De JPT a 24.09.2020 às 10:05
Já pensei decididamente assim (e ainda o creio, em teoria), mas, depois, cresci. O triste facto é que, se um regime não garantir a segurança dos cidadãos (física e patrimonial) ele é substituído. E é substituído porque não serve. As democracias liberais capitalistas anglo-saxónicas e escandinavas subsistem desde o Século XVIII, porque sempre conseguiram cumprir essa premissa, mas, por exemplo, as francesas e a primeira república alemã não o conseguiram - e já nem falo na Europa do Sul, Central e Oriental, ou nos demais continentes. Antes de mais, o que as pessoas querem é que os seus filhos tenham um vida segura, sem fome, com trabalho e sem violência. A justiça, as liberdades, os direitos sociais, tudo isso se torna relativo sem que esse essencial esteja garantido. A ditadura chinesa garante aos cidadãos "cumpridores", para lá da ordem e segurança que o país não conhecia há 150 anos, um nível de vida que, há 40 anos, seria inimaginável, sendo que, relativamente aos uigures (por quem tenho toda a solidariedade) limita-se a repetir o processo de sinização que construiu o império. Se o dinheiro da Europa não viesse, e prosseguisse o regabofe das nossas elites, e com a crise viesse o caos, com greves, carestias, tiros e bombas, num instante teríamos uma ditadura, e, durante duas gerações, nenhum português teria saudades da democracia, senão os descendentes dessas elites, e os fanáticos dos "amanhãs que cantam". Aconteceu há 94 anos, e, num mundo em que seja cada um por si pode, perfeitamente, acontecer outra vez.
De Anónimo a 24.09.2020 às 14:59
Portanto, posso concluir: o que temos é apenas uma democracia aparente, que só se vai mantendo presa por fios de arame, enquanto vier o dinheiro da Europa. É ele que vai segurando esta muito singular democracia de "regabofe das elites". Belo regime temos, então!
A nossa democracia, o nosso regime é uma lastima. Mas preferível a um regime autocrático. No nosso caso ainda podemos ter esperança de mudar!
De Anónimo a 24.09.2020 às 16:31
Mas entretanto... pelo caminho, vão fazendo bastantes estragos.
De Anónimo a 24.09.2020 às 15:44
É sua a conclusão de que a democracia é "aparente". É um regime como outro qualquer, uma construção jurídica para assegurar o exercício do poder pelas classes dominantes, viável enquanto assegurar o funcionamento viável da sociedade. A ideia que a democracia tem força para se sustentar, sem que a sociedade funcione - apenas por força da sua "superioridade moral" - é a meu ver, fruto de ingenuidade ou de falta de estudo da história (ou, claro, fruto do cinismo que é essencial para quem pratica a política em democracia). Conclui bem quando entende que a minha opinião que, sem dinheiro, a democracia ruiria em todo o lado, e, cá em Portugal, face ao absoluto descrédito e evidente venalidade da "classe política", cairia em menos de nada.
De Anónimo a 24.09.2020 às 22:09
Digo "aparente" no sentido em que ela não é plena, genuína. Designamos o nosso regime como uma democracia apenas por convenção, para facilitar a sua categorização segundo os padrões disponíveis onde ele pudesse ser "arrumado". Mas os critérios estão nos mínimos. Aí também concordo consigo, de facto a nossa democracia está desacreditada. Diz também que vivemos fragilmente, que ao mínimo sopro este edifício, ou esta construção, que é inconsistente, pode ruir e que tal se deve, em parte, à venalidade e mediocridade da classe política, mas eu acrescento: também à falta de exigência, de apuramento, de vigilância e participação activa dos cidadãos, sem a qual não funcionam as democracias. Note que essa não comparência dos cidadãos são razões bastantes para que a "classe política" se sinta incólume e a pairar numa espécie de hiperestrato inatingível onde se coloca a salvo das atribulações e maçadas a que o escrutínio sempre as sujeitaria.
Em linguagem mais chã, vivem protegidos, "na bolha" e nós temos pactuado por omissão. Para não ir mais longe, veja como se têm tolerado os casos de corrupção. E é apenas 1 (um) exemplo. Quantos mais?