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Um exemplo de discussão irracional

por henrique pereira dos santos, em 06.11.18

Com a informação que tenho neste momento, a Quercus está a considerar uma proposta feita de compra de alguns terrenos seus, no Tejo Internacional.

Primeiro uma declaração de interesses: eu sou presidente (no máximo, por razões estatutárias, até ao fim do ano que vem) de uma associação de conservação que, essencialmente gere terrenos para a conservação da natureza, seus e de terceiros e, portanto, terei sempre interesse directo nesta venda por duas razões: 1) À partida somos sempre um potencial comprador destes terrenos, ou de outros, com objectivos de conservação; 2) A percepção de que a compra de terrenos para a conservação é um investimento pouco seguro porque as associações os podem vender a qualquer momento, afecta com certeza a nossa capacidade para mobilizar recursos para a compra futura de terrenos. É certo que nos estatutos da associação em que estou mais envolvido tivemos o cuidado de estabelecer: "Artigo 28º(Deliberações) 1. Salvo o disposto no número seguinte, as deliberações da Assembleia Geral são tomadas por maioria absoluta dos votos dos associados presentes. 2. Em conformidade com o disposto no número 2 do artigo 62.º do Decreto-Lei n.º 119/83, de 25 de Fevereiro, é exigida a maioria qualificada de, pelo menos, dois terços dos votos dos associados, expressos na aprovação de matérias referentes à análise e votação de propostas submetidas pela Direcção para a venda ou alienação de qualquer património imobiliário, acções ou participações propriedade da Associação, bem como as referentes a deliberações sobre alterações de estatutos".

Em segundo lugar, um pouco de enquadramento.

Fui, durante muitos anos, sócio da Quercus (inclusivamente fundador de um dos seus núcleos) e saí em ruptura com uma direcção que, na sua ânsia e hábito de contestar politicamente tudo e mais alguma coisa que pudesse trazer mais presença da Quercus numas linhas de jornal (e de influência política), resolveu pôr em causa o trabalho técnico dos meus colegas do ICNF na delimitação da rede natura e, quando alertada para o absurdo do que estavam a dizer, não só não reconheceu o erro como, cobardemente, se recusou a ir ao terreno discutir os pontos de discórdia, que eram verificáveis.

Também são públicas as minhas críticas ao modelo de gestão das associações ambientalistas, mais ligado aos financiadores que aos sócios, mais preocupado com os jornais que com a realidade e, progressivamente, menos sustentado tecnicamente.

Estive directamente envolvido nos processos de que resultaram algumas compras de terrenos no Tejo Internacional (fui eu, por exemplo, que desenhei a solução financeira que permitiu à CGD emitir uma garantia essencial para o recebimento do financiamento comunitário que permitiu a compra do Monte Barata, fora o algum dinheiro que mobilizei para essa compra) e portanto não gosto da hipótese de se venderem terrenos que hoje estão, formalmente (se o estão de facto, não sei) consagrados à conservação.

O que me faz escrever este post não é esse desconforto, mas a forma emocional, pouco racional e desinformada com que está a ser feita esta discussão, semelhante ao que se passa no conjunto de outras discussões que envolvem o interesse público (seja ele prosseguido pelo Estado ou pela sociedade).

Já há quem diga que é o Monte Barata que está à venda (o que não é verdade) e outras coisas que tais.

O que está em causa é um conjunto de terrenos dispersos que calculo que a Quercus tenha dificuldade em gerir e controlar (há quem rasgue as vestes por se tratar de uma venda a uma entidade ligada à caça, mas não perca cinco segundos a perguntar se não há caça furtiva nesses terrenos e de que meios dispõe a Quercus para se opôr à eventual caça furtiva nesses terrenos), para os quais a Quercus recebeu uma proposta que resolveu considerar porque, tanto quanto me parece, no ano passado fez um grande esforço para comprar uma outra propriedade contígua ao Monte Barata, obtendo assim uma área substancial, com maior concentração e, consequentemente, mais gerível e com maior potencial de conservação.

Pessoalmente eu serei sempre contra vendas deste tipo, como princípio, mas admito sempre que as decisões finais dependam das circunstâncias e dos fundamentos para esta opção de gestão e deveriam ser essas circunstâncias (em que se inclui a situação financeira da Quercus, que não conheço em profundidade, mas também um melhor desenho das propriedades afectas à conservação que permita uma melhor gestão) mas custa-me muito que a discussão das opções possíveis saia imediatamente desse plano de racionalidade para o campo da pura histeria emocional.

Grande parte das pessoas que agora se indignam nunca fizeram rigorosamente nada, nem sequer pagar as quotas, para que estas associações tenham uma base de recursos mais sólida, nem foram exigentes com uma gestão progressivamente mais desligada a realidade.

E, sobretudo, incomodam-me as pessoas que tendo fortes responsabilidades na actual situação financeira da Quercus, e nos seus défices de democraticidade e de envolvimento e mobilização dos sócios e que depois de surpreendidos por uma derrota de eleitoral que os levou a ir fundar outra associação, com uns estatutos suficientemente pouco democráticos para não estarem sujeitos às surpresas da democracia, aparecem agora a lamentar as decisões dificeis de quem tem o barco nas mãos.

Estre caso é bem uma metáfora do país e do estado lamentável em que se encontra a discussão racional e civilizada dos problemas que são comuns a muita gente: a procura dos factos é muito limitada, o juízo emocional ilimitado.

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