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A posse de animais de companhia, salvo em casos especiais dos cães-guia e outros do mesmo tipo, não tem qualquer valor social em si, embora possa ser uma imensa fonte de prazer para quem os possui.
À medida que as ideias dos direitos dos animais vão crescendo (esquecendo-se, a maior parte das pessoas, que a base filosófica que lhes é inerente é em grande medida construída a partir do filósofo ultra-utilitarista Peter Singer, isto é, baseia-se em considerações éticas utilitaristas, embora entendidas numa base biocêntrica e não antropocêntrica) vale a pena discutir as implicações sociais que decorrem dessas ideias.
Nenhum animal evoluiu para estar fechado numa casa horas seguidas, totalmente moldado aos interesses dos seus donos, por mais bem tratados que sejam esses animais. Jane Godall, absolutamente insuspeita de falta de respeito pelos direitos dos animais, lembra numa entrevista (de que infelizmente não encontro o registo) que o touro criado em liberdade para uma tourada tem os seus interesses mais bem defendidos que os cãos e gatos que são totalmente condicionados aos interesses dos seus carinhosos donos, excepção feita no caso do touro, naturalmente, aos momentos entre a sua retirada do campo e o fim da tourada.
À medida que os contribuintes disponibilizam ambulâncias para animais feridos (CM de Oeiras), que o serviço de saúde gasta rios de dinheiro a tratar as vítimas dos ataques de animais (com certeza, tal como no caso das armas, a responsabilidade é dos donos dos animais, não dos animais, mas o efeito prático é pôr os contribuintes a pagar os cuidados de saúde daí resultantes), que os contribuintes irão pagar os efeitos da aprovação de legislação que impede o abate de animais em canis e gatis municipais, que os tribunais vão perder horas a discutir a responsabilidade pelos animais que sobram de um casamento desfeito, que a mortalidade provocada em aves por gatos domésticos é de milhões de indivíduos por ano, que os cães assilvestrados são um gravíssimo problema de conservação da natureza em algumas zonas, que uma boa parte do esforço de pesca acaba em rações para animais (não necessariamente de companhia, mas também desses), que o gasto de recursos na gestão destes animais pesa nas contas da sustentabilidade, que as restrições à caça ou às touradas implicam diminuição de sustentabilidade de actividades produtoras de serviços de ecossistema que passam a ter de ser financiados pelos contribuintes, importa perguntar qual é a razão social, de interesse público, que justifica que a posse gretuita de animais para simples recreio dos seus donos, pondo os impostos de todos, incluindo os mais pobres, a pagar as externalidades negativas da posse destes animais.
A menos que se consigam descobrir ganhos sociais que eu não consigo ver, e aceitando o princípio de que a posse de animais de companhia não deve ser restringida desde que não ponha em causa, directamente, direitos de terceiros, parece-me que está na altura de tratar fiscalmente as externalidades negativas da posse de animais de companhia, agravando a factura dos impostos para quem tem animais de companhia.
A ideia de que a protecção dos animais é irmã da ideia de protecção da natureza é uma ideia completamente errada: a factura da proteção dos indivíduos é muito alta para a protecção das espécies, para a sustentabilidade do planeta e para todos os contribuintes, incluindo todos os que não podem ou não querem ter animais de companhia.
Eu acho que é bom debater tudo, mas seria importante saber o que se está a debater, afinal, e eu ainda não descobri. Parece-me estar aqui a assistir a uma coisa extraordinária nos últimos dias. Primeiro, o João Távora faz um post em que faz uma ligação entre pessoas que têm animais de companhia e a falta de amor pelas pessoas, enfim, um requintado e sofisticado estudo psicológico das pessoas que têm animais de companhia.… Estão a tardar aqueles costumeiros comentários sobre o amor do Hitler pelos animais… depois, o Henrique, ataca já não com o argumento psicológico, abrindo outra frente: o argumento financeiro, que normalmente termina com o argumento de que são os pobrezinhos que pagam com o seu parco dinheiro rios de dinheiro com animais de companhia dos outros. Sim, que ter animais de companhia é um privilégio da classe média lisboeta que vota no bloco de esquerda; os pobres não têm nada disso.
E isto tudo, na sequência da aprovação de uma lei que finalmente reconhece uma coisa óbvia: que é diferente dar um pontapé num objecto, ou abandoná-lo, do que fazer a mesma coisa a um animal.
Eu tenho dois gatos, fico à espera que me façam a análise psicológica e financeira desta minha mania.
João Távora, não sei qual a realidade que conhece ou, pelo menos, que acha que é representativa. O João Távora, começa por referir-se aqueles que dizem “Quanto mais conheço a humanidade mais gosto do meu cão”, e depois faz uma análise psico-filosófica (à falta de melhor termo) sobre a relação entre o dono e seu animal e uma suposta incapacidade de amar e de ser amado e faz tremendos juízos de valor sobre essas pessoas. Eu, como não gosto de juízos genéricos, reagi. Conheço histórias de pessoas com animais e de pessoas sem animais e nunca consegui, nem quero, fazer análises por atacado sobre as suas motivações.
Existem de facto pessoas que vivem sós com os seus animais. Muitas vezes, por circunstâncias diversas, é essa a sua única companhia, mas isso não nos diz nada sobre a sua relação com os outros, se são ou não boas pessoas, se ajudam ou não os outros. Uns sim, outros não. Do mesmo modo, há pessoas que não têm animais e são uns trastes para os outros. Da minha experiência, que só vale para mim, quem maltrata animais têm a tendência para também não ser bom para os seus semelhantes.
Henrique, eu acho muito bem que se contem as externalidades, o que cada um gasta ao estado e esmifra o seu próximo. Sou todo pelo rigor das contas, mas sendo assim, deve ser-se exaustivo e rigoroso. É que cada um de nós produz externalidades, não é assim…? Ora aí está um bom exercício de vigilância cívica.
Descobri agora que deve haver uma longa rúbrica do orçamento do estado dedicado a quem tem animais, com previsões de cobrança fiscal que devem ser estratosféricas, porque também descobri entretanto, pelo relatório aqui do Henrique, que estamos assolados por animais domésticos, todos, de todas as formas possíveis e imaginárias, a ocupar o tempo do Estado e a gastar à pala dos bons cidadãos que, em vez de terem animais, vão visitar os doentes aos hospitais e ajudam os pobres.
Eu quero descansar o Henrique e toda a gente preocupada, porque só tenho dois gatos que nunca saem de casa e nunca obtive subsídio de alimentação para nenhum. Quando um deles me arranhar, prometo que vou fazer o penso a uma clinica particular.
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