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Teresa Andresen e Gonçalo Ribeiro Telles

por henrique pereira dos santos, em 12.01.20

Este é um post invulgarmente longo (parece que coisas deste tamanho não se escrevem em blogs) porque essencialmente reproduz o discurso de Teresa Andresen na aceitação da primeira edição do prémio Gonçalo Ribeiro Telles.

De meu tem apenas a introdução que é irrelevante para o essencial, mas que preferi fazer para deixar claro o que penso numa matéria sobre a qual quem me conhece poderá ter dúvidas.

Hoje, à procura de um outro texto, tropecei no que escrevi em 2012 sobre Ribeiro Telles: "Ao passar à porta de um café vi Ribeiro Telles sentado a ler os jornais do dia. Quem tem lido o que escrevo sabe que, de maneira geral, onde estiver Ribeiro Telles eu estarei na oposição. Mas nunca confundi as minhas divergências de opinião com a genuína simpatia que tenho por Ribeiro Telles pelo que, apesar do tempo contado, entrei no café e fiquei por ali dez minutos a conversar sobre o projecto da Faia Brava ou sobre o que estamos a fazer em Vila Pouca de Aguiar com o controlo de combustíveis através do pastoreio dirigido. Como sempre a curiosidade de Ribeiro Telles, as perguntas que faz, o interesse pelo que desconhece é cativante e saí dali, atrasado (coisa que me incomoda profundamente) mas a achar que tinha valido a pena." e, depois, encontrei um texto de 2011 em que era mais explícito no que são as minhas divergências conceptuais com Ribeiro Telles, mas também o respeito inequívoco que merece, a que Teresa Andresen, com muito mais propriedade, dá corpo neste discurso que acho notável e subscrevo praticamente na íntegra.

Senhor Presidente da República
Conselho de Administração da FCGulbenkian
Caros membros do Júri do Prémio Gonçalo Ribeiro Telles para o Ambiente e a Paisagem
Senhor Presidente do Conselho de Gestão do Instituto Superior de Agronomia, Professor António Guerreiro de Brito
Senhora Presidente da Direção Nacional da Causa Real, Teresa Lobo de Vasconcellos Corte-Real
Senhor Presidente do Colégio Nacional de Eng. Agronómica da Ordem dos Engenheiros, Eng. Fernando Manuel Moreira Borges Mouzinho
Senhor representante da Família Ribeiro Telles, Miguel Ribeiro Telles
Senhor Presidente da Associação Portuguesa dos Arquitetos Paisagistas, arquiteto paisagista Jorge Cancela

Quatro instituições que representam interesses e causas diferentes e um representante da família Ribeiro Teles uniram-se em torno de Gonçalo Ribeiro Telles para perpetuar o nome e o legado de uma figura singular e uma referência incontornável na vida pública portuguesa. Criaram um prémio para o Ambiente e Paisagem por ele inspirado.
Agradeço a decisão do júri pela distinção que me fizeram. Gostava de lhes dizer que é de forma muito sentida que lhes expresso o meu reconhecimento e louvo a vossa iniciativa. Não escondo que foi com surpresa e emoção que recebi a notícia da atribuição do prémio a mim.
Gonçalo Ribeiro Telles é um homem com uma vida intensa dedicada à intervenção pública, empenhado em diversas causas cívicas. Partilho com Ribeiro Telles uma formação em engenharia agronómica e em arquitetura paisagista no Instituto Superior de Agronomia, uma combinação que nos preparou para um modo próprio de compreender o mundo, em que a prática profissional se torna uma forma de estar na vida. A formação recebida instrui-nos e responsabiliza para a intervenção, educa a mente e, em particular, educa o olhar e a capacidade de ler os sinais inscritos na paisagem. Aproveito para testemunhar o meu apreço ao Instituto Superior de Agronomia e aos mestres que aí tive e que continuam a ser uma referência na minha vida. Fui professora durante 30 anos, dos quais dois anos no Instituto Superior de Agronomia. A muita alegria e motivação que vivi na sala de aula, ao longo de 30 anos de ensino universitário em Aveiro e no Porto, deveram-se em grande parte a esses mestres.

Gonçalo Ribeiro Telles é um nome maior da arquitetura paisagista portuguesa. Para ele, o exercício da arquitetura paisagista e a luta política como que se confundem. No 40º aniversário da Associação Portuguesa de Arquitectos Paisagistas, aqui nesta sala a pedido de Jorge Cancela, seu Presidente, proferi uma palestra fazendo uma síntese sobre o percurso da arquitetura paisagista portuguesa. Disse então que Gonçalo Ribeiro Telles tinha o enorme mérito de ter transposto para o discurso político português a frescura e o vanguardismo da teoria e prática da arquitetura paisagista, da causa ecológica, da sustentabilidade avant la lettre. Referia-me concretamente ao legado de uma legislação decisiva nos domínios do ordenamento do território, do ambiente e da conservação da natureza. A paisagem portuguesa de hoje – apesar das vicissitudes – deve muito dos valores que nela perduram à visão e a gestos maiores de Gonçalo Ribeiro Telles. Nessa ocasião, disse ainda que só por isso, ele já merecia o nosso reconhecimento e que se não tivesse feito mais nada, já tinha feito muito. Acrescentei que – “no entanto, Gonçalo Ribeiro Telles tinha ainda feito muito mais do que isso”. Daí o nosso imenso reconhecimento.
Gonçalo Ribeiro Telles é um exemplo de cidadania ativa. Recorro-me das palavras do voto de saudação da Assembleia da República a Gonçalo Ribeiro Telles, por ocasião do seu aniversário já depois dos tremendos incêndios rurais de 2017: “o que o País e os Portugueses mais lhe continuam a dever é essa capacidade permanente de sonhar e acreditar num futuro melhor e mais justo, ensinando-nos que a construção da Paisagem é uma exigência cívica e uma obrigação das mulheres e dos homens livres.”
Recebo assim este prémio que tomo como um compromisso que aqui assumo de promover este legado. Gostaria de o fazer conjuntamente com o júri do prémio Gonçalo Ribeiro Telles para o Ambiente e a Paisagem.
A 1ª vez que ouvi falar de Gonçalo Ribeiro Telles foi um momento marcante da minha vida. Pertenço àquela geração que fechou o ciclo dos exames de admissão ao liceu no dia 31 de julho de 1967. Passei assim ao lado das reformas educativas. Nos princípios da década de 1970, tomei a decisão de enveredar pela alínea g) para ingressar na Faculdade de Economia do Porto. Eis senão quando a minha Mãe me diz que eu deveria ser arquiteta paisagista como um senhor chamado Gonçalo Ribeiro Telles, que tinha feito um jardim lindo que ela tinha visitado no Algarve. Com minha Mãe aprendi a jardinar num enorme quintal, na Praia da Granja, que ela converteu num jardim. Minha Mãe já não assistiu aos mil tormentos porque passei para abandonar a tal alínea g) das Ciências Económicas e conseguir ingressar no Instituto Superior de Agronomia para ser arquiteta paisagista.
No ano em que nasci, Gonçalo Ribeiro Telles terá tido o maior revés da sua vida profissional pois entrou em conflito com a Câmara Municipal de Lisboa. A rainha Isabel II de Inglaterra visitava Portugal coincidindo com as obras da Avenida da Liberdade. Francisco Caldeira Cabral e Gonçalo Ribeiro Telles eram os autores da execução do projeto de renovação da avenida e Gonçalo Ribeiro Telles, que era então funcionário da Câmara Municipal de Lisboa, depois da partida da rainha, recebeu ordens para desfazer a obra que tinha sido feita... Gonçalo Ribeiro Telles opôs-se a cumprir a ordem. O sistema e o establishment reagiram à ousadia do projeto deles. Gonçalo Ribeiro Telles deixou a Câmara Municipal de Lisboa .... Mesmo assim, a cidade de Lisboa esteve sempre no centro da intervenção de Gonçalo Ribeiro Telles.
Que coincidência estarmos aqui hoje, a escassas horas da inauguração da Lisboa Capital Verde Europeia 2020. Quanto este prémio que a cidade de Lisboa recebeu deve a Gonçalo Ribeiro Telles!
O meu cruzamento com Gonçalo Ribeiro Telles aconteceu em Lisboa em ambiente familiar nos finais da década de 1970. Eu estudava no Instituto Superior de Agronomia e Gonçalo Ribeiro Telles dava os primeiros passos na então jovem Universidade de Évora na criação da nova licenciatura em arquitetura paisagista. Quando a Fundação Calouste Gulbenkian em 2001, me convidou para fazer a exposição “Do Estádio Nacional ao Jardim Gulbenkian. Caldeira Cabral e a 1ª geração de arquitetos paisagistas” adquiri um vasto conhecimento sobre a obra projetual de Gonçalo Ribeiro Telles. Impressionada com o elevado número de projetos para a cidade, e em particular com a exemplar intervenção na envolvente da Capela de São Jerónimo em Lisboa, perguntei-lhe qual o projeto que mais tinha gostado de fazer. A resposta que Gonçalo Ribeiro Telles então me deu teve um grande impacto em mim e, hoje, partilho-a aqui convoco. Disse-me: “O último”.
O jardim é o ecossistema de partida do arquiteto paisagista. Do jardim para a paisagem, a paisagem total. O arquiteto paisagista que pratica a arte do jardim e da paisagem é portador de um conhecimento ancestral. Não podemos permitir que se dispense ou apague conhecimento seja qual for. No exercício da jardinagem e da arte do jardim e da paisagem estamos sempre a ler sinais, a interpretar, a dialogar, a experimentar, a fruir ...
O jardim pode ser visto como um microcosmo a partir do qual se entende o macrocosmo. A construção das grandes cidades nasceu da experiência da construção dos jardins. Os jardins são laboratórios de aclimatação de plantas, guardando soluções para a adaptação às alterações climáticas. Os jardins são redutos para a contemplação, intrínseca à condição humana. São lugares de encontro dos seres humanos com a natureza. Os jardins são um dos poucos redutos do belo na sociedade contemporânea. Gonçalo Ribeiro Telles é um homem que sabe sobre muitas coisas e que tem o jardim bem no centro da sua intervenção e inspiração.
No entanto, a arquitetura paisagista é uma pequena profissão - uma profissão de poucos, em contraste com engenheiros, médicos ou advogados. Isso faz dos arquitetos paisagistas uma comunidade em modo de resistência e sobrevivência. Tornamo-nos um alvo vulnerável nos momentos de afirmação da mudança de políticas.... Depois de 40 anos de organização associativa, não conseguimos igualar as outras profissões – inclusivamente algumas bem recentes - e ver a Ordem dos Arquitetos Paisagistas reconhecida. Na academia, quando chega o momento de os órgãos de gestão tomarem decisões tíbias e se permitem a gestos pretensamente assertivos, o ensino da arquitetura paisagista é extinto ... Não tem sido fácil nem será fácil. A adversidade leva ao combate e fortalece-nos, cria oportunidades. Mas não devia ser sempre assim ... Vamos resistir, atentos aos sinais ... Sabemos que as comunidades pequenas são vitais – pelo conhecimento e prática que transportam, pela possibilidade de renovação e inovação que representam, porque podem fazer a diferença.
Gonçalo Ribeiro Telles é um exemplo marcante desta circunstância, o seu estatuto de monárquico, arquiteto paisagista, ecologista colocou-o sempre no combate, tantas vezes desigual, mas tanto consenso que ele foi gerando!
Gonçalo Ribeiro Telles tem uma alegria inata e contagiante e é um esteta. É um homem que sonha. Como ele, eu também ainda sonho e procuro o belo.
Gostava de ver as instituições do ensino pré-escolar motivadas para educar jardineiros. Os meninos deviam passar horas a jardinar ... a ler e a interpretar os sinais da horta, do jardim, da mata, da paisagem ... a pintar, a fazer música, a brincar ...
Gostava de ver os nossos parques naturais, os nossos parques e jardins públicos, os nossos corredores verdes e azuis, os nossos jardins históricos amados como lugares únicos e sagrados. É preciso dizer não à sua “disneylandização” ....
Gostava de ver a figura de “paisagem cultural” há mais de 20 anos consagrada na Convenção do Património Mundial da UNESCO transposta para o quadro legal português.
Gostava de ver políticas dirigidas para o património que dessem uma oportunidade à perpetuação da diversidade e da sustentabilidade das nossas paisagens enquanto obras combinadas do homem e da natureza.
Gostava de ver as políticas públicas com uma forte base territorial.
Gostava de construir uma política pública de agricultura e floresta para Portugal que fosse simultaneamente um instrumento ordenador do território.
Gostava que as politicas públicas atacassem o âmago do problema da nossa paisagem contrariando o abandono da gestão da paisagem, promovendo o cultivo sustentável da paisagem, inventando novos modelos de apropriação, e que se deixassem de pequenos gestos imediatos de reconstruir o edificado depois de atingido por flagelos naturais quando se sabe que casas, fábricas e fabriquetas não devem permanecer ali ...
É necessário olhar para a paisagem. É necessário ler os sinais da paisagem ... A paisagem fala-nos, quando estamos predispostos a ouvi-la. A paisagem é um arquivo da nossa identidade e nela residem também as soluções para o nosso futuro viável ... No entanto, as soluções estão cada vez mais em nós. O caminho que temos pela frente reclama desprendimento, inteligência, reinvenção, ousadia, e parece sem fim.
A causa ambiental e da paisagem sustentável não nos pode deixar distraídos nem alheados. Gonçalo Ribeiro Telles esteve sempre alerta e agindo. Hoje, a tragédia que vivem os cidadãos australianos, os coalas, os cangurus, os corais do reef, as suas florestas não é mais um problema deles, lá longe – também é nosso, aqui nesta sala. Reunidos em nome de Gonçalo Ribeiro Telles.
Obrigado Gonçalo Ribeiro Telles por tudo o que aprendemos consigo. Devemos-lhe um pedido de desculpa coletivo por as vezes que nos alertou para a causa ambiental e da paisagem sustentável e não o ouvimos ou o levamos a sério. Mas, as suas lições e os seus gestos permanecerão.
Obrigado Gonçalo Ribeiro Telles.
Lisboa, 10 de janeiro de 2020
Teresa Andresen



1 comentário

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De Luís Lavoura a 13.01.2020 às 14:51

Eu do Gonçalo Ribeiro Telles fiquei com bastante má impressão no da em que o ouvi, numa conferência, referir-se à agricultura da Baviera como uma "agricultura de montanha". Claramente, ele estava a falar daquilo que não sabia (a agricultura bávara faz-se, na imensa maior parte, na planície aluvial do Danúbio, e é por isso que a Baviera é agricolamente muito rica), e eu fiquei com a suspeita de que haveria outras coisas de que ele falaria sem saber.

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