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Tempo de trevas

por João Távora, em 14.01.21

Pessoa.jpg

Das regras de confinamento ontem decretadas pelo governo, a melhor das excepções é sem dúvida a liberdade dada aos nossos jovens e crianças de frequentarem os seus estabelecimentos de ensino. Parecia-me pouco realista e até bastante insalubre do ponto de vista mental fechá-los em casa, restringidos a aulas e contactos sociais virtuais em espaços confinados – é contra natura. Depois, há um equívoco que urge desmontar: as aulas virtuais são um potenciador das desigualdades, que não apenas as económicas. Prejudicam profundamente os miúdos menos expansivos social e intelectualmente, que carecem de acompanhamento e estímulos mais exigentes. 
Sempre aqui manifestei as minhas dúvidas quanto ao real impacto dos diversos pacotes de restrições que ao longo de quase onze meses nos vêm sendo aplicadas à experiência. A ideia com que fico é que a dinâmica da epidemia lhes é em grande medida indiferente, mas como é bom de ver, esta é uma perspectiva tabu, maldita até - chamem-me "negacionista". Por isso pressinto nas inúmeras excepções que nos são concedidas neste Estado de Emergência uma certa cedência a essa tese: perdida a batalha da economia num panorama global de profunda depressão, o que as "autoridades" pretendem é manter a ilusão de que nos estão a proteger, que têm um plano e uma estratégia científica de limitação de danos da pandemia, e que ao fim do dia o seu sucesso dependerá do sentido de responsabilidade de cada um e não de um vírus extremamente contagioso. Para tal ilusão contribui o sensacionalismo das notícias em directo das enfermarias (adoptado agora também em repugnantes campanhas de publicidade) em prime-time, a imporem um verdadeiro estado de terror às pessoas indefesas encerradas nas suas casas – e note-se que nem no Verão, quando os números de internamentos e as "vítimas" do Covid19 eram baixos, essa narrativa do terror nos deu tréguas. Acontece que é neste tabuleiro que o regime (lato sensu) joga sua sobrevivência democrática. Para mais, é sabido que depois do medo, é com a culpa a melhor forma de se vergar um indivíduo.
Quase um ano passado deste inferno real e mediático, resta-nos rezar por uma rápida campanha de vacinação. Das chagas das solidões e da pobreza teremos de cuidar depois, quando se forem esvaziando as UCIs e os “especialistas” do Infarmed desocuparem o palco que lhes demos. E isso também não vai ser fácil, porque o poder é das mais funestas tentações.



7 comentários

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De olhosqueleem a 14.01.2021 às 19:49

Costumo ler os seus textos em silêncio.
Mas deixo uma pergunta será que o nosso amigo Costa está a agir bem? Uns milhares de portugueses, contínuos, professores e alunos, que enfiados em salas algumas sem as mínimas condições, quer de distanciamento, quer de arejamento a não ser com janelas abertas em pleno inverno, continuarão a jogar ao totobola e a tentar fintar um vírus que pelos vistos é alérgico à educação e não entra em recintos escolares.
Porém, nas "saídas" tantas vezes os miúdos se aglomeram com máscaras enfiadas no queixo e a trocarem cigarros, comida e bebida sem a mínima preocupação...


Cordialmente,
Ana

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De balio a 15.01.2021 às 10:23

Ana, os miúdos são imunes à covid-19. Deixe-os trocar a comida e a bebida e até os cigarros. Deixe-os gozar a sua imunidade.
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De João Távora a 15.01.2021 às 10:32


 Na ponderação entre os factores risco para a saúde publica (residuais) e a formação e saúde mental dos jovens a minha balança inclina-se para o segundo.
Cordiais cumprimentos,
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De Elvimonte a 15.01.2021 às 15:30


Do artigo científico "Infection fatality rate of COVID-19 inferred from seroprevalence data", publicado no Bulletin of the World Health Organization: 
«Across 51 locations, the median COVID-19 infection fatality rate was 0.27% (corrected 0.23%) (...). In people <70 years, infection fatality rates ranged from 0.00% to 0.31% with crude and corrected medians of 0.05%.»


E também:


« If one could sample equally from all locations globally, the median infection fatality rate might be even substantially lower than the 0.23% observed in my analysis. COVID-19 has a very steep age gradient for risk of death [80].»


Outros títulos de artigos científicos e excertos com interesse:


"SARS-CoV-2 waves in Europe: A 2-stratum SEIRS model solution"
«We searched what isolation values allow to return to normal life in 90 days minimizing final deaths, shockingly all found isolations for healthy <60 [years] were negative (i.e. coronavirus parties minimize final deaths).»


"Effect of school closures on mortality from coronavirus disease 2019: old and new predictions"
«(...) school closures and isolation of younger people would increase the total number of deaths, albeit postponed to a second and subsequent waves.»


“Association between living with children and outcomes from COVID-19: an OpenSAFELY cohort study of 12 million adults in England”
«Among 9,157,814 adults <=65 years, living with children 0-11 years was not associated with increased risks of recorded SARS-CoV-2 infection, COVID-19 related hospital or ICU admission but was associated with reduced risk of COVID-19 death (HR 0.75, 95%CI 0.62-0.92). Living with children aged 12-18 years was associated with a small increased risk of recorded SARS-CoV-2 infection (HR 1.08, 95%CI 1.03-1.13), but not associated with other COVID-19 outcomes. Living with children of any age was also associated with lower risk of dying from non-COVID-19 causes. Among 2,567,671 adults >65 years there was no association between living with children and outcomes related to SARS-CoV-2. We observed no consistent changes in risk following school closure.»


Que os seus olhos leiam.
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De olhosqueleem a 15.01.2021 às 17:32

Thank you. I read.
Have a nice weekend.


Ana
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De Anónimo a 14.01.2021 às 21:14

Brilhante! Obrigado pela lucidez.
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De balio a 15.01.2021 às 10:22

Excelente post. De acordo.

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