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Uma questão de decência

por henrique pereira dos santos, em 12.05.22

A minha associação profissional, de que até fui dirigente mas de que hoje nem sócio sou, mandou-me um mail a lembrar-me que passam hoje dez anos sobre a morte de António Viana Barreto.

Tive a sorte profissional de ter alguma proximidade a alguns dos melhores pensadores portugueses da arquitectura paisagista em Portugal, Caldeira Cabral, com quem estive na direcção da Associação Portuguesa de Arquitectos Paisagistas, Álvaro Dentinho, com quem nunca trabalhei (eu sei, eu sei, alguns dirão que terá sido uma condição sine qua non para ter dele a imagem que dele tenho, dados o seu e meu feitios), Ilídio de Araújo, com quem aprendia mais numa manhã pela estrada fora que em meses de proximidade de gabinete, Robert de Moura, com quem estagiei e que me ensinou a ver Trás-os-Montes, fora o resto, Alexandre Cancela de Abreu, que eu diria ser o meu professor de referência e, com grande proveito, Viana Barreto, o mais discreto e mais sólido de todos, mesmo que não tivesse a profundidade de Caldeira Cabral aqui e ali, a criatividade de Álvaro Dentinho, o conhecimento visceral do mundo rural de Ilídio de Araújo, a inquietação intelectual permanente de Robert de Moura e a influência pedagógica de Cancela de Abreu (não incluo nesta pequena lista a minha amiga Teresa Andresen exactamente porque neste caso se misturam os planos profissional e pessoal, do que resulta uma relação pessoal diferente da de todos os outros, que evidentemente diminui a objectividade do que eu pudesse dizer sobre o assunto).

Bebendo do fértil corpo teórico de Caldeira Cabral, é Viana Barreto o que melhor soube ligar toda a profissão nos seus primeiros anos, o que soube encontrar respostas teóricas e práticas para os problemas que iam surgindo, sendo o principal responsável teórico por instrumentos como a Reserva Ecológica Nacional e a política de ordenamento do território do país (não tendo, evidentemente, qualquer responsabilidade na caricatura que dela fizeram hoje, tornando-a um passivo para o país, e não um instrumento de discussão do futuro).

Ao neto, Francisco Salvação Barreto, igualmente paisagista (arquitecto-paisagista, diria a primeira geração da minha profissão, no mesmo sentido em que um limpa-chaminés não é nem limpa, nem chaminés), ficamos a dever esta tese que contém uma entrevista muito interessante, de que transcrevo um parágrafo sobre o primeiro projecto do estagiário que tinha acabado de chegar ao seu lugar de trabalho: “Sim também tinha chegado ao Ministério das Obras Públicas, um projecto do então Director-Geral dos Monumentos Nacionais. Ele tinha criado uma alameda desde a Torre de Belém até à Avenida da Índia, com estátuas dos Descobridores de ambos os lados. Que era o que se fazia na altura. Não digo nem mal, nem bem mas não era a minha visão. A minha solução foi totalmente oposta. Foi não fazer aparentemente nada e deixar brilhar a Torre de Belém. Era procurar acessos e pontos de vista sucessivos que valorizassem os diversos pontos de observação, visto que estamos perante as “traseiras” da Torre e não do alçado principal, porque esse está virado para o rio. Basicamente pretendia-se enquadrar a Torre com uma mancha de vegetação. A única coisa que se deixava separado era um conjunto de três exóticas a indicar o caminho de Goa.

Felizmente ainda fui a tempo de deixar muito claro a Viana Barreto o quanto sempre gostei dele e o respeito que tinha por ele, incluindo algum inconformismo pela forma como, frequentemente, a sua natural e educada discrição permitia que fosse injustamente tratado, em especial como principal projectista do Jardim da Gulbenkian, em Lisboa. 



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