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Novela 1 - Lula

Os portugueses estão a viver intensamente a evolução do processo judicial do Lula da Silva. Os telejornais acompanham ao minuto, choram com os apoiantes do Partido Trabalhista (de esquerda, claro). Os comentadores nem tentam disfarçar que são independentes na análise. São verdadeiros activistas contra os tribunais e a favor da libertação de Lula. A maioria da esquerda (UGT até fez um comunicado) portuguesa sofre genuinamente com a condenação do ex-presidente do Brasil, membro do partido trabalhista (de esquerda, claro). Pedem que a lei não seja cumprida. Isto é, que Lula da Silva não seja preso após o julgamento de todos os recursos na segunda instância. Estão revoltados contra a decisão do juiz federal Sérgio Moro que deu um prazo até as 17 horas desta sexta-feira, dia 6, ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para se apresentar "voluntariamente" à Polícia Federal em Curitiba, que é a polícia encarregue da investigação da Operação Lava Jato.

Tudo porque o Luiz Inácio Lula da Silva alegadamente "tirou milhões de pessoas da pobreza durante seus dois mandatos como presidente do Brasil" (esquecem-se de dizer que foi tudo a crédito bancário). Mas Lula é o herói dos trabalhadores. No entanto também comandou um dos governos mais corruptos na história do país. Mas isso a esquerda prefere não acreditar.

Lula foi condenado (e bem) a 12 anos e um mês de prisão no processo do caso triplex do Guarujá. Ou seja, a justiça provou que Lula recebeu cerca de 3,7 milhões de reais em subornos da construtora OAS, num triplex do Guarujá, num esquema relacionado com a empresa brasileira Petrobrás, sendo a primeira condenação do ex-presidente no processo Lava Jato.

Os portugueses gostam muito de sofrer com os heróis dos descamisados, mesmo que sejam bandidos. Roubar aos ricos, nem lhes parece mal.

 

Novela 2 - Letizia

A outra novela que move os portugueses é o vídeo de Espanha em que se vê a Rainha Letizia a impedir (de forma irritante) que as suas filhas tirem uma fotografia com a avó, a Rainha emérita Dona Sofia. Os espanhóis não gostaram da forma como a Rainha de Espanha tratou Dona Sofia, a monarca emérita, à saída da Missa de Páscoa, em Palma de Maiorca. Mas não são só os espanhóis, não há português que não esteja irritado com a Rainha de Espanha por causa da sua pouca educada atitude para com uma Senhora mais velha.

Aquilo pareceu-em uma ciumeira da Rainha Letizia face à sogra. Claro que se os espanhóis dizem mata, os portugueses dizem esfola. Vivem a novela como se Letizia fosse Rainha também de Portugal (os portugueses não ligam nenhuma à família real portuguesa, mas vibram com a espanhola). Claro que sendo a Letizia plebeia e tendo vindo de uma família mais pobre, o seu gesto é aproveitado para a menorizar.

É para mim mais do que óbvio que aquela cena de Letizia a pôr-se à frente das filhas para não deixar a avó tirar uma fotografia com as netas, não tem nada a ver com o seu background social. Já vi cenas de igual nível em pessoas de todos os meios. Mas claro as pessoas  aproveitam as suas circunstâncias para a menorizar. Foi malcriada? Foi. Mas quem diz que se tivesse nascido condessa, não podia perfeitamente, em situação de irritação, fazer o mesmo? O que não falta para aí são pessoas a perder as estribeiras e a ter atitudes grotescas com outras que não gostam, não querem gostar ou deixaram de gostar. Nem tudo é determinado pelo meio social.

Ironia: os portugueses adoram o filho do povo Lula, mas odeiam a filha do povo Letizia. Conclusão. Uma mulher que ascende socialmente é imperdoável. Um homem que ascende socialmente é um herói. Pode até dar-se ao luxo de ser corrupto. "Rouba mas faz", diz a voz popular.

E ainda vêm com igualdade de género e outras ideias feministas. Poupem-me.

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As reformas da esquerda

por Maria Teixeira Alves, em 30.03.18

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 O Governo desta geringonça de esquerda não é tido como muito reformista. Os governos reformistas foram, quase sempre, de direita e foi durante os governos de direita que se fizeram a maior partes das grandes reformas (como por exemplo a reforma fiscal de Cadilhe com a criação do IRC e IRS). 

Mas ao atual Governo não faltam as chamadas reformas "gauche", como este disparate, que faz capa do Expresso desta semana.

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Ainda me lembro do que os partidos de esquerda disseram quando as entidades estatísticas competentes vieram dizer que o défice das administrações públicas em 2015 foi de 4,4% (7.893 milhões de euros), por causa da operação de resolução do Banif que provocou um agravamento do défice de 1,4% do PIB em 2015, mais do que o inicialmente estimado que apontava para 1,2% a 1,25% do Produto Interno Bruto (PIB). E que por isso nesse ano Portugal terá fechado o ano nos 4,4%, um número pior do que inicialmente esperado. Isto com a resolução do Banif a contribuir para este desfecho.

"O anterior governo PSD/CDS “mais uma vez não cumpriu os objectivos do défice que se propunha atingir, apesar de todos os sacrifícios impostos aos portugueses”, algo que aconteceu “sem surpresa”, apregoaram.

Agora a recapitalização da CGD eleva défice de 2017 para 3% e a esquerda vira-se (e o Ministro das Finanças que é Presidente do Eurogrupo, pasme-se, veio dizer que o Eurostat estava errado) contra o gabinete de estatística. 

Os 3.944 milhões de euros que foram injectados no banco público serão totalmente reflectidos no défice do ano passado, elevando-o para 3% do PIB. É um erro, diz a esquerda.

A esquerda o que diz? Diz que se excluirmos esse efeito o défice foi de 0,9%, abaixo da meta do Governo revista em Outubro que apontava para 1,4% de défice. Agora já conta o argumento que antes não contava para o Governo de Pedro Passos Coelho. Os contributos one-off já não são importantes.

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"Esta é uma bancada de oposição"

por Maria Teixeira Alves, em 01.03.18

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Estive hoje a ouvir o debate quinzenal no Parlamento, foi o primeiro debate quinzenal de Costa com o novo líder da bancada do PS, Fernando Negrão, fiquei desconcertada com os elogios rasgados de António Costa a Fernando Negrão e vice-versa. A partir daí tudo me pareceu encenação.

"Queria começar por agradecer as palavras que dirigiu à nova banca do PSD na semana passada" apresentou-se assim Fernando Negrão.

António Costa, que fez os agradecimentos da praxe a Pedro Passos Coelho e a Hugo Soares, dirigiu-se então a Negrão: "Os últimos são os primeiros (...) queria saudar a forma como vê este debate, não como um duelo quinzenal, mas como fazendo parte do exercício democrático (...) e é com gosto que vejo estes debates retomarem a normalidade". Retomarem a normalidade?! Isso significa que se tinha perdido a normalidade? Quando?

Fernando Negrão teve depois um momento muitíssimo nobre quando deu um cumprimento especial a Pedro Passos Coelho e dizer-lhe que "a História saberá fazer-lhe justiça". Aplaudido pelos centristas e pelos social-democratas. 

Depois começou a sua intervenção a dizer "Senhor primeiro-ministro será possível nas grandes questões de interesse nacional nós dialogarmos e chegarmos a acordo" e mostrou a "disponibilidade da banca", o que é uma introdução, que diga-se de passagem, na augura grande oposição no debate, mesmo que depois tenha dito entre elogios ao primeiro-ministro socialista que ia "fazer oposição firme". Veja-se o que disse Fernando Negrão: "Senhor primeiro-ministro obviamente também quero cumprimentar todo o Governo, mas queria dizer-lhe que esta é uma bancada da oposição e sendo uma bancada de oposição irá exercer essa oposição com firmeza", soou a desculpe caro amigo, mas vou ter de o confrontar aqui em público.

As perguntas que o novo líder da bancada do PSD escolheu para se estrear no debate foram sobre a entrada da Santa Casa no capital do Montepio. O tema não é mau, mas as perguntas foram bastante fracas e facilmente rebatidas e de forma inteligente pelo "adversário político" formal, António Costa (mas que pelos elogios à entrada na prática mais parecia mais um aliado).  

"Contamos com um maior contributo do PSD para uma cultura democrática, que demonstre que a condição de se ser adversário em política não é idêntica à condição de se ser inimigo", disse também Carlos César.

Entre tanta troca de galhardetes faço minhas as palavras de Sebastião R. Bugalho no Twitter: @reis_bugalho

É bom que o PSD (ou este novo PSD) entenda que todos estes elogios do PS e do Governo têm visado uma coisa: diminuir quem estava antes.

 

P.S.Fernando Negrão disse a certa altura que "Espanta-me um governo de esquerda tomar esta decisão de entrada da Santa Casa no Montepio)". Eu, correndo o risco de estar posição divergente com a direita, digo que a mim espanta-me que a direita se oponha tanto a este negócio de compra de uma participação no Montepio. Pois se tiver racionais económicos porque não? Não vejo uma grande diferença moral entre ficar acionista da Caixa Económica Montepio Geral e ser monopolista nos jogos de sorte e azar, sinceramente. Nesse aspeto dou razão a António Costa.

A mim o que mais me preocupa na entrada da Santa Casa no banco Montepio é se os propósitos são políticos e se a estratégia está a ser desenhada num compadrio de "amiguismo" em vez dos racionais económicos. Se o negócio é combinado e se as avaliações servem apenas para justificar a operação desenhada nos corredores da política e da cumplicidade destes com alguns gestores. Isso já acho mais preocupante. Agora que a Caixa Económica precisa de acionistas que ponham dinheiro no banco em futuros reforços de capital lá isso precisa. 

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Um Albergue Espanhol

por Maria Teixeira Alves, em 26.02.18

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A melhor definição do que se passa no PSD veio da mais insuspeita voz: Luís Marques Mendes referiu-se, na SIC, ao PSD de Rui Rio como um Albergue Espanhol. 

Isso acontece normalmente aos sucessores de líderes fortes, que, querendo marcar a diferença face ao antecessor entram numa ruptura desenfreada com o passado provocando cisões irreparáveis. O PSD está desnorteado.

Antevejo que depois de Pedro Passos Coelho o PSD faça uma grande travessia do deserto.

António Costa está para durar, o PS no Governo está para durar, e, lembrem-se, do que ao contrário do que acontece com as autarquias, não há limite de mandatos para primeiro-ministro.

Está tudo muito indignado com  o fim do limite de dois mandatos para a liderança da China porque vai alargar a abrangência e horizonte do atual Presidente chinês, Xi Jinping.

“Xi Jinpin conseguiu finalmente atingir o seu maior objetivo desde que chegou à política chinesa, que é ser o Mao Tsé-Tung do século XXI”, comentou o analista político Willy Lam, da Universidade Chinesa de Hong Kong, referindo-se ao fundador da China comunista.

Ora com a atual situação do PSD, com a direita à deriva, e com António Costa a bailar entre agradar à esquerda e a Bruxelas, corremos o risco de ter o nosso Mao Tsé-Tung.

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Costumo dizer, em conversas de café, que o pior que aconteceu a Portugal foi o PREC - Período Revolucionário em Curso. Porque as nacionalizações selvagens delapidaram o capital acumulado ao longo de gerações, e isso explica que no pós-25 de Abril, o regresso dos capitalistas tenha sido feito com recurso a dívida bancária (o que explica em grande parte o desfecho do Grupo Espírito Santo). Um país que tem séculos de história e não tem capital acumulado é um país condenado à dependência externa, sempre à mercê das conjunturas económicas envolventes (sobretudo porque em alternativa Portugal não tem commodities, como petróleo ou gás).  

Mas, não se pense que o período do Estado Novo foi um paraíso saudoso. Pelo contrário. A par com a pujança económica e com a ode à vida em família (que trazia felicidade), o Estado Novo era um lugar de segregação social terrível, e isso gerou dentro de si a semente do PREC. Foi ao perpetuar as clivagens de classe que se criou a revolta que culminou com as ocupações selvagens. Era absolutamente tirana a estratificação social. Não porque não houvesse em termos económicos uma espécie de classe média, essa podia haver, até porque havia as colónias e enriquecia-se nas colónias, mas porque havia uma imobilidade social. A estratificação social era tão rígida e estava tão enraizada nas mentalidades, que dura até hoje. Portugal, nesse aspecto, é, ainda hoje, um dos países com pior qualidade de vida social. Os preconceitos sociais perduraram para lá de outros que facilmente são derrubados perante a influência externa,  de um certo conceito de "modernidade". Portugal é moderninho, mas continua provinciano até hoje. 

A prova que vivemos durante os anos 80, 90, 2000 agarrado a esses conceitos snobs da realidade, foi o sucesso que fez o "Independente" de Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas, onde o mais apreciado eram as críticas sociais a Cavaco Silva (ao bolo de rei, à meia branca e aos chinelos na praia). O Independente afirma-se pelas críticas sociais e trouxe ao de cima a realidade: em Portugal gozar com o outros era um certificado (bacoco) de superioridade. Eu estava lá (fui jornalista do Independente, mas de Economia) quando a capa era uma fotografia aos pés da família de Cavaco Silva a ir para a praia de chinelos. Aquilo que para mim era infame para a redacção do Independente era um regozijo. Mas era o retrato do país.

Tudo isto se pode ler hoje num artigo do Henrique Raposo.

Portanto serve isto de introdução para elogiar o óptimo artigo de hoje da Revista do Expresso de Henrique Raposo sobre Vasco Pulido Valente, e que sobretudo é um retrato dessa época de atraso social, mais social do que material. 

 

O calendário cronológico marcava Novembro de 1941, mas o calendário moral e social de Portugal ainda estava em Oitocentos. Portugal era uma máquina do tempo, uma ficção reaccionária conhecida por “salazarismo”. Era este oitocentismo que dava a Portugal aquele ambiente exótico que impressionava os visitantes anglo-saxónicos. E repare-se que o exotismo do atraso era mais moral do que material. Na Lisboa de 1954, aquilo que mais impressionou a escritora Mary McCarthy não foi a pobreza material, os pés descalços e o rosto tisnado do marçano, mas sim as relações sociais marcadas por um snobismo que parecia de facto congelado no século XIX e imune à americanização e à democratização das sociedades europeiasO que espantava americanos, ingleses e até espanhóis era a brutal distância entre os senhores doutores e o povo. Era como se os senhores portugueses não fossem de facto portugueses, mas estrangeiros destacados para esta terra estranha e bárbara e com a incumbência de colonizar e educar estes pobres indígenas conhecidos por “portugueses”.

Havia uma separação moral e emocional entre a elite e o tal indigenato que se desbarretava à passagem dos senhores doutores. Vasco Correia Guedes, futuro Vasco Pulido Valente, era um filho desta elite. Do lado paterno, os Correia Guedes eram uma família conotada com as direitas e até com o regime. Do lado materno, os Pulido Valente eram a realeza do reviralho republicano. Criado nesta gaiola dourada, Vasco nunca se demarcaria da patine snobe e cínica em relação a Portugal. Não era por acaso que “os indígenas” era a sua expressão de eleição para descrever os portugueses. Não era por acaso que desprezava esta finisterra com frases que copiavam a boutade de Byron, “lusian slave, the lowest of the low”.

(...)

O nacionalismo bacoco e abstracto do salazarismo (do Minho a Timor) escondia a ausência de capital social, isto é, a ausência de comunhão entre as diferentes classes. Numa palavra, não havia patriotismo. Os diferentes grupos sociais acabam por olhar uns para os outros, não como diferentes classes de um corpo comum, mas sim como espécies diferentes sem qualquer chão comum. Esta era uma sociedade radicalmente desigual, radicalmente snobe. No Alentejo, as famílias terratenentes diziam que “os feitores sabem como lhes hão de falar [aos trabalhadores], nós não”. De esquerda ou de direita, os filhos da elite não se davam com os filhos do povo. A distância era total, quase palpável; os garotos nem sabiam falar uns com os outros. Se por acaso conversassem ou brincassem, essa interacção também era regida pela frieza: o filho do caseiro tinha de tratar o filho do patrão não por “João” mas por “menino João”. Era por isso que o “menino João” podia abusar da criada no quarto dos fundos: esse abuso era como se não existisse, pois era cometido fora do perímetro da classe.

(...)

Em 2018, vivemos tempos de absoluta dispersão pós-moderna, há literalmente centenas de narrativas no ar com aparente igualdade moral e epistemológica; em 1967 ou 1977, respirava-se em Portugal um clima de absoluta concentração da validade moral e epistemológica numa única narrativa, o comunismo, o marxismo, a vulgata. Se hoje em dia é preciso coragem para defender uma crença clássica (ex.: catolicismo) no meio da dispersão e do ‘engraçadismo’ pós-moderno que coloca a sofisticação intelectual apenas e só no cesto da descrença e do cinismo, naquela época era preciso coragem para atacar a crença hegemónica — o marxismo. Nos anos 60, 70 e mesmo 80, recusar a vulgata marxista implicava ser ostracizado nas aulas, nos cafés, na carreira intelectual.

(...)

V.P.V. foi o pioneiro da rebeldia contra esta prisão mental. O seu lugar na história na geração que fez a transição do Estado Novo para a democracia deve-se a esta coragem precoce.

(...)

V.P.V. lutou contra o neorrealismo em defesa de um módico de honestidade intelectual: a filiação partidária e ideológica do escritor não deve entrar na análise que fazemos ao seu trabalho. Contudo, a luta contra o neorrealismo também lhe deixou um vício intelectual que está ligado ao meio social daquela Lisboa minúscula e oitocentista: o snobismo. Neste sentido, há que olhar com redobrada atenção para uma experiência fundamental da juventude de V.P.V., uma experiência ainda mais antiga do que “O Tempo e o Modo” — a revista “Almanaque” (1959-1961).

A “Almanaque” era dirigida por Cardoso Pires e contava com a colaboração de Sebastião Rodrigues, Abel Manta, Luís de Sttau Monteiro, Augusto Abelaira, José Cutileiro, Alexandre O’Neill e Vasco Pulido Valente. A revista tinha uma atitude relaxada de bon vivant que chocava de frente com a fria austeridade dos neorrealistas. O neorrealismo defendia que um livro ou autor só poderia ser considerado sério ou sofisticado se estivesse comprometido com a consciencialização social e revolucionária. Contra esta obtusidade comunista, a “Almanaque” assumia-se como um roteiro de curiosidades da vida urbana, uma espécie de “Time Out”. Apostava na fruição da vida, não na austeridade comunista; abordava temas como roupa, comida, carros e até automobilismo. Se Cardoso Pires foi aqui a referência estilística de Vasco, Sttau Monteiro foi a referência para o desenvolvimento da pose do intelectual aristocrático que não se deixava dominar pela estética da alfaia agrícola.

(...)

Ao recusar os excessos do neorrealista, V.P.V. entrou no extremo oposto, o extremo da petulância snobe que recusa colocar os pés no pó da vulgaridade.

(...) 

 

A elite e os indígenas

Lido à distância, o boçal snobismo do “Independente” é ainda mais estranho: como é que a velha soberba snobe, com aquele traço de lorde oitocentista, ainda foi a tempo de ser a base do (alegado) renascimento da direita portuguesa dos anos 80 e 90? Como é que os (alegados) renovadores da direita portuguesa se limitaram a dar uma roupagem pop e pós-moderna aos velhos tiques snobes? E o que assusta é que este orgulhoso snobismo do “Independente” teve um sucesso estrondoso, revelando como as elites dos anos 80 e 90 não tinham mudado muito em relação às elites de 1950. Há um ponto de ligação entre o “Almanaque” dos anos 50/60 e de esquerda e o “Independente” dos anos 80/90 e de direita. Na verdade, como tem dito António de Araújo, a grande clivagem da sociedade portuguesa não é ideológica ou religiosa, é social ou socialite; a clivagem não é entre direita e esquerda, crentes e não crentes, é entre as pessoas que alegadamente têm pedigree e as pessoas que alegadamente não têm esse pedigree. Elites versus “indígenas”.

 Felizmente, o Miguel Esteves Cardoso da velhice e das entrevistas (que me parece mais interessante do que o Esteve Cardoso da meninice e das crónicas) já fez um espantoso mea culpa: “Fomos muito pirosos nisso (ataque a Cavaco e a cavaquistas). Ao princípio, achávamos graça à meia branca, era uma espécie de bullying armado em snobe, de que me arrependo. É muito foleiro, mas éramos novos. Era desagradável o que fazíamos (...) Hoje arrependo-me imenso. E gozar com a condição social da pessoa, com o gosto da pessoa, não é nada conservador (...) Cavaco nunca pôs um processo, nunca chateou, nunca mandou uma carta, mesmo quando foi muito maltratado, foi impecável (...) Essas pessoas com que gozávamos, como o Macário Correia, acabavam sempre por ganhar, porque eram superiores.”

(...)

Se quiser ser digna de respeito, se quiser ser lida e ouvida, a direita deve reconstruir as suas bases a partir desta autocrítica. Ser conservador não é o mesmo que ser snobe. Será que a direita em 2018 está disponível para seguir o Miguel Esteves Cardoso da velhice?

(...)

Numa das entrevistas da velhice [Vasco Pulido Valente], até teve a candura ou coragem para reconhecer que gostava da pequenez da capital dos anos 50 e 60. A elite lisboeta, segundo Vasco, era um mundo “familiar, quase doméstico” em que toda a gente se conhecia pelo nome.

 

 Jornal Expresso, 10 de Fevereiro de 2018

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Depois de ouvir os comentários na televisão de jornalistas a pôr em causa a legitimidade da Procuradoria Geral da República para fazer buscas ao Ministério das Finanças e que "ainda por cima é presidente do Eurogrupo" - disseram (a sério que é isso que defendem?!), argumentando que não pode haver relação entre a ida de Centeno, a convite do clube, ao jogo do Benfica e a isenção de IMI a uma empresa imobiliária dos filhos do presidente do Benfica, senti-me obrigada a defender precisamente o oposto. A Procuradoria tem mais é de investigar. Ou por acaso o Ministro das Finanças passou a ter alguma imunidade por liderar o Eurogrupo? 

Se defendem uma Procuradoria Geral da República independente, defendam-na em qualquer circunstância. Não se pode querer uma PGR independente para julgar o angolano Manuel Vicente, e pedir contenção à PGR na investigação a Centeno.

Deixem-me situar, contando a história. 

A notícia de que o gabinete do ministro das Finanças tinha sido alvo de buscas foi avançada pelo Correio da Manhã e confirmada depois por fonte oficial da Procuradoria Geral da República e pelo Ministério das Finanças que, questionados sobre a existência de buscas no gabinete de Mário Centeno, as confirmou. 

O Correio da Manhã avançou também que o processo está relacionado com a suspeita de favorecimento a uma empresa dos filhos de Luís Filipe Vieira, presidente do SL Benfica, chamada Realitatis – Investimentos Imobiliários, S.A. e Tiago e Sara Vieira fazem parte da administração da sociedade.

Segundo a revista Sábado em causa está uma investigação da 9.ª secção do DIAP de Lisboa a um alegado favorecimento da empresa Realitatis – Investimentos Imobiliários, S.A num processo de isenção de IMI de um prédio daquela sociedade. A par com uma alegada intervenção de Luís Filipe Vieira, presidente do Benfica, nesse mesmo processo.

Segundo o Correio da Manhã, a decisão de isenção terá sido anunciada uma semana depois de Mário Centeno ter pedido lugares para o jogo entre Benfica e o FC Porto, em abril do ano passado.

Portanto  salta aos olhos que pelo menos o assunto merece uma investigação judicial. Logo se vê o que se conclui, mas fazer de conta que não se passa nada, seria no mínimo suspeito.

 Segundo o Observador, a Procuradoria Geral da República veio depois esclarecer durante a tarde (não sei se sentiu pressionada para tal) que as buscas efetuadas na sexta-feira passada, por parte de magistrados da 9ª Secção do DIAP, foram realizadas no Ministério das Finanças e não no gabinete do ministro Mário Centeno. 

Mas há mais em jogo. Não é só a suspeita de causa-efeito (ida ao jogo-isenção de IMI) que está aqui em causa. O Ministro das Finanças (ai Jesus que é presidente do Eurogrupo) aparentemente violou um Código de Conduta do Governo que é claro: "Os membros do Governo e os membros dos gabinetes do Governo abstêm-se de aceitar, a qualquer título, convites [...] para assistência a eventos sociais ou culturais"

Ora quando aceitou o convite da SAD do Benfica para assistir ao jogo Benfica-FC Porto, a 1 de abril de 2017, o Ministro pode ter violado esse Código, pois o convite foi aceite já depois de estar em vigor o documento, criado após a polémica das viagens oferecidas pela Galp para jogos da Seleção no Euro 2016, em França e que levou à demissão dos secretários de Estado.

Mas Mário Centeno justificou depois de sair a notícia do Correio da Manhã a aceitação do convite com questões de segurança.:"A notoriedade pública do ministro das Finanças coloca exigências à sua participação em eventos públicos, como jogos de futebol, no que concerne a garantir a sua segurança pessoal", disse o gabinete do ministério. 

Portanto, em conclusão. Os meus colegas jornalistas da SIC que me desculpem, mas é completamente serviço público dar conhecimento do sucedido e questionar se não há aqui uma violação do cumprimento do Código de Conduta, bem como é totalmente legítimo o Ministério Público investigar o computador do Ministro ou de quem quer que seja (até do Papa se fosse preciso) para investigar se há alguma violação do Código Penal. 

 

 

 

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O fundo de recuperação de créditos que vai permitir indemnizar os lesados do Banco Espírito Santo (BES) foi aprovado pela Comissão de Mercado de Valores Mobiliários (CMVM). Era uma promessa eleitoral de António Costa, que apesar de não ter ganho as eleições decidiu cumprir o prometido quando assumiu o Governo da Geringonça.

A partir de agora a autorização do regulador permite aos lesados assinarem os contratos de adesão ao fundo e terem acesso a parte do dinheiro perdido com a queda do grupo Espírito Santo.

Na sua configuração, o mecanismo, conseguido com através da participação de bancos como a Caixa Geral de Depósitos, o Montepio e o Novo Banco, vai permitir indemnizar investidores em papel comercial do grupo Espírito Santo em até 75% do capital perdido e o Estado vai contribuir através de uma garantia. 

No modelo fixado, os lesados do BES vão poder recuperar até 75% do capital investido até 500 mil euros, com um valor máximo estipulado de 250 mil euros. No caso de aplicações acima de 500 mil euros, a percentagem de recuperação é de 50%. O valor será reembolsado por aplicação e não por cliente (há aplicações que têm mais do que um titular).

Como é que isto funciona? Os lesados têm créditos sobre a massa falida e ações em tribunal contra o BES/GES, essas ações e créditos são "comprados" pelo Fundo que como não tem dinheiro é inicialmente constituído com empréstimo do Estado (portanto dinheiro dos contribuintes), para fazer essas aquisições que mais não são do que forma de ressarcir os lesados. O pressuposto é que vierem receitas das ações judiciais e da massa falida então esse dinheiro é recebido pelo Fundo que paga ao Estado o empréstimo, se não quem perde é o Estado porque garante esse valor. 

Isto é obviamente uma forma para pôr o Estado a ressarcir os lesados do BES, sem assumir.

O Fundo responsável pela recuperação de créditos não tem ainda capital, portanto é o Estado que empresta 140 milhões de euros para pagar a primeira tranche. As primeiras indemnizações serão assim asseguradas com dinheiro dos contribuintes.

A expectativa do Estado é que ao longo do tempo esse dinheiro possa ser recuperado com a massa falida das falências das emitentes dos títulos que foram vendidos aos balcões do BES e com as eventuais indemnizações judiciais, caso contrário o Estado é obrigado a reconhecer perdas.

As restantes tranches (está previsto reembolsar até 75% do capital investido em papel comercial do GES, no prazo de três ano) ninguém sabe de onde virá o dinheiro.

O empréstimo direto do Estado à Patris – sociedade de Gonçalo Pereira Coutinho que foi escolhida fazer a gestão do fundo de recuperação de créditos – foi justificado com o objetivo de pagar mais rapidamente a primeira parcela de indemnização, inicialmente prevista para maio de 2018 e que agora poderá ser antecipado em cerca de um mês.
 
A garantia estatal de 301 milhões de euros, no âmbito da solução desenhada, mantém-se para a segunda e terceiras parcelas que estão previstas ser pagas em 2019 e 2020. Mas não havendo dinheiro não há como cumprir o pagamento das segunda e terceira tranches.
Nada se sabe sobre quem vai assegurar as outras tranches. Corre-se o sério risco de não haver financiamento das outras tranches, sobretudo se entretanto tiver havido eleições legislativas e não ter havido qualquer receita da massa falida.
 
O tempo de gestão do fundo de recuperação de créditos, são 10 anos. Vamos ver se as segundas e terceiras tranches não serão empurradas para o fim da maturidade do Fundo.

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Na passada segunda-feira, dia 15 de janeiro, foram conhecidos os resultados dos Prémios Mesa Marcada: Os 10 Restaurantes e 10 Chefes Preferidos 2017.

A cerimónia de entrega de prémios foi no Alcântara Café, em Lisboa, e evento foi acompanhado pelas iguarias dos Chefes Sergi Arola (Restaurante Lab na Penha Longa, Sintra) e Pedro Almeida (Restaurante Spices, Penha Longa, Sintra).

O grande vencedor da noite foi João Rodrigues, chefe do restaurante Feitoria, conquistando o primeiro lugar no topo das duas categorias principais: Restaurante e Chefe. João Rodrigues repete a dose do ano passado, o primeiro ano em que ficou em primeiro lugar nas duas categorias. 

Para quem não sabe, desde 2009, ano em que foi criado o blogue, que o Mesa Marcada (do "nosso" Duarte Calvão) se afirmou como o mais importante blogue de gastronomia.

João Rodrigues do Feitoria assuma cada vez mais o lugar que José Avillez ocupava nos últimos sete anos.

Vasco Coelho Santos foi outro chefe que se destacou, com a entrada direta do seu restaurante Euskalduna para o 8º lugar no TOP dos 10 Restaurantes Preferidos e uma subida galopante de 50 lugares em relação a 2016 ao atingir o 9º lugar no TOP 10 Chefes Preferidos de 2017. O chefe portuense levou para casa ainda o prémio de Chefe Revelação do Ano, um prémio que homenageia o cozinheiro que mais se destacou, entre os primeiros, na lista de “Os 10 Restaurantes e 10 Chefes Preferidos do Mesa Marcada. Entre os nomeados estava João Oliveira (Vista) e Rodrigo Castelo (Taberna Ó Balcão).

Em 2016 o Chefe Revelação do Ano foi Pedro Pena Bastos, ex-Herdade do Esporão. O Euskalduna, restaurante liderado por Vasco Coelho Santos, venceu também o Prémio Especial Estrella Damm Destaque do Ano 2017, atribuído ao restaurante que mais subiu, entre os primeiros, no ranking dos “Preferidos” do Mesa Marcada”, e que tinha dois adversários à altura: Midori (Sintra) e Vista (Portimão). Este prémio foi para o Loco no ano passado.

Também no Prémio Mesa Diária houve mudanças, a Taberna da Rua das Flores, de André Magalhães, que tem arrecadado este prémio todos anos desde que é atribuído, foi ultrapassada pela Taberna Ó Balcão, de Rodrigo Castelo, considerado pelos votantes como “o restaurante favorito de preço moderado que frequentam regularmente, ou que recomendam a um amigo”.

Já no Prémio Especial Quinta do Ataíde Restaurante Novo do Ano estavam em jogo três casas lisboetas: Pesca, Local e JNcQuoi e foi este, o restaurante trendy da Avenida da Liberdade, comandado na cozinha por António Bóia, que levou para casa a distinção.

Por fim, mas não menos importante, anunciou-se nesta 9ª edição dos Prémios Mesa Marcada a introdução de uma nova distinção: Prémio Maria José Macedo – Produtor / Fornecedor do Ano, atribuí- do a Pedro Bastos, da Nutrifresco, uma escolha feita com consulta a vários chefes.

Em 2009, o blogue Mesa Marcada decidiu promover uma votação que elegesse os melhores restaurantes e chefes de cozinha do ano.  Na primeira edição responderam ao convite 43 votantes, mas ano após ano o painel aumentou, diversificou e o resultados de 2017 contaram com a participação de 153 votantes de todo o país incluindo Açores e Madeira. A lista de votantes pode ser consultada no blog.

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Saberá Rui Rio liderar um partido de direita?

por Maria Teixeira Alves, em 14.01.18

A questão que paira sobre os eleitores do PSD é se Rui Rio lhes serve como líder de direita. Sim de direita. Nunca mais o PSD irá para o poder se não for em aliança com o CDS. A PAF veio para ficar. Caso contrário o PSD corre o risco de ser eterna oposição e corre até o risco de perder eleitores para o CDS, sobretudo se começar a tentar formar blocos centrais com o PS. 

O CDS de Cristas é, nesta altura, mais perto de Pedro Passos Coelho do que Rui Rio, veremos se essa percepção mudará com o tempo.

O centro acabou. Acabou não apenas no nosso sistema eleitoral, acabou um pouco por toda a Europa. O futuro do PS será um Pedro Nuno Santos, mais próximo do Bloco de Esquerda. Um PSD de esquerda não serve para nada. 

Olha-se  e vê-se que um pouco por toda a Europa o centro está a morrer. Os partidos ideológicos declaradamente de esquerda ou de direita estão a subir e a ganhar eleitores. Os grandes partidos de massas estão a ser derrotados por candidatos independentes e coligações ideológicas. Veja-se o que aconteceu, por exemplo, ao partido socialista francês.

Rui Rio tem assim dois caminhos: ou vai servir os seus apoiantes dentro do partido (Pachecos Pereira e companhia) e vê o partido perder dimensão, porque os eleitores de direita têm de se rever nalgum partido e tendo saído Pedro Passos Coelho o PSD fica indefinido e viram-se para o CDS. Ou Rui Rio faz um flik-flak e caminha em direção à recriação de uma segunda PAF com o CDS de Cristas, mesmo correndo o risco de deixar desiludidos os seus grandes e históricos apoiantes. Não há alternativa "à frente de esquerda" sem o CDS.

 

Ler aqui as declarações de Rui Rio

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As armadilhas do capitalismo popular

por Maria Teixeira Alves, em 06.01.18

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Todos apontam o dedo à privatização dos CTT como a causa de todos os males. Mas o problema dos CTT não desapareceria com a presença do Estado, pelo contrário, era provável que se agravasse, pois haveria uma inércia para mudar o modelo de negócio, e mais uma vez seria o Orçamento de Estado a pagar os prejuízos crescentes de uma empresa pública. (Não vale a pena virem com o argumento que os CTT dão lucro desde antes da privatização. Pois essa coisa do lucro tende sempre a cair e a acabar com a quebra das receitas por se manter um modelo de negócio obsoleto. Era apenas uma questão de tempo).

Há agora uma onda de regresso às utopias da esquerda comunista que vê a salvação das empresas na nacionalização. Uma apologia a um PREC revivalista, mas agora mais perigoso porque vem disfarçado de salvação nacional e tem até apoiantes de direita. Quem defende a nacionalização dos CTT defende precisamente a manutenção do modelo de negócio obsoleto e respectiva infraestrutura, rumo à falência da empresa, mas sustentada pelo dinheiro dos contribuintes.

Ora o que aconteceu com os CTT? O que se passa com os CTT é que o volume do correio endereçado está em queda livre, e a quebra do envio de cartas é uma situação que já começou em 2001, sendo hoje cerca de 50% inferior a esse ano (hoje é de 0,7 mil milhões de correio endereçado). Assistiu-se a uma aceleração da queda nos últimos trimestres com uma queda de 6% nos primeiros nove meses de 2017, o que compara com quedas médias de 4% entre 2014 e 2016.

Nas cartas a empresa de correios é o líder e incumbente e detém a concessão do Estado, mas há cerca de um ano, o Governo  anunciou que ia deixar maioritariamente de enviar cartas aos cidadãos, passando o e-mail a ser o meio de comunicação utilizado.

Por causa disso, os lucros dos CTT caíram até setembro 57% para 19,5 milhões de euros. Mas acima de tudo, a empresa liderada por Francisco Lacerda anunciou um corte dos dividendos que serão distribuídos aos accionistas referente ao último exercício, passando de 48 para 38 cêntimos, que ainda assim representa um pay-out de 160% e como tal tem sido alvo de críticas por se tratar de distribuir reservas porque os dividendos aos accionistas superam os lucros da empresa.

Ora porque é que os CTT têm de distribuir dividendos desta magnitude? Por causa do perfil dos accionistas. Sendo maioritariamente fundos de investimento internacionais só estão interessados na rentabilidade financeira do seu investimento, e se ela não existe querem mudar a gestão. É a lógica do mercado. Isto é precisamente o efeito nefasto do capitalismo popular. A pulverização do capital que em tempos foi a realidade do BCP de Jardim Gonçalves já se revelou poder ser um enorme empecilho. A ideia de pulverizar o capital que numa primeira fase favorece a gestão, numa segunda fase é o seu maior inimigo. 

O que falta aos CTT é um accionista maioritário privado que tenha uma estratégia de negócio (com lucro), mas antecipando as mudanças de contexto, a evolução da actividade, que invista nessa mudança prescindindo de dividendos se for preciso, que reinvista na empresa e tenha uma lógica de investimento a longo prazo. 

O próprio BCP, em tempos o ícone do capitalismo popular, há muito que mudou essa realidade ao ter dois accionistas de referência com claro domínio do capital. 

A gestão dos CTT está precisamente a ser vítima das fraquezas da pulverização excessiva de capital. Reparem: O maior accionista é a Gestmin de Manuel Champalimaud tem 11,61% e é o único accionista que pode dizer-se que tem uma estratégia de longo prazo para o seu investimento. De resto os CTT pertencem à: Global Portfolio Investments (5,66%); ao Credit Suisse Group (3,31%); ao Norges Bank (3,15%); ao BNP Paribas Asset Management (3,10%); ao Wellington Management Group (2,07%); Kairos Partners (2,05%); Goldman Sachs (1,52%), e outros.

Isso explica que a gestão esteja a ser pressionada para cortar rapidamente custos e aumentar a rentabilidade e assim os lucros.

O que se passa na empresa (e em todo o sector a nível global) é uma redução forte no volume de correio e um aumento das encomendas e das encomendas ligadas ao comércio electrónico. Quando há uma redução do volume dos correios o preço sobe dentro de determinadas balizas (a maior parte delas regulatórias). Nesse contexto os custos têm de ser controlados e principalmente o que é preciso ver é se a infraestrutura principal dos CTT é a mais adequada ao novo modelo de negócio dos CTT, onde cada vez se distribuem mais encomendas e menos cartas.

O que o plano de reestruturação apresentado pelos CTT pretende fazer é desenhar uma infraestrutura diferente da actual adaptada à realidade de hoje e aquela que a empresa antecipa para os próximos dois anos, e isso implica menos 800 pessoas e menos balcões (vão fechar 22 balcões).

O plano prevê um programa de rescisões nos próximos 3 anos (até 2020) que deverá atingir 800 trabalhadores, o encerramento de lojas com pouca procura e o corte de salários na administração.

Além da redução de 800 colaboradores em três anos, os CTT pretendem ainda racionalizar activos não estratégicos (mais ou menos 30 propriedades) e ainda optimizar a cobertura da rede de lojas através da conversão de lojas em postos de correio ou fecho daquelas com pouca procura por parte dos clientes, de acordo com o plano divulgado em Dezembro.

O objectivo deste plano é gerar poupanças de 45 milhões de euros por ano a partir de 2020.

Depois há a questão do serviço universal. Os CTT não recebem nada pelo contrato de concessão (que tem a duração até 2020). O que há é o custo líquido do Serviço Universal, que é pago pelos CTT. Lá fora o Estado paga à empresa pelo serviço universal. 

As bases da concessão do serviço postal universal estabelecem os serviços e actividades concessionados aos CTT e definem os direitos e obrigações da concessionária, nomeadamente ao nível dos serviços prestados e da rede postal.

O serviço postal universal consiste na oferta permanente de determinados serviços postais em todo o país, com uma qualidade determinada e a preços acessíveis, de forma a responder às necessidades de comunicação das pessoas e empresas.  O serviço universal abrange, dentro do país e relativamente a envios internacionais com origem ou destino em Portugal: os envios de correspondência, livros, catálogos, jornais e outras publicações periódicas até 2 kg de peso; os envios de encomendas postais até 10 kg de peso; a entrega no território nacional de encomendas postais com origem noutros Estados-Membros da União Europeia até 20 kg de peso; os envios registados; os envios com valor declarado.

Cabe também aos CTT, enquanto operador do serviço universal, assegurar em exclusivo os seguintes serviços e actividades: colocação de marcos e caixas de correio na via pública para o depósito de cartas e outros envios postais; emissão e venda de selos postais com a menção “Portugal”; serviço de correio registado utilizado em procedimentos judiciais ou administrativos; prestação do serviço de vales postais.

Não estão abrangidos pelo serviço universal os serviços de correio expresso nem a publicidade endereçada.

Enquanto operador do serviço postal universal, os CTT têm de cumprir determinados níveis de qualidade, nomeadamente respeitantes a: prazos de encaminhamento; regularidade e fiabilidade dos serviços (extravios ou demoras prolongadas); tempos de espera no atendimento nas lojas.

Os objectivos de desempenho do serviço universal que os CTT se encontram obrigados a assegurar, no período de 2015 a 2017, abrangem os seguintes serviços postais: envio de correspondência, nas modalidades de correio azul e correio normal; envio de jornais e outras publicações periódicas; encomendas postais na modalidade de encomenda normal; envio de correspondência registada, na modalidade de correio registado em mão. 

As condições de prestação do serviço universal devem ser reavaliadas a cada cinco anos pelo Governo. A ANACOM avalia todos os anos se os CTT cumprem os níveis de qualidade de serviço a que a empresa está obrigada e publica um relatório com os resultados. O que a ANACOM considera na sua avaliação é o nível médio de serviço ao longo do ano e não a qualidade do serviço prestado num caso concreto.
Se se verificar que os CTT não cumpriram os níveis de qualidade de serviço a que estão obrigados, a ANACOM pode aplicar uma sanção à empresa que limita os preços a praticar no ano seguinte. Desta forma, visa-se compensar a generalidade dos utilizadores afectados pela reduzida qualidade de serviço verificada.
Os CTT devem também publicar todos os anos um relatório com o resultado da medição dos níveis de qualidade do serviço verificado no ano anterior.

Os preços dos serviços incluídos no serviço postal universal são determinados por proposta dos CTT, validada pela ANACOM, e devem obedecer a regras específicas, nomeadamente: acessibilidade a todos os utilizadores; transparência; não discriminação entre utilizadores.

Além disso, os preços dos serviços que integram o serviço postal universal não podem exceder determinada variação máxima, em cada ano.

Os CTT devem divulgar informação sobre os preços que praticam, designadamente publicando-os na sua página na Internet.

No que respeita aos restantes serviços prestados pelos CTT ou por outros operadores (fora do serviço postal universal), os preços são livremente fixados.

Francisco Lacerda (CEO) já veio defender a manutenção do contrato de concessão, mas defende a evolução desse contrato de serviço público em função da “evolução dos tempos e da realidade”.

Falemos agora da gestão. Perante o acelerar da queda da actividade core dos CTT (envio de correio), a administração da empresa veio apresentar o plano de transformação operacional que pretende ser a reinvenção da actividade dos correios. Mas só o fez no fim do ano passado, quando o ritmo de quebra de receitas era já acelerado. Até Setembro o EBITDA recuou 25% para 68 milhões de euros, num período em que os gastos operacionais aumentaram 5,6% para 23,7 milhões de euros. Portanto o "pecado" da gestão foi ter reagido em vez de ter antecipado a quebra de receitas e mudado antecipadamente o modelo de negócio a um ritmo mais brando. 

O melhor que a gestão fez foi apresentar este plano de reestruturação (mais vale tarde que nunca). No entanto o timing pode virar o feitiço contra o feiticeiro. Porque surge numa altura de grande crispação política (a esquerda quer a renacionalização dos CTT, aliás querem renacionalizar tudo, e se possível nacionalizar tudo, o BCP, o Novo Banco, o BPI e que mais viesse) e a contestação dos sindicatos a da comissão de trabalhadores e depois de uma queda abrupta das acções dos CTT (que deixou descontentes os accionistas). É a chamada tempestade perfeita.

Os analistas apontaram no plano a falta de medidas para aumentar as receitas (o plano centra-se muito no corte de custos). "Salientamos também que este plano será difícil de executar e vai enfrentar pressões políticas severas e ainda contestação significativa dos sindicatos”, disseram os analistas do Caixa BI.O banco de investimento que fez uma análise ao plano de reestruturação apresentado e escreveu ainda que "tendo em conta a cotação actual, o elevado free float do título e o potencial desenvolvimento autónomo de alguns dos segmentos, nomeadamente do Banco CTT e do Expresso e Encomendas, é justo assumir (ou pelo menos não excluir a probabilidade acrescida de uma alteração significativa na estrutura accionista".

Na minha opinião os CTT devem continuar privados, e deve ser encontrado um accionista estratégico (com uma participação significativa) que apoie a gestão de forma a sustentar a implementação do plano, ainda que à custa da não distribuição de dividendos (ou pelo menos de menos dividendos). 

A serviço postal universal deve ser reajustado à realidade comercial dos CTT, e possivelmente devia ser pago, porque o Estado deve servir para isso, para pagar serviços que os privados não podem fazer, em nome de ajudar as populações carenciadas.

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O socialismo é uma família

por Maria Teixeira Alves, em 18.12.17

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 É indiscutivelmente um traço socialista: Os amigos e os parentes em lugares-chave.

O socialismo é uma familia, uma familia internacional.

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Uma homenagem premonitória

por Maria Teixeira Alves, em 12.12.17

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O Ministro do Trabalho e da Segurança Social, Vieira da Silva, era um grande amigo da Associação Raríssimas, recebeu inclusivé uma placa com o seu nome, e logo por azar num "lobby", podia ter sido num "hall", mas não foi, foi num "lobby", nome que se presta às mais variadas interpretações e trocadilhos. Sobretudo depois disto:

O ministro da Segurança Social, Vieira da Silva participou nos órgãos sociais da Associação, como "não executivo", entre 2013 e 2015, quando era deputado na oposição, mas diz que nunca viu qualquer sinal de "gestão danosa".

Isto apesar da existência de uma carta, de 9 de Agosto, do ex-tesoureiro Jorge Nunes, no qual terão sido reportados alegados casos de "irregularidades" nas contas da Raríssimas, quer ao Ministério, quer ao Instituto de Segurança Social, Vieira da Silva.

Mais tarde  o antigo tesoureiro da Raríssimas escreveu ao ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Vieira da Silva para pedir uma intervenção governamental na associação Raríssimas. Na carta enviada ao ministro, datada de 12 de Outubro, foram reveladas as alegadas irregularidades nas contas da Instituição Particular de Solidariedade Social e explicadas várias demissões suspeitas. À TVI, Jorge Nunes garantiu que o ministro nunca respondeu à missiva. "Da parte do senhor ministro nunca tive resposta".

À estação televisiva revelou que já tinha pedido ao Instituto de Segurança Social uma inspecção profunda à Raríssimas. A carta de 9 de Agosto não teve resposta e Jorge Nunes volta a apelar a uma medida numa missiva enviada a 15 de Setembro. De acordo com a mesma fonte, o último apelo foi enviado a 21 de Setembro mas voltou a não haver respostas.

Hoje o Ministro em Conferência de Imprensa disse que "nunca foi entregue a mim próprio, no meu gabinete ou da secretaria de Estado ou na Segurança Social, que eu tivesse conhecimento, denúncias de gestão danosa, afirmou em conferência de imprensa, na sede do ministério em Lisboa".

Digam lá que "lobby" não encaixa bem neste contexto.

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Mariana Mortágua acusou esta semana o Ministro das Finanças de "retórica de direita, perigosa e moralista"  por causa de uma frase que o ministro socialista disse no Parlamento, a propósito das reivindicações dos professores. A frase era "Todos temos de saber merecer as coisas que ganhamos". Esta ideia de o mérito ser uma bandeira do pensamento de direita, que eu tenho defendido em vários posts, confirmou-se na reacção da bloquista às palavras de Mário Centeno. É evidente que todos temos de saber merecer o que ganhamos. Mas para Mortágua a ideia de premiar o mérito é em si mesma um atentado à ideia de igualdade da esquerda.

Ao ouvir o Governo Sombra, não pude deixar de aplaudir a participação de João Miguel Tavares, que se deu conta (com muita inteligência) de que se deu finalmente a grande reversão do Governo de António Costa. "A reversão da retórica estúpida de que chegámos ao fim da austeridade". Tem sido uma grande hipocrisia a deste Governo ao longo dos últimos dois anos. Enxotaram Passos Coelho (tenho pena tal como João Miguel Tavares) porque as pessoas se convenceram que a austeridade tinha acabado, e no entanto a austeridade não acabou. Pedro Passos Coelho ainda vai ser muito lembrado.

Esta semana António Costa veio dizer que "a ilusão de que é possível tudo para todos já não existe", e é a confirmação de que Pedro Passos Coelho sempre teve razão.

O discurso duro de Passos foi um tampão contra um país das reivindicações permanentes das corporações, disse João Miguel Tavares e eu subscrevo.

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Foto de Manuel Maria Barros.

O dia foi marcado por mais uma polémica mediática que mais uma vez desembocou numa medida drástica e imediata do Governo (ultimamente é assim que é governado o país). Na sexta-feira houve um jantar da Web Summit no Panteão Nacional, onde estão os túmulos de personalidades históricas de Portugal. O jantar com o CEO Paddy Cosgrave, com os fundadores de startups e outras empresas que participaram na Web Summit, chama-se Founders Summit e nele participaram cerca de 200 CEO (presidentes-executivos) fundadores de empresas e startups, investidores de alto nível, com o objectivo de estabelecer ligações entre eles (networking). 

Bastou ter-se levantado uma onda de indignação pública, com eco nas redes sociais, para o Governo mostrar mais uma vez como é eficaz. O Governo de António Costa reagiu. Culpou o Governo anterior (as usually). Mostrou-se muito indignado em solidariedade com a indignação geral, e zás, proibiu os jantares no Panteão. Tal como já tinha feito no Urban Beach (que se apressou a mandar fechar - by the way, pôs 200 pessoas no desemprego com essa precipitação. Podia ter multado, ter estabelecido regras duras, mas não, a solução foi: desemprego para toda aquela gente) - e tal como fez com os incêndios e armas de Tancos roubadas.Toma decisões muito radicais. Mas sempre, sempre à posteriori. 

Mas, mais uma vez, um paradoxo. É que o próprio Paddy admitiu ter falado com o "ministro". Paddy (que não deve estar a acreditar no que está a acontecer, conheceu finalmente o lado lunar de Portugal) viu-se obrigado a pedir desculpa mas deixou o recado que isto na Irlanda nunca se passaria (esta indignação). Não estranhem se o Web Summit rumar a outra capital.

O que veio dizer o primeiro-ministro António Costa (que se mostrou indignado, mais uma vez em coro com o Presidente da República)? Considerou este sábado, em comunicado, "absolutamente indigna" a utilização do Panteão Nacional para um jantar inserido na Web Summit.

"É absolutamente indigna do respeito devido à memória dos que aí honramos. Apesar de enquadrado legalmente, através de despacho proferido pelo anterior Governo, é ofensivo utilizar deste modo um monumento nacional com as características e particularidades do Panteão Nacional", declarou o chefe de Governo (e Marcelo disse o mesmo).

"Tal como já foi divulgado pelo Ministério da Cultura, o Governo procederá à alteração do referido despacho, para que situações semelhantes não voltem a repetir-se, violando a história, a memória colectiva e os símbolos nacionais", prometeu o governante.

A prova que o Governo anda ao sabor da indignação mediática, é que afinal o jantar da Web Summit no Panteão Nacional, não foi caso único. Também uma empresa pública, a NAV Portugal, realizou um jantar, em outubro, e até publicou as fotografias no Facebook.  Para além do jantar de gala para homenagear trabalhadores, o evento do dia 16 de outubro teve direito a um welcome drink no terraço do Panteão.

Ora, para quem não sabe, a NAV Portugal tem como missão garantir a prestação de serviços de navegação aérea e é tutelada pelo ministério do Planeamento.

O mundo chama populista a quem governa contra a corrente mediática, mas populismo é precisamente o oposto. Populismo é isto de governar em função da indignação popular.

Esta dupla de populistas que representam e lideram o país, estão a transformar Portugal num cartoon.

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Não gosto da opinião do Pacheco Pereira (é uma espécie de nosso Al Gore - que by the way também não gosto), nem gosto das prioridades deste Governo, por exemplo que tenha dado prioridade à (perversão) da mudança de sexo ou que mantenha o financiamento ao aborto por capricho, ou que sucumba à histeria do moderninho (de que a Web Summit é um ícone) em vez de dar prioridade ao investimento nos hospitais, de modo a minimizar o risco de as pessoas apanharem bactérias nos hospitais públicos.

O Governo que repare bem que, por exemplo, nos Hospital da Luz e no Hospital da Cuf essas bactérias não andam a matar que nem tordos.

Digam o que disserem, venham as Web Summits que vierem Portugal é e sempre será um país do terceiro mundo quando as pessoas morrem queimadas em incêndios, ou quando morrem por bactérias em hospitais públicos. 

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Um ano de eleição de Trump para a presidência norte-americana é o motivo para inúmeros debates nas televisões portuguesas. Confesso que já não tenho grande paciência para os argumentos emotivos anti-Trump. Toda a gente diz coisas muito semelhantes: toda a gente vaticina tragédias, guerras e quedas antecipadas. Mas quanto mais tempo passa mais se parece confirmar que Trump mantém a mesma base de apoio e será essa base de apoio que, desconfio, levará à sua reeleição.

As expressões "O presidente com popularidade mais baixa";  "como é que os EUA podem estar à mercê disto [Trump]; toda a Europa olha para os EUA como se estivessem à beira de um abismo, de uma qualquer catástrofe. Mas como disse e bem Tiago Moreira de Sá, a Europa está a perder riqueza e poder, e portanto na minha opinião quem está à beira do abismo é a Europa.

A orientação estratégica dos EUA está a mudar a prioridade euro-atlântico para a Ásia-Pacífico. Isso não é sequer novidade de Trump, Obama já estava a fazer o mesmo. O que muda é o estilo. Trump vê a Europa como um bloco que quer ir à boleia da protecção dos Estados Unidos, não pagam por essa segurança (NATO) e ainda aproveitam isso para ter grandes excedentes comerciais.

Diana Soller, Doutorada no Departamento de Estudos Internacionais da Universidade de Miami-EUA, foi, a meu ver a primeira opinião verdadeiramente independente, e porque não está amarrada a indignações, nem a preconceitos, é quem tem a opinião mais inteligente.

Desde logo desmente o mito de que Trump traz para a política uma lógica de negociante, uma lógica de empresário. "Donald Trump separa a esfera política e a esfera económica como já há muito nenhum presidente norte-americano fazia".

Diana Soller explica: "Uma coisa é Donald Trump dizer que a América está primeiro e de facto ser o presidente que tem optado por ser menos intervencionista do que os presidentes anteriores, que se declaravam presidentes do mundo livre, e depois do mundo global democrático. Trump já não faz. Isso não quer dizer que Donald Trump se tenha retirado do mundo, muito pelo contrário. O que mudou profundamente foi a forma como os EUA se posicionam no mundo. Trump e a sua equipa de conservadores sabem que os EUA não se podem retirar completamente do mundo".

"O que Trump tem optado por fazer é desfazer as alianças permanentes, que são caras, que são alianças com aliados fracos militarmente, e tem optado por agir bilateralmente. Deitou fora a ideia que as democracias são os aliados privilegiados; deitou fora a ideia de que a Nato é para manter e para legitimar os EUA. A forma como os EUA se posicionam no mundo mudou".

"A ideia de Trump de privilegiar a soberania dos Estados, preferir negociar Estado a Estado, preferir negociar com as grandes potencias do futuro, que na sua visão são a China e a Rússia, não é uma visão económica, é uma visão política que vigorou durante séculos nos EUA e Trump vem recuperá-la. Mas os europeus que estão habituados aos EUA que durante 70 anos foram os líderes liberais do mundo, olham para isto como se fosse uma coisa inédita que nunca aconteceu antes", disse ainda a analista.

"Trump não é um isolacionista (sem mais nada), diz ainda Diana Soller. Não é, é o líder liberal a que estávamos habituados". Pois é isso.

"Este périplo pela Ásia foi precedida pela visita a Pearl Harbour, o que foi um sinal de que os EUA vão negociar com a Ásia como país forte que vai defender os seus interesses nacionais", realçou. 

Perante esta intervenção tão objetiva, lamentavelmente, insurgiu -se um analista tendencioso, Ricardo Monteiro, que não escondeu a sua raiva a Trump (o que turva completamente a sua análise, e por isso ela deixou de ter qualquer valor), acabou por acusar o toque dessa fraqueza quando diz "o facto de o podermos analisar [Trump] não o devemos tolerar". Não se pode ser analista sem independência. Não se pode analisar Trump, se a preocupação mor é não o tolerar.

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A propósito do caso do juiz que justificou actos de violência doméstica com a prática de adultério pela vítima, lembrei-me de como Portugal tem um machismo bera. Em vez do "machismo" positivo dos homens que abrem a porta do carro às senhoras, que não deixam pagar a conta, ou que lhes dão flores (uma espécie de marialvismo), o que é cada vez mais raro, o que há é um machismo que despreza as mulheres. Os homens portugueses estão sempre a desvalorizar as mulheres (excepto as deles), no trabalho, na vida social, nas relações profissionais, na política, no jornalismo. 

É cada vez mais comum ver os homens deixarem facilmente para trás os velhos hábitos e tradições de deixar passar as senhoras à frente, de as convidarem sempre que as acompanham à mesa, de as protegerem. Mesmo apesar das educações que herdaram, facilmente aderiram aos tempos de "igualdade" para justificar o fim desses hábitos. Os homens abandonaram o estilo protector que as mulheres adoram, em nome da negação da supremacia masculina. Mas depois mantêm a atitude superior, vertida numa soberba que despreza as mulheres (que não as suas) e não lhes reconhece méritos e qualidades equiparadas às masculinas nas relações profissionais, nas relações políticas, nas relações sociais. 

Quando se sentem em competição ou numa relação de disputa de poder, as mulheres têm sempre mau feitio, são malucas, são desequilibradas, são galdérias, são esquisitas, são histéricas, são suspeitas, não têm capacidade. É isto que resume a panóplia de características que os homens portugueses vêem muitas vezes nas mulheres que não lhes são próximas (ou que deixaram de o ser). Eu por fim preferia a superioridade de darem flores confesso. 

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A minha leitura é diferente das que ouvi dos vários comentadores. Penso que Marcelo Rebelo de Sousa não fez um discurso para crucificar o primeiro-ministro socialista, que fez sim um discurso para ajudar António Costa a ultrapassar esta fase negra da sua governação (cheio de falhas e sem ninguém para servir de bode expiatório - já que saiu Passos Coelho). Por um lado para lhe dar o argumento que lhe faltava para não cumprir o compromisso que assumiu com Constança Urbano de Sousa, sua amiga, de a manter como Ministra da Administração Interna, apesar das tragédias dos incêndios. Por outro para o reforçar no Parlamento durante a moção de censura apresentada pelo CDS, quando diz: "Se há, na Assembleia da República, quem questione a atual capacidade do Governo para realizar estas mudanças inadiáveis e indispensáveis então que, nos termos da Constituição, esperemos que a Assembleia diga soberanamente se quer ou não manter este Governo”. Sabendo que jamais uma moção de censura do CDS recebe votos do PCP e do Bloco de Esquerda, o acto parlamentar vai servir para reforçar a legitimidade do Governo. Em troca o que vai dar Costa? A cabeça da Ministra, já no próximo sábado, no Conselho de Ministros extraordinário. O motivo para quebrar a promessa com a amiga? O discurso do Presidente da República.

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Há vários sinais de alarme em Rui Rio", disse Pedro Mexia, no Governo Sombra, a propósito da afirmação do candidato à liderança do PSD de que o partido não era de direita, por necessidade de posicionar o PSD ao centro. Dizer que o PSD não é direita é dizer que o PSD é centro esquerda. Então isso significaria que quem não é de esquerda é do CDS apenas (aquele foi um dia em cheio para o CDS). É evidente que não há só 10% de direita em Portugal. Ou então pior, as pessoas de direita e de centro direita estão a votar enganadas num partido que não defende os seus valores. O PSD é do PPE faz parte da família europeia dos partidos conservadores e democrata cristãos. Logo é um partido de direita, por muito que isso desagrade a Rui Rio que parece querer um PS com outro nome só para poder ganhar eleições. Isto é, no cenário de Rui Rio os partidos no poder eram os mesmos, a alternância seriam apenas as pessoas que assumiriam o lugar mais desejado de primeiro-ministro. Parece-me non sense. É terrível confinar à social democracia as preocupações sociais. Muitas áreas políticas têm preocupações sociais. A direita tem preocupações sociais. A Democracia Cristã tem preocupações sociais. A social democracia no sentido literal do termo é aquilo que é o PS, tal como o SPD alemão de Martin Schulz. Logo o PSD de Rui Rio é um PS com outras pessoas e com outras cores.

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