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Vivemos uma época marcada por um ruído ensurdecedor. Os discursos, cada vez mais radicais, ecoam por toda a parte: nos parlamentos, nas redes sociais, nos encontros de café. A ameaça de guerras eclode nas manchetes dos jornais e nos debates de opinião, criando um clima de desorientação onde o medo e a confusão parecem ganhar terreno. A guerra fria reentrou no léxico corrente, a ameaça nuclear paira de novo. Em termos domésticos os extremismos erguem-se impantes, alimentados por ressentimentos antigos e desilusões recentes. As redes sociais exponenciam a gritaria da multidão zangada, que se expressa sem filtros e sem maneiras. Moderação é fraqueza, ribombam os tambores de guerra – estamos fartos de bem-estar. O problema é que pusemos tudo em causa, foram anos de desconstrução militante. Quem disse que a civilização e as instituições que a ergueram resistia a tudo? Será que o pendulo regressa ao ponto de partida?
As instituições, mesmo imperfeitas – sejam elas democráticas, jurídicas, educativas, religiosas ou culturais – têm servido, ao longo dos séculos, como pilares de coesão social. São elas que garantem a continuidade no meio da mudança, a justiça perante a arbitrariedade, a proteção contra o autoritarismo e o caos. No entanto, a confiança nas instituições sofre abalos profundos quando estas deixam de responder às expectativas dos cidadãos, ou quando se mostram permeáveis à corrupção, à ineficácia ou ao clientelismo.
Se as instituições são a estrutura, os valores são o cimento. São os princípios éticos que atravessam gerações e que, mesmo quando postos à prova, mantêm a sua relevância: a dignidade humana, o respeito pela diferença, a honestidade, a solidariedade, a justiça. Esses valores, longe de serem dogmas imutáveis, requerem constante reflexão e atualização para não se tornarem instrumentos de exclusão ou de moralismo vazio. Mas são, ainda assim, as âncoras que impedem a sociedade de naufragar no relativismo absoluto ou na barbárie.
A leviandade na comunicação é, talvez, um dos sintomas mais visíveis da crise contemporânea. Palavras ditas sem pensar, fake news, insultos e generalizações: tudo isto mina a possibilidade de diálogo e aprofundamento. É fundamental recuperar o valor da palavra ponderada, do debate informado, da escuta ativa. Só assim se criará um espaço público saudável, onde o desacordo não se transforma imediatamente em hostilidade.
Talvez que, afinal de contas, reclamar por instituições sólidas e valores perenes seja pedir por chão firme numa época de terramotos. O problema é que esse chão não se constrói de cima para baixo, nem se herda sem esforço. Exige cidadania ativa, compromisso ético e vontade de refazer pontes onde só restam escombros. Talvez seja este o maior desafio do nosso tempo: não nos resignarmos ao cinismo, nem nos rendermos à raiva, mas construir, juntos, a casa comum do cristianismo. Talvez estejamos todos distraídos a olhar para o dedo que nos quer apontar a lua.
Tenho quatro filhos e preocupa-me o mundo que lhes deixamos, e pelo qual de alguma forma sou responsável. Talvez por isso não desisto de acreditar num futuro onde não sejam os gritos, mas as vozes ponderadas e os gestos solidários, a definir o rumo coletivo.
Mas como construir um rumo colectivo nesta cultura hiperindividualista?
Na imagem: reprodução de Guernica de Pablo Picasso
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Não é obrigado a saber, pois parece-me ser você um...
a quem aprecie as ditaduras
A mim o que me provoca nervoso (e nem é miudinho) ...
A chamada Comunicação Social tem uma enorme, enorm...