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TOCQUEVILLE E O PERIGO PARA A DEMOCRACIA EM PORTUGAL  

por Miguel A. Baptista, em 12.05.21

Após uma visita aos Estados Unidos, o aristocrata francês Alexis de Tocqueville escreve um extenso livro, lançado em 1835, contendo as reflexões, essencialmente políticas, dessa viagem. 

O livro, “Da Democracia na América”, tornou-se uma das mais importantes referências da chamada “ciência política”, e tem alguns aspectos premonitórios extraordinários, incluindo, algo impensável no Séc. XIX que chegaria um momento em que os Estados Unidos dominariam metade do mundo, enquanto a Rússia outra metade. 

Segundo Tocqueville, a ameaça às democracias não advinha apenas das tiranias, mas do amolecimento, e complacência, que um demasiado paternalismo e assistencialismo. 

Tocqueville valorizava muito a iniciativa, o associativismo e a separação de poderes. Ele admirava na América esse sentido de cidadania e vigilância, ele gostava dessa vibração cívica e democrática. Se esta energia não existisse facilmente se cairia num regime que, ainda que democrático, seria o pastoreio do povo pelos governantes. 

Eu penso que, neste momento, não existe, nem à esquerda nem à direita, o perigo de instauração de uma ditadura tirânica num país da Europa Ocidental. No entanto penso que esse amolecimento e essa captura do indivíduo, de forma algo despótica, são perigos reais em Portugal, hoje. E são-no, porque, no fundo, se calhar é isso que os portugueses acomodados desejam. 

Quem tiver paciência leia, com atenção, este excerto da obra de Tocqueville. Escrito na primeira metade do séc. XIX ele relata, quanto a mim, de forma perfeita os perigos para uma vivência democrática, participativa e vibrante no Portugal do Séc. XXI. 

“Vejo uma multidão imensa de homens semelhantes e de igual condição girando sem descanso à volta de si mesmos, em busca de prazeres insignificantes e vulgares com que preenchem as suas almas. Cada um deles, colocando-se à parte, é como um estranho face ao destino dos outros; para ele, a espécie humana resume-se aos seus filhos e aos seus amigos; quanto ao resto dos seus concidadãos, está ao lado deles, mas não os vê; toca-lhes, mas não os sente, ele só existe em e para si próprio e, se ainda lhe resta uma família, podemos dizer pelo menos que deixou de ter uma pátria. 

Acima desses homens, ergue-se um poder imenso e tutelar que se encarrega sozinho da organização dos seus prazeres e de velar pelo seu destino. É um poder absoluto, pormenorizado, ordenado, previdente e suave. Seria semelhante ao poder paternal se, como este, tivesse por objetivo preparar os homens para a idade viril; mas ele apenas procura, pelo contrário, mantê-los irrevogavelmente na infância. Agrada-lhe que os cidadãos se divirtam, conquanto pensem apenas nisso. Trabalha de boa vontade para lhes assegurar a felicidade, mas com a condição de ser o único obreiro e árbitro dessa felicidade. Garante-lhes a segurança, previne e satisfaz as suas necessidades, facilita-lhes os prazeres, conduz os seus principais assuntos, dirige a sua indústria, regulamenta as suas sucessões, divide as suas heranças. Será também possível poupar inteiramente aos cidadãos o trabalho de pensar e a dificuldade de viver? … 

A igualdade preparou os homens para tudo isto, predispondo-o a aceitar este sofrimento e, até, a considerá-lo um benefício.” 



7 comentários

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De Anónimo a 12.05.2021 às 20:44

Caro Senhor
Que notável, e presciente de quase dois séculos, da "Da Democracia na América" que colocou acima: ando a adiar a sua leitura há décadas, tendo lido apenas o inacabado "o antigo regime e a revolução". Acabou-se : amanhã começo a leitura


Cumprimentos e obrigado


Vasco Silveira
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De Miguel Alçada Baptista a 13.05.2021 às 17:30

Obrigado pelo seu comentário Vasco.
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De Elvimonte a 12.05.2021 às 23:55

Extraordinário o senhor Alexis de Tocqueville. Um visionário, diria mesmo premonitório.


Infelizmente, a aplicabilidade da sua visão não se restringe apenas a Portugal, podendo generalizar-se a todo o mundo ocidental. 
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De Miguel Alçada Baptista a 13.05.2021 às 17:31

Também concordo, em absoluto que o retrato se aplica ao mundo ocidental no seu todo.
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De Anónimo a 13.05.2021 às 09:46

comparando os estados socialistas com as putas
'pago e sou mal servido'
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De Anónimo a 13.05.2021 às 12:32

Tem "costela" do Mestre Alçada Baptista...
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De Miguel Alçada Baptista a 13.05.2021 às 17:31

Obrigado pelo seu comentário. Bem haja.

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