselho estende-se aos não-crentes que poderão ver em Cristo, não Deus feito homem, mas apenas um místico fascinante. 

Dificilmente encontrarão leitura mais inspiradora. 

O alarmismo não é a solução

por Miguel A. Baptista, em 11.08.21

Não tenho paciência para alarmismos. Quando era miúdo gostei muito da série “Era uma vez um homem”. Vi grande parte dos episódios e, sobretudo, li várias vezes os fascículos impressos.

O último fascículo dizia respeito ao futuro e apresentava um mundo atolado de lixo e guerra. O ano 2000 era uma espécie de ano da besta.

Pois bem, as visões mais catastrofistas não venceram, nunca a pobreza extrema foi tão baixa e há mais de cem anos que, por exemplo, o Tejo não estava tão limpo, até os golfinhos regressaram.

O facto de não ter pachorra para os angustiados “do fim do mundo” que transferiram aquilo que era a “salvação divina” para uma “salvação do planeta”, não quer dizer que seja adepto de relaxamento. Sou a favor de políticas ecologicamente responsáveis e no que respeita às alterações climáticas, mesmo que não haja consenso deve prevalecer uma política de prudência e precaução.

Agora, acho uma estupidez estar a encher as crianças de angústia e ansiedade com alarmismos. O “estado da arte” pode ser apresentado sem narrativas catastrofistas. Até porque um mundo cheio de seres ansiosos, medrosos e profundamente tristes talvez não valha a pena ser salvo.

Os Perigos dos Excessos Higienistas

por Miguel A. Baptista, em 05.08.21

Uma amiga facebookiana comentava no meu mural que quem não se vacina é egoísta e não é digno de viver em sociedade. Eu vacinei-me e os meus filhos irão ser vacinados, embora em relação à faixa etária em que estão inseridos eu tenha dúvidas da relação risco-benefício. A vacina é uma vacina experimental, e mesmo atendendo a que as autoridades não recomendariam a sua utilização se não a considerassem globalmente segura, não me parece que quem tem dúvidas ou incertezas deva merecer uma rejeição social.

Afinal a Covid, apesar de ser muito contagiosa, não é muito letal fora dos grupos de risco, sendo que estes já estão vacinados. O facto de se vacinarem pessoas fora dos grupos de risco, como crianças, para proteger outros, que não elas, coloca dilemas éticos cuja a resposta não é óbvia.

Gostaria pois de partilhar convosco a resposta que dei a essa minha amiga, talvez ela sirva como motivo de reflexão acerca dos excessos de "higienismo" que estão a ser cometidos.

A resposta foi:

Segundo Institute of Health Metrics and Evaluation, morrem em Portugal mais de 11.800 pessoas por doenças atribuíveis ao tabaco. Sendo o tabaco responsável por 46,4 % das mortes por doença pulmonar obstrutiva crónica, 19,5 % das mortes por cancro, 12 % das mortes por infeções respiratórias do trato inferior, 5,7 % das mortes por doenças cerebrocardiovasculares e 2,4 % das mortes por diabetes.

O tabaco é responsável por uma sobrecarga no SNS, negando assim uma melhor saúde aos portugueses não-fumadores. Quando se veem macas nos corredores dos hospitais podemos pensar que os lugares dignos dos hospitais são ocupados por fumadores deixando os corredores para os cidadãos que adoptam uma vida saudável. Quem fuma é egoísta e, portanto, não é digno de estar em sociedade.

Cerca de 35.000 portugueses morrem anualmente por doenças cardiovasculares. As doenças cardiovasculares deverão custar à Europa à volta de 102 mil milhões de euros por ano, que poderiam ser aplicados em educação e no combate à pobreza. Metade dessas doenças seria evitável através de hábitos alimentares saudáveis. É fácil de concluir que quem come a boa da carne entremeada, ou enchidos é egoísta e, portanto, não é digno de estar em sociedade. Em 2019 houve mais de 35.000 acidentes com vítimas em Portugal, das quais 474 foram mortos. 74 desses mortos foram peões vítimas apenas do individualismo de quem conduz automóvel. Quem conduz automóvel é egoísta e, portanto, não é digno de estar em sociedade.

Claro que todos queremos uma sociedade mais segura e com melhor qualidade de vida para todos, mas os perigos dos excessos higienistas são reais e perversos.

PELA PRIMEIRA VEZ FUI CENSURADO NO FACEBOOK

por Miguel A. Baptista, em 01.07.21

Escrevi no Facebook um post intitulado “Emburkem a Lenka”. Uma senhora escreveu como comentário “Tanta portuguesa temos nos cá para trabalhar..e o estranho é escolherem estrangeiras...que.povo este!!!” (a transcrição é literal) 

A minha resposta ao comentário foi: 

“Tem toda a razão Anyzabel. Piores ainda são os burros dos franceses que têm lá um milhão de portugueses a trabalhar e não lhes dão um chuto no rabo. Burros são também os holandeses que me trataram em enquanto lá estive a estudar, ou os angolanos que me trataram bem enquanto lá estive a trabalhar. A Lenka deve ser muito mal tratada, até porque foi burra porque escolheu um país cheio de gente pequenina, preconceituosa e sem qualquer horizonte.” 

O meu comentário foi censurado, pois continha ódio a pessoas estrangeiras. Estou suspenso do Facebook durante 24 horas. Sempre que publico algo contendo ironia, alguém toma de forma literal aquilo que digo. Desta vez foi um acéfalo algoritmo que o fez. 

O capitalismo funciona bem quando existem instituições que o regulam e impedem clausulas leoninas, abuso de posição dominante ou outras prácticas monopolistas. Na Alemanha os economistas ordoliberais teorizaram bem acerca do tema. Nos EUA existe um grande conjunto de empresas que tinham posição dominante e foram obrigadas a cindir-se em várias. Empresas como o Facebook, ou como o Twitter onde não estou, tomam posições que claramente configuram abuso de posição dominante. 

No dia em que algum regulador, preocupado com temas como a liberdade de expressão os obrigue a “partirem-se” aos bocadinhos, eu abrirei uma garrafa de um bom espumante português. 

A Propósito da Lenka

por Miguel A. Baptista, em 30.06.21

Nunca vi “O Preço Certo”. Ao que parece há lá uma, ou umas, assistentes que vestem vestidos curtos para “embelezar a montra”. 

Actualmente este comportamento tende a ser socialmente censurado, levando, na maior parte dos casos, à extinção do mesmo. Por exemplo, havia umas miúdas atraentes que acompanhavam os pilotos na grelha de partida, as “pit girls” que deixaram de existir. No concurso de Miss Mundo deixou de existir desfile em fato de banho, como se uma pessoa não visse um concurso desses para ver “aviões”, mas sim para encontrar a companhia certa para discutir Heidegger e Foucault. Existem imensos exemplos que podem ser dados. 

Eu não nego que essa exibição, e objectivação, da mulher tenha algo de degradante. No entanto, e entendendo que esta é uma questão que, de todo, não é a preto e branco, eu prefiro que existam algumas situações de “mulher-objecto” do que tal seja banido por completo. 

O homem é um ser bio-socio-cultural. A evolução dos tempos levou que muitas das nossas pulsões biológicas fossem “domesticadas” por padrões culturais. Tal não é, necessariamente, mau. Tal permitiu-nos, abandonando a lei da selva, atingir padrões de civilidade que, na maior parte das vezes, significam proteção dos mais fracos.  No entanto, a engenharia da criação do homem novo “quimicamente puro”, destituído de qualquer instinto biológico tem tanto de perverso como o de perigoso. 

Depois na crítica às “Lenkas” há uma enorme componente moralista. É permitido exibir talentos futebolísticos, musicais ou de cultura geral. Mas tudo o que respeita a exibição (e não tenho receio em utilizar a palavra exibição) do corpo é visto como intrinsecamente mau. As feministas, e outros puritanos, são completamente reféns da cultura judaico-cristã que vê o corpo como a fonte do pecado que conspurca a alma. 

Também existe uma componente elitista. Fala-se com desprezo dos velhotes que se babam a ver a Lenka. Nos valores desses críticos uma mulher glamorosa de vestido de noite e stilettos é algo interdito aos sonhos de um modesto reformado que vive nos subúrbios. Para se ter “acesso”, real ou onírico, a uma mulher dessas é necessário vestir Armani e conduzir um Aston Martin. 

Conforme referi, acho que este tema é longe de ser simples, há argumentos fortes de ambos os lados. No entanto, de modo global, não tenho dúvidas em dizer que prefiro viver num mundo em que existam Lenkas, do que num mundo de zelotes frustrados acicatando permanentemente os superegos. 

 

A queda dos anjos

por Miguel A. Baptista, em 20.06.21

A Victoria’s Secret decidiu acabar com os anjos sexies e colocar pessoas “normais” e “inspiracionais”, tais como uma jogadora de futebol, uma refugiada, ou uma transexual.

Quanto a mim, ao contrário do que muitos possam pensar, tal representa um retrocesso civilizacional. Eu gosto de viver numa sociedade onde a jogadora de futebol, a refugiada, ou a transexual sejam aceites e valorizadas. Mas também gosto de viver numa sociedade onde haja glamour, sedução e fantasia.

A sociedade abdicar de um dos seus maiores ícones de sedução e fantasia não é nada de forçosamente bom. Uma sociedade que abandona o sonho, concentrando-se exclusivamente na realidade, não é particularmente interessante.

Acentuaram o pior que há em nós

por Miguel A. Baptista, em 13.05.21

Por vezes a ação política, e a gestão da coisa pública, é difícil de antever. Por exemplo, há dois anos, ninguém saberia antever a crise pandémica. Claro que um país deve estar sempre preparado para coisas menos boas, com contas públicas em ordem e um sistema de saúde com boa capacidade de resposta. 

No entanto, como contas em ordem e um sistema de saúde com poucas imperfeições são algo difícil de atingir, e não se consegue num mandato eleitoral, é compreensível que a pandemia tenha chegado sem que estes parâmetros estivessem como seria desejável. 

Agora, há coisas que são facilmente previsíveis e que só por incompetência, e desleixo, não são tratadas atempadamente. Por exemplo, seria completamente expectável que a vitória no campeonato de um Sporting vindo de um longo jejum, provocaria uma onda de euforia e celebração. Era fácil procurar fazer o melhor planeamento para lidar com esse acontecimento. 

Da mesma forma, a pandemia está cá há mais de um ano e a existência de trabalhadores sazonais migrantes na zona de Odemira é conhecida. A existência de um surto por lá seria algo completamente expectável. Seria lógico que já tivesse sido feito um plano de contingência, antevendo onde alojar as pessoas na eventualidade da necessidade de criar uma cerca sanitária. Só a inépcia explica que à última da hora se ande a jogar um braço de ferro injustificado com um operador privado. 

É claro que este Governo acentuou uma característica nossa menos boa, a dificuldade em planear e criar uma cultura de responsabilidade. Parece-me claro que Costa, e o PS, não têm qualquer sonho ou desígnio nacional, a médio prazo que seja. A cultura que existe é a da gestão do dia-a-dia. O poder não existe para melhorar o país, o poder interessa para que se possa manter o poder. 

TOCQUEVILLE E O PERIGO PARA A DEMOCRACIA EM PORTUGAL  

por Miguel A. Baptista, em 12.05.21

Após uma visita aos Estados Unidos, o aristocrata francês Alexis de Tocqueville escreve um extenso livro, lançado em 1835, contendo as reflexões, essencialmente políticas, dessa viagem. 

O livro, “Da Democracia na América”, tornou-se uma das mais importantes referências da chamada “ciência política”, e tem alguns aspectos premonitórios extraordinários, incluindo, algo impensável no Séc. XIX que chegaria um momento em que os Estados Unidos dominariam metade do mundo, enquanto a Rússia outra metade. 

Segundo Tocqueville, a ameaça às democracias não advinha apenas das tiranias, mas do amolecimento, e complacência, que um demasiado paternalismo e assistencialismo. 

Tocqueville valorizava muito a iniciativa, o associativismo e a separação de poderes. Ele admirava na América esse sentido de cidadania e vigilância, ele gostava dessa vibração cívica e democrática. Se esta energia não existisse facilmente se cairia num regime que, ainda que democrático, seria o pastoreio do povo pelos governantes. 

Eu penso que, neste momento, não existe, nem à esquerda nem à direita, o perigo de instauração de uma ditadura tirânica num país da Europa Ocidental. No entanto penso que esse amolecimento e essa captura do indivíduo, de forma algo despótica, são perigos reais em Portugal, hoje. E são-no, porque, no fundo, se calhar é isso que os portugueses acomodados desejam. 

Quem tiver paciência leia, com atenção, este excerto da obra de Tocqueville. Escrito na primeira metade do séc. XIX ele relata, quanto a mim, de forma perfeita os perigos para uma vivência democrática, participativa e vibrante no Portugal do Séc. XXI. 

“Vejo uma multidão imensa de homens semelhantes e de igual condição girando sem descanso à volta de si mesmos, em busca de prazeres insignificantes e vulgares com que preenchem as suas almas. Cada um deles, colocando-se à parte, é como um estranho face ao destino dos outros; para ele, a espécie humana resume-se aos seus filhos e aos seus amigos; quanto ao resto dos seus concidadãos, está ao lado deles, mas não os vê; toca-lhes, mas não os sente, ele só existe em e para si próprio e, se ainda lhe resta uma família, podemos dizer pelo menos que deixou de ter uma pátria. 

Acima desses homens, ergue-se um poder imenso e tutelar que se encarrega sozinho da organização dos seus prazeres e de velar pelo seu destino. É um poder absoluto, pormenorizado, ordenado, previdente e suave. Seria semelhante ao poder paternal se, como este, tivesse por objetivo preparar os homens para a idade viril; mas ele apenas procura, pelo contrário, mantê-los irrevogavelmente na infância. Agrada-lhe que os cidadãos se divirtam, conquanto pensem apenas nisso. Trabalha de boa vontade para lhes assegurar a felicidade, mas com a condição de ser o único obreiro e árbitro dessa felicidade. Garante-lhes a segurança, previne e satisfaz as suas necessidades, facilita-lhes os prazeres, conduz os seus principais assuntos, dirige a sua indústria, regulamenta as suas sucessões, divide as suas heranças. Será também possível poupar inteiramente aos cidadãos o trabalho de pensar e a dificuldade de viver? … 

A igualdade preparou os homens para tudo isto, predispondo-o a aceitar este sofrimento e, até, a considerá-lo um benefício.” 

E para quando o Museu dos Descobrimentos?

por Miguel A. Baptista, em 17.04.21

Ao que parece Lisboa vai ter um museu judaico. Nada contra, antes pelo contrário, os judeus têm um papel importante na História do nosso país e o édito da sua expulsão, assinado por D. Manuel, é uma mancha no nosso percurso. Embora já haja um museu judaico em Belmonte, a existência de um em Lisboa faz sentido. Não vejo tanto sentido para um museu do Holocausto no Porto, já que foi uma barbárie à qual Portugal não teve ligação directa mas, mais uma vez, nada contra atendendo que o museu pode servir para enquadrar pedagogicamente o assunto. 

O museu vai ocupar um lugar especialmente nobre da cidade, ficando perto da Torre de Belém. Até acho piada a ironia de o colocarem junto de um monumento mandado edificar por quem os expulsou. A antiga localização prevista, no Largo de São Miguel, quanto a mim estragava a harmonia da praça e a imensa atractividade que esta tem para os turistas. 

Dispersei-me um pouco, a ver se chego ao ponto onde queria chegar. Museus judaicos há muitos por essa Europa fora, museus, ou memoriais, do Holocausto também há, fundamentalmente nos locais ligados ao hediondo massacre. Um museu judaico, ainda que desejável, não fará, de nenhum modo, parte da oferta distintiva de Lisboa nem da sua “uniqueness”. Aquilo que, em termos da História Mundial, marca Lisboa são os Descobrimentos. É por causa destes que é impossível escrever uma História da Humanidade sem que Portugal tenha um papel de destaque. 

Ninguém, ou muito pouca gente, virá a Lisboa tendo como principal foco o judaísmo. Os Descobrimentos, o mar e os desafios náuticos podem, ao contrário de outras temáticas, ser uma marca distintiva de Lisboa. Uma marca com imenso potencial cultural, turístico e económico. 

Não negando a oportunidade da criação de outros museus, a grande prioridade nacional na museologia deveria ser a criação de um grande museu dos Descobrimentos. Esse sim, poderia ser um grande marco emblemático e identitário para Lisboa. 

Sócrates e a justiça

por Miguel A. Baptista, em 06.04.21

Num Estado de direito as decisões dos tribunais devem ser respeitadas. No entanto, esse respeito não impede que as mesmas sejam escrutáveis e que possa haver um julgamento crítico da população acerca das mesmas. 

Mesmo supondo que os juízes são apenas movidos pela busca da verdade e do sentido de justiça, eles não são deuses infalíveis. Há casos em que a falha, ou erro judiciário, é inegável. Por exemplo, no famoso caso O.J. Simpson, este foi considerado inocente pelo tribunal criminal e foi considerado culpado pelo tribunal cível. Ou seja, não foi preso, mas teve que pagar uma indemnização à família da vítima. Pela mais básica lógica aristotélica é impossível que nenhum dos tribunais tenha cometido uma falha de julgamento. Presumindo que os juízes de ambos os tribunais estavam de boa fé, os meios de prova apontados nos dois julgamentos podem ter sido diferentes ou os juízes, legitimamente, interpretaram de forma diversa os diferentes meios de prova. 

Uma declaração de culpado não significa que a pessoa seja culpada, significa apenas que os juízes entenderam que, para além de qualquer dúvida razoável, a pessoa era culpada. Supondo que todos estão de boa-fé tendencialmente esse entendimento coincidirá com a realidade, mas não é obrigatório que assim seja. 

Nada impede que, embora respeitando a decisão dos juízes, uma pessoa tenha um entendimento diferente. Por exemplo, o caso Casa Pia não me permitiu criar uma convicção da culpabilidade de Carlos Cruz que fosse para além da dúvida razoável. No meu entendimento não foi apresentada nenhuma prova completamente contundente que não permitisse qualquer outra interpretação que não a culpabilidade de Cruz. Assim sendo, não me foi permitido criar nenhuma convicção pelo que não tenho qualquer palpite acerca da culpabilidade da pessoa, para além do diz que diz. 

Penso que no caso de Sócrates a justiça já parte derrotada num ponto, o prazo de instrução do processo foi muito para além daquilo que é razoável e aceitável. Oiço que a decisão que virá a ser tomada sexta-feira, num sentido ou noutro, dará quase forçosamente origem a um recurso que deverá demorar dois anos. Estando eu fora do mundo jurídico, por muito que me esforce, não consigo compreender como é que a reapreciação de um processo leva dois anos, da mesma forma que não compreendo como é que são necessárias mais de seis mil páginas para lavrar um despacho judicial. 

Ao contrário do processo Casa Pia, no caso de Sócrates há elementos de prova, nomeadamente as escutas telefónicas que, em minha opinião, não permitem que exista nenhuma dúvida razoável acerca da culpabilidade de Sócrates. E não estou apenas a falar de culpabilidade de comportamentos menos éticos, mas sim de culpabilidade de conduta criminosa. 

Conforme disse, a justiça já saiu pouco prestigiada pelos seus timings de processamento. Uma justiça desmedidamente longa compromete o próprio conceito de justiça. Se a decisão acerca do pronunciamento de Sócrates não for algo, muito bem sustentada, ou seja, à prova de bala, a imagem da justiça sofrerá mais um duro revés. 

PS – O propósito deste post não é discutir a eventual culpabilidade de Carlos Cruz no caso Casa Pia, como tal agradecia que comentários não se concentrassem nesse ponto. Segundo aspecto, eu não sou uma pessoa de Direito, como tal é natural que a nomenclatura usada contenha erros técnicos crassos. Peço aos meus amigos juristas que tenham a caridade de não se arrepiarem com os meus eventuais erros. 

A minha área de especialização em Psicologia é Psicologia Social e das Organizações. Dentro da Psicologia Social debrucei-me sobretudo sobre a Psicologia da Persuasão e Comportamento do Consumidor, mas isso agora não interessa. 

Há experiências muito interessantes feitas no âmbito da Psicologia Social, quem se interessar pelo tema encontra imensos artigos na Internet. Das muitas, e fascinantes, experiências a minha favorita é a de Milgram acerca da obediência à autoridade. Essa experiência foi replicada várias vezes e com diferentes variantes, identificando várias variáveis moderadoras, mas adiante. 

Muitos conhecerão a experiência, pelo que a refiro apenas em traços gerais, conforme disse há imensa informação na net para quem se interesse pelo tema. Milgram era de origem judaica, os seus pais mudaram-se para os Estados Unidos aquando da Grande Guerra. Vários dos seus parentes viriam a morrer nos campos de concentração durante a Segunda Guerra. Impressionado pelo facto de “pessoas normais” terem executado ordens tão sinistras e macabras, Milgram procurou compreender os mecanismos psicológicos que estavam por detrás do fenómeno. 

A experiência de Milgram consistia basicamente em pedir a voluntários para uma alegada experiência de aprendizagem que ministrassem choque eléctricos de intensidade crescente, sempre um indivíduo que estava a ser interrogado respondia de forma errada. O indivíduo que “levava” os choques estava em outra sala pelo que aquele que lhe aplicava os choques não o podia ver, contudo podia-o ouvir. De facto, não eram aplicados choques nenhuns, mas o indivíduo simulava gritos de dor, como se efectivamente os estivesse a sofrer. Se o “aplicador dos choques” se sentisse desconfortável estava lá o alegado responsável pelo “estudo de aprendizagem” e pedia ao indivíduo para continuar. E a verdade é que a esmagadora maioria das pessoas continuava. Mesmo quando parecia que já tinham morto o indivíduo que recebia os choques, continuavam a aplicá-los de acordo com as ordens recebidas. 

A partir do estudo, Milgram elaborou a “Teoria da Agência”, que sugere que as pessoas permitem que outros direcionem suas acções, porque acreditam que a figura de autoridade é qualificada e aceitará a responsabilidade pelos resultados. Os estudos de Milgram ajudam a explicar como as pessoas podem tomar decisões contra sua própria consciência, como participar numa guerra ou num genocídio. 

Por vezes, quando vejo a forma totalmente acrítica como as pessoas recebem, e aceitam religiosamente, todas as instruções no que respeita à pandemia, dou por mim a pensar que parece que estamos a viver numa experiência de Milgram feita à escala global. 

Covilhã

por Miguel A. Baptista, em 26.03.21

Covilhã.png

Esta semana fui à Covilhã ver os meus pais. Não os via desde o Verão. Nos 51 anos de vida que já cá cantam nunca tinha tido um período tão longo sem os visitar. No Natal hesitei se lá iria, mas a prudência sobrepôs-se à tradição. Fui lá agora, após ambos terem sido vacinados.

Ir “à terra” comporta sempre um conjunto de emoções relativamente forte. Aqueles que viram o filme Cinema Paraíso lembrar-se-ão da nostalgia, e da carga emotiva, do momento em que Salvatore (Toto) regressa à sua terra natal. Ainda que, eventualmente, de forma mais suave é esse o tipo de sensação que tenho.
 
A infância, e a juventude, são lugares estranhos. São momentos de muitos afectos e emoções, no meu caso não porque tenha vivido de forma muito intensa, a minha vida até era relativamente calma e monótona, mas porque senti de forma muito intensa. Era um rapaz tímido, de óculos, com poucos amigos, mas com um mundo interior fervilhante. Ainda agora, algum excesso de imaginação que tenho vem-me da capacidade de ideação, devaneio e sonho que na altura desenvolvi.
 
O lugar, o palco, onde vivemos essas emoções fica-nos, de forma indelével, colado à pele. Eu sei que é uma banalidade, mas é verdade que nós podemos sair da nossa terra de infância, mas esta nunca sairá de nós.
 
A idade trouxe-me algo, que ainda não entendi se é uma bênção ou maldição, a capacidade de relativizar. Ou seja, a capacidade de saltar para fora do meu mundo e vê-lo como se se tratasse de um filme em que o protagonista era outro que não eu.
 
E pronto, ia escrever um post para falar da candidatura, anunciada ontem, do Pedro Farromba e do Adolfo Mesquita Nunes à Câmara da Covilhã, mas tenho os planos alterados. Como isto resvalou para um registo intimista e não pretendo misturar, demasiadamente, sentimentalismo e política essa reflexão ficará para um outro escrito.
 
(Banda sonora do post aqui)

Nesta fase, honestidade intelectual seria bem-vinda

por Miguel A. Baptista, em 25.03.21

Na vida vamos criando agendas e compromissos. Tal pode-nos condicionar, de modo consciente ou inconsciente. Por vezes, sobre certos assuntos, é difícil imaginar qual seria a posição de uma pessoa se fosse possível aferi-la “no vácuo” de uma mente virgem e pura. Ok, o conceito de “mente virgem e pura” não é o melhor porque é uma extrema abstração, ninguém vive no vazio. Pondo a questão de uma forma mais terrena, diria que por vezes é difícil saber qual seria a posição de uma pessoa se ela tivesse uma honestidade intelectual total. 

No entanto, há casos em que conseguimos intuir qual a posição “verdadeira” da pessoa, se ela já a exprimiu num contexto em que estava completamente descomprometida. Este raciocínio, um pouco elaborado, ocorreu-me quando li hoje que o Governo, com os seus aliados à esquerda, equaciona a criação de mecanismos de maior rigidez no mercado laboral. Nesse contexto, lembrei-me de um livrinho que Mário Centeno, enquanto técnico e antes de abraçar a política, escreveu. 

Centeno escreveu um livro intitulado “O Trabalho, Uma Visão de Mercado”, em que abordava o mercado laboral português. O livro é um daquelas pequenas brochuras da FFMS que se vendem no Pingo Doce. Já agora, a talhe de foice, diria que o nível geral dessas publicações é francamente bom. 

 Ora bem, nesse livro em que Centeno não tem compromissos políticos e que suponho que a sua agenda seja unicamente a da promoção de um país melhor, o autor defende tudo, menos mais rigidez para o mercado laboral. 

A economia portuguesa precisa de descolar do torpor em que estava e que a crise pandémica acentuou. Neste cenário, tudo o que sejam mecanismos de rigidez e de combate às formas mais flexíveis de trabalho é má. Nesta fase é importante que quem possa criar postos de trabalho não tenha qualquer hesitação em o fazer. Eu não defendo um modelo de total flexibilidade, como existe nos Estados Unidos. Pelo menos não o defendo dissociado de um robusto sistema de segurança social, como existe na Dinamarca. As pessoas precisam de algum quadro de estabilidade, e confiança, para tomar decisões de impacto dilatado no tempo, como comprar casa, ou constituir família. No entanto, e como disse, nesta fase o esforço da economia portuguesa deve ser “por o avião no ar”, ou seja, criar empregos e riqueza. Servir bom catering a bordo, ou seja, a exigência de condições “mais complicadas” para a criação de riqueza e emprego, não pode ser a prioridade actual. Ela poderá acontecer quando a economia estiver mais robusta, com uma baixa taxa de desemprego e com a oferta de salários francamente melhores do que os que temos neste momento. 

A ideia de uma recuperação conduzida fundamentalmente pelo Estado, de costas voltadas para as forças vivas da economia, como é plasmada no Plano de Recuperação e Resiliência, está, infelizmente, em sintonia com a receita que nos tem conduzido à mediocridade. 

Conforme procurei demonstrar, por vezes as soluções técnicas até podem ser relativamente consensuais e quase de bom-senso. No entanto, é importante que uma visão política, ainda que legítima, não sacrifique totalmente a validade destas em nome de estratégias que tem como único objectivo a manutenção do poder e o desenvolvimento do ecossistema pantanoso em que estamos. 

E pronto, este é o primeiro

por Miguel A. Baptista, em 18.03.21

O João Távora teve a amabilidade de me convidar para ir escrevinhando por aqui. Aceitei logo, sem reflectir, sendo coerente com a minha veia um pouco inconsciente. 

As razões que me levaram ao entusiástico, e irreflectido, sim, foram duas. Por um lado, o Corta-Fitas é um dos poucos blogues que visito regulamente, sentindo, globalmente, afinidade pelo que aqui se prosa. 

A segunda razão, naturalmente relacionada com a primeira, é que, no ecossistema actual o Corta-Fitas é um “bicho raro”, é um espaço de moderação onde as pessoas escrevem sem ódios e sem gosto em acicatar a plebe. 

O mundo actual é um mundo estranho, e potencialmente perigoso. Embora em Portugal ainda não estejamos numa situação extrema, há muitos países onde o grau de clivagem da sociedade atingiu dimensões insuportáveis. Do outro lado do Atlântico, no Brasil ou nos Estados Unidos, ou mesmo aqui ao lado em Espanha, vive-se uma situação em que metade da sociedade está profundamente zangada com outra metade. O ódio sente-se no ar e há famílias em que uma metade não fala com a outra, se essa outra estiver no lado oposto do espectro político. Não se tratam de ecossistemas agradáveis e sãos. 

Nesse cenário tão extremado e bipolarizado, os moderados, aqueles que eventualmente até poderiam fazer pontes, não têm lugar. Os de esquerda tendem-nos a ver como lobos de direita com pele de cordeiro de esquerda. Os de direita vêem-nos como idiotas úteis que aceitam conversar à sua esquerda. O lugar, que já foi cómodo, da moderação é hoje um espaço desconfortável. As pessoas vêm normalmente a moderação como falta de crença nos princípios. Não compreendem que acreditar no diálogo, na tolerância, na diversidade, na possibilidade de discordância, é acreditar em princípios forte. Não intuem que a sociedade é feita de debate e discordância, mas também é feita de uma crença colectiva em valores comuns (passe o pleonasmo). 

É nesse sentido que gosto do Corta-Fitas e calculo que me irei sentir bem por cá. É por isso que acredito que no panorama actual é o tal “bicho raro”, um oásis. Aqui há lugar a diversidade de ideias, mas também há a partilha de valores comuns de civilidade, cavalheirismo e tolerância. Não pensem que, ao dizer isto, estou a defender a existências de debates mornos. Não, de todo, eu gosto de debates vivos, entusiasmados e sem assuntos tabu. Mas também gosto que, após nos digladiarmos vigorosamente em debate, possamos ir beber juntos uma valente caneca de cerveja, nos possamos rir a falar de outros assuntos, ou a lembrar retrospectivamente o nosso excesso de entusiasmo na discussão. Enfim, saber que o que nos separa em muitos pontos de vista, faz parte do que nos une no essencial. 

E pronto, o que me proponho é, sem regularidade assumida, ir por aqui deixando uma bolas para que todos possamos dar os nossos pontapés. No final dos debates beberemos a nossa cervejola virtual com a esperança que as cervejolas sejam cada vez menos virtuais, e cada vez mais reais. 

Muito obrigado por me acolherem por aqui. 



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Anónimo

    Penso que não há qualquer vantagem em ter os minis...

  • Q Portugal

    Como se podem congratular com um "genocida" que an...

  • Anónimo

    João-Afonso Machado, sobretudo espero bem que o Al...

  • Anónimo

    Para se fazer a diferença e darmos um novo impulso...

  • Anónimo

    (cont.)A pergunta que se impõe: queremos continuar...


Links

Muito nossos

  •  
  •  
  • Outros blogs

  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2021
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2020
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2019
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2018
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2017
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2016
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2015
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2014
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2013
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2012
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2011
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2010
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2009
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2008
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D
    183. 2007
    184. J
    185. F
    186. M
    187. A
    188. M
    189. J
    190. J
    191. A
    192. S
    193. O
    194. N
    195. D
    196. 2006
    197. J
    198. F
    199. M
    200. A
    201. M
    202. J
    203. J
    204. A
    205. S
    206. O
    207. N
    208. D


    subscrever feeds