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O padre João e eu

por Jose Miguel Roque Martins, em 07.06.22

Conheci o Padre João Seabra quando estudava na Católica. Dificilmente poderia alguém ser um Capelão tão extraordinário quanto ele. Não por ser de uma inteligência contundente ou ter uma cultura profunda e abrangente, mas porque ninguém poderia ser mais disponível e interessado pelos estudantes do que ele. Era uma presença quotidiana, incisiva, permanente, que marcou algumas gerações de Estudantes.

Outras das características do Padre João era a sua personalidade forte e exuberante e uma ortodoxia marcada, feita de inteligência e fé. Por tudo isso, ou era amado ou odiado, nunca ignorado.

Enquanto agnóstico assumido, não fui ignorado. Pelo contrario, tal como outros que não tinham fé,  fui alvo permanente das atenções do Padre João. Entre longas conversas e alguns “chapadões”, não fui convertido,  mas tornei-me um profundo admirador  e amigo do Padre João, que teve a bondade de me casar. Ortodoxia sim, mas sempre preocupado com a inclusão e não com a exclusão. Ortodoxia sim,  mas sempre pronto a acolher e a respeitar as diferenças, não a condena-las. Ortodoxia sim,  não no ódio mas no amor.

A noticia da sua morte entristeceu-me muito. Pessoas como ele fazem falta, muita falta. Consola-me que a sua vida tenha sido esplêndida. Foi cedo, mas fez muito. 

 

100 paz

por Jose Miguel Roque Martins, em 04.06.22

Ontem passaram 100 dias desde a invasão da Ucrânia pela Rússia. Das brutais calamidades, das mortes  e sofrimento humano contínuos já sabemos. O que não se sabe é como e quando poderão terminar.

Aparentemente nem a Rússia tem força para conquistar toda a Ucrânia, nem esta, de expulsar o invasor. As posições defensivas assumidas pela Rússia em Kherson, assinalam a sua incapacidade ofensiva em toda a linha. Mas também não há sinais de que a Ucrânia consiga aproveitar um sector relativamente desguarnecido para uma contra-ofensiva expressiva. Nos selvagens confrontos na frente do Dombas, são mais as vitimas civis e militares de ambos os lados, do que alterações significativas no terreno.

A Rússia sobrestimou as suas forças e subestimou a resistência Ucraniana e o apoio do Ocidente, é um facto hoje inquestionável. Mas como se sai disto?

A improvável substituição de Putin, poderia facilitar uma solução ou, pelo contrario, ser substituído pela facção ainda mais sanguinária que existe e tem força no Kremlin.

A Ucrânia entregar, por acordo, terra à Rússia, não parece ser uma solução. Já tinham, de facto,  a Crimeia e parte do Dombas e não foi suficiente.  Quanta terra pode realmente saciar o apetite russo?

Um cessar fogo, puro e simples, para permitir o regresso da vida e uma discussão mais ou menos consequente, nas actuais circunstâncias, não serve a Putin. Tem que mostrar resultados, que ninguém sabe quais são.

Certo é que a intensidade dos confrontos actuais são insustentáveis, a prazo, para Ucranianos, Russos, África e o resto do Mundo, durante muito mais tempo.

Uma solução, necessariamente má, acabará por chegar, seja a derrota total de um dos lados ou um mau acordo.

 

 

 

 

Anti-americanismo , pobres e mal agradecidos

por Jose Miguel Roque Martins, em 02.06.22

Ontem, um conhecido comunista, Pedro Tadeu, escreveu uma coluna no DN em que basicamente aproveitou para desancar os EUA, o que em si não é novidade: as esquerdas mais radicais sempre detestaram os EUA e tudo o que representa. Não admira. Se a economia de mercado não funcionasse tão bem, ainda estaríamos no tempo da gloriosa União Soviética.

O anti-americanismo não é um exclusivo das “esquerdas”, é um sentimento que varre a maior parte da populações, independentemente das suas opções políticas.

Será caso para dizer que, se a maioria das opiniões corresponder à verdade, então os EUA são, sem duvida, um primo mais ou menos afastado do Diabo.

Se olharmos para a História, desde  independência Americana, em 1776 até ao principio do século XX, há mesmo razões para considerar que os EUA se portaram, aos olhos de hoje, ao nível dos piores.  Escravatura, genocídio dos indígenas americanos e o roubo das suas terras, invasão e conquista de imensos territórios do México (Texas, Novo México, Califórnia),  imperialismos, como a doutrina Monroe ou as Filipinas ou a guerra Hispano-americana e a guerra civil que, observada à distancia, parece ser uma severa infracção à autodeterminação dos povos, na realidade, mais uma guerra de conquista fratricida, não muito diferente da actual Invasão da Ucrânia pela Rússia.

Dito isto, também é importante lembrar que, na Europa, só não falamos todos alemão, ou russo, graças aos Americanos. Da minha parte, só por isso, merecem o meu enorme agradecimento.

É verdade que os EUA protegem os seus interesses, como tantos, com tanta razão, afirmam, pelo menos desde Woodrow Wilson. Não entendo a surpresa, num mundo em que, há séculos, não se espera que Estados ( para não dizer indivíduos), sejam na sua essência altruístas.

É verdade que para os Europeus, desde o cancelamento da conquista do canal do Suez por Ingleses e Franceses, não se pode disfarçar a humilhação das outrora orgulhosas potências, que se apercebem que há um poder maior para além do seu. O que também não agrada ás outras nações e particularmente à Rússia e à China. Ninguém gosta de saber que não tem liberdade total, mesmo que contrariada por um poder maior relativamente benigno.

É verdade que se envolveram em guerras e outras maldades, algumas das quais profundamente estúpidas, como a segunda invasão do Iraque, ou que fracassaram num banho de sangue, como aconteceu no Vietnam. Já alguns, como os Sul Coreanos , muito podem agradecer aos Americanos, já que o seu combate ao comunismo ( por interesse próprio) lhes permitiu uma vida melhor. Todos os que beneficiaram da luta contra o comunismo, e foram muitos, em todos os continentes, deveriam ter um nível de apreço, que não sinto, mesmo que a sua fortuna tenha sido uma coincidência e de confluência de interesses com os EUA.

 É verdade que os EUA estão longe de serem perfeitos quer na sua, por vezes desastrada actuação internacional, quer até no seu próprio modelo social. Continua, apesar de tudo, a ser o único país que tem uma lotaria de nacionalidade, como forma de permitir a uma multidão de candidatos a emigrar para os EUA, o poderem fazer legalmente, sinal que não será o pior dos mundos.

Acresce que nunca, um tão grande poder económico e militar foi tão contido, ( com eventual excepção da China imperial, há séculos) no aproveitamento da sua força, face á desproporcionada fraqueza da grande maioria dos outros países.

Entristece-me, isso sim, que outros, como os Europeus, não assumam nem as responsabilidades, nem os compromissos, nem os custos, para não precisarem de continuar a estar gratos aos Estados Unidos, preferindo a sua submissão clandestina e os seus protestos meio surdos, muito mais baratos e confortáveis.   

A todos os antiamericanos, convido a criar as condições para serem realmente livres, independentes, iguais e não piores do que os EUA. Porque, na verdade, estão sobretudo a protestar consigo mesmos. 

 

 

O incrível Sr. Louçã

por Jose Miguel Roque Martins, em 01.06.22

Há pessoas que desafiam as leis da normalidade. O Sr. Louçã é um dos seus expoentes, infelizmente por más razões, pela negativa. Nunca vi ninguém com tanta lata e desonestidade como ele, nem conheço adjectivos suficientemente fortes para o descrever.

Evito ler o que escreve, já que fico sempre irritado, mas por vezes não me consigo conter e leio algum texto dele, o que serve sempre para me lembrar porque o considero detestável. Ontem, ao ler as “gordas”, deparei-me com um titulo que poderia ser usado por muita gente, nunca por Louçã: Os talentos já fugiram, queriam que ficassem?

Fiquei na duvida. Teria Louçã perdido a cabeça e gabar-se , justamente, ter contribuido activamente para a emigração dos talentos, ao negar-lhes um futuro em Portugal? Proporia, à soviética, a proibição de emigração dos jovens com mais potencial?  O que um dos mais vocais críticos da meritocracia e de um mercado livre e dos seus consequentes salários dignos, teria a dizer? Não resisti e li o artigo. Afinal Louçã não enlouqueceu, é só mais do mesmo.  Os culpados são as empresas Portuguesas, o pequeno e o grande capital e o seu vício, que as empresas estrangeiras que contratam os nossos talentos não devem ter, por baixos salários.

Sanções , sinais importantes mas pouco eficazes.

por Jose Miguel Roque Martins, em 31.05.22

As sanções internacionais são sinais importantes mas por norma pouco eficazes. Cuba, com mais de 60 anos de sanções, Irão, Venezuela, Coreia do Norte, são exemplos de que sanções não fazem cair regimes autocráticos estabelecidos. Quem realmente sofre são as populações subjugadas, não os membros da autocracia dominante, o cerne do regime, que se pretende sancionar.

As sanções à importação de petróleo por parte da UE, são particularmente ineficazes, já que os custos que se pretendem infligir são da mesma ordem dos custos em que se incorrem. Nem a Europa vai consumir significativamente menos, nem a Rússia vai deixar de exportar a sua quota na produção mundial. Depois de uma perturbação inicial, no final apenas os custos de transporte vão aumentar para todas as partes ( importadores e exportadores).

O mais importante sinal das novas sanções ao petróleo, não são as consequências económicas para a Rússia é a confirmação de que a Europa está disposta a sofrer para combater agressões à ordem internacional.Acredito existirem formas mais eficazes e baratas de o fazer. 

Tem 99 anos, mas continua lúcido

por Jose Miguel Roque Martins, em 30.05.22

As declarações de Kissinger, de que a Europa devia exigir paz com perda de território da Ucrânia, levantaram considerável alarido.

É intolerável verbalizar um pensamento tão imperialista, de que a Europa, os EUA,  a Rússia, a China ou outra “potencia”, condicionem o destino de um país soberano, tal como acontece sempre.

É pouco popular reconhecer a realidade, de que a Ucrânia não terá capacidade de recuperar militarmente o território perdido desde 2014 e o território que perderá nesta guerra, como deveria acontecer num mundo ideal.

É irritante que o mal compense, que Putin, consiga realizar os seus intentos, apesar de sabermos que um fim feliz, só acontecem sempre em filmes cor de rosa.

É revoltante que, apesar de tudo, não esmagar um mal com poder nuclear, seja uma jogada mais prudente do que inequivocamente errada.  

Pode ou não concordar-se e aceitar o que diz, não se pode negar que Kissinger tem 99 anos mas continua lúcido. 

A criar monstros todos os dias

por Jose Miguel Roque Martins, em 26.05.22

Já todos ouvimos histórias de como a actual geração de jovens estava estragada por mimos materiais de pais que lhes dão o que têm e não têm e de como existe uma geração “perdida” por falta de educação e valores. Nunca liguei muito a estas previsões, tão constantes como desmentidas pela evolução, ao longo de séculos .

A noticia de ontem no Observador, de uma filha de 21 anos que sai de casa, pela sua pobreza, e consegue uma pensão até aos 25 anos da mãe que vive com um salário mínimo, deixou-me de boca aberta. Tenho a esperança que haja qualquer motivo não relatado que possa explicar o inexplicável. 

Existirem monstros, é uma constante da vida, mas que  sejam apadrinhados pela sociedade e a sua justiça, parece-me francamente demais.

 

Portadores de barba

por Jose Miguel Roque Martins, em 25.05.22

Agora que os seres portadores de útero finalmente beneficiam da redução de IVA nos produtos de higiene associados a essa condição, parece-me tempo de se olhar para os portadores de barba e reduzir o IVA nas lâminas de barbear.

Depois, temos que continuar diligentemente a corrigir os grandes focos de desigualdade dos portadores. 

 

 

 

O regresso da infantaria

por Jose Miguel Roque Martins, em 24.05.22

Ainda com a memoria da segunda grande guerra, o poder militar parecia ser um exclusivo de quem tinha armas pesadas, aviões, grandes navios e tanques, muitos tanques. A guerra da Ucrânia está a confirmar que a infantaria está de volta.

As armas ofensivas sofisticadas encontraram armas defensivas, muito mais baratas, à altura. A guerra de movimentos, em confrontos de exércitos razoavelmente equipados, parece mais difícil, volta a guerra de posições.

Para além dos misseis Stinger e afins, que já tinham demonstrado a sua eficácia na guerra do Afeganistão, os sistemas antiaéreos sofisticados evoluíram de tal forma que, não tornando redundante a aviação, a tornam num actor secundário demasiado bem pago.  Três meses depois do inicio da guerra, a Rússia, apesar da sua esmagadora superioridade, não consegue operar com eficácia visível na Ucrânia. A excepção teórica à supremacia das defesas aéreas, os aviões furtivos, não fazem parte do arsenal Ucraniano, enquanto os Russo aparentam não ter stocks de misseis inteligentes de alta precisão, lançados a grande altitude e distancia, que lhes permitiriam fazer a diferença no terreno. Aviões antigos, como o F16, estão, por isso, cada vez mais limitados nas funções que desempenham com eficácia, enquanto aviões realmente úteis, como o F-35, custam cerca de 100 milhões por unidade, sendo o preço de cada míssil exorbitante.   Já os drones, que custam uma pequena fracção do que custa um avião, dão boa conta de si, sabendo-se que os muitos que serão abatidos, têm uma relação custo-eficácia muito superior à da aviação convencional. Apenas a falta de domínio aéreo total pela Rússia, permitiu que a Ucrânia tivesse resistido como resistiu.

Também a época dos grandes navios, em confrontos entre nações bem armadas, parece estar no fim. O afundamento do Moskva, apesar de dotado de sistemas de defesa anti-mísseis, supostamente sofisticadas, faz repensar a lógica de construir armas que custam biliões e que podem ser afundadas com armas que custam uma ínfima parcela.

Nos carros de combate, apesar de as diferenças não serem tão gritantes, demonstram que Bazucas sofisticadas ( cada míssil custando perto de 80.000 euros) , são capazes de os deter, mais uma vez, com grande prejuízo económico para quem investe mais. O tempo actual parece ser de munições caras e armas baratas.

É por todas estas razões que a guerra na Ucrânia se transformou numa guerra próxima da I grande guerra, em que a infantaria e as trincheiras, regressaram em grande força.

A mulher de Cesar

por Jose Miguel Roque Martins, em 23.05.22

A invasão da Ucrânia pela Rússia, só tem um lado menos negativo: lembra o valor da paz e do direito internacional.No dia a dia, só assistimos à brutalidade característica da guerra, apimentada por atrocidades sem justificação. Uma vez aberta a caixa de pandora, os horrores não têm fim. 

Hoje, em todos os jornais,  lemos a condenação à pena perpetua de um soldado Russo que assassinou um Ucraniano. Acompanhei o processo e aparentemente a culpabilidade do réu, que confessou o crime sem sinais de ter sido coagido, não é questionável.

Apesar de tudo, acredito ser muito imprudente que países em guerra julguem directamente soldados ( ou civis ) do outro país. No mínimo, poderemos ficar com duvidas do equilíbrio e justiça das condenações e penas aplicadas ou da real verificação das garantias dos direitos dos acusados. Nem a Rússia nem a Ucrânia são membros do  tribunal penal internacional que serve exactamente o propósito de garantir isenção ao julgamento destes casos.

Não espero qualquer equilíbrio nos julgamentos que a Rússia venha a fazer no futuro próximo, nomeadamente quanto aos soldados do regimento Azov e, se a prisão perpetua, poderá já ser questionável, não é impossível que a pena de morte seja permitida na Rússia.

Provavelmente não alteraria nada no plano pratico,  mas acredito que a Ucrânia deveria ter pedido a intervenção do tribunal penal internacional neste caso, mesmo que a mesma fosse negada. 

 

 

 

Cuidado com o que se deseja

por Jose Miguel Roque Martins, em 17.05.22

A oposição ( maioritária) na CML, aprovou um medida que visa diminuir em 10 quilómetros todos os limites de velocidade em Lisboa. Um estudo recentemente vindo a publico (BA&N Research Unit) , vem revelar que não só os lisboetas vão pagar em tempo esta medida, como também vamos aumentar as emissões de Co2. A ser verdade, como pode muito bem ser, para que foi instituída esta medida? Porque só há estudos à posteriori? 

Um grupo de cidadãos escolhidos aleatoriamente em Lisboa, de um pequeno grupo de 2300 cidadãos que se candidataram, empossados enquanto uma experiência de um conselho de cidadãos. Entre outras medidas propostas, destaco a redução em 84% da entrada de carros em Lisboa ( até 2048). Uma medida que a ser assumida, a não haver uma revolução previa no modo de vida e logística, poderá ser um pesadelo para quem viva numa cidade deste tipo, ou até uma hecatombe urbana. 

Políticos ou cidadãos, deviam ter cuidado com o que desejam.

PS: Considero muito interessante a medida de um conselho de cidadãos. Percebo a escolha dentro daqueles que se candidatam. Receio que, com este procedimento de eleição,  o conselho se transforme, em larga medida, num espelho das opiniões de  activistas de causas raras e/ou extremas. 

Um contagio de Putinismo

por Jose Miguel Roque Martins, em 13.05.22

A força bruta, deve ser combatida com força bruta, no terreno de batalha, não na subversão dos estados de direito. Mas é isso que está a acontecer um pouco por esta Europa fora, desde que a Rússia invadiu a Ucrânia.

Primeiro com casos isolados e pontuais, depois com um despudor cada vez maior ,na ignorância dos mais básicos princípios de Estados de direito, já para não falar em hipocrisias dignas de Putin.  Respostas emocionais, depois de uma brutal agressão em larga escala como a praticada pela Rússia até são compreensíveis, mas não podem ser toleradas. Parecendo mais actos que se esperam e são praticados por Putin do que por democracias liberais Europeias.

Despedir cidadãos russos por não assinarem declarações de repúdio a Putin, será um episódio que ratifica a liberdade individual?

Fechar órgãos noticiosos pró russos, não é censura?

Impor sanções ( condenações) a pessoas ou empresas, sem julgamento prévio, até pode ser popular e eventualmente eficaz, mas não será injusto e contra  os direitos mais básicos de qualquer  individuo, nomeadamente o direito a julgamento? Quando, como acontece, os critérios utilizados serem  tão questionáveis como os alvos de sanções serem supostamente Oligarcas   ou simplesmente pertencerem à família de Putin, não estaremos já a entrar no delírio absoluto?

Quando altos dignitários, com naturalidade, falam na apropriação dos fundos soberanos Russos, para financiar a reconstrução da Ucrânia, não estamos a falar em violações  do direito mais elementar?

Aplicar sanções e depois acusar a Rússia de fazer chantagem com o fornecimento de gás é minimamente sério?

Não importa se são bravata de políticos à cata de votos ou o desejo profundo dos Europeus. São manifestações profundamente erradas  e inaceitáveis de um delírio iliberal que varre as democracias na Europa, um triste contagio de Putinismo

tolerancia zero ao covid

por Jose Miguel Roque Martins, em 10.05.22

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Nos idos de 2020, o Ocidente pasmou com a capacidade Chinesa, com a sua superioridade autocrática em combater a pandemia do Covid 19, com a política de tolerância zero que praticou de forma altamente musculada e intransigente. 

Hoje, desde os doidos da Suécia aos Países com os mais rigorosos e castradores sistemas de saúde, no Ocidente, respiram de alivio. As vacinas e as infecções acabaram por tornar a Covid endémica. A Covid ainda mata e vai continuar a matar, mas apenas para os mais extremistas, continua a ser um gravíssimo problema de saúde publica. Já na China, o confinamento de grandes cidades continua. Nem as vacinas chinesas, nem a política seguida permitiram acabar com coisa nenhuma. A crise continua, serena e imperial, sem fim à vista. 

O que acontece, a realidade, não altera convicções. Quem acredita na superioridade do Estado musculado total, nos "especialistas", não vai mudar a sua opinião. Quem acredita no individuo e no bom senso, também não. 

Quem entende Putin?

por Jose Miguel Roque Martins, em 09.05.22

Quanto mais se prolonga a guerra na Ucrânia, mais difícil é encontrar qualquer racionalidade nas acções de Putin.

Hoje, no discurso de Vitória ( II grande Guerra) esperava que Putin anunciasse a nova vitória ( sobre a Ucrânia Nazi) . Não aconteceu.

Se o que pretende é uma paz negociada, falta-lhe o que perdeu quando não conseguiu manter pressão sobre Kiev, colocando a existência da Ucrânia  em duvida: algo que seja suficientemente valioso para que a Ucrânia abra mão de território.  Terá sido por acaso que a Ucrânia deixou de negociar depois de perceber que a sua existência enquanto nação soberana, já não estava no fio da navalha?  O uso de armas nucleares pela Rússia,  ou melhor, a ameaça credível que poderiam recorrer a poder nuclear, parece desvanecida, mas passa de novo a ser uma possibilidade perante tamanha falta de equilíbrio. O que será menos grave para Putin, não cumprir as suas promessas aos Russos, ou ser responsável por um ataque nuclear?  

Se o que pretende é uma vitória esmagadora, parece que lhe faltam todos os meios. Já ficou claro que esmagar a Ucrânia, só será possível com custos astronómicos. As armas mais sofisticadas vão faltando aos Russos, os Ucranianos estão cada vez mais bem armados. Mobilizando milhões de soldados cada vez mais mal preparados, usando as armas possíveis, cada vez mais primitivas, pela força dos números, conquistar a Ucrânia ou apenas o Dombas, continua ao alcance da Rússia. Com custos humanos exponencialmente maiores dos que os actuais, exactamente quando o peso das sanções vão começar a fazer-se sentir na população. Será que faz sentido, mesmo para um autocrata no pleno domínio da população que governa ?

Porque não aproveitou Putin para reduzir perdas declarando vitória? Quem entende Putin?

 

Nas ultimas semanas temos assistido a constantes interrogações relativamente á possibilidade de uma terceira guerra mundial ou ao uso de armas nucleares. Em tese tudo é possível, mas a improbabilidade destes eventos, é manifestamente próxima de zero: nem a Rússia mostra capacidade para alargar a sua capacidade de agressão convencional,  nem é útil enfatizar as suas debilidades militares recorrendo ao Nuclear, nem Putin precisa de mais para justificar a sua vitória militar. Em síntese, não há nem capacidade ou interesse pela Rússia de escalar a guerra, sendo certo que não existe qualquer desejo concreto, por parte dos países que integram a Nato, de invadir a Rússia.

Militarmente, a Rússia ficou aquém do que dela se esperava. Sem menosprezar a resistência Ucraniana, mostrou falta de informação, problemas logísticos e dificuldades estratégicas e tácticas que não se esperavam. São também aparentes a falta de recursos em termos de munições mais sofisticadas, usadas com uma parcimónia que leva a crer que dominam a tecnologia mas não foram capazes de constituir arsenais profundos por falta de meios económicos. Incapazes de esmagar a Ucrânia, teria a Rússia a tentação de enfrentar o poder da NATO?

O lançamento de uma ogiva nuclear, mesmo que táctica, sem prejuízo de uma quase certa resposta proporcional pelos EUA, seria uma admissão da incapacidade de derrotarem as forças Ucranianas, uma nova humilhação para as armas russas. A falta de mobilização geral na Rússia, que permitiria lançar tropas em numero suficiente para esmagar a resistência Ucraniana, também não aconteceu, muito provavelmente por esta mesma razão: não admitir que afinal o chefe supremo encontrou dificuldades inesperadas, que não é infalível, que o exercito não é capaz de realizar uma operação especial.

Finalmente, uma vitória é praticamente o que Putin quiser. Esperava conquistar a Ucrânia, mas nunca anunciou esse objectivo. Enquanto as “ repúblicas” do Dombas ( independentemente da sua extensão) e a Crimeia forem Russas, a declaração de vitória é sempre possível. Ora, neste  momento, já tem ganhos no terreno consideráveis, o mar de Azov é um lago da Rússia, ligou por terra a Crimeia,  o fornecimento de água deixou de ser um problema com a ocupação de Kerson. Será isto uma derrota? Apenas face aos objectivos iniciais. 

O que se parece discutir, neste momento, é apenas a magnitude dos ganhos territoriais da Rússia, antes de um cessar fogo ( que durará decadas), nas próximas semanas. Nem a Rússia parece querer  escalar a guerra, nem os Ucranianos terão real capacidade para reconquistar as terras perdidas.

È também esse o interesse da Nato, que não fornecerá armas para a reconquista dos territorios ocupados pela Russia. Apenas quando o regime Russo cair, a Ucrânia poderá ser, de novo,  reunificada.

Terceira guerra mundial, ataques nucleares, não são, de todo, prováveis.

 

Há motivos de esperança

por Jose Miguel Roque Martins, em 24.04.22

Não é que vivamos tempos fáceis. Dos desconfortos aos radicalismos, dos protestos a agressões, dos nacionalismos ás invasões. Os grandes consensos contra a guerra, a favor da reconstrução e do progresso, que durante décadas nortearam a Europa destruída pela ultima grande barbárie, parecem esquecidos numa vaga de novos egoísmos, interesses fúteis, lassidão de realidades básicas e fundamentais, numa inquietante confusão de humanidade.

Ao mesmo tempo, centenas de milhares de gente boa, por toda esta Europa, não espera pelo Estado, pelos outros, por si próprios e acolhe Ucranianos em sua casa. No final, o que conta não são as organizações sociais, são as pessoas. Há motivos de esperança.

Democracias liberais, crise ou derrocada?

por Jose Miguel Roque Martins, em 11.04.22

França é o principal exemplo de como as democracias liberais se afundam num populismo inquietante. Os Partidos tradicionais ideológicos praticamente morreram, à esquerda e à direita. Sobram radicalismos populistas com propostas nacionalistas, autoritárias, estatismos, ainda por cima pouco consistentes. A situação só não é pior porque o partido de Macron, uma espécie de prelatura pessoal, uma sopa da pedra, com  socialismo, social democracia, estatismo e liberalismo, acaba por representar uma certa moderação e equilíbrio que ganhou uma posição de charneira na sociedade Francesa.

Em toda a Europa, o populismo apresenta-se como de extrema direita, possivelmente uma reacção a décadas de optimismo, falta de resultados e ultrapassagem de linhas de consenso sociais por regimes de esquerda. O resultado é exactamente equivalente a serem de extrema esquerda: os vícios são muito semelhantes.

Em Portugal, ainda temos partidos tradicionais, com base em ideologias, sendo que, no final do dia, ganha o PS. Um garante de moderação, mediocridade, mas que já não impede brechas de crispação social. Curiosamente,  quando li vários artigos sobre a nova maioria absoluta de Orbán, apercebi-me da proximidade do populismo do regime Húngaro e Português. Lá, como cá, cultiva-se o Estado provedor, privilegiam-se classes de votantes importantes como os pensionistas, isenta-se de impostos, durante poucos anos, os jovens ( que irão pagar a conta),  dignificam-se as carreiras da função publica. As diferenças são, para já, que na Hungria o Estado de direito já está formalmente distorcido, mas continuam a crescer economicamente e os grupos de opinião que são ofendidos são outros.

A agressão das minorias pelas maiorias parece agora prevalecer um pouco por toda a parte, mal escudadas pelos direitos e garantias que devem prevalecer em Estados de direito.

Depois da grande depressão, os novos modelos políticos adoptados, conduziram à guerra. O que poderemos esperar de uma guerra, num ambiente político tão explosivo nos anos economicamente difíceis que se avizinham?

Especulação

por Jose Miguel Roque Martins, em 05.04.22

 

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Especulação é uma palavra muito mal entendida. Em sentido figurado é considerado um logro, um engano, uma exploração. Poucas palavras são usadas de forma tão errada e frequente como especulação.

A especulação, em termos económicos, é muitas vezes positiva, nomeadamente como um fenómeno que permite a estabilização de preços. Imagine-se que, de repente, se instala a desconfiança no valor de algum mercado ( financeiro ou imobiliário). Sem especulação, aqueles que não acreditam que o fim do mundo se aproxima e compram, impedem descidas mais acentuadas de preços, menores perdas para quem quer vender a todo o custo. O especulador, arrisca, muitas vezes ganha, noutras perde. Se há actividade arriscada é a especulação. Em qualquer dos casos, boas e más especulações,  os mercados não flutuam de forma tão abrupta, são  estabilizados. Há até uma piada que diz que um investimento de longo prazo é uma especulação que não correu bem.

Também é especulação quando os investidores, têm a convicção que um activo está abaixo do seu preço e, por isso, compram na perspectiva de virem a ter uma mais valia, aumentando o valor de venda do seu proprietário que consegue, por isso, um melhor preço de venda do que se não houvesse quem aposte num aumento de valor. Em Lisboa e no Porto, nas zonas turísticas, os especuladores ganharam e com eles toda a economia. Acreditaram que uma nova utilização para as casas, o turismo, iria fazer aumentar o seu valor, a sua possibilidade de gerar mais receitas e por isso deram mais do que o valor tradicional. A partir do momento em que uma nova regra impede o que os especuladores esperavam, obviamente que os preços caem, os especuladores perdem. E com eles toda a sociedade, já que a melhor utilização económica para aquele activo deixou artificialmente de ser possível.

Diferente é a economia de casino, a febre que se apodera de um mercado, que sem razão ou lógica, passa a acreditar que a subida de preços vai acontecer porque sim, transformando esse mercado num simples jogo de fortuna, num esquema de ponzi legal. O próprio sistema de pensões, na maior parte dos países ocidentais foi uma especulação: que o crescimento da população activa iria ser como o observado nos últimos séculos e que a pirâmide etária continuaria a ser uma pirâmide tradicional. O que deixou de acontecer e levanta agora problemas sérios de sustentabilidade, equilíbrio e justiça intergeracional. Foi uma especulação até razoável e que beneficiou muitos mas que correu mal ao fim de umas décadas.

Note-se contudo que, em nenhum caso, com excepções das donas brancas e Madoffs, mesmo nos que acabam por prejudicar uma sociedade como um todo, ninguém, compradores ou vendedores, foram forçados a nada: apenas os seus próprios enganos e ganância  os empurrou para o desastre. Os que ganham não se queixam. E os especuladores que perdem, também não devem ser consolados.

Especialistas na destruição de valor

por Jose Miguel Roque Martins, em 04.04.22

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O anuncio do Publico, que reproduzo, chama a atenção para a diminuição do valor dos imóveis que foram proibidos de exercer a actividade de Alojamento local. Haverá outras razões que explicam a flutuação dos preços, mas não custa acreditar que a proibição administrativo de uma actividade económica para imóveis, ( neste caso o alojamento local) deprime o seu valor.

Vitória para os que reivindicam Lisboa para os Lisboetas. Destruição de valor, não apenas para os proprietários dos imóveis, mas para todo o Pais.

De proibição em proibição, lá nos continuamos a especializar na destruição de valor, para depois ficarmos surpreendidos porque somos mais pobres do que os outros.

 

 

Bem haja  Francisco Assis!

por Jose Miguel Roque Martins, em 31.03.22

Em democracia todos podem ter a sua opinião e defender o seu ponto de vista. È uma das suas grandes vantagens. Já aceitar que alguém com as “opiniões” de Alexandre Guerreiro, continue com posições em cargos sensíveis, já me parece delirante.

É preciso um socialista, daqueles que não tem lugar no partido, para denunciar a situação e exigir alguma compostura institucional.

Bem haja Francisco Assis

 PS: onde esteve a oposição democrática? 

 

 

 



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