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Era evidente que uma auditoria à CGD que abrangesse 15 anos ia apanhar praticamente todos os gestores de bancos (banqueiros) do país. Portugal é um bidé. Todos se conhecem e se não se conhecem já "ouviram falar", toda a gente é parente mais próxima ou mais distante de alguém, toda a gente é amiga ou amiga de um amigo de alguém.

No caso concreto da Caixa Geral de Depósitos, há meia dúzia de bancos que dão emprego a uma geração de administradores, ou mesmo duas, e a probabilidade de  ter no currículo a passagem pela CGD (a mais recente liability do sistema financeiro português) é enorme. Só a idade e uma carreira estável de largas décadas (o que já não existe) num qualquer banco evitariam estar agora na quadratura do círculo dos administradores da Caixa Geral de Depósitos de 2000 a 2015. 

É fácil ver incompatibilidades na outra banda.

O governador do Banco de Portugal, diz-se que, tem um conflito de interesses porque esteve na administração da CGD naqueles 15 anos abrangidos pela auditoria da EY. Também já se tinha posto a questão das "suspeitas de falta de independência" quando se descobriu que tinha sido o responsável pelas offshores quando era quadro do BCP.  

A vice-Governadora Elisa Ferreira tem o marido que foi vice-presidente da La Seda, uma das empresas com o maior incumprimento de crédito à CGD. Mais uma acha para a fogueira das incompatibilidades.

Gabriela Figueiredo Dias, presidente da CMVM, é filha de um administrador do BPI (pediu escusa para assuntos relacionados com o banco).

Mas a questão das "suspeitas de incompatibilidades" é uma espiral sem fim. Paulo Macedo esteve no BCP ao lado de Armando Vara na administração liderada por Carlos Santos Ferreira. Armando Vara que por sua vez está preso.

Também se pode olhar de soslaio para o facto de Carlos Tavares, que foi durante anos presidente da CMVM, e agora estar no Montepio.

Não acabam os exemplos de "potenciais incompatibilidades".

Portugal é um país pequeno, de poucos empregos e baixos salários, como escapar a este circulo fechado e limitado de empresas e de relações? Será que a independência implica ausência de qualquer contacto? É um caso a pensar nesta caça às bruxas.

Por exemplo Berardo pediu dinheiro emprestado à CGD e deu ações como garantia. Ora isso era o pão nosso de cada dia nos bancos até 2007. Todos os bancos davam crédito assim. Todos emprestaram para comprar ações (talvez se exceptue aqui o BPI). Desde o insuspeito Santander Totta até à suspeitíssima CGD. Talvez a diferença que é importante salientar é quem, ou que banco, é que executou os colaterais quando as ações que serviam de garantia começaram a cair a pique, e quem é que o não fez e porquê? 

Por falar em incompatibilidades. Mais um exemplo de que este país é um bidé. Como é possível que em 46 operações de crédito e mais umas operações de mercado, identificadas pela EY na auditoria à CGD não tenha havido pelo menos um dos escritórios de advogados de referência a trabalhar com alguma destas empresas. Incompatibilidades? Não há escritório de advogados, que se preze, sem elas. Os advogados são caros e difíceis de contratar em Portugal. A CGD revelou que teve de contratar três escritórios (e pode não ficar por aqui) para analisar os atos de gestão daquele período para, eventualmente, colocar ações de responsabilidade civil sobre ex-gestores. Isto é o que acontece a um país com as caraterísticas do nosso.

Depois há outro tipo de "incompatibilidades", menos formais, chamemos-lhe assim. Mário Centeno é "independente de espírito" face ao Governador do Banco de Portugal que o seu ministério tutela? Pode levantar-se sempre a questão da histórica má relação entre ambos quando trabalharam juntos no Banco de Portugal.

Pode-se questionar tudo e vamos acabar a não chegar a conclusão nenhuma.

Somos um país de incompatibilidades, conflitos de interesses ... e de salários baixos.

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Prémio Mesa Marcada: Feitoria "rules"

por Maria Teixeira Alves, em 03.02.19

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Os Prémios Mesa Marcada nasceram em 2009 e são, desde aí, a distinção de cozinha e restauração mais importante em Portugal. Este ano, a cerimónia teve lugar no Ritz Four Season Hotel e contou com a presença de mais de 400 profissionais da área. O evento elege os 10 melhores restaurantes e cozinheiros do país e ainda distribui oito prémios especiais, do fornecedor à revelação do ano.

Pela terceira vez consecutiva, João Rodrigues somou duas vitórias nesta noite de prémios: o chef conquistou o primeiro lugar no ranking de Melhor Chef de 2018, com uma diferença de mais de 330 pontos do segundo classificado, o chef José Avillez, e arrecadou, ainda, o lugar do topo na classificação de Melhor Restaurante com o Feitoria, o galardoado restaurante do Hotel Altis Belém, em Lisboa.

Mas, apesar de João Rodrigues ter conseguido um verdadeiro feito(ria), a noite acabou por correr (muito) bem a António Galapito. O chef de 27 anos ganhou o prémio Revelação do Ano e o seu restaurante, Prado, foi eleito Destaque do Ano.

À lista de vencedores, juntou-se José Avillez, que foi surpreendido com um prémio inesperado no final da noite. A festejar uma década, os Prémios Mesa Marcada estrearam uma nova categoria - Prémio Especial 10 anos Mesa Marcada - e atribuíram-na a Avillez. O chef, que conta com mais de 15 restaurantes espalhados pelo país, foi a personalidade gastronómica que mais prémios ganhou ao longo da última década.

Artigo inicialmente publicado no Jornal Económico.

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O famoso "diabo" da economia começa a mostrar a cauda

por Maria Teixeira Alves, em 14.11.18

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Os dados económicos do INE não são animadores. A economia portuguesa cresceu 0,3% no terceiro trimestre, depois dos 0,6% do segundo trimestre. Em termos homólogos, a economia cresceu 2,1%, o ritmo mais lento desde a primeira metade de 2016. Antes (no segundo trimestre) estava a crescer 2,4%. 

Isto é, a economia portuguesa desacelerou para o ritmo mais lento dos últimos dois anos. As exportações e consumo privado, que têm sido o motor do crescimento, abrandaram. Só não foi pior porque houve mais investimento, mas ainda assim não serviu para compensar a queda do consumo das famílias.

Mas António Costa preferiu destacar que Portugal voltou a crescer mais do que a média europeia e do que a zona euro. “Desde que aderimos ao euro, isto nunca tinha acontecido, a não ser o ano passado e está a acontecer este ano”, disse o nosso primeiro-ministro.

Faltou acrescentar que apesar de estar acima da média Portugal registou a quinta taxa de crescimento mais baixa da zona euro. 

A isto acresce outra má notícia para a economia. O PIB da Alemanha contraiu pela primeira vez desde o primeiro trimestre de 2015, segundo a estimativa do gabinete de estatística alemão divulgada esta quarta-feira, 14 de Novembro.

Faltou ao Governo falar do que ainda pode estar para vir ao nível da desaceleração da economia europeia.

Portugal arrisca a perder o impulso no turismo. A isto não será alheio o facto de a Câmara Municipal de Lisboa ter introduzido uma moratória que durante um ano vai limitar a abertura de novos estabelecimentos de alojamento local nas freguesias. Durante um ano vai ficar proibida a abertura de novos estabelecimentos de alojamento local nas zonas históricas, que são as zonas que os turistas preferem.

O imobiliário para investimento pode assim acabar por ficar mais condicionado. E as famílias que usavam as casas para rentabilizar com o Airbnb vão perder esse rendimento extra. Mas em troca não há sinais que o preço do arrendamento em Lisboa vá cair e ajustar-se aos salários baixos dos portugueses - temos um número de trabalhadores a receber salário mínimo como nunca aconteceu, são mais de 700 mil pessoas. Os números são de António Leitão Amaro.

Há casos dramáticos de pessoas de 60 anos que veem os senhorios não renovar os contratos de arrendamento e deixam de conseguir alugar casas em Lisboa e mesmo na área da Grande Lisboa.

 As universidades não têm residências universitárias o que torna infernal a vida a estudantes que veem de fora da capital.

Resultado. A economia vai perder a força sem que os salários dos portugueses tenham chegado sequer a recuperar da crise.

Portugal é um país condenado, inserido numa Europa que perde o comboio da evolução e crescimento (tudo o que é inovação vem dos EUA ou da China).

Portugal é ainda o país onde o problema demográfico tem maior expressão na Europa. Políticas para isso no OE2019? Não há.

É o país que tem o maior problema de dívida do Serviço Nacional de Saúde aos privados (os prazos de pagamento rondam os 270 dias enquanto em Espanha 70 dias é o prazo médio de pagamento das dividas dos hospitais públicos). E não é possível agilizar porque tudo exige a aprovação formal e burocrática do Ministério das Finanças. Tudo exige concursos públicos de seis meses. Há situações em que quando a única pessoa que introduz faturas no sistema, nos hospitais públicos, está de baixa, o serviço pára porque não é possível substituir pessoas sem toda uma complexa burocracia. "Somos todos Centeno", como disse o Ministro da Saúde que acabou substituído.

A descentralização devia começar no SNS (dar autonomia aos hospitais públicos para gerir). Mas o Governo prefere falar da descentralização que passa por promessas ideológicas de transferir o Infarmed para o Porto. 

António Costa é o campeão do "com a verdade me enganas", porque usa números bons para criar uma realidade doirada que na verdade não existe. Mas o que está a despontar é uma espécie de cauda do diabo de que a esquerda tanto fez troça.

(atualizada)

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Finanças rules, quem manda é o Mário Centeno

por Maria Teixeira Alves, em 27.10.18

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A UTAO (Unidade Técnica de Apoio Orçamental) constatou que há 590 milhões nas despesas que constam nos mapas da Proposta de Lei do Orçamento de Estado para 2019, a menos do que aquilo que Governo diz no relatório do Orçamento e que por isso o défice deveria ser de 0,5%. Portanto se essas despesas lá estivessem como deviam o défice seria maior. O Governo veio dizer que é um "procedimento habitual".

"Um orçamento define tectos máximos de despesa. É porque se furam tectos máximos de despesa que há rectificativos", disse Mário Centeno, que assegura que  "em todos os anos, sempre houve um ajustamento face ao que são os mapas das contas sectoriais e os cálculos do total da despesa na administração central e na administração pública".

Pelas palavras do ministro, pode depreender-se que em todos os orçamentos há uma espécie de almofada financeira entre o défice estimado e as despesas constantes nos mapas por sectores.

Isto é, seguindo uma prática já usada em orçamentos anteriores, o Governo está, no cálculo da meta de défice para o próximo ano, a assumir logo à partida que não irá descongelar uma parte substancial das cativações que estão previstas na proposta de OE entregue no parlamento. Em causa estão 590 milhões de euros que, caso viessem a ser descongelados, poderiam, num cenário em que tudo o resto se mantivesse igual, conduzir a um défice de 0,5% em vez dos 0,2% que são apresentados como meta para o próximo ano

O que é que de facto se passa? António Lobo Xavier foi bastante elucidativo sobre este tema na Quadratura do Círculo.  Os técnicos da UTAO quando dizem que o saldo orçamental para 2019 é revisto em baixa no montante de 0,3 p.p. do PIB, passando da cifra -0,2% do PIB projetada na POE/2019 para -0,5% do PIB, têm razão.

Quando Mário Centeno diz que o PIB vai ser 0,2%, também tem razão, porque o défice está construido de modo a ser o que as Finanças decidem no fim do ano. Pois as despesas a mais que estão inscritas no OE, são limites, não vinculam a gastos obrigatórios. Portanto o truque de Mário Centeno é inscrever despesas a mais no OE. Despesas discricionárias, que pode não cumprir, e depois se as receitas previstas não se cumprirem Centeno não cumpre as despesas em nome do défice.

"A inscrição de uma despesa não significa a obrigação de gastar aquele montante, significa apenas um limite. Não posso ultrapassar aquele limite, mas não sou obrigado a chegar lá", é o lema de Centeno no que se refere ao OE.

Isto é, os partidos da geringonça estão todos contente com as suas medidas estarem no OE 2019, mas algumas são despesas que Mário Centeno inscreve como teto máximo, mas que se for necessário não concretiza essas despesas que não são obrigatórias. Portanto os ministérios têm verbas inscritas no OE que nada garante que possam usar.

A estatística da execução orçamental é que dita a verdade do OE.

Faltam também receitas nos documentos do OE, segundo Lobo Xavier, logo o Ministro joga com uma carga fiscal que será provavelmente maior, e a despesa inscrita só vai ser usada na medida em que o défice fique nos 0,2% ou menos.

Já agora acrescenta-se outra medida dada à esquerda, mas nem tanto:

Depois de várias declarações a anunciar, nomeadamente de um acordo entre o BE e o Governo, a descida do IVA na cultura de 13% (a taxa intermédia) para 6% (a taxa mínima), a proposta concreta do OE 2019 detalha que esta descida só se aplica ao que for "realizado em recintos fixos de espetáculo de natureza artística". Ou seja se o concerto acontecer num espaço público o IVA mantêm-se a 13%.

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Finanças rules, quem manda é o Mário Centeno

por Maria Teixeira Alves, em 26.10.18

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O facto de a UTAO (Unidade Técnica de Apoio Orçamental) ter constatado que há 590 milhões nas despesas que constam nos mapas da Proposta de Lei do Orçamento de Estado para 2019, do que aquilo que Governo diz no relatório do Orçamento e que por isso o défice deveria ser de 0,5%. O Governo veio dizer que é um "procedimento habitual".

O que é que de facto se passa? António Lobo Xavier foi bastante elucidativo sobre o que este tema.  Os técnicos da UTAO dizem que o saldo orçamental para 2019 é revisto em baixa no montante de 0,3 p.p. do PIB, passando da cifra -0,2% do PIB projetada na POE/2019 para -0,5% do PIB. Têm razão.

Quando Mário Centeno diz que o PIB vai ser 0,2%, também tem razão, porque o défice está construido de modo a serem as Finanças que decidem qual será o défice no fim do ano. Pois as despesas a mais que estão inscritas no OE, são limites, não vinculam a gastos obrigatórios. Portanto o truque de Mário Centeno é inscrever despesas a mais no OE. Despesas discricionárias, que pode não cumprir, e depois se as receitas previstas não se cumprirem Centeno não cumpre as despesas em nome do défice.

"A inscrição de uma despesa não significa a obrigação de gastar aquele montante, significa apenas um limite. Não posso ultrapassar aquele limite, mas não sou obrigado a chegar lá", é o lema de Centeno no que se refere ao OE.

Isto é, a geringonça está toda contente com as suas medidas estarem no OE 2019, mas algumas são despesas que Mário Centeno inscreve como teto máximo, mas que se for necessário, essas despesas que não são obrigatórias vai cortá-las. Portanto os ministérios têm verbas inscritas no OE que nada garante que possam usar.

A estatística da execução orçamental é que dita a verdade do OE.

Faltam receitas nos documentos do OE, o Ministro joga com uma carga fiscal que será provavelmente maior, e a despesa inscrita só vai ser usada naquela dimensão.

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Serralves é maior do que os lobbies das minorias

por Maria Teixeira Alves, em 28.09.18

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Ana Pinho merece ser defendida de um ataque orquestrado por alguns que falam em “censura”, usam uma suposta defesa da liberdade quando no fundo o que estão mesmo a defender neste episódio são as causas minoritárias, que defendem ao ponto de subjugar o bom senso e a sanidade mental a campanhas dessas minorias, que só a eles interessa.

Obviamente que dentro da rica obra do Robert Mapplethorpe, há uma parte da obra que invoca a homossexualidade e o sado-masoquismo, e essa deve ser reservada apenas a quem a quiser ver. Interdito a menores de 18 anos é o mínimo.

Eu mesma, maior de 18 anos, não quero ver essas fotografias e não quero ir a Serralves e tropeçar inadvertidamente nessas fotografias. Lamento.

O que me parece que aconteceu, na realidade e por detrás do pano, é que João Ribas ofendeu-se com essa interdição em nome de uma causa minoritária que é a sua, mas de que nós não queremos saber para nada.

Serralves é muito maior do que este senhor Ribas.

Shame on you João Ribas.

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A esquerda portuguesa é uma espécie de Stasi

por Maria Teixeira Alves, em 14.08.18

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 Ao ver a indignação da esquerda portuguesa ao convite de Marine Le Pen para oradora da Web Summit, e a pressão da imprensa portuguesa  sobre o governo para pedir explicações, lembrei-me daqueles tempos em que a Stasi queimava livros e proibia a publicação de outros. Tudo em nome de uma higiene cultural que tomavam como certa e justa.

A esquerda portuguesa está a fazer o mesmo quando quer proibir a presidente do partido francês Frente Nacional de ser oradora da Web Summit. Isto apesar da organização, em nome da defesa da pluralidade de opinião, ter defendido a sua presença. A pressão da esquerda levou Paddy Cosgrave a passar a batata quente da decisão tirana de proibição para o Governo português.

Caminhamos para um mundo onde os Republicanos nos EUA deixam de ser considerados legítimos para governar, a direita europeia deixa de poder ter espaço de opinião. Qualquer dia proíbem o CDS de falar em público (em nome duma higiene cultural qualquer). Vão proibir países com líderes de direita de estar na União Europeia. Um passinho mais e começam a queimar os livros de autores de direita, ou, mais higiénico, a proibir as livrarias de os vender.

Tiranos!

 

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A propósito das inúmeras insinuações que por aí pululam sobre alegados "interesses escondidos" por detrás da notícia do Jornal Económico sobre Ricardo Robles e que culminou com a sua demissão de vereador da CML, lembrei-me de uma história do Independente. 

Miguel Esteves Cardoso era diretor do jornal quando, a propósito de uma notícia sobre o então presidente de Angola, recebeu uma carta de uma das filhas, não me lembro se seria a Isabel, a acusar o Independente de estar ao serviço de interesses escondidos contra José Eduardo dos Santos, a acusar o jornal de perseguição ao pai dela, and so on...

Miguel Esteves Cardoso brilhantemente respondeu numa nota de redação que acompanhou a publicação da carta: "Fomos apanhados!".

É o que apetece responder agora, porque aos desconfiados não vale a pena contrariar. Vão continuar a desconfiar e ainda usam as justificações que são dadas a seu favor

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Ricardo Robles do Bloco de Esquerda, vereador da Câmara de Lisboa, é um empresário do imobiliário (notícia revelada pelo jornal onde trabalho). Mas é o mesmo Robles que em discurso exaltado diz que "orgulhamos-nos do 25 de Abril e do que se passou a seguir ao 25 de Abril, naqueles 11 meses, orgulhamos-nos das ocupações, orgulhamos-nos das nacionalizações, orgulhamos-nos das cooperativas de habitação, orgulhamos-nos da reforma agrária".

Ora este seguidor do PREC, devia dar os seus bens para a "cooperativa". Será que o Estado pode ocupar o seu património, a começar pelo prédio que era da Segurança Social e recuperou multiplicando por seis vezes o seu investimento (dele, da irmã, dos pais e do periquito, não interessa)?

É que estes meninos que defendem o PREC deviam ser os primeiros a viver como franciscanos e a ceder o património ao Estado, para "cooperativas de habitação", não?

Eu como defensora da propriedade privada, do lucro e do capitalismo, defendo até o direito ao Robles ter comprado um prédio velho em hasta pública (desde que a hasta tenha sido mesmo pública), tenha investido na recuperação e o venda por 5 ou 6 milhões se conseguir. Eu defendo esse direito dele. Ele pelos vistos não o defende.

A coerência é cada vez mais um luxo, que só as pessoas verdadeiramente de bem se podem orgulhar.

P.S. O pior que aconteceu a Portugal foi o PREC, que derreteu todo o capital acumulado ao longo de gerações. Devemos ao PREC o endividamento privado do país, o facto de as grandes empresas serem hoje quase todas detidas por estrangeiros, devemos a incultura e impreparação das nossas elites e devemos até a queda aparatosa do BES e do GES. Um país que não tem commodities, e que deixou de ter capital acumulado ao longo das gerações (e basta olhar para os nossos palácios e casas apalaçadas para sabermos que o país já foi rico) é um país condenado à pobreza e ao endividamento. Ninguém ganhou com isso. O Estado não se tornou mais rico. A maioria das empresas públicas foram colossos de prejuízos.

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Marcelo foi infantil, superficial, soberbo e absurdo. Foi superficial quando trouxe o tema do vinho da Madeira para a conversa, como que a querer situar o seu interlocutor na importância de Portugal na história dos Estados Unidos. Foi infantil quando trouxe o tema Ronaldo para a conversa, como quem traz na lapela uma medalha de honra. Foi soberbo quando reagiu à piada de Trump (que esteve bem em entrar no tom jocoso, uma vez que Marcelo não levou temas sérios para a conferência de imprensa) querendo insinuar que a política portuguesa é que é a sério ao contrário da norte-americana, e foi absurdo (e isto foi mesmo o pior) quando fez questão de dizer em conferência de imprensa que tinha estado com Putin e que este lhe mandara cumprimentos (como se o presidente russo precisasse de Marcelo para enviar cumprimentos a Trump), claramente a pôr-se em bicos de pés entre dois gigantes mundiais.

Via-se claramente que Marcelo se esforçou para se tornar importante aos olhos Trump, o que é uma reacção típica de quem não é. 

Resta a  Marcelo a interpretação favorável que se fez cá no burgo. Marcelo em Portugal foi aplaudido e elevado em ombros pela sua prestação na conferência de imprensa com Trump (o que é um sinal de como Portugal vive numa espécie de Caverna de Platão, que toma as sombras pela realidade). 

Vejam a conferência de imprensa do Primeiro-Ministro holandês Mark Rutte com Trump que se seguiu e comparem a postura e maturidade do chefe de Governo da Holanda com a do nosso chefe de Estado.

P.S. Só o penteado de Trump (o que é que o senhor fez ao cabelo?) no encontro com Mark Rutte retira seriedade ao momento. 

 

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António Costa entre a alquimia e a utopia

por Maria Teixeira Alves, em 26.05.18

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O secretário-geral do PS, que é também primeiro-ministro do país, fez um discurso triunfalista no 22º Congresso do PS. Um discurso marcadamente ideológico de 42 minutos a fazer lembrar outros líderes duradoiros da história. Claramente está para ficar. 

António Costa tem orgulho em ter aprovado o casamento gay e adopção, a liberalização do aborto, e prepara-se agora para aprovar a eutanásia (mais uma medida na cultura da morte).

Do seu discurso saliento alguns paradoxos: António Costa quer familias gay e abortos e ao mesmo tempo quer familias a procriar para inverter o saldo demográfico.  

Isto é, em nome das liberdades individuais defendeu o casamento gay e a adopção de crianças, e a liberalização do aborto. Mas alertou para o grave problema demográfico que faz com que “em 2060 não seremos 10 milhões, mas sim 7 milhões”. Ora alguma vez Costa pensou no efeito pedagógico das leis que defende? 

Se uma coisa está na lei, no limite é o mesmo que dizer que é a regra, ou seja é o comportamento a seguir. Mas se todos o fizerem lá se vai a demografia. 

Mais à frente no discurso defendeu a família. António Costa disse que é preciso “criar condições de estabilidade do emprego, do acesso à habitação para que as pessoas possam constituir família e terem bons serviços de apoio social que lhes permitam ter filhos”. 

Costa garantiu querer criar condições para aumentar a natalidade. No entanto as políticas que vão promover a natalidade são apenas ideias, e as políticas que o PS aprovou em primeiro lugar são as que vão pedagógicamente em sentido contrário, em nome das "liberdades individuais", que são soberanas.

Penso que a crise das familias não é apenas fruto da falta de dinheiro, é também fruto da crescente e gradual destruição da instituição, é fruto de uma mudança de mentalidades no sentido do individualismo e da misantropia.

Depois não posso deixar de realçar o paradoxo deste país e desta ideologia. Pois a única medida fraturante aprovada, que gerava natalidade (reprodução medicamente assistida) é barrada com a estupida regra de dar o direito às crianças de conhecer os pais-doadores. O que inviabiliza a medida imediatamente. Para já no falar do custo de tal medida.

 

Mais à frente no seu discurso no Congresso Costa adianta que é preciso criar condições para as pessoas formarem família (referindo-se, imagino eu, ao conceito de família de direita: pai, mãe e filhos), mas diz que isso não chega para inverter o saldo demográfico e por isso defende políticas ativas de migração para que os portugueses não partam (o que é curioso num assumido europeísta) e criar também condições para atrair imigrantes, para ter um saldo demográfico mais equilibrado. Até aí tudo muito bem. De facto é preciso criar condições para recebermos estrangeiros que queiram viver em Portugal. Mas lá está, a seguir cai noutro paradoxo. Ao dizer que essa política ativa de imigração se faz “combatendo um discurso xenófobo e racista” está a situar o tipo de imigração que defende.

Mas afinal Costa quer a imigração para aumentar a natalidade num contexto de empregos sólidos e adequadamente remunerados, como defendeu ao longo de todo o discurso, ou quer a imigração como bandeira de solidaridade social e quer imigrantes sem trabalho e que em vez de melhorar a sustentabilidade do Sistema Nacional de Saúde do país e o desenvolvimento económico o vai degradar?

Reparem na diferença do que disse Costa para o que disse uma vez António Horta Osório. O banqueiro disse "é preciso criar políticas de imigração inteligentes" e citou os casos de Singapura, Canadá e Austrália, que promoveram a recepção de imigrantes nas áreas em que mais precisavam. A população dobrou em 20 anos e a economia cresceu. "Se não fizermos isso estaremos dependentes do rácio reformados versus pessoas ativas", disse referindo-se à relação entre população ativa e o crescimento da população.

António Horta Osório não falou em combate à xenofobia, falou em abrir a porta a políticas de imigração inteligentes, seletivas e confinada a áreas em que o país precisa, para fomentar o crescimento económico. O que António Costa propõe ou parece defender em termos de imigração só em sonhos cria crescimento económico.

Costa não quer apenas essa política para Portugal defendeu também uma Europa solidária com os refugiados e que saiba “partilhar esse encargo entre todos”. Como é que se compatibiliza isso com mais e melhor emprego, e mais remunerado? Não sabemos.

Analisemos o outro argumento. É óbviamente desejável manter os portugueses em Portugal, porque é um sinal que o país cria oportunidades de realização profissional. Mas um país que tem quatro ou cinco bancos e meia dúzia de empresas, onde os salários mínimos sobem, para gáudio do líder socialista, mas os salários médios estagnam ou descem face à inflação, que condições é que existem para os portugueses se manterem em Portugal? Quando os ordenados não chegam sequer para alugar uma casa, ou comprar.

Admitiu também que é preciso manter as novas gerações em Portugal e para isso é preciso que as empresas paguem melhores salários. Maiores salários e mais salários para as mulheres para combater a desiguladade. Mas também quer aumentar a produtividade das empresas. Mas como? Não disse. Outra alquimia de Costa é o querer a revolução digital [que serve para melhorar o desenvolvimento do país, mas que irá fazer desaparecer muitos empregos] e querer ao mesmo tempo quer manter os atuais empregos e mais bem remunerados. 

“Honramos-nos  de ter criado o Rendimento Social de Inserção",disse. Vangloriou-se de ter aumentado as pensões, o salário mínimo. Depois anunciou a política de modernização das infraestruturas e o investimento nas Ferrovias. “Queremos fazer na ferrovia o esforço que no passado fizemos na Rodovia e nas infraestrutura de telecomunicações”. António Costa disse mesmo que “temos o maior programa de investimento na ferrovia dos últimos 100 anos”.

Disse também que "não basta que a lei diga que somos todos iguais, temos de ter as mesmas oportunidades” e adiantou ser um desígnio “que o Estado assegure condições de igualdade de acesso a todos os bens públicos essenciais”. 

“Temos de continuar a trabalhar para defender o Serviço Nacional de Saúde”, foi uma das mensagens deixadas por Costa. Ora a realidade é que os portugueses pagam para o Serviço Nacional de Saúde e depois pagam os seguros privados se querem ter bons médicos e rapidez de atendimento, e com isso resta-lhes ainda menos dinheiro disponível para formar família e inverter a demografia. Mas para o socialismo o que importa é a igualdade. 

Todos estes gastos do Estado e ainda assim Costa garante que “enfrentámos a dívida com uma gestão rigorosa das finanças públicas dando ao país o menor défice da nossa democracia, e começando a reduzir a dívida e juros e mobilizando o dinheiro na edução, saúde, transportes públicos e serviços públicos”.

O líder do PS conclui que se há algo que se podia orgulhar é que “com o seu governo” tinha acabado o mito que só a direita é que consegue gerir a economia e as finanças públicas, numa retórica abertamente triunfalista.Mas Costa camufla o aumento da carga fiscal em tudo o que compramos (por exemplo na gasolina, mas não só, nas roupas, na comida, nos impostos imobiliários, etc) e que acaba com o poder de compra das classes médias. Mas para Costa “o PS é o partido que melhor governa a economia e as finanças públicas”. 

E lá diz o slogan: "foi possível virar a página da austeridade sem sair do euro”.

A ideia mais coerente que lhe saiu foi quando citou o socialista francês Mitterand: “O socialismo continua a ser a ideia mais jovem do mundo”. 

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EDP: Uma OPA mais do que esperada

por Maria Teixeira Alves, em 11.05.18

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A China Three Gorges lançou hoje uma OPA - Oferta Pública de Aquisição - à EDP para ficar com pelo menos 50% mais uma ação.  Entre muitas outras condições, os chineses, que já têm (directa e indirectamente) 28,25% disseram no anúncio preliminar divulgado ao mercado, que a OPA sobre a EDP está condicionada à não oposição do Governo de Portugal. Tratando-se a EDP de uma empresa privada, esta condição dá algumas pistas sobre esta operação.

Ainda estamos longe do desfecho desta operação que foi hoje preliminarmente anunciada, mas parece bastante óbvio que está a ser preparada nos bastidores há meses. Há mais de um mês o Jornal Económico escreveu que os Chineses iam reforçar na EDP até ao fim do ano, para enfrentar a vaga de fusões que se estava a desenvolver na Europa. Isso teria ser feito através de uma OPA (até porque os chineses já estão perto do limiar mínimo de 33,3% da OPA obrigatória). Os chineses podiam ter comprado em bolsa até ultrapassarem os 33,3% e a OPA nessa circunstância surgiria por imposição da CMVM, mas isso não estava nos planos dos chineses. Os chineses não iam lançar uma OPA em confronto com o Governo, ou não fossem os chineses por ADN reverentes ao seu Governo.

É mais do que expectável que as conversas com o Governo português não começaram há dois dias. Os chineses nunca avançariam para esta OPA sem o conforto do primeiro-ministro.

Isso explica a rapidez de reação à Reuters de António Costa: "O Governo não tem nada a opor", disse António Costa e adiantou mesmo que os chineses "têm sido bons investidores em Portugal".

Agora o que se  vai passar?

Há uma bateria de autorizações a serem concedidas (incluindo a DG Comp europeia, que não morre de amores por acionistas chineses em empresas europeias) para que a OPA seja registada. Há uma Assembleia Geral a ser convocada para alterar os estatutos (os votos da EDP estão blindados a 25%). Falta ainda a posição formal da administração da EDP (a posição de António Mexia é uma incógnita porque pode não se manter como presidente se a OPA tiver sucesso). Há os fundos internacionais que são acionistas da EDP (o BCP que tem 2,44% está com os chineses, pois é o intermediário financeiro) e que os chineses têm de convencer a vender na OPA (o prémio oferecido é baixo, 4,82%, devemos assistir no futuro a uma revisão do preço). 

Esta OPA tem uma caracteristica que em tempos vimos na OPA da Sonae sobre a PT. É que se vai decidir numa Assembleia Geral para votar a mudança de estatutos. 

Depois esta é uma OPA transformacional. Vai mudar a sociedade portuguesa e vai ser o tema dos debates políticos e dos jornais durante largos meses.

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Estava eu a ouvir a Graça Franco, diretora de informação da RR, que comentava o salário mínimo numa altura em que a CGTP exige uma nova subida para os 650 euros (mais 70 euros face ao valor atual), quando achei que devia ficar registada uma análise verdadeiramente inteligente. É pouco comum um comentário jornalistico tão elucidativo.

Graça Franco começou por dizer que a proposta da CGTP não deve passar na Concertação Social. Mas, acredita Graça Franco, o salário mínimo alguma coisa vai aumentar, lembrando que o Governo pode impor o valor do salário mínimo da economia, legislando, mesmo apesar da Concertação Social. A comentadora acredita que ficará um salário mínimo entre a proposta da CGTP e a da UGT.

Mas quando falou do impacto na economia é que se revelou verdadeiramente elucidativo. "Nesta altura já cerca de 750 mil trabalhadores com o salário mínimo (mais de um quinto da população)", disse a comentadora. Portanto a subida do salário mínimo afecta hoje mais as finanças públicas do que no passado, pois há mais trabalhadores da função pública com o salário mínimo, disse.

Depois recorda que Centeno (no seu livro) defendia que um salário minimo demasiado elevado é desincentivador do emprego. O nosso salário mínimo é baixo. 

"O que existe na economia portuguesa é uma contração dos salários médios", disse Graça Franco. "Estamos a subir o salário mínimo, mas os outros salários não sobem na mesma proporção". Isto é, estamos a descer o salário médio da economia. Isso tem um efeito desincentivador do trabalho do ponto de vista dos quadros médios. Graça Franco diz que temos investigadores, engenheiros, jovens licenciados a ganhar pouco mais do que o salário mínimo, o que leva à emigração dos jovens. 

Do ponto de vista do consumo a subida do salário mínimo até teve um impacto positivo no crescimento económico, admitiu Graça Franco.

"No entanto hoje vieram más notícias da Europa, a primeira proposta de quadro orçamental é de redução de 6% dos fundos de coesão e de 5% da PAC. Portugal é muito beneficiado pelos fundos de coesão", lembrou.

A Comissão Europeia apresentou a proposta de orçamento para 2021/ 2027, que vai obrigar a uma maior contribuição dos Estados devido à saída do Reino Unido da UE e a cortes em políticas que favorecem Portugal, como os Fundos de Coesão e a Política Agrícola Comum.

 

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Novela 1 - Lula

Os portugueses estão a viver intensamente a evolução do processo judicial do Lula da Silva. Os telejornais acompanham ao minuto, choram com os apoiantes do Partido Trabalhista (de esquerda, claro). Os comentadores nem tentam disfarçar que são independentes na análise. São verdadeiros activistas contra os tribunais e a favor da libertação de Lula. A maioria da esquerda (UGT até fez um comunicado) portuguesa sofre genuinamente com a condenação do ex-presidente do Brasil, membro do partido trabalhista (de esquerda, claro). Pedem que a lei não seja cumprida. Isto é, que Lula da Silva não seja preso após o julgamento de todos os recursos na segunda instância. Estão revoltados contra a decisão do juiz federal Sérgio Moro que deu um prazo até as 17 horas desta sexta-feira, dia 6, ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para se apresentar "voluntariamente" à Polícia Federal em Curitiba, que é a polícia encarregue da investigação da Operação Lava Jato.

Tudo porque o Luiz Inácio Lula da Silva alegadamente "tirou milhões de pessoas da pobreza durante seus dois mandatos como presidente do Brasil" (esquecem-se de dizer que foi tudo a crédito bancário). Mas Lula é o herói dos trabalhadores. No entanto também comandou um dos governos mais corruptos na história do país. Mas isso a esquerda prefere não acreditar.

Lula foi condenado (e bem) a 12 anos e um mês de prisão no processo do caso triplex do Guarujá. Ou seja, a justiça provou que Lula recebeu cerca de 3,7 milhões de reais em subornos da construtora OAS, num triplex do Guarujá, num esquema relacionado com a empresa brasileira Petrobrás, sendo a primeira condenação do ex-presidente no processo Lava Jato.

Os portugueses gostam muito de sofrer com os heróis dos descamisados, mesmo que sejam bandidos. Roubar aos ricos, nem lhes parece mal.

 

Novela 2 - Letizia

A outra novela que move os portugueses é o vídeo de Espanha em que se vê a Rainha Letizia a impedir (de forma irritante) que as suas filhas tirem uma fotografia com a avó, a Rainha emérita Dona Sofia. Os espanhóis não gostaram da forma como a Rainha de Espanha tratou Dona Sofia, a monarca emérita, à saída da Missa de Páscoa, em Palma de Maiorca. Mas não são só os espanhóis, não há português que não esteja irritado com a Rainha de Espanha por causa da sua pouca educada atitude para com uma Senhora mais velha.

Aquilo pareceu-em uma ciumeira da Rainha Letizia face à sogra. Claro que se os espanhóis dizem mata, os portugueses dizem esfola. Vivem a novela como se Letizia fosse Rainha também de Portugal (os portugueses não ligam nenhuma à família real portuguesa, mas vibram com a espanhola). Claro que sendo a Letizia plebeia e tendo vindo de uma família mais pobre, o seu gesto é aproveitado para a menorizar.

É para mim mais do que óbvio que aquela cena de Letizia a pôr-se à frente das filhas para não deixar a avó tirar uma fotografia com as netas, não tem nada a ver com o seu background social. Já vi cenas de igual nível em pessoas de todos os meios. Mas claro as pessoas  aproveitam as suas circunstâncias para a menorizar. Foi malcriada? Foi. Mas quem diz que se tivesse nascido condessa, não podia perfeitamente, em situação de irritação, fazer o mesmo? O que não falta para aí são pessoas a perder as estribeiras e a ter atitudes grotescas com outras que não gostam, não querem gostar ou deixaram de gostar. Nem tudo é determinado pelo meio social.

Ironia: os portugueses adoram o filho do povo Lula, mas odeiam a filha do povo Letizia. Conclusão. Uma mulher que ascende socialmente é imperdoável. Um homem que ascende socialmente é um herói. Pode até dar-se ao luxo de ser corrupto. "Rouba mas faz", diz a voz popular.

E ainda vêm com igualdade de género e outras ideias feministas. Poupem-me.

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As reformas da esquerda

por Maria Teixeira Alves, em 30.03.18

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 O Governo desta geringonça de esquerda não é tido como muito reformista. Os governos reformistas foram, quase sempre, de direita e foi durante os governos de direita que se fizeram a maior partes das grandes reformas (como por exemplo a reforma fiscal de Cadilhe com a criação do IRC e IRS). 

Mas ao atual Governo não faltam as chamadas reformas "gauche", como este disparate, que faz capa do Expresso desta semana.

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Ainda me lembro do que os partidos de esquerda disseram quando as entidades estatísticas competentes vieram dizer que o défice das administrações públicas em 2015 foi de 4,4% (7.893 milhões de euros), por causa da operação de resolução do Banif que provocou um agravamento do défice de 1,4% do PIB em 2015, mais do que o inicialmente estimado que apontava para 1,2% a 1,25% do Produto Interno Bruto (PIB). E que por isso nesse ano Portugal terá fechado o ano nos 4,4%, um número pior do que inicialmente esperado. Isto com a resolução do Banif a contribuir para este desfecho.

"O anterior governo PSD/CDS “mais uma vez não cumpriu os objectivos do défice que se propunha atingir, apesar de todos os sacrifícios impostos aos portugueses”, algo que aconteceu “sem surpresa”, apregoaram.

Agora a recapitalização da CGD eleva défice de 2017 para 3% e a esquerda vira-se (e o Ministro das Finanças que é Presidente do Eurogrupo, pasme-se, veio dizer que o Eurostat estava errado) contra o gabinete de estatística. 

Os 3.944 milhões de euros que foram injectados no banco público serão totalmente reflectidos no défice do ano passado, elevando-o para 3% do PIB. É um erro, diz a esquerda.

A esquerda o que diz? Diz que se excluirmos esse efeito o défice foi de 0,9%, abaixo da meta do Governo revista em Outubro que apontava para 1,4% de défice. Agora já conta o argumento que antes não contava para o Governo de Pedro Passos Coelho. Os contributos one-off já não são importantes.

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"Esta é uma bancada de oposição"

por Maria Teixeira Alves, em 01.03.18

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Estive hoje a ouvir o debate quinzenal no Parlamento, foi o primeiro debate quinzenal de Costa com o novo líder da bancada do PS, Fernando Negrão, fiquei desconcertada com os elogios rasgados de António Costa a Fernando Negrão e vice-versa. A partir daí tudo me pareceu encenação.

"Queria começar por agradecer as palavras que dirigiu à nova banca do PSD na semana passada" apresentou-se assim Fernando Negrão.

António Costa, que fez os agradecimentos da praxe a Pedro Passos Coelho e a Hugo Soares, dirigiu-se então a Negrão: "Os últimos são os primeiros (...) queria saudar a forma como vê este debate, não como um duelo quinzenal, mas como fazendo parte do exercício democrático (...) e é com gosto que vejo estes debates retomarem a normalidade". Retomarem a normalidade?! Isso significa que se tinha perdido a normalidade? Quando?

Fernando Negrão teve depois um momento muitíssimo nobre quando deu um cumprimento especial a Pedro Passos Coelho e dizer-lhe que "a História saberá fazer-lhe justiça". Aplaudido pelos centristas e pelos social-democratas. 

Depois começou a sua intervenção a dizer "Senhor primeiro-ministro será possível nas grandes questões de interesse nacional nós dialogarmos e chegarmos a acordo" e mostrou a "disponibilidade da banca", o que é uma introdução, que diga-se de passagem, na augura grande oposição no debate, mesmo que depois tenha dito entre elogios ao primeiro-ministro socialista que ia "fazer oposição firme". Veja-se o que disse Fernando Negrão: "Senhor primeiro-ministro obviamente também quero cumprimentar todo o Governo, mas queria dizer-lhe que esta é uma bancada da oposição e sendo uma bancada de oposição irá exercer essa oposição com firmeza", soou a desculpe caro amigo, mas vou ter de o confrontar aqui em público.

As perguntas que o novo líder da bancada do PSD escolheu para se estrear no debate foram sobre a entrada da Santa Casa no capital do Montepio. O tema não é mau, mas as perguntas foram bastante fracas e facilmente rebatidas e de forma inteligente pelo "adversário político" formal, António Costa (mas que pelos elogios à entrada na prática mais parecia mais um aliado).  

"Contamos com um maior contributo do PSD para uma cultura democrática, que demonstre que a condição de se ser adversário em política não é idêntica à condição de se ser inimigo", disse também Carlos César.

Entre tanta troca de galhardetes faço minhas as palavras de Sebastião R. Bugalho no Twitter: @reis_bugalho

É bom que o PSD (ou este novo PSD) entenda que todos estes elogios do PS e do Governo têm visado uma coisa: diminuir quem estava antes.

 

P.S.Fernando Negrão disse a certa altura que "Espanta-me um governo de esquerda tomar esta decisão de entrada da Santa Casa no Montepio)". Eu, correndo o risco de estar posição divergente com a direita, digo que a mim espanta-me que a direita se oponha tanto a este negócio de compra de uma participação no Montepio. Pois se tiver racionais económicos porque não? Não vejo uma grande diferença moral entre ficar acionista da Caixa Económica Montepio Geral e ser monopolista nos jogos de sorte e azar, sinceramente. Nesse aspeto dou razão a António Costa.

A mim o que mais me preocupa na entrada da Santa Casa no banco Montepio é se os propósitos são políticos e se a estratégia está a ser desenhada num compadrio de "amiguismo" em vez dos racionais económicos. Se o negócio é combinado e se as avaliações servem apenas para justificar a operação desenhada nos corredores da política e da cumplicidade destes com alguns gestores. Isso já acho mais preocupante. Agora que a Caixa Económica precisa de acionistas que ponham dinheiro no banco em futuros reforços de capital lá isso precisa. 

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Um Albergue Espanhol

por Maria Teixeira Alves, em 26.02.18

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A melhor definição do que se passa no PSD veio da mais insuspeita voz: Luís Marques Mendes referiu-se, na SIC, ao PSD de Rui Rio como um Albergue Espanhol. 

Isso acontece normalmente aos sucessores de líderes fortes, que, querendo marcar a diferença face ao antecessor entram numa ruptura desenfreada com o passado provocando cisões irreparáveis. O PSD está desnorteado.

Antevejo que depois de Pedro Passos Coelho o PSD faça uma grande travessia do deserto.

António Costa está para durar, o PS no Governo está para durar, e, lembrem-se, do que ao contrário do que acontece com as autarquias, não há limite de mandatos para primeiro-ministro.

Está tudo muito indignado com  o fim do limite de dois mandatos para a liderança da China porque vai alargar a abrangência e horizonte do atual Presidente chinês, Xi Jinping.

“Xi Jinpin conseguiu finalmente atingir o seu maior objetivo desde que chegou à política chinesa, que é ser o Mao Tsé-Tung do século XXI”, comentou o analista político Willy Lam, da Universidade Chinesa de Hong Kong, referindo-se ao fundador da China comunista.

Ora com a atual situação do PSD, com a direita à deriva, e com António Costa a bailar entre agradar à esquerda e a Bruxelas, corremos o risco de ter o nosso Mao Tsé-Tung.

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Costumo dizer, em conversas de café, que o pior que aconteceu a Portugal foi o PREC - Período Revolucionário em Curso. Porque as nacionalizações selvagens delapidaram o capital acumulado ao longo de gerações, e isso explica que no pós-25 de Abril, o regresso dos capitalistas tenha sido feito com recurso a dívida bancária (o que explica em grande parte o desfecho do Grupo Espírito Santo). Um país que tem séculos de história e não tem capital acumulado é um país condenado à dependência externa, sempre à mercê das conjunturas económicas envolventes (sobretudo porque em alternativa Portugal não tem commodities, como petróleo ou gás).  

Mas, não se pense que o período do Estado Novo foi um paraíso saudoso. Pelo contrário. A par com a pujança económica e com a ode à vida em família (que trazia felicidade), o Estado Novo era um lugar de segregação social terrível, e isso gerou dentro de si a semente do PREC. Foi ao perpetuar as clivagens de classe que se criou a revolta que culminou com as ocupações selvagens. Era absolutamente tirana a estratificação social. Não porque não houvesse em termos económicos uma espécie de classe média, essa podia haver, até porque havia as colónias e enriquecia-se nas colónias, mas porque havia uma imobilidade social. A estratificação social era tão rígida e estava tão enraizada nas mentalidades, que dura até hoje. Portugal, nesse aspecto, é, ainda hoje, um dos países com pior qualidade de vida social. Os preconceitos sociais perduraram para lá de outros que facilmente são derrubados perante a influência externa,  de um certo conceito de "modernidade". Portugal é moderninho, mas continua provinciano até hoje. 

A prova que vivemos durante os anos 80, 90, 2000 agarrado a esses conceitos snobs da realidade, foi o sucesso que fez o "Independente" de Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas, onde o mais apreciado eram as críticas sociais a Cavaco Silva (ao bolo de rei, à meia branca e aos chinelos na praia). O Independente afirma-se pelas críticas sociais e trouxe ao de cima a realidade: em Portugal gozar com o outros era um certificado (bacoco) de superioridade. Eu estava lá (fui jornalista do Independente, mas de Economia) quando a capa era uma fotografia aos pés da família de Cavaco Silva a ir para a praia de chinelos. Aquilo que para mim era infame para a redacção do Independente era um regozijo. Mas era o retrato do país.

Tudo isto se pode ler hoje num artigo do Henrique Raposo.

Portanto serve isto de introdução para elogiar o óptimo artigo de hoje da Revista do Expresso de Henrique Raposo sobre Vasco Pulido Valente, e que sobretudo é um retrato dessa época de atraso social, mais social do que material. 

 

O calendário cronológico marcava Novembro de 1941, mas o calendário moral e social de Portugal ainda estava em Oitocentos. Portugal era uma máquina do tempo, uma ficção reaccionária conhecida por “salazarismo”. Era este oitocentismo que dava a Portugal aquele ambiente exótico que impressionava os visitantes anglo-saxónicos. E repare-se que o exotismo do atraso era mais moral do que material. Na Lisboa de 1954, aquilo que mais impressionou a escritora Mary McCarthy não foi a pobreza material, os pés descalços e o rosto tisnado do marçano, mas sim as relações sociais marcadas por um snobismo que parecia de facto congelado no século XIX e imune à americanização e à democratização das sociedades europeiasO que espantava americanos, ingleses e até espanhóis era a brutal distância entre os senhores doutores e o povo. Era como se os senhores portugueses não fossem de facto portugueses, mas estrangeiros destacados para esta terra estranha e bárbara e com a incumbência de colonizar e educar estes pobres indígenas conhecidos por “portugueses”.

Havia uma separação moral e emocional entre a elite e o tal indigenato que se desbarretava à passagem dos senhores doutores. Vasco Correia Guedes, futuro Vasco Pulido Valente, era um filho desta elite. Do lado paterno, os Correia Guedes eram uma família conotada com as direitas e até com o regime. Do lado materno, os Pulido Valente eram a realeza do reviralho republicano. Criado nesta gaiola dourada, Vasco nunca se demarcaria da patine snobe e cínica em relação a Portugal. Não era por acaso que “os indígenas” era a sua expressão de eleição para descrever os portugueses. Não era por acaso que desprezava esta finisterra com frases que copiavam a boutade de Byron, “lusian slave, the lowest of the low”.

(...)

O nacionalismo bacoco e abstracto do salazarismo (do Minho a Timor) escondia a ausência de capital social, isto é, a ausência de comunhão entre as diferentes classes. Numa palavra, não havia patriotismo. Os diferentes grupos sociais acabam por olhar uns para os outros, não como diferentes classes de um corpo comum, mas sim como espécies diferentes sem qualquer chão comum. Esta era uma sociedade radicalmente desigual, radicalmente snobe. No Alentejo, as famílias terratenentes diziam que “os feitores sabem como lhes hão de falar [aos trabalhadores], nós não”. De esquerda ou de direita, os filhos da elite não se davam com os filhos do povo. A distância era total, quase palpável; os garotos nem sabiam falar uns com os outros. Se por acaso conversassem ou brincassem, essa interacção também era regida pela frieza: o filho do caseiro tinha de tratar o filho do patrão não por “João” mas por “menino João”. Era por isso que o “menino João” podia abusar da criada no quarto dos fundos: esse abuso era como se não existisse, pois era cometido fora do perímetro da classe.

(...)

Em 2018, vivemos tempos de absoluta dispersão pós-moderna, há literalmente centenas de narrativas no ar com aparente igualdade moral e epistemológica; em 1967 ou 1977, respirava-se em Portugal um clima de absoluta concentração da validade moral e epistemológica numa única narrativa, o comunismo, o marxismo, a vulgata. Se hoje em dia é preciso coragem para defender uma crença clássica (ex.: catolicismo) no meio da dispersão e do ‘engraçadismo’ pós-moderno que coloca a sofisticação intelectual apenas e só no cesto da descrença e do cinismo, naquela época era preciso coragem para atacar a crença hegemónica — o marxismo. Nos anos 60, 70 e mesmo 80, recusar a vulgata marxista implicava ser ostracizado nas aulas, nos cafés, na carreira intelectual.

(...)

V.P.V. foi o pioneiro da rebeldia contra esta prisão mental. O seu lugar na história na geração que fez a transição do Estado Novo para a democracia deve-se a esta coragem precoce.

(...)

V.P.V. lutou contra o neorrealismo em defesa de um módico de honestidade intelectual: a filiação partidária e ideológica do escritor não deve entrar na análise que fazemos ao seu trabalho. Contudo, a luta contra o neorrealismo também lhe deixou um vício intelectual que está ligado ao meio social daquela Lisboa minúscula e oitocentista: o snobismo. Neste sentido, há que olhar com redobrada atenção para uma experiência fundamental da juventude de V.P.V., uma experiência ainda mais antiga do que “O Tempo e o Modo” — a revista “Almanaque” (1959-1961).

A “Almanaque” era dirigida por Cardoso Pires e contava com a colaboração de Sebastião Rodrigues, Abel Manta, Luís de Sttau Monteiro, Augusto Abelaira, José Cutileiro, Alexandre O’Neill e Vasco Pulido Valente. A revista tinha uma atitude relaxada de bon vivant que chocava de frente com a fria austeridade dos neorrealistas. O neorrealismo defendia que um livro ou autor só poderia ser considerado sério ou sofisticado se estivesse comprometido com a consciencialização social e revolucionária. Contra esta obtusidade comunista, a “Almanaque” assumia-se como um roteiro de curiosidades da vida urbana, uma espécie de “Time Out”. Apostava na fruição da vida, não na austeridade comunista; abordava temas como roupa, comida, carros e até automobilismo. Se Cardoso Pires foi aqui a referência estilística de Vasco, Sttau Monteiro foi a referência para o desenvolvimento da pose do intelectual aristocrático que não se deixava dominar pela estética da alfaia agrícola.

(...)

Ao recusar os excessos do neorrealista, V.P.V. entrou no extremo oposto, o extremo da petulância snobe que recusa colocar os pés no pó da vulgaridade.

(...) 

 

A elite e os indígenas

Lido à distância, o boçal snobismo do “Independente” é ainda mais estranho: como é que a velha soberba snobe, com aquele traço de lorde oitocentista, ainda foi a tempo de ser a base do (alegado) renascimento da direita portuguesa dos anos 80 e 90? Como é que os (alegados) renovadores da direita portuguesa se limitaram a dar uma roupagem pop e pós-moderna aos velhos tiques snobes? E o que assusta é que este orgulhoso snobismo do “Independente” teve um sucesso estrondoso, revelando como as elites dos anos 80 e 90 não tinham mudado muito em relação às elites de 1950. Há um ponto de ligação entre o “Almanaque” dos anos 50/60 e de esquerda e o “Independente” dos anos 80/90 e de direita. Na verdade, como tem dito António de Araújo, a grande clivagem da sociedade portuguesa não é ideológica ou religiosa, é social ou socialite; a clivagem não é entre direita e esquerda, crentes e não crentes, é entre as pessoas que alegadamente têm pedigree e as pessoas que alegadamente não têm esse pedigree. Elites versus “indígenas”.

 Felizmente, o Miguel Esteves Cardoso da velhice e das entrevistas (que me parece mais interessante do que o Esteve Cardoso da meninice e das crónicas) já fez um espantoso mea culpa: “Fomos muito pirosos nisso (ataque a Cavaco e a cavaquistas). Ao princípio, achávamos graça à meia branca, era uma espécie de bullying armado em snobe, de que me arrependo. É muito foleiro, mas éramos novos. Era desagradável o que fazíamos (...) Hoje arrependo-me imenso. E gozar com a condição social da pessoa, com o gosto da pessoa, não é nada conservador (...) Cavaco nunca pôs um processo, nunca chateou, nunca mandou uma carta, mesmo quando foi muito maltratado, foi impecável (...) Essas pessoas com que gozávamos, como o Macário Correia, acabavam sempre por ganhar, porque eram superiores.”

(...)

Se quiser ser digna de respeito, se quiser ser lida e ouvida, a direita deve reconstruir as suas bases a partir desta autocrítica. Ser conservador não é o mesmo que ser snobe. Será que a direita em 2018 está disponível para seguir o Miguel Esteves Cardoso da velhice?

(...)

Numa das entrevistas da velhice [Vasco Pulido Valente], até teve a candura ou coragem para reconhecer que gostava da pequenez da capital dos anos 50 e 60. A elite lisboeta, segundo Vasco, era um mundo “familiar, quase doméstico” em que toda a gente se conhecia pelo nome.

 

 Jornal Expresso, 10 de Fevereiro de 2018

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