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O discípulo

por Teresa Ribeiro, em 19.02.09

As coisas não me correram lá muito bem, que chatice! De certeza que não vão ficar muito satisfeitos com o meu trabalho. A questão é que já não tenho tempo para dar uma volta a isto. O que fazer? Dava-me jeito arranjar uma manobra de diversão que os distraísse do flop que vai ser a minha apresentação...
Faço como o outro? Na verdade até tenho assunto. Que eu saiba só eu é que cacei a Dora e o Filipe noutro dia na garagem e como ele acabou de casar com a filha do boss... Será suficientemente fracturante para os manter distraídos?

Ano Novo

por Teresa Ribeiro, em 01.01.09

Primeiro tomou consciência dos braços gelados a abraçar a almofada que reservava sempre para os ocupantes ocasionais dos dias felizes. Depois sentiu a boca pastosa. Longo suspiro descerrou-lhe os olhos. Já estava.

Cerca de dez dias num virote. As compras, as decorações da quadra, as trocas de emails e sms. Consoada, dia de Natal, sorrisos de azevinho para os sobrinhos pequenos, massagens de reanimação ao coração nos momentos de autoconsciência, felizmente escassos quando há muito que fazer. As perguntas insidiosas das tias: Então, rapariga, quando é que te casas? E o pior, o maldito reveillon. Aquela contagem de espingardas: quem me chama, quem me quer? A chatíssima alegria de pacote, tão cansativa!

Vira-se. No tecto flutuam pontas de luz madura. Talvez já passe da hora de almoço. Levanta-se, andrajosa. No corpo macerado ainda a cinta de ligas que lhe ofereceram por graça, as meias com as malhas caídas e o top de cetim feito num oito. Um zumbido na cabeça recorda-lhe o nível de decibéis a que se sujeitou, obedientemente, na véspera enquanto bamboleava o corpo em cima de saltos agulha. Na rua, a paz da ressaca. Mais um ano. Pois é. Mas agora não quer pensar mais nisso. Agora, durante um ano, não volta a pensar nisso.

Feitos um para o outro

por Teresa Ribeiro, em 27.12.08

Afagou-lhe distraidamente os pelinhos louros do pescoço e desabafou, enquanto passava os olhos pelos destroços do jantar falhado do dia anterior: Pois é, as mulheres dão muito trabalho.

Preguiçosamente ela abandonou o leito, pôs-se de quatro e ficou à espera, submissa, que ele viesse, o que aconteceu daí a poucos minutos.

Ele não podia conceber uma relação mais doce. A seguir ao pequeno-almoço, já cheio de energia, pegou na trela e chamou: Vamos?

O sexto

por Teresa Ribeiro, em 23.12.08

Do corpo desprende-se uma suave fragrância composta pela linha de produtos que abandonou há pouco na bancada de mármore, rigorosamente alinhados e a gotejar o suor do duche, que o acordou depois de um sono ordenado e limpo: gel de banho, desodorizante, leite corporal, creme para as mãos, after shave e água de colónia made in France.

Enquanto trinca as torradas de pão enriquecido com vitaminas e sementes facilitadoras da digestão, passa os olhos pelos recortes de Imprensa que falam dele. Mesmo quando citam outros nomes da sua equipa, muitas vezes é a sua figura tutelar que se destaca em fundo. Quantas vezes o seu nome é citado por dia a propósito de tudo e de nada? Ao início é estonteante, depois torna-se rotina, como tudo. Olha para o relógio. Toma umas notas com a caneta que o acompanha sempre e é ainda da mesa do pequeno-almoço que faz dois ou três telefonemas, não sem antes aclarar convenientemente a voz com pequenos exercícios e colocá-la naquele tom pausado e de autoridade que já é uma assinatura.

O fato Armani, a camisa e a gravata - sempre monocromática - esperam-no, disciplinados, vigiados de perto pelos sapatos Prada, devidamente engraxados. Enquanto se veste, avalia-se ao espelho: Em sexto lugar, hem? Antes mesmo do Jude Law! Nada mal...

Acossada

por Teresa Ribeiro, em 21.12.08

Depois de dispensar os assessores, fecha-se no gabinete. Suspira e passa a mão pelos rins, áquela hora já a precisar de tréguas. Não fosse detestar dar parte de fraca, já tinha desistido. A paciência para aquele bando de rapazolas ardilosos e arrogantes começa a faltar-lhe. Não foi uma supresa, ela sabia com quem se ia meter, mas o desgaste está a ser maior do que esperava.

Senta-se. Do tampo da secretária o neto sorri-lhe, alheio às intrigas partidárias que a consomem. Instintivamente passa o dedo pela moldura que o enquadra, deixando um lastro de limpeza onde se tinha acumulado a poeira dos últimos dias. O gesto deu-lhe um prazer e um alento inexplicáveis. Entredentes, desabafa: eu quero que as sondagens se lixem! E esquecida das dores nas cruzes atira-se ao trabalho, que esse ao menos não lhe reserva surpresas, nem questiona as suas estratégias.

À medida que o parecer que redige progride, sereno e dócil, ao seu ritmo, os músculos da região lombar relaxam. Suspira de novo: de facto o trabalho liberta! Suspende a escrita, olha no vácuo e toma consciência do que acabou de dizer: E se eu me tivesse saído com esta em público? Safa!

Sempre em pé

por Teresa Ribeiro, em 17.12.08

No quarto aquecido e ainda em tronco nu, chega-se ao espelho, fecha o punho, faz com o braço aquele movimento de tirar cervejas à pressão que aprendeu com os filhos e sussurra: Yes!!

Por fora a pelagem luxuriante do peito já começa a branquear, mas por dentro mantém aquele pulsar adolescente que tantos lhe censuram sem perceberem que é essa energia que o mantém vivo, nomeadamente para a política.

Escolhe um fato escuro, sério. Se possível mais sério que os tailleurs de Manuela Ferreira Leite. "I'm back, honey!" - pensa, enquanto lhe aflora ao rosto o mais cínico dos seus sorrisos. Depois de tudo o que lhe aconteceu, este regresso foi talvez a sua maior vitória. Logo à noite vai beber a isso com os amigos numa festa de acesso restrito, à cause des mouches.

Já na rua aspira o ar fresco da manhã. Sente-se leve como um passarinho, na cabeça um dos hinos em que mais se revê comanda o ritmo dos seus passos em direcção ao carro. Quando entra, alivia a expressão de siso que compôs para a via pública. Ajeita o espelho retrovisor, põe o carro em marcha e segue enquanto, já protegido pelo barulho do motor, trauteia: "Só eu sei, porque não fico em casa..."

Da sustentabilidade do amor

por Teresa Ribeiro, em 06.12.08

Saiu furioso, a bater com a porta, para a noite fria de Dezembro. Àquela hora só bêbados e vagabundos na rua. Sentia-se um cachorro abandonado. Com o passo enérgico começou a inventariar as atenções de que a foi rodeando dia após dia ao longo daqueles dois anos. Sabia muito bem que a maior parte dos homens não eram assim. E também sabia que nenhum homem a tinha feito tão feliz como ele.

A respiração alterava-se à medida que se atolhava de jantares românticos, perfumes e caixas de bombons. Nuvenzinhas de bafo saíam-lhe pelo nariz e pela boca enquanto a marcha lhe sobreaquecia o corpo. Aquela obsessão das mulheres, de todas as mulheres, pela monogamia exasperava-o. Seria ela mais feliz se lhe desse exclusividade mas a tratasse com indiferença? Pigarreou revoltado.

A sustentabilidade dos seus amores-âncora sempre dependera desses flirts. Só assim conseguia evitar as armadilhas do tédio e ao mesmo tempo obter energia e inspiração para reinventar as suas relações estáveis. Paradoxalmente eram essas ligações paralelas que lhe permitiam perpetuar os sentimentos que nutria por ela, a pessoa que tinha escolhido para amar em permanência. Mas como é que se explica isto a uma burra de uma mulher?

O fiel jardineiro

por Teresa Ribeiro, em 04.12.08

É paciente e metódico. Sabe tudo acerca dos tempos de sementeira e de pousio. Quando deve e não deve regá-las e as ocasiões propícias para a adição de fertilizantes. A experiência já lhe ensinou que quem aprende a tratar de uma, trata de todas e essa convicção dá-lhe uma segurança que ele considera determinante para o seu sucesso.

É com ternura que as vê crescer e multiplicar-se à sua volta, dando um justo retorno aos seus esforços e dedicação. A sua reputação como jardineiro envaidece-o. Na verdade é o seu principal motivo de orgulho e –sabe-o bem – fonte de muita inveja. Aos que lhe elogiam o jardim responde sempre com um sorriso desdenhoso: “Para mim a jardinagem não tem segredos”.

 

 

Gatinho feliz

por Teresa Ribeiro, em 01.12.08

Leva-lhe todos os dias o pequeno-almoço à cama, escolhe a roupa que ele há-de vestir, põe a pasta na sua escova de dentes e ajeita-lhe o nó da gravata. Faz-lhe isto todos os dias, desde que rendeu a sogra, há mais de dez anos. Só assim ele consegue enfrentar o mundo e a crueldade dos outros que, inexplicavelmente lhe resistem, como se fosse natural.

Coisas que me divertem

por Teresa Ribeiro, em 28.11.08

É gira! – disse ele guloso quando a viu aparecer. Olhei o mais rapidamente que pude, num reflexo instintivo que não há como evitar. Era, com efeito, gira. Gira, não. Linda! Segundos depois aquele rosto de boneca abriu-se num sorriso e logo a seguir um miúdo da sua idade cumprimentou-a com um impúdico beijo na boca.

O rosto do pavão (com idade para ser pai daqueles dois), que entretanto se tinha empoado a meu lado, num instante se desmoronou. Sussurrei-lhe, divertida: É a vida!

Nem me respondeu.

 



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