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Um comentário num jornal

por henrique pereira dos santos, em 21.08.17

Fiz hoje, no Observador, um comentário a um texto que reflecte muito do que está na base da mitologia sobre os bombeiros voluntários que temos.

E resolvi fazer desse comentário um post:

"Eu compreendo o texto e as emoções que lhe estão na base.
Mas há uma questão central em que o texto, e é natural que assim seja, é omisso: "Os bombeiros foram seguindo o incêndio que estava já a queimar em direção ao Tejo.".
Do ponto de vista do combate esta é a demonstração de que, estrategicamente, há um problema sério de doutrina: os grandes fogos florestais não se seguem nem se combatem directamente (o que é diferente da situação de defesa de situações específicas, como a descrita, que não é uma operação de gestão de um grande fogo florestal, é uma operação de protecção civil), os grandes fogos florestais preveêm-se e levam-se à extinção retirando-se-lhes o combustível da frente que se pode prever.
Por mais heróis que sejam, e muitos são, o facto é que precisamos de bons profissionais e não de heróis, tal como nos hospitais, há cem anos, se percebeu que não eram as enfermeiras, heroínas e voluntárias, que nos permitiam salvar mais vidas mas sim enfermeiras preparadas e profissionalizadas.
Não precisamos de bombeiros florestais que seguem incêndios, correndo atrás deles, precisamos de bombeiros que saibam como vai evoluir o fogo e escolham a posição certa para esperar por ele nas melhores condições para o obrigar a extinguir-se.
Estes que temos agora são muito bem vindos para operações de protecção civil como a descrita, mas não são os bombeiros florestais de que precisamos, mesmo sendo, como muitos são, heróis."



2 comentários

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De Anónimo a 21.08.2017 às 18:00

precisamos de bombeiros que saibam como vai evoluir o fogo e escolham a posição certa para esperar por ele nas melhores condições para o obrigar a extinguir-se

Pois, mas há um problema. Não por acaso, os matos e florestas existem sobremaneira em locais despovoados. Também sem ser por coincidência, nesses locais a população existente é sobretudo idosa e incapaz de ajudar a apagar fogos ou de se tornar bombeira. Portanto, os locais onde mais floresta há são precisamente aqueles onde há menos bombeiros com conhecimento do local. Os bombeiros existentes vêem, na prática, sobretudo das corporações nas grandes cidades, que desconhecem o local e portanto se limitam a perseguir o fogo ou, mais geralmente, a esperar por ele à porta das aldeias.

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