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O Generalíssimo Franco e o General de Gaulle encontraram-se pela única vez a 8 de Junho de 1970, no Palacio del Pardo. De Gaulle já não era Presidente e a ida contrariou a opinião dos seus fiéis mais próximos, Malraux e Mauriac. Diferenciados no percurso, mas talvez similares no carácter, com traços particulares de autoridade, foram à sua maneira um capítulo do tumultuoso século XX. Como de Gaulle confessará: "era outra época".
Parte do diálogo ficou imortalizado nas memórias do diplomata Máximo Cajal:
De Gaulle: “Yo he debilitado mucho a los partidos políticos, pero no los he destruido”
Franco: “Sucede que en un Estado de opinión los partidos políticos existen, pero pugnan por debilitar al país; luchan contra su unidad.”
Após o encontro o Gen. de Gaulle confessou ao seu intérprete: “Él es el general Franco, es mucho; yo era el general De Gaulle, era suficiente. Pero era otra época”.

Charles de Gaulle foi um gigante no século XX. Podia conjugar as várias interpretações ideológicas que marcaram a França contemporânea: legitimista e orleanista, bonapartista e jacobino, no fundo tinha consciência do horizonte da história, demasiado lato para se reduzir a rótulos. Admirava os reis que tinham feito a França em mil anos (conforme lembrava o slogan da Action Française, cujo jornal leu na juventude), mas não excluía uma república robusta. Era o populismo legitimador e a democracia canalizada para plebiscitar a sua própria autoridade. No modelo e na consciência política talvez mais próximo a Napoleão III do que do expansionista Napoleão I, mas sobretudo herdeiro da razão de Estado de Richelieu. Era um regente na República, sem a possibilidade de se fazer Imperador.
Talvez idealizando uma espécie de redentor, os monárquicos colocaram ao general a alcunha de "o fazedor de reis", tal era a expectativa da restauração. Contudo, de Gaulle nao se terá impressionado com o conde de Paris, tal como Salazar nunca confiou em D.Duarte Nuno. A V República seria uma outra forma de monarquia, sem dúvida um sistema híbrido, semipresidencial, mas onde o carisma do Presidente de Gaulle o elevaria a soberano da República. Afinal, como lembrou outro Presidente, Valéry Giscard d'Estaing: os presidentes estão na linha dos reis. Às divergências esquerda e direita revelou-se um político prático, guiado pelas premissas da realpolitik. E às dicotomias e paradoxos que enformam as ideologias soube procurar o que melhor favorecesse a França.
De Gaulle emprestou o seu nome a uma era e a designação "Gaullismo" entrou no vocabulário político. Pesem os erros, as condenações após a libertação (Brasilach condenado à morte sem processo) e ter reduzido a França ao hexágono, independentemente de tudo, o general sabia qual o lugar da nação francesa entre as potências e qual a posição da Europa no cenário internacional, quando no pós guerra já grande parte do ocidente se tornara colonizado pelo americanismo.
De resto, foi amigo de Portugal, alguns encontrando similitudes com o salazarismo. Em suma, o salazarismo seria um gaulismo em ditadura, enquanto o gaulismo seria um salazarismo aplicado a instituições democráticas. Ao General Franco faz uma visita, contrariando os conselhos dos mais próximos, como Malraux. O cesarismo não deixava de o seduzir como modelo, mas contrariando a vocação de outros à ditadura e não procurando eternizar-se no poder, jamais colocou em causa o sistema representativo, embora auspiciasse uma autoridade consciente e forte. Foi um erudito, que escreveu primorosamente, um militar e guerreiro, assim lembrando a gesta dos velhos senadores da República Romana. Hoje seria impossível encontrar um modelo igual e longe estaremos de voltar a encontrar.
"Toute ma vie, je me suis fait une certaine idée de la France. Le sentiment me l'inspire aussi bien que la raison. Ce qu'il y a, en moi, d'affectif imagine naturellement la France, telle la princesse des contes ou la madone aux fresques des murs, comme vouée à une destinée éminente et exceptionnelle."
Charles de GAULLE (1890-1970), Mémoires de guerre, tome I, L’Appel, 1940-1942 (1954)

Parece um oximoro falar num "monárquico anarquista", mas João Camossa personificava bem o paradoxo, talvez por admirá-lo na indiferença para com a mundanidade, com aquelas barbas que bem podiam lembrar um Kropoktin ou um Bakunine. O anarca de Camossa tem liminar aproximação àquela ideia de Junger que gosta "da anarquia, mas não dos anarquistas". O anarca é, de forma singular, um solitário, como aqueles nomes primeiramente citados: dois príncipes russos que identificam o carácter aristocrático do anarca revoltado contra esse mesmo mundo.
Não lhe faltavam os costados da resistência. O pai capitão da marinha, fora um dos resistentes ao 5 de Outubro. A genealogia encontrava pressupostos ao carisma combatente. Interessa pois lembrar (para quem continua a suportar a ideia de que a monarquia caiu sem oposição), que ainda houve um capitão-mar-e-guerra Augusto Saldanha (pai de João Camossa), ao lado de um Paiva Couceiro, aquela estripe guerreira que de forma romântica podemos associar aos leais soldados na estribeira do seu rei. Era, como todos os idealistas, um "rebelde contra os pressupostos prevalecentes" e um "radical", como escrevia um outro monárquico e tradicionalista libertário chamado Kunnelth von Leddihn, também resistente contra todas as tiranias e crítico à loucura da modernidade.
A ideia do rebelde não se esgota na sua finalidade primária de se apresentar apenas contra as regras do jogo convencional, ele deliberadamente enfrenta esse "totalitarismo democrático", na máxima jungeriana da luta contra a modernidade despida de alma, que absorve o individuo e o escraviza. É o rebelde que recusa eliminar a sua individualidade nas multidões, um sentimento aristocrático que o devolve à primazia da solidão. O anarca Camossa tem essa similitude com Junger, é o soldado desmobilizado e que novamente retoma à escrita, ou o trabalhador que se volta para a vida espiritual, mais um espadachim do que um bombista.
Entendo quando convicto se denominava um"monárquico anarco-comunalista", ou um "anarco-miguelista", não pretendendo com isto fabricar conceitos políticos ou entrar em derivas ideológicas, tinha a sua percepção do mundo e dos homens, da história e da política, não tinha ilusões, distópico e fundamentalmente crítico, na consequência de se isolar numa sociedade cada vez mais igualitária no sentido capitalista, em que o consumismo e as modas ceifam as inteligências. Então, a coragem de ser diferente apenas interessa aos corajosos, por originais e intransigentes na sua vontade de se assumirem como homens livres, como Camossa sempre foi.
Podia ter tido vida fácil, não fosse um gastador, ou uma alma generosa, irresponsabilidade económica que o arrastou para a miséria, teve inclusive de vender a biblioteca herdada para poder sobreviver. Aristocrata por temperamento, anarca por condição, monárquico por convicção, caminhava em sentido contrário a quaisquer movimentos, regimes, grupos, tudo o que inculcasse cartilhas, ideologias, partidarismos. Mas sabia estabelecer alianças e, no miasma em que convergiam as inteligências, sabia dar a voz à luta. Algumas histórias ficaram para marcar o mito. Em Camossa, da sua eloquência, da sua personalidade, é difícil distinguir os factos da lenda. Sabe-se que durante o exercício da profissão (ele era advogado), e em plena barra do Tribunal Plenário de Lisboa, passou, em circunstâncias insólitas, de advogado a réu. Ora, para tal, tinha de despir a toga. Ameaçou o juiz de que estava nu por debaixo da toga. Se verdade ou não, tal não posso, na falta de mais dados, confirmar. Mas demonstra muito de um homem pouco convencional, conflituoso e de coragem determinante. Quando ser monárquico podia possibilitar uma entrada na Assembleia Nacional, tal nunca o seduziu. Nem monárquicos como Hipólito Raposo e Luís de Almeida Braga regozijaram com qualquer regime, o sentido da resistência era o mesmo. Preferiu o perigo, entre desilusões e fracassos, contra o ministerialismo do poder centralizador e contra outros despotismos que bem se podiam justificar entre ideologias e com os "amanhãs que cantam".
Não estava para sectarismos, nem se reclinava perante a banalidade dos grupúsculos. Exemplo desse carácter inconformista revelou-se quando recusou falar ao Diário Popular na cervejaria Trindade, alegando: "Que diriam os meus inimigos se me vissem retratado com um fundo de alegorias maçónicas?" - era esta a sua postura.
Por um lado o anarca, o desregrado, o rebelde, por outro o activista, o político, o militante. Um homem de paradoxos e de complexidade marcante. Participou na revolta da Sé (1961) e no Golpe de Beja (1961), se se opôs ao Estado Novo também se oporia àquela transformação violenta orquestrada pelo Partido Comunista e tão pouco simpatizava com qualquer outro extremo à esquerda. Foi co-fundador da «Convergência Monárquica» e em 1974 funda o Partido Popular Monárquico, ao lado de Barrilaro Ruas, Rolão Preto e Ribeiro Telles. Figuras igualmente paradoxais, como Rolão Preto, o aventureiro quase quixotesco dos camisas-azuis, o mais jovem da primeira geração do Integralismo Lusitano, depois o velho e honrado idealista que vivera o frenesim do século XX entre a loucura das ideologias e a aventura da guerra, nacional-sindicalista que concebia o rei com os sovietes. Estes eram os homens capazes de brandir o seu credo com a força demolidora do verbo.
Camossa invocava uma corrente libertária para quem o rei devia ser o último vestígio do Estado. Podia também aliar-se a outro anarca-monárquico, o Salvador Dali, ou a um Tolkien, cujo pensamento não divergiria muito. Ou ainda, um pouco mais velho mas ainda assim conhecido, um homem livre como Afonso Lopes Vieira, e ainda, próximo e contemporâneo, um Agostinho da Silva, no reencontro entre um neo-republicanismo místico e uma concepção anarco-comunalista reivindicada por uma facção do Partido Popular Monárquico, ideias compreendidas da influência de Herzen e do federalismo municipalista que apaixonara, nos primórdios da contestação oitocentista, uma primeira geração de republicanos. Subsumiam-se as ideias de uma monarquia pré-absolutista, idealizada na sua formulação popular e democrática, porque o que é verdadeiramente tradicional é inventar o futuro (diria mestre Agostinho da Silva).
A quem teima em colocar estereótipos sobre os monárquicos (e talvez eles sejam os principais responsáveis por essa imagem) Camossa permanece como uma figura fugida ao desinteresse deste mundo de banalidades e etiquetas. Não deixou uma obra escrita, um pensamento que possamos delimitar, ele próprio teria detestado um qualquer séquito de discípulos, mas deixou o Centro Nacional de Cultura, do qual foi um dos fundadores, deixou na memória uma luta inabalável em nome da instituição que compreendia melhor representar Portugal, para todos os efeitos a monarquia era a alternativa possível e nunca concretizada.
Fica aqui a homenagem a um homem singular e grande. Um homem verdadeiramente livre que podia ter proferido aquelas mesmas palavras de Ernst Junger: "para se chegar a ser livre, há que ser livre, pois a liberdade é existência".

No dactiloscrito do livro "Mensagem" (a imagem aqui publicada) é possível descobrir as correcções feitas pela mão do próprio autor, preocupado em aperfeiçoar a dimensão simbólica do projecto literário. Aqui podemos acompanhar o raciocínio do poeta e entender os mecanismos da criação. O título da obra era para ser "Portugal", como nos evidencia o manuscrito, entretanto o autor terá sido advertido a mudar, acreditando estar o nome suficientemente vulgarizado para não dignificar a grandeza do livro. Embora mal não ficasse o título, a originalidade do poeta era suprema. Para Pessoa tudo tem um sentido. Tudo tem uma lógica própria. Um raciocínio. E por detrás da racionalidade um elemento enigmático que serve de desafio ao leitor. O título é uma composição laboriosa muito mais simbólica do que aparenta, uma espécie de elemento críptico que recebe o leitor na demanda do projecto épico. "Mensagem" é na verdade um anagrama, uma adaptação do verso de Virgílio, da "Eneida": Mens agitat molem. Significa isto que a mente controla a matéria. A palavra tem o mesmo número de letras da palavra "Portugal" (e volto a dizer que em Pessoa nada é escolhido ao acaso), uma palavra de 8 letras, número esse ligado aos templários (a cruz templária tem 8 pontas). Todos os elementos na poesia de Pessoa são preciosos e simbólicos. Até este mero título consegue falar por quase todo um livro. É Portugal perdido e reencontrado, uma missão para o século do aspirante a "super Camões". Uma nova vocação para um povo perdido nas intempéries da história.

Guilherme II, último Imperador da Alemanha e rei da Prússia, faleceu a 4 de Junho de 1941, em Huis Doorn, Doorn (Países Baixos). Derrotado e exilado foi talvez dos mais odiados homens do século XX, ainda que a justiça tarde para esta figura renegada num século que conheceu todas as catástrofes. Um homem singular: grande orador, carismático, culto e apreciador das artes, tinha ao seu alcance o esplendor de uma era. Mas era também de temperamento irascível, instável e irritável, muitas vezes tendente a depressões.
O neto preferido da rainha Vitória foi talvez o mais inglês de todos os alemães, a proximidade que sentia ao povo de além-Mancha faziam-no crer numa aliança futura. Não podia estar mais enganado. Guilherme II admirava os ingleses, mas não os compreendia. Imediatamente a criação da marinha de guerra alemã levantou suspeitas à Britânia senhora dos mares. Entre outros erros diplomáticos (a política externa não era o seu forte), a incapacidade para garantir o equilíbrio entre a Áustria-Hungria e a Rússia, impérios cuja sede de ambição nos Balcãs conduziria a Europa para o suicídio colectivo em 1914.
O equilíbrio que Bismarck habilmente criara aos poucos começava a ruir. Aspirando à ribalta e consciente do seu desígnio histórico, o Kaiser afastara o velho ministro da vida política (a incompatibilidade dos homens de temperamento forte). Mas Guilherme II demonstra-se internamente um político hábil. É sobretudo um "imperador social" que para combater a ascendente força do partido social democrata institui uma legislação do trabalho sem precedente na Europa: desde leis sobre acidentes de trabalho, doença e velhice votadas entre 1882 e 1889 as quais formam, depois das políticas de Bismarck, o primeiro conjunto de reformas sociais, décadas antes da "revolucionária" e "republicaníssima" França.
São também pensados pelo Kaiser os tribunais arbitrais, o descanso ao domingo e a limitação das horas de trabalho. Juntamente com Bismarck, Guilherme II é o arquétipo do revolucionário de topo, como fora Alexandre II, da Rússia, Leopoldo da Bélgica e, entre nós, o nosso rei D. Carlos.
Do que mais gostava era das encenações, as grandes demonstrações militares, contudo teme a guerra. No fundo, cultivava o culto da personalidade. Todo esse "teatro" (um “regime de opereta” como chamava o nosso D. Carlos) fazia-o talvez ignorar a realidade do seu próprio poder: Guilherme II estava limitado como “rei constitucional”. Mas, ao mesmo tempo, está politicamente na vanguarda dos novos tempos: apercebe-se de elementos políticos importantes que no futuro definirão a política de massas: os discursos, a grande oratória, a ideia do soberano reflectir a vontade do povo, são constatações que fazem dele sobretudo um estadista moderno.
Acredita no direito divino, mas não ignora que o poder deriva da nação, o que é interessante no seu pensamento: tradicionalista e revolucionário, conservador politicamente, mas ideologicamente na linha de um “socialista de cátedra”, propenso para a reforma social e para a manutenção da ordem e da autoridade. Em tudo é um paradoxo.
No reinado de Guilherme II a liberdade cresce. Entre as várias reformas políticas está a visão de um monarca esclarecido. Assim, a lei que reprimia os socialistas é revogada, aceita também que se constituam partidos políticos: desde a direita, militada pelo conservadorismo prussiano, hierárquico, castrense, nobiliárquico, ao centro católico. Amnistia as esquerdas sociais-democratas e dá alento à burguesia dividida entre liberais nacionais e liberais de esquerda.
Esta não é apenas a Alemanha do grande fomento industrial e do progresso económico, mas também da cultura, das artes e das ciências, que a Europa reconhece nos inúmeros galardoados com o Nobel, ou que são reconhecidos nas letras, na pintura, nas reformas políticas e na vanguarda da reforma social. Que mundo se perdeu.
Com o Kaiser morre uma certa Alemanha, o Reich que não resistiu a Bismarck seu arquitecto principal. Desaparece uma certa ordem, mas também sucumbe esse status quo, que foi história e tradição, que no âmago das hierarquias tradicionais reunia o melhor escol do Império. Junger foi um bom juiz deste declínio ao referir "os últimos troncos da nobreza alemã" que durante mil anos tinham sobrevivido a todas as crises e provações, mas não ao século XX. Duas guerras mundiais ditariam o fim da velha ordem.
No final, traído e amargurado, o velho monarca permaneceu um exilado, nunca desejando regressar à pátria enquanto a monarquia não fosse restaurada. O ciclo político não lhe foi grato, consomou-se a transformação europeia numa realidade que ficou nos antípodas de toda a concepção heróica, tradicional e metafísica, um mundo "de ontem" petrificado na história.
Guilherme II é uma das mais interessantes figuras do século XX, admirado e odiado, merece ser estudado com atenção e com a relevância necessária.

Napoleão Eugênio Luís João José Bonaparte, Príncipe Imperial de França (numa fotografia datada de 1870(?)), único filho de Napoleão III (derrubado e exilado), após a morte do pai em 1873 é proclamado pelos apoiantes bonapartistas como Napoleão IV, na esperança de novamente edificar o Império e redimir a memória trágica dos antecessores. Tal não acontecerá, a última esperança do bonapartismo morre a 1 de Junho de 1879, em Sobuza's kraal, na África do Sul durante a guerra Anglo-Zulu. Consta que terá levado a mesma espada que Napoleão I empunhara em Austerlitz, pouco influindo como amuleto, talvez mais propenso à maldição do nome e à vã glória que trazem as dinastias no seu seio. Inconformados, mas não rendidos, os bonapartistas vão proclamar (como fora desejo do defunto príncipe), Victor Napoleão como sucessor ao esperançoso e inaudito império, que de vestígio guardava apenas o nome da dinastia, assim elevado a Napoleão V. Hoje o actual chefe da Casa de Bonaparte descende desta linha.

28 de Maio de 1926, não é apenas o fim da "República velha", mas de um século de experiência liberal, de 1820 a 1926, com diversas interrupções, guerras civis e revoluções à mistura na fornalha ideológica saída dos compêndios iluministas. Foi o fim de um paradigma ideológico que acompanha o terramoto político europeu entre as duas guerras. A decadência anunciada desde a Geração de 70 encontrava ali um desfecho e, à falência institucional apenas agravada pela República, decidia-se uma resposta cirúrgica e imediata: a ditadura. Como correlativo apenas o golpe cesarista dos tempos finais da República Romana, ou o 18 do Brumário napoleónico. Contudo - e apesar das circunstâncias - não havia ali um César, mas um triunvirato de aspirantes ao lugar cimeiro. E como na história romana de Suetónio, seria igualmente marcada pela ascensão da autocracia do princeps senatus. Entre reviravoltas, o destino reservaria o consulado vitalício para um civil (não a um general); e à aspiração dos césares das espadas e esporas seguir-se-ia a prudência catedrática de borla e capelo.

Se precisasse de traçar o protótipo do "escrito maldito", com todo o romantismo necessário para edificar a grandeza poética dos amaldiçoados, então Céline ocuparia o Panteão supremo. Não sei descrever a influência que dele recebi quando descobri a tradução do "Viagem ao Fim da Noite". Lê-lo é mergulhar no mais obscuro da nossa identidade. Céline e Proust são a face oposta da mesma França, e diria da mesma Europa. Se Proust vagueou nos salões da aristocracia e edificou uma prosa sustentada nos prazeres mundanos, recheando cada imagem de brilhantes ritmos de poesia, Céline conduziu-nos ao mais recôndito dos becos, às ruas da classe operária, ao decadentismo do século que amargurava entre guerras, à mordaça da insatisfação que devora as almas corrompidas pelo sacrilégio do descontentamento.
Céline foi esse poeta que não cantou heróis magnânimos, nem romantizou as paixões burguesas, nem perdeu tempo com floreados para encantar as massas, mas antes o desconforto, a miséria, os vícios, a pobreza, o desalento. Não há outra tragédia que não seja errar por um mundo que parece ter perdido todo o sentido, qual promeneur solitaire arrancado de todas as grandiloquências do passado para a modorra do mundo moderno onde é reduzido a insecto, esmagado por uma civilização inconsequente.
A passagem política de Céline foi derradeira. Do lado errado da história, dirão muitos, no sentido que se posicionou do lado das forças derrotadas, como grande para da inteligência, Maurras, Brasillach, Rebatet, Drieu de la Rochelle. Tantos e tantos. A vida de Céline foi como o século XX - viveu perigosamente e radicalmente. Dançou com as forças que gravitavam na alvorada do novo mundo, protagonizando a superação da civilização burguesa, fosse o comunismo, o fascismo ou o nacional-socialismo. Como o século, viveu e sucumbiu nas intempéries que devastaram o velho mundo.
Infelizmente, para muitos, Céline continuou ( e continua) vivo. Uma silhueta que assombra os arautos do politicamente correcto dos nossos dias, daqueles que pretendem, uma linguagem lavada e polida, as novilínguas dos académicos das teorias críticas e outros dislates intelectuais. Face aos novos tiranos Céline, mesmo que não se concorde completamente com todas as suas posições políticas, continua mais livre, mais vibrante, mais irreverente do que nunca. E, se passadas décadas, ele ainda continua a assombrar, a chocar, a intimidar, é porque foi sem dúvida o maior dos escritores do século XX.

Gonçalo Ribeiro Telles nasceu em Lisboa a 25 de Maio de 1922. Mais do que o militante, ou melhor dizendo, o resistente monárquico, também o percursor da defesa do ambientalismo, da ecologia e do municipalismo, afinal nada mais do que a interpretação escorreita do organicismo tradicionalista e das teses integralistas influindo na contemporaneidade política.
Lembrando que antes das teses ecologistas gravitarem para a esquerda (e extrema-esquerda) tiveram na sua génese movimentos à "direita", críticos da revolução industrial, desde a militância aristocrática do grupo Young England (e do 'social Toryism'), ao legitimismo francês e aos românticos anti-modernos. Na essência e com as especificidades próprias, os arautos da contra-revolução e do tradicionalismo organicista anti-industrial continham muitos dos elementos que hoje poderiam ser reivindicados por grupos ambientalistas.
Herança também partilhada pelo Integralismo que idealizava essa sociedade assente nos corpos intermédios, na valorização do mundo rural e na defesa das liberdades locais, opondo-se ao individualismo desenraizado e a um progresso desenfreado e contrário às singularidades nacionais. Como nos lembra a máxima do tradicionalismo, "a tradição é um passado que merece ser futuro".
Assim, Ribeiro Telles estabeleceu a ponte entre as gerações integralistas, desafiando os novos ventos e assumindo a postura derradeira em nome da terra portuguesa. Postura de combate, num momento em que a revolução de 1974 radicalizava posições e a possibilidade de restaurar a monarquia parecia cada vez mais longínqua.
Dos monárquicos não alinhados com o Estado Novo formaram-se grupos e organizações que constituíram o PPM (nos antípodas do que hoje se tornou), onde ainda Rolão Preto brandava o seu verbo venturoso, João Camossa o seu idealismo anarco-comunalista, e Barrilaro Ruas o pensamento exacto e articulado. Mas Ribeiro Telles foi muito mais além do que os teóricos e sonhadores e realizou no espaço público o seu pensamento. Hoje faz-nos muita falta. Foram homens de outros tempos, sem dúvida.

A tese de Weber (no seu "A ética protestante e o Espírito do Capitalismo") encontra um campo amplo de adeptos, visando atacar o atraso dos países de cultura católica, em relação ao avanço técnico, político e económico dos países de cultura protestante. Tese não totalmente original, porque já tinha sido antecedida cerca de trinta anos por Antero de Quental, com o sugestivo título de "Causas da decadência dos povos peninsulares" (mas claro, como é português a relevância é menor). Ambas as teses estão viciadas, mas não cabe aqui discutir isso (1).
É interessante como mesmo catedráticos e estudantes quase divinizem uma teoria que várias vezes já foi refutada pela historiografia. Talvez porque a tese de Weber pareça elegante a olhos deslumbrados, principalmente a povos como os de cultura católica que sempre desprezaram a sua identidade para preferir imitar o estrangeiro (i.e., os povos protestantes). E não é de admirar que um professor de direito se sinta tentado a preferir o protestantismo ao catolicismo, o próprio direito português é muitas vezes copiado de países protestantes (a Alemanha principalmente).
O trauma em questão vem a propósito do suposto atraso das nações católicas em relação às nações protestantes, um velho estribilho oitocentista que ganhou raízes profundas nas nossas academias. O argumento é falso e já o demonstrarei. Ofereço a proposta de Hayek que no discurso perante a Academia Sueca citou dois escolásticos ibéricos: Luís de Molina e Juan de Lugo, afirmando que a análise económica austríaca não era uma novidade, já tinha sido formulada nos século XVI e XVII e tinham origem católica e espanhola.
Exactamente, as ideias do capitalismo emergiram da Europa mediterrânica, herdeira da tradição grega, romana e tomista (3), influência muito mais decisiva do que na tradição dos filósofos escoceses do século XVIII (Adam Smith e David Hume). Um mesmo Hayek cita diversas vezes Luís de Molina, um padre jesuíta espanhol, a propósito da ideia do equilíbrio natural do mercado na formação do «preço natural» ou do «preço justo».
Aliás, foram dominicanos e jesuítas, professores de moral e teologia em universidades, como a de Salamanca e a de Coimbra, que constituíram os focos mais importantes do pensamento durante o Século de Ouro espanhol, antecedendo Smith e antecipando em séculos a escola Austríaca. E mesmo as teorias do protestante John Locke sobre o consentimento popular e a superioridade popular no governo já tinham encontrado fundamento num escolástico de Salamanca chamado Juan de Mariana, embora também descritas por Suarez, outro grande teólogo (e o fundador do direito internacional moderno).
Quanto ao capitalismo das nações protestantes, tanto Hugh Trevor Ropper, como Michael Novak (4), tinham já explicado que «a ideia de que o capitalismo industrial de larga escala era ideologicamente impossível antes da Reforma é negada pelo simples facto de que ele já existia.» (ROPPER) Aliás Michael Novak descobre o desenvolvimento do capitalismo em cidades como Antuérpia, Lisboa, Milão, Lucena, refutando assim a tese de Weber da "ética protestante".
E vem acrescentar ainda Henri Pirenne, uma década depois da publicação do livro de Weber (primeiramente citado), baseando-se em documentação anterior à Reforma, de que "os aspectos essenciais do capitalismo - iniciativa individual, avanços no crédito, lucros comerciais, especulação, etc. - podem ser encontrados a partir do século XII nas cidades-república da Itália - Veneza, Génova e Florença".
Como explicar então o declínio Peninsular? Consequência lógica dos ciclos históricos de ascensão e decadência dos impérios. Simplesmente, aproveitando as palavras de Rodney Stark, os países protestantes do Norte ocuparam o lugar outrora "ocupado pelos velhos centros capitalistas do Mediterrâneo". Depois, os países mediterrânicos (Portugal e Espanha), falharam em deduzir o sistema económico para o qual tanto contribuíram e perderam o passo do tempo. Tragicamente, também povos que passaram os últimos duzentos anos a copiar instituições contrárias à sua cultura, o que resultou em guerras e revoluções constantes ao longo dos séculos XIX e XX.
A influência dos pensadores da escolástica de Salamanca teria ainda um novo fôlego com o catalão Jaime Balmes (1810-1848), que além de teólogo foi economista e político católico, o mesmo que elaborou a lei da utilidade marginal vinte e sete anos antes de Carl Menger.
Sim, é verdade que o capitalismo tem origem religiosa, mas não é protestante, mas católica.
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(1) uma desmistificação da tese de Weber: "Max Weber: The Lawyer as Social Thinker" Frank Parkin,Stephen P. Turner,Regis A. Factor (pp.162, 164, 165).
(2) "The Victory of Reason - How Christianity Led to Freedom, Capitalism and Western Success", Rodney Stark (pp.11-12)
(3) "As raízes escolásticas da Escola Austríaca e o problema com Adam Smith", Jesús Huerta de Soto
(4) mais uma desmistificação de Weber: "The Spirit of Democratic Capitalism", Michael Novak (pp.276-277)

A escolha do nome, Leão XIV, assegura a continuidade com outros grandes Papas, começando em Leão I, o Grande, que defendeu Roma dos Bárbaros, e culminando em Leão XIII, o Papa das Encíclicas, cuja Rerum Novarum (1891), sobre a questão dos operários, tanta influência teve no seu tempo e continuou a repercutir-se entre várias gerações.
Ninguém nos media referiu, mas um dos católicos mais influenciados pelos ensinamentos de Leão XIII foi Salazar, educado e formado em pleno despontar teológico na viragem do século. Integrou pois uma geração de activistas católicos que respondiam ao chamamento que entrecruzava as várias crises políticas, assim em França emergiram nomes como Jacques Maritain, ou Étienne Gilson, e em Portugal (entre outros) Abundio da Silva, António Lino Neto, Gonçalves Cerejeira.
Numa era marcada pelo anticlericalismo os ensinamentos do Papa ofereceram uma resposta às ideologias do tempo, fosse o socialismo, fosse o liberalismo capitalista. Neste paradigma, as encíclicas de Leão XIII serão fundamentais na construção do que ficaria conhecido como Democracia Cristã. Logo em 1901, em resposta a este apelo do Santo Padre, para que os católicos participassem na vida política e influenciassem as decisões públicas, nasce em Coimbra o Centro Académico de Democracia Cristã, onde Salazar se formou politicamente e moldou o seu pensamento. Mas também outros militantes católicos aceitaram o chamamento, importante após 1910, com o jacobinismo do partido de Afonso Costa a assumir as formas mais ditatoriais e sinistras, um anticatolicismo que separaria profundamente o povo do regime republicano e contribuiria para a sua queda (entre outros factores de crise interna).
Fosse em França, fosse em Portugal, as relações entre a Igreja de Roma e os regimes republicanos e liberais eram difíceis (mesmo na nossa monarquia dita liberal as relações com a Igreja foram complicadas). Discutivelmente o Santo Padre procurou uma nova abordagem para apaziguar os ânimos com a República Francesa, política que ficaria conhecida como "Ralliement", marcada pelo brinde (conhecido como o "brinde de Algier") do Cardeal Lavigerie, num jantar com a marinha francesa, chamando os católicos a aderir “sem segundas intenções” à República (embora não invocasse directamente o nome).
Decisão papal que já vinha sendo anunciada (ou pelo menos preparada) em três importantes encíclicas, a Diuturnum (1881), a Immortale Dei (1885) e a Libertas (1888), em cada uma delas, o Papa recordou os ensinamentos da Igreja em relação ao espaço público e à liberdade política e humana. Culminando mais tarde, em 1892, na derradeira encíclica Au milieu des sollicitudes, onde pede aos católicos que aceitem a República em França, por razões de ordem prudencial certamente, evitando o divisionismo e a guerra civil entre católicos. Não querendo dizer o Santo Padre que seja a República o melhor regime, mas pretendia impedir que os católicos continuassem a estar divididos por questões políticas. Boas intenções que não lograram vingar como pretendia.
Este modelo teve impacto no movimento monárquico em França e fracturou a militância (não sei até que ponto não terá prejudicado uma restauração em Portugal, pois nos meios católicos colocou de parte a questão do regime, Salazar é disso exemplo).
Mas Leão XIII deixou marcas de grande clarividência de pensamento, assumindo-se também como historiador apaixonado pela Idade Média. O estudo levou-o a reflectir numa "terceira via" entre o liberalismo e o socialismo. Inspiração que encontrou nas antigas corporações medievais. O importante não era a luta de classes, como queria o marxismo, nem a exploração capitalista, mas a harmonia social. O corporativismo não era necessariamente novidade, de Bonald a René de La Tour du Pin já tinha sido pensado. A contra-revolução já propugnara as linhas cimeiras para uma alternativa ao liberalismo, no que Marx ironicamente designará como “socialismo feudal”, caricaturado como “metade eco do passado e metade ameaça do futuro”. Também na viragem para o novo século o corporativismo será retomado por Maurras e pelo Integralismo Lusitano. Mas com o Papa ganha um novo fôlego e terá grande influência no Estado Novo português.
Na Rerum Novarum deixou o entendimento:
"(...)as corporações antigas, que eram para eles uma protecção; os princípios e o sentimento religioso desapareceram das leis e das instituições públicas, e assim, pouco a pouco, os trabalhadores, isolados e sem defesa, têm-se visto, com o decorrer do tempo, entregues à mercê de senhores desumanos e à cobiça duma concorrência desenfreada."
Foi um Papa inovador e reformista. Se as políticas que propôs tiveram bons resultados? Nem sempre. Os laivos "liberais" e de "reconciliação" não foram sempre produtivos. Resposta que o seu sucessor, Pio X, terá depois de resolver. De resto, Leão XIII deixou um legado e um pensamento para a posteridade, devemos muito aos seus ensinamentos.

9 de Maio de 1918, Sidónio toma posse como Presidente da República. Celebrizou um estilo, criou um mito, modernizou a política fechada em torno do eixo partidocrático viciosos, que mesmo na República se arrastava com outros nomes e protagonistas, contudo a mesma "clasa discutidora" (como apoucava Donoso) desde a monarquia dita liberal.
Dizem alguns que antecipou o século XX, ignorando que D. Carlos protagonizara brevemente um mesmo ensejo, a sua "revolução desde cima", também partilhada por João Franco e Oliveira Martins, vai ter em Sidónio um arauto. Dizem que foi "pré-fascista" ou antecipou Mussolini, o que parece exagerado, o modelo bonapartista era já um velho folclore, de Napoleão I a Napoleão III, até mesmo Bismarck. A manipulação do sufrágio universal para plebiscitar o poder, os banhos de multidão para legitimar a autocracia, em tudo o "cesarismo" definia um modelo. Nada de novo existe. 1800 anos antes de Napoleão, Júlio César emprestara o nome que mais tarde Augusto representou na definição de um sistema. A antiguidade clássica ensinou os modernos, como dizia Marx a Revolução Francesa fez-se "em vestes Romanas".
Em Portugal talvez fosse novidade, e nisso Sidónio teve repercussão. Mas reduzir Sidónio ao "ditador" deixa de fora muito da complexidade da sua acção. Afinal o que chamamos "populista" em Sidónio mais não era do que a dinamização democrática que procurava alargar a participação política às bases. Foi republicano convicto, nunca virou a casaca, mesmo quando o intitularam "Presidente-Rei" (epíteto poético sem dúvida que nada deve à sua verve) tal como Napoleão III fora o "Príncipe-Presidente" (fazendo-se depois plebiscitar Imperador).
No sentido castrense prussiano encontrou a pompa e glória. Bem concretizava as palavras de Oliveira Martins "uma ideia contendo um sabre". Ao contrário de Salazar alimentava-se das ovações populares, porquanto o futuro e perpétuo cônsul da República, o Presidente do Conselho, não tivesse ilusões relativamente às massas, pessimista como era em relação à condição humana.
Face ao manancial de referências, muitos ignoraram a influência do modelo político americano em Sidónio. Curioso, para alguém acusado de "germanófilo". O certo é que o executivo presidencialista de Sidónio regia-se já pelo figurino presidencialista dos Estados Unidos (conforme lembrou Armando Malheiro da Silva). Aliás, António Paes, filho de Sidónio, ofereceu a Luís de Freitas Branco o último livro lido pelo Presidente (seu pai) momentos antes de ser assassinado, nada mais do que uma obra sobre o Presidente Wilson. Pequenas notas marginais a um pensamento muito mais complexo e a um estilo político que terá ido beber a várias fontes.
Pena que um ano de presidência não baste para explicar tudo, nem para desenvolver muito, contudo as premissas fundamentais permaneceram: um executivo forte, um modelo carismático, a centralização do poder, o "populismo" como arma de legitimação. Sidónio foi um relâmpago (breve e fugaz) no século XX Português.

No dia 6 de Maio de 1908, D. Manuel II é aclamado Rei de Portugal. Aos 18 anos confronta-se com um país em rebuliço, explosivo nos ódios à coroa e à religião. Um Rei que não estava destinado a sê-lo, um rei inesperado. Ainda no luto da morte do pai e do irmão aceitou o pesado cargo que, desde Afonso Henriques, assegurara a independência e a liberdade da pátria.
Não tinha como recuar. Os desígnios dos povos são sempre misteriosos e a história que encarnam um mistério. Para o povo, o rei vem devolver as esperanças às pátrias sem rumo. Esperançou uma «Monarquia Nova», um regime conciliador, contudo longe ficou do ensejo, as conturbações que desde o Ultimatum de 1890 se arrastavam agora repercutiam-se num grito ameaçador para o trono. O início do século fora já marcado pelo avanço do Partido Republicano e pela violência da rua, no final os elementos da desordem premeditavam o crime: o regicídio. Tais circunstâncias faziam já antever as próximas décadas de crise governativa e assassinatos políticos.
Preso à redoma da decadência do sistema do constitucionalismo liberal D. Manuel estava destinado à tragédia. O jornalista republicano João Chagas escrevia "Vossa majestade chega demasiado novo a um mundo demasiado velho", como articulando todas as desvantagens que sobre o rei caiam.
Idealista, mas incompreendido, o jovem monarca procurou a reconciliação, contudo o ódio crescia; procurou recuperar a confiança na coroa, mas o reinado de D. Carlos acumulara inimizades, mesmo no interior da monarquia. Para contrariar as vicissitudes desenhou uma nova estratégia política. Afastou João Franco (último político verdadeiramente coerente na defesa da monarquia). E, se D. Carlos fora o rei interventivo e energético e a sua ousadia levara-o à morte; D. Manuel procurou o rumo contrário: não intervindo, reinando, mas não governando, ainda que sempre com grande interesse pelos assuntos do Estado, estudando-os a fundo, discutindo-os com os ministros, os velhos e corruptos ministros dos partidos do rotativismo que o traíram, como tinham traído seu pai.
O exílio ajudou-o a descobrir uma vocação mais profunda: o estudo, a escrita, a investigação, ali alcançou o estatuto de um erudito bibliófilo. Um rei que foi igualmente um intelectual, mas também um activista de causas nobres. Na Primeira Guerra Mundial prestou auxílios a Portugal, e (de forma polémica e não totalmente compreendida pelos seguidores) pediu aos monárquicos que não continuassem com as acções revolucionárias contra o Governo (dito da República). Estávamos na época da Monarquia do Norte, das incursões de Paiva Couceiro, quando no poder ocupava o cargo de Presidente o almirante monárquico Canto e Castro, aqui João Chagas encontrava a ironia, indicando que "Portugal é um país de paradoxos: tem um rei republicano no exílio e um presidente monárquico no poder".
Morreu a 2 de Julho de 1932, o corpo voltou à terra que tanto amava, mas creio que a alma nunca de cá saiu, o mar e a terra portuguesa nunca o abandonaram e foi, até à morte (mesmo quando ilegitimamente deposto) rei de Portugal e como rei legítimo veio a enterrar na "Lusitânia antiga liberdade".

Camilo foi muito maior do que o século XIX, não cabem rótulos, nem escolas, ou séquitos, a quem almejou maior liberdade. Sem mestre e sem discípulos foi um colosso das letras: poucos alcançaram tanto de forma tão arrojada e completa. Não entrando em paradoxos, encontramos particularidades com os contemporâneos. Se Eça almejou a corpulência perfeccionista de Flaubert, então Camilo superou a audácia laboriosa de Balzac ou a capacidade inventiva de Dumas. Mas ambos foram muito mais do que este mimetismo: Camilo e Eça dissociam-se e complementam-se ao mesmo tempo. Estilos e temperamentos diferentes, certamente.
Seria pois redutor colocar Eça como o escritor cosmopolita e Camilo como o autor provinciano. Eça o homem moderno e Camilo o homem do "Portugal antigo". Mas sem dúvida que representam sensibilidades e visões diferentes desse mesmo Portugal.
Assim como diferenciado se manteve da ilustre "Geração de 70". Não tão viajado como Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, nos livros encontrou a escapatória para entender a humanidade; nem empedernido foi de ânsias positivista como Oliveira Martins, Antero de Quental, Guerra Junqueiro ou Teófilo Braga. As modas eram para ele retalhos que mereciam ser martelados com a firmeza do verbo.
Ao contrário de Eça, estrangeirado a construir na distância geográfica o reportório literário do naturalismo, snob que almejava a França como ideal cultural, cujas famosas personagens e os conhecidos enredos foram observados muitas vezes telescopicamente (nem sempre mas nas obras cimeiras bem longe de Portugal); ao contrário do seu émulo literário, Camilo conviveu de perto com o povo, partilhando iguais mágoas e dissabores, sentindo a amargura que dilacerava as inteligências. Entre os seus conviveu e saboreou o mesmo aroma que preencheu milhares e milhares de páginas. No conflito existencial não perdeu a ânsia dos filósofos, onde a arte é o reduto para explorar os infernos insondáveis da alma humana.
Ao mesmo tempo romântico e naturalista, homem de aspirações metafísicas e preso à imanência terrena, revolucionário e contra-revolucionário, em todas as metamorfoses da vida encontrou espaço para ampliar a audácia literária. Cada personagem continha um pouco do seu próprio mistério. Narrativas que, não explorando tão cansativamente o mundo e a mente, nem perdendo o arrimo da acção na fórmula galicista de tudo reduzir ao racionalismo , Camilo desejou sobretudo contar uma boa história, mas elevada pela erudição e grande conhecimento da língua. Escrevia de rajada, pouco corrigindo, mas domando a letra com habilidade.
No final, Camilo terá sido muito mais completo, muito mais argucioso, muito mais profundo. Em todas as latitudes da arte conduziu o seu desaforo e desatino, a sua violência e candura, uma mesma força demolidora capaz de arrasar com os mais cândidos e tíbios vates que pululam nas Academias e nos salões. Literatos e lentes arrasou Camilo com audácia. A pena afiada perpassou os variados géneros literários, romance, conto, novela, poesia, teatro, crónica, crítica literária. Uma verdadeira galáxia literária, queixando-se o mesmo de ser um prisioneiro do trabalho. Martírio dos homens abençoados pelas musas.
Também bibliófilo, referia-se em carta ao amigo, o poeta Feliciano Castilho, aos seus "mil volumes sofríveis". Não fossem as dificuldades financeiras, as errâncias de um espírito indomável, e quem sabe que invejável biblioteca legaria. Alguns volumes foram ainda recuperados, cada página recheada de notas marginais onde não perde o lado mais cáustico.
Na biografia foi a conjugação do poeta e do aventureiro, com vicissitudes que igualavam os dramas que soube elaborar. Vida que chocou e invejou os contemporâneos. E no final de tudo, conduzido por essa mesma força robusta, decidiu o próprio fim. Camilo foi pois a força indomável das letras portuguesas.

Rolão Preto viveu perigosamente o século XX. Foi homem de paradoxos: nos ficheiros da PIDE chamavam-no o "comunista branco" e o mesmo falava em fazer uma monarquia do "rei com os sovietes". Não há qualquer contradição no pensamento de Rolão Preto, porquanto dentro das possíveis antinomias existe congruência. A revolução era o mecanismo necessário para voltar à tradição, fazendo justiça à etimologia deturpada, afinal "revolutio" significa voltar ao ponto de partida: a monarquia. Discípulo de Sorel e do nacional-sindicalismo, da Politique d'Abord de Maurras, soube inovar dentro dos movimentos clássicos da contra-revolução.
Na biografia ficaram as andanças pelo Integralismo e pela Monarquia do Norte, perseguido na Primeira e na Segunda República (condecorado na Terceira); improvisando uns gestos fascistas com os Camisas Azuis e o nacional-sindicalismo nos anos 30 e, nos anos 50, ainda apoia o desventuroso Delgado (mais por estratégia oposicionista do que convicção, acredito). Foi quase um Dom Quixote rumando contra os moinhos de vento da História; homem de altos ideais e convicções, ainda que nem sempre perceptíveis, mas sempre combativo e procurando a originalidade.
Foi talvez o produto de um tempo de revolução que quis "viver perigosamente" e radicalmente, como denotam as palavras ao encerrar uma entrevista dada depois da revolução de 1974. Poucos hoje já seriam capazes de assumir com tanta frontalidade as ideias, de forma tão ousada e tão radical, era outro tempo certamente:
"Nós fomos os mais revoltados possíveis no nosso tempo. E todavia quando foi preciso contribuímos com o nosso esforço, sofremos, fomos para a cadeia. É preciso que os novos estejam dispostos a ir para a cadeia. É preciso que sofram e saibam sofrer, como as outras gerações sofreram."
Conclui:
"Em nome de uma coisa, chamada a comunidade portuguesa."

"Nunca choraremos bastante nem com pranto
Assaz amargo e forte
Aquele que fundou glória e grandeza
E recebeu em paga insulto e morte."
(Sophia de Mello Breyner Andresen)
Não sendo este um poema directamente ligado ao regicídio (aliás dedicado ao Infante D. Pedro, o das Sete Partidas, da Casa de Avis), não deixa de se coadunar com a memória histórica assinalada a cada dia 1 de Fevereiro. Aqui, o sujeito poético seria o Infante D. Pedro, como poderia ser o rei D. Carlos. Seria a morte vil e a difamação do Infante das Sete Partidas, como se perpetuaria na morte e difamação do rei D. Carlos.
As guerras civis nem sempre são visíveis, quando os inimigos se escondem na penumbra; e nem sempre são exércitos que se defrontam, mas ideias que se deslocam à velocidade de balas e, depois, se materializam sim no homicídio subsequente. Um poema que bem sintetiza o martírio de um monarca, a morte de um dos reis mais bem preparados da Europa, que recebeu pela sua ousadia e coragem "insulto e morte".
Pagámos caro os erros históricos num século XX inclemente. Como alguém dizia, podem matar o rei, mas não sabemos o que morre com ele.
Mas outro paradoxo fica presente. De acordo com a nota da autora o poema foi escrito na noite de 17-12-1961, "interrompido pela notícia da entrada dos soldados indianos em Goa". Assim se entrelaçam as desgraças e mistérios da história nas linhas breves da poesia. O fim do Portugal histórico que se assinalava. Como outro poeta diria "malhas que o Império tece".

Cego, completamente inapto para qualquer cargo governativo, coube a este homem, Teixeira de Sousa, salvaguardar o regime e defender a dinastia de Bragança, no dia 5 de Outubro de 1910. Misto de cacique de província e burguês obtuso, grosseiramente liberal e alheado de qualquer princípio, de carácter bovino e pedante, pode perfeitamente representar o que de pior produziu aquele liberalismo. O jornalista Joaquim Leitão escreveu a propósito: "Quem uma vez passou em Trás-os-Montes traz os ouvidos cheios destes dois nomes: filoxera e o sr. Teixeira de Sousa". A ascensão de um enviesado apenas pode ser explicada pela rápida liquidação dos principais líderes políticos (Hintze Ribeiro, Vilhena, Campos Henriques e Wenceslau de Lima) e pela profunda crise que se abateu entre os partidos do regime.
De forma insólita, Teixeira de Sousa pactuou com a desordem. Não terá sido um traidor, como lembrou um antigo colaborador do seu governo, mas apenas "burro". Ajuizando à distância das emoções, não podemos acusá-lo inteiramente, nem lançar culpas ciclópicas aos ombros de um pigmeu. Não foi o único responsável, certamente, nem isenta outras forças que deviam ter defendido o rei. Porém, coube-lhe a maior responsabilidade - o que impede qualquer comoção face à alarvidade do homem. Na sua lógica, para “desarmar a revolução”, era preciso “realizá-la” (a perfeita contradição na mais bárbara das formulações).
A data que todos os anos o regime republicano celebra, não podia ter sido mais insólita, mais bizarra, recheada de contradições, traições e cobardias - de tudo aconteceu. Longe do heroísmo, foi uma fatalidade, uma comédia trágica que exilou uma dinastia secular. Apesar de todas as críticas que possamos fazer, Teixeira de Sousa foi, ao mesmo tempo, produto de um sistema, a perfeita consequência da revolução liberal, a realização de uma ideologia que originou os seus próprios inimigos.

Uma interessante análise de Eça de Queiroz sobre o pensamento político do seu amigo Ramalho Ortigão. Intelectual céptico e crítico, Ramalho jamais aderiu ao republicanismo, aliás, um sentido convergente ao pensamento de Oliveira Martins e de Antero de Quental. Mesmo Eça, cuja apologia do positivismo dominou nas primeiras obras, evoluiria para uma igual descerença nas revoluções. Nestas linhas, o autor ainda está longe de conhecer a evolução política no século XX, pois que seria importante acrescer o amadurecimento intelectual de Ramalho que testemunha a crise da Primeira República e o nascimento do Integralismo Lusitano que subscreve em "Carta de um Velho a um Novo", em resposta ao jovem amigo João do Amaral, então convertido à monarquia. Igualmente monárquica despontará a geração desencantada com a república como António Sardinha, Homem Cristo Filho e Alfredo Pimenta.
"Em Política, tem-se dito que Ramalho Ortigão é republicano. Nada menos exacto. Ramalho, creio, teme a república, tal qual é tramada nos Clubes amadores de Lisboa e Porto. A república, em verdade, feita primeiro pelos partidos constitucionais dissidentes, e refeita depois pelos partidos jacobinos, que tendo vivido fora do poder e do seu maquinismo, a tomam como carreira, seria em Portugal uma balbúrdia sanguinolenta. (...) O que Ramalho mais tem odiado e invectivado na política é a retórica: é o que o exaspera no Constitucionalismo: e a prodigiosa caricatura que tem feito da retórica parlamentar, da retórica ministerial, da retórica régia, da retórica burocrática, é que lhe tem dado a fama republicana. Não penso porém que ele fosse hostil ao sistema, se o sistema não tivesse um tão desordenado fluxo labial. Se o sistema trabalhasse praticamente, em lugar de perorar com furor, estou convencido que Ramalho não o importunaria (...). Se Ramalho tem guerreado a retórica conservadora, não tem poupado a retórica democrática, que não é em Portugal menos nociva: é a sua vaga fraseológica idealista, que mantém tanto moço estimável num humanitarismo enevoado e sentimental, em que aspiram a ver toda a Europa livre, sem pauperismo, sem guerra e sem prostituição, sentando-se em banquetes fraternais, presidido pelos génios (...) É ainda a remota influência deste lirismo democrático que faz dizer aos conservadores de cinquenta anos, com o sorriso melancólico de quem fala em amores defuntos: - Ah a República é uma bem formosa quimera!"
(in, Eça de Queiroz, "Notas Contemporâneas" , 'Ramalho Ortigão (Carta a Joaquim de Araújo)', 3º Edição, 1920, Porto, Livraria Chardron de Lelo e Irmão, Lda.)

A 11 de Setembro de 1891 Antero de Quental suicidou-se em Ponta Delgada. Poeta-filósofo, evoluiu a partir do socialismo de Proudhon, para uma visão mais profunda da identidade portuguesa; de crítico das causas da decadência, para um patriotismo cívico; e, de ateu que gritava numa noite de trovoada em Coimbra para ser fulminado por um raio caso Deus existisse, para um crente que jamais abandonou a dúvida metafísica. Foi o pessimista e o idealista em uníssono. Tal como Proudhon, não poupou críticas à democracia burguesa, rejeitando aquele modelo de constitucionalismo liberal. Escreveu com razão António Sardinha: "Camões na Renascença, o Padre António Vieira em Seiscentos, José Agostinho de Macedo na agonia da sociedade antiga, são a representação universal do nosso génio na Epopeia, na Política e no Panfleto. Juntemos-lhe agora Antero na Filosofia." Assim, pôde também pacificamente Luís de Almeida Braga chamar a Antero de "mestre da contrarrevolução".
O sentimento de decadência nacional parecia inflamar as inteligências, socorrendo-se da morte voluntária como revolta do instinto contra as circunstâncias. Antero, Soares dos Reis, Camilo Castelo Branco, Manuel Laranjeira, mais tarde Trindade Coelho, anunciavam um astro nefasto que parecia engolir a própria terra portuguesa. Unamuno não foi indiferente, rotulando Portugal como “terra de suicidas”. Ainda que os motivos nem sempre coincidissem com um patriotismo aniquilado, como aconteceu com Camilo, cuja cegueira contribuiu para a sina trágica.
Pessimismo nacional, glosado pelas penas verbosas da Geração de 70, ao ponto de se tornar um cliché de intelectuais ansiosos por encontrar alternativas fortes ao modelo constitucional: fosse o republicanismo ou o cesarismo. Da poesia ao romance as páginas cobriram-se de visões obscuras de uma morte anunciada. A primeira geração romântica não tinha deixado despercebido este desencanto, quando Herculano se autoexila, deixando o eco do seu desalento: "Isto dá vontade de morrer."
O fim de século apenas consubstanciou o sentimento arrastado ao longo de décadas. Antero não deixou de reunir no seu verbo a própria síntese do pessimismo, ao mesmo tempo que alimentava o desejo de redenção. O poeta desdobrou a sua poesia nas dimensões profundas do ideal. Na identidade ontológica fica a dúvida do Ser e na preocupação metafísica a consequência da alma que busca a divindade perdida. É o convertido que não encontra Deus: “Amortalhei na Fé o pensamento/ E achei a paz na inércia do esquecimento…/ Só me falta saber se Deus existe!” O atormentado, absorvido com a morte: “O que diz a morte”, “Elogio da Morte” e os sonetos finais reclinados para o pessimismo de uma vida resoluta, é o sentido trágico do combate. Assim podia concluir: “Porém o coração, feito valente/ Na escola da tortura repetida,/ E no uso de penar tornado crente,/ Respondeu: desta altura vejo o Amor!/ Viver não foi em vão, se é isto a vida,/ Nem foi de mais o desengano e a dor.”

António Maria de Sousa Sardinha nasceu em Monforte a 9 de Setembro de 1887. Desaparecido precocemente, deixou um legado insuperável. As palavras do mestre do Integralismo Lusitano constituíram a verdadeira riqueza do pensamento político português. Afinal, um pensador forjado pelas circunstâncias, integrando a geração que desponta politicamente entre o Ultimatum inglês e a proclamação da República. Como em Maurras, a estética precedeu a política, reconhecendo o carácter combativo da poesia, afinal "la plus haute expression du politique". A eloquência elegante e o cuidado na palavra são características comuns, em Maurras e Sardinha, assim como o gosto pelos aforismos, traduzindo o pensamento em ideias breves e objectivas. Monárquico, porque patriota, e nacionalista por princípio e monárquico por conclusão, são identificações que jamais esgotaram o significado.
Educado nos "imortais princípios" sob a égide da revolução galicista, Sardinha soube romper com um percurso sinuoso para novamente abraçar a tradição. Mas não era apenas admirado entre fronteiras. Em Espanha e mesmo no Brasil era lido, estudado e citado. O pensamento de Sardinha entrecruza a crise do século. Assim, evoluiu do positivismo, para o tradicionalismo, do republicanismo, para a monarquia e do agnosticismo para a religião Católica. Não esteve solitário, lembrando outros dois monóculos argutos que colocaram o verbo ao serviço do combate político, como Alfredo Pimenta e João do Amaral. Esta foi uma geração que, num século de vanguardas, preferiu recolher-se aos ensinamentos antigos e encontrou uma nova voz na antiga literatura miguelista e nos autores da contra-revolução. Como Maurras deduziu o sistema político, também Sardinha soube deduzir as premissas. Poucos autores alcançaram tanta clarividência. E poucos atingiram um grau tão alto de conhecimentos, na sinceridade das ideias e na pureza da língua. Sardinha foi o monóculo afiado da nossa direita, um pensamento arrojado que hoje tanta falta faz.
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