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Um contador de histórias

por henrique pereira dos santos, em 22.02.21

Já aqui tenho elogiado a abertura e a cordialidade de Carlos Antunes, elogios que mantenho.

Mas de há uns tempos para cá, apercebi-me de uma outra característica da forma de estar no espaço público: quando são feitas perguntas, igualmente cordiais, fundamentadas e dirigidas a aspectos em que manifestamente o seu discurso colide com a realidade, em especial dirigidas ao esclarecimento dos enormes desvios das suas previsões em relação ao posteriormente verificado, Carlos Antunes simplesmente não responde.

Penso que hoje finalmente percebi: Carlos Antunes é um contador de histórias, a nós cabe-nos o honroso papel de ouvintes educados.

A 20 de Janeiro de 2021, no Diário de Notícias, Carlos Antunes conta uma história claríssima.

"Carlos Antunes começa por referir ao DN que "ninguém pode dizer com certezas o que vai ou não acontecer daqui para a frente", mas o que se vê nesta altura é que a própria realidade se está a antecipar aos modelos matemáticos."

Como qualquer bom contador de histórias, Carlos Antunes previne os seus ouvintes de que a história que vão ouvir é extraordinária mas só poderá ocorrer em condições que estão para lá do nosso controlo. No fundo, o mesmo que escrevia aqui Manuel Carmo Gomes sobre o tipo de modelos matemáticos usados por Carlos Antunes: " embora as previsões a curto prazo da modelação estatística sejam úteis, revelaram-se pouco fiáveis para prever o médio-longo prazo".

Mas Carlos Antunes vai muito mais longe e soma dramatismo ao dramatismo, demonstrando que a fiabilidade, mesmo a curto prazo, faz parte do carácter fantástico da história, como se pode ver.

"Os cenários que temos agora traçados poderão ser ultrapassados daqui a quatro ou cinco semanas com a nova variante. Os especialistas não têm duvida de que se irá tornar dominante em relação à que já circula, e se agora não estamos a conseguir dominar o contágio, nessa altura vamos ter muito mais dificuldade, pois é sabido que a velocidade com que se propaga é muito maior".

Pois bem, que novas histórias conta o mesmo Carlos Antunes quatro semanas depois desta previsão, sobre a qual não havia dúvidas nenhumas?

Ao mesmo Diário de Notícias, agora no dia 20 de Fevereiro: ""os dados são extraordinários". "... o que a evidência nos mostra é que ... "Não foram só dois milhões de estudantes que foram para casa, foram também os pais e muitos outros profissionais." E, ao fim de um mês de confinamento, "todas as estimativas mudaram".

Note-se esta maestria narrativa, quantos de nós nos apercebemos imediatamente deste golpe retórico genial, inspirado nos desenhos de Escher, em que as escadas descem para cima: são os factos que influenciam as estimativas e não as estimativas que os precedem.

Não se pense que foi um golpe de génio pontual, corresponde a um domínio fabuloso das técnicas narrativas: "o problema são as UCI, cujos números demoram mais tempo" a voltar a este patamar ... Carlos Antunes adverte que "qualquer desconfinamento vai dar espaço à nova variante e essa nova variante tem a capacidade de aumentar os números rapidamente.""

Embrulha, Garcia Marquez, pensavas que eras o mestre do realismo fantástico mas isso é só porque desconheces Carlos Antunes.

O que tem a ocupação das UCI com confinamentos? Nada, evidentemente, os confinamentos, a ter algum efeito, é sobre os contágios e os números de hoje nas UCI resultam de contágios há um mês atrás, portanto os tais "números extraordinários" vão chegar aos internamentos e UCI dentro de dias, porque são uma função directa de números de casos que já ocorreram e cuja evolução conhecemos. Sim, mas e a variante? Aqui, como  no Reino Unido, tem coincidido com descidas brutais de casos. Não é que não seja mais contagiosa, é apenas que outros factores mais relevantes estão a actuar sobre a evolução da epidemia.

De resto, seria útil que algum matemático se dedicasse a avaliar o efeito de aumento de casos pela nova variante em contraponto com o efeito de contenção de aumento de casos resultante da progressiva imunização da população (mesmo sem vacinas), ou do aumento de ultra-violetas, ou da normalização meteorológica.

Mas como diz Carlos Antunes, e muito bem, a 20 de Janeiro, quando previa o que previa: "Quem não tem visão não tem e mostra que ainda não aprendeu ao fim deste tempo todo o que é uma pandemia".

Ou como diz hoje, sobre matérias em que um matemático (já sei que é um engenheiro geográfico especialista em geodesia, isso não interessa nada, também Art Garfunkel tem um mestrado em matemática e ninguém discute a sua falta de graus académicos em música) tem uma especial preparação e capacitação: "os números de internamentos pré-Natal "devem ser atingidos nesta semana" e nas unidades de cuidados intensivos "no início de Março", segundo Carlos Antunes, que diz que "enquanto não se desanuviar a pressão hospitalar, tudo o que é outra actividade clínica não covid fica compromentido". Isto numa altura em que o "burnout dos profissionais de saúde não aguenta uma quarta vaga". 

E são estas histórias da carochinha que vão ser hoje contadas na reunião do Infarmed, como fundamento para manter as escolas fechadas.



15 comentários

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De Anónimo a 22.02.2021 às 10:04

Contador de histórias com uma originalidade: o seu narrador finge omnisciência em vez dos narradores dos contos policiais em que o mesmo finge ignorância. O resultado no entanto é o mesmo: o de confundir e enganar o leitor.
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De Anónimo a 22.02.2021 às 10:15

Pode ser que alguém leia isto antes de terminar a reunião no Infarmed:

"uno de los fenómenos humanos más desconcertantes.

Si no estuviéramos tan acostumbrados a él, el esfuerzo racionalizador del hombre se nos aparecería claramente como un sistema paranoide. La persona paranoica puede ser muy inteligente, hacer excelente uso de su razón en todas las zonas de la vida, excepto en aquella parte aislada que comprende su sistema paranoide. La persona racionalizadora hace exactamente lo mismo.

Hablamos con un inteligente estalinista que da muestras de una gran capacidad para hacer uso de su razón en muchas zonas del pensamiento. Cuando llegamos a discutir el estalinismo, nos vemos sin embargo enfrentados con un cerrado sistema de pensamiento, cuya única función es pensar que su lealtad al estalinismo está de acuerdo, y no en contradicción, con su razón.

Negará ciertos hechos obvios, deformará otros o, aunque convenga con ciertos hechos y declaraciones, explicará su actitud como lógica y consistente. Al mismo tiempo, declarará que el culto que el fascismo hace del caudillo es uno de los aspectos más desagradables del autoritarismo, y sostendrá que el culto estalinista del caudillo es algo enteramente diferente, es decir, la expresión genuina del amor del pueblo por Estaline.

Cuando se le dice que los nazis lo decían también, sonreirá con tolerancia, acerca de nuestra falta de percepción o nos acusará de ser los lacayos del capitalismo. Hallará mil razones para decir que el nacionalismo ruso no es nacionalismo, que el autoritarismo es democracia, y que el trabajo esclavo está destinado a educar y mejorar a los elementos antisociales.

Los argumentos empleados para defender o explicar los actos de la Inquisición o los usados para explicar los prejuicios raciales o sexuales, son ejemplos de la misma capacidad de racionalizar.

El grado en que el hombre emplea su pensamiento para racionalizar las pasiones irracionales, y para justificar los actos de su grupo, muestra lo grande que aún es la distancia que tiene que recorrer el hombre para convertirse en Homo sapiens.

Pero tenemos que ir más allá de dicho conocimiento. Tenemos que tratar de comprender las razones de este fenómeno, a menos que caigamos en el ERROR de creer que la disposición del hombre a la racionalización es una parte de la "naturaleza humana" que nada puede cambiar."

[Eric Fromm (1950)]
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De balio a 22.02.2021 às 11:05


E enquanto os matemáticos e os médicos têm hoje mesmo acesso direto aos governantes para lhes contarem as suas histórias (as reais ou as por eles inventadas), todo o resto da população, em particular os que sofrem privações e fome por não poderem trabalhar, não têm acesso aos governantes.
Governantes aliás que, como bons socialistas que são, estão todos contentes com esta epidemia e com a política de confinamentos, que lhes permite colocar toda a gente a pedir esmola ao Estado e na dependência económica direta do Estado.
António Costa vai hoje ouvir exclusivamente os médicos e os matemáticos e somente eles. Os quais lhe vão dizer para não terminar com o confinamento, o qual somente os beneficia a eles (aumenta-lhes a importância social e a sensação de poder). Os outros, os que caem na miséria, não serão ouvidos.
Este é sem dúvida o pior governo que Portugal já teve desde o 25 de Abril.
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De Carlos Sousa a 22.02.2021 às 16:14

O pior não digo, mas o único que conseguiu suspender a democracia mais de meio ano, disso não tenho dúvidas. 
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De Elvimonte a 22.02.2021 às 16:28

O Prof. Carlos Antunes tem sorte em ser professor universitário, muito provavelmente com nomeação definitiva.


Numa qualquer empresa que não tivesse interesses na venda de vacinas, anti-virais sob patentente, testes RT-PCR e antígeno, na promoção do pânico e do alarmismo e que apenas comercializasse ciência sob a forma de modelos matemáticos (de elementos finitos, de volumes finitos, entre outros) de real aplicação prática, já teria sido despedido há muito tempo.


E teria sido despedido por várias razões: a primeira porque ainda não há publicação a detalhar o modelo que ele afirma existir, mas que realmente não se sabe se existe; a segunda porque a empresa estaria neste momento sob uma chuva de processos cíveis a exigir-lhe indemnizações pelos prejuízos causados pela inexactidão do modelo.
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De balio a 23.02.2021 às 10:58

Bem falado.
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De Anónimo a 22.02.2021 às 20:23

Antigamente, e não há muitos anos, chamava-se a este comportamemto de charlatanismo. Era considerado anti social e aberrante. Agora vai a votos e ganha.
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De MV a 22.02.2021 às 23:59

Engenheiro geógrafo...
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De balio a 23.02.2021 às 11:01


Entretanto, parece-me verdadeiramente imprescindível ouvir José Manuel Fernandes (personagem de que estou longe de ser um fã) na sua crónica Contra Corrente de hoje. Raramente (ou nunca) concordei tão totalmente com ele.


Está em


https://observador.pt/programas/contra-corrente/somos-um-pais-de-velhos-governado-por-velhos/
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De Susana V a 23.02.2021 às 13:28

Hoje o JMF estava imparável. No programa a seguir (E o vencedor é) deu uma coça no Miguel Pinheiro. Acho que o HPS tem mais um convertido. Não há pachorra para estes jornalistas que citam os  especialistas. Quem conhece minimamente o meandros científicos sabe que, em investigação actual, maior parte das vezes não existe consenso.
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De balio a 23.02.2021 às 14:38


No programa a seguir (E o vencedor é) deu uma coça no Miguel Pinheiro.


Eu não diria bem isso, eu diria que fizeram ambos má figura, ao discutirem em direto perante os ouvintes. Não gostei de ouvir e desliguei a rádio a meio da discussão. Confesso que tenho grande aversão a discussões e afasto-me delas sempre que posso.
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De Susana V a 23.02.2021 às 21:09

Tem alguma razão. Mas eu gostei de ouvir o JMF dizer ao MP para ver os gráficos do parâmetro R(t). Era o que eu gostaria de ter dito se o pudesse interpelar. A verdade é que esses gráficos nunca são discutidos. Apenas a opinião deste ou daquele Especialista. E o MP tem andado muito irritante com  as suas opiniões sobre os cientistas, o Natal e o fecho das escolas. 
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De Susana V a 23.02.2021 às 13:43

Eu respeito o medo que muitas pessoas sentem relativamente à Covid19 (apesar de achar que é pouco saudável e totalmente desproporcional). Mas não me parece razoável que esse medo comande a vida dos outros. A perda total de liberdade que vivemos agora, ao ponto de termos receio de ser interceptados pela polícia quando viajamos de automóvel é algo extremamente perturbador. Começo a duvidar se alguma vez seremos capazes de recuperar a liberdade perdida.
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De balio a 24.02.2021 às 15:20


não me parece razoável que esse medo comande a vida dos outros


O problema é que esse medo é essencialmente um medo dos outros - as pessoas têm medo de ser contaminadas pelas outras. Portanto, naturalmente que os medrosos pretendem comandar a vida dos outros.


Seria menos problemático se os medrosos tivessem medo de aranhas, ratos ou cobras. Infelizmente, o que eles têm medo é das outras pessoas e do pavoroso vírus que elas podem transportar.


A Susana V é de Lisboa?
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De pitosga a 23.02.2021 às 18:16


HPV. o senhor pode achar qualidades neste tipo. Somente será consigo.
Eu acredito — não acho — que é mais um idiota à solta.
Abraço

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