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Um país que não aprende

por henrique pereira dos santos, em 10.06.18

Em 1759 os jesuítas eram expulsos de Portugal, por muitas razões, e ainda hoje se invoca, no ensino escolar, o carácter modernizador do ensino impulsionado pelo Marquês de Pombal.

O que é mais difícil de encontrar são referências ao efeito das políticas de ensino do Marquês de Pombal em Portugal: uma redução do número de alunos em qualquer coisa como 90% (não, não me enganei num zero, são mesmo noventa por cento, o que se pode dizer é que é uma estimativa que pode ter algum erro, mas a ordem de grandeza não deve andar longe), uma redução brutal na qualidade do ensino e um quase bloqueio do acesso ao ensino pelos mais pobres (com os jesuítas havia algum acesso dos mais pobres ao ensino, embora muito limitado como era corrente na época).

Portugal só voltaria a ter o mesmo número de alunos na escola por volta de 1930.

O país, não contente por destruir uma vez a quase totalidade do ensino, e em especial, o ensino de qualidade, em nome de ideias sobre um futuro muito melhor, resolveu reforçar a dose, embora de forma bastante mais limitada (porque também a influência dos Jesuítas já era muito menor no ensino em 1910), voltando a fechar colégios dos Jesuítas, fechando várias das melhores escolas do país, como o Colégio de Campolide ou o de São Fiel (que ardeu este ano, no meio dos fogos de Verão, depois de anos de abandono e incúria por parte do Estado).

Mais uma vez o que se destruiu em nome de um mundo novo no ensino não foi substituído, e só muito a custo, várias décadas mais tarde, já com o Estado Novo, parte da destruição do melhor ensino do país estaria sanada.

O país, não contente, está agora, a uma escala mais reduzida, numa nova campanha de destruição de escolas exemplares em nome de ideias certas, como a secularidade do Estado e coisas que tal.

Mais uma vez substitui-se ensino de qualidade por uma promessa de qualidade futura e um presente bem menos risonho, embora agora as consequências sejam, felizmente, muito mais limitadas para o país, mas, como sempre, tem nos mais pobres (aqueles que precisam mais de boas escolas e bons professores) os mais prejudicados.

Não me choca o fecho de escolas, não acho que exista qualquer direito de cada uma das escolas ter o Estado a garantir o seu funcionamento, mas choca-me que as decisões sobre o assunto, em especial, custos, qualidade pedagógica e resultados dos mais pobres e frágeis, estejam simplesmente ausentes de avaliações sérias das decisões tomadas.

Até hoje o Governo foi incapaz de demonstrar que o fim dos contratos de associação representam qualquer ganho para os contribuintes, qualquer ganho pedagógico e qualquer reforço da capacidade da escola reforçar a mobilidade social.

E, aparentemente, isso não é já, sequer, uma questão de debate político, caiu naquela zona cinzenta em que tomar decisões é uma prerrogativa arbitrária cujas consequências não é preciso avaliar e discutir.



13 comentários

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De Luís Lavoura a 11.06.2018 às 15:00

O governo não anda a encerrar escolas. O governo simplesmente utiliza uma mesma bitola para todas as escolas privadas (boas escolas ou má escolas): elas devem ser pagas por quem as frequenta.
É uma política correta, em meu entender. Se uma escola privada é supérflua face à oferta pública existente, então o Estado não a deve subsidiar. Mesmo que essa escola privada até seja melhor do que as públicas.
Ou então adopte-se a política contrária mas, se o fizer, que se o faça em todo o país - não somente em certos casos particulares.
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De Henrique Pereira Dos Santos a 11.06.2018 às 16:28


Luís, compreendo o teu argumento de que apenas os ricos devem ter direito a escolher a escola onde andam.
Mas como sou favorável à maior mobilidade social possível e, tanto quanto a qualidade do ensino, é importante a rede social que se estabelece na escola para se aceder a meios sociais diferentes dos que se trazem de casa, discordo absolutamente dessa defesa de um sistema de ensino dual em que os ricos escolhem o que querem, os pobres não podem escolher, mesmo que isso signifique menos dinheiro gasto aos contribuintes como acontecia em muitas escolas que o governo não fechou mas obrigou a fechar para pagar o apoio do PC ao governo.
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De Luís Lavoura a 12.06.2018 às 09:34

compreendo o teu argumento de que apenas os ricos devem ter direito a escolher a escola

Como é claro do meu post, eu não disse tal coisa.

Eu o que disse é que todas as escolas privadas devem ser tratadas da mesma forma. Não devem ser umas escolas privadas privilegiadas relativamente às restantes.

Eu habito em Lisboa e não tenho aqui nenhuma escola com contrato de associação na qual colocar os meus filhos. E acho muito injusto que outros pais, noutras zonas do país, tenham.

sou favorável à maior mobilidade social possível

Os pais que colocam os seus filhos no ensino privado não são. Quase sempre, a principal motivação para um pai colocar o seu filho no ensino privado é impedir que esse filho esteja na escola com jovens de outras classes sociais, com problemas educativos ou comportamentais, etc. A maior parte das escolas privadas (incluindo, suspeito bem, as com contrato de associação) tratam de oferecer aos pais isso que eles querem.
Tenho um primo que colocou os filhos numa escola com contrato de associação (em Mogofores) e aquilo que ele me disse foi, precisamente, que o fez porque nessa escola os jovens eram menos problemáticos e o seu filho não estava nela sujeito a más companhias.

discordo absolutamente dessa defesa de um sistema de ensino dual

Eu também discordo, Henrique. Se o Henrique defender um sistema de vouchers, eu estou consigo. Todas as escolas para todos os alunos. Agora, um sistema dual em que umas escolas são privilegiadas e as outras não, com isso não posso concordar.
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De Henrique Pereira Dos Santos a 12.06.2018 às 15:12

Luís, o centro do sistema de ensino são os alunos, não as escolas. Estou-me nas tintas para as escolas serem tratadas ou não de forma igual, o que me interessa é se os alunos mais pobres e frágeis têm maior ou menor desfasamento nas oportunidades face aos ricos
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De Luís Lavoura a 12.06.2018 às 15:23

Henrique, os contratos de associação favorecem os alunos de algumas escolas privadas relativamente aos alunos de outras escolas privadas. Há em Lisboa montes de meninos que gostariam de frequentar uma escola privada mas não podem porque não têm dinheiro para pagar a propina, enquanto que meninos de alguns (muito poucos) outros sítios do país podem frequentar escolas privadas. Há também muitos pais ricos que colocam os seus filhos em escolas privadas mas não as pagam, enquanto que outros pais remediados gastam que se desunham para terem os seus filhos em escolas privadas.
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De henrique pereira dos santos a 12.06.2018 às 16:53

Acabando esses contratos os meninos pobres que os usavam para ter acesso a melhor ensino e redes sociais mais alargadas deixam de o poder fazer, os meninos ricos continuam a poder fazê-lo e o que te parece relevante é que nem todos possam ter as mesmas possibilidades portanto é todos os meninos pobres terem a mesma falta de alternativa.

É um ponto de vista, por mim preferia que o mundo fosse perfeito, mas enquanto não é o meu critério é simples: se mais meninos pobres têm mais oportunidades é bom, se menos meninos pobres têm mais oportunidades, é mau.
Tu preferes que haja menos meninos pobres a ter oportunidades desde que sejam as mesmas oportunidades para todos, eu acho que só pensas assim porque sempre tiveste a liberdade de escolher o que achaste melhor em cada momento.
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De Anónimo a 12.06.2018 às 16:45

"compreendo o teu argumento de que apenas os ricos devem ter direito a escolher a escola

Como é claro do meu post, eu não disse tal coisa."



LOL, Lavoura, é um truque do Henrique;)
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De henrique pereira dos santos a 12.06.2018 às 17:31

Não é truque nenhum, é absolutamente claro que estou a levar às últimas consequências o argumento de quem quer escolas diferentes que as pague.
Como é evidente, com este argumento, a escolha só existe para quem tem dinheiro: todos temos o direito teórico de frequentar o Ritz, mas o direito substancial só existe para quem tenha dinheiro para isso.
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De Luís Lavoura a 11.06.2018 às 15:02

<i>o fim dos contratos de associação representam qualquer ganho para os contribuintes, qualquer ganho pedagógico e qualquer reforço da capacidade da escola</i>

Pode não representar nada disso, mas representa uma medida elementar de justiça: passar a tratar todas as escolas privadas da mesma forma, em vez de privilegiar algumas escolas privadas em relação às restantes.
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De Henrique Pereira Dos Santos a 11.06.2018 às 16:24

Nada contra tratar todas as escolas por igual, eu acho que deviam ter todas, privadas ou estatais, contratos de associação e fechar quando não têm alunos que as justifiquem, sejam elas privadas ou estatais.
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De Luís Lavoura a 12.06.2018 às 09:38

eu acho que deviam ter todas, privadas ou estatais, contratos de associação

Porreiro, Henrique. Estou de acordo. Mas, os contratos de associação existentes, que abrangem uma minoria muito minoritária da totalidade das escolas privadas existentes, nada têm a ver com esse objetivo. Nem a ele conduzirão, porque foram concedidos consubstanciando um privilégio, uma injustiça e, em certamente muitos casos, no seguimento de corrupção.
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De Narciso Baeta a 11.06.2018 às 18:41

“A maré da mediocridade avança pela sala de aula vinda do oceano, que é a sociedade no seu todo” – Lewis H. Laphiano
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De hajapachorra a 12.06.2018 às 01:24

Quem não sabe é como quem não vê. Todos os colégios dos salesianos fecharam ou vão fechar, excepto o colégio do Estoril, que com mensalidades entre os 400-600 euros obviamente não precisa de contratos de associação. Os colégios dos pobres em Poiares ou Mogofores são encerrados, o dos ricos mantém-se. Todos sos colégios dos jesuítas, à excepção do São João de Brito, que tb não precisa de contratos de associação, estão condenados. os pobres do Vale do Ave ou dos arredores de Cernache ficam sem escolas de qualidade. Os ricos de Lisboa continuam a ter colégios de elite. As dúzias de colégios de congregações femininas fora do Porto e Lisboa fecham, mantêm-se obviamente os colégios dos Cedros, das Escravas, do Rosário para os betos da Foz, mais os Planaltos e Doroteias para os queques lísbios. Este governo socialista vai ficar na história como aquele que abrasileirou de vez o nosso ensino: no ensino básico e secundário os pobres andam nas péssimas escolas públicas e os ricos nos colégios privados; no ensino superior os ricos vão para as melhores universidades públicas e os pobres para universidades do interior ou para chafaricas privadas. E sim, o Henrique tem razão: o nosso atraso cultural e científico devêmo-lo a esse déspota que tem a mais alta estátua de Lisboa. Hoje isso é pacífico entre os especialistas. Não tem razão quanto ao acesso limitado dos pobres ao ensino. Na verdade o ensino nos colégios dos sécs. XVI-XVII era gratuito, nos dos jesuítas e nos de outras ordens religiosas. O Colégio das Artes, por exemplo, no final do séc. XVI tinha mais de dois mil alunos não jesuítas... E o exemplo vinha de cima. Dando continuidade a políticas de D. João II e D. Manuel, o tão injustiçado D. João III mandava todos os anos 50 bolseiros para Paris, bolseiros pobres, plebeus quase todos, de origens humílimas. 

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