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Todos os modelos estão errados...

por henrique pereira dos santos, em 27.01.21

... o que os distingue é serem úteis, ou não.

Aparentemente, esta premissa base da modelação tem estado mais ausente do que deveria do escrutínio das previsões com base nas quais se tomam decisões que afectam a vida de milhares de pessoas.

Na famosa reunião do Infarmed a 12 de Janeiro, se não me engano, foram propostas um conjunto de medidas, baseadas nas previsões assentes em modelos desenhados para compreender o que se passaria no futuro próximo.

Essas previsões foram sintetizadas nesta página do Público.

publico.jpg

Como o Governo resistiu à proposta de confinamento estrito, incluindo o fecho das escolas, os investigadores responsáveis por estas previsões, e que defendiam medidas de política diferentes das adoptadas pelo Governo, desenvolveram uma intensa campanha de comunicação no sentido de explicar que sem o fecho das escolas e sem um confinamento estrito o número de casos, a 27 de Janeiro (hoje), seria em torno dos 37 mil, e só adoptando um confinamento muito estrito, com fecho de escolas, seria possível ter hoje 14 mil casos covid.

Primeiro, uma questão metodológica: suponho que quando os investigadores falam destes números não falam do número concreto de cada dia, mas da média de sete dias que faz desaparecer grande parte do ruído que resulta de não se testar igualmente todos os dias.

Escarecido isto, seria normal que os jornalistas, em vez de passarem o tempo a ouvir os investigadores refazerem as suas contas - a 17 de Janeiro, Manuel Carmo Gomes era entrevistado pelo mesmo Público, justificando o facto dos dados se aproximarem do seu cenário de confinamento estrito, sem confinamento quase nenhum, com o limite da capacidade de testagem, coisa que nada permitia admitir como estando a ocorrer - procurassem avaliar e escrutinar as previsões feitas, o que nem é nada complicado, bastaria um boneco como este.

Sem Título 2.jpg

Ora o que o boneco nos mostra é uma média de sete dias sempre com uma inclinação menor que a recta prevista para o cenário de confinamento estrito e, mais importante, com um quebra na inclinação de há três dias para cá.

Ora, o fecho de escolas só poderá ter algum efeito cinco dias depois de ocorrer, portanto não influenciou em nada o andamento da epidemia até hoje, o que significa que sem as medidas consideradas essenciais pelos investigadores, está a haver uma evolução mais favorável que a prevista para um cenário de confinamento estrito.

Ao ponto de à previsão de 37 mil casos sem medidas - que foi o que se disse que na realidade eram as medidas tomadas pelo Governo a 15, quando ainda se podia beber um café ao postigo - a realidade contrapõe 15 mil casos, se usado o número de hoje, menos de 13 mil, se usada, como deve ser usada, a média de sete dias, ou seja, um desvio de mais de 100%.

Acresce que no caso das mortes o problema é o inverso, onde os investigadores viam 150 mortes, a realidade mostra quase 300 mortes (um pouco mais de 250, se estivermos a falar, como deveremos, da média a sete dias).

O problema não é o modelo ter resultados grosseiramente errados, isso pode acontecer com os melhores modelos, o problema é que as explicações para esses desvios não têm grande consistência.

Na academia, este tipo de situações são normais e correntes, o problema é quando os investigadores saem do seu campo de trabalho para a definição de normas sociais com impactos sobre terceiros.

Por exemplo, ainda ontem, Carlos Antunes - que faz parte da equipa que fez estas previsões - dizia na TVI que a covid explicava 85% (não sei se o número era exactamente este, mas era desta ordem de grandeza) da mortalidade excessiva e garantia ter demonstrado isso (com recurso aos seus modelos, claro). Só que esta demonstração tem um pressuposto, que é o de considerar que toda a mortalidade covid é uma mortalidade que se soma à mortalidade existente, isto é, que todas as pessoas que morreram com covid estariam vivas se não houvesse covid.

Este pressuposto é simplesmente absurdo - quer porque se conhece a fragilidade da condição de saúde da maioria dos mortos covid, quer porque a covid absorveu a esmagadora maioria da gripe sazonal, cuja mortalidade em excesso se estima numa média anual de 3 mil pessoas.

Da mesma forma, apesar dos sinais evidentes de abrandamento, não só no crescimento de casos, mas também no facto da positividade dos testes ter estabilizado há três dias, por exemplo, mesmo sabendo que é preciso esperar mais uns dias para verificar se a tendência se confirma, a mesma equipa de investigadores continua a fazer projecções baseadas em crescimentos futuros semelhantes aos crescimentos das últimas semanas, e a garantir que a única maneira de alterar essas previsões é estar tudo quieto em casa, em vez de rever os modelos.

Claro que a minha opinião sobre isto não interessa nada porque não percebo nada de modelação e as epidemias com que lidei não eram com pessoas mas na área da conservação, mas não entendo como não é possível haver explicações convincentes para este evidente falhanço dos modelos e, sobretudo, como a imprensa não parece ter o menor interesse em fazer este escrutínio simples, apesar do enorme impacto que estas previsões têm na formulação de medidas que afectam a vida de toda a gente.



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