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Flores de estufa

por João Távora, em 20.06.20
As cidades do Ocidente, as urbes dos privilegiados do #ficaremcasa e do consequente #queselixemospobres, as cidadelas dos ativistas de classe média-alta que exploram economicamente o negro pobre para depois fazerem manifs contra o racismo que aliviam a má consciência de classe (os privilégios são de classe, não de raça), enfim, a elite urbanita é alegadamente ecologista. Esta é, porém, uma ecologia postiça.

A elite “ambientalista” não sabe lidar com a natureza, não sabe articular a história humana com a história natural; não defende a natureza tal como ela é, defende uma romantização da natureza feita por pessoas que só sabem viver na bolha protegida da cidade. Sim, o ambientalismo chique e urbanista é a maior negação da natureza e da história natural. Este paradoxo é visível no animalismo e na diabolização da dieta com carne. Caçar faz parte da natureza. Para enorme surpresa de muitas pessoas, os cães e gatos não podem ser vegetarianos. E um bebé humano alimentado de forma vegetariana corre sérios riscos. A dieta vegan é em si mesmo a negação do ciclo da vida, é uma ficção humana só possível nas cidades abastecidas pelo capitalismo. Este desrespeito pela lógica da natureza ficou de novo visível no embate com a covid-19. É absolutamente chocante o conjunto de pessoas que acha que é mesmo possível #vencerovírus. Ou seja, milhões e milhões de ocidentais acreditam que o #ficaremcasa mata o vírus, como se ele pudesse desaparecer, como se fosse possível transformar a curva numa reta, como se fosse possível colocar a história humana (isto é, as cidades) numa bolha a-histórica sem contacto com a história natural. É por isso que estas pessoas, que dizem que são científicas porque seguem a ciência do aquecimento global, diabolizam os virologistas e outros cientistas que contestam o radicalismo do #ficaremcasa e a onda de pânico irracional e desproporcionado em relação a um vírus historicamente bonzinho. Se esta for mesmo a nossa epidemia, então somos mesmo uma geração afortunada.

O respeito pela ciência não existe nas nossas cidades avançadas e modernas. Estes “modernos” só seguem a ciência quando ela confirma os seus preconceitos, medos e modas. Este viés é de novo evidente na questão dos fogos. Reparem nas semelhanças entre a narrativa “vencer o vírus” e a narrativa “zero incêndios”. Como dizem os especialistas, o fogo faz parte da natureza, tal como os vírus. Um fogo na cidade é uma ameaça existencial ao universo humano, mas um fogo na natureza é muitas vezes um reinício desejado pela própria natureza. Da mesma forma que é impossível travarmos o vírus até termos imunidade de grupo, é impossível reduzirmos os fogos a zero, porque o fogo faz parte da natureza. Se a prioridade exequível perante o vírus só pode ser a proteção do grupo de risco e não a anulação bélica do vírus, a prioridade perante o fogo é a proteção das populações e não a fantasia sem fogos. O #portugalsemfogos é tão anticientífico como o #vencerovírus. Se os políticos do centro não conseguem assumir isto com medo dos fogos das redes sociais, então podem entregar já as chaves aos populistas que prosperam neste fogo da emoção fácil.
 
Henrique Raposo, hoje no Expresso

Entrevista

por João Távora, em 08.05.20

"O confinamento já não me assusta coisa nenhuma, e o vírus também não me assusta. Se vier, vem, se me matar, matou. Não me importa. O que me assusta enormemente, de um modo que me tira a respiração, é a maneira como, em todo o mundo, os cidadãos aceitam a falta de liberdade."

De leitura obrigatória esta entrevista de Rentes de Carvalho à Rádio Renascença

"Tomar esta pandemia como uma batalha pode, no entanto, ser um erro, até porque é cada vez mais provável não ser possível ganha-la. Pelo menos enquanto não existirem vacinas. O vírus continuará a viver entre nós e é bem possível que a única vitória sobre ele seja a sua integração".

Do Editorial do Expresso.

Pela minha parte, e porque gosto de política, assistirei com interesse ao espectáculo das presidenciais de 2021 na certeza de que será digno da final de um campeonato de wrestling. Um dia, o seu vencedor irá instalar-se no Palácio de Belém com a árdua tarefa de fingir que é amigo de todos e representa todos os Portugueses. Mas no momento de preencher o boletim de voto, não deixarei de o anular. Será essa a expressão do meu repúdio por esta mascarada que nos foi imposta à força.

Dúvidas

por João Távora, em 14.02.20

Não é o direito de morrer que está em causa nas propostas da eutanásia. É outra coisa: é o direito de matar. Hoje, matar alguém, mesmo que a pedido dessa pessoa, é sempre um crime. Com a instituição da eutanásia, deixaria de ser assim. As questões éticas e jurídicas daí derivadas, e não apenas para os médicos, vão muito para além do “direito” e da “liberdade” de um suicida, e merecem ser discutidas e esclarecidas. (...) A eutanásia é sobretudo mais uma frente na sua [dos progressistas] guerra ideológica contra o que, desde o jacobinismo, lhes ensinaram ser a grande dificuldade: as tradições, inspiradas sobretudo pela herança cultural do cristianismo, que foram sempre os obstáculos principais aos projectos de refundar a sociedade a partir do Estado.

Rui Ramos a ler na interga aqui

O primado da vida

por João Távora, em 08.02.20
 

1- A vida tem, desde o seu princípio ao seu fim natural, a mesma dignidade absoluta que deve ser salvaguardada e protegida. Os grandes textos civis e sagrados, médicos e filosóficos que são a matriz das nossas sociedades, e formam a nossa consciência moral, recordam-no incessantemente. Ir contra o primado da vida é atentar contra a humanidade de todos os seres humanos.

2- Não é o primado da vida que tem de estar sujeito às circunstâncias (económicas, políticas, culturais, etc.) de cada tempo, mas sim as circunstâncias que devem estar ao serviço incondicional do primado da vida. A verdadeira missão que compete à política é o suporte infatigável à vida.

3- Nenhuma vida vale mais do que outra. Nenhuma vida vale menos. A vida dos fracos vale tanto como a dos fortes. A vida dos pobres vale o mesmo que a dos poderosos. A vida dos doentes tem um valor idêntico à vida dos saudáveis. Passar a ideia de que há vidas que, em determinadas situações, podem valer menos do que outras é um princípio que conflitua com os valores universais que nos regem. 

4 - O sofrimento humano é uma realidade do percurso pessoal, que pode atingir formas devastadoras, é verdade. Mas o próprio respeito devido ao sofrimento dos outros e ao nosso deve fazer-nos considerar duas coisas: 1) que temos de recorrer aos instrumentos médicos e paliativos ao nosso alcance para minorar a dor; 2) que temos de reconhecer que o sofrimento é vivido de modo diferente quando é acompanhado com amor e agrava-se quando é abandonado à solidão. É fundamental dizer, por palavras e gestos, que “nenhum homem é uma ilha”.

5 - Recordo o que me contou, emocionada, uma voluntária que trabalha há anos numa unidade oncológica: “O que me faz mais impressão é o número de pessoas que morrem completamente sós.” Devia-nos impressionar a todos a desproteção familiar e social que tantos dos nossos contemporâneos experimentam precisamente na hora em que se deveriam sentir sustentados pela presença e pelo amor dos seus. A solução não é avançar para medidas extremas como a eutanásia, mas inspirar modelos de maior coesão, favorecendo práticas solidárias em vez de deixar correr a indiferença e o descarte.

As nossas sociedades têm de se perguntar se já fizeram tudo o que podiam fazer para promover e amparar a vida, sobretudo a daqueles que são mais frágeis.

6 - Por trás da vontade de morrer subjaz sempre uma vontade ainda maior de viver, que não podemos não ouvir. Claro que a vida dá trabalho. Que o serviço à vida frágil, à vida na sua nudez implica muitos sacrifícios e uma dedicação que parece maior do que as nossas forças. Mas coisa nenhuma é mais elevada do que essa. Talvez em vez dos heróis que sonambulamente festejamos, as nossas sociedades deveriam colocar os olhos no verdadeiro heroísmo: o heroísmo daqueles que enfrentam o caminho do sofrimento; o heroísmo daqueles que se dedicam ao cuidado dos outros como testemunhas de um amor incondicional.

7 - As nossas sociedades têm de se perguntar se já fizeram tudo o que podiam fazer para promover e amparar a vida, sobretudo a daqueles que são mais frágeis.

8 - Os paradigmas de felicidade da sociedade de consumo são paraísos artificiais talhados à medida do indivíduo, que passa a preocupar-se apenas por si mesmo e que se apresenta como o seu começo e o seu fim. Em nome dessa felicidade assiste-se facilmente ao triunfo do egoísmo. Porém, a pergunta ancestral “onde está o teu irmão?” será sempre um limiar inescusável na construção da felicidade autêntica.

9 - Àqueles que, movidos pelos melhores sentimentos, veem na eutanásia um passo em frente da nossa civilização recomendo a leitura do conto de James Salter intitulado “A Última Noite” (Porto Editora, 2016). Tem razão quem escreveu que a literatura é uma lente para olhar o humano.

10 - Diga-se o que se disser, a vida é a coisa mais bela.

10 RAZÕES CIVIS CONTRA A EUTANÁSIA

José Tolentino Mendonça no Expresso

O grande desafio

por João Távora, em 03.02.20

A longa liderança de Portas instituiu um mandarinato atípico de "jovens turcos" e "turcas" que Cristas deixou solto em deslumbramento mediático, "correcto" e, nalguns casos, de cumplicidade com a suposta "moral cultural superior" das esquerdas. Isto baralhou o eleitorado "tradicional" do CDS que outorgou 4% e cinco deputados ao partido em Outubro. Tudo somado, Francisco Rodrigues dos Santos não tem a tarefa facilitada, o que torna o desafio político e pessoal mais estimulante.

João Gonçalves a ler na integra aqui

Após o congresso do CDS

por João Távora, em 28.01.20

Vamos certamente assistir à multiplicação de “fascistas” e de “populistas”, não porque haja mais “fascistas” e “populistas”, mas porque os que mandam há muito tempo estão com medo de deixar de mandar.

Deus... nos ajude

por João Távora, em 04.01.20

(...) A nossa conceção de justiça, por exemplo, depende da existência de Deus. Não há direito natural (“direitos humanos”) sem Deus. Não vale a pena abanarem a cabeça, porque um raciocínio cem por cento secularizado não nos garante os direitos humanos. Sem transcendência, isto é, sem uma dimensão independente da imanência física, a soberania da ciência, da economia e do poder político, torna-se impossível contemplarmos algo como o amor, na nossa vida privada, ou a justiça, na nossa vida coletiva. A ideia de “injustiça” é uma criação da Bíblia. É a essência dos salmos: fazer uma injustiça é ferir Deus. E claro que o Novo Testamento, a adenda das adendas, aprofundou esse espírito: magoar um ser humano é como magoar Deus; toda a vida humana é sagrada e inviolável; os poderes humanos e terrenos não podem violar a vida humana. Deus, e não o homem, é rei. Só esta premissa nos liberta das ditaduras terrestres da cidade dos homens; só esta premissa nos liberta do relativismo dos nossos totens, nações, classes, impérios, partidos, fações, tribos, modas.

Também é por esta razão que a moral estoica e “moral” hedonista não são suficientes. Santo Agostinho, o grande degrau depois de Paulo, atacou os hedonistas porque estes diziam (e dizem) que basta o prazer para que uma vida humana mereça ser vivida. Mas o que acontece quando a receção de prazer desaparece? Santo Agostinho também atacou os estoicos, porque estes diziam (e dizem) que basta a autonomia racional do “eu” para que a vida tenha a sua moral e felicidade. Mas o que acontece quando o “eu” não tem ou perde a autonomia racional? Ou seja, a sacralidade da vida humana não pode estar dependente de capacidades mentais e/ou neurológicas, porque, caso contrário, um bebé, um deficiente mental e um idoso com Alzheimer passam a ser vidas não sagradas, tocáveis, violáveis. A sacralidade da vida humana não depende de qualquer critério humano e mensurável. Todos os seres humanos, seja qual for a sua funcionalidade, são sagrados porque foram criados por Deus. Só este salto de fé pode fechar o círculo dos direitos humanos, os direitos inalienáveis que são intrínsecos à condição humana, direitos que não dependem de poderes terrenos. (...)

 

Henrique Raposo hoje no Expresso 

A frase do ano

por João Távora, em 08.12.19

As pessoas inteligentes não são turistas, são viajantes. Os protegidos das pessoas inteligentes são migrantes. Já as pessoas estúpidas quando viajam são turistas obviamente estúpidos que estupidamente destroem o caracter autêntico das cidades. Pelo contrário os viajantes e os migrantes enriquecem as mesmas cidades.

Percebido?

Helena Matos no Observador. 

Não aceito lições de ecologia de ninguém...

por João Távora, em 07.12.19

(...) Produzo com a minha família boa parte da minha própria comida. Faço a minha vida familiar a pé. Tento limitar o meu turismo e critico a economia assente no turismo. Sou ecologista porque sou conservador, porque sou católico, porque defendo um modo de vida austero. É moralmente errado profanar a natureza sem propósito. É fútil usarmos motores de combustão quando temos a inteligência para criar tecnologias mais limpas. Pois bem, ser ecologista é uma coisa, ser apocalíptico e usar o “ambiente” para calar a liberdade dos outros é outra coisa completamente diferente. E, de facto, o “ambientalismo” da moda é negro e punitivo como uma seita. Procura induzir comportamentos nas pessoas através do medo (o apocalipse) e não através do algo intrinsecamente bom (o amor pela Criação). Nesta atmosfera inquisitorial, a dissidência minoritária, a base da liberdade de pensamento, é diabolizada. Eu não sei se os cientistas minoritários que negam a tese do aquecimento antropocêntrico têm ou não razão, mas sei que quero ouvi-los em nome da liberdade. As vozes heterodoxas não podem ser caladas, sobretudo quando elas negam algo que nos parece óbvio. Eu quero uma sociedade sem o ruído e sem o fumo do motor de combustão, mas isso não me retira a vontade de ler e ouvir as teses que dizem que o motor de combustão não é um Lúcifer mecanizado. Até porque os meus hábitos ecologistas não dependem da ciência, dependem da moral. Com ou sem degelo, com ou sem ciência, eu continuarei a fazer a minha vida a pé e a produzir a minha própria comida, porque essa é a forma certa de viver em harmonia com a Criação.

A ler Henrique Raposo hoje no Expresso

A nova inquisição

por João Távora, em 14.11.19

conguitos.jpg

Ainda se recordam da polémica que envolveu Bernardo Silva, Benjamin Mendy e uma embalagem de Conguitos? Esta quarta-feira ficámos a saber que uma simples piada no Twitter envolvendo dois amigos, que esteve online durante exactamente 46 minutos no dia 22 de Setembro (Bernardo Silva apressou-se a apagá-la mal se apercebeu da polémica), custou ao jogador português 50 mil libras (cerca de 58 mil euros), um jogo de castigo no campeonato inglês e a necessidade de assistir a sessões de educação — ou, na preocupante expressão escolhida pelo The Guardian, que ainda soa mais totalitária e com cheirinho a lavagem cerebral num qualquer campo de reeducação para lá da Cortina de Ferro, Bernardo Silva “must undergo education”.

Note-se que o Manchester City, clube de Bernardo Silva e de Benjamin Mendy, protestou ligeiramente contra a decisão, mas engoliu o castigo e não vai recorrer, com medo de que ele possa ser agravado. O próprio Bernardo Silva fez o seu acto de contrição no processo, admitindo que o tweet poderia ser considerado ofensivo. Nem assim se safou. A federação inglesa afirma acreditar piamente que o jogador “lamenta as suas acções”, mas justificou o castigo com o facto de muitas das pessoas que viram a imagem “considerarem o seu conteúdo ofensivo devido à sua relação com raça, cor e origem étnica, de uma forma que inquestionavelmente desacredita o futebol”. Em resumo, Bernardo Silva disse que não queria ofender Mendy; Benjamin Mendy disse que não se sentiu ofendido; ambos reconheceram que são grandes amigos; a federação inglesa reconhece que ninguém queria ofender ninguém; mas nada disso foi suficiente para ultrapassar o facto de o tweet ter ofendido muita gente.

Se esta sequência (i)lógica, da multa de 50 mil libras ao jogo de castigo, já me parece bastante absurda, há um momento em que a decisão da federação inglesa salta para o campo da absoluta obscenidade e do assalto violento à consciência individual — quando decide obrigar o jogador “to attend a mandatory face-to-face education programme” no decorrer dos próximos quatro meses, declarando que se esse programa educativo “face a face” não for completado de forma satisfatória, Bernardo Silva será suspenso de todas as competições nacionais. Ou seja, um tipo que não é racista e que fez um tweet sem intenções racistas vai ter de ser ensinado a não ser racista porque muita gente o considerou racista. Em que mundo é que isto faz sequer vagamente sentido?

Pelos vistos, no perigoso mundo do século XXI.

Eu já assisti a manifestações repulsivas de racismo em campos de futebol, em particular quando demasiada gente na bancada decide imitar sons de babuínos para insultar jogadores adversários. Esse comportamento miserável deve ser combatido de todas as formas, encerrando estádios de futebol, se preciso for. No entanto, o futebol é um dos maiores trunfos contra o racismo que existem na nossa cultura, impondo uma comunhão de objectivos e de paixão entre pessoas de todas as cores. Haverá certamente muitos votantes de André Ventura que adoram as trivelas de Ricardo Quaresma, e todos sabemos que Eusébio e Mário Coluna já eram heróis portugueses quando os negros ainda eram diariamente explorados nas colónias africanas. Este caso dos Conguitos é a caça aos gambuzinos do racismo, e só é pena Bernardo Silva não poder mandar a federação inglesa meter o seu programa de reeducação no local em que ele merecia estar, porque ainda corria o risco de ofender mais uma minoria sensível.

João Miguel Tavares hoje no Público.

"(...) Mas uma pessoa não é definida apenas pelos seus actos. A monstruosidade de abandonar o filho à morte não transforma automaticamente aquela mulher num monstro. A condenação do acto não nos impede de olhar com misericórdia para uma humanidade de tal maneira desfeita e ferida que é capaz de um dos actos mais anti-naturais do mundo.

 

José Seabra Duque no Observador

Ajoelhados

por João Távora, em 08.11.19

(...) Votar na candidata do Livre, mulher e negra, era a oportunidade de o eleitor se lavar dos pecados de uma sociedade racista e patriarcal. Foi assim que tanta gente, em tanto lado, dizendo até discordar do posicionamento do Livre, fez questão no entanto de fazer em público votos piedosos para que a sua candidata fosse eleita. A dificuldade de fala da candidata era, a esse respeito, irrelevante, quando não mais uma ocasião para o eleitor demonstrar rectidão, escolhendo uma pessoa com deficiência física. O voto no Livre foi o equivalente de uma penitência religiosa.

Ou seja, a deputada do Livre, independentemente das suas capacidades e ideias, foi eleita como um símbolo. Está na assembleia como um monumento, a lembrar as virtudes dos que votaram nela, e os crimes dos que não votaram. Desse ponto de vista, Joacine Katar Moreira é o membro mais eloquente do parlamento. Nenhum outro deputado se faz compreender tão bem, nenhum outro comunica tão claramente. Basta olhar para ela, e está tudo dito e percebido.

O Livre apostou tudo na mística e no ritual do politicamente correcto. (...)

 

Rui Ramos no Observador

Cisne negro

por João Távora, em 30.10.19

“Os Anjos Bons da Nossa Natureza” (Steven Pinker) defende que nós, seres humanos do início do século XXI, somos felizardos, porque vivemos no período da história humana menos violento da História. E tem razão. Historicamente, o nosso tempo é o mais tranquilo da História. Problema? A maioria das pessoas, quando confrontada com este facto, franze o nariz. Não acredita. Da mesma forma que não quer acreditar que vivemos no período histórico mais pacífico da História, a maioria das pessoas não quer acreditar que também vivemos num período marcado pela diminuição assombrosa da pobreza. Não é por acaso que África é neste momento o continente que mais luta pela ‘globalização’.

Armadas com os seus tweets e facebooks tribais, as pessoas não querem saber e recusam saber, e, nesse sentido, estão destinadas a destruir os pilares que nos deram a paz e a prosperidade das últimas décadas: a ordem liberal internacional (as alianças militares e económicas entre as democracias; outros organismos multilaterais) e a globalização (o livre comércio). As tribos da esquerda sempre atacaram o segundo pilar, as tribos da direita estão neste momento a atacar o primeiro. Esta destruição é diária, tweet atrás de tweet, post após post, mês após mês, ano após ano. Se o cisne negro passar na ponte em breve, os pilares aguentarão o peso?

Henrique Raposo no Expresso

 

 

O pântano nauseabundo

por João Távora, em 26.10.19

(...) Quem tem filhos na escola pública, (eu tenho três), sabe perfeitamente que é uma espécie de lotaria apanhar um bom professor. E que é uma sorte quando um docente é pontual, assíduo, ou consegue dar toda a matéria prevista. E neste ponto é tão ou mais culpado quem desenha as políticas de educação como os sindicatos, cuja única preocupação é defender sempre o professor em todas as circunstâncias e nunca o aluno. De imediato, os sindicatos viraram o problema para outro lado, porque também há professores agredidos, pedindo mais auxiliares. Recusam-se a olhar para o cerne da questão. Têm os alunos os professores que merecem ou alternam entre os que resistem por amor à profissão e os que nunca deviam ser permitidos dar uma aula que fosse?

Estes dois casos são exemplos de como o Estado falha quando trabalham para os lóbis profissionais, sejam eles professores ou médicos. Grande parte das políticas públicas são direcionadas a classes profissionais e nunca ao cliente final, o cidadão. Vivemos num Estado que insiste em não colocar no centro da sua política o aluno ou o utente. Prefere mil vezes discutir carreiras, salários, reformas e pensões, dotações orçamentais e recursos humanos, do que perceber se está ou não a servir quem deve. E é por isso que passámos os últimos quatro anos a discutir devolução de rendimentos para a Função Pública, fim dos contratos de associação com colégios privados ou o fim das PPP na saúde, em vez de tentar perceber como ter alunos mais bem preparados ou os melhores cuidados médicos para a população.

 

"Sem Perdão" -  João Vieira Pereira no Expresso

Da ecologia integral

por João Távora, em 03.09.19

(...) Na verdade, também no domínio da vida humana no seu início e termos naturais, da sexualidade, da procriação e da família, há uma ordem e harmonia (que, para os crentes, são reflexo da sabedoria e bondade de Deus) que não deve ser destruída. A quebra dessa harmonia não deixa de ter efeitos nefastos, tão ou mais nefastos do que a quebra da harmonia do ambiente físico. É contra a ecologia humana que atentam práticas como o aborto, a eutanásia, a contraceção, a maternidade de substituição, a privação deliberada das figuras paterna ou materna, ou a manipulação genética.

Questões que hoje são das mais controversas, não são normalmente encaradas nesta perspetiva (nem mesmo pela generalidade dos partidos ecologistas; pelo contrário…). Mas deviam sê-lo. (...)

A Ler Pedro Vaz Patto, na integra aqui

Da apropriação do combate à violência de género – combate que todos partilhamos — passou-se uma linha também ela violenta. E que linha é essa? A de que em matéria de educação, a liberdade tem de ceder diante de ideias que são no mínimo discutíveis. A linha de que basta a autoridade para se impor um caminho que assenta numa determinada concepção do corpo, da pessoa, da vontade e da liberdade. A de que o Estado se pode intrometer nas questões mais vitais, como se estivesse melhor colocado e soubesse avaliar melhor o que é bom para cada criança.

É natural que este combate indigne tantas famílias, pois o que está em causa são direitos elementares das crianças, que à família, em primeiro lugar, cabe proteger. É a Declaração Universal que determina que a família tem direito a ser protegida diante do Estado, Estado que, ao contrário do que estabelece a Constituição da República Portuguesa, está mesmo a programar a educação segundo diretrizes filosóficas, políticas e ideológicas.

A ler na integra o Filipe Anacoreta Correia, aqui.

Nada disto, porém, faz da autora uma “racista” e muito menos do seu artigo um “manifesto racista”. Vamos entender-nos: uma coisa são preconceitos, ou desconfianças derivadas de certos comportamentos – se isso fosse racismo, então toda gente, em todo o mundo, foi, é e será sempre racista; outra coisa são instituições e doutrinas que, com fins políticos, visam a classificação e discriminação das  pessoas como membros de “raças”, e nesse sentido, nem toda a gente foi, é ou será racista, e é aí que deve assentar a expectativa de que a humanidade resistirá a propostas para usar características “étnicas” com fins políticos.

É esta a questão de fundo

por João Távora, em 06.07.19

Há, por outro lado, a ofensiva de uma nova esquerda que reinventa, atomizados e extremados, os valores de 68, no hiperindividualismo de tábua rasa que quer fazer do homem um novo “bom selvagem” laboratorial, sem raízes, sem família, sem pátria, sem Deus, livre até de determinantes biológicas, que quer impor como optativas. Hiperindividualista e por isso também hiperglobalista, alienado da sua dimensão moral de origem, obcecado pela “tolerância” e contaminado pela correcção política, o liberalismo tradicional deixou de representar os valores metapolíticos em que deve basear-se uma sociedade livre e justa.

 

Jaime Nogueira Pinto, hoje no Expresso.



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