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Pobretes mas alegretes

por João Távora, em 03.12.22

"Carlos Moedas teve a “infeliz” ideia de propor que os jovens em Lisboa ficassem isentos de pagar IMT na compra de casa. A medida aplicar-se-ia a jovens até 35 anos na compra de uma casa até 250 mil euros. A esquerda uniu-se para travar a medida com os seguintes argumentos: a medida era injusta porque seria preciso dar uma entrada (coisa que atualmente acontece sempre a quem recorre a um empréstimo bancário) e iria fomentar o endividamento numa altura de subida de juros. Qualquer destes argumentos é retórica pura. A esquerda em Lisboa, que esteve anos no poder, não só foi a principal responsável pelo crescimento absurdo do alojamento local que retirou do mercado milhares de casas como, em parceria com o Governo, promoveu uma política ativa de atração de estrangeiros com elevado poder de compra e que ajudou a tornar o preço das casas proibitivo. A estes indivíduos oferecem a possibilidade de pagar pouquíssimos impostos caso venham viver para Portugal. Já quando a possibilidade de poupar nos impostos é pensada para jovens portugueses chumbam a medida. Poupar nos impostos está visto que é só para alguns."

João Vieira Pereira no Expresso

Rui Ramos a citar Eça no dia do seu aniversário

por João Távora, em 25.11.22

(...) "Um dia, Eça de Queiroz revelou como resolvia o problema de produzir uma coluna de jornal quando não era possível “arrancar uma só ideia útil do crânio, do peito ou do ventre”. Para essas terríveis esterilidades, havia um recurso: agarrar “ferozmente” na pena e dar, “meio louco”, “uma tunda desesperada no bei de Tunes”. O bei era o governador otomano do que é hoje a Tunísia. Do outro lado do Mediterrâneo, diante de uma Europa liberal e progressiva, o bei presidia a um poder decrépito e corrupto, que protegia a pirataria e mantinha a escravatura. À falta de assunto, era a salvação do colunista: como podia a Europa tolerar aquele atentado à civilização? Os leitores indignavam-se sempre. O jornalismo perdeu este grande recurso em 1881, quando a França ocupou e começou a “civilizar” Tunes.

Está o Qatar a ser a nossa Tunes, o tema a que desesperadamente nos agarramos quando a inspiração não atende o telemóvel? No entanto, não parecem faltar assuntos. Em Portugal, temos a primeira diminuição da população depois de 1970. Por toda a Europa, a inflação mais alta desde há 30 anos ou a guerra na Ucrânia. Talvez afinal não faltem assuntos, e estejamos apenas a precisar de um interlúdio ligeiro, em que fazemos de conta que só o Qatar não nos deixa dormir.

Estou a dizer que o Qatar é a Suíça? Não. Estou a dizer que se querem que o Mundial de futebol seja em países iguais à Suíça, façam-no sempre na Suíça ou quando muito na Suécia." (...)

A ler a crónica de Rui Ramos na integra aqui no Observador

Constituinte.jpeg

O “absolutismo” de D. Miguel VS o “liberalismo” de D. Pedro: os anos da guerra civil “Liberais” e “miguelistas” (partidários do Infante D. Miguel) constituíam os pólos da divisão política que deu origem à guerra civil entre 1826 e 1834. Os miguelistas defendiam uma sociedade corporativa e hierárquica, com um rei “absoluto”. Pressupunham, no entanto, que o rei usaria os seus poderes apenas para defender a ordem existente, não para criar uma ordem nova. A ordem do mundo não era obra humana, mas da providência divina. Ao poder absoluto do rei correspondia assim uma ideia mínima sobre o alcance desse poder. Os miguelistas desconfiavam da “liberdade” no singular, mas prezavam as “liberdades” no plural: os direitos e as regalias que defendiam cada grupo e indivíduo contra os abusos do poder político.

Os liberais consideravam o poder discricionário do rei como “despótico”. No entanto, pretendiam criar um mundo novo, em que os homens fossem iguais entre si e obedecessem apenas às leis feitas por eles próprios. Para alcançar esse objectivo, estavam dispostos a estabelecer um tipo inédito de poder político, com uma amplitude e um alcance que nunca a autoridade tradicional do rei alguma vez tivera. Não chamavam despotismo a este regime, porque argumentavam que esse poder seria exercido por todos os cidadãos, e para suposto benefício colectivo. (...)

Excerto da newsletter de Rui Ramos "Perceber a História" dedicada às lutas liberais exclusiva para ssinantes (que pode ser subscrita aqui)

Para quando a liberdade?

por João Távora, em 07.10.22

A sistemática expulsão das ordens religiosas, banidas pela ditadura de Pombal e depois pela revolução dos alegados “liberais” do século XIX, é a grande causa do nosso atraso cultural e educacional — isto tem tanto de tabu como de verdadeiro; aliás, só os factos podem ser tabus. As instituições religiosas eram os grandes instrumentos de literacia; ao expulsá-las, os regimes alegadamente progressistas empurraram Portugal para um analfabetismo que perdurou até final do século XX. De resto, não é por acaso que o norte era mais alfabetizado na segunda metade do século XIX. A religião, ao contrário do que diziam liberais e republicanos, era um fator de avanço das letras. Após o completo fracasso de liberais e republicanos, só durante o Estado Novo é que os portugueses tiveram acesso a uma alfabetização total — outro tabu.

Os progressistas criaram analfabetismo, porque não aceitavam o pluralismo, não aceitavam a ideia de que diversas instituições podem e devem ensinar as crianças, ou seja, impuseram a ideia de que só o Estado central pode tutelar os alunos. Portanto, os nossos progressistas são os grandes impulsionadores da ideia de que Lisboa tem de tutelar e controlar todos os passos e peças do país numa espécie de vigilância ideológica. O resultado foi este: entre uma população analfabeta mas afastada dos padres e uma população alfabetizada e próxima de outros poderes como o clero, os nossos progressistas preferiram a primeira hipótese. E sabem o que é ainda mais impressionante? Após dois séculos de fracasso do “progresso” e do consequente centralismo lisboeta, nada mudou, está tudo igual. Para começar, o Governo da ‘geringonça’ fez, no fundo, a sua pequena expulsão das ordens religiosas através da proibição dos colégios com contratos de associação. Para terminar, a vida portuguesa continua a ser marcado por um absurdo modelo de gestão escolar que só faz sentido na cabeça de um burocrata comunista — falha por completo, mas, ora essa!, falhamos todos juntos. (...)

Henrique Raposo no Expresso para ler na integra aqui

Deus, pátria e a família, sim!

por João Távora, em 28.09.22

"Obviamente, Meloni não é fascista. É uma conservadora e nacionalista, com algumas semelhanças com os conservadores britânicos. Ao contrário dos comunistas portugueses, na guerra da Ucrânia está ao lado de quem luta pela liberdade nacional e pela democracia, contra o imperialismo militar russo. Sim, defende “Deus, pátria e a família.” Mas isso não significa ser “fascista”. A esmagadora maioria dos Católicos, dos patriotas e daqueles que consideram a família como o elemento central das nossas sociedades não é fascista. (...) Aliás, vale a pena recordar uma data: 20 de Setembro de 2019, 80 anos depois do início da Segunda Guerra Mundial. No Parlamento Europeu, o grupo dos Conservadores, do qual o partido de Meloni faz parte, apresentou uma resolução a condenar os crimes dos totalitarismos comunista, fascista e nazi. Mais de 80% dos deputados europeus votaram a favor da resolução. No caso dos representantes portugueses, o PS, o PSD, o CDS e o PAN votaram a favor. O PCP e o Bloco votaram contra. Na questão política mais importante da história europeia do século XX, democracia vs totalitarismos, o PCP e o Bloco votaram ao lado dos totalitarismos, e o partido de Meloni votou ao lado das democracias." (...)

A ler João Marques de Almeida na integra aqui

 

Sobre o ensino e a liberdade

por João Távora, em 15.08.22
A escola não deve doutrinar, nem ensinar nenhuma matéria relativa à vida privada dos cidadãos, às suas escolhas pessoais, às suas preferências religiosas, à expressão dos seus sentimentos, à sua sexualidade ou ao desenvolvimento afectivo da sua personalidade. Os sentimentos não fazem parte da cidadania, não constituem capítulos dos direitos, deveres e garantias dos cidadãos, não fazem parte do elenco de dispositivos constitucionais. Há disciplinas onde essas matérias podem ser tratadas: em Biologia e ciência naturais; em História; em Psicologia e Sociologia. Mas não devem constituir matéria à parte nem disciplinas próprias, de modo a evitar vários perigos. Por exemplo, a doutrinação ideológica ou religiosa. O condicionamento da vida privada e da escolha individual. O contrabando ideológico e cultural ao sabor das modas e do oportunismo dos professores. E finalmente a confusão entre vida privada e vida pública, cuja distinção é crucial para a liberdade individual e a vida em comunidade democrática (…) Tudo o que se queira fazer na escola, artes, letras, jogos, natureza, solidariedade, filantropia, expedições, limpeza de ruas, ecologia e afectos pode ser feito fora das horas de aulas, até nas instalações e com os professores, mas sem leis, sem programas impostos, sem obrigatoriedade e sem avaliação. A escola deve ser democrática, mas não impingir a democracia.

António Barreto no Púbilco

Acreditar

por João Távora, em 22.07.22

“Muitas pessoas tomam antidepressivos porque foram levadas a acreditar que a sua depressão tem uma causa bioquímica, mas esta nova pesquisa sugere que essa crença não é baseada em evidências”, disse a principal autora do estudo, Joanna Moncrieff, professora de psiquiatria na University College London e psiquiatra na North East London NHS Foundation Trust. 

“Acho que podemos dizer com segurança que, após uma grande quantidade de estudos conduzidos ao longo de várias décadas, não há evidências convincentes de que a depressão seja causada por alterações dos níveis de serotonina, particularmente por níveis mais baixos ou atividade reduzida da mesma”, explicou a profissional de saúde ao jornal britânico. “Milhares de pessoas sofrem dos efeitos colaterais dos antidepressivos, incluindo os graves efeitos de abstinência que podem ocorrer quando tentam parar de os tomar, mas as taxas de prescrição continuam a aumentar”, observou a docente universitária.

“Acreditamos que essa situação tenha sido impulsionada, em parte, pela falsa crença de que a depressão se deve a um desequilíbrio químico. Já é hora de informar o público de que essa crença não é fundamentada na ciência”, declarou." 

A ler o artigo completo aqui

Paul McCartney 80

por João Távora, em 18.06.22

(...) As luminárias intelectuais da época não lhe recusavam o convívio. As suas canções eram interpretadas pela nata, de Sinatra a Ella, de Bing Crosby a Sarah Vaughan. McCartney era um símbolo sexual, da moda, da cultura e da contra-cultura. À escala da música popular, era igualmente um símbolo cimeiro de talento. Num determinado instante, que durou meia dúzia de anos, McCartney era o “maior”. E, sob a simpática ligeireza que afectava, ele sabia-o. E nem assim endoideceu. E isso, a ausência de loucura, é sobretudo o que o distingue dos parceiros de fama, quase todos menos famosos e quase todos um bocadinho avariados.

Ao contrário de Brian Wilson, o único contemporâneo seu concorrente em competência melódica, McCartney não se enfiou deprimido na cama por uma década ou duas. Ao contrário de Elvis, a única celebridade comparável, não se refugiou no peculiar conforto de Vegas e dos hambúrgueres. Ao contrário de inúmeros outros, não morreu de overdose, nem adoptou 17 esquimós, nem aderiu a um culto, nem apoiou terroristas, nem destruiu “suites” por desfastio. Ao contrário desse em que vocês estão a pensar, não se devotou a uma “artista” sem competências discerníveis e a clichés “contestatários” próprios da pré-adolescência. É verdade que, por pirraça, McCartney teimou em conceder à mulher um papel público que nada justificava. É verdade que se tornou vegetariano militante. É verdade que, para exibir com desfastio as credenciais do ofício, se viu preso no Japão por posse de marijuana. Insignificâncias, pois. Aos 80 anos completados hoje, 16 além dos 64 da lenda, crivado de homenagens e reverência, é possível dizer que McCartney foi um sujeito bastante “normal” para a vida anormalíssima que viveu. E demasiado normal depois que “morreu”. (...)

Alberto Gonçalves a ler na integra aqui

Tempestade perfeita

por João Távora, em 14.06.22

Porque é que o Governo não governa, porque é que o Governo não resolve os problemas? Porque é que, sabendo que existe um problema, o Governo se recusa a dar aos portugueses serviços de saúde quando até temos propostas de soluções e capacidade instalada para o fazer? Ah, sim, essas coisas horríveis que são os privados e para onde os portugueses que podem estão a fugir. (...)

O que é mais aterrador no que se está a passar é exatamente não se estar a ver o sistema com capacidade de gerar soluções. O Governo não quer governar, quer ir gerindo o quotidiano, usando a propaganda para moderar os efeitos na sua imagem. O Presidente da República parece andar a viver noutro planeta, ao ponto de conseguir disfarçar mais os problemas do que o próprio Governo. O principal partido da oposição, o PSD, tem primado pela ausência. Os órgãos de comunicação social estão sem capacidade de escrutínio, por falta de recursos. Pobres dos que precisam do SNS, pobres de todos nós, porque o SNS é apenas uma das partes visíveis do caos em que estão serviços públicos fundamentais, promotores da desigualdade, perante a indiferença das elites. Porque, inexplicavelmente, são poucos ou nenhuns os que denunciam o mal que se está a fazer ao País.

A ler a Helena Garrido na integra aqui no Observador

Depois ide cantar o "Imagine" de Lennon

por João Távora, em 15.04.22

A Rússia está a fazer uma guerra porque quer honrar a história da mesma forma que a URSS fez guerras para honrar a revolução, que, por sua vez, era a chave da história. Os soviéticos julgavam que tinham em sua posse a alquimia infalível da história humana, o marxismo, e por isso julgavam-se os Reis Midas da morte: em teoria, quando matavam, eles estavam na verdade a criar vida. Claro que, na prática, o comunismo foi a maior carta branca da canalhice humana. A ideologia que prometia a utopia humana acabou por atrair e legitimar sociopatas atrás de sociopatas. Agora, a Rússia nacionalista repete a receita soviética: trocou a revolução que mata em nome de um futuro alegadamente perfeito pelo orgulho nacional que mata em nome de um passado alegadamente perfeito. E a Rússia não está sozinha neste endeusamento do passado, quer da sua glória quer das suas feridas. Na Sérvia ou na Hungria, por exemplo, a história endeusada está à espera de nova explosão. Não se compreende o fenómeno Orbán sem olharmos para o trauma húngaro de 1920, ano em que a Hungria perdeu grande parte do seu velho território para checoslovacos, romenos, jugoslavos e até austríacos. Há aqui um padrão: incapacidade de se chegar ao perdão, à catarse, àquele momento em que se diz “há que seguir em frente”. Passa-se o mesmo na China. Os chineses não esquecem o seu trauma histórico, as Guerras do Ópio e demais intromissões ocidentais em meados do século XIX. Já passaram dois séculos, mas a cultura nacionalista chinesa mantém essa dor viva como se tivesse ocorrido no ano passado. É este o truque pestífero do nacionalismo: mantém as feridas históricas abertas, cheias de pus, recusa a sutura. E sabem quem repete a estratégia? O politicamente correto, que é uma confederação de micronacionalismos.

A quem é que interessa a perpetua­ção da ferida da escravatura dois séculos depois de termos abolido essa mesma escravatura? A quem é que interessa a perpetuação das feridas do colonialismo quando já temos quase 100 anos sem colonialismo europeu? O passado não pode ser um presente perpétuo. Na semana passada escrevi aqui que a nossa sociedade é incapaz de lidar com a fragilidade e que, por isso, não sabe rir. Através do politicamente correto, este carácter sisudo alarga-se ao passado e às tais feridas históricas. Recusa-se a cura, a catarse, o perdão, o seguir em frente.

Henrique Raposo no Expresso

Um apoio de peso

por João Távora, em 28.01.22

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Ao país, neste momento, convém uma maioria à direita do PS. Não uma maioria qualquer, mas uma maioria reformista em que sejam fortes – não apenas em deputados, mas em votação — partidos que não suscitem ao PS expectativas de acordo ou de cumplicidade, e que além disso justifiquem confiança como parceiros de um governo estável. Falei em “partidos”, no plural. De facto, nessas duas condições há apenas um: o CDS de Francisco Rodrigues dos Santos.

Liberdade

por João Távora, em 24.12.21

(...) E julgo que foi isso que aconteceu nos últimos 25 anos: a meio dos anos 90, mais coisa menos coisa, a sociedade do ‘risco zero’ retirou qualquer liberdade física às crianças. E esta infância ultraprotegida criou gerações de pais e filhos que não sabem lidar com a liberdade e com o consequente risco. É por isso que estamos a caminhar alegremente para fenómenos autoritários e securitários: o politicamente correto, o tribalismo nativista, a hipocondria securitária. Estas três correntes vivem na e para a obsessão securitária do ‘risco zero’. O politicamente correto exige viver um ambiente sem o risco de ouvir piadas ou pensamentos considerados ‘inseguros’ para as sensibilidades de x e y. O nacionalismo tribalista exige viver num ambiente sem o risco de piadas ou pensamentos considerados ‘inseguros’ para as suas crenças e, já agora, também considera o estrangeiro como ‘inseguro’. De igual forma, a hipocondria do #ficaremcasa é o maior instrumento xenófobo deste século: o ‘outro’ passou a ser um foco ‘inseguro’ de infeção. De resto, passados dois anos, a sociedade ainda não conseguiu assumir que nunca haverá ‘risco zero’ contra um coronavírus, que nunca haverá ‘zero mortos covid’. Ou seja, além de não conseguirem lidar com o risco inerente da vida, estas gerações vivem obcecadas com o controlo humano sobre tudo, a pior de todas as ilusões, a porta de entrada de todos os ditadores. Exagero? Vejam a série “Years and Years” e depois digam-me se aquele futuro distópico e próximo já não está à nossa porta.

Henrique Raposo hoje no Expresso

Mãe, aquele menino roubou o meu brinquedo...

por João Távora, em 11.10.21

O dr. Nuno Melo considera que “alguns ficarão chocados” por ele defender “igualdade de direitos entre homens e mulheres”; e “espera que também não fiquem chocados” por ele defender “salários condignos” e “auxílio aos mais necessitados”. O dr. Nuno Melo receia “chocar” a plateia dele, mas não receia que os jornalistas e os eleitores imaginem que o CDS pensa como ele, e interpreta o país como ele, e no final produza estas puerícias e as confunda com declarações políticas. Alguém tem de explicar ao dr. Nuno Melo que ninguém em Portugal, nem nenhum partido, da ponta esquerda à ponta direita, discorda dele. Pelo menos há 40 anos. Ele que procure e faça o favor de nos vir mostrar o indivíduo que, no espaço do debate público, defenda direitos diferentes para homens e mulheres, ou salários indignos, ou que os mais necessitados devem permanecer sentados na borda do passeio.

É uma inclinação esquisita que dá nos putativos candidatos ao lugar de Francisco Rodrigues dos Santos, já o dr. Mesquita Nunes se apresentou com a ideia “chocante” de “desenvolver a economia sem deixar ninguém para trás”. Também não percebeu que uma ideia só é política e só é relevante se tiver um potencial de oposição. Quando toda a gente concorda, não é política – e dificilmente é uma ideia –; mais depressa se trata de um facto, ou de um desejo. (...)

A ler o artigo da Margarida Bentes Penedo na integra no Observador

As eleições autárquicas são o pilar fundamental de qualquer democracia evoluída. O poder autárquico e o seu exercício aproximam as pessoas do poder e, ao mesmo tempo, tornam patente a necessidade, eu diria a urgência, da participação de todos na gestão da cidade e na defesa do bem comum.

Os concelhos e as freguesias (e antigamente as paróquias) são o nosso chão comum primário, comunidades de pertença fundamental, espaço privilegiado de realização humana, só ultrapassados em importância e proximidade pela célula familiar.

Não é casual a forte tradição municipalista entre os monárquicos. Desde logo nos neo-intregralistas, como Ribeiro Telles, Jacinto Ferreira ou Barrilaro Ruas, que viam na valorização do poder local, e nas suas instituições profundamente humanistas e personalistas, uma forma de promoção da liberdade das comunidades – logo dos indivíduos - contra a cegueira do centralismo macrocéfalo, economicista, burocrático e quantas vezes ideológico. Um efectivo contrapeso à tendência que os grandes poderes têm de se auto-alimentarem e de se distanciarem da realidade micro das pequenas comunidades.

O grande Leviatã de Thomas Hobbes prefere a indistinção e a padronização, a docilização e a domesticação dos indivíduos, ainda que esse fenómeno acarrete o seu alheamento da política, ou seja, a abstenção na construção e a preservação do que é de todos. (...)

Continuar a ler aqui

Da adolescentocracia

por João Távora, em 05.09.21

"Aqueles que, entre nós, celebram a desdita americana e afegã são os adversários rancorosos do mundo livre, os neurasténicos das "responsabilidades do Ocidente" para com um mundo arcadiano onde, antes da Europa e da América, saltitava o bom selvagem de Rosseau, saracoteando por vales mimosos com coroas de flores no cabelo. Esses simples já comandam a academia e administram prédicas, em canal aberto, a multidões que se riem dos mistérios da fé, mas que, no fundo, adoram padres, desde que não usem cabeção."

Sérgio Sousa Pinto no Expresso

O estado de pânico

por João Távora, em 22.08.21

(...) Sempre soubemos que não podíamos viver num mundo com zero terroristas, zero SIDA ou zero criminalidade pois o preço a pagar por tais “zero” era demasiado elevado e sobretudo incompatível com os nossos valores e forma de viver. Mas isso era o que se sabia antes do grande reset estatista das nossas vidas em que o combate ao Covid se transformou. Perante o Covid, o objectivo não foi defender o nosso modo de vida, como aconteceu aquando do aparecimento da SIDA ou do ataque às Torres Gémeas, mas sim suspender esse modo de vida.

Sociedades envelhecidas, domesticadas pelo constante controlo fiscal, desprovidas de bom senso, idiotizadas por activismos minoritários, mostraram-se particularmente vulneráveis quando postas perante uma ameaça sanitária. Onde as velhas ideologias falharam triunfou o emergentismo: o dia a dia dos povos está transformado num conjunto de absurdos justificado pelo combate ao Covid. O controlo e o poder dos estados sobre os cidadãos aumentou exponencialmente. Não menos importante, não são pedidas responsabilidades, tudo fica para depois. (...)

A ler este artigo da Helena Matos na integra aqui no Observador

O desassossego de sermos livres

“se um homem nasce para escravo, a liberdade, sendo contrária à sua índole, será para ele uma tirani

por João Távora, em 20.08.21

"Para terminar, volto à ideia da “Atlantic”: porque é que tanta gente não quer sair do confinamento? Porque é que tanta gente prefere a segurança e a ilusão do risco zero em relação à liberdade? Paradoxalmente, o medo dá segurança conceptual e, acima de tudo, dá uma receita moralista que garante uma alegada superioridade moral àqueles que erguem bem alto o estandarte do medo enquanto única saída.

Do ponto de vista epistemológico, nada dá tanta segurança conceptual como o medo em relação a um único inimigo: só há uma coisa, esse inimigo, para percecionar. O resto da realidade, a imensidão de fenómenos e factos da vida, desaparece. Acompanhar cinco, dez ou quinze fenómenos de uma realidade pluralista exige um esforço mental permanente e colossal. Ao reduzir a realidade a um único item, o medo torna a vida intelectual mais simples e isso tranquiliza, dá segurança, temos a sensação de que controlamos tudo. Neste caso, só interessa ver o Excel diário da covid. (...) Já não interessa a cultura da liberdade e a banalização do estado de emergência, tal como a banalização dos pedidos de censura e silenciamento daqueles que ousam questionar a realidade reduzida a um único item. Fazer perguntas torna-se num ato imoral, repulsivo. Pois bem, se a realidade está reduzida a um único problema, o medo também é um calmante moral, porque acaba com os dilemas da escolha. Se tudo é covid, então não há escolhas e equilíbrios a fazer nas nossas escolhas. "

A ler na integra este estimulante ensaio do Henrique Raposo no Expresso de hoje

* Fernado Pessoa em “O Banqueiro Anarquista”

(...) Enquanto indivíduos, precisamos das vantagens do convívio social e do sentimento físico de pertença ao todo, sobretudo numa época em que as velhas tradições comunitárias e de associativismo estão em queda. No entanto, o regresso à normalidade não deve apagar a memória dos tempos excecionais que vivemos. A embriaguez da multidão — o efeito político de um fenómeno despolitizado — e a tentação do esquecimento podem levar-nos à desvalorização dos efeitos políticos da pandemia, a arrumar na gaveta as restrições arbitrárias à circulação, as limitações ao horário de funcionamento do comércio, a exigência de certificados, os mapas de risco que tudo justificam, as interpretações maximalistas da Constituição que têm autorizado todos os atropelos e desrespeitado qualquer sentido de proporcionalidade. Se virmos a pandemia como um teste à resistência das nossas estruturas democráticas e à capacidade da sociedade civil de vigiar e escrutinar o poder político, então temos razões para ficar preocupados. É que, no meio da multidão, poucos se atreveram a apupar o discurso do poder.

A ler o ensaio de Bruno Viera Amaral que bem justifica a compra do Expresso desta semana

Casamento

por João Távora, em 24.07.21

"As crianças que crescem num casamento sólido são cada vez mais uma minoria — a minoria privilegiada. Seja ela negra, hispânica, asiática ou branca, uma criança faz parte da minoria privilegia­da se viver numa casa sem divórcio. É esta a grande clivagem, meus amigos: o casamento. Não é o género, não é a raça, não é a orientação sexual, nem sequer é a classe social. É o casamento. Quando se analisam as possibilidades de sucesso de uma criança, é claro que o fator fundamental é a classe social, e não o género ou raça. No entanto, se crescer numa família sólida, a criança pobre tem mais hipóteses de ascender pelo estudo. Tudo se torna mais difícil no contexto do divórcio e sobretudo no contexto de uma marca social do Ocidente do século XXI: a fuga do pai. Os homens, sobretudo negros, brancos e hispânicos, tendem a fugir das suas responsabilidades — o exato oposto do homem asiático (indiano, coreano, chinês), que permanece ancorado à família e à paternidade. Não por acaso, as crianças asiáticas estão a superar em todos os níveis as crianças negras e também as brancas pobres.

Para mais informação comparativa, leiam, por favor, na “Spectator”, uma peça de Edward Davies, “Forget race or class, marriage is the big social divide”. Aqui quero apenas salientar que este assunto, apesar de ser vital, é um tabu. Não se pode falar de casamento, porque é visto como um assunto ‘reacio­nário’. Não se pode falar de casamento, porque a agenda cool exige que se fale apenas de questões identitárias e de racismo e de machismo. Esses pontos são legítimos, sim, mas não são o nó górdio. Antes de ter a tez escura e de ser do sexo feminino, uma rapariga negra é, antes de tudo, pobre. E a sua pobreza é reforçada porque vive apenas com a mãe. Cerca de 70% das crianças negras nos EUA crescem sem o pai. É o inverso da miú­da asiática que tem de lidar com o mesmo contexto social: também é de uma minoria étnica, também é pobre. Só que esta rapariga asiática tem algo que a rapariga negra não tem: uma cultura familiar e, sim, conservadora, que mantém o pai preso ao casamento e à estabilidade que permite a ascensão social dos filhos.

O colapso da família é pior do que o desemprego. O emprego vai e vem. A família é a estrutura que suporta uma pessoa nos momentos de desemprego, dando-lhe uma sensação de segurança e, por arrasto, uma mente mais racional e calma. Portanto, tenhamos coragem para ver a evidência: antes de qualquer outro fator, o que atrasa a vida de uma rapariga negra não é o racismo ou o machismo, é o colapso do casamento, o divórcio, a fuga do pai às suas responsabilidades. E — repito — encontramos o mesmo fenómeno nos brancos pobres. A este respeito, sugiro que vejam um filme que retrata sem adjetivar a cultura de pobreza que se desenvolve nas mães solteiras brancas e pobres. Chama-se “The Florida Project”. É muito fácil criticar aquela mãe intempestiva, imoral ou amoral, sem noções básicas de educação. Mas ela e outras raparigas estão sozinhas com os filhos. Eles fugiram. A eterna adolescência dos homens é o grande problema da sociedade ocidental, é a causa da nossa decadência. “É só meninos”, como diz o meu velho."

Henrique Raposo aqui no Expresso

A memória como património

por João Távora, em 20.05.21

(...) Quase cinquenta anos — sublinhe-se as vezes que for preciso! — após a revolução de 1974 e o fim do dito «império», boa parte da nossa memória colonial continua ainda por descobrir, revelar e debater à luz de muitos documentos que os historiadores actuais sequer viram em instituições científicas, académicas, militares, museus e arquivos nacionais mantidos durante décadas sem orçamento, meios logísticos, equipas técnicas qualificadas e outras condições essenciais ao cumprimento das suas funções perante imponentes massas documentais produzidas por séculos de história ultramarina, que continuam por catalogar e descrever, quanto mais por digitalizar e partilhar em regime aberto (o chamado digital scramble). (...)

A ler  o nosso Vasco Rosa na integra, aqui



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