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Toiradas e fogos

por henrique pereira dos santos, em 07.07.18

Procurar discutir racionalmente qualquer coisa relacionada com touradas é "em esforço inútil, um voo cego a nada" porque ninguém está interessado numa discussão racional sobre o assunto.

Há dias em que me dá para causas perdidas e hoje é um desses dias.

Argumento 1: direitos dos animais e questões conexas

Do ponto de vista dos direitos dos animais elegar a proibição de toiradas como prioridade é simplesmente absurdo. Os toiros de lide têm três a quatro anos de vida em que a sua natureza é respeitada, a sua liberdade é quase integral e a sua condição essencial de criatura viva é profundamente mais digna que a dos cães e gatos que toda a vida são sujeitos aos interesses e natureza dos seus donos, sem oportunidade para o desenvolvimento da sua condição de animal com valor intrínseco (curiosamente a primeira pessoa que li e me chamou a atenção para este aspecto foi Jane Godall). Penso que nem vale a pena argumentar sobre os animais de produção, deste ponto de vista. É certo que essa vida acaba (ou não) numa tarde sangrenta, mas isso não anula o argumento base de que o toiro de lide, no conjunto da sua vida, tem o seu valor intrinseco como ser vivo, e a possibilidade de desenvolvimento da sua natureza própria, muito mais respeitado que qualquer dos cães e gatos cujo dia a dia, da alimentação à reprodução, passando pelas tempos limitados de liberdade condicionada e de possibilidade de relação com a natureza e outros seres vivos, incluindo os da sua espécie, é totalmente subordinada ao arbítrio e interesse dos seus donos.

Argumento 2: tradições e significado da toirada

O toiro e os rituais associados ao toiro e à vaca são transversais a toda a bacia do mediterrâneo e bastante mais além, sendo muito relevante na Índia, como é do conhecimento comum. Os rituais da luta entre toiro e homem, de maneira geral relacionados com a fertilidade, são muito generalizados, assumem muitas formas e estão profundamente embebidos na nossa matriz cultural, mesmo que não demos por isso. Pretender que a tourada é um mero divertimento, esquecendo toda a história que a precede é demasiado pueril para ser levado a sério. Por outro lado, pretender que todos os rituais em que se funda a nossa cultura e identidade actuais se devem manter como se as sociedades não evoluíssem, é igualmente pueril. O relevante, neste aspecto, é apenas não desvalorizar quer o significado profundo dos rituais colectivos, quer a necessidade de os adaptar (reconhecendo-os) às sociedades que esses rituais servem. Neste caso é útil notar a clivagem evidente entre um ritual de base rural, e como tal ainda reconhecido (mesmo que não racionalmente) nesse contexto (Barrancos é um bom exemplo, mas está longe de ser o único, como se poderá ver na capeia arraiana ou nas chegas de touros nortenhas) e uma visão estritamente urbana que não reconhece qualquer legitimidade a culturas alternativas, em especial, não tem o menor respeito por culturas rurais que considera arcaicas, sem fazer o menor esforço por compreendê-las.

Argumento 3: sociedades mais humanas não fazem espectáculos públicos que impliquem o sofrimento de outros seres vivos

Este é verdadeiramente o único  argumento ético que tem um fundamento sólido para a eventual proibição de touradas, se se reconhecer que os rituais ancestrais de fertilidade associados ao touro deixaram de ter significado, sobrando apenas o espectáculo que, enquanto espectáculo, é indigno de sociedades mais humanas. É um argumento que levanta dificuldades quando são tidas em atenção as questões que tratarei depois, na medida em que levanta um conflito de valores relevante, sobretudo quando aceitamos sofrimentos inacreditáveis noutros espectáculos (costumo dar o exemplo das corridas de bicicleta, sobretudo as desumanas etapas de montanha) feitos com pessoas, porque aceitamos que as pessoas (por exemplo, os ciclistas) têm o direito a optar por ser sujeitos às condições desumanas desses espectáculos, opção essa que está vedada ao touro porque não se lhe pode perguntar, em pequenino, se quer viver toda a vida num estábulo, totalmente dependente de terceiros para comer e se reproduzir, acabando num talho em que é morto com o mínimo de sofrimento possível, ou se prefere ser um touro de lide, com total liberdade e autonomia durante três a quatro anos, para se preparar para um combate final que pode ser mortal e doloroso.

Admitindo-se que o argumento 3 é sólido e justifica a proibição de touradas, avaliemos o que isso significa em termos práticos.

Ao contrário do que muitas vezes se ouve, o fim das touradas não significa o fim do sofrimento de muitos toiros que assim podem ser felizes, significa sim o fim dos toiros de lide, que são produtos económicos que só existem em função da economia que os gera.

Na ausência dessa economia, as explorações são reconvertidas e deixa de haver toiros dessa raça, a menos que se faça com os toiros de lide o que agora se faz com os burros das raças que perderam utilidade, das vacas de trabalho que são menos produtivas em leite e carne, das raças de ovelhas que produzem menos leite, lã e carne, das raças de cabras menos produtivas, etc.: montamos pesados e caros sistemas de transferência de recursos dos contribuintes para os produtores para nos substituirmos à economia que gerava essa diversidade biológica.

Mas ainda que se arranje maneira de manter uns quantos toiros de lide para garantir a manutenção da diversidade biológica, isso não garante a economia que hoje mantém geridos os territórios em que são produzidos toiros de lide e, com elevada probabilidade, porque de maneira geral estamos a falar de terrenos de baixa produtividade, a principal alternativa de gestão é o abandono.

Essa probabilidade tem duas consequências socialmente negativas: por um lado diminui a área do país que está sujeita a uma exploração de muito baixa intensidade e de elevado valor para a conservação da natureza que está associado à produção de toiros de lide, por outro lado o abandono aumenta a área de risco de incêndio, reforçando as circunstâncias que nos fizeram perder o controlo sobre o fogo, por falta de controlo social e económico do território.

Pessoalmente tenho sobre esta matéria sentimentos mistos: compreendo a ideia de que um espectáculo que implica sofrimento é um sintoma de desumanidade (estou aliás convencido que, sendo a sensibilidade e cultura urbanas esmagadoramente dominantes, só a desastrada actuação das associações animalistas e afins, com a sua habitual cegueira em relação ao outro, com a sua habitual irracionalidade que as leva a preferir as emoções à razão, e com a sua assumida superioridade moral e desprezo pelo mundo rural, tem sustentado uma reacção que estancou a progressiva decadência da tourada como espectáculo), mas também sei que as consequências sociais e económicas do fim das touradas acentuam os fundamentos da decadência de um mundo rural que não temos sabido integrar no património colectivo, com os resultados que conhecemos, o mais visível dos quais é o padrão de fogo que temos.

Também aqui me impressiona a forma extremada, emocional e sectária como discutimos o que pode definir o que é o nosso chão comum como sociedade e o que é a normal divergência de interesses e pontos de vista dentro da comunidade.

Aparentemente, deixámos de reconhecer o outro na sua imensa liberdade de ser diferente para nos concentrarmos na tarefa de levar o outro a ser o mais igual possível a todos os outros.



14 comentários

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De Anónimo a 07.07.2018 às 17:53

«Os babilônios usavam o touro qual símbolo de seu principal deus, Marduque. No Egito, touros vivos eram venerados como encarnações dum deus: Ápis, em Mênfis, e Mnevis, em Heliópolis. Ser Touro um dos principais signos do zodíaco dá evidência adicional da importância que se atribuía ao touro nas religiões pagãs.

Pouco depois do Êxodo, até mesmo os israelitas trocaram a glória de Jeová pela “representação de um touro”, provavelmente por se terem contaminado pelos conceitos religiosos com os quais se haviam familiarizado enquanto estavam no Egito. (Sal 106:19, 20 (https://wol.jw.org/pt/wol/bc/r5/lp-t/1200000838/11/0)) 

«Escultura de Mitra e o touro no Museu Britânico (https://pt.wikipedia.org/wiki/Museu_Brit%C3%A2nico), em Londres (https://pt.wikipedia.org/wiki/Londres)

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De Anónimo a 07.07.2018 às 17:55

panlermas com causas fracturantes ou facturantes?
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De António Maria a 07.07.2018 às 20:14

Excelente  e sobretudo inteligente abordagem do assunto touradas, coisa rara hoje em dia  em que só se discutem entre extremos e fanáticos. 
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De Anónimo a 07.07.2018 às 20:15

Texto muito bom, como já nos habituou. Óptima reflexão.  
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De Gonçalo Cardoso de Menezes a 08.07.2018 às 01:12

No fundo tudo se resume a um debate mais antigo e mais geral, o domínio das pensamento urbano e crença na sua superioridade moral sobre o modus vivendi e a moral rural, um paternalismo parvo que  tudo destrói para tudo melhorar. É esta crença na superioridade moral, que não habita apenas na urbanidade, que impossibilita debates a existencia de debaes racionais sejam eles Republica/ Monarquia, Partidocracia/regime misto, escravatura, descobrimentos, direitos dos animais, fogos ou colonialismo.
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De Gonçalo Cardoso de Menezes a 08.07.2018 às 01:12

No fundo tudo se resume a um debate mais antigo e mais geral, o domínio das pensamento urbano e crença na sua superioridade moral sobre o modus vivendi e a moral rural, um paternalismo parvo que  tudo destrói para tudo melhorar. É esta crença na superioridade moral, que não habita apenas na urbanidade, que impossibilita debates a existência de debates racionais sejam eles Republica/ Monarquia, partidocracia /regime misto, escravatura, descobrimentos, direitos dos animais, fogos ou colonialismo.
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De Anónimo a 13.07.2018 às 03:45

De facto o touro não tem direitos. Nós é que temos deveres. Às vezes  ponho-me a pensar na arte que representa ver alguém correr atrás de um homem a cavalo ou de um matador qualquer. Mas, como, não gosto de ver ninguém a sofrer sem razão, deixo aqui uma sugestão. Vamos mas é todos, homens valentes, chupar caracóis para a Costa da Caparica, assadinhos na chapa e sem desperdiçar o ranho gostoso do animal. Por acaso, também com cornos.

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De Anónimo a 13.07.2018 às 14:49

Que chorrilho de disparates. Ninguém está contra a ruralidade. Prestou um mau serviço à civilização. 
A sua espécie extingue-se.
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De Henrique Pereira Dos Santos a 13.07.2018 às 16:49

E argumentos, tem?
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De Anónimo a 13.07.2018 às 18:40

"De tanto se repetir uma mentira, ela acaba transformando-se em verdade" - Joseph Goebbels

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De Anónimo a 24.07.2018 às 16:43

Boa tarde Henrique, sou terapeuta holístico e guia-intérprete oficial, conhecedor do património histórico e cultural / etnográfico nacional.
Permita-me partilhar directamente com a fonte uma nota que escrevi ponderadamente.
Grato desde já pela atenção.
Há pouco tempo li um artigo com um texto supostamente racional sobre o tema dos touros de lide.
Se eu ficasse impassível estaria a trair aquilo em que acredito e que sinto.
Começando pelos primórdios, se em algum momento da História da Humanidade se sacrificaram animais para obter algum favor divino, esse acto estaria a ir contra todas as Leis Divinas, independentemente de estar fundamentado historicamente.
Muitas culturas nativas respeitavam os animais como Seres Sagrados e pediam permissão aos Deuses, ou ao Grande Espírito apenas para os poderem caçar e alimentar as suas famílias.
Os únicos casos actuais que eu conheço de tal prática para “favorecer” algo é o seu sacrifício em rituais de magia negra para reforçar o serviço com ectoplasma do animal.
Se todos os envolvidos tivessem a possibilidade de fazer um curso de comunicação telepática animal teriam a oportunidade de testemunhar o ponto de vista do touro, ou dos animais adoptados consoante prova de compatibilidade entre os patudos e os humanos.
Os animais têm essa capacidade e sensibilidade muito mais apurada que nós; na verdade eles são mestres na telepatia e temos muito a aprender com eles, desde os insectos aos mais corpulentos. Eles são seres sábios e nós é que os tratamos como sendo inferiores a nós, deturpando a relação entre ambos.
Infelizmente, e muito provavelmente, esse curso não resultaria para muitos, num aspecto intuitivo e de divergência de vibração energética presente no campo áurico.
Teria de haver uma compatibilidade energética, empática e de partilha para a comunicação ser estabelecida.
Os animais detectam ao longe a nossa vibração e intenções, logo, o argumento de os touros poderem passar três ou quatro anos a “desfrutar” da liberdade e condições é infundado no que respeita ao seu destino. É um cenário criado.
Não vejo igualmente qualquer fundamento na tradição rural, excepto para alimentar as obras de etnografia.
Isto só mostra o quão distorcida e densa ainda é a nossa sociedade e economia.
O pensamento racional e formatado é valorizado em detrimento do sentimento natural e harmónico, considerado utópico.
A expressão pensar com o coração e sentir com a cabeça diz-nos muito.
Resta continuar a tentar ajustar paciente e dedicadamente os pratos da balança a favor da expansão consciencial e evolutiva, mudança de padrões de gerações e gerações e equilíbrio natural na Terra.
Obrigado pela oportunidade de crescermos de parte a parte.
Cumprimentos
Rui David Costa
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De Henrique Pereira Dos Santos a 24.07.2018 às 21:39

Não discuto questões de fé.

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