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Tempos de turbulência  

por João Távora, em 18.11.25

Guernica.jpg

Vivemos uma época marcada por um ruído ensurdecedor. Os discursos, cada vez mais radicais, ecoam por toda a parte: nos parlamentos, nas redes sociais, nos encontros de café. A ameaça de guerras eclode nas manchetes dos jornais e nos debates de opinião, criando um clima de desorientação onde o medo e a confusão parecem ganhar terreno. A guerra fria reentrou no léxico corrente, a ameaça nuclear paira de novo. Em termos domésticos os extremismos erguem-se impantes, alimentados por ressentimentos antigos e desilusões recentes. As redes sociais exponenciam a gritaria da multidão zangada, que se expressa sem filtros e sem maneiras. Moderação é fraqueza, ribombam os tambores de guerra – estamos fartos de bem-estar. O problema é que pusemos tudo em causa, foram anos de desconstrução militante. Quem disse que a civilização e as instituições que a ergueram resistia a tudo? Será que o pendulo regressa ao ponto de partida?

As instituições, mesmo imperfeitas – sejam elas democráticas, jurídicas, educativas, religiosas ou culturais – têm servido, ao longo dos séculos, como pilares de coesão social. São elas que garantem a continuidade no meio da mudança, a justiça perante a arbitrariedade, a proteção contra o autoritarismo e o caos. No entanto, a confiança nas instituições sofre abalos profundos quando estas deixam de responder às expectativas dos cidadãos, ou quando se mostram permeáveis à corrupção, à ineficácia ou ao clientelismo.

Se as instituições são a estrutura, os valores são o cimento. São os princípios éticos que atravessam gerações e que, mesmo quando postos à prova, mantêm a sua relevância: a dignidade humana, o respeito pela diferença, a honestidade, a solidariedade, a justiça. Esses valores, longe de serem dogmas imutáveis, requerem constante reflexão e atualização para não se tornarem instrumentos de exclusão ou de moralismo vazio. Mas são, ainda assim, as âncoras que impedem a sociedade de naufragar no relativismo absoluto ou na barbárie.

A leviandade na comunicação é, talvez, um dos sintomas mais visíveis da crise contemporânea. Palavras ditas sem pensar, fake news, insultos e generalizações: tudo isto mina a possibilidade de diálogo e aprofundamento. É fundamental recuperar o valor da palavra ponderada, do debate informado, da escuta ativa. Só assim se criará um espaço público saudável, onde o desacordo não se transforma imediatamente em hostilidade.

Talvez que, afinal de contas, reclamar por instituições sólidas e valores perenes seja pedir por chão firme numa época de terramotos. O problema é que esse chão não se constrói de cima para baixo, nem se herda sem esforço. Exige cidadania ativa, compromisso ético e vontade de refazer pontes onde só restam escombros. Talvez seja este o maior desafio do nosso tempo: não nos resignarmos ao cinismo, nem nos rendermos à raiva, mas construir, juntos, a casa comum do cristianismo. Talvez estejamos todos distraídos a olhar para o dedo que nos quer apontar a lua.

Tenho quatro filhos e preocupa-me o mundo que lhes deixamos, e pelo qual de alguma forma sou responsável. Talvez por isso não desisto de acreditar num futuro onde não sejam os gritos, mas as vozes ponderadas e os gestos solidários, a definir o rumo coletivo.

Mas como construir um rumo colectivo nesta cultura hiperindividualista?

Na imagem: reprodução de Guernica de Pablo Picasso

 


14 comentários

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De Anónimo a 18.11.2025 às 18:59

Creio que no essencial as coisas caminham, se não no melhor dos mundos, pelo menos de forma civilizada.


O Norte (USA) incluídos, vai cedendo na hegemonia que de há muito  detinha e no Sul assiste-se ao grande acordar.


A China, mas também a Rússia e a muito breve prazo os paises do Cinturão e Rota e a África, ou pelo menos, a maior parte dela, passarão a fazer parte do Jogo mas em posições diferentes do passado.


Na sombra joga-se a grande partida do que será a moeda dominante parecendo que essa é na verdade a origem das ânsias.


O frenesim actual são só os primeiros sintomas da grande rearrumação.


Se houver juízo e bom senso nascerá um novo mundo inclusivo e partilhado.


O que será bom para todos.


 Se não 
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De Anónimo a 18.11.2025 às 19:10

Em todo o caso creio que o grande desafio, muitíssimo maior e mais difícil do que a rearrumação geo económica, que ora se desenha, é o aparecimento e evolução da Inteligência Artificial.


Esse sim é o de mais difícil superação, com potencial para fazer do mundo o paraíso que nunca foi, ou rebentar de vez com ele.
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De leitor improvável a 18.11.2025 às 20:22

Subscrevo e partilho das mesmas preocupações.
Algumas pistas aqui: 
https://leiturasimprovaveis.blogs.sapo.pt/porque-estamos-a-ficar-mais-burros-227601
A solução, essa, ninguém a tem. Precisa de ser construída.
Boas leituras
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De ASnonimo a 19.11.2025 às 07:26

Vivemos tempos de "paz" e "prosperidade " no pos queda do muro, habituámo-nos à calmaria, mas chegou hora de mexer umas peças no tabuleiro, como sempre aconteceu. China apresenta-se a jogo para reclamar o seu lugar, o balanço de poder é abalado, claro que o comum europeu isto são tempos turbulentos. Aposto que o líbio, ou vietnamita nem notam a diferença. 
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De Anónimo a 19.11.2025 às 12:03

E quando se diz China e África deveria talvez dizer-se China+África.


Enquanto a presença europeia em África foi o mais das vezes colonial, dominante e extrativa a China fomenta e age de modo abertamente colaborante e igualitário.


Ou quer ser assim percepcionada.


Poder-se-á dizer, reciclando uma frase do texto que a China; 


" Está refazendo  pontes onde só restavam escombros "
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De Anónimo a 19.11.2025 às 14:33

Continuamos eurocêntricos , apesar do suicídio (duplo) do sec.passado.
O  Império do Meio, encerrado definitivamente o parêntesis de 150 anos  -   coincidente com o auge britânico, "et pour cause" -  marcará e moldará o que "vem aí".
Juromenha


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De Anónimo a 19.11.2025 às 20:20

Caro Juromenha


Quando alguém fez o favor de rebentar os gazodutos que traziam gaz barato da Rússia a Europa afundou-se de imediato, na depressão ou por outras palavras, foi suicidada.


O mais triste é ver o ar feliz da sujeitinha alemã e a felicidade dos eleitos em Bruxelas.


A parte seguinte é a fase armamentista que vem já a seguir.
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De balio a 20.11.2025 às 10:40

<i>Quando alguém fez o favor de rebentar os gazodutos que traziam gaz barato da Rússia a Europa afundou-se de imediato, na depressão ou por outras palavras, foi suicidada.



O mais triste é ver o ar feliz da sujeitinha alemã e a felicidade dos eleitos em Bruxelas.</i>


Exatamente. Grandes verdades.


A Europa tem um grande jeito para se suicidar e para aceitar ser suicidada. Viu-se no século 20 e volta a ver-se no 21.


Tinha energia barata e fiável vinda da Rússia, resolveu hostilizar esse país e rebentar, literalmente, com a energia que dele vinha. As consequências não se fizeram esperar. Os dirigentes europeus aplaudem enquanto o continente se afunda.
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De Silva a 19.11.2025 às 16:45




Com vontade/coragem para implementar decisões e vivendo com as consequências das mesmas decisões, caso contrário, com mais dificuldade sujeitando-se às pressões existentes (de todos os tipos) e limitando-se a reagir à medida que a pressão aumenta.
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De passante a 19.11.2025 às 19:01

Percebo que queira representar a discórdia, mas essa pintura é repugnante, pelo menos para mim depois de a ver no museu. Nem sequer tem os tons sépia da sua imagem, são 27 metros quadrados de brutalidade monocromática destinados a acabrunhar quem os vê.


Arte odiosa que rebaixa o espírito humano. Tinha ido a Madrid ver a reunião de família dos quadros de Bosch no Prado - fantásticas delícias da imaginação - e passar depois frente a este Picasso, mesmo noutro dia e noutro sítio, foi um erro.
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De Anónimo a 28.11.2025 às 13:19

Como queira.


Mas Pablo Picasso limitou -se a pôr na tela o horror do que infelizmente, viria a tornar-se comum, nos anos seguintes.


Pode parecer por odioso, horrendo, etc,.


Mas um bombardeamento aéreo não é um chá dançante.
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De Anónimo a 19.11.2025 às 19:10

"No entanto, a confiança nas instituições sofre abalos profundos quando estas deixam de responder às expectativas dos cidadãos, ou quando se mostram permeáveis à corrupção, à ineficácia ou ao clientelismo."
Pode acrescentar: permeáveis à falta de autoridade e competência. 
É precisamente o que nos tem acontecido desde Maio de 1974.
Degração indefinida. 
Terramoto mascarado (depois de 85) com o maremoto dos "fundos".




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De Anónimo a 20.11.2025 às 11:43

Fundos que daqui a nada passam a ser "chão que deu uvas".  Finito !!! 


Deixam de vir e acabou-se o que doce.
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De Anónimo a 20.11.2025 às 13:17

"Llanto a la muerte de Ignacio Sanchez Mejia" , mas em tela...
A propaganda comunista, aliada à cupidez e oportunismo de Picasso, fez com que a pintura original " cambiase de bando"...e de designação...


Juromenha

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