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Portugal atravessa uma transformação silenciosa e profunda que nos deveria inquietar a todos: o envelhecimento acelerado da sua população. Segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística, em 2024, cerca de 23% dos portugueses tinha mais de 65 anos, colocando o país entre os mais envelhecidos da Europa. Este fenómeno não se limita a números; traduz-se numa mudança estrutural na forma como vivemos, cuidamos e nos relacionamos nas comunidades urbanas e rurais.
A família portuguesa, outrora pilar de sustento e conforto na velhice, tem vindo a perder protagonismo. O aumento de famílias monoparentais, a perda de influência da Igreja Católica e do papel social das Paróquias, a dispersão geográfica dos membros e as exigências da vida moderna fragmentaram o tecido social que tradicionalmente apoiava os mais velhos.
O envelhecimento acelerado de Portugal revela-se não apenas uma estatística alarmante, mas uma tragédia que se desenrola debaixo dos nossos olhos. A cada dia, assistimos ao esvaziar das aldeias, aos bancos de jardim ocupados por rostos marcados pela solidão, e às casas iluminadas apenas pela luz da televisão, onde a ausência de companhia se faz sentir como um frio cortante. Hoje, demasiados dos nossos velhos vivem sozinhos ou em isolamento, privados do convívio e do suporte emocional que antes era garantido pela proximidade familiar.
As Paróquias mais robustas e as IPSSs esforçam-se por dar assistência domiciliar a estes náufragos sociais, e também por responder à crescente procura de lares de terceira idade, mas a oferta permanece manifestamente insuficiente. Segundo a Associação de Apoio aos Idosos, apenas 4 em cada 10 pedidos de vaga em lares públicos conseguem resposta, e os preços dos lares privados ultrapassam frequentemente o orçamento da maioria dos pensionistas. Para muitos, a alternativa é permanecer em casa, contando com apoios domiciliários que são, na melhor das hipóteses, intermitentes. Noutras situações mais radicais, o único refúgio possível é uma cama dum hospital público onde vêm a morrer na mais profunda solidão e indigência.
Muitas dessas pessoas sós são aquelas que, por não terem descontado para a Segurança Social — como trabalhadores liberais, artistas e outros profissionais independentes — se encontram sem qualquer rede de proteção. Estima-se que mais de 300 mil portugueses acima dos 60 anos estejam nesta situação vulnerável, privados de pensão regular e de acesso facilitado aos serviços sociais.
Como se vê, isto tem tudo para correr mal a breve trecho: mais de 40% dos idosos em Portugal vivem sozinhos, e o índice de dependência dos mais velhos, um indicador demográfico que mede o peso da população idosa sobre a população em idade activa, já ultrapassa os 56%. Esta realidade tem implicações profundas, não apenas para os próprios velhos, mas para as gerações futuras, que enfrentarão o desafio de cuidar de uma população cada vez mais envelhecida, frágil e isolada. O impacto social é evidente no aumento dos casos de solidão, depressão e abandono, enquanto a pressão sobre os sistemas de saúde e segurança social se intensifica.
Se nada for feito, o país arrisca-se a perpetuar um ciclo de exclusão e vulnerabilidade, onde o envelhecimento deixa de ser uma etapa digna da vida para se tornar uma experiência sinistra de solidão e dor. O desafio não é apenas económico, mas sobretudo humano: exige uma resposta coletiva, coisa em que acredito pouco, que valorize o papel dos idosos, a criação de mecanismos de reforço os laços comunitários e assegure o acesso universal a apoios dignos e adequados.
A experiência que vou vivendo na minha família alargada com a geração dos meus pais, já quase nonagenária, apesar da relativa coesão familiar existente, mostra-se desafiante para todos. Dá para imaginar o que será para outras famílias mais desfavorecidas ou desagregadas. O envelhecimento da população portuguesa é um problema funesto no contexto actual, e a mitigação dessa tragédia exige urgente compromisso e ação coordenada de entidades públicas, privadas e da sociedade civil. Só assim será possível garantir que envelhecer em Portugal não signifique viver à margem num inferno terreno, como que um inclemente castigo dos deuses profanos.

A propósito do debate sobre a Eutanásia muito se falou do problema que o aumento da esperança de vida representa nos nossos dias. O enfoque no meu entender deveria coloca-se no drama da fracturação e decadência das estruturas sociais que sempre enquadraram afectivamente e apoiaram logisticamente a pessoa envelhecida. Refiro-me à família alargada e às pequenas comunidades (em que se inclui a Igreja) que tinham essa função. Ao contrário do que nos querem fazer crer, sempre existiram pessoas fragilizadas pela idade extremamente avançada. O "envelhecimento da população" é um fenómeno estatístico. Do ponto de vista humanista, ou seja, na perspectiva da pessoa idosa em si, esse problema tem pouca relevância: “os velhos” não são um corpo social com consciência própria, cada um é uma pessoa com a sua história na plenitude da dignidade que lhe é devida. A grande tragédia que nos ameaça está na quebra dos antigos laços de solidariedade por parte da comunidade atomizada, de uma sociedade utilitária que coloca os “direitos” de cada um acima dos deveres para com os outros. A realização de cada um pelo cuidado ao próximo até ao limite. Mais que um problema para o Estado, a assistência à velhice é um problema a ser assumido por cada um de nós para com o seu próximo. Mas acontece que o amor cristão (amai o próximo como a ti mesmo) foi descartado, substituído pelo conceito romântico que tem por base a conquista do desejo do “eu” a que agora se quer atribuir direitos sobre execução da sua morte. O caldo cultural da modernidade é a coisa mais difícil de resolver e compromete definitivamente os equilíbrios afectivos que estruturam uma sociedade saudável e solidária. Não há cuidados paliativos que disfarcem esta desgraça que deixamos como legado aos nossos filhos.
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