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Procurar discutir racionalmente qualquer coisa relacionada com touradas é "em esforço inútil, um voo cego a nada" porque ninguém está interessado numa discussão racional sobre o assunto.
Há dias em que me dá para causas perdidas e hoje é um desses dias.
Argumento 1: direitos dos animais e questões conexas
Do ponto de vista dos direitos dos animais elegar a proibição de toiradas como prioridade é simplesmente absurdo. Os toiros de lide têm três a quatro anos de vida em que a sua natureza é respeitada, a sua liberdade é quase integral e a sua condição essencial de criatura viva é profundamente mais digna que a dos cães e gatos que toda a vida são sujeitos aos interesses e natureza dos seus donos, sem oportunidade para o desenvolvimento da sua condição de animal com valor intrínseco (curiosamente a primeira pessoa que li e me chamou a atenção para este aspecto foi Jane Godall). Penso que nem vale a pena argumentar sobre os animais de produção, deste ponto de vista. É certo que essa vida acaba (ou não) numa tarde sangrenta, mas isso não anula o argumento base de que o toiro de lide, no conjunto da sua vida, tem o seu valor intrinseco como ser vivo, e a possibilidade de desenvolvimento da sua natureza própria, muito mais respeitado que qualquer dos cães e gatos cujo dia a dia, da alimentação à reprodução, passando pelas tempos limitados de liberdade condicionada e de possibilidade de relação com a natureza e outros seres vivos, incluindo os da sua espécie, é totalmente subordinada ao arbítrio e interesse dos seus donos.
Argumento 2: tradições e significado da toirada
O toiro e os rituais associados ao toiro e à vaca são transversais a toda a bacia do mediterrâneo e bastante mais além, sendo muito relevante na Índia, como é do conhecimento comum. Os rituais da luta entre toiro e homem, de maneira geral relacionados com a fertilidade, são muito generalizados, assumem muitas formas e estão profundamente embebidos na nossa matriz cultural, mesmo que não demos por isso. Pretender que a tourada é um mero divertimento, esquecendo toda a história que a precede é demasiado pueril para ser levado a sério. Por outro lado, pretender que todos os rituais em que se funda a nossa cultura e identidade actuais se devem manter como se as sociedades não evoluíssem, é igualmente pueril. O relevante, neste aspecto, é apenas não desvalorizar quer o significado profundo dos rituais colectivos, quer a necessidade de os adaptar (reconhecendo-os) às sociedades que esses rituais servem. Neste caso é útil notar a clivagem evidente entre um ritual de base rural, e como tal ainda reconhecido (mesmo que não racionalmente) nesse contexto (Barrancos é um bom exemplo, mas está longe de ser o único, como se poderá ver na capeia arraiana ou nas chegas de touros nortenhas) e uma visão estritamente urbana que não reconhece qualquer legitimidade a culturas alternativas, em especial, não tem o menor respeito por culturas rurais que considera arcaicas, sem fazer o menor esforço por compreendê-las.
Argumento 3: sociedades mais humanas não fazem espectáculos públicos que impliquem o sofrimento de outros seres vivos
Este é verdadeiramente o único argumento ético que tem um fundamento sólido para a eventual proibição de touradas, se se reconhecer que os rituais ancestrais de fertilidade associados ao touro deixaram de ter significado, sobrando apenas o espectáculo que, enquanto espectáculo, é indigno de sociedades mais humanas. É um argumento que levanta dificuldades quando são tidas em atenção as questões que tratarei depois, na medida em que levanta um conflito de valores relevante, sobretudo quando aceitamos sofrimentos inacreditáveis noutros espectáculos (costumo dar o exemplo das corridas de bicicleta, sobretudo as desumanas etapas de montanha) feitos com pessoas, porque aceitamos que as pessoas (por exemplo, os ciclistas) têm o direito a optar por ser sujeitos às condições desumanas desses espectáculos, opção essa que está vedada ao touro porque não se lhe pode perguntar, em pequenino, se quer viver toda a vida num estábulo, totalmente dependente de terceiros para comer e se reproduzir, acabando num talho em que é morto com o mínimo de sofrimento possível, ou se prefere ser um touro de lide, com total liberdade e autonomia durante três a quatro anos, para se preparar para um combate final que pode ser mortal e doloroso.
Admitindo-se que o argumento 3 é sólido e justifica a proibição de touradas, avaliemos o que isso significa em termos práticos.
Ao contrário do que muitas vezes se ouve, o fim das touradas não significa o fim do sofrimento de muitos toiros que assim podem ser felizes, significa sim o fim dos toiros de lide, que são produtos económicos que só existem em função da economia que os gera.
Na ausência dessa economia, as explorações são reconvertidas e deixa de haver toiros dessa raça, a menos que se faça com os toiros de lide o que agora se faz com os burros das raças que perderam utilidade, das vacas de trabalho que são menos produtivas em leite e carne, das raças de ovelhas que produzem menos leite, lã e carne, das raças de cabras menos produtivas, etc.: montamos pesados e caros sistemas de transferência de recursos dos contribuintes para os produtores para nos substituirmos à economia que gerava essa diversidade biológica.
Mas ainda que se arranje maneira de manter uns quantos toiros de lide para garantir a manutenção da diversidade biológica, isso não garante a economia que hoje mantém geridos os territórios em que são produzidos toiros de lide e, com elevada probabilidade, porque de maneira geral estamos a falar de terrenos de baixa produtividade, a principal alternativa de gestão é o abandono.
Essa probabilidade tem duas consequências socialmente negativas: por um lado diminui a área do país que está sujeita a uma exploração de muito baixa intensidade e de elevado valor para a conservação da natureza que está associado à produção de toiros de lide, por outro lado o abandono aumenta a área de risco de incêndio, reforçando as circunstâncias que nos fizeram perder o controlo sobre o fogo, por falta de controlo social e económico do território.
Pessoalmente tenho sobre esta matéria sentimentos mistos: compreendo a ideia de que um espectáculo que implica sofrimento é um sintoma de desumanidade (estou aliás convencido que, sendo a sensibilidade e cultura urbanas esmagadoramente dominantes, só a desastrada actuação das associações animalistas e afins, com a sua habitual cegueira em relação ao outro, com a sua habitual irracionalidade que as leva a preferir as emoções à razão, e com a sua assumida superioridade moral e desprezo pelo mundo rural, tem sustentado uma reacção que estancou a progressiva decadência da tourada como espectáculo), mas também sei que as consequências sociais e económicas do fim das touradas acentuam os fundamentos da decadência de um mundo rural que não temos sabido integrar no património colectivo, com os resultados que conhecemos, o mais visível dos quais é o padrão de fogo que temos.
Também aqui me impressiona a forma extremada, emocional e sectária como discutimos o que pode definir o que é o nosso chão comum como sociedade e o que é a normal divergência de interesses e pontos de vista dentro da comunidade.
Aparentemente, deixámos de reconhecer o outro na sua imensa liberdade de ser diferente para nos concentrarmos na tarefa de levar o outro a ser o mais igual possível a todos os outros.
Pouco depois do Êxodo, até mesmo os israelitas trocaram a glória de Jeová pela “representação de um touro”, provavelmente por se terem contaminado pelos conceitos religiosos com os quais se haviam familiarizado enquanto estavam no Egito. (Sal 106:19, 20 (https://wol.jw.org/pt/wol/bc/r5/lp-t/1200000838/11/0))
«Escultura de Mitra e o touro no Museu Britânico (https://pt.wikipedia.org/wiki/Museu_Brit%C3%A2nico), em Londres (https://pt.wikipedia.org/wiki/Londres)
De facto o touro não tem direitos. Nós é que temos deveres. Às vezes ponho-me a pensar na arte que representa ver alguém correr atrás de um homem a cavalo ou de um matador qualquer. Mas, como, não gosto de ver ninguém a sofrer sem razão, deixo aqui uma sugestão. Vamos mas é todos, homens valentes, chupar caracóis para a Costa da Caparica, assadinhos na chapa e sem desperdiçar o ranho gostoso do animal. Por acaso, também com cornos.
"De tanto se repetir uma mentira, ela acaba transformando-se em verdade" - Joseph Goebbels
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