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Um desastre anunciado

por João Távora, em 05.12.25

Velhice.jpg

Portugal atravessa uma transformação silenciosa e profunda que nos deveria inquietar a todos: o envelhecimento acelerado da sua população. Segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística, em 2024, cerca de 23% dos portugueses tinha mais de 65 anos, colocando o país entre os mais envelhecidos da Europa. Este fenómeno não se limita a números; traduz-se numa mudança estrutural na forma como vivemos, cuidamos e nos relacionamos nas comunidades urbanas e rurais.

A família portuguesa, outrora pilar de sustento e conforto na velhice, tem vindo a perder protagonismo. O aumento de famílias monoparentais, a perda de influência da Igreja Católica e do papel social das Paróquias, a dispersão geográfica dos membros e as exigências da vida moderna fragmentaram o tecido social que tradicionalmente apoiava os mais velhos.

O envelhecimento acelerado de Portugal revela-se não apenas uma estatística alarmante, mas uma tragédia que se desenrola debaixo dos nossos olhos. A cada dia, assistimos ao esvaziar das aldeias, aos bancos de jardim ocupados por rostos marcados pela solidão, e às casas iluminadas apenas pela luz da televisão, onde a ausência de companhia se faz sentir como um frio cortante. Hoje, demasiados dos nossos velhos vivem sozinhos ou em isolamento, privados do convívio e do suporte emocional que antes era garantido pela proximidade familiar.

As Paróquias mais robustas e as IPSSs esforçam-se por dar assistência domiciliar a estes náufragos sociais, e também por responder à crescente procura de lares de terceira idade, mas a oferta permanece manifestamente insuficiente. Segundo a Associação de Apoio aos Idosos, apenas 4 em cada 10 pedidos de vaga em lares públicos conseguem resposta, e os preços dos lares privados ultrapassam frequentemente o orçamento da maioria dos pensionistas. Para muitos, a alternativa é permanecer em casa, contando com apoios domiciliários que são, na melhor das hipóteses, intermitentes. Noutras situações mais radicais, o único refúgio possível é uma cama dum hospital público onde vêm a morrer na mais profunda solidão e indigência.

Muitas dessas pessoas sós são aquelas que, por não terem descontado para a Segurança Social — como trabalhadores liberais, artistas e outros profissionais independentes — se encontram sem qualquer rede de proteção. Estima-se que mais de 300 mil portugueses acima dos 60 anos estejam nesta situação vulnerável, privados de pensão regular e de acesso facilitado aos serviços sociais.

Como se vê, isto tem tudo para correr mal a breve trecho: mais de 40% dos idosos em Portugal vivem sozinhos, e o índice de dependência dos mais velhos, um indicador demográfico que mede o peso da população idosa sobre a população em idade activa, já ultrapassa os 56%. Esta realidade tem implicações profundas, não apenas para os próprios velhos, mas para as gerações futuras, que enfrentarão o desafio de cuidar de uma população cada vez mais envelhecida, frágil e isolada. O impacto social é evidente no aumento dos casos de solidão, depressão e abandono, enquanto a pressão sobre os sistemas de saúde e segurança social se intensifica.

Se nada for feito, o país arrisca-se a perpetuar um ciclo de exclusão e vulnerabilidade, onde o envelhecimento deixa de ser uma etapa digna da vida para se tornar uma experiência sinistra de solidão e dor. O desafio não é apenas económico, mas sobretudo humano: exige uma resposta coletiva, coisa em que acredito pouco, que valorize o papel dos idosos, a criação de mecanismos de reforço os laços comunitários e assegure o acesso universal a apoios dignos e adequados.

A experiência que vou vivendo na minha família alargada com a geração dos meus pais, já quase nonagenária, apesar da relativa coesão familiar existente, mostra-se desafiante para todos. Dá para imaginar o que será para outras famílias mais desfavorecidas ou desagregadas. O envelhecimento da população portuguesa é um problema funesto no contexto actual, e a mitigação dessa tragédia exige urgente compromisso e ação coordenada de entidades públicas, privadas e da sociedade civil. Só assim será possível garantir que envelhecer em Portugal não signifique viver à margem num inferno terreno, como que um inclemente castigo dos deuses profanos.  

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22 comentários

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De balio a 05.12.2025 às 12:46


Excelente post.


isto tem tudo para correr mal a breve trecho


Pois tem, tanto mais que aquilo que as pessoas conseguem descontar para a Segurança Social (esteja esta num regime como o atual, ou no regime de capitalização que tantos liberais propagandeiam) se tornará cada vez mais insuficiente para pagar todas as pensões de reforma. Cada vez mais os velhos estarão não somente sós mas também desprovidos de rendimentos.
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De Anónimo a 05.12.2025 às 15:24

A  velhice só estará desprovida de rendimentos, se o Governo quiser.


Tudo o que for Investimento Público na População mais idosa, será dinheiro injectado na Economia.
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De Anónimo a 05.12.2025 às 16:53

É engraçado os Liberais propagandear em um Sistema que Capitaliza, mas nunca o detalham por miúdos.


É suposto ser uma maravilha, sem que se saiba como ou porquê .


Pois cá para mim quando o artista não diz clarinho o que é, é porque traz água no bico.


Portanto, deve ser uma daquelas coisas onde quem lucra são a Banca e as Seguradoras.


Antigamente chamava-se conto do vigário.
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De Filipe Costa a 05.12.2025 às 18:20

Isso posso responder. O exemplo da Irlanda, reforma são 200 euros por semana para todos, o resto são PPR's (a tal capitalização) pagos pelas empresas e pelos próprios. Ou seja o estado só assegura que voxê tem o minimo para subsistir, o resto.... faça-se à vida.
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De Anónimo a 06.12.2025 às 11:40

Bom !! Se é isso o Liberalismo tem já o meu apoio.
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De balio a 05.12.2025 às 12:51

Bem fez Constança Cunha e Sá, falecida há dias com 67 anos de idade: fumou que se fartou até morrer com cancro do pulmão. (Um vizinho meu há uns anos seguiu o mesmo caminho, praticamente com a mesma idade.) Quem morre com 67 anos (idade com que a minha mãe faleceu) não suporta a velhice nem constitui um encargo para a Segurança Social. O cancro do pulmão mata de forma rápida e, usualmente, sem que dispendiosos tratamentos possam já ser feitos quanto ele é descoberto.
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De ASnonimo a 05.12.2025 às 14:25

Subscrevo 
E se não morrerem por si, o Estado... desculpem, os privados (não sejamos socialistas) devem dar uma ajuda. E em alguns casos o limite deve ser alterado para 51 anos, ou até menos. O mercado deve definir. 
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De Anónimo a 05.12.2025 às 22:46

Se permite um conselho; nunca lhes dê ideias.
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De ASnonimo a 06.12.2025 às 14:04

O meu único sonho actualmente (já passei essa idade) é alguns terem o Portugal que desejam. Das duas uma, ou é mesmo paraíso na terra e melhor para todos, ou será uma experiência divertida de observar. 
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De lucklucky a 11.12.2025 às 09:34

Para o balio Sir Humphrey Appleby


https://www.youtube.com/watch?v=p1DviQ9mva0
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De Anónimo a 11.12.2025 às 11:35

Não tem legendas.
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De Silva a 05.12.2025 às 13:19

A solução continua a mesmo, tanto aqui como nos outros países em especial no Japão onde nos próximos anos deverão falecer mais de 5 milhões de habitantes de idade avançada segundo a análise da sua pirâmide etária.
A solução é implementar, rapidamente e em força, reformas estruturais a começar, repito, a começar pela abolição do salário mínimo, liberalização dos despedimentos e abolição dos descontos seguindo-se outras reformas estruturais.
Esta solução apenas depende da vontade/coragem política para ser implementada, caso contrário, será implementada "cernelhadamente" à medida que a pressão financeira aumentar.
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De Anónimo a 06.12.2025 às 11:52

Não tenho problemas quanto á abolição do Salário Mínimo, que na verdade é um discreto atentado, talvez com a melhor das intenções, á Liberdade de Escolha.


Já "abolição de descontos" suscita as maiores dúvidas.


Os "descontos" financiam uma série de coisas.


Abolindo descontos, essas coisas passariam, muito naturalmente, a ser financiadas com outros descontos.


Sendo assim não se vê porque não deixar tudo como está ?!
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De Silva a 06.12.2025 às 18:31

A abolição dos descontos (os tais 11% da responsabilidade do trabalhador e os 23,75% da responsabilidade da entidade patronal) iria levar ao desmantelamento da quase totalidade do Ministério da Segurança Social, seus organismos e dependências, libertando milhares de funcionários para outras áreas da esfera governamental e mesmo para a esfera privada.
Levaria também a muito mais investimento empresarial no país tanto interno como externo, aumentaria a competitividade das empresas e aumentaria a formação de novos negócios e empresas.
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De Anónimo a 05.12.2025 às 13:52

A família foi posta de lado. 


O remédio para as chatices de um casal, passou a ser o divórcio. 


Fez-se tudo par evitar filharada e os pais passaram a ser jovens até aos 60.


A única obrigação reconhecida e assumida, passou a ser divertir-se.


Foi o tempo da extroversão, do delírio e da imbecilizacao.


Agora começam a chegar as facturas.


E o mal, parece, é que ninguém sabe muito bem o que fazer.


Aliás, não é bem, ninguém sabe. Há uma Instituição que sabe porque tem 2000 de experiência.


Mas também foi posta de lado.
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De cela.e.sela a 05.12.2025 às 14:51

«Ucrânia abriu o míssil balístico russo que devastou suas cidades; a surpresa: seu combustível vem da China».
os futuros portugueses vêm do Bangladesh (Paquistão Oriental), dos Sikhs, do Brasil. 1/4 das grávidas são imigrantes.


««É fartar, vilanagem» é uma versão das palavras ditas por Álvaro Vaz de Almada, conde de Avranches, no final da batalha de Alfarrobeira




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De s o s a 05.12.2025 às 22:54

vale a pena a leitura, refere pontos pertinentes, mas alarma e desnecessariamente. 
Nao há tragedia nem sequer iminente, tais mudanças sao progressivas , tambem inevitáveis.  E vai se fazendo, acorrendo, tanto quanto possivel.  Sempre insuficiente !


Nao precisa que lhe diga nada, revela conhecimento e segurança, todavia  a  cena " tradicionalmente apoiava os mais velhos" era só porque as familias eram enormes e havia sempre gente em casa.  Com fome e sem dinheiro para medico. 
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De Anónimo a 06.12.2025 às 18:51

Parece-me que o Estado não presta é muita atenção á questão.


Tenho a convicção que a melhor solução, que não parece difícil, seria uma espécie de "parceria" entre o Estado (Segurança Social) e Igreja (Conventos).
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De Anónimo a 06.12.2025 às 19:33

A "solução" pode adoptar múltiplos sabores...


i) Leia-se o Diário da Guerra aos Porcos, de Adolfo Bioy Casares


ii) https://leiturasimprovaveis.blogs.sapo.pt/muito-a-frente-19260


iii) Pode haver nova pandemia e o problema resolver-se por si próprio


iv) Nenhuma das acima mencionadas


Contudo, como se hoy dizer em Nova York, a situação não aconteceu no vácuo, já desde puto que oiço falar disto. A questão, objectivamente, é que não se fez nada de substancial para inverter a situação...


Saúde e Boa Sorte...



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De tron a 07.12.2025 às 23:15

muitos dizem que para resolver o problema do envelhecimento da população é a imigração em massa.
Por outro lado, defendo que além da proteção aos idosos a natalidade deve ser incentivada e a imigração não resolve nada
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De Anónimo a 08.12.2025 às 02:46

É como diz. E cada um de nós é responsável pela situação que descreve 

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