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Emoções básicas (55)

por Luís Naves, em 07.05.09

Grandes ilusões

Sempre me surpreendeu a capacidade ilusória da política, sobretudo em países democráticos. Os truques são semelhantes aos de um bom mágico, cujos movimentos são visíveis, embora não devam ser vistos. É necessário que as pessoas não estejam a olhar para o ponto onde o truque se revela, mas sim a olhar para a distracção. As ilusões baseiam-se numa característica da visão humana que vi explicada num documentário da BBC, de Robert Winston (na imagem). Ao longo do episódio, surgia por várias vezes um homem vestido de gorila. Julgo que em quatro só vi um, numa imagem que considerei bizarra, sem lhe dar importância. Nem a estranheza me alertou. No final do programa, repetiam-se as sequências tal como tinham passado da primeira vez mas o apresentador alertava para o gorila: “vejam com atenção”, dizia. E tudo se revelava: do nada, lá estava um homem vestido de gorila, que não tínhamos visto, por estarmos atentos a outros elementos do documentário.
Na América política esta fraqueza humana é bem conhecida e o uso da ilusões está muito desenvolvido. Como se viu ontem, no noticiário de uma televisão. O presidente e vice-presidente dos Estados Unidos comiam um hamburger junto a um circo mediático. Esta era a notícia: Obama pediu um hamburger com muito queijo Cheddar e boa mostarda. E os dois homens mais poderosos do mundo pagaram os hamburgers do próprio bolso e sentaram-se numa melancólica mesa 42, certamente a discutir o último bombardeamento de talibãs.
Desculpem a crónica sem nexo, mas temos de tirar o chapéu a estes truques de ilusão. Sabemos que nos escapou qualquer coisa no meio das habilidades, que tudo aquilo era meio fantástico, que aquela não era a realidade real, mas uma qualquer realidade à maneira de Philip K. Dick, onde a crise ficou interrompida por uns minutos para aqueles dois seres humanos engolirem um saboroso cheeseburguer com muita mostarda.

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Emoções básicas (54)

por Luís Naves, em 25.04.09

Uma memória pessoal

Ainda não tinha 13 anos a 25 de Abril de 1974 e a minha visão daquilo que se seguiu é uma mancha confusa de alterações caóticas e em catadupa. Lembro-me do medo de que a situação política descambasse em guerra civil, e talvez os historiadores do futuro, que possam estudar o período de forma distanciada, concluam que não andámos longe disso. Lembro-me da preocupação dos meus pais e sei que a minha família empobreceu. E, no entanto, tudo mudou naqueles dois anos, sobretudo na maneira como pensávamos. Terá sido o meu ponto de vista adolescente ou foi o rolo compressor da História?

 

Exercício de imaginação

Pode ser fútil fazer exercícios de imaginação, mas não creio que a minha vida tivesse sido muito melhor se o golpe militar falhasse ou se Portugal se tivesse transformado numa ditadura comunista, ou mesmo se o regime anterior conseguisse uma transição gradual, como aconteceu noutras ditaduras na Europa.

Um triunfo comunista tinha sido uma catástrofe sangrenta e o novo regime não teria passado de 1990. O fracasso do golpe militar implicava a continuação da guerra colonial e o isolamento do país, incapaz de se democratizar. O endurecimento da ditadura era forçoso e não vejo como podia ser evitada a derrota nas colónias. A transição progressiva podia funcionar, mas os processos graduais também têm defeitos e são lentos; penso que essa solução não teria permitido um leque tão grande de liberdades, mantendo crispações que a história factual eliminou.

 

Os costumes

Passados 35 anos, com a profissão de jornalista, ouvi muitas histórias, para mim quase incompreensíveis, de como a censura cortava notícias que hoje pareceriam inócuas. Só pela liberdade de Imprensa valeu a pena. Mas houve mudanças tremendas nos costumes. A nossa sociedade é hoje muito mais liberal do que a anterior. Ainda me lembro de como era difícil a vida das mulheres no antigo regime e atrevo-me a afirmar: a maior transformação deu-se no plano da liberdade das mulheres (divórcio, acesso a educação, contracepção, união de facto, participação política, poder económico). Desse ponto de vista, o que se seguiu ao 25 de Abril foi uma aceleração ou uma convergência muito rápida com o resto da Europa; o que levara duas gerações a fazer nos outros países levou aqui menos de uma geração.

Os discursos oficiais sobre os dois anos de revolução geralmente não incluem o lado mau, sobretudo o trauma da descolonização, que foi uma tragédia para centenas de milhares de pessoas. O país foi também tomado por uma febre política que destruiu muitas carreiras e permitiu revanchismos e oportunistas. Houve episódios que hoje nos espantam, pelo seu radicalismo, e Portugal foi também palco secundário do conflito entre as superpotências. O facto de pertencermos à NATO foi um elemento decisivo, que garantiu a estabilidade do novo regime político.

 

A Europa

Numa futura interpretação do período entre 1974 e 2000, talvez os observadores descomprometidos concluam que o facto histórico mais importante foi a democracia ter permitido a adesão portuguesa à comunidade europeia. Isto garantiu definitivamente a longevidade da terceira república, permitindo a sua prosperidade relativa. Recebemos subsídios em quantidades maciças (estão garantidos pelo menos 25 anos, mas podemos conseguir mais de 30) e acima de tudo adoptámos leis modernas e regras democráticas rigorosas. Temos uma moeda única que nos protege das turbulências financeiras externas, apesar de não conseguirmos cumprir as regras desse espaço monetário (e isso terá de mudar). No fundo, a integração europeia foi o nosso seguro contra todos os riscos.

Há nuvens no horizonte? Claro que há. A nossa economia continua a ser frágil e a sociedade possui grandes desigualdades, que geram injustiças gritantes. O país está em crise desde 2001 e o sistema político parece paralisado com o agravamento diário da situação económica. Nesse sentido, concordo com quem afirma que as maiorias absolutas se revelaram perigosas. A democracia portuguesa tem de saber dar o salto qualitativo e criar a sabedoria negocial dos governos de coligação. Os portugueses confiam pouco nos partidos e esse problema exige patriotismo, renovação das lideranças e bom senso. Seremos mais europeus, é esse o futuro, mas não podemos continuar na mediocridade, pois a Europa é também mais exigência.    

 

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Emoções básicas (50)

por Luís Naves, em 30.03.09

 

Haverá sempre esmeraldas

As notícias dizem que a situação internacional é bem mais grave do que se supunha. Aliás, ao longo dos últimos meses temos tido surpresa atrás de surpresa: em cada momento, a situação é sempre pior do que se supunha. Os próximos dias serão importantes para o futuro do capitalismo e a sequência desta crise, com a reunião do G20.

Numa cena de A Cidade e As Serras, de Eça de Queiroz, um banqueiro tenta convencer a personagem principal, Jacinto, a investir numa exploração de esmeraldas algures na Ásia. Jacinto duvida e pergunta se foram feitos estudos, se encontraram esmeraldas. E o banqueiro responde: “Há sempre esmeraldas desde que haja accionistas”.

Certas coisas não mudam e talvez haja sempre esmeraldas. Mas foram capitalistas assim que nos trouxeram ao ponto onde estamos. Por outro lado, este será um daqueles momentos da história que mais tarde produzem a sensação de termos vivido algo de invulgarmente intenso. Os acontecimentos precipitam-se sem aparente relação entre si. Tal como aconteceu em outras ocasiões: após a queda do muro de Berlim, por exemplo, ou no final da década de 60 e início de 70, nos anos 30 ou antes da Primeira Guerra Mundial, nas décadas de 70 e 40 do século XIX, em sucessivos saltos de 20 ou 30 anos.

A consciência de termos vivido a História surge mais tarde, mas pelo menos desta vez não podemos ter a atitude de Jacinto e dizer "que é tudo uma seca". 

 

Por lamentável erro, indisfarçável ignorância, chamei Joaquim à personagem Jacinto de Eça. Fica a correcção.

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Emoções básicas (46)

por Luís Naves, em 21.02.09

Os jornais do futuro

A sobrevivência da imprensa foi posta em causa pela realidade tecnológica. Fazer um jornal em papel tornou-se caro. O produto é difícil de distribuir e as pessoas têm acesso a notícias gratuitas na internet, de fácil distribuição. Os jornais têm tentado tudo: se cortam nos custos salariais reduzem a qualidade e perdem leitores, iniciando uma bola de neve colina abaixo; o desinvestimento gera menos receita e a empresa descapitalizada investe ainda menos. As mudanças nas redacções, associadas ao aumento de tarefas, reduziram a qualidade jornalística; menos jornalismo igual a menos leitores e receita, o que exerce pressão para que haja mais tarefas para cada trabalhador; a emigração para a net aproveitaria a publicidade que emigrou para a net, só que esse modelo também não funciona, pois quem lê online evita a publicidade.

Mas há motivos para pensar que os jornais vão sobreviver. Esta inovação e sobretudo esta mostram que a futura distribuição será feita através de telemóvel. Os consumidores pagam a assinatura por cada download para uma plataforma idêntica a um livro electrónico. Já estão a ser desenvolvidos computadores transparentes, que podem ser dobrados. Serão baratos e semelhantes a uma pequena folha de plástico.

Tentemos visualizar: o jornal chega através do telemóvel e é vertido para a plataforma de leitura, que se guarda no bolso. O leitor pode comprar a versão da manhã, a da tarde ou a da noite; pode comprar uma edição mais cara ou mais barata. Os jornais serão pequenos ou maiores, conforme o preço. Na versão curta, bastam algumas notícias, duas ou três histórias analíticas, dois ou três bons comentários. O grafismo pode incluir pequenos vídeos. O preço da informação será baixo e a marca de imprensa precisa de ser reconhecida e ter muito trabalho próprio. Só sobreviverão os produtos com mais conteúdo jornalístico. 

Estarei a ser demasiado optimista? 

 

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Emoções básicas (43)

por Luís Naves, em 19.01.09

Em vários posts publicados em Blasfémias, mais recentemente neste post de Helena Matos, sobre o que se define como "catastrofismo ambiental", são insinuadas críticas às notícias sobre alterações climáticas, como se estas fossem fantasia ou exageradas. Penso que estes autores estão a cair num equívoco.

 

A política energética faz parte da política externa das grandes nações. As sociedades industriais contemporâneas precisam de energia barata para se sustentarem. Percebendo estes factos, os críticos da tese das alterações climáticas partem do pressuposto de que as notícias são alarmistas e de que na realidade esta é uma questão política, tipo esquerda-direita. Quem defende a ideia está à esquerda, quem ataca afirma-se de direita.

 

Parafraseando Charles de Talleyrand, pior do que um crime isto é um erro. Não estamos perante uma questão política, mas de sobrevivência da espécie humana.

O aumento do teor de dióxido de carbono na atmosfera é um facto, não é uma teoria. A diminuição das calotes polares (pelo menos no hemisfério norte) é um facto, não é uma teoria. Mais grave: podemos estar a atingir pontos de não retorno.

Os cientistas não mencionam aquecimento global, mas sim alterações climáticas. O sistema de clima do planeta é tão complexo, que em algumas regiões, por exemplo na Europa, pode haver arrefecimento. Globalmente, as temperaturas médias vão aumentar (o dióxido de carbono absorve mais energia solar e entretanto está a subir o nível de metano, um gás ainda mais perigoso). O principal efeito será o de maior número de fenómenos extremos, sobretudo secas, inundações e tempestades.

A ciência usa modelos que tentam antecipar a evolução dos acontecimentos. Esses modelos não têm toda a informação, por isso dão origem a probabilidades, não são necessariamente uma antevisão do futuro. Mas ignorá-los é disparate.

A informação que Helena Matos tenta desvalorizar é intuitiva. Num cenário de alterações climáticas, ao longo deste século, haverá perturbações na produção alimentar. Este sim, é um fenómeno com potencial para ter graves consequências políticas. Fomes generalizadas, escassez localizada, deslocamento de populações, perturbação de preços, guerras civis. Estas não são questões de esquerda-direita.

 

A estratégia de sobrevivência da espécie humana tem sido a de usar a sua inteligência para se adaptar rapidamente a alterações no meio ambiente. Nada garante que seja uma estratégia melhor do que a dos dinossauros, que não se surpreenderam com a sua extinção.

 

 

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Emoções básicas (23)

por Luís Naves, em 06.10.08

 

O nosso ilustre Paulo Cunha Porto mencionou em dois dos seus posts anteriores que o actual regime político português está em crise ou “é pouco digno de estima”, como ele diz. Não temos por hábito, no Corta-Fitas, contestar opiniões dos outros membros do blogue, mas abro esta excepção não apenas por discordar, mas sobretudo pela seguinte circunstância: a ideia da necessidade de mudar o regime surge nos textos como facto que qualquer leitor deve conhecer, mais do que como opinião do Paulo. Penso, por outro lado, que esta alegada necessidade não é factual e que a ideia não resiste a três minutos de leitura desapaixonada.

 

A crise portuguesa

Portugal atravessa uma crise política, social e económica. Se é profunda, não sei. A economia resiste mal aos problemas colocados pela globalização e pela integração europeia. Há demasiada pobreza e exclusão, o desemprego aumenta e as cidades cresceram de forma caótica. A mão-de-obra está mal preparada para o século XXI. As desigualdades em Portugal são as mais profundas da Europa e visto pelo indicador de diferenças de rendimento entre ricos e pobres, o País é parecido com uma nação sul-americana. As nossas elites são fechadas, pouco cosmopolitas e irrealistas, mas esse é outro problema.

Apesar das injecções de subsídios europeus durante os últimos vinte anos, a uma média de 3% do PIB anualmente, Portugal foi incapaz de convergir com o rendimento médio europeu. Nos últimos sete anos houve divergência, ou seja, empobrecemos em termos relativos.

O descontentamento, sobretudo na classe média, é inegável.

 

A vertente política

A crise tem uma extensão política: os partidos parecem incapazes de encontrar soluções. Temos um sistema de dois grandes partidos que ocupam o poder e umas franjas que tentam condicionar a agenda. O jogo principal é entre as facções que querem dominar as duas forças do bloco central. Por não haver cultura de coligações, há dificuldade em renovar as elites. Além disso, as leis são fabricadas em Bruxelas e o espaço de manobra dos Governos é cada vez menor, pois é forçoso fazer o que os outros países fazem. Em consequência, não há muita diferença entre socialistas e social-democratas. Tirando o primeiro ano de funções, os Executivos ficam paralisados, incapazes de ir além da gestão da rotina.

 

O ambiente europeu

Eu diria que Portugal parece ter dificuldades na sua adaptação a um ambiente europeu. Estão ali os sintomas: uma espécie de negação constante do óbvio, a permanente desculpabilização dos responsáveis, cujo primeiro instinto é sacudir a água do capote e culpar a Europa ou a crise do sub-prime.

O sistema também fica mais rígido quando há maiorias absolutas. O debate empobrece, os partidos de oposição entram em instabilidade interna. Pior: onde não se valoriza a crítica, há a tentação do preto e branco. Quem não é por nós, é contra nós. Seguem-se as más decisões, baseadas em informação parcial ou doses ideológicas, e mais tarde ou mais cedo chega a factura, em descontentamento da população, descrença, pessimismo e estagnação. Penso que é mais ou menos a situação actual: um Governo desacreditado, uma oposição inexistente.

 

Salto

Daqui à crise de regime vai um passo maior que a perna. Uma crise de regime pressupõe que as instituições não funcionem, que exista alternativa e um grupo de pessoas (maioritário ou até minoritário) disposto a perder tudo pela mudança.

Ora, as actuais instituições funcionam. Portugal é hoje uma democracia sólida. Há liberdade de Imprensa e de expressão (como nunca houve neste País); não temos problemas de minorias étnicas ou religiosas; os partidos (bem ou mal) lá se renovam; há eleições regulares e o eleitorado mostra assinalável desconfiança em relação aos populistas. Os militares são profissionais.

A ideia do sistema semi-presidencial era a de evitar a confusão da I República e as veleidades autoritárias do presidencialismo ou da monarquia constitucional. Acho que o equilíbrio permitiu criar um regime estável.

 

Êxitos

O actual regime atravessou um período revolucionário, sobreviveu a um colapso económico com intervenção do FMI e ainda fez a integração europeia, criando uma democracia com todas as regras. Os partidos são os mesmos que em 76, à excepção do Bloco de Esquerda. O País conseguiu, entretanto, absorver meio milhão de refugiados das ex-colónias. E tudo isto enquanto resistia ao choque com a modernidade (refiro-me a questões sociais, como por exemplo os direitos das mulheres).

Um regime pouco estimável, Paulo?

Para quê mexer em algo que funcionou em crises piores do que a actual?

O regime não possui inimigos internos nem externos. A I República foi minada pelas ideias fascistas e tradicionalistas, o Estado Novo abominava a democracia liberal. Ambos estavam “cercados” pelos seus inimigos. Portugal tem hoje um regime idêntico ao de outros países europeus; menos fragmentado do que o italiano; sem as questões nacionais da Espanha; sem os fantasmas das “guerras civis” dos países do antigo bloco socialista. Se na Europa estamos acima da média em alguma coisa é na estabilidade do regime político.

 

Podia continuar por aqui fora: as sociedades contemporâneas escolheram o capitalismo e a democracia. Isso não vai mudar nas próximas décadas. E, no mundo pós-guerra fria, a única verdadeira ameaça para a civilização é a crise ambiental.  

 

 

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Emoções básicas (13)

por Luís Naves, em 14.09.08

 

 O santo mercado

 

Madonna excita o país. Não gosto da cantora, não percebo o interesse pelas suas canções banais. Não é boa actriz nem canta bem. O fenómeno é, para mim, incompreensível. Há quem fale na transgressão, mas vejo toneladas de marketing e de make-up. Não percebo por que razão Madonna é mais famosa do que Gwen Stefani (na imagem). Pelo menos Gwen tem um palmo de cara.

O dinheiro explica muito, mas também a natureza humana de querer aderir à mais recente moda. Uma gigantesca máquina de promoção  convenceu-nos de que Madonna é a coisa mais fantástica do mundo e, ao ser desligado o nosso ultra-céptico (aparelho que temos no fundo da consciência e que usamos raramente) ficamos convencidos disso mesmo.

Acho que tudo não passa de ilusionismo.

Neste caso, a imagem, feita por profissionais, contém críticas à religião, à alienação do capitalismo e às convenções puritanas: música é liberdade, a religião não passa de símbolos sem nexo e o puritanismo é para sonsos. Esta é, basicamente, a ideologia. Claro que o fenómeno é talvez um dos melhores exemplos da globalização capitalista e que a estética softporno ou pseudocatólica não passa do superficial, para construir uma personagem sem densidade, paradoxalmente misteriosa. Ela nem precisa de dar entrevistas.

Vivemos numa época em que triunfou este estilo de cultura popular, muito técnica e algo vazia. Está repleta de elementos sofisticados, efeitos especiais e fogo-de-artifício. Cinco minutos de exposição deixam os sentidos saciados, mas não alimentam o espírito. Sempre achei que cada um se diverte como achar melhor, mas este gosto triunfal abafa os outros, pois a cultura transformou-se num mercado.

O mercado devia ser onde se compram as batatas, mas o facto é que no mundo contemporâneo existe um de produtos culturais. Ele é global na extensão, anglo-saxónico e ideologicamente inócuo (tal como o fogo-de-artifício é vazio). Por outro lado, a cultura que faz avançar as sociedades não cabe aqui e terá cada vez menos possibilidades de se desenvolver. Do ponto de vista das elites, aquilo que Madonna simboliza só tem uma vantagem: deixaram de circular ideias perigosas.  

 

 

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Emoções básicas (12)

por Luís Naves, em 13.09.08

As eleições americanas têm sido debatidas nos blogues portugueses de uma forma que me parece estranha: as análises baseiam-se em frases tiradas de contexto e não há visões de conjunto. Está na altura de fazermos um esforço para entender o que de facto se passa.

O sistema eleitoral americano é um fóssil do século XIX, onde contam os Estados. O candidato com mais votos pode perder as eleições, pois cada Estado elege membros de um colégio eleitoral e não existe proporcionalidade. Basta um voto a mais para um candidato ficar com todos os representantes desse Estado. Por exemplo, Obama tem 22 pontos de vantagem no Illinois e ganhará facilmente os 21 votos deste Estado. Mas, para vencer as eleições, precisa de somar 270 votos no colégio.

O Pedro Correia já escreveu aqui que o candidato democrata cometeu um erro grosseiro ao não incluir Hillary Clinton no seu ticket. Os números dão razão a esta ideia.

De acordo com as sondagens agregadas (estudos que juntam todas as sondagens estaduais), na última semana Obama viu ser transformada em perigoso empate uma vantagem que era confortável.

Somados todos os Estados que têm claras vantagens para os candidatos e os que se inclinam para um deles, Obama tem 217 votos e McCain 216. Mas o candidato republicano conseguiu entretanto que Estados que apenas se inclinavam para ele passem a votar claramente nele. Há uma semana, a Flórida, que representa 27 votos, era um Estado indeciso; agora, inclina-se para McCain.

A decisão final será num grupo de Estados indecisos, com um total de 105 votos. Ohio, Colorado, Michigan, Pennsylvania e Virginia, entre outros. Em cada um deles, as margens de diferença são demasiado pequenas para se saber quem vai ganhar.

O primeiro debate televisivo será muito importante, mas penso que não deve ser interpretado em função dos eleitores de Estados que não contam, mas sim levando em conta o eleitorado dos Estados indecisos, que consistem em zonas rurais do norte do país (com poucos negros) e zonas do sul, com muitos hispânicos.

 

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Emoções básicas (11)

por Luís Naves, em 12.09.08

Vários blogues discutem provincianismo. Seria fastidioso enumerá-los, mas o debate começou em torno do alegado provincianismo de Sarah Palin. Pensei, a dado momento, que a discussão iria para os terrenos da nossa própria realidade, mas tudo se manteve no registo inicial de tentar saber se a senhora é aquilo que é.
Desculpem a minha mania de querer simplificar: Sarah Palin representa a América das pequenas comunidades, a provinciana, se quiserem. E corresponde a todas as expectativas. Essa América soma muitos votos, o que parece confundir os nossos observadores que, infelizmente, não votam.
Esta eleição vai decidir-se num punhado de Estados que correspondem à América menos cosmopolita (Ohio, Indiana, Colorado, Virgínia, Novo México, entre outros). O voto das pequenas comunidades será crucial e o efeito Palin surge nas sondagens destes Estados ainda incertos. Esqueçam o que pensa a Califórnia, ali está tudo decidido. Tentem pensar como se pensa na Carolina do Norte.
O fascínio português por Palin, e sobretudo aquilo que me parece ser a perplexa incompreensão dos analistas, é uma curiosa manifestação paroquial. Pelo menos no sentido em que esta atitude perante a vida consiste em observar o exterior à luz exclusiva das nossas experiências limitadas.
Infelizmente, está a perder-se um bom debate sobre provincianismo. Meus amigos, não tenho receio de ser considerado saloio. Nunca estive no Alaska, que apenas conheço da teoria. Tenho horizontes limitados e, quando estou muito tempo fora (duas horas, digamos) falta-me o peixinho grelhado, a espectacular Super Bock, os telejornais de hora e meia e as análises de Rui Santos. Estou viciado, a ponto de achar que o Benfica e a selecção nacional estão entre as melhores equipas de futebol, quiçá da Europa. O fado provoca-me um lacrimejar incontrolável, sobretudo longe da pátria.
Sou como qualquer nosso compatriota ao volante de um táxi ou um português a sair do estádio, do centro comercial ou em frente ao ecrã de televisão. Contra ventos e marés somos os melhores em tudo, na cozinha, na história, na maneira como nos vestimos, nos livros que lemos, no clima, nas praias, nas festas.
Por isso, não liguem aos parolos que vão votar nestas eleições americanas e que não viram os bons filmes de Hollywood.

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Emoções básicas (1)

por Luís Naves, em 19.07.08

De súbito, o PS começou a discutir energia nuclear. No próximo ano, acaba o actual ciclo político e os próximos meses prometem mais desemprego e inflação. Mas os que conduzem este país endividado insistem em discutir energia nuclear, como se fosse tema prioritário.

Eles não dizem que o custo é incomportável e que ninguém faz centrais nucleares sem dinheiro público. Geralmente, a factura não inclui a despesa de desmantelar este equipamento e guardar os resíduos. São contas para a próxima geração, que ninguém faz. Os defensores da energia nuclear não costumam dizer que é usado um combustível tão escasso como o petróleo. Quanto mais países tiverem centrais, mais caro será produzir energia. E há também questões de segurança. Mas destas coisas, nunca falam.

Mesmo assim, é bizarro que insistam, sabendo que não podem pagar a central nuclear e que esta nem sequer resolvia os problemas energéticos do país.

O fenómeno lembra aqueles truques de ilusionismo. O artista atrai a atenção do público para algo que não tem importância e o público assim distraído deixa de olhar para o essencial. No ilusionismo, o engano até diverte. Na política, não passa de um daqueles balões de Verão, para entreter no calor e esquecer logo que rebente.

 

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Surpresa total

por Pedro Correia, em 25.10.07
À hora a que escrevo, um tal de Castelo-Branco lidera destacado o nosso inquérito sobre a mulher mais atraente da televisão portuguesa. Confesso que tinha uma ideia muito diferente dos nossos leitores. Depois disto, nem sei o que diga.

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As emoções básicas (crónica) XIV

por Luís Naves, em 30.09.07


1.
No filme de Milos Forman, Amadeus, o aspecto mais fascinante era a questão da inveja artística de Salieri por Mozart. Naquela história, o compositor italiano era o único a compreender a imensidão do génio do austríaco. Mas o pior era o facto do artista menor não ter ilusões sobre a sua falta de talento. E Salieri compreendia que Mozart sabia disso. Sempre me fascinou esta trama simples.
Trata-se evidentemente de uma história. Mas o ponto é que a maior parte das obras de arte estão à partida condenadas ao esquecimento. E muitos autores vivem na doce ilusão de que podem eventualmente criar obras que lhes sobrevivam. A estatística é, no entanto, muito desfavorável. Talvez um trabalho em cada mil consiga ser lembrado dez anos depois de ter sido feito; talvez um em cada cinco mil sobreviva 50 anos. E um em dez mil, um século.
Pensei nisto enquanto lia um livro em que paguei quase por acaso. Chama-se Atlântida, escrito por um francês, Pierre Benoit. O livro foi famoso no seu tempo (1919) e teve duas versões em cinema, uma das quais devo ter visto parcialmente, há muitos anos, certamente a sonora, de Pabst, em 1932.
Nesta fantasia, dois exploradores percorrem no deserto zonas inexploradas e encontram o reino de Atlântida, dominado por uma rainha, Antinea, que manipula e mata os seus amantes, formando uma verdadeira colecção. Para o efeito pouco importa. A história é cruel e mexe com o imaginário erótico masculino. O enredo é algo ultrapassado, com um fantástico pouco interessante e menos credível.
E, no entanto, dei por mim a devorar o livro. Se as últimas páginas foram mais penosas, o início pareceu-me fulgurante.
2.
Os livros que nos parecem hoje menos bons têm, por vezes, momentos fantásticos. Segundo li na Wikipedia, Benoit foi soldado e conhecia o deserto. A sua descrição da expedição militar é intensa e vivida, a paisagem torna-se quase perceptível e os perigos parecem autênticos.
De súbito, estava a revisitar as aventuras de Beau Geste (lembrei-me do filme); e também recordei O Deserto dos Tártaros, de Buzzati; parecia por instantes que poderíamos viajar dali, directamente para O Céu que nos Protege, de Paul Bowles; existia o mesmo fascínio pelos abismos de um conto de Camus que me impressionou. Sobretudo, detectavam-se pedaços de um autor que marcou a minha juventude, Jules Verne.
Atlântida não ficará na história da literatura, mas há farrapos seus que contaminam outras paragens.
Cada obra de arte é como um código genético pessoal. E assim é com os livros, cujas histórias atravessam as gerações, em diferentes variações de emoções básicas.

3.
Um escritor de ficção científica, Clifford Simak, escreveu uma pequena novela, Time and Again, traduzida em português por Guerra no Tempo, número 34 da famosa colecção Argonauta. Foi um livrinho que me impressionou muito, quando o li, talvez aos 14 ou 15 anos. A história é complexa, com vários patamares de tempo e personagens que viajam do futuro para tentarem alterar o seu presente e personagens do presente que vão para o passado para se refugiarem do futuro, deixando mensagens do passado para o presente. Lembram-se dos filmes Terminator? Era a mesma ideia.
Recentemente, passou nos cinemas um filme europeu feito com meios sofisticados, O Som do Trovão, que não recolheu os aplausos da crítica. A meu ver, mal. Uma empresa faz viagens aos passado, mas num desses saltos, o passado é alterado. Essa mudança temporal chega em ondas que vão alterando o presente, em camadas sucessivas, apagando tudo o que passou. No final, percebemos que a única alteração foi a morte de uma borboleta, 65 milhões de anos atrás. A história é de Ray Bradbury, outro autor cujas ideias têm contaminado muitas obras alheias.

4.
Acho que o que me interessa em todas estas fantasias não é tanto o elemento exótico, mas sobretudo o desconhecido. Quando os dois militares avançam pelo deserto e nós não sabemos o que se encontra no seu caminho, este é o momento que mais me interessa.
Vivemos na era do explícito, sexo explícito, action replay em câmara lenta, mensagens sem subtileza, morte em directo, repetida, repetida. Parece não haver lugar para metáforas ou exercícios de estilo. Mas trata-se sobretudo de uma ilusão. A alma humana, atrás dos gestos, esconde os mesmos mistérios de sempre.
Parece que já descobrimos tudo, mas a nossa fantasia sabe que não é assim.
O maior desconhecido não tem a ver com desertos inexplorados, mas com o que não sabemos sobre nós próprios. Os nossos medos (da morte, do sexo), as alegrias e tristezas, as aversões e fúrias.
A inveja de Salieri pelo génio de Mozart, por exemplo, que pode ser medo, mas que tem uma componente de angústia e outra de surpresa pelas maravilhas que o rival compõe. O conflito é semelhante ao de Atlântida: sabemos à partida que um dos exploradores matou o outro e, quando o sobrevivente conta a história, percebemos de imediato que a rivalidade entre os dois era inevitável. Mas de que paixão nasceu? Da ira, da inveja, do desprezo?
Tal como o capitão Saint-Avit dessa história, na posse de um terrível segredo, rejeitado pelos seus camaradas, também o compositor Salieri vive consumido pelo que não pode confessar: o seu ódio silencioso a um rival que o parece derrotar além da vida, o genial Mozart, a quem os deuses permitiram a imortalidade.
E, claro, é uma injustiça quando os deuses preferem os outros...

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As Emoções Básicas (crónica) XI

por Luís Naves, em 05.09.07


Os Livros e a vida


Segue na blogosfera um interessantíssimo debate sobre literatura, baseado numa corrente onde cada bloguer elabora uma lista de livros que não mudaram a sua vida. Peço a vossa atenção, não apenas para a lista do Pedro Correia, um pouco mais abaixo neste blogue, mas para os interessantíssimos textos que Francisco José Viegas, Carla Quevedo e Luís Mourão, entre outros, já publicaram sobre o tema.
Esta crónica não surge como comentário à iniciativa, mas a diversidade das listas e, sobretudo, a sua pequenez, surpreendeu-me e suscita esta observação:
No início do século XX, os europeus burgueses e cultos liam todos mais ou menos as mesmas coisas. Se fossem ricos, teriam uma excelente biblioteca, com 6 ou 7 mil volumes, incluindo clássicos romanos e gregos, romance francês e russo, muitos autores alemães, italianos e ingleses. Uma boa biblioteca teria poesia, pequena novela, o essencial da literatura dos respectivos países; os nomes seriam quase sempre idênticos. Poderíamos viajar por toda a Europa civilizada e as bibliotecas seriam parecidas, à excepção da parte de autores nacionais.
Isto, claro, já não é assim. As pessoas cultas lêem livros diferentes. Suponho que a maior razão para a diversidade tenha a ver com a quantidade de livros que a civilização contemporânea produz. Cito de cor, mas havia uma notícia recente sobre alguém que se deu ao trabalho de fazer as contas: este ano, serão editados tantos livros como na década de 80, um número idêntico ao do século XIX, a mesma quantidade que foi produzida entre o ano 1000 e o ano 1700.
O fenómeno da aceleração não é exclusivo da literatura, aplica-se a todas as áreas do pensamento. Há milhões de cientistas no mundo e certamente milhares a estudarem ao mesmo tempo os mesmos detalhes de especialidades absolutamente incompreensíveis para a restante humanidade.
Na arte, acho que este fenómeno produz uma sensação de que ninguém é verdadeiramente culto. É impossível ler tudo. Não há tempo suficiente. Somos massacrados com imagens, espectáculos, cultura popular, banalidades. Dispersamo-nos em jogos, trabalhos complexos, múltiplas actividades.
Por isso, qualquer cânone literário sugerido terá sempre importantes lacunas, pois também os clássicos aceleram: há mais nomes, mais obras imortais.
Existe outro problema: nas esponjas em que se transformaram os nossos pobres cérebros, não há tempo para absorver as culminações da arte ocidental. Uma pessoa que tenha ouvido menos de cinco vezes a Paixão Segundo São Mateus compreende verdadeiramente a sua profundidade? E Guerra e Paz, quantas vezes é preciso ler?
No fundo, quero dizer que tudo se tornou um pouco arbitrário; e o nosso gosto, uma defesa contra a enxurrada de estímulos, funciona como um cone que está à nossa frente e nos impede de procurar outras sensações. Não há tempo para explorar novas propostas, prometemos para outra ocasião, adiamos.
Por vezes, temos sorte, encontramos por acidente uma obra de arte que nos encanta.
Digo isto por ter chegado de férias com o papo cheio. Tive a sorte de ver uma exposição de gravuras de Francisco Goya.
Eram demasiadas, claro, e tinha pouco tempo para as ver. Memorizei o possível, observei atentamente cada gravura, percorri as salas com disciplina, tentando esvaziar a cabeça de outras questões, concentrado naquilo que via.
E, passadas umas semanas, sinto que o essencial de Goya me escapou, que as mensagens do autor estão perdidas algures na minha memória incompetente e traiçoeira, na minha cultura cada vez mais incompleta.
Como admiro aqueles cavalheiros antigos que podiam dissertar com os amigos sobre as órbitas mais altas do seu mundo intelectual, bebendo o seu brandy enquanto jogavam xadrez junto a desempoeiradas e gigantescas bibliotecas. Era um universo previsível e sensato, onde o tempo valia. Que inveja! Eu, contemporânea barata tonta, ando a saltitar de sensação em sensação, num nevoeiro de drogado. Para mim, o tempo cavalga e corre, literalmente.

ilustração: pintura de Jan Vermeulen, séc. XVII

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As Emoções Básicas (crónica) IX

por Luís Naves, em 24.07.07
A visita


O primeiro-ministro estava com grande dor de cabeça. Ninguém vira a sua queda, na véspera, nos jardins de São Bento. Batera com a nuca e estava com amnésia, mas o governante decidiu mesmo assim prosseguir com a visita à escola.
Impecável. Excelentes instalações. E ficou impressionado com as respostas prontas dos meninos e das meninas.
- Estamos a produzir crianças cada vez mais inteligentes, disse o primeiro-ministro, para aprovação geral das professoras e dos jornalistas. A ministra concordou, lançando-se de imediato num erudito monólogo, que todos aplaudiram no final.
O primeiro-ministro estranhou que as crianças aplaudissem. Estavam todas tão limpinhas, tão interessadas nos novos computadores da escola.
- O plano tecnológico está a funcionar às mil maravilhas, afirmou a ministra, como se lesse os pensamentos do líder.
Foi então que o primeiro-ministro notou, com estranheza, a extraordinária beleza de todas as professoras. Pareciam saídas de páginas de revista. Os jornalistas também pareciam invulgarmente sofisticados. E, na rua, militantes do partido agitavam bandeiras, sem grande convicção, e gritavam vivas.
Intrigado com aquilo, no final da visita, já dentro do BMW oficial, o primeiro-ministro decidiu interrogar o seu assessor.
- Achei aquelas crianças demasiado...como posso dizer?...demasiado perfeitas. Como é que isso se explica?
- Eram actores, senhor primeiro-ministro.
- Não compreendo...
- As crianças foram contratadas por uma agência de casting.
- E as professoras eram demasiado bonitas...
- Todas top model. Nestas ocasiões, procuramos sempre o melhor...
- E os jornalistas?
- Actores profissionais. Do Dona Maria, sobretudo, mas veio um cantor do São Carlos, aquele que lhe fez uma pergunta a cantar...
- Achei estranho.
- As perguntas são todas estudadas e preferimos actores com experiência.
- Mas, e a ministra?
- A agência de comunicação também tratou disso.
- E os militantes?
- Pagos à hora. Vieram numa excursão.
- Bem, e você?
- Fui contratado na semana passada, não se lembra? Antes, fiz aquele anúncio da Coca-Cola...
O primeiro-ministro avançou para o lugar da frente e, alarmado, ordenou ao motorista:
- A toda a velocidade, leve-me para o hospital mais próximo. Esta amnésia pode ser perigosa...
O motorista olhou para trás, desconsolado:
- Eu não sei conduzir, senhor primeiro-ministro. Sou actor de cinema e disseram-me para me sentar aqui. E é tudo o que sei fazer.

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As Emoções Básicas (crónica) VIII

por Luís Naves, em 24.07.07
Escaqueirar Cartago

Odeio polémicas á portuguesa, pois parece que quem fala mais alto é quem tem sempre razão. Depois, os argumentos são como as cerejas, vem sempre uma atrás da outra e, quando damos por nós, engolimos o cesto todo, o prato está cheio de caroços e a barriga perigosamente farta.
Vem isto a propósito de uma alegada polémica com Pedro Sales, de Zero de Conduta, que viu grande indignação no meu texto sobre a apreensão de uma revista satírica que insultava o príncipe herdeiro espanhol. E, vai daí, já estou metido num tema de capa e espada, com argumentação monárquica à mistura e gritos de Delenda est Cartago.
Repito: na minha modesta opinião, a liberdade de expressão não é um direito absoluto e não está acima da liberdade de ninguém, seja ele príncipe ou plebeu.
É apenas isto, meu caro Pedro Sales, que escrevo naquela crónica. É uma opinião que tenho há muito tempo. Julgo que, infelizmente, o exercício da liberdade de expressão é um poder a que nem todos têm acesso e, por isso, não se trata exactamente de um direito (ou apenas de um direito), mas sobretudo de uma responsabilidade. Ou seja, a quem o exerce exige-se que cumpra o seu dever.
As polémicas blogosféricas são interessantes porque as pessoas gostam de ter sempre razão e, acima de tudo, porque a leitura dos supostos adversários é muito ligeira, aflorando vagamente o que está efectivamente escrito. É como quem visita o museu de ciência natural. O Luís Naves escreve isto, ergo, deve ser uma criatura assado.
Penso que o método dedutivo não será o mais correcto, pois faz lembrar aqueles cientistas que analisam as partes do elefante: um deles descobre a tromba e conclui que se trata de uma serpente; outro, a pata, por isso não duvida de que se trata de uma árvore; o terceiro investiga a cauda e determina que estamos perante um cão.
No fim do percurso, fico colado a uma polémica sobre homossexualidade (juro que nem percebi bem, apesar de ter lido várias vezes para tentar descodificar). Trata-se de um assunto sobre o qual não tenho nenhuma opinião estruturada ou que valha a pena partilhar com leitores.
Serve afinal esta crónica para deixar claro que não me agradam muito estas polémicas à portuguesa, devido ao ruído e ao facto de se discutir sobretudo a espuma das causas e nunca a sua essência.
Aqui, o que me incomoda é a leveza dos argumentos. Imagine o Pedro que o expunham publicamente num enxovalho daqueles, para mais humilhada também uma pessoa amada. Não sentiria indignação? Acha que isto é apenas uma questão de republicanos ou monárquicos? Ou uma simples equação sobre os limites da liberdade de expressão?

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As emoções básicas (crónica) IV

por Luís Naves, em 17.06.07

A sombrinha
Tenho um calendário na parede em frente à minha mesa de trabalho. Inclui detalhes de pinturas do Museu do Prado, uma obra por mês; e, no mês de Junho aparece esta imagem. Chama-se El Quitasol, foi pintado por Francisco Goya, com data de 1777. Um rapaz segura a sombrinha (tem o outro braço dobrado, parece-me que será demasiado comprido, ou o cotovelo excessivamente puxado para a direita, talvez por ser um adolescente ainda com o corpo desproporcionado); a pintura é dominada pela figura de uma jovem (também adolescente); ela tem a cabeça protegida pela sombra do guarda-sol, enfeites no cabelo, brincos brancos, um vestido elegante, azul, uma capa de bom tecido, de onde sai o seu braço, que segura um leque; e, ao colo, dorme um cãozinho, cujos contornos são confusos; talvez o animal tenha uma fita vermelha à volta do pescoço. O jogo de luz, na cara da rapariga, é espantoso. E, depois, há um sorriso...
Na minha parede, no calendário, a imagem é quadrada, limitada ao centro da pintura. Não se percebe bem o que está no fundo. Seria preciso ver a obra original para deslindar todos os detalhes. Lembro-me dela, no andar de topo do museu: é grande, pelo menos um metro e meio de comprido e mais de um metro de altura. Mas quando a vi, estava cansado, já não me recordo exactamente dos pormenores...
(É o grande defeito dos museus bons: queremos ver tudo e acabamos por não ver nada; a mente humana não aguenta mais de cem imagens de cada vez; os museus devem ser vistos durante vários dias, 20 ou 30 pinturas em cada visita).
Não sou historiador de arte e o que me leva a escrever sobre a sombrinha não é a pintura em si, mas o fascínio que ela me tem provocado, nestes 17 dias em que está ali, à minha frente.
O que me ocorre, quando olho a imagem, é a ideia de um mundo que já não existe, luminoso e solar, com uma alegria interna e leve que nos surpreende.
A imagem fascina porque vivemos num mundo cheio de sombras, de cores esbatidas, um pouco nocturno...
(Vivemos rodeados de imagens banais, de tal maneira que mal paramos para desvendar os seus enigmas. Não me estou a esquecer do estilo das cores da publicidade ou da beleza fria da national geographic; mas reparem que essas imagens pertencem a universos que visitamos apenas virtualmente, em papel de 80 gramas; podiam ser de Marte)...
Talvez por isso nos escape, ou encante, esta pintura: a sua alma, a graciosa leveza. As figuras enviam um sorriso de um mundo que já não existe. Mas o que me choca é que o pintor não sabe, as personagens ainda não sabem, mas este mundo feliz deixará de existir ainda em vida destas pessoas autênticas.
A luz evanescente que se espalha de forma desigual; o vestido azul, cujas pregas reflectem o sol dourado; o sono tranquilo e sonhador do cãozinho; e a paciência (talvez apaixonada) do rapaz que segura a sombrinha.
Dentro de uma geração, tudo isto será apenas uma memória, pois uma terrível guerra vai mudar a vida de toda a gente. O pintor sofrerá muitos horrores; e a Espanha, invadida, massacrada, entrará nas trevas.
El Quitasol está longe de ser a melhor pintura de Goya: é uma obra de juventude, que não se compara ao poder trágico dos Fuzilamentos de 3 de Maio, ao erotismo da Maja e aos geniais Pinturas Negras e Desastres de Guerra (que parecem um século à frente do seu tempo).
Esta sombrinha é apenas uma imagem sobre a surpresa, a alegria de viver, ou antes, a esperança da vida futura. E, sabendo nós o que não se encontra nas suas pinceladas, mas que foi captado na essência, há como que uma antecipação da tragédia e da morte, um sorriso que inclui a futura tristeza, e a nostalgia do que inevitavelmente está condenado.

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