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De 8 a 80

por Jose Miguel Roque Martins, em 04.12.25

A única contribuição positiva de Trump que conheço, foi a sua luta contra o famigerado movimento WOKE, que parece ferido de morte, ou pelo menos não incomoda tanto como no passado recente. Um alivio. 

O problema que é estamos a passar do 8 ao 80. Hoje vi um titulo, na Reuters, que impressiona:

 

Captura de ecrã 2025-12-04, às 13.43.25.png

Ou seja, a pretexto de acabar de destruir um navio que já não ia a lado nenhum e que poderia ter droga, a mais poderosa marinha do mundo, acredita, nas palavras de um almitante ( e de Vance)  que voltar a bombardear um navio, matando os tripulantes que sobravam, é licito. 

Claro que na sua maioria, os barcos , lanchas, são mesmo transportes de droga. É questionável se, nesse caso,   implodi-los, obedece a critérios legais e morais. É mais que duvidoso, que a marinha possa provar com uma certeza razoável, que todos os barcos atingidos, eram mesmo de traficantes. É vergonhoso, que se matem os sobreviventes de um barco que já não vai a lado nenhum. 

Livramo-nos dos WOKE, agora temos outros radicais no comando. Bem, continuamos a não estar. 

 

 

No DN vi uma citação de Jorge Pinto que, com segurança e certeza, terá referido no seu debate com o Almirante, "em 1974, o SNS parecia uma utopia, tal como a educação de uma população com uma elevada taxa de analfabetismo".

Jorge Pinto, não será analfabeto e até parece que tem um doutoramento. Provavelmente é mais uma vitima da propaganda do regime de Abril. Tal como milhões de portugueses, inconscientemente torturados por mera propaganda, suportada em  livros de história perversos e nos media acéfalos ou tendenciosos. Se assim não for será, no mínimo, mentiroso. 

Demasiados pensam, estão mesmo convencidos,  que antes do 25 de Abril, vivíamos numa espécie de idade média em esteróides. O estado novo, a república e as monarquias, não foram senão uma sucessão de completos e absolutos desastres que nada conseguiram. Não foi exactamente assim.

Em Abril de 1974, com outro nome, já existia um “SNS”. E mais, A saúde, era legalmente um direito consagrado para todos os portugueses. Quanto ao analfabetismo, bastaria continuar o que já tinha sido conquistado para o erradicar completamente. 

A reforma trigueira (1945), lança  um sistema de saúde digno desse nome. A partir de 1971, inspirado no sistema inglês, é lançada uma profunda reorganização do sistema de saúde em Portugal. Não tinha esse nome, mas era um sistema nacional de saúde. Não eram palavras sem substancia.  Em 1973, já existiam mais de 300 centros especiais de saúde novos, uma das bases preconizadas desse programa. Hospitais, existiam muitos novos, alguns símbolos do regime ( Santa Maria e São João), e muitos mais que vinham de passados mais longínquos. Existiam sensivelmente as mesmas  camas de hospital do que há hoje, embora mal distribuídas e com piores condições. A grande diferença era um numero de médicos muito inferior aos que hoje existem,. E claro, os meios de diagnostico eram muito menos sofisticados do que os actuais.   Lembremo-nos das diferenças entre um carro da década de 70 e um carro actual: não há comparação possível.  Com menos recursos, a saúde publica conseguia resultados interessantes, mesmo que a anos luz do que se pratica hoje. 

O direito universal à saúde, não estava consignado na constituição. Estava regulamentado pelo Decreto-Lei n.º 413/71, de 27 de Setembro. A outra diferença, era que só garantia a prestação dos serviços de saúde, de acordo com a capacidade do sistema. Hoje tudo é garantido, mas continuamos e provavelmente vamos continuar a ter,  grávidas a nascer em carros, ambulâncias e até na rua,  a esperar anos por uma intervenção cirúrgica, muitos meses por uma consulta.  Não há sistemas perfeitos. A realidade encarrega-se de corrigir as boas intenções e lançar o Estado na ilegalidade. 

Lembro-me sempre do exemplo do progresso na saúde que mais foi usado : a descida da mortalidade infantil, a partir de 1974. A questão é que a natalidade infantil já tinha descido muito no passado. No gráfico seguinte, pode ver-se que, desde 1940, a descida é gigantesca, o que acontece depois de 74 é muito bom, mas apenas continua uma tendência de muitos anos. E já agora, se as tivéssemos, as estatísticas iriam muito provavelmente indicar uma queda vertiginosa da mortalidade infantil com mais de um século antes de 1974. Só melhor alimentação e higiene foram extraordinárias no combate á mortalidade infantil. 

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A referência ao analfabetismo, é simplesmente desprezível. A partir da década de 60, todas as crianças em idade escolar sabiam ler. Para acabar com o analfabetismo, foi apenas continuar o que já era feito, e que correspondeu a um trabalho hercúleo e com bons resultados.   O mal pode ser imputado à monarquia liberal ou à primeira republica, apesar dos seus esforços, mas pífios resultados.  Culpar o estado novo do nível de alfabetismo, é vergonhoso. Apenas uma critica pode ser feita: a alfabetização de adultos não aconteceu de forma vigorosa. Exactamente o que também aconteceu depois de 1974. Imagem1.png

Já o regime de Abril, conseguiu um enorme avanço nos anos de escolaridade, quer a nível de liceu ( secundário) quer em termos de estudantes do ensino Superior. Extraordinariamente, parece haver uma escolha em que se prefere enfatizar pretensas maldades e falhas do regime anterior, do que  lembrar os avanços de sua responsabilidade. 

Por muito que custe a um regime, que sempre tentou pôr-se em bicos de pés, mais por denegrir o passado, do que invocando as conquistas que também realizou, Portugal existia antes da III república. Não é ser Salazarista reconhecer factos. Não os reconhecer, ou é ignorância ou má fé. Temos muito disso. 

 

 

Comparar Antonio Costa a Cavaco Silva?

por Jose Miguel Roque Martins, em 26.11.25

Vivi os tempos em que Cavaco Silva foi primeiro-ministro, assisti à transformação do cenário nacional, numa velocidade que a todos espantou. Eu, ingrato, achava pouco. Era jovem e ainda mais parvo do que sou hoje.

Ontem li um artigo no expresso do Manuel Caldeira Cabral ( A década da geringonça foi excepcional?) . Fiquei impressionado com o que afinal o Sr Costa fez no seu consolado. O que me pareceu realmente impossível de aceitar, foi a alusão a Cavaco Silva, invocando-se crescimentos durante a geringonça, que se diziam aproximar do que tinha acontecido entre 1985 e 1995. Como se diz hoje, Caldeira Cabral, esticou-se. 

Obviamente podíamos lembrar que Portugal vinha a recuperar da crise de 2010, e que, da recuperação da crise, e de alguns ajustes estruturais do tempo da troika, seria esperado que o crescimento não fosse anémico. Vamos esquecer tudo isso, tal como vamos esquecer, mais tarde o Covid. Como diria Napoleão a sorte faz parte das circunstâncias do general. Concentre-mo-nos apenas nos números.

Realmente o crescimento económico, entre 2015 e 2024, foi menos mau do que costumava acontecer. As minhas contas não diferem significativamente das apresentadas, pelo que aceito os 2,2% de crescimento anual reportado no artigo. Mesmo assim, a preços constantes, continua muito longe do crescimento médio de 3,64% no consulado de Cavaco Silva.

Mas o pior, é que não se fala de uma variável muito mais importante e justa em termos de comparação, o PIB per capita a preços constantes. Não há dados, ou não os encontrei, para calcular o mesmo indicador em paridades de termos de compra, o indicador que seria verdadeiramente perfeito.

É que não é igual o crescimento da economia com população em forte crescimento (nomeadamente pela emigração), estável ou decrescente. E como sabemos, forte imigração foi o que ocorreu nestes anos. Mais pessoas a trabalhar, a comer e a dormir, expectavelmente fazem a economia crescer. Foi o que aconteceu.

E é aqui que as já grandes diferenças se tornam maiores. Nos tempos de António Costa, o Crescimento do PIB per capita (valores constantes), é de apenas 1,59%, muito longe do valor central de que se fala no artigo (o do PIB). Este valor será ainda inferior se considerarmos os emigrantes ilegais, que por definição, ninguém sabe quantos são.  Nos tempos de Cavaco Silva, com uma população com baixo crescimento, o crescimento do PIB per capita foi de 3,44%, um valor próximo do crescimento do PIB, e um valor que é mais do dobro do valor da geringonça e Sr. Costa a solo.

É verdade que o crescimento registado no consulado de António Costa, foi melhor em quase 50% do que a triste media registada entre 1995 e 2015, de 0,98 %. E. Infelizmente foi inferior a metade do registado durante os anos de Cavaco Silva. Por mais que se pretenda o contrário. A estrada da beira, continua a ser diferente da beira da estrada. 

Por essas e outras, não estou certo que os outros tantos e tão fortes triunfos reportados, sejam afinal, como são descritos.

 

O 25 de Abril, permitiu a democracia, entre outros rumos. O 25 de Novembro, confirmou a democracia, enquanto resultado do 25 de Abril e impediu males maiores. Como estarmos a escrever em cirílico, entre outras penosas avenças.

Como não celebrar o 25 de Novembro?

 

Major est longinqua reverentia, Senhor Almirante

por Jose Miguel Roque Martins, em 22.11.25

A candidatura de Gouveia e Melo não me suscitou alarme por ser militar. Surpreendeu-me apenas que capitanear uma vacinação, bem-sucedida é certo, fosse motivo para ser famoso, fosse suficiente para ser presidenciavel. Claro que a desconfiança nos políticos profissionais, necessariamente, abre as portas a quem não o é. Lembrei-me que o Almirante poderia interpretar um novo sentimento Sidonista, em que, no desconhecimento ao que vem, cada um lhe atribui as suas virtudes favoritas. Ou tornar-se no celebre Pacheco, do Eça, que sorria, por inteligência claro, mas não dizia nada.

Restava um problema: o Almirante, não poderia deixar de ter de se expor, de mostrar quem é e o que pensa. O presidente, em Portugal, tem muitos poucos poderes, mas tem muita exposição e deve ser, efectivamente, um arbitro de poderes descontrolados. O que obriga a uma campanha publica, que resulta numa exposição mínima, num mesmo que superficial conhecimento do homem por trás da candidatura.

Por isso, com curiosidade, resolvi ver o primeiro debate presidencial do Almirante. Fiquei surpreendido, mas não foi pela positiva. Quando se antecipava assertividade e decisão, Gouveia e Melo, afinal, parece mais um lusitano, um pouco simplório e tímido, adepto do nem sim nem não, nem bem nem mal, nem certo nem errado, antes pelo contrário. Apenas demonstrou que está preparado para ponderar os opostos que descortina (sem grande imaginação). Mas não convenceu ser capaz de tomar uma decisão. Ou, já agora, de ter qualquer tipo de conhecimentos profundos, ter convicções sobre coisa nenhuma, ou sequer saber o papel de um presidente. Confrangeu ter ignorado perguntas e fazer o apelo de outras causas, como o combate à violência doméstica. No estilo de um aluno, numa oral, que diz, “não sei a resposta à sua pergunta, mas sei outras coisas como.....”.

Será isto que é o Almirante? Será isto que os portugueses querem? É o que veremos nos próximos capítulos.

 

 

Trump, a partilha do saque.

por Jose Miguel Roque Martins, em 21.11.25

A proposta de paz (?) apresentada na imprensa como sendo uma iniciativa conjunta entre os EUA e a Rússia, é uma espécie nova de realpolitiks: aquela em que uma super -potencia se junta publicamente a outra, para acabar com uma guerra á custa de outrem, colhendo para isso, uma recompensa, por parte de quem recolhe o saque. Por outras palavras, Trump, o presidente democraticamente eleito pelos americanos, propõe-se ficar, publicamente, com o controle de 200.000 milhões de Euros (antes russos), e beneficiar em 50% dos lucros de metade, em troca de ameaçar a Ucrânia com a retirada do seu apoio, obrigando-a a assinar uma paz que mais parece uma rendição incondicional. Que entre outros mimos, significa prescindir de mais de 20% do seu território, do perdão de todos os crimes de guerra cometidos, de prescindir da sua soberania, quer na definição dos efectivos do seu exército, quer abdicando da possibilidade de alguma vez pertencer à nato), entre outras maldades. Já as garantias de segurança que a Ucrânia recebe, depois do banho de “confiança e solidariedade” que a Ucrânia recebeu dos USA, parecem ser muito facilmente destruídas, por uma qualquer operação de falsa bandeira russa. Levantando-se facilmente outras questões: qual o preço dos EUA para intermediar a próxima paz, qual a fatia de território que irá ser perdido na próxima invasão. Porque parece certo que a Rússia está disposta a pagar bem por mais território e população, e Trump, em nome dos EUA, estará sempre disposto a receber mais à custa do sofrimento alheio (para alem do que possa estar a receber particularmente). Até parece que Trump pretende deixar claro ser um bandido. O único consolo é saber que não é o primeiro crápula a ganhar o prémio Nobel. 

Pior que Trump, só o partido republicano (dos usa) e a Europa.

É espantoso que o partido republicano pareça capaz de continuar associado à delinquência perversa de Trump. O que Ronal Reagan e tantos outros diriam de tudo isto?

É embaraçoso e vergonhoso que a Europa aceite esta humilhação dos seus valores e interesses, como acredito que possa acontecer. Quem não está disposto a lutar, tem pelo menos de perceber que deixa de ter viabilidade,  enquanto sociedade. 

 

PS: escrevi em furia deppois de ler este artigo da reuters, já que na imprensa nacional, curiusamente não se faz referencia nomeadamente ao ponto 14 da proposta de acordo. 

 

 

 

 

 

Morreu o Bloco, viva o Livre

por Jose Miguel Roque Martins, em 14.10.25

As últimas eleições, trouxeram a confirmação de duas realidades importantes.

A primeira, que o longo ciclo de 50 anos de maioria de esquerda em Portugal, estão concluídos, por tempo indeterminado. Sendo essa esquerda, na maior parte dos casos bastante radical, é um alívio que muito agradeço. Mais difícil é imaginar que os não socialistas farão o suficiente para mudar o país. 

A segunda, é que o BE parece estar mesmo em vias de extinção. Em sua substituição, vamos ter o Livre que, pelo menos no discurso, se apresenta com uma carga de ódio e radicalismo significativamente menor. O que se agradece. 

A grande dúvida que se coloca é se existe, no essencial, diferenças assim tão fundamentais, entre o BE e o Livre, ou se é apenas uma mutação necessária de um discurso que já não vendia, pelos mesmos interpretes. Uma especie de segunda marca que se torna primeira, do mesmo grupo economico, perdão, politico.  Há quase 100 anos, os manuais trotskistas, já sugeriam que há que tomar de assalto os partidos “burgueses”, ou seja não radicais, de forma mansa e discreta, como forma de apropriação dos votos dos incautos social-democratas. É o que tem acontecido ao PS que, fundado como um partido socialista democrático (social-democracia), como aliás apregoava Mário Soares, tantas vezes tem, no passado recente, empunhado bandeiras mais extremistas. Será possível que um mesmo politburgo semeie vários partidos com estéticas diferenciadas e raízes comuns? seria uma estratégia inteligente. 

PS: Parece que em Gaza, o Hamas está a executar cidadãos palestinianos. Se alguém souber de uma manif contra o genocídio perpetrado pelo Hamas, agradeço o aviso. 

Não queremos migrantes, mas eles também não nos querem. 

por Jose Miguel Roque Martins, em 11.10.25

Do tema do momento, falta tirar a conclusão verdadeiramente penosa.  Os migrantes que cá estão, com excepção de alguns brasileiros e africanos, que vêm confortavelmente de avião, e que não querem ir para países onde não se fale português, só ficam em Portugal porque não conseguem ir para a Europa mais próspera.

Há uns dias, foi noticiado que, de um conjunto de migrantes recolhidos no mar, por terem passado cerca de dois meses, o período em que se pode manter migrantes que não tenham recorrido, foram todos soltos. Para grande comoção de quem não percebe como as fronteiras podem ser tão permeáveis. A pergunta mantém-se, mas as consequências são próximo de nulas: dos 39 migrantes, apenas ainda se encontram em território nacional 4 menores, apenas porque a protecção de menores ficou com eles. Todos os outros, já estarão na Europa.

A falta de interesse em Portugal, por parte de migrantes, parece ser a suprema humilhação nacional, uma enorme bofetada nos políticos e em todos nós. 

Dois anos depois

por Jose Miguel Roque Martins, em 07.10.25

Faz dois anos que o Hamas lançou um ataque hediondo, brutal, assassino, cobarde e injustificado contra civis, matando indiscriminada e propositadamente mais de 1000 pessoas, incluindo crianças. No Jornal Público, baluarte da verdade e liberdades, o título que faz referência a esta efeméride, é:

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A altamente impactante e complexa questão palestiniana, conseguiu juntar da extrema-esquerda  à extrema-direita, um enorme conjunto de detractores de Israel. Quando merecem, Quando não merecem. As motivações são várias, passam desde uma guerra indirecta aos USA e à  ideia de Ocidente, a razões que merecem reflexão, que terminam sempre num mas..., a simples anti-semitismo.

O oportunismo político nesta questão foi sempre enorme, a verdade a primeira vítima, a justiça dos argumentos duvidosa.  

Certo é que, os muito activistas como Mariana Mortágua, são o fermento essencial dos discursos de ódio que alimentam o anti-semitismo. Na semana passada, enquanto se discutia ad nauseam a flotilha, em que se celebrava a coragem indómita dos activistas, em Manchester, um atentado contra uma sinagoga, vitimava duas pessoas (judeus). Um acto longe de isolado, num país em que se verificam, de acordo com o DN, 250 incidentes anti-semitas por mês. Claro está, que nem Mariana Mortágua, nem os típicos activistas, que tanto clamam (até justamente) contra discursos de ódio, contra o racismo, contra a violência sobre causas que lhes são queridas, alguma vez, que eu saiba, se manifestaram sobre os habituais "pogroms" contra judeus. Já o Publico, juntamente com o Correio da Manhã, pelo que vi, também não noticiaram este acontecimento, aliás, um singelo atentado de ódio, eventualmente justificado. Noutros orgãos noticiosos, apareceu, passando despercebido no meio de uma flotilha tão imensa que fazia empalidecer a grande armada. 

Claro que as Marianas Mortáguas, não podem ser acusadas de todos os males do mundo. São apenas operárias da construção de um mundo tenebroso e estão escondidas, diluídas, numa enorme teia de cumplicidades, entre as quais estão, claro está, os órgãos noticiosos, que prestam um serviço inestimável de publicitação da única “verdade” certa. Quem quiser passar por cima do dia 7 de Outubro de 2023 e passar à lista de atrocidades cometidas por Israel, poderá simplesmente ler o artigo publicado hoje no Público.

 

PS: a juntar ao absurdo o ridículo, tropecei, em jornais de toda a Europa, nas acusações de maus tratos ou até torturas, a que os simpáticos activistas (que parecem de ótima saúde) foram sujeitos. 

 

Incapazes ou distraídos?

por Jose Miguel Roque Martins, em 29.09.25

É bastante irritante ver que, do pacote de medidas apresentadas pelo governo para impulsionar a oferta de habitação, parece que, o limite de 2300 euros de renda, é a grande questão. Seria muito mais útil olharmos para o que está a ser oferecido, analisar as suas consequências, alternativas e medidas complementares necessárias. E não seria estúpido olhar para o que já foi feito, e bem feito, no passado.

Das novas medidas do governo, transparece alguma vontade de mudar, alguma coragem política, alguma tentativa de actuar em vários aspectos: um problema complicado não se resolve com umas medidas avulsas. Numa apreciação rápida, as medidas propostas são objectiva e obviamente insuficientes. E estão longe de serem eficientes.

As baixas de impostos, iva e irs, com pequenas excepções particulares, irão, sim, beneficiar quem tem imóveis ou quem neles venha a investir. Nessa medida são um adjuvante ao aumento da oferta. Ninguém pode imaginar que um investidor tem um número magico a partir do qual não quer receber mais dinheiro: se é possível cobrar um determinado valor, ninguém vai cobrar menos, porque paga menos impostos. A boa noticia é que, os potenciais investidores, perspectivam ganhar mais dinheiro, ou sabem que se tiverem de arrendar mais barato, ganham o mesmo dinheiro: fica por isso mais interessante investir. Uma medida mais eficaz e mais barata para os cofres públicos, seria garantir despejos por falta de pagamento de rendas, mais céleres e seguros. Por outro lado, face às outras restrições do lado da oferta, não é líquido que essa melhoria dos rendimentos dos investidores, venham a traduzir-se em oferta real. Outra questão apresenta-se como pertinente: para os imóveis já construídos, qual é a vantagem publica de os senhorios pagarem menos impostos?

As medidas anunciadas de simplificações administrativas, terão certamente efeitos positivos, caso venham a ser efectivamente implementadas, sem possibilidade de vetos, legais ou ilegais, por parte das autarquias. Em nenhuma fase dos inúmeros processos.

Claro que, sem aumentar expressivamente os terrenos com aptidão construtiva, nunca será possível garantir um aumento da oferta que faça cair preços. E pela experiência da primeira tentativa deste governo, não será fácil. Politicamente, é difícil passar uma lei que para muitos representa o que há de pior: a possibilidade de seres, que não o próprio, venham a beneficiar de um enriquecimento fortuito.  O que, já agora, poderia nem acontecer de forma expressiva, através da implementação de mecanismos de repartição de aumentos de valor de terrenos rústicos, entre o proprietário e a autarquia, aquando da sua passagem a urbanos. Economicamente justifica-se porque não é o proprietário do terreno que vai ter que investir nas rodovias de acesso.  

Não será, ainda de desperdiçar outra possibilidade: racionalizar as exigências legais de qualidade das novas habitações, que obrigam a que habitação social hoje, pareça a habitação de luxo de há alguns anos. Será que mais vale garantir que a construção nova é formidável, ou que as pessoas tenham uma casa simplesmente decente?

O que mais me custa, é que, em cada momento, parece ser necessário reinventar a roda. Serei assim tão velho, que só eu me lembro dos tempos de cavaco silva, em que, em meia dúzia de anos, com um programa inteligente, os CDH´s, sob o comando do INH, foi possível resolver, mobilizando a iniciativa privada e as autarquias, os enormes bairros de barracas que existiam na altura?

Um esquema semelhante, não vai resolver todos os problemas e será mais lento de implementar: perdemos a capacidade de construir que tínhamos na década de 90. Mas, nalguns anos, a falta de habitação, para quem não a tem (jovens, emigrantes, divorciados) por compra ou arrendamento, seguramente acabaria. O que, para muitos seria péssimo: nem os partidos radicais teriam bandeiras, nem os jornalistas venderiam jornais. Será por isso que não se resolvem problemas em Portugal? Ou somos simplesmente incapazes de realizar, a não ser quando aparece quem mande em nós?

Em busca dos médicos perdidos. Porque a falta de médicos mata.

por Jose Miguel Roque Martins, em 18.09.25

Em Portugal, há alguns anos que se discute se há, ou não há,  falta de médicos. Certo é que, o SNS e os privados, ambos, não conseguem contratar médicos. E essa é a própria definição de que não há médicos suficientes.

Os médicos dizem que factos são factos, e que as estatísticas da OCDE, dizem que Portugal está no topo dos países com mais médicos por mil habitantes. Ou seja, não há falta de médicos.

Ora as estatísticas são de tremenda utilidade, sobretudo acompanhadas de mais informações: um número isolado, só por si, dificilmente retrata o que quer que seja.

Apenas para ilustrar a limitação da “estatística” preferida dos médicos, vale lembrar alguns exemplos, algo exagerados para demonstrar a deficiência da conclusão sempre assumida pela classe medica.

Imagine-se que a população portuguesa necessitava do dobro de cuidados médicos de todos os outros países da OCDE: então ter mais médicos por mil habitantes pode representar uma enorme insuficiência de médicos. Imagine-se agora, que os médicos em Portugal, trabalham metade do que os médicos nos outros países da OCDE (por preguiça ou desorganização), então, mais uma vez, estarmos no topo da tabela, não quer dizer nada. De igual forma, se houvesse diferenças entre a percentagem de médicos que trabalham como médicos, ou como gestores, investigadores ou outras outras funções, mais uma vez, os médicos por habitante não nos dão qualquer informação. Não faltam exemplos que põe a nu a possibilidade de a magica e definitiva estatística da OCDE não contrariar o que todos vêem: uma enorme falta de médicos. O médico pressupõe que, para alem dos médicos por habitante, tudo o resto é constante. Na realidade não será assim.

Obviamente que existe uma limitação enorme que alimenta a discussão: a falta de mais informação relevante para, de uma vez por todas, eliminar este foco de discussão. Em Portugal, por ineficiência, ou por desejo de viscosidade, nunca há elementos suficientes.

A demonstração da falta de médicos é a dos concursos ficarem vazios, da contratação pelo SNS de meia dúzia de obstetras ser impossível.

Essa falta objectiva de médicos no dia a dia, foi uma grande conquista da ordem dos médicos, a quem sucessivos governos, desde o 25 de Abril, entregaram a minudencia de decidirem sobre o número de médicos a formar anualmente. Uma versão da raposa no galinheiro Um economista cínico, como eu, acredita que não terá sido difícil para eles, perceberem que, com menos médicos, teriam uma vida facilitada e ganhariam mais (a aplicação básica do jogo da oferta e da procura). Durante muitas décadas, de pobreza mais generalizada, a clínica privada, permitia que alguns, poucos, ganhassem muito. A maior parte, estava na mão do Estado que, como monopsônio (um monopólio da procura) conseguia fixar preços baixos, explorando os médicos.  Mas depois, porque o SNS funcionava menos bem, e porque o nível de vida das populações aumentou, a classe media entrou decisivamente na procura de medicina privada, que hoje representa mais de um terço das despesas de saúde.

E aí, entrámos no paraíso para qualquer medico: sendo poucos, existindo carência de efectivos, desde há uns anos que entraram numa espiral de ganhos, já que competindo por um recurso escasso (os médicos) o SNS e os Hospitais privados, têm que aumentar sucessivamente o que pagam para captar profissionais. Atirar dinheiro para o sistema, não faz com que haja mais médicos. Nem o SNS, nem os privados conseguem aumentar, simultaneamente, o número de médicos disponíveis: apenas se acredita que, no privado, os médicos possam ser capazes de realizar um maior número de actos médicos, e que os medicos existentes possam querer trabalhar mais umas horas, porque o pagamento é bom.  

O que assistimos é à captura de uma renda excessiva pelo conjunto dos médicos, ou seja, exploram a sociedade em geral, em tudo equivalente aos antes crimes denunciados pelos marxistas relativamente ao grande capital. O que também acontece com estivadores, advogados, trabalhadores dos transportes públicos, professores e, em menor medida, a quase totalidade dos grupos de pressão que aprisionam um estado fraco e relativamente incapaz.

Este caso, é só pior do que os outros, por um motivo. A falta de médicos mata. E enquanto houver falta de médicos, enquanto não se formarem anualmente mais médicos, nenhum governo vai resolver os problemas do SNS, mesmo que não existissem restrições orçamentais. 

 

 

O fim do Chega?

por Jose Miguel Roque Martins, em 17.09.25

A candidatura de Ventura à presidência, é um facto de grande relevância, sobretudo para quem pretenda ver-se livre do Chega. Se Ventura ganhar a presidência, não será o fim do chega? 

 

Não sei se chore, se ria

por Jose Miguel Roque Martins, em 17.09.25

Hoje, logo pela manhã, na radio observador, voltei a ouvir o caso do medico que facturou 400.000 euros, o malandro que aproveita o sistema.  Desde que este caso apareceu, fiquei muito surpreendido por ninguém aproveitar o que aconteceu para levantar outro problema. Quando as equipas são bem pagas, parece possível fazer um enorme número de intervenções cirúrgicas. E quando os médicos  são pagos independentemente da produtividade, quantas fazem? Os 400.000 euros seriam um valor muito baixo, se permitissem denunciar o que eventualmente acontece: uma baixa produtividade quando os médicos (e outros) não operam debaixo de um esquema que premeia a produtividade. Ser criminosamente pouco produtivo, em Portugal, não é um problema, desde que não se ganhe demasiado. O crime é trabalhar em função de resultados. Sobretudo se se trabalhar bastante, denunciando a mediocridade do sistema implementado pelo regime ( o que também explica o fim das PPP na Saúde). 

Quando cheguei a casa e fui ler as gordas, deparei-me com uma afirmação em tom de acusação no DN, num texto de Fernanda Câncio: “Carris poupou 600 mil euros em manutenção entre 2021 e 2023”. Isto claro, insinuando que poderia ser por este motivo que aconteceu o acidente do elevador da Gloria. A própria Carris, aparentemente, defendeu-se dessa terrível acusação. Custa-me a crer que poupar na manutenção seja algo indesculpável ao invés de virtuoso. E pelo que sabemos, a responsabilidade do acidente nem tem a ver com a manutenção dos últimos anos. Pelos dados conhecidos, até ao momento, aparentemente o motivo do desastre, a escolha de um tipo particular de cabo, muitos anos antes de 2021, terá sido o principal responsável, não a manutenção que se realizava. Ou seja, poupar, talvez por ser uma virtude nos tempos do estado novo, é por si mesmo, um crime e não uma potencial virtude.

Por isso, fiquei, mais uma vez,  sem saber se deveria  chorar ou rir. 

 

 

Trump, um politico mais tradicional. do que parece

por Jose Miguel Roque Martins, em 12.03.25

Ontem, os EUA e a Ucrânia, conseguiram chegar a acordo na proposta, á Rússia, de um mês de cessar-fogo. O congelamento de apoio pelos EUA foi levantado. A proposta de acordo, muito provavelmente, será rejeitada pela Rússia.

Juntando este episódio, com o que se passou na Casa Branca, parece mais clara a estratégia geral de Trump. Em primeiro lugar, dar espectáculo. Fazer grandes demonstrações publicas, mesmo recorrendo á mais lamentável grosseria, de que é um indómito defensor dos interesses americanos, que não subordina a ninguém, nem a nenhumas justificações fofinhas. O que poderá calhar bem para o que ele considera ser o seu eleitorado (para alem de massajar o seu ego).  Em segundo lugar, “explicar”, um percurso. Já não determinado com base em princípios abstractos, mas num claro roteiro. Demonstrou não estar ao lado da Ucrânia, que humilha e ofende. A quem corta, imediatamente o apoio. Para escassos dias depois, do alto do seu poder, obrigar a uma proposta de cessar-fogo, que imediatamente levanta o apoio que retirou. Torna-se um paladino da paz, abre o campo, (como desejo) para poder continuar a apoiar uma guerra, caso se verifique a esperada recusa da Rússia (finalmente quem deseja a guerra), que disse estar a ser mal-conduzida, que acabaria em 24 horas. Como poderia continuar a fazer o mesmo se tudo o resto nao mudasse? Ao mesmo tempo, consegue o que nenhuns presidentes, pelo menos desde Obama, tinham conseguido: que a Europa comece verdadeiramente a pensar ter de pagar pela sua defesa.

Trump tem um estilo indecoroso, mas é muito prematuro declarar que é um espião avençado de Putin, ou desprovido de qualquer tipo de eficácia.

O das tarifas é mais absurdo, mas também pode ter uma explicação, se não razoável, pelo menos compreensível. A grande base de apoio de Trump, são os menos favorecidos com a globalização, os trabalhadores indiferenciados que passaram a sofrer a concorrência de biliões de trabalhadores do resto do mundo. Não vivem pior do que viviam. Mas não prosperaram tanto como os trabalhadores menos indiferenciados, que hoje votam maioritariamente no partido democrático.

Esses trabalhadores querem repor a sua importância relativa e, para isso, á falta de políticas de redistribuição de rendimento (a mais adequada), ou aumentos significativos do salário mínimo (com custos económicos evidentes), acreditam que o caminho é reduzir a sua concorrência enquanto grupo laboral. Internamente, limitando a entrada de emigrantes, externamente, impedindo a concorrência de produtos industriais mais baratos, impondo tarifas esdrúxulas.

No combate aos emigrantes, a agressividade e brutalidade publica que coloca no tema, é contrabalançada por números mais baixos de deportações do que nos últimos tempos de Biden.

Não é impossível que Trump não perceba os benefícios do comercio internacional. Mas até declarou esperar uma recessão por via da imposição de direitos alfandegários. Mais uma vez, no entretanto, estará a fazer o que prometeu ao seu eleitorado.

É certo que Trump não se mostra um líder responsável, equilibrado, previsível e com valores consagrados no cerne das suas políticas.  Não é certo que Trump não siga uma lógica, pouco elegante, e que em alguns casos não o tornam diferente de qualquer político tradicional. O cuidado com a base eleitoral, os votos, os desejos de parte da  população americana, parecem explicar muitas das acções do actual presidente.

 

 

Da irrealidade á brutalidade. Ou solução?

por Jose Miguel Roque Martins, em 04.03.25

 

Na Europa, durante décadas, cristalizou-se a ideia de que princípios e desejos (bons ou maus) se sobrepunham á realidade, às possibilidades, aos interesses. Obviamente não é  exactamente assim. Nem no plano interno, nem no plano das relações internacionais.

Para esse estado de irrealidade, não se pode deixar de olhar para dois actores. Os partidos políticos (moderados de esquerda e direita), que criaram, ou não combateram, um clima de euforia desenfreado, preocupados com a conquista do poder. As populações, que exigiam vorazmente tudo, já, porque acreditavam ser possível e constituir um seu  direito inalienavel. 

Não se pode dizer que correu mal durante muito tempo. Grandes conquistas foram realizadas, parecia que nada se interpunha entre desejos e realidades. “Parecia” é a palavra-chave: depois de décadas de prosperidade, a desconsideração sistemática dos limites, expôs a utopia em que vivemos.

Na política, quando se tornou evidente o divorcio crescente entre as promessas e o resultado. O que levou os partidos de centro (normalmente no poder), a perderem uma imensa hegemonia do sistema. Os partidos radicais, sobretudo de direita, mas também de esquerda, representam, hoje, uma franja crescente dos parlamentos. Não é por acaso. 

Na economia, a impiedosa regulação, o triunfo da sociedade sobre riscos, levou a Europa a atrasar-se relativamente aos EUA e a muitos outros países. É provável que continuemos no grupo dos mais ricos, mas não seremos dos mais ricos. Pior, quebrámos a idade de ouro, em que cada geração vivia necessariamente melhor do que a anterior.

No plano internacional, tornámo-nos irrelevantes. Afinal a História não acabou e ter armas, exércitos e força militar, voltou a ser relevante, mesmo para a nossa sobrevivência enquanto sociedades independentes. O papão russo, depois da queda do muro, parece tão vivo como nos velhos e maus tempos. E os EUA, decidiram que já não tinham interesses alinhados com os da Europa. Ou pelo menos, ao ponto de se encarregarem da sua defesa, da forma a que os Europeus desejam.

O choque, o sentimento de orfandade e traição, é ainda amplificado pelo estilo de Trump, que nos transporta diretamente da irrealidade, não para a realidade, mas para a brutalidade. Se o estilo de Trump é muito desagradável, não podemos deixar de reconhecer a sua legitimidade como presidente democraticamente eleito.  E a legitimidade de os EUA não assumirem a defesa do que entendemos serem princípios éticos legítimos. A moralidade das nações, quase sempre se subordinou ao que se pensa serem os seus interesses. É uma realidade. Como é uma realidade que a defesa da Europa deve ( e até pode) ser assumida pelos Europeus, o que significa que, querendo, terão que fazer os sacrifícios necessários.

A Europa está metida num grande sarilho. As maiores ameaças podem ser as maiores oportunidades. Um banho de realismo e bom senso, pode ser o que a Europa precisa para sair da decadência em que mergulhou. Esperemos que assim seja.

 

 

 

Anjos, ascetas, milagreiros. E Montenegro

por Jose Miguel Roque Martins, em 03.03.25

Não há nada que perturbe tanto os portugueses como o dinheiro e a sua proveniência. Durante séculos, o dinheiro do comercio e indústria eram mal vistos, influencia da Igreja. No Estado Novo, tivemos um certo culto da pobreza. Agora, continuamos a estigmatizar o dinheiro. O argumento actual, se podemos falar em argumentos é mais ideológico, o mito dos benefícios da igualdade. Que esconde a convicção, de quase todos, de que só se ganha dinheiro com corrupção, droga e outras malfeitorias. Dinheiro velho, ganho pelas trapaças da geração anterior, parece perder o fedor. Mas só quanto à sua proveniência suspeita, no resto, mantém-se uma tradicional inveja, que se manifesta em alfinetadas subtis, ou em manifestações mais claras.

A sobriedade, no meu caso, não me assenta mal. Não é uma escolha, é uma necessidade. Por mim, gostava de ter muito mais dinheiro do que tenho, poder esbanjar em restaurantes consagrados, beber os melhores vinhos e por aí fora. Não posso

, mas gostaria. As minhas limitações não me incomodam e fico muito feliz que, cada vez mais, haja quem o possa fazer.

Esta má relação com o dinheiro é uma das razões pelas quais não o temos. Hoje vou só falar nas suas consequências para a estrutura política da república.

Uma cobardia ideológica de todos os partidos, levou a que os mais altos cargos de governação tenham salários ao nível do país, ou seja, sejam miseraveis. Ou seja, são ridiculamente baixos. Actualmente, alguém que não seja rico, só pode abraçar a vida publica, com enorme sacrifício financeiro. Se queremos aqueles que mais garantias dão de eficiência e capacidade, temos naturalmente de visar aqueles que se destacaram, com provas dadas. O que, se exceptuarmos parte da academia (já nos Estados Unidos, não é incomum um professor ganhar mais de 1 milhão de Dólares), significa concorrer com a actividade privada, que já paga razoavelmente aos seus quadros superiores (grandes vencedores da globalização).

Ao problema da fraca atracção económica que os cargos políticos exercem, junta-se o estigma social de se ser político. Antes uma honra, hoje o mais mediático e sinistro cadastro.  Até faz algum sentido, ser político, hoje, só parece compreensível porque poucos, acreditam que alguém esteja disponível para piores remunerações, se não tiverem a perspectiva, por corrupção ou por trafico de influências futuras, compensar os anos magros de governação. Uma eventual projecção do que realmente pensam que fariam em idênticas situações, ou porque consideram que existe uma associação de bandidos, que tudo controla e  de onde são recrutados os políticos.

 

Acresce o escrutínio impiedoso da vida pessoal de quem ocupa cargos de ministro e secretários de Estado, que ultrapassam todos os limites razoáveis.

Não queremos políticos. Queremos anjos, ascetas altruístas, espetacularmente capazes de resolver problemas, respeitando restrições quase impossíveis de ultrapassar. Ainda não conheci nenhum. 

Esta cronica, requer um comentário sobre a questão Montenegro, o caso da sua empresa familiar.

Até acredito em não ser Montenegro alguém propenso á corrupção. Parece compreensível que, posto perante (o para ele) modestíssimo salário de primeiro-ministro, não tenha querido perder um conjunto de avenças que tinha alcançado, que compunham o orçamento familiar.  Dito isto, não deixa de ser evidente que as avenças, pelo seu valor, não encontram justificação, sem imaginar que sejam explicados por gestão fiscal, que os  talentos de Montenegro ainda sejam ( prestado em horas fora do expediente) a real justificação do seu valor, ou que seja afinal, a sua posição política, a sua capacidade de influência, que expliquem o seu valor.

Nenhuma das justificações, por mais compreensíveis que sejam, parecem ser ideais. Não parece razoável termos um primeiro-ministro envolvido na fuga ao fisco, não parece aceitável termos um primeiro-ministro com dois empregos, não é admissível reconhecer “influencias” como um complemento salarial.

Claro que, como ninguém quer eleições, não é provável que Montenegro se demita. Pior, é este episodio não promover a correção da estrutura salarial dos mais altos servidores do Estado, contribuindo para que os casos e casinhos e o afastamento de pessoas com valor, continuem.

 

 

 

Absurdo, brutal, mas irrelevante

por Jose Miguel Roque Martins, em 01.03.25

Fomos confrontados ontem com um episódio singular: Trump e Vance, em directo atacam de forma brutal Zelinsky, cancelando o encontro e, para todos os efeitos, expulsando o Presidente da Ucrânia da casa branca.

Os argumentos ridículos, o tom usado, a ainda maior agressão de cancelamento, são obviamente mais que deploráveis. Mas só marcam o fim da elegância que costumava acompanhar a diplomacia. Um facto, em sim mesmo, que aflige, revolta e até enfurece, almas mais sensíveis, como a minha. Para Trump, foi apenas mais um acto de agressão ordinário, cobarde, de macho alfa, que pratica mais habitualmente do que bebe copos de água.  Não significa nada de novo, nem nada em sim mesmo.

Trump afastou do terreno de jogo hipocrisias, mas também a mais elementar elegância, que de qualquer modo parece há muito condenadas no ciclo que se vive nas últimas décadas. Inova (e mal), apenas no grau da brutalidade publica, na desconsideração das vantagens do soft power e de consequências a longo prazo. Apenas a lógica transaccional (que de resto é a lógica realmente prevalecente nas relações internacionais) é admitida como razoável, por Trump.

Dito tudo isto, o que aconteceu ontem, só representa um agudizar de um sentimento de insegurança internacional, com um ocupante da casa branca que se comporta como Al Capone (lembrei-me do episódio do taco de basebol), que terá sido o ponto que mais terá agradado a Trump, mesmo que não premeditado. A mensagem (China?), é que, afinal não se deve recear apenas ditadores loucos, também não se podem contar com atitudes responsáveis do presidente democraticamente eleito dos EUA.

No que diz respeito à posição dos EUA na Ucrânia, o episódio de ontem foi como se nunca tivesse acontecido. Os interesses dos EUA, quaisquer que sejam a sua actual definição ( bem ou mal) , serão defendidos da mesma forma, desconsiderando um episódio sem relevância.  Mesmo que isso represente acabar por apoiar militarmente a Ucrânia. O que não é certo, nem hoje, nem anteontem.

 

A Europa, já só remediada e mal agradecida

por Jose Miguel Roque Martins, em 17.02.25

A Europa, os países europeus, têm o direito de escolher os seus destinos. Já mais complicado é imaginar que têm direitos legítimos a que os outros, se curvem perante as suas escolhas, opiniões e interesses. A Europa, fruto das suas glorias passadas e de um complexo de superioridade moral que desenvolveu, passou a acreditar que  tinha direitos, que na verdade não são reconhecidos pelos outros.

Este comentário inicial, é valido para uma quantidade de questões, que passam pela luta contra as emissões globais, pelas políticas energéticas, pelo comercio internacional, enfim, por quase tudo. Mas esta cronica é sobre a questão da defesa.

A Europa, na última semana, sentiu-se verdadeiramente humilhada e agredida pelos EUA e pela Rússia, que a excluíram das conversas que planeiam ter sobre a questão ucraniana.  Na verdade, foi simplesmente ignorada porque, por escolha própria, deixaram de ser relevantes em termos militares. Perderam o lugar à mesa dos crescidos. Não têm legitimidade real, para ser considerada.

 A dependência de defesa dos Estados Unidos, não aconteceu por incapacidade. Deu jeito, permitiu investir no estado social, noutras políticas consideradas prioritárias. E até agora, foi uma opção que correu bem, já que os EUA aceitaram o encargo e não excluíram os europeus dos processos de defesa, ao longo dos últimos 70 anos. Muito foi conseguido pelos países europeus, pela poupança que realizaram na sua defesa.  O que aconteceu, não por terem essa obrigação para com os Europeus, mas porque consideraram ser essa uma opção  vantajosa, ou uma generosidade suportável, face a outros objectivos que traçaram. Aparentemente já não é assim. E não foi por falta de avisos desde a administração Obama. 

Nos jornais de toda a Europa, o tom é de grande indignação. Na verdade, deveriam agradecer aos EUA os bons tempos que lhes foram proporcionados e começar a fazer pela vida. Ou abdicar de vez, da sua soberania plena.

Pinto da Costa: o ultimo caso

por Jose Miguel Roque Martins, em 17.02.25

Dizer mal de quem morreu, não é muito digno. Normalmente representa uma cobardia agredir quem não se pode defender. Esquecer tudo de menos bom que um defunto disse, fez e praticou, poderá ser piedoso, mas não faz qualquer sentido. Será um acto de hipocrisia vazio de significado.

Escrevo, tudo isto, a propósito da morte de Jorge Nuno Pinto da Costa, e o alarme mediático, pelo facto de Benfica e Sporting, não terem apresentado oficialmente (ou por outra via) condolências ao FC Porto, nem se terem precipitado num elogio fúnebre, vazios de sentido e de sinceridade.

Jorge Nuno Pinto da Costa, todos reconhecem, transformou o FC Porto, de um clube de segundo plano, numa referência inquestionável do futebol português. Teve imensos méritos e deixa uma extraordinária obra feita. Mas não será antidesportivo que, quem tantas vezes justamente perdeu no terreno de jogo, esqueça tudo o resto. Os insultos, provocações antidesportivas, o incitamento ao ódio regional, de que foi o maior expoente no desporto nacional durante décadas.  Mal comparado, numa versão menos boçal e poderosa, Pinto da Costa, é um precursor do actual presidente Trump. Mesmo que este último venha a apresentar resultados tão bons quanto Pinto da Costa, também não prevejo comover-me, se ainda cá estiver, quando ele morrer.

PS: Possíveis casos de corrupção desportiva e financeira, ao longo do seu mandato, já não seriam tão  originais e exclusivos, mas também não deveriam entusiasmar incondicionalmente quem aqui ainda anda.

Não é legitimidade, é o Irão

por Jose Miguel Roque Martins, em 10.10.24

 

A guerra entre Israel e o mundo árabe, desperta paixões. As discussões e argumentos que se ouvem, são sobretudo tiros ao lado.  Discute-se legitimidade, discute-se a questão palestina e Israel. Nem a legitimidade resolve a guerra, nem o conflito é israelo-árabe. A verdadeira questão é pratica. Enquanto houver dinheiro para a guerra, não haverá paz. Enquanto o Irão permanecer uma teocracia autoritária, não haverá paz.

Em termos de legitimidade, o Estado de Israel, o Irão, a palestina, comparam-se bem com a conquista de Portugal por D. Afonso Henriques e os seus descendentes, aos mouros.  Que por sua vez tinham feito o mesmo a Visigodos, que o tinham feito aos romanos, que o tinham feito a umas tribos dispersas, que por sua vez, num ciclo infindável, o tinham feito a outras. A legitimidade da força, é a fonte original de todos os estados existentes, um pecado original que nenhum estado está livre. Vamos reabrir essa discussão? E já agora, internacionalizá-la e alargá-la a todas as fronteiras? Questionar tudo de novo? Ou, com sentido pratico, aceitar as realidades? Aviso, desde já, que não contem comigo para tomar Olivença.

Outra questão relevante é saber quem é, originalmente o agressor, quem foi o agredido. Quem quer que seja, para começar, já morreu. Os Palestinos foram agredidos. A ONU, assumiu a responsabilidade da agressão. Os israelitas, como é óbvio, aproveitaram. Podemos simpatizar com os palestinos, com cada um dos milhares de “povos” que foram subjugados. Simpatia que os judeus, também historicamente merecem, tendo sido expulsos da Judeia por diversas vezes.

O odioso ataque de há 7 de Outubro do ano passado, desencadeou a guerra. Israel tem todo o direito de se defender. O que, mais uma vez, não resolve nada. 

Em termos de legitimidade, não vamos resolver o problema: cada uma das partes reclama a sua. No entretanto, um enorme legado de medo, ódio, de sangue derramado, de luta pela sobrevivência dificulta uma solução. Mas essas não são a verdadeira causa do conflito.

Olhemos para o dinheiro. Se os grupos terroristas palestinos não tivessem fontes de financiamento, o que teríamos? Seguramente não existiria um estado de guerra sequer próximo do que existe. Os palestinianos não deixariam de viver miseravelmente, não teriam nada a perder, não existiria uma verdadeira paz. Mas com pedras não se faz muito sangue.  Se parte do dinheiro da guerra, fosse investido no desenvolvimento económico das palestinas (faixa de Gaza e Cisjordânia) a vida das suas populações seria seguramente melhor.  Teriam mais predisposição a olhar para o futuro, teriam mais a perder no presente.

Já há algumas décadas, os países árabes receiam mais os terroristas palestinos, expulsos da Jordânia e do Egipto e que dominam o Líbano, do que temem Israel. Já há algum tempo que perceberam que o Irão e os Xiitas, tudo farão para dominar os sunitas. O último exemplo é o Iémene. Os países árabes (sunitas) começaram a guerra, mas já não fazem parte da equação de agressão.  O terrorismo passou a ser uma forma de vida de pessoas que pertencem a organizações com interesses próprios, mais do que verdadeiras e legitimas organizações com objectivos legítimos. Alguém pode pensar que o Hezbollah ou o Hamas estão verdadeiramente preocupados com as populações de que se dizem representantes? E já agora, serão capazes de tomar decisões independentes?

Na falta do suporte financeiro dos árabes, estes grupos encontraram o suporte do Irão, que passou a controlá-los: dinheiro pelos seus objectivos.  A guerra passou a ser parte de um conflito maior, entre xiitas e sunitas. Os palestinos e Israelitas, passaram a meros peões dessa guerra, em que Israel é, por si só, um espinho incomodo nas aspirações iranianas. Em que que a popular luta contra os sionistas, é também uma forma de angariar prestígio xiita junta das populações árabes. Em que as milícias terroristas, são extensões do regime iraniano espalhadas na região. Em que os palestinianos, vítimas úteis, são uma mera ferramenta para o bem maior.

 Enquanto se falar de legitimidade nada de útil se produz. Enquanto o Irão não parar o seu expansionismo, não haverá paz no médio oriente.

 

 


Corta-fitas

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