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Tretas do bem

por henrique pereira dos santos, em 21.08.23

Nem sempre leio os jornais nos dias certos e hoje li o Público do dia 15 de Agosto (há umas partes que já tinha lido porque me lembro bem da minha irritação com a xenofobia do bem do editorial assinado por Sónia Sapage).

Podemos, aliás, começar por esse editorial "A falta de habitação é um drama social e o seu preço elevado é o problema que se segue - mas não para estrangeiros", escreve, em editorial, uma jornalista que deve ter feito uma extensa investigação sobre as condições em que vivem os trabalhadores rurais de Odemira (e de outras partes do país), ou os trabalhadores indiferenciados que vivem em Lisboa e Porto, em regime de quartos sobrelotados e ilegais.

"Em Abril de 2022, por exemplo, o Instituto Nacional de Estatística revelou que os compradores estrangeiros estavam dispostos a pagar (e pagavam) um valor quase 75% mais elevado do que os nacionais pelas casas em Portugal", afirmação que a jornalista com certeza saberá em que medida se aplica aos estrangeiros que apanham framboesas ou fazem entregas em Lisboa e Porto.

O editorial depois segue para o Algarve que está cheio de estrangeiros ao ponto de obrigar os portugueses a ir para outros lados, etc..

Resumindo, isto sem estrangeiros é que estava bem, e isto é o que se chama xenofobia do bem (o mesmo, dito por Ventura, já é xenofobia inaceitável, claro).

Mas o que me chamou a atenção foi mesmo uma peça sobre Amílcar Cabral, com uma fotografia dele e de Maria Helena Vilhena Rodrigues, com quem me cruzei quando os dois trabalhávamos no Parque Nacional da Peneda-Gerês (Helena e eu, Amilcar, por essa altura, estava morto há muito).

De maneira geral evito ler estas parvoíces que se escrevem sobre um mundo que ainda conheci em primeira ou segunda mão, de tal maneira estão cheios da necessidade de sinalizar a virtude de quem os escreve.

São patetices escusadas, como "Maria Helena privava com Amílcar Cabral, segundo ela própria, em parte por ser uma das únicas pessoas no Instituto que não tinham quaisquer complexos em lidar com pessoas de cor" (cito o jornal que cita um investigador angolano chamado António Tomás, nascido em 1973, que escreveu uma hagiografia de Amílcar Cabral, pelo que percebo.

Eu não entendo qual é a fonte para dizer que quase toda a gente tinha complexos em lidar com pessoas de cor: Amilcar Cabral vem de Cabo Verde estudar em Agronomia com uma bolsa de mérito do Estado Português, em 1945 (o tal investigador, noutra passagem diz "era um dos muitos jovens africanos, entre brancos, negros e mestiços, que depois da II Guerra Mundial começaram a chegar à metrópole para fazer os seus estudos superiores", movimentado permitido pela "mudança na política colinial portuguesa - a "obrigação de formar as elites autóctones para servirem de agentes locais do colonialismo"), foi sempre dos melhores alunos, era uma pessoa popular e integrada em Agronomia e nada nas suas cartas para Helena Vilhena Rodrigues permite a leitura idiota de que eram poucas as pessoas que não tinham complexos em lidar com pessoas de peles diferentes das suas.

De resto, no fim do curso, Amilcar Cabral vai trabalhar na estação agronómica de Santarém, só indo para a Guiné em 1952 (sete anos depois de ter vindo de Cabo Verde).

Chegou a África um bocadinho mais cedo que o meu sogro, que terá ido para Moçambique em 1957, pelo que sei, sendo mais ou menos da mesma idade que Amilcar Cabral e tendo frequentado o mesmo Instituto Superior de Agronomia, na mesma altura.

O facto é que nem nas minhas conversas com Helena Vilhena (mais facilmente falava de agrostis que de Amilcar Cabral, bem entendido, tantos anos já tinham passado) nem com o meu sogro, alguma vez ouvi a mais leve referência a essa tal dificuldade da generalidade das pessoas se relacionarem com os vários pretos, mulatos, indianos, o que fosse, que frequentavam agronomia nessa altura.

Isso não me permite, evidentemente, dizer que não havia racismo e muito menos racistas, haveria com certeza, o que seguramente não entendo é a leveza com que, contra toda a evidência, se pretende descrever um quadro de racismo que manifestamente não correspondia à realidade.

São as tretas do bem, qualquer pessoa pode dizer as maiores patetices, desde que sejam alinhadas com o discurso woke.

E agora o jornal vai para o lixo, como iria de qualquer maneira, esperando-se que passe a tempestade woke e voltemos a tentar compreender o mundo tal como ele foi, e não tal como nos dá jeito que tenha sido.


15 comentários

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De O apartidário a 21.08.2023 às 17:46


 Os liberais globalistas e a agenda cultural da esquerda ( atenção: apontar os factos não faz de mim apoiante de nenhuma  facção política) -



https://imagenssem.blogs.sapo.pt/a-decadencia-ocidental-50868
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De balio a 21.08.2023 às 22:01

O jornal refere-se aos estrangeiros que pretendem comprar casa em Portugal. Desse grupo não fazem certamente parte os apanhadores de fruta em Odemira ou as pessoas que fazem entregas em Lisboa.
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De marina a 22.08.2023 às 15:33


isso mesmo... quando li não foi os  pobrezinhos que me vieram à cabeça.

embirração pura, o post.
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De henrique pereira dos santos a 22.08.2023 às 16:03

Claro que não foram os pobrezinhos, esse é exactamente o problema, o de tratar todos os estrangeiros como sendo um grupo uniforme e não como pessoas iguais às que aqui existem, para se poder dizer que o problema são os estrangeiros.
Exactamente, sem tirar nem pôr, o que faz qualquer xenófobo.
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De balio a 22.08.2023 às 20:56

O jornal refere-se aos estrangeiros que pretendem comprar casa em Portugal. Essas não são pessoas iguais (em média) às que aqui existem: são (em média) mais ricas. E é aí que está o problema.
Esse  é um problema tanto para os portugueses, como para os outros estrangeiros que vivem em Portugal - os estrangeiros pobres - os quais vêm os preços da habitação (na compra e venda e, indiretamente, também no arrendamento) a aumentar.
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De henrique pereira dos santos a 23.08.2023 às 09:56

O editorial refere-se aos estrangeiros e usa o raciocínio típico da xenofobia (neste caso, da xenofobia do bem, mas xenofobia sem margem para dúvidas): há uns estrangeiros que têm determinadas características, logo, generalizando esse pequeno grupo (o número de estrangeiros ricos é incomparavelmente menor que o número de estrangeiros em Portugal) a todos os estrangeiros, é possível fazer um editorial contra os estrangeiros, a partir desse truque retórico.
Se no editorial se substituir estrangeiros por estrangeiros ricos, ou por portugueses ricos, ganha-se em rigor o que se perde em capacidade demagógica.
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De Anonimo a 23.08.2023 às 11:11


há uns estrangeiros que têm determinadas características


A característica é ter dinheiro. Não necessariamente ser "rico", na definição global, mas o suficiente para o ser em Portugal.
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De Anonimo a 23.08.2023 às 11:13


A generalização e o esteriótipo fazem parte.
Umas vezes do bem, outras do mal.
Dizer que os ciganos vivem todos do RSI e são ladrões é uma, dizer que os banqueiros são todos os aldrabões e ladrões, é outra. Ou que os nómadas digitais são todos uns ricaços que ganham a vida a tirar fotos dos pés na piscina.
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De pitosga a 22.08.2023 às 09:34


Henrique Pereira dos Santos,
como muito bem escreveu «São as tretas do bem, qualquer pessoa pode dizer as maiores patetices, desde que sejam alinhadas com o discurso woke.»
cumprimenta
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De BartolomeuD'Asp José a 22.08.2023 às 11:59

Não deite o jornal para o lixo. Guarde-o, para acender a lareira no Inverno. 
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De balio a 22.08.2023 às 20:57

É também bom parra limpar vidraças.
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De lucklucky a 22.08.2023 às 16:21

Isto não é woke. Isto é narrativa aceite por jornais extremistas como o Publico sobre a ditadura.
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De Anónimo a 23.08.2023 às 14:43

Insisto .  face ao folheto sonae, produtos Renova...
E , fundamental, não lhes frequentar as mercearias...
Juromenha.
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De anónimo a 24.08.2023 às 15:16


Quanto ao "racismo". O "racismo" com a conotação woke incriminatória ou não, exite. E existe por todo globo, desde as milenares classes sociais Indús, passando pelos "aparteides" oficias ou não...e mesmo nas sociedades ditas igualitárias hoje em dia.
Em Moçambique, na então Lourenço Marques, existia "convivia" uma tribo negra banto, os "mshopes"  que era drásticamente menospresada pelas restantes tribos negras, banto. Que por sua vez, historicamente viviam há séculos de "racismos" e lutas mortais entre si. Diferentes tribos de negros bantus.



Historicamente Lourenço Marques foi terra governada por imensas tribos, alternadamente, antes da primeira feitoria ali implantada por uma tribo de brancos. Por ali sucederam-se no poder tribos de brancos que por lá passaram e/ou governaram aquela muito diminuta feitoria: a tribo de brancos portugueses, a tribo de brancos inglêses, a tribo de brancos austríacos, a tribo de brancos holandeses... e mesmo, num pequeno interregno, quem ali mandou foi uma tribo de negros, bantos, que rapidamente percebeu: para fazer negócios, com os barcos que ali aportavam, precisava de intermediários de uma tribo de brancos. Por fim voltaram, de vontade própria, pró mato.


Ficará para outra ocasião mencionar e analizar o facto de o governo português ao tempo ter entregue a uma tribo de negros do Sul (do Save) todo o Moçambique. Porquê?.

No Sul, do então Moçambique, quem mandava era a tribo de brancos sul-africana. A tribo de brancos portuguêsa içava de manhã a bandeira portuguêsa no respectivo pau e ao por do Sol arreava-a. Pouco mais. A reconhecida pelintrice.

No Centro do então Moçambique a tribo de brancos rodeziana deixou um vácuo prontamente preenchido pelas tribos de bantus locais, que aliás historicamente sempre estiveram em guerras com as tribos do Sul...e entre elas.
O Norte era, e é, islão. (Porque que será que a tribo de brancos portuguêses têm ainda hoje, agora, de ir parar, outra vez, aquela alheia guerrazita, por alheios fósseis?.
Resumindo: A Frelimo, o seu sagaz líder, percebeu que podia até não negociar absolutamente nada. Podia impôr para si a posse de todo o bolo, Norte, Centro e Sul (um todo com o qual nunca tinha sonhado, diga-se) perante a pouca habilidade das autoridades portuguêsas na mesa que prosaicamante, egomaníacas, foram "liderar" uma negociação em território do adversário e com as convicções e certitude da sua visão do que era "Moçambique", do que estava em causa.
A dramática guerra civil, tribal, naquele território todo, ainda não acabou....
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De anónimo a 24.08.2023 às 15:32


O turismo rege-se pela lei da oferta a melhor preço. A consequência óbvia de tanta procura mais endinheirada é a subida vertiginosa de preços da habitação, serviços, consumo em geral. Não parece que a ministra tenha percebidor isto.  

Em toda a parte esta bolha de crescimento da economia via turismo é assim. Os diferentes interesses enfrentam-se. Depois os preços nivelam e a bolha esplode. Tenham calma meninos activistas, depois haverá muito alojamento local barato para estudantes. Se haverá emprego para todos depois do curso isso será outra louça. Afinal o "Estado" vai continuar a precisar de votos.  

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