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Travar a epidemia ou gerir os seus efeitos

por henrique pereira dos santos, em 31.07.21

"The closure of schools for summer, the end of the Euro 2020 soccer championships and warmer weather are among factors epidemiologists say might have reduced social mixing indoors and therefore cases, even as England's economy has fully reopened".

Desde o princípio da epidemia que há um braço de ferro entre duas concepções de gestão de epidemias:

  • a largamente dominante, que pressupõe que sem contactos não há contágios e portanto se se controlarem os contactos controlam-se os contágios e, consequentemente, se trava a epidemia quando se decide fazê-lo;
  • a largamente minoritária que pressupõe que não há forma de controlar contágios, quer porque as sociedades não se comandam centralmente, quer porque nunca saberemos o suficiente sobre os processos naturais para os poder controlar totalmente - admitindo que mesmo que soubéssemos tudo, teríamos os meios necessários para esse controlo, o que não é linear - e portanto a gestão de uma epidemia é a gestão dos seus efeitos na sociedade, sabendo que em caso algum conseguiremos travar a epidemia.

Ao longo deste ano e meio o facto é que ninguém conseguiu controlar a epidemia em lado nenhum (talvez com a excepção da Nova Zelândia, visto que o caso chinês é do domínio da propaganda) e que diferentes abordagens sobre a forma de controlar contágios deram mais ou menos o mesmo resultado em todo o lado.

Como quase todos os governos adoptaram a racionalidade política associada à necessidade de afastar qualquer responsabilização do governo na mortalidade atribuída à epidemia, não está feita seriamente em lado nenhum a demonstração de que de facto as diferentes medidas que foram sendo tomadas têm efeitos reais, e qual o peso desses efeitos no conjunto de factores, naturais e não naturais, que determinam a evolução da epidemia.

O primeiro parágrafo deste post é um bom exemplo de como as pessoas que estão profundamente convencidas de que a abordagem maioritária é a única possível tentam justificar o evidente desfasamento entre o que dizem e o que se verifica (o que está em causa não é o facto de se dizerem asneiras, toda a gente tem dito asneiras sobre a epidemia, o que está em causa é a demonstração da utilidade de uma ou outra abordagem e a resistência de cada um às evidências que se vão acumulando).

"The Imperial College London epidemiologist recently predicted that Covid infections could reach 100,000 a day, possibly even 200,000, though he stressed that was unlikely.

On Monday just under 25,000 cases were reported, having more than halved in nine days, but Professor Ferguson said it was still “too early to tell” whether the 100,000 mark would be hit as it would take several weeks before the “effect of the unlocking” is clear".

As pessoas que argumentam com o fim das aulas e do Euro 2000 para explicar variações em quinze dias, argumentam com a necessidade de esperar "several weeks" para avaliar o efeito do fim das restrições no Reino Unido, mesmo tendo o exemplo da Suécia, em que a epidemia evoluiu essencialmente em linha com o resto do mundo, da Florida, em que não se consegue ver qualquer o efeito do levantamento das restrições há meses atrás, ou do Texas, cujo levantamente de restrições em Março também não é visível nos números.

Diga-se que quer a Florida, quer o Texas, tal como os outros estados sub-tropicais do Sul dos Estados Unidos, estão a assistir agora a crescimentos rápidos do número de casos, tal como aconteceu no ano passado na mesma altura do ano ("Não há, insisto, *não há*, qualquer demonstração da existência de sazonalidade na evolução da pandemia" escreve João Seixas, um feroz defensor da opção dominante de gestão da epidemia, apesar do que escrevem outros que estudaram o assunto de forma um bocadinho mais aprofundada), embora com mortalidades que são um terço do que eram no ano passado.

No dia 18 de Julho, Carlos Antunes (um dos principais arautos da abordagem dominante da epidemia em Portugal) escrevia: "Com uma positividade na ordem de 5.7% e com uma taxa de incidência de 414 casos por 100 mil habitantes, o país já está classificado em Nível de Risco 3 (numa escala de 1-4) pelo ECDC. Se viermos a ultrapassar os 500 casos por 100k habitantes, o que é bem provável, o país atingirá o nível máximo", numa altura em que já era provável que o crescimento dos dias anteriores não fosse continuar ao mesmo ritmo. Portugal, nem de perto chegou a uma incidência de 500 casos por cem mil habitantes nos dias seguintes (no futuro não sabemos) e até hoje, apesar da minha insistência, Carlos Antunes não explicou em que se baseou para dizer que era provável que o país a atingisse.

Henrique Silveira (ou Oliveira, depende) também é um dos defensores acérrimos da primeira abordagem da epidemia e, por exemplo, publica gráficos como este, com barras verticais que não passam de cherry picking de acontecimentos, omitindo os que não servem para o que se quer dizer, e apenas usando alguns quando dá jeito (por exemplo, o funcionamento das escolas não aparece sempre assinalado, apenas quando se pretende demonstrar a tese prévia de que o funcionamento das escolas têm algum efeito relevante na evolução da epidemia, mesmo que, em Portugal, o período de maior contágio tenha ocorrido durante um período de férias escolares).

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O que se está a passar no Reino Unido é um poderoso antídoto contra a irracionalidade da gestão da epidemia que surgiu da ideia estúpida de que somos nós que controlamos a natureza, que já antes foi aplicada a vários outros fenómenos naturais (Portugal sem fogos depende de todos, ou a campanha das quatro pragas, para citar dois exemplos).

Não chegará para mudar os dados do problema no curto prazo mas, a seu tempo e aos poucos, o braço de ferro entre os aprendizes de feiticeiro e os "pobres homens da Póvoa", que sabem que são pó e em pó se voltarão a tornar, equilibrar-se-á um pouco, felizmente.



6 comentários

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De Elvimonte a 31.07.2021 às 15:27

Uma repetição de algo que tenho vindo a escrever tendo-o feito pela última vez neste comentário https://corta-fitas.blogs.sapo.pt/nao-tem-pao-comam-brioches-7410551?thread=36829047#t36829047.


"Nos Dacotas temos exemplo de uma "experiência natural" com aquilo que mais se aproxima de um verdadeiro grupo de controlo, a permitir comparações rigorosas. São estados pequenos, vizinhos, demografica, cultural e geograficamente idênticos. O Dakota do Norte impôs confinamento rigoroso e obrigatoriedade de uso de máscara desde Março de 2020. No Dakota do Sul nada fechou e a máscara nunca foi obrigatória em circunstância alguma.


Passado quase ano e meio, olha-se para as curvas de casos e de mortalidade de ambos e são perfeitamente idênticas nas datas, na forma e nos números."

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