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Nem sempre leio os jornais nos dias certos e hoje li o Público do dia 15 de Agosto (há umas partes que já tinha lido porque me lembro bem da minha irritação com a xenofobia do bem do editorial assinado por Sónia Sapage).
Podemos, aliás, começar por esse editorial "A falta de habitação é um drama social e o seu preço elevado é o problema que se segue - mas não para estrangeiros", escreve, em editorial, uma jornalista que deve ter feito uma extensa investigação sobre as condições em que vivem os trabalhadores rurais de Odemira (e de outras partes do país), ou os trabalhadores indiferenciados que vivem em Lisboa e Porto, em regime de quartos sobrelotados e ilegais.
"Em Abril de 2022, por exemplo, o Instituto Nacional de Estatística revelou que os compradores estrangeiros estavam dispostos a pagar (e pagavam) um valor quase 75% mais elevado do que os nacionais pelas casas em Portugal", afirmação que a jornalista com certeza saberá em que medida se aplica aos estrangeiros que apanham framboesas ou fazem entregas em Lisboa e Porto.
O editorial depois segue para o Algarve que está cheio de estrangeiros ao ponto de obrigar os portugueses a ir para outros lados, etc..
Resumindo, isto sem estrangeiros é que estava bem, e isto é o que se chama xenofobia do bem (o mesmo, dito por Ventura, já é xenofobia inaceitável, claro).
Mas o que me chamou a atenção foi mesmo uma peça sobre Amílcar Cabral, com uma fotografia dele e de Maria Helena Vilhena Rodrigues, com quem me cruzei quando os dois trabalhávamos no Parque Nacional da Peneda-Gerês (Helena e eu, Amilcar, por essa altura, estava morto há muito).
De maneira geral evito ler estas parvoíces que se escrevem sobre um mundo que ainda conheci em primeira ou segunda mão, de tal maneira estão cheios da necessidade de sinalizar a virtude de quem os escreve.
São patetices escusadas, como "Maria Helena privava com Amílcar Cabral, segundo ela própria, em parte por ser uma das únicas pessoas no Instituto que não tinham quaisquer complexos em lidar com pessoas de cor" (cito o jornal que cita um investigador angolano chamado António Tomás, nascido em 1973, que escreveu uma hagiografia de Amílcar Cabral, pelo que percebo.
Eu não entendo qual é a fonte para dizer que quase toda a gente tinha complexos em lidar com pessoas de cor: Amilcar Cabral vem de Cabo Verde estudar em Agronomia com uma bolsa de mérito do Estado Português, em 1945 (o tal investigador, noutra passagem diz "era um dos muitos jovens africanos, entre brancos, negros e mestiços, que depois da II Guerra Mundial começaram a chegar à metrópole para fazer os seus estudos superiores", movimentado permitido pela "mudança na política colinial portuguesa - a "obrigação de formar as elites autóctones para servirem de agentes locais do colonialismo"), foi sempre dos melhores alunos, era uma pessoa popular e integrada em Agronomia e nada nas suas cartas para Helena Vilhena Rodrigues permite a leitura idiota de que eram poucas as pessoas que não tinham complexos em lidar com pessoas de peles diferentes das suas.
De resto, no fim do curso, Amilcar Cabral vai trabalhar na estação agronómica de Santarém, só indo para a Guiné em 1952 (sete anos depois de ter vindo de Cabo Verde).
Chegou a África um bocadinho mais cedo que o meu sogro, que terá ido para Moçambique em 1957, pelo que sei, sendo mais ou menos da mesma idade que Amilcar Cabral e tendo frequentado o mesmo Instituto Superior de Agronomia, na mesma altura.
O facto é que nem nas minhas conversas com Helena Vilhena (mais facilmente falava de agrostis que de Amilcar Cabral, bem entendido, tantos anos já tinham passado) nem com o meu sogro, alguma vez ouvi a mais leve referência a essa tal dificuldade da generalidade das pessoas se relacionarem com os vários pretos, mulatos, indianos, o que fosse, que frequentavam agronomia nessa altura.
Isso não me permite, evidentemente, dizer que não havia racismo e muito menos racistas, haveria com certeza, o que seguramente não entendo é a leveza com que, contra toda a evidência, se pretende descrever um quadro de racismo que manifestamente não correspondia à realidade.
São as tretas do bem, qualquer pessoa pode dizer as maiores patetices, desde que sejam alinhadas com o discurso woke.
E agora o jornal vai para o lixo, como iria de qualquer maneira, esperando-se que passe a tempestade woke e voltemos a tentar compreender o mundo tal como ele foi, e não tal como nos dá jeito que tenha sido.
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