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Emoções básicas (47)

por Luís Naves, em 27.02.09

 

Momento decisivo

As cimeiras europeias que se realizam a meio dos semestres, dedicadas à economia, costumam ser pouco importantes. No entanto, a reunião deste domingo é diferente das outras.

A União Europeia enfrenta uma das suas crises mais graves de sempre, na ruptura financeira na Europa de Leste e magreza das medidas de ajuda. A questão está muito bem explicada neste artigo de Daniel Gros, onde é apresentada uma proposta de solução. No texto fala-se em 250 mil milhões de euros em risco, 90% deste dinheiro com origem em bancos de países da Europa Ocidental, atraídos à região nos últimos anos pelas elevadas taxas de crescimento económico.

A crise internacional provocou no exterior da zona euro uma verdadeira catástrofe que ameaça contagiar um grupo de Estados da moeda única, incluindo Portugal. A própria estabilidade da União está em risco, sobretudo se cada um dos membros se limitar a salvar as respectivas subsidiárias em perigo. Não será fácil fazer isso, pois os sistemas financeiros dos novos membros são praticamente controlados por bancos dos antigos e o mesmo é verdadeiro para as empresas. A economia local está nas mãos de franceses, alemães, austríacos ou italianos: o contágio é fácil e a quarentena difícil.

Este é o teste da liderança. Até que ponto a Europa já esqueceu os verdadeiros custos das suas divisões? Até que ponto esqueceu os sacrifícios que foram feitos no leste para conseguir esta reunificação? Até que ponto tem vergonha destes países que parecem ser um peso?

Saberemos dentro de dias. No fundo, esta é a primeira grande crise do euro, mas também um momento em que vamos perceber se a UE consegue agir em conjunto quando está em causa um problema que diz respeito a todos os países. Caso se aplique o princípio de cada um por si, a maior experiência política contemporânea estará provavelmente condenada ao fracasso. Por outro lado, se vingar o princípio da solidariedade, a integração europeia vai acelerar.

 

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Emoções básicas (27)

por Luís Naves, em 21.10.08

 

O sobrevivente

Num interessante artigo do DN que já foi referido num post anterior, João Miguel Tavares escreve sobre Santana Lopes, manifestando surpresa pela aparente longevidade política do ex-primeiro-ministro e antigo presidente da câmara de Lisboa. O artigo do DN é uma crítica dura, mas não nos oferece pistas para explicar o fascínio que o eleitorado parece ter pelo político. O João Villalobos já citou aqui uma passagem significativa: segundo o JMT, a culpa do fenómeno também “é minha”.

Neste ponto discordo, pois não gosto de me envergonhar do que não fiz. Nunca votei e jamais votaria em Santana Lopes. Agrada-me, aliás, que seja candidato em Lisboa, pois tenciono votar em Lisboa.

Santana Lopes é o típico dirigente populista que inflaciona a sua popularidade através de truques retóricos. Muito experiente como político profissional, é um hábil táctico e gosta de correr riscos.

Os populistas estão presentes na maioria dos países e sistemas políticos modernos. Alguns até chegaram ao poder. Não são todos iguais, naturalmente, mas existe um padrão de falta de substância e de pobreza ideológica. Geralmente, são pessoas cujas convicções consistem num leve verniz superficial, que estala na primeira oportunidade. Nas suas decisões não há matrizes muito visíveis, pois gostam de navegar à vista, ao sabor dos acontecimentos. É por isso que são geralmente maus para os países e bons em eleições. E este último elemento é importante: pessoas que ganham eleições têm sempre uma corte de fiéis admiradores, cada um à imagem do líder (ideias de gelatina e ambiciosa tenacidade). Os cortesãos viajam à boleia do poder.

Há muitos populistas na Europa e penso que, no meio da crise profunda em que vivem tantos Estados da UE (e que não foi causada pela crise financeira), existe clara tendência para que o seu número aumente. Infelizmente, Portugal não deverá escapar ao problema.

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Emoções básicas (24)

por Luís Naves, em 08.10.08

O Pedro Correia e a Isabel Teixeira da Mota já aqui escreveram sobre o envergonhado reconhecimento da independência do Kosovo por parte do governo português e estranham a mudança de opinião. Porquê agora?
A pergunta é pertinente e concordo que a decisão revela total ausência de critério. Qual o motivo que levou a uma mudança de opinião neste momento?
A Isabel também lembra uma declaração onde o Presidente Cavaco Silva sublinha a diferença entre os casos do Kosovo e da Abcásia-Ossétia.
 
Razões
As razões apresentadas para a mudança de opinião parecem estranhas. Diz o Governo que houve uma alteração geo-política no Cáucaso (mas isso já foi há dois meses) e que a irreversibilidade da situação no Kosovo (mas isso já era em 1999) justificava o reconhecimento.
Escrevi no Corta-Fitas que Portugal devia ter reconhecido a independência do Kosovo quando esta ocorreu. Também escrevi que a situação é de tal ordem irreversível que a Sérvia tem interesse em deixar cair o assunto, defendendo naturalmente os interesses dos sérvios que ficaram do lado errado da fronteira. Aliás, a comunidade internacional tem a obrigação moral de não falhar nesta matéria. E este é o problema que deve ser discutido.
Os comentadores que li sobre este assunto consideram geralmente que a situação do Kosovo é idêntica às da Abcásia e Ossétia do Sul. O argumento prossegue desta forma: Dada a identidade de situações, se não concordamos com um dos casos, não podemos concordar com os outros. É muito usada a frase “isto vai contra a legalidade internacional”.
Na minha opinião, os casos são bem diferentes e a independência do Kosovo não é ilegal. Aliás, a declaração citada pela Isabel aponta para a mesma tese, tornando ainda mais estranho o adiamento do reconhecimento da independência kosovar.
 
As diferenças
A Abcásia é um pequeno território da República da Geórgia que, no tempo da URSS tinha 45% de georgianos e menos de 20% de abcases. Os georgianos foram quase todos expulsos durante o conflito (que teve atrocidades dos dois lados). O território tem agora pouco mais de 200 mil habitantes e possui duvidosa viabilidade; a Ossétia do Sul tinha uma proporção de dois terços de ossetas para um terço de georgianos. Agora, é uniforme.
O Kosovo, por outro lado, integrou a Jugoslávia por sua livre vontade e quis sair quando a Jugoslávia começou a entrar em colapso, no início dos anos 80. De forma duvidosa, a Sérvia reclamou sempre a soberania sobre o território, mas o Kosovo gozava de ampla autonomia, que lhe foi retirada pela Sérvia. A população local nunca apoiou esta retirada ilegal de autonomia. A população, aliás, é 90% albanesa e o território tem dois milhões de habitantes.
Há outra diferença crucial. Uma resolução das Nações Unidas, de 1999, colocou o Kosovo sob administração da ONU (algo que nunca aconteceu com a Abcásia e a Ossétia).
A referida resolução (1244, de 1999) afirma a “integridade territorial da República Federal da Jugoslávia”, mas também diz que sob a administração da ONU “o povo do Kosovo pode gozar de autonomia substancial”. A comunidade internacional compromete-se a “promover o estabelecimento, dependente de um acordo final, de autonomia substancial e auto-governo do Kosovo”. Esse auto-governo existia na altura do reconhecimento e resultava de eleições democráticas, supervisionadas pela comunidade internacional.
 
Dois pesos
Tenho lido as maiores acusações ao Kosovo (que não é viável, que é governado pelo crime organizado, que necessitará de tropas até ao fim dos tempos). Apesar de me parecerem exagerados, estes argumentos nunca são utilizados para os dois territórios caucasianos, esses sim separatistas e sem viabilidade.
Também li muitas críticas a Mikhail Saakashvili, o líder georgiano, que é acusado das maiores atrocidades. Não digo que não tenha culpas no cartório, mas Saakashvili tem legitimidade democrática e a Geórgia foi frequentemente alvo das provocações ossetas e abcases, escudadas nos russos.
Nestas comparações, nunca li um paralelo entre Saakashvili e o ditador que levou a Sérvia a perder o Kosovo, Slobodan Milosevic. Se alguém fizesse esta comparação, ela seria amplamente desfavorável a Milosevic.

Nunca compreendi este uso de dois pesos e duas medidas. Basta ler alguns dos comentadores mais importantes da nossa imprensa para perceber a reacção instintiva anti-ocidental. Segundo estas visões, os EUA e as potências europeias foram irresponsáveis no reconhecimento do Kosovo. A culpa, naturalmente, é de Bush, pois não há em toda a Europa um só líder a pensar pela sua cabecinha. A Rússia, pelo contrário, está apenas a defender os seus interesses vitais, claramente ameaçada pela belicosa NATO. São estranhas visões.

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Emoções básicas (17)

por Luís Naves, em 22.09.08

A corrida da avestruz

 

O capitalismo não vai acabar amanhã, ao contrário do que escrevem alguns observadores, que tomam a nuvem por Juno.

Mesmo de sectores liberais que concordam com esta afirmação, surgem opiniões surpreendentes sobre a crise financeira. Carlos Abreu Amorim, por exemplo, interpreta o salvamento da AIG como intervenção política, para salvar a candidatura de John McCain (suponho que o texto critica a intervenção). Discordo, pois o que de facto aconteceu foi o salvamento de uma instituição cuja queda teria provocado um efeito dominó. Chamam a isto crise sistémica, que se propaga a jusante e ganha dimensão perigosa. A falência da Lehman Brothers, pelo contrário, era tolerável.

Não entendo a comoção portuguesa com a pobreza súbita de alguns banqueiros americanos. A crise financeira tornou-se notícia angustiante após alguns conselhos de administração terem sido despedidos, os accionistas depenados e as empresas nacionalizadas.

Claro que a crise já vinha de trás. Este ano, 600 mil americanos perderam o seu emprego e dez mil pessoas por dia falham o pagamento das suas hipotecas. A América está endividada e continuará a estar, pois a superpotência flutua graças ao generoso investimento do mundo em títulos de dívida. Isto, aparentemente, não preocupa ninguém.

Estou-me nas tintas para o Lehman Brothers, mas preocupa-me o efeito sistémico. Ou seja, até que ponto isto tem a ver comigo. Neste tema central, há menos análises. Segundo julgo perceber, vamos ter menos crescimento económico e mais desemprego.

O capitalismo não vai desaparecer, mas muitas pessoas vão ficar mais pobres.

Neste contexto, é ridícula a rentrée política portuguesa, com o comício do PS, o novo slogan (a força da mudança), que só dá vontade de rir, aquele entusiasmo tonto após serem ditas umas banalidades sobre uma alegada modernidade. A política portuguesa tem a irracionalidade de um Benfica-Porto, é um enterrar a cabeça na areia, como se a nuvem fosse sol radioso.

A única mudança que se adivinha é que as coisas vão piorar, e muito. Acho uma vergonha que os responsáveis não o admitam e que continuem a fazer o discurso do melhor dos mundos.

 

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