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Tarefas delegam-se, responsabilidades não

por henrique pereira dos santos, em 29.07.19

O caso das golas nem é especialmente chocante nem sequer é o primeiro caso nebuloso à volta dos dinheiros da protecção civil.

Mais que isso, o que tem vindo a ser descrito é apenas o que toda a gente sabe que é a realidade da gestão intermédia na administração pública, em especial na administração que interage com as organizações do bem (segurança social, bombeiros, ONGs e por aí fora) e a administração que administra em permanente estado de emergência e urgência (protecção civil, fundos de apoio de emergência e por aí fora), em que as regras do Estado são preteridas em nome de um bem maior, seja por normas excepcionais, seja pela vulgaríssima prática da administração pública entregar dinheiro a organizações privadas (como bombeiros, ONGs, misericórdias, associações de solidariedade várias, SOS racismo, fundação para as telecomunicações, fundação da prevenção rodoviária, associações de desenvolvimento local, e tutti quanti) para que o gastem nos fins que o Estado pretende, mas sem o incómodo das regras que se aplicam aos gastos públicos.

"Veja lá se conhece mais duas empresas para consultarmos para lhe podermos adjudicar isto" é do mais trivial que se ouve no país inteiro.

E isto tem duas origens centrais: 1) uma lei que é estupidamente restrita nos formalismos, mas mais que deficiente na transparência e avaliação sucessiva; 2) uma cultura instalada de jeitinho que é praticada por responsáveis de todos os partidos, incluindo os que não têm partido nenhum (se dou este exemplo do PC não é porque o PC seja mais ou menos permeável a isto, é porque há muita gente que acredita na superioridade moral do PC nestas matérias, tal como há muita gente que é incapaz de ver a menor sombra de nepotismo no facto da filha de Francisco Louçã ser assessora do grupo parlamentar do BE).

Sócrates não foi o que foi por acaso, Sócrates foi o que foi porque compreendeu muito bem o contexto em que estava e sabia que o método é pegar num presidente de câmara, fazê-lo membro do governo, permitir-lhe que contrate um rapaz lá da terra que resolve problemas em vez de complicar e, se a coisa der para o torto, ainda serve de fusível. Lá mais para a frente se lhe pagará o favor de se manter calado.

Isto só é possível numa sociedade que desconhece que tarefas se delegam, mas as responsabilidades ficam com quem delega.

O PS funciona assim, e está em vias de ganhar as eleições, porque o país se reconhece, quer no rapaz esforçado e trabalhador que vindo de uma pequena vila do fim do mundo se consegue encaixar na corte, quer no cortesão que não esquece os amigos e o apresenta à corte, quer no rei que finge nada ver, nada ouvir e nada saber, "que o tipo pode ser intruja mas é esperto".

Cada voto no PS (e, já agora, em Rui Rio) é uma manifestação de confiança e contentamento nesta forma de ser, de olhar para a coisa pública e para os impostos.

A demisão do adjunto é apenas o resultado de alguma coisa ter corrido mal, ao contrário do habitual e será absolutamente irrelevante para o que vier amanhã.

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9 comentários

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De Anónimo a 29.07.2019 às 15:19

com o ps acontece sempre
'toque a saque e a degola'
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De Vagueando a 30.07.2019 às 14:13

Gola ou colarinho (branco) pouco interessa, A falta de ética, de educação, de instrução, de princípios, de cidadania, de humildade, de respeito, de coerência, são exemplos infelizmente, cada vez mais frequentes no mundo.
E não envolvem só partidos políticos, nem nenhum em particular, são transversais e por isso, são pessoas e não organizações, que estão na génese do problema.
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De Anónimo a 29.07.2019 às 15:42

Adorei a placidez da Catarina a pedir calma até tudo estar esclarecido.
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De Marco Antunes a 30.07.2019 às 10:47

Querem ver que é o CDS que escapa?????????


Já agora, há alguém em quem votar?
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De Toya De a 30.07.2019 às 11:26

Eu estou para este post em destaque no SAPO, como o Marco Que aqui pergunta, "há alguém em quem votar?",  não esqueça, enrique pereira dos santos, os trump's, os bolsonaros e outros da mesma laia, são fruto de textos DEMAGOGOS e RELES, iguais aos seus. COMPETE-NOS A TODOS NÓS CIDADÃOS, NO NOSSOS DIA A DIA, CONTRIBUIR COM AS NOSSAS ATITUDES PARA ACABAR COM ESTE ESTADO DE COISAS E NÃO DEIXAR  QUE SEJAM OS OUTROS A DECIDIR, ENTENDE?
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De Anónimo a 30.07.2019 às 13:15

Sim, há quase vinte partidos em votar, mas realmente não percebi nada do que pretendeu dizer. 
Pode ser mais concreto em relação ao que discorda no artigo? 
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De Sarin a 30.07.2019 às 15:53

Sr. Henrique, poderia, uma vez que deu destaque aos 2 milhões em 10 anos, dizer qual o valor adjudicado nesse tempo pelas mesmas autarquias a empresas que não têm militantes comunistas? Só para percebermos a proporcionalidade desses valores.


Porque uma coisa são aquisições  acima do preço de mercado ou ignorar a concorrência, outra são adjudicações à melhor oferta.
E sim, os processos devem ser transparentes - mas também o devem ser as notícias e quem lhes dá eco.
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De henrique pereira dos santos a 30.07.2019 às 18:37

Se bem percebo, o que o preocupa é saber se o tráfico de influências num partido é maior que noutros, é isso?
Não o posso ajudar, o meu problema é haver tráfico de influências, não é discutir valores relativos entre os diferentes partidos e não partidos.
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De Sarin a 30.07.2019 às 18:42

Pelo contrário, o que me preocupa são as notícias que se criam com valores fora de contexto, a forma como se apresentam os dados e se manipulam inferências.


Que não me pode ajudar a combater tais manipulações percebi eu, mas ainda tive esperança de que se apercebesse por si mesmo da diferença entre casos e não-casos.

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