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Umbilicus Mundi

por Pedro Picoito, em 04.10.18

No fundo, o que eu queria era ficar no meu canto, com os meus livros, a minha música e o meu cachimbo. Os clássicos davam o nome de aurea mediocritas a esta quietude contemplativa, e parece-me bem mais áurea do que o desassossego estéril a que tantos chamam vida. Mas não posso desentender-me da sorte dos outros, até porque a defesa da liberdade de todos é também a defesa da minha liberdade. A democracia em que acredito, fruto imperfeito das grandes revoluções modernas, prometeu-nos com a cidadania o direito à felicidade. Está na Declaração de Independência americana. É essa a sua força e a sua fraqueza. Porque não há nada que mais separe os homens do que a felicidade. Nenhuma bússola indica o caminho, nenhuma lei traduz na língua do quotidiano a gramática do absoluto. Sim, alguns falam em bem comum, mas receio que seja no sentido de vulgar, não de colectivo. O poder doce e omnipresente que cresce à sombra dos egoísmos, como o descreveu Tocqueville.

Deveria ser de outro modo? Não creio. Dou-me bem com esta anomia, embora sinta por vezes a nostalgia da cruzada. Por exemplo, quando querem impor-me a novilíngua de turno como se fosse a revelação divina. Deus não morreu, ao contrário do que ameaçava Nietzsche: minimizou-se em milhões de trolls e passeia na brisa da tarde das redes sociais. Nada tenho contra a descoberta do próprio umbigo. Segundo a Declaração de Independência, trata-se de uma viagem tão legítima como a ida à Lua ou a Jerusalém. Mas já tenho alguma coisa a dizer sobre o erro de rota de quem descobre o centro do mundo no próprio umbigo. Ir à Lua ou a Jerusalém obriga a partir, a sair de casa, a cruzar mares e céus distantes. E cruzar mares e céus distantes é também uma forma de cruzada. Pouco exaltante, já se sabe. Afinal, não passa de combater umbigos. Mas o que assim se ganha é nem mais nem menos do que a liberdade de pensar. Também está na Declaração de Independência. 

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4 comentários

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De Anónimo a 08.10.2018 às 12:27

Caro Pedro Picoito
Dizem os esapnhóis que não acreditam ..."mas que los há, há!"
Ainda à poucos dias dias comentava o teu "desaparecimento", e o espaço que ficara por preencher.
Bem vindo á tua casa: todos ganhamos com este retorno da contemplação e do cachimbo.


Um abraço


Vasco Silveira
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De Pedro Picoito a 08.10.2018 às 14:05

Obrigado, Vasco.Um abraço
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De Anónimo a 08.10.2018 às 15:26

prometeu-nos com a cidadania o direito à felicidade

Direito à felicidade não; direito à busca da felicidade.
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De Anónimo a 08.10.2018 às 20:40

sim, tem razão.

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