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Talvez seja tudo simples

por henrique pereira dos santos, em 01.03.18

fogo álvaro oleiros.jpg

Paulo Fernandes usou esta fotografia, tirada perto e Álvaro, Oleiros, num comentário sobre o incêndio Sertã/ Oleiros, de 15 de Outubro.

À esquerda temos um povoamento de eucalipto, à direita um povoamento de pinheiro, sensivelmente do mesmo tamanho.

Aparentemente, o fogo foi menos intenso do lado do eucalipto que do lado do pinheiro, o que se percebe pela cor e pelo facto das folhas dos eucaliptos não estarem totalmente calcinadas. Paulo Fernandes fala de um fogo de superfície no eucalipto e num fogo de copas no pinhal.

O relevante aqui é chamar a atenção para o erro que seria dizer, a partir desta fotografia, que o pinheiro é muito mais perigoso que o eucalipto, do ponto de vista dos fogos.

Neste caso pode dizer-se que os pinheiros à direita constituíram um problema maior que os eucaliptos à esquerda. Por serem pinheiros? Não, seguramente, do lado esquerdo está um povoamento, provavelmente gerido, e do lado direito está um conjunto de árvores sem gestão, ser uma ou outra espécie não é muito relevante para o que aqui se vê.

A chave aqui é a gestão.

Esta noite uma colega minha mandava-me uma imagem de uma quinta, cujos combustíveis são geridos por cabras, e com centenas de árvores, carvalhos, castanheiros, oliveiras, fruteiras e alguns pinheiros, pedindo-me conselhos sobre o que fazer.

Se a lei fosse aplicada cegamente, as casas entretanto recuperadas, tal como a quinta, deixariam de ter metade do interesse para os seus proprietários, para a biodiversidade e deixariam de ser uma ilha de diversidade e amenidade numa mar de eucaliptos de produção na envolvente. E com o sol e a luz a entrar francamente até ao chão, o mato explodiria, aumentando, em vez de diminuir, o risco de fogo.

Sugeri-lhe que procurasse fazer, junto da Comissão Municipal de Defesa da Floresta, aquilo que penso que a Câmara de Lisboa terá feito em Monsanto: alegar a qualidade do arvoredo e a gestão de combustíveis que é feita, para que se aplique uma excepção, aliás prevista na lei, que evite o corte estúpido, socialmente absurdo e inútil do arvoredo.

Mais uma vez, a chave aqui é a gestão.

Alegar-se que "quanto mais cortar menos risco existe" é de uma inacreditável indigência e uma poderosa demonstração de como a ignorância é atrevida.

Alegar-se que o problema é não se ter aplicado a lei nos últimos doze anos e portanto agora a coisa resolve-se com um esforço excepcional de cortar a eito, mesmo que seja um bocadinho a mais, é esquecer que a vegetação cresce todos os dias, independentemente do que diz o Diário da República: mesmo que há doze anos a lei tivesse sido aplicada, já teria tido tempo para voltar tudo a crescer, estando em ponto de rebuçado para arder.

Dizem-me que um cálculo preliminar da área envolvida nestas obrigações de cortar a esmo andará pelo milhão de hectares, entre 50 metros de cadas isoladas, cem metros de povoamentos, margens de infraestruturas, redes primárias de gestão de combustíveis, etc..

Ao preço do corte moto-manual seriam mil milhões de três em três anos. Com fogo poder-se-ia reduzir para um quarto, mas a dificuldade técnica é maior e está-se dependente das condições meteorológicas (pretender queimar 300 mil hectares por ano quando o objectvivo do Governo é queimar 15 mil hectares por ano dá bem a ideia da dificuldade da coisa). Mesmo assim, 250 milhões de três em três anos, é muito dinheiro (o governo anda muito satisfeito porque disponibilizou um empréstimo às autarquias de 50 milhões, já não é mau, já deve dar para 20% do que seria preciso fazer com esta lógica, mais coisa, menos coisa).

No fundo, no fundo, a coisa está muito bem caracterizada neste comentário que eu gostaria de ter escrito: "Este pessoal não percebe o que acontece a um terreno quando deixa de ser explorado. Pensarão com certeza que cortam as árvores e o terreno fica assim, sem nada, sem mato, para sempre...".

Que um ou outro responsável pense isto, enfim, é triste mas acontece, mas que uma sociedade inteira deixe que esta ideia parva seja a base da gestão do fogo com que o Estado pretende garantir a segurança de pessoas e bens, é para mim um mistério que me deixa completamente atordoado.

Confesso que não sei mais que fazer nesta matéria, há alturas em que baixar os braços parece ser o mais sensato.

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1 comentário

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De Anónimo a 02.03.2018 às 13:43

Henrique, 
Comungo das suas preocupações, pois comprovo que onde vivo, desde  que  este  problema surgiu, está  instalado um caos social relativo à  gestão  e corte  do arvoredo nas FGC relativas às  edificações e aglomerados populacionais, com muita ignorância à  mistura  e sentido de puro oportunismo de gente que  quer  ganhar  dinheiro e/ou levar  a cabo o corte de arvoredo desnecessário  ou que requer  autorização legal para o efeito, com a mais completa complacência das autoridades. O problema  vai agravar-se na sua aplicação  à  rede viária, nacional  e municipal, porque os Srs. da Infrestruturas de Portugal e autarcas vão  ver aqui  uma oportunidade de se livrarem do arvoredo que se encontra na beira das estradas.
Quanto à  fotografia, talvez haja uma outra explicação,  também simples e óbvia, sem prejuízo do importante papel da gestão florestal que refere, como chave da problemática dos incêndios.  Para mim, a frente de fogo progrediu na direcção da direita  para a esquerda e a estrada teve um  papel muito relevante na perda de energia da frente, por se localizar sobre uma linha de festo.
Por analogia, tal como o sentido da frente de fogo pode explicar a situação, com a passagem da estrada da direita  para a esquerda, na fotografia, também esta governação assim  o é na sua  construção  política e, se não tem tento nas políticas,  como é o caso desta passagem do 8 para 80 nas medidas de prevenção dos incêndios, talvez se queime. Tal como sucedeu ao eucaliptal da fotografia.
Grato  pelos excelentes esclarecimentos que tem postado, um verdadeiro  Serviço Público que tem prestado a Portugal.
Obrigado.

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