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Um banho de humildade

por henrique pereira dos santos, em 12.03.20

Não escrevi nada sobre o coronavírus, com excepção deste artigo, saído há um mês, escrito há quase um mês e meio, quando penso que não havia ainda nenhum caso confirmado de Covid19 em Portugal.

Escrevi-o consciente de que não percebo nada do assunto, mas escrevi-o porque me pareceu útil trazer uma perspectiva darwinista sobre a epidemia.

Mesmo tendo-me limitado a um ponto de vista sobre o qual tenho a obrigação de saber alguma coisa, o artigo tem um erro monumental, de palmatória, ao falar em reprodução sexuada de vírus e bactérias. Na verdade, para além de ignorância, a explicação para esta asneira era a minha preocupação em separar a reprodução de organismos como as amibas, por cissiparidade, em que os organismos resultantes são iguais aos progenitores, como clones, dos sistemas de reprodução que favorecem a diversidade biológica, como é o caso de muitos vírus e algumas bactérias, que não tendo reprodução sexuada, têm sistemas de reprodução em que ocorrem frequentemente "erros" de que resultam mutações.

E, daí para cá, tenho assistido à quantidade de pessoas com opiniões, umas mais definidas, outras mais cautelosas, sobre o que vai acontecer ou o que se deveria fazer.

Acho normal que isto aconteça: está-nos na massa do sangue pensar que controlamos isto tudo, que nada acontece sem a nossa intervenção.

Frequentemente, nas apresentações que faço, uso um slide em que comparo o número de mortos da primeira grande guerra durante quatro anos, com os mortos da gripe espanhola, durante quatro meses: são da mesma ordem de grandeza. E aproveito para dizer que verdadeiramente o que condiciona a nossa evolução como espécie, e o que nos ameaça como indivíduos, não são tantos os leões ou tigres que são nossos predadores, mas o vizinho do lado que compete comigo por alimentação e reprodução e, sobretudo, os vírus e bactérias que podem espalhar a morte e a doença em larga escala, umas vezes de forma mais lenta (por exemplo, o vírus da SIDA, que continua a ser um problema gravíssimo em algumas regiões do mundo em que a doença é endémica e muito generalizada), ou de forma mais rápida, como no caso da gripe espanhola (que, naturalmente, teve uma grande ajuda das grandes movimentações de tropas associadas à primeira guerra mundial).

Ninguém sabe, nem é possível saber, como evoluem as epidemias (a frase mais repetida ontem, na excelente entrevista de Filipe Froes, terá sido "só saberemos no fim"), ninguém sabe muito bem que medidas funcionam melhor em cada momento, seguramente, não é fácil ser político nestes contextos.

A ideia de que se pode parar, estancar uma epidemia, com medidas de contenção social, é uma ideia largamente optimista. Provavelmente, o mais que conseguimos, é protelar a sua evolução (e ganhar tempo é muito importante), é limitar os seus efeitos e, mesmo assim, nunca saberemos se uma evolução mais lenta da epidemia não significa, também, convivermos mais tempo com a doença, com vantagens do ponto de vista da saúde pública, mas eventualmente com desvantagens relevantes do ponto de vista da economia e da qualidade de vida das pessoas (incluindo a sua saúde, no médio e longo prazo).

Nós controlamos muito menos a realidade do que pensamos, não há nada que impeça uma nova epidemia, eventualmente mais letal e complicada de gerir, amanhã.

E pode nem ser connosco, pode ser numa da meia dúzia de espécies de que dependemos para nos alimentar, que as consequências sociais serão brutais.

Esta epidemia, como qualquer outra com esta dimensão social, é um grande banho de humildade que é preciso reconhecer para nos prepararmos melhor para a próxima que, como a morte "é de todos, e virá".



8 comentários

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De Luís Lavoura a 13.03.2020 às 09:59

Esta epidemia é também um treino para outras que, no futuro, hão de vir. A humanidade desabituou-se da existência de doenças contagiosas. Mas as bactérias resistentes estão a chegar, e um dia começarão a causar epidemias de doenças incuráveis...
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De Anónimo a 13.03.2020 às 10:27

há vírus machos e fêmeas e por vezes virulência doméstica
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De Anónimo a 13.03.2020 às 19:24


Acho linda, belíssima, esta da virulência doméstica!
ao
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De Anónimo a 13.03.2020 às 19:35


Estimado Henrique Pereira dos Santos,
O bicho-homem nada sabe da Vida, da Biologia. A gripe espanhola em 4-6 semanas apareceu em múltiplos pontos da Terra, sem movimentos de exércitos e, muito menos, viagens rápidas. Como se os vírus tivessem meios de comunicação para decidir 'é agora'.
Em Nova Iorque, decidiram que uns presos (para toda a vida) que se voluntariassem para experiências médicas teriam a liberdade se sobrevivessem. Foram injectados, pulverizados e mais o que o diabo se lembrou com extractos dos cadáveres de pessoas mortas com gripe. Dos 300 e tal voluntários nenhum morreu; foram soltos. O único óbito dessa prisão foi o do médico-chefe — por gripe.
ao
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De Eremita a 14.03.2020 às 12:42

Aplaudo a errata, tão rara no nosso espaço público. Todavia,  creio que a emenda é pior do que o soneto. É verdade que não falamos em reprodução sexuada de vírus e bactérias, mas para o argumento que pretende desenvolver essa precisão é praticamente semântica, ou seja, irrelevante. Porque tanto os vírus como as bactérias asseguram o essencial da reprodução sexuada (a mistura de material genético) promovendo trocas de material genético (no caso das bactérias o processo é até graficamente bastante sexual pois envolve uma estrutura de aspecto fálico). No caso dos vírus, as trocas também são frequentes e explicam muitas passagens de animais para homem. Aliás, pensa-se que o papel das mutações (pontuais) na génese das epidemias pode ser secundário quando comparado com a recombinação dos genomas virais. Mas remato repetindo que a sua preocupação com o rigor é de louvar.   
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De henrique pereira dos santos a 14.03.2020 às 16:30

Não percebi por que razão é pior a emenda que o soneto. Do ponto de vista da substância do argumento é verdade que o meu erro não invalida o argumento, o que aliás tento explicar no post falando exactamente nas mutações, mas corrigir o erro não me parece pior que manter o erro.
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De Eremita a 14.03.2020 às 17:27

Pode ser uma questão de terminologia, mas quando falamos em mutações pensamos geralmente em mutações de um nucleótido que não dependem da reprodução sexuada pois são devido a erros de replicação do ADN, erros associados à transcrição ou erros resultantes de agentes mutagénicos (carcinogénios químicos e radiações, por exemplo). A diversidade genética que identifica nos vírus e bactérias não resulta apenas de erros como os que referi, que se traduzem em mutações. Muitas vezes (o caso dos vírus da gripe é o exemplo clássico) a diversidade e a infecciosidade depende não de mutações mas da recombinação do partes do genoma de vírus diferentes. Também nas bactérias há trocas de material genético que, na prática, dão um resultado muito mais próximo do da reprodução sexuada do que da reprodução assexuada. Por outras palavras, é verdade que fez bem em corrigir o erro porque os vírus e as bactérias não têm reprodução sexuada, mas a exuberância genética destas entidades não resulta apenas de mutações (de uma base noutra), pois a componente da recombinação de genomas é muito importante. Sendo a recombinação de genomas a grande consequência da reprodução sexuada, ao insistir no facto de que as bactérias e os vírus não têm este tipo de recombinação e ao mencionar os erros (presume-se, as mutações), está a subestimar o papel da recombinação nos vírus e da recombinação e associação de plasmídeos (fragmentos de ADN circular) nas bactérias. 

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