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Uma grande perda

por José Mendonça da Cruz, em 19.11.19

Morreu o cantor e compositor José Mário Branco e será característico que durante dias sejamos fustigados com excertos apressados de «mudam-se os tempos, mudam-se as vontades», e recomendações de que «a canção é uma arma».

O Presidente da República lamentou a perda de um músico «importante para a democracia». A ministra da Cultura disse que o seu legado «é intemporal e é património coletivo». 

Não é uma coisa nem outra. A democracia afirmou-se sem ele e até contra ele, e o seu legado é datado e minoritário. Mas não tinha que ser assim.

Um dos elementos mais presentes na obra de José Mário Branco é a criação de grandes peças musicais subjugadas por textos extremistas e violentos. A canção não foi «uma arma contra a burguesia», que somos todos nós. A canção foi um serviço ideológico. E assim mesmo se menorizou, celebrando revolucionários, torcionários e genocidas, e suscitando quando muito leve e passageira irritação no seu alvo putativo.

A perda de José Mário Branco deve ser lamentada como a perda de um grande talento que se auto mutilou, que se pôs às ordens de agendas menores. Quem quiser ouvir uma amostra do que esse talento poderia ter sido deve ouvir «Gare de Austerlitz». É uma peçazinha instrumental de menos de 2 minutos, uma composição aparentemente simples, mas que abraça e nos transmite (e assim nos move) todos os sentimentos da emigração - a saudade, a esperança, a estranheza, o medo, a descoberta. Na «Gare de Austerlitz» -- o mais fundo e sentido do fado transmitido pelo mais doce do acordeão parisisense -- há mais grandeza artística, mais amor ao próximo, mais generosidade e talento do que em toda a obra de José Mário Branco. Foi pena.



4 comentários

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De Anónimo a 19.11.2019 às 20:26

Entendo a escolha; estava mudo!
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De Sarin a 20.11.2019 às 02:11

Parece ignorar que José Mário Branco não compôs apenas para si. Que durante muitas décadas fez arranjos musicais e produziu os discos de vários músicos sem agenda política. Que se dedicou à Música Popular Portuguesa.
José Mário Branco não se auto-mutilou - escolheu um caminho. E nunca se negou a colaborar com outros que fizeram caminhos distintos.
Reduzi-lo às canções de intervenção que lhe não apreciava é negar-lhe ou ignorar-lhe uma parte importante do que também foi. É pena.
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De Anónimo a 20.11.2019 às 16:44


José Mendonça da Cruz,
Bom texto. Muito seguro. Muito real.
O homem foi um bom músico, mas foi um péssimo avaliador da espécie humana. Neste aspecto não passou de um vulgar/reles comuna, com todo o desprezo que o comunismo suscita. Não se pode ser bom em várias áreas... Bom exemplo daquela velha frase que: aos 18 anos mostra que se tem coração; mas aos 40 anos mostra que não se tem cérebro.

ao
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De Anónimo a 24.11.2019 às 21:28

Daqui por dez anos já ninguém sabe ou se lembra deste comuna, agora tão ventilado nos "média".
Pode ter sido um grande artista, mas o seu pendor comunista fez dele apenas mais um bardo adepto de um sistema iníquo, sanguinário, despótico e vampiresco.
Paz à sua alma e que fique por lá "per omnia saecula, saeculorum". 

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