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Emoções básicas (49)

por Luís Naves, em 17.03.09

Campo das Letras

O desaparecimento de uma editora é sempre uma má notícia. O anúncio do fim da actividade daquela onde publiquei os livros que escrevi dói com mais força. A Campo das Letras acaba.

Escrever ficção é uma espécie de aventura. Publicar também é difícil. Em 100 escritores, 99 escrevem para o esquecimento. Muitas pessoas pensam que basta carregar num botão qualquer e sai prosa (a famosa inspiração). Nessas perspectivas, o escritor nem tem de ganhar a vida: há sacrifício envolvido, pois bem, mereceu, quem o manda ser vaidoso? Muita gente não acha estranho que um trabalho de anos seja apenas lido por 200 ou 300, escondido atrás do último banal êxito estrangeiro, numa qualquer prateleira de livraria, ignorado pela crítica, invisível. Nem vale a pena falar do sistema literário, mundo que conheço mal, mas que tem fama de certa crueldade.

 

Sempre achei que a Campo das Letras tinha ousadia nos livros que editava. Publicou-me a mim, que era claramente um risco económico, mau a falar em público e sem aquele aspecto de escritor.

Jorge Araújo publicou o meu primeiro romance por ter gostado dele. Mandei o manuscrito para várias empresas e só duas me responderam, esta a aceitar, outra a rejeitar. Numa terceira editora, telefonei antes, a perguntar se aceitavam manuscritos portugueses. Do outro lado, resposta automática, a voz muito aflita de uma senhora: ‘Não, por favor, não mande nada!’

Para um país, as editoras nacionais são tão importantes como os bancos nacionais. Para haver bons escritores, é necessária massa crítica, um bom número de escritores menos bons. A morte das editoras independentes é, por isso, um mau sinal para a nossa literatura.

Aproveito esta crónica para agradecer. Ao Jorge Araújo e a todos os trabalhadores da Campo das Letras.

 

Emoções básicas (crónicas)

por Luís Naves, em 17.02.08
O paraíso dos gatos
O paraíso dos gatos é um local cheio de magia. Estranhamente silencioso, tirando o meigo ronronar de contentamento que se propaga pelas nuvens fofas e brancas, como se fosse uma maquinaria de ar condicionado. Também há ocasionais miados, que são talvez conversas filosóficas; e as bulhas de brincadeira, cuja comoção aleatória provoca uma serena indiferença entre as almas.
O paraíso dos gatos é uma tépida construção nas alturas, que o sol aqueceu até ao nervo; feito de um sono prolongado, de seca quietude, e a ocasional orelha que se põe alerta, em busca de sons celestes.
O paraíso dos gatos é uma casa de meditação. E, apesar de tudo, tem uma certa melancolia, pelas saudades de uma vida breve e agitada, que já passou num repente.
O paraíso dos gatos é feito de algodão muito suave, como o colo dos donos (que era, mesmo assim, um tudo de nada frio); e há veludo, para arranhar eternamente; e, quando as luzes se apagam, movem-se na sombra ratinhos brancos, que dá gosto morder, que não estão verdadeiramente vivos e por isso não deitam sangue; o qual, convenhamos, estragaria a brancura toda dessa movimentada brincadeira.
O paraíso dos gatos é uma cidade de corpos aninhados e olhares cruzados. Verdes, amarelados; significativos e pedinchões; por vezes ofendidos, mas sempre por pouco tempo; e há comida até encher; e não é preciso tomar conta dos donos, que são afinal tão estranhos, nas suas preocupações nervosas, nos repentes, nos excessos tontos.

As emoções básicas (crónica) XII

por Luís Naves, em 09.09.07



Os derrotados da história

No meu habitual passeio pela blogosfera, deparei com uma estranha discussão entre dois indivíduos. No seu Arrastão, Daniel Oliveira, comentava um comentário de Blasfémias nos tradicionais termos contundentes. Fui ler o que os liberais tinham escrito e deparei com um texto de JCD sobre a Festa do Avante, onde teria sido celebrado o 90º aniversário da Revolução de Outubro, a da Rússia de 1917. "É angustiante ver toda aquela gente, na Festa do Avante, comemorar os 90 anos de uma das maiores tragédias da humanidade", escrevia JCD. Seguia-se um parágrafo mais explicativo da "tragédia", com o seu rol de mortos e, à frente, a seguinte frase, bastante retórica, que indignara Daniel Oliveira: "não seria muito diferente celebrar a peste negra, o holocausto, o último tsunami ou a SIDA".
O autor de Arrastão respondia com uma tirada dramática: "o grande problema dos que se julgam no lugar certo da história, sejam eles comunistas ou liberais, é que rapidamente se deixam de dar ao trabalho de pensar. Não é que não consigam, apenas ninguém lhes exige esse esforço quando falam dos derrotados".
JCD ficou-se a rir e eu fiquei fascinado com esta última frase. Para Daniel Oliveira, as pessoas que celebram a revolução de Outubro, o leninismo, são os derrotados da história. Daniel podia ter demolido a fraqueza das comparações de JCD como quem acalma leões, mas saiu-lhe assim. É que não faz sentido comparar Revolução de Outubro com peste negra. A coisa ainda passava se fosse com a revolução francesa. Podia ter escrito: "não seria muito diferente do que celebrar a revolução francesa", mas não o fez, apesar da comparação ser possível, com o rol de mortos, de injustiças e guerra civil, apesar de tudo numa escala mais modesta. Será que JCD se angustia todos os 14 de Julho?
Digo isto por estar fascinado com o uso da palavra "angustiante" por JCD, na primeira frase do seu post: "É angustiante ver toda aquela gente a comemorar os 90 anos...". As religiões mataram incontáveis vítimas e todos os dias são celebradas em cerimónias públicas. Acontece em todo o mundo, e JCD deve andar muito deprimido. Um pequeno exemplo: os cristãos falharam de forma clamorosa na protecção dos judeus europeus, nos anos 30 e 40; o Papa até pediu anteontem desculpa, embora sem se colocar no lado dos derrotados da história; o cristianismo cometeu outros crimes, da Inquisição à conversão forçada de milhões de pessoas; o mesmo se pode dizer de outras religiões; mas talvez isto tenha mais a ver com pessoas do que com ideologias, embora eu não esteja certo de que JCD concorde comigo.
A revolução de Outubro não foi exactamente uma peste negra, ou um tsunami, pois não teve nada de catástrofe natural. Foi uma catástrofe provocada pelo Homem, por homens de uma determinada época, com as motivações do seu tempo. É o que acontece na construção de qualquer beco sem saída. Ao longo da história, houve sociedades, civilizações inteiras, que se suicidaram. As provas são mais ténues, mas sabe-se hoje que os Maias viviam em constante conflito interno, com devastações regulares de cidades-Estado rivais. Alguns arqueólogos pensam que o colapso desta civilização se deve a algum azar, mas sobretudo a problemas ecológicos graves, devido ao excesso de uso de recursos escassos. De qualquer forma, tratava-se de um cultura violenta, com uma religião que praticava sacrifícios humanos.
Será que JCD se teria angustiado, ao ver-me a escalar pirâmides maias, boquiaberto com a sua magnificência?
Neste género de texto, os factos são como as cerejas e, de súbito, lembrei-me de um pequeno crime da minha autoria. (Não, não vos vou contar uma história policial passada nas ruínas de uma cidade maia)...
Em Chichen Itzá, decidi (mal) saltar um muro que me pareceu sólido, mas aquilo era tão frágil que, com o (enorme) peso do meu corpo, se soltou uma pedra. Para meu horror, vi a ancestral relíquia rolar pela relva. Em pânico, peguei naquele frágil testemunho do passado (que pesava um horror) e tentei colocá-lo de novo no muro, mas a construção ainda era bastante alta e não tive força. Estava calor, confesso que fiquei enervado. Olhei para um lado e outro e (cobarde) deixei a pedra onde ela tinha caído, a dois metros do sítio onde mil anos a tinham deixado, até ao meu inqualificável acto de vandalismo.
Ajudei, pois, a arruinar uma pérola do património mundial, como um qualquer turista americano.
Ah! Felizmente, os guardas eram todos maias, portanto, derrotados da história.
Na vergonhosa fuga ainda vi pessoas a celebrarem uma espécie de religião inventada, na escadaria da pirâmide principal, vestidas com roupas pós-modernas. A cerimónia incluía umas rezas, murmuradas de frente para o sol, que desmaiava no final de tarde. Os celebrantes estavam de braços abertos, ar compenetrado de quem fala com deuses apenas adormecidos.
Os pós-modernos ignoraram-me tanto como os guardas. Eu sentia a culpa de ter transformado em ruínas uma sábia cultura antiga, mas confiei no lusco-fusco. O céu estava cheio de nuvens coloridas e a grande pirâmide parecia feita de ouro, banhada pela luz exuberante, que se retirava no horizonte. Foi uma visão breve. Depois, a montanha de pedra tombou na escuridão da noite...

As Emoções Básicas (crónica) X

por Luís Naves, em 25.07.07

O sonho
Vivemos num tempo estranho, quando a única época em que as nossas mentes descansam se chama silly season, a época tola. Podemos preguiçar, esticar os braços, contemplar o que é belo, sem nos preocuparmos com as coisas "importantes" que habitualmente nos ocupam: a medíocre política, o trabalho insano, a competição inútil e as riquezas materiais.
(Numa história taoísta, um homem muito pobre que procurava ouro ia a caminhar no meio de uma rua cheia de gente; ao ver passar alguém que transportava um saco de ouro, correu para roubar o saco, mas foi apanhado pela multidão; o juiz perguntou-lhe 'como pudeste ser tão inábil, roubar à vista de tanta gente’; e o homem respondeu que não vira a multidão, só conseguira ver o ouro).
...Parecemos às vezes este homem que só conseguia ver o ouro. Corremos atrás de algo que nos foge sempre e que não nos satisfaz, por ser sempre tão escasso, algo que apenas brilha, um brilho frio e distante...
Não pensem que esta é uma crónica moralista, não venho dar lições que não posso dar. Queria escrever sobre a tristeza, sobre a nostalgia, mas está um dia solar e vivemos na silly season. Esta é uma crónica sobre a ausência de tema, sobre a futilidade, sobre o tempo que passa, sobre o sonho.
Na minha preguiça, estava a ler uma história da antiga sabedoria chinesa, um pequeno texto chamado "sonhos", de um mestre taoísta Lieh-Tzu que terá vivido no quarto século antes de Cristo, ou talvez não, (talvez tudo isto seja um devaneio), tal como era um sonho o que sentia o rei Mu, governante da terra de Chou, que mandou construir um grande palácio em honra de um mágico que podia atravessar fogo e água, metal e pedra, que podia voar e acalmar as inquietações humanas.
E nesse palácio o rei reuniu as melhores concubinas e mandou fazer os melhores repastos, mas o mágico nunca se contentava. E, um dia, o mágico levou o rei a voar muito acima das nuvens e os dois chegaram a um palácio esplendoroso, que era o palácio do mestre mágico, e o palácio terreno deixou de fazer sentido, pois não passava de uma miserável cabana, em comparação. E, depois, o mágico levou o rei de Mu a viajar até um local muito escuro, o sítio do grande abismo, e deixou-o cair... Foi então que o rei acordou. Perguntou às pessoas à sua volta o que acontecera e disseram-lhe que estivera sempre no mesmo sítio e que passara pouco tempo. E o mágico explicou-lhe que ambos os palácios eram irreais. E este magnífico texto, que aqui tento resumir sem habilidade, termina assim: "Sem sairmos de portas, podemos conhecer o mundo inteiro; sem olharmos pela janela, podemos ver o caminho do céu; quanto mais longe viajarmos, menos poderemos saber".
Acho que esta história chinesa se aplica à ânsia ocidental: na busca incessante da felicidade, acabamos por não encontrar coisa alguma; e perdemos a noção dos pequenos sonhos, dos ínfimos prazeres, que estão ali, ao pé de nós, à mão de semear.
É por isso que a época do descanso e da preguiça (quando temos tempo para pensar dentro de nós) nos parece tola, mas isso é erro nosso, ilusão e devaneio.




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