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Gente feliz com lágrimas

por João Távora, em 08.05.24

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O futebol tapa muita coisa, dizia-me um dia destes um familiar muito assisado. Nada mais verdadeiro, mais ainda quando a política em Portugal por estes dias anda tão rasteira, cheira tão mal que tresanda de oportunismos e malandrices - que se lixe a Pátria.

Em boa hora, é neste panorama deprimente que o Sporting se sagra campeão nacional. Uma estonteante alegria infantil que venho saboreando, aficionado que sou do futebol, sportinguista de corpo e alma, uma pertença que recebi de família, que ao longo da vida nem sempre foi leve. Talvez por isso nestas alturas usufrua o acontecimento com desmesurado e intenso prazer. Até um crónico derrotado como eu, sempre do lado minoritário da barricada, merece o sabor goloso duma vitória destas, mesmo no lado lúdico da vida -  é o que levamos daqui.

Um aspecto particularmente fascinante, mesmo que não seja exclusivo do futebol, mas que me agrada de sobremaneira, é a vertente colectiva desta apaixonante modalidade: uma equipa liderada com o espírito certo, atinge resultados muito superiores à soma dos seus elementos. O espírito de grupo, a solidariedade e complementaridade entre os elementos, cada um fundamental para a dinâmica e motivação em vista. Repare-se como a retirada de um elemento num determinado confronto, se  momentaneamente fragiliza a prestação, o restante grupo, se coeso e bem liderado, supera-se em solidariedade e empenho. Se alguém cai, logo outro o levanta ou substitui na função. É isso que de mais belo a humanidade consegue ser. Fazer. 

Assim aconteceu com o meu Sporting esta temporada, com exibições de encher o olho, entusiasmantes de alegria e nota artística. Um sinal de que o fado não é uma fatalidade. E que, pelo menos na bola, os meus por uma vez dão a volta ao texto, dão a volta à História, viram o jogo e ocupam o lado de cima, sobem ao céu. Contra ninguém.

Os Sportinguistas têm a oportunidade de, de uma vez por todas, adoptar o discurso pouco trágico dos vencedores, um sítio gostoso de olhar o Mundo e expulsar o estigma da modéstia e da derrota, da vitória moral, do caminho de morte, sintoma de fim. De deixarmos de justificar as derrotas com as nossas virtudes morais, uma narrativa enganosa, do receio da felicidade, da luz do sol encadeante, que ilumina o gosto pelo sucesso, a recompensa pelo esforço.

O futebol tapa muita coisa mas também desvenda muita coisa. O sucesso é uma coisa boa, aliada à virtude, à luminosidade, à verdade. A vitória do Sporting neste campeonato, jogado às claras, sem equívocos ou batotas, com público nas bancadas e com competições europeias é um verdadeiro consolo. Uma vitória que, propositadamente não atribuo a nenhum protagonista especial, porque é uma vitória de grupo, de equipa, de conjunto, de uma cultura, de uma comunidade. Em que todos os protagonistas, do adepto ao roupeiro, da bancada ao camarote ou à equipa técnica, do guarda-redes ao ponta de lança, todos foram fundamentais. Talvez a fechar uma página da nossa história, um fado de gerações.

Viram bem as faces felizes, os sorrisos francos, as lágrimas de felicidade, que correram por esse Portugal inteiro, a desaguar na rotunda no Domingo? E se Portugal todo se pudesse inspirar neste fenómeno?

Publicado originalmente aqui

Prognósticos só depois do jogo

por João Távora, em 05.04.24

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Amanhã à noite Alvalade estará em euforia para aquele que julgo ser o mais importante dérbi dos últimos anos. À tradicional rivalidade entre os dois clubes vizinhos, junta-se a luta pelo título de campeão, cujas oportunidades de disputa se encontra cada vez mais limitada: a seis jornadas do fim, Sporting e Benfica, nesta ordem, ocupam os dois primeiros lugares do campeonato com a diferença de um ponto, destacados do terceiro. Este jogo acontece quatro dias depois de um outro dérbi, esse para a Taça de Portugal, em que o Benfica, apesar de ter feito a melhor exibição da época, com um empate a duas bolas se viu arredado da final da Taça de Portugal, a disputar no Jamor no final de Maio - lá estarei, se Deus quiser. Nesse jogo, o clube de Carnide, confirmou a tradição que reclamam os especialistas, de que a equipa em pior forma nestes embates, normalmente se supera. Foi o que aconteceu há dias, apesar disso não ter chegado para levar de vencida a equipa leonina na eliminatória.

Aqui chegados, o que interessa verdadeiramente é o confronto que se repetirá amanhã à noite num estádio de Alvalade lotado, onde o verde e branco será imperial e as emoções estarão ao rubro.

Confesso-vos que tenho más memórias de dérbis decisivos em Alvalade, tenho ideia que normalmente não correm bem aos leões. Assim de repente, lembro-me de dois exemplos que testemunhei ao vivo: na época 1999/2000, quando na penúltima jornada o Sporting se podia sagrar campeão, perto do final do jogo o Benfica, por intermédio de Sabry, marcou um golo, que enregelou o antigo estádio de Alvalade, já encharcado por horas seguidas de uma chuva persistente. A festa foi adiada uma semana: a equipa de Augusto Inácio sagrou-se campeã na jornada seguinte e os festejos há dezoito anos esperados foram absolutamente memoráveis. Mais desagradável foi uns anos depois, quando a equipa leonina, dirigida por José Peseiro em 2004/2005, também na penúltima jornada, perde por um maldito golo de Luisão (sempre me pareceu em falta sobre o guarda-redes Ricardo na pequena área) a sete minutos do fim, derrota que custou o título aos leões.

O que é um facto por estes dias é que o Sporting é quem de longe está a jogar o melhor futebol em Portugal, ao fim de 28 jornadas conta como vitórias todos os desafios jogados em Alvalade, que tem à frente do ataque um Panzer chamado Gyökeres, e que, na verdade, last but not least, afinal este jogo não será assim tão decisivo. Acontece que depois do apito final estarão ainda 18 pontos em disputa para o Sporting que tem um jogo em atraso, sem contar com o melhor treinador do campeonato, um senhor, chamado Rúben Amorim. Razões suficientes para amanhã ocupar o meu lugar no estádio com alguma confiança. De resto, sportinguistas e benfiquistas, eternos rivais, sabem bem da imprevisibilidade de um dérbi. Prognósticos só depois do jogo.

Haja coração!!!

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Como um atleta chegado do Olimpo

por João Távora, em 02.02.24

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Acabou finalmente, por alguns meses, a ruidosa especulação à volta da venda de Viktor Gyökeres. Foram mais de seis semanas de entretenimento de muitos comentadores remunerados, nos jornais e televisões, com o intuito de esmifrar o publico em lucubrações numa não notícia. O fenómeno percebe-se: o jornalismo, vivendo uma profunda crise, não poderia deixar de explorar o filão duma potencial transferência que esteve longe de acontecer. Afinal, a “não notícia” reunia o interesse do grosso dos adeptos do universo da bola: por um lado afligindo os sportinguistas incautos, e por outro alimentando expectativas aos seus adversários. Foram litros de tinta e horas de sagazes cometários que se irão desvanecer rapidamente na espuma do esquecimento. Afinal também foi para isto que se fez o 25 de Abril.

Mas a mim interessa-me principalmente o fenómeno Gyökeres em campo. Serão certamente lugares-comuns os adjetivos a aplico à arte com que o jogador nos surpreende a cada jornada. A força brutal aliada à técnica refinada e resistência resulta mesmo um caso raro. Vê-lo, quase ao fim do jogo, fazer um sprint para recuperar uma bola na defesa, ou esgadelhar-se para marcar só mais um golo é um deleite para quem gosta de futebol. Dou Graças a Deus de ter vindo para o Sporting, e da felicidade que transparece pela experiência. O seu sorriso ao final de cada partida bem-sucedida denuncia um entusiasmo benignamente infantil. Dizem-me que já arranha a língua de Camões e que a namorada é portuguesa.

Finalmente, Gyökeres evidencia uma estampa politicamente incorrecta que me apraz de sobremaneira: aparentando uma escultura clássica, sem ostentar no corpo tatuagens ou outros artifícios, transmite sobriedade, a contrariar a imagem de decadência do europeu médio. Como um atleta chegado do Olimpo.

Rezo para que a sua experiência seja muito feliz entre nós.

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Sonho numa noite de Verão

por João Távora, em 22.06.22

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Neste período difícil de absoluta inactividade futebolística de interesse, quando há que arregaçar as mangas da imaginação para especular algo de jeito que cative o leitor ávido de futebol, usam-se as peripécias mais manhosas para encher os chouriços que são as páginas de jornais desportivos e os painéis televisivos sobre bola. Das diárias notícias sobre promessas de contratações sonantes e vendas milagrosas há uma em especial que me consegue desviar a atenção dos meus afazeres: a promessa do retorno a Alvalade de Cristiano Ronaldo. Confesso-vos uma coisa: o meu maior sonho era ver o Sporting Campeão Nacional com Cristiano Ronaldo na equipa e Ruben Amorim aos comandos. Já pensaram bem o que seria? Uma época com o estádio cheio sempre a cantar.

Post publicado originalmente aqui

A mais merecida das homenagens

por João Távora, em 14.05.21

"Sporting Clube de Portugal é o título duma associação composta de indivíduos de ambos os sexos, de boa sociedade e conduta irrepreensível."

Artigo 1 (dos primeiros estatutos do Sporting em 1907)
 

Aqui chegados, é importante não esquecermos o caminho que aqui nos trouxe, e homenagear os resistentes que tornaram esta incomensurável alegria possível, resgatada a ferros de tempos sombrios e difíceis. De volta às grandes vitórias que fizeram do Sporting Clube de Portugal tão grande e popular, por estes dias de euforia lembremos todos os sportinguistas caídos nos últimos anos e aqueles que permaneceram até ao fim fiéis a este nosso emblema. Relembro em particular o meu saudoso tio Manuel de Castro, que me abriu os olhos para a beleza de um jogo de futebol no estádio, e principalmente me ensinou os valores da perseverança e do fair-play, que são as mais sólidas fundações do nosso clube.

Hoje deixemos para segundo plano uma equipa de jovens promessas, a maioria delas nascidas sob a bandeira das cinco quinas. Hoje pomos de lado o presidente vilipendiado mas corajoso que, herdando um conjunto de escombros, conseguiu inverter a decadência do nosso clube. Hoje não falarei do jovem e inspirado treinador, que liderou um balneário heterogéneo para as páginas mais douradas da nossa História. Hoje esqueçamos as claques predatórias e outras enfermidades que nos quiseram roubar a esperança de voltarmos a ser felizes. Porque hoje é dia de lembrarmos todos aqueles que não desistiram de estar onde era preciso nos momentos mais negros da nossa História, para resgatar a dignidade que nos tinha sido roubada. Que com obstinação nunca desistiram do Sporting naqueles dias tristes que pareciam ter chegado para sempre. Hoje é dia de homenagear os associados que se mantiveram firmes nas filas das assembleias, nos lugares do nosso estádio, naqueles tempos sombrios, sempre a apoiar o clube para que pudesse sobrevir um amanhã de esperança. É essa a alma enorme que nos distingue dos demais.

Foi essa alma enorme que eu aprendi com o meu tio Manuel que partiu cedo demais. Uma lição que espero deixar de legado aos meus filhos. O Sporting somos nós, a vitória foi nossa. Somos nós os campeões.

Publicado originalmente aqui

A psicologia da natureza *

por João Távora, em 15.04.21

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A poucas semanas de poder sagrar-se campeão ao fim de dezanove anos de jejum, a coisa mais natural do mundo é que reine grande ansiedade não só entre os adeptos, mas principalmente entre os jogadores e a equipa técnica do Sporting. Na verdade se estivéssemos a seis pontos do primeiro não havia grande ansiedade a jogar contra o Farense.
Acontece que a ansiedade quando bem direccionada é um estado psicológico com grande potencial criativo. Não vale a pena negar a realidade, mas sim aproveitar o potencial que ela oferece aos protagonistas. A oportunidade de ficarem na história, nada menos.

Sendo assim, amanhã é cerrar os dentes, cair-lhes em cima e vencer o jogo.

* "Não contrariar a psicologia da natureza" era uma expressão sabiamente usada pela minha avó que Deus tem. 

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Sporting Clube da Portugalidade

por João Távora, em 21.02.21

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O Sporting ontem na vitória dois-zero sobre o Portimonense jogou com Nuno Mendes, Tiago Tomás  e Gonçalo Inácio (todos com menos de 20 anos) no onze inicial, além de Palhinha e João Mário também portugueses da formação. No onze estavam outros dois: Pedro Gonçalves e Nuno Santos. Como suplentes e oriundos da academia de Alcochete entraram como suplentes Joavane, Daniel Bragança (até temos um Bragança) e Matheus Nunes. Um enorme contraste com os adversários e 13 pontos de avanço sobre o segundo lugar. O caminho para o título faz-se passo a passo.

Nada mais, nada menos

por João Távora, em 11.02.21

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Honra lhe seja feita, os resultados desportivos da equipa principal do Sporting tem exibido, são mérito da tão vilipendiada direcção do Sporting, e em sentido contrário pode-se afirmar que eles acontecem apesar das Claques (e de outros duvidosos protagonistas) e não por causa do seu apoio. Para além disso parece-me da mais elementar justiça elogiar as pertinentes declarações de Frederico Varandas após o difícil confronto entre o Gil Vicente vs Sporting, afirmando que “a arrogância, a bazófia, é meio caminho para a derrota e uma vitamina extra para os nossos rivais”. Se a mensagem tem várias interpretações, e por isso mesmo revela inteligência e acutilância, parece-me que ela se dirige principalmente para o interior do clube e para os seus adeptos. É preciso travar euforias, o campeonato é uma longa maratona e é do mais elementar bom senso reconhecer que o “Sporting tem de respeitar sempre os seus dois rivais” porque “têm muita força dentro e fora do campo”. Nada mais, nada menos: é este o genuíno espírito e cultura sportinguista que nunca deveriam ter sido traídos.

Post publicado originalmente aqui

 

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“Realizou-se domingo [14 de Setembro de 1902], na Quinta da Fonteireira em Belas, [Quinta pertencente à família Pinto Basto onde, por via do parentesco da minha avó paterna, eu passava umas divertidas jornadas em pequenino], o match de «Foot-ball» entre o Sport Clube de Belas [dos irmãos Gavazzo] e o Foot-ball Clube Peninsular, ficando este último a vencer por 6 goals contra 1. Aos vencedores foram oferecidas medalhas. O grupo vencedor compunha-se: goal-keeper, J. Lisboa; backs, E. Tito e F.G. Vieira; half-backs, E. dos Santos M. do Nascimento e Afonso Ortis; forwards, Abel Macedo, David Fonseca, C. Botelho, G.P. Basto e R. Pereira; refere, J. G. Vieira.

In “História do Sporting Club de Portugal" de Luís Augusto da Costa Dias com Paulo J. S. Barata – Contraponto

Delírios dum defeso atípico

por João Távora, em 19.08.20

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Mesmo na perspectiva de estádios sem público por causa da pandemia do medo, o defeso da bola com as promessas de reforços milagrosos para as equipas é sempre emocionante para os adeptos mais entusiastas. As temperaturas do estio conjugadas com a indolência das férias contribuem para um ambiente de expectativa eufórica que os jogos a doer tratarão de acalmar. A julgar pelas notícias e pelos comentários dos especialistas, o Benfica este ano surgirá com uma equipa para disputar o pódio das competições europeias e o campeonato doméstico uma mera formalidade, um monótono passeio com o vencedor já vaticinado. O fenómeno mediático proporcionado pela promessa de chegada do messiânico Jesus repete-se agora com o alvoroço da possibilidade da contratação de Cavani. Tudo em prol da salvação de Luís Filipe Vieira, a quem, com a justiça à perna não convém perder o lugar onde se protege.

Dito isto, as coisas até podem não ser assim lineares, não digam nada a ninguém. Tenho ideia de que retornos normalmente não funcionam bem e que as estrelas em fim de carreira são mesmo cadentes. Já o Sporting com um bom treinador e estilo de jogo definido parece-me no bom caminho, a contratar valores seguros, jogadores emergentes com provas dadas e necessidade de afirmação noutros patamares. A construção de uma equipa sem desespero ou euforias.

E como eu tenho saudades de ir à bola…

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Antes que uma grande tragédia aconteça...

por João Távora, em 11.02.20

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Quem ingenuamente julga que a questão da violência das claques e da delinquência no futebol é um problema exclusivo do Sporting, está muito enganado. Porque será que o Estado que se quer meter em tudo, até na nossa vida privada, assobia para o lado nesta matéria tão urgente? Temo que o problema só seja encarado com seriedade quando acontecer uma grande tragédia - o monstro é incontrolável e se não for enfrentado, depois de matar alguém irá matar o futebol.
Aqueles que de boa-fé julgam que o problema do Sporting é Frederico Varandas deveriam pensar se haverá alguém com vontade e qualidades profissionais e humanas para o substituir, sabendo de antemão que se vai confrontar com os mesmos problemas da actual direcção: um clube em guerra civil e recursos tragicamente limitados para ombrear com os seus rivais. A reedificação dum Sporting vencedor (como o que existiu até aos anos 60) é um trabalho de hércules que exige não só um líder extraordinário (que não estou a ver de onde surja), mas de estabilidade para implementar uma estratégia vencedora (atravessar o deserto). Entretanto deixem a actual direcção terminar o seu legítimo mandato. Se no final tiver dominado as claques, devolvido o Sporting aos adeptos e as famílias poderem voltar a frequentar pacificamente as bancadas, já terá valido a pena.

Imagem - Heysel, Bélgica, 29 de maio de 1985 

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Uma estranha sensação de Déjà vu

por João Távora, em 25.10.19

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1 - Ontem o jogo em Alvalade mostrou um Sporting bipolar: com um futebol escorreito e quase vistoso, com a bola a chegar com perigo à área do adversário na primeira meia hora, e depois uma equipa extremamente insegura, hesitante, com um meio campo excessivamente permeável e demasiados passes falhados (não há ninguém melhor que Doumbia para fazer o número 6?). Para isso não ajudam nada os sinais que vêm da bancada – os adeptos estão impacientes e intransigentes para com o falhanço. Receio que a recuperação de confiança da equipa ainda demore: tarda uma exibição concludente com o consequente resultado. Aqueles jogadores são capazes de muito mais.

2 - Também não gostei do espectáculo final do topo sul, onde as claques afinal se mantêm impunemente empenhadas, não a apoiar o clube, mas para derrubar revolucionariamente o presidente eleito. O Sporting não pode ser dirigido a partir da rua, muito menos pelas claques - nenhuma instituição sobrevive em permanente sobressalto revolucionário. A direcção também precisa de paz institucional, cumprir o mandato para que foi eleita, de preferência corrigindo os erros cometidos na gestão do futebol profissional. Julgo que não seja preciso um curso superior para entender que, com os maus-tratos dos últimos anos, o que está em jogo é a sobrevivência do Sporting como nós o conhecemos. Temos de por fim a este processo de autofagia. Não somos campeões há 18 anos? Olhem para o Liverpool (e tantos outros históricos da Liga Inglesa).

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A decência como desafio vital

por João Távora, em 27.05.19

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A vitória do Sporting na final da Taça no passado sábado, outros já o terão dito, representa além de tudo o mais, o enterro definitivo da peste brunista que num passado recente se apoderou e ia liquidando de vez o nosso amado Clube. De caminho também representou a afirmação de valores como o Fair play e da boa educação no futebol – até por contraste com a atitude do treinador adversário - um distintivo que sempre esteve no ADN do Sporting. Agora podemos envergar as nossas cores com a cabeça erguida.

Mas não será fácil fazê-lo sozinhos no ambiente doentio que grassa à volta do futebol. Tenho para mim que a sobrevivência desta indústria depende de uma inversão radical na forma como os clubes têm gerido a sua comunicação (e a sua conduta), transformando esta salutar paixão numa guerra sem quartel, com uma batalha verbal em que vale tudo, no total desprezo pela ética e civilidade, no demente propósito de amesquinhar os adversários. Basta escutar cinco minutos os protagonistas de alguns programas televisivos a dizerem disparates impróprios para crianças e pessoas decentes que gostariam de continuar a frequentar os estádios com as suas mulheres e os seus filhos em vez de os entregar às hordas alienados. Por isso não me surpreenderam os comentários hostis dos sequazes portistas a um tweet do escritor e comentador Francisco José Viegas, quando no rescaldo do campeonato apelava que os adeptos dessem os parabéns ao Benfica, deixassem de comentar os árbitros e que se concentrassem no jogo do Jamor.  Eu também acredito que o desporto, mesmo sendo espectáculo, tem de permanecer uma actividade nobre e pedagógica, caso contrário, não vale a pena.

Repito o que atrás afirmei: é urgente que se coloque um travão à grosseria que vem sendo transposta das antigas tabernas insalubres para os painéis das televisões e para as salas de imprensa dos clubes, criando um ruído insuportável que tanto mau nome dá à modalidade. Pela minha parte ficarei muito orgulhoso que o Sporting se torne exemplo de integridade e Fair-play, remetendo para dentro do campo toda a virilidade e arrebatamento, e que eu jamais me venha a envergonhar de frequentar um estádio de futebol.

 

Fotografia daqui

Publicado originalmente aqui

Unir o Sporting

por João Távora, em 05.09.18

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Apesar de nenhum dos 7 candidatos a presidente do Sporting me ter deslumbrado particularmente tomei a decisão de votar em Frederico Varandas. Convenceram-me a sua genuína vontade de ocupar o cargo reflectida no corajoso e antecipado anúncio da sua candidatura, a lufada de juventude que transparece e a consistência da sua carreira como médico e militar, que dá indicações dum perfil decidido, resiliente e ponderado, qualidades necessárias para o difícil período que o nosso emblema enfrentará nos próximos tempos. Importa aqui ressalvar que se for outro candidato a obter a confiança dos sócios, esse será presidente que eu apoiarei no dia seguinte, para reerguer o Sporting do vendaval de destruição sofrido nos últimos meses e fazer esquecer o maluquinho do kamikaze cujo nome me escuso mencionar. Para que isso aconteça, no sábado os sócios são chamados a comparecer em peso, única fórmula de virarmos a página mais negra da nossa história e assim voltarmos a unir o Sporting.

 

Publicado originalmente aqui

Depois da tempestade

por João Távora, em 26.06.18

Tudo indica que Bruno de Carvalho passou à história, e passou a fazer parte do mais negro passado do Sporting. Do seu legado desastroso, para lá do desmantelamento da equipa de futebol profissional e o desastre económico que isso significa, o maior flagelo foi divisão infligida entre os adeptos com a luta de classes que trouxe a terreiro para alimentar uma guerra civil num clube que sempre foi profundamente democrático e interclassista: o Sporting fundado pela burguesia endinheirada do final da monarquia construiu o seu sucesso aglutinando no seu seio e à sua volta pessoas das mais diversas origens sociais e culturais durante mais de cinco gerações. Trazer o preconceito social e estratagemas bolcheviques para a conquista e manutenção do poder foi o mais hediondo crime de Bruno de Carvalho. A liderança que assumir a direcção dos destinos do Sporting tem um trabalho hercúleo pela frente para manter o universo Sporting coeso e a marca atractiva às novas gerações. De todas as classes, culturas e geografias.  

Renascer das cinzas

por João Távora, em 18.06.18

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A convite do Ponto SJ, o portal dos Jesuítas em Portugal, discorro sobre a crise no Sporting Clube de Portugal, que por estes dias luta pela sobrevivência. Que o bom senso seja restabelecido e o próximo dia 23 seja o primeiro dia do renascimento desta vetusta instituição que é parte do meu ADN

Bruno de Carvalho, Rua!

por João Távora, em 24.05.18

Ao mesmo tempo que Bruno de Carvalho faz uns malabarismos para se acorrentar ao poder (difícil é entender como Augusto Inácio e Fernando Correia se sujeitam a estas coisas), começo a ouvir algumas vozes de comentadores a afirmar que irá ser difícil demitir esta direcção e convocar eleições, que o presidente tem tudo minado e que facilmente manipulará uma assembleia geral com as suas claques fiéis. Que mais vergonhas têm os sportinguistas de passar e desgraças são precisas acontecer para que o doidinho nos desampare o Clube?
Vamos ou não vamos expulsar o usurpador, Dr. Marta Soares? Onde é que eu tenho de assinar?

Um choro pelo meu Sporting

por João Távora, em 17.05.18

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Foi ao início do recente derby, na cena macabra das tochas arremessadas para a baliza de Rui Patrício, que eu pela primeira vez na minha já longa vida me senti a mais no Estádio de Alvalade. Na sequência dos acontecimentos prévios, o estranho à vontade e o descaramento com que essa acção foi perpetrada, demonstrava à evidência como os bárbaros tinham definitivamente tomado conta do nosso clube.

Em minha defesa tenho a dizer que nunca votei em Bruno de Carvalho, cujo discurso e estilo desde a primeira hora me assustaram. Mas confesso que nos primeiros tempos da sua presidência, perante o facto consumado, e por causa do meu amor ao Sporting, tentei assimilar o personagem, desculpando-lhe os excessos com a esperança em resultados, e diga-se em abono da verdade que alguns sinais até pareciam prenunciar as almejadas vitórias. Pus-me em causa: talvez o problema fosse os meus preconceitos, uma pessoa que tivera uma rígida educação votada para uma estética (ou ética, como lhe queiram chamar) aristocrática, um exercício que a minha vida prática e quotidiana me obriga fazer demasiadas vezes. Infelizmente, como eu receava, a coisa vai acabar muito pior do que a minha imaginação alguma vez poderia conceber, mesmo nos mais negros pesadelos.

Esta semana tem sido muito penosa para mim. Basta dizer que não tenho maneira de explicar os insanos acontecimentos que tomaram conta do nosso Sporting aos meus filhos, que na antiga tradição familiar com orgulho formei como sportinguistas e para o carácter: sempre souberam que a condição do nosso amor e lealdade não eram dependentes ou recompensa de vitórias. Acontece que a dedicação de um verdadeiro Sportinguista é fundada no carácter que só o esforço forma, na resiliência e pele rija daqueles que perdendo batalhas se reforçam e reforçam para voltar à luta apenas pela glória que só um grande amor imprime.  E a recompensa de uma pertença maior, legado que nos chegou das pessoas de bem que nos esculpiram este coração de Leão que hoje sangra e chora.

Vai dar muito trabalho, no meio dos escombros e deste caos que não nos deixa ver o dia de amanhã, juntar os cacos para voltarmos de cabeça erguida a competir pelo lugar que é nosso: o de um grande clube português, de gente decente e lutadora. O resgate do nosso Sporting tem de começar hoje, expulsando de vez o usurpador.

Ganhámos um jogo de treino

por João Távora, em 06.08.17

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É no mínimo preocupante quando uma equipa que tem ambições de vencer o campeonato faz mais de metade do seu primeiro jogo com um adversário que almeja a manutenção, empastelado no meio campo com baixíssima produção atacante, perdida numa experiência de última hora. O Bruno Fernandes no lugar de Podence, desaparecido nos mesmos terrenos de Adrien, foi um enorme equivoco que nos podia ter custado o empate na primeira parte. Com a equipa assim encolhida o futebol leonino claramente só desemperrou já na segunda parte com Podence à solta no último terço do terreno – o miúdo traz velocidade e rebeldia fundamental naquela zona do campo. É preocupante que Jorge Jesus teime em fazer experiências como se não estivesse em competição, mas está-lhe na massa do sangue protagonizar “surpresas” para mostrar que existe, que é ele que manda. Não havia necessidade - está claro para todos que é ele que manda - e podia ter corrido muito mal. 

À parte dessa inquietação, e para além de não termos sofrido golos, é de destacar o extremo esquerdo Acuña, que exibe uma generosidade excepcional a defender, umas ganas bestiais a atacar, e um faro de golo raro. Temos Leão para atacar o título. Só espero que não percamos o Gelson Martins.

 

Texto publicado originalmente aqui

Um d' Os melhores golos do Sporting

por João Távora, em 08.02.16

Yazalde Sporting - Armazém Leonino - Sporting 197

O golo de que vos venho falar foi marcado em Março de 1974 por Hector Yazalde (Buenos Aires, 29 de Maio de 1946 - Buenos Aires, 18 de Junho de 1997), o primeiro de um desafio que o Sporting viria a perder em Alvalade por 5 – 3 naquele que foi o derby mais antigo de que tenho memória de presenciar ao vivo, para mais acontecido numa gloriosa época em que o Sporting se sagraria campeão nacional. Escolho este porque é da autoria de uma das maiores glórias leoninas de sempre que convém relevar mais e mais vezes contra o esquecimento, mas também pela forma acrobática como foi marcado - ainda hoje o tenho gravado na minha retina. Acontece que o presenciei de uma perspectiva privilegiada sobre a grande área Benfica na primeira parte. Nesse Domingo eu acompanhava o meu Tio Manel excepcionalmente em “Dia de Clube” – ocasião em que todo o público, sócios ou simples adeptos, tinham que adquirir ingresso pago, numa época louca em que no Estádio José de Alvalade cabia sempre mais um espectador. O ambiente resultava electrizante, como que explosivo.
Dizem que golos acrobáticos como este só podem acontecer quando facilitados pela defesa adversária, mas o que é facto é que, sem a facilidade dos dias de hoje de rever uma jogada de vários ângulos repetidamente durante a semana seguinte, eu nunca mais me esqueci daquele cabeceamento em voo planante para projectar a bola para o fundo da baliza de José Henriques - sem dúvida um golo de rara beleza que levantou todo o Estádio em imensa alegria (no vídeo ao minuto 1,24). O jogo, esse, que o Sporting viria a perder, foi para mim uma lição cabal da mística que possui um embate entre os dois vizinhos da 2ª Circular.
Quanto ao saudoso Yazalde que foi meu herói de menino, nessa época viria a conquistar a Bota de Ouro com 46 golos marcados, facto que ainda hoje constitui uma das maiores marcas desse prestigiado troféu europeu.

 

 

Nota 1: publica-se este artigo no dia do aniversário natalicio do meu saudoso pai, o primeiro responsável pelo meu sportinguismo. Em sua memória deixo esta nota de homenagem.

Nota 2: Texto elaborado para a série "Os melhores golos do Sporting" publicados aqui


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