Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Também eu não atiro pedras…

por Vasco Mina, em 14.04.19

1539358372_504620_1539682973_noticia_fotograma.jpg

Recentemente fomos confrontados com o caso, ocorrido em Espanha, do casal Maria José Carrasco e Ángel Hernández. Ela, com 61 anos, sofria, há trinta anos, de esclerose múltipla e ele foi, durante todo este tempo, marido, enfermeiro e curador. Não vou, neste escrito, alongar-me sobre a tragédia que esta doença significa pois é do conhecimento geral o sofrimento de todos os pacientes que a contraem; apenas referir que a esclerose afetou a mobilidade, a visão e quase por completo a fala; tecnicamente, Maria José tinha 82% de incapacidade reconhecida pelas entidades oficiais e era totalmente dependente (alimentação, higiene, mobilidade,…) do marido. Estava num estado considerado como de terminal e com um sofrimento enorme. Ángel, não suportando mais o sofrimento de Maria José, decide avançar para o suicídio assistido.

Vamos aos factos e tentar compreender porque acabou a vida de Maria José em suicídio assistido. Em Outubro de 2018 o jornal “El País” edita um longo artigo no qual é apresentada a situação deste casal. Maria José Carrasco afirma, com toda a clareza, que “Quero o final quanto antes”. Mas, como é referido no texto, não tem condições de executar a sua vontade pois as suas limitações físicas a tal impediam. Ángel Hernández refere que algum tempo antes, ainda menos limitada, Maria José tinha tentado o suicídio e que tinha sido ele quem tinha conseguido impedir pois considerava, então, que apesar de tudo a sua mulher “tinha suficiente qualidade de vida”. O tempo foi passando e a doença agravando-se progressivamente.

Ao longo dos anos foram pedindo ajuda mas acabaram por ficar sós. Não tiveram filhos pois cedo adoeceu Maria José. Os irmãos de ambos viviam longe e não puderam ajudar. Dos vizinhos sabe-se apenas que tinham conhecimento da situação. As tentativas de apoio por parte do Estado foram totalmente fracassadas: nove anos em lista de espera para uma residência adequada à situação de Maria José e… nada! Tentaram pedir ajuda domiciliária mas ficaram também à espera. Há pouco mais de um ano, Ángel necessitou de ser operado a uma hérnia mas acabou por não entrar no bloco operatório pois não conseguiu apoio para a sua mulher.

Sem apoios de ninguém (o Estado apenas lhe concedeu, uns anos antes, uma reforma antecipada para cuidar de Maria José) montou ele uma verdadeira enfermaria em casa onde nada faltou, nem uma grua para içar a mulher. Mais, conseguiu, com as suas poupanças, suportar alguns cuidados paliativos domiciliários. Com todo o amor tratou de Maria José e esteve ao seu lado todas as horas do dia e da noite. Mas o estado de saúde sempre a agravar-se, o tempo a pesar e o esgotamento de ver, minuto a minuto, o sofrimento de Maria José, levaram Ángel a tomar a decisão de a ajudar a suicidar-se. No dia 3 de Abril passado injetou pentobarbital sódico e ela morreu serenamente pouco depois. Esta ação foi filmada e o vídeo circula na net.

Ángel Hernández sempre manifestou, antes e depois da morte da Maria José, a sua esperança na legalização da eutanásia como solução para o sofrimento de sua mulher. Eu sou contra a legalização da eutanásia mas percebo a posição deste homem. Não é possível a ninguém suportar, só e sem apoio humano, um sofrimento deste tipo! Esta história revela o falhanço total de uma sociedade perante o sofrimento. Falhou a família, falharam os vizinhos, falharam as instituições de solidariedade social, falhou o Estado, enfim… apenas Ángel agiu! Vamos por isso legalizar a eutanásia? Não! Vamos sim dotar de cuidados paliativos, de assistência hospitalar e residencial, de acompanhamento humano, todos aqueles que sofrem. O caminho não é acabar com o sofrimento pela via da morte!

E o Ángel Hernández? Choro com ele e rezo por ele e pela Maria José. Será condenado? Sim, será! Mas sem pena efetiva! Também eu não lhe atiro pedras…

 

Autoria e outros dados (tags, etc)



6 comentários

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 14.04.2019 às 17:59

Caro Vasco Mina, espero sinceramente que o seu choro e a sua reza sejam úteis.
Sem imagem de perfil

De Antonio a 14.04.2019 às 19:33

Gostei!!!
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 14.04.2019 às 22:06

Vasco, muito bom o seu artigo.
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 15.04.2019 às 09:35

Bom post. Não entendo, porém, a conclusão. O Vasco pretende que não se legalize a eutanásia, porém parece tolerar que Ángel seja condenado com pena suspensa. Ora, eu não acho isso nada bem. Se algo é ilegal, então é ilegal mesmo, e não deve haver penas suspensas, que é como quem diz, meramente formais; se, pelo contrário, se considera que algo é tolerável, então deve ser legal.
Ou bem aquilo que Ángel fez é tolerável e admissível, e então a eutanásia deve ser legal, ou bem que é intolerável e inadmissível, e então ele deve ser condenado a pena efetiva.
Imagem de perfil

De Vasco Mina a 16.04.2019 às 23:16

Caro Luís Lavoura,
Muito obrigado pelo seu comentário.
Condenar os actos é bem diferente do que condenar as pessoas. Competirá à Justiça avaliar, em cada caso, as atenuantes e, em conformidade, decidir pela pena ajustada. O que aliás acontece todos os dias (basta ler os jornais) e não é por isso que os delitos deixam de ser considerados com tal. 
Por outro lado, despenalisar a eutanásia é como que abrir a Caixa de Pandora tal como acontece na Holanda em que o número destes actos atingiu 6.500 em 2018, 
Por isso reforço o que disse: não atiro pedras.(às pessoas).
Vasco Mina
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 15.04.2019 às 11:06

Lá está... , para se escrever, é preciso ter o dom, a "bagagem intelectual". Não é qualquer um que escreve.

Comentar post



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes


Links

Muito nossos

  •  
  •  
  • Outros blogs

  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2008
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2007
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2006
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D