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Mais um Waterloo (22)

por João Villalobos, em 17.10.09

Nem tempo tive para respirar. Mal descalcei os sapatos para verificar a bolha no dedo grande do pé esquerdo, única medalha ganha em campanha com quilómetros de arruadas e calcorrear de bairros, logo a Ritinha disparou:

- Não estás farto de tanta derrota? Podias ao menos uma vez trabalhar com alguém que não perdesse, para variar! Ganhavas mais e tudo.
- Mas ó minha doença com vacina por descobrir, sabes bem que trabalho com o PSD. E com o PSD não se ganha. Se externamente já é o que se vê, cada inútil vitória interna não passa de um intervalo até à cena de pugilato do round seguinte. Não é bonito de se ver e além disso desmaias a ver sangue.
- É assim porque são uma cambada de sadomasoquistas. Por que é que estão sempre a dizer mal do Passos Coelho, por exemplo? Não era capaz de ganhar, ele?
- Talvez fosse, meu anti-Marcelo de saias. Mas é por isso que ninguém o grama, percebes? Como todos são potencialmente perdedores, há uma certa animosidade contra o único que parece poder ter umas hipóteses. Dizem que tem anti-corpos e está o caso arrumado.
- Pois eu cá não tenho nada contra o corpinho dele.
- Bem sei, minha filha da idade do audiovisual. Mas, ao que dizem, para além da pinta o próximo líder tem que ser consensual, unir as bases e a cúpula numa galvanizadora missão que transforme um partido de mortos-vivos em algo mais do que zombies catatónicos e garanta o regresso ao poder.
- Cataquê? Lá vens tu com palavras difíceis. Também podias ir para a política. Só precisavas era de engordar uns bons quilos.
- Isso há-de acontecer quando as galinhas tiverem dentes e tu aprenderes a estrelar um ovo em condições.
- Vem com chauvinismos, vem, que sais já de carrinho. Olha, vai-te calçar se não te importas e fazer qualquer coisa na Bimby que estão quase a começar os Gato Fedorento. Se não queres ser tu a mandar, ao menos aprende a obedecer.
(…)

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Mais um Waterloo

por João Villalobos, em 07.08.09

Cheguei atrasado ao duplex do Belas Clube de Campo para onde a Ritinha se mudou com um dos meus cartões de crédito o mês passado. A crise não passou por ela, nem pela esteticista ou o personal trainer. Demorara-me demasiado à procura da sua marca favorita de Beluga e dos frutos silvestres biológicos para a sangria com Freixenet. Enfim…detalhes. A verdade era que esperava uns amuos de impaciência e meia hora de pezinho a dar a dar, com a sandalete Hèrmes dependurada nos bronzeados dedinhos. Nada disso. Estava entretida com o laptop cor-de-rosa e disparou-me de rajada, mal fechei a porta blindada:

- Ouve lá: A Marta Rebelo não é aquela tua ex-enteada que devia ser deputada mas passa a vida a aparecer nas revistas?
- Parece que é enteada ainda. Disseram-me que as enteadas são como as sogras, um homem nunca se livra delas por mais anos e divórcios que viva. Mas porquê, minha insaciável e voraz barracuda?
- Estava aqui a vê-la em poses de tango e à James Bond, num vídeo com um tipo de barbas que não disfarçava a baba mas que dizem ser do CDS.  Parece que tem a ver com política, mas cá para mim é um making of da FHM.
- Hmm…Pois. Deve ser o Rui Castro. É bom rapaz. Muito católico.
- São os piores. Tive um ex-namorado que também dizia que ia à missa todos os dias mas andava era enrolado com a minha melhor amiga, que na altura ainda tinha dezassete anos mas mais rodagem do que uma caravana do PC. E a Filipa Martins? Não é aquela baixinha morena do Corta-Fitas que só escreve a promover os livros dela e com quem te proibi de ir tomar café? Aquela que tu disseste que era amiga do giraço do Passos Coelho?
- Sim. Mas o Passos Coelho não é giraço e é muito mais velho do que tu julgas. O que é que ela tem a ver com isso?
- Está com a tua ex-enteada ou lá o que é no blogue da esquerda. O Corta-Fitas não é um blogue de direita?
- Ó meu amor de coração bipolar, não sei que te diga. Agora temos lá um que dizem que é comunista, mas voltaram os monárquicos e os evangelhos ao domingo. Muito difícil de explicar-te.
- Achas? Olha que eu acho muito fácil. Um albergue espanhol é o que aquilo é. E estas duas devem perder mais horas no cabeleireiro do que a ler programas políticos. Acho que nem o do PSD conseguiam ler sem parar para ver o verniz das unhas. Quero-te fora desse blogue porque ainda te arruína a carreira política e já não vais para Bruxelas.
Calei-me e fui para a cozinha, amassar fruta e pensar na vida, sempre tão agridoce e cheia de surpresas.

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Mais um Waterloo (19)

por João Villalobos, em 30.12.08

Se existe data à qual a Ritinha dá verdadeira importância, para além do próprio aniversário, do aniversário do nosso «ajuntamento» e do aniversário de Mandrake o setter doido - o mesmo que me desgraça os sebago sempre que me deixo convencer a passar a noite no T1 da Bicuda - é a do final de ano.  

O lugar para o imbecil ritual de passagem é discutido de antemão durante no mínimo dois meses e o segundo deles é ocupado com a passagem de todo o conteúdo do closet para incontáveis malões, mais propícios a uma descida do Nilo daquelas à antiga com dezenas de quadrúpedes e simpáticos serviçais de dentadura alvar. Viagem essa, diga-se, certamente mais barata do que a suite real no Incosol em Marbella, onde este ano largarei couro e cabelos cada vez mais brancos. 
Minha princesa sem séquito – interroguei-a olhando em volta até onde a vista se estendia - como encaras tu a resolução do carregamento de tudo isto no nosso modesto veículo?
- Nosso, não. Teu! E se me tivesses dado o SLK que te pedi em vez do ridículo Classe A para secretárias anãs, cabia tudo nos dois carros. Vais ter que desistir de levar os tacos de golfe e podes enfiar aquelas malas ali no atrelado em lugar da mota de água.
- Mas, minha rainha despótica e de crueldade infra-humana, essas são as minhas duas únicas fontes de prazer e lazer. Aliás, o pretexto lá em casa para esta escapadinha foi o torneio da empresa.
- Ah queres tornear? Podes tornear-me a mim se não estiveres destreinado. Vais ver que te dará prazer que chegue. Esquece mas é esses teus disparates onanistas. Só emalei o essencial e não deixo cá nem um par de sapatos. Já agora, para que é que precisas de mais do que um fato, se só vamos ficar três dias? Estás à espera de ter alguma reunião ou também fez parte da cenografia?
(…)

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Mais um Waterloo (18)

por João Villalobos, em 20.10.08

Mal entrei naquilo a que a Ritinha chama quarto e eu o Grande Templo à Deusa Hello Kitty que é o âmago do seu (meu) apartamento da Bicuda, percebi que não me esperava coisa boa. Com o Vaio cor de rosa aberto, o seu ventre liso sobre os lençóis de linho da minha avó, o olhar e sorriso trocistas semi-erguidos enquanto os pezinhos levantados alternavam a um ritmo revelador de perigosa felicidade, saiu-se logo com esta:
- Parece que no teu blogue anda um clima tão agreste que deixaste de ir à varanda. Tens medo de constipar-te? 
A Ritinha, não sei se já aqui tive ocasião de mencioná-lo, sente pela obra literária em progresso que eu a nossa Maria Inês escrevemos a quatro mãos um ciúme de proporções clássicas. (Que é como quem diz; digno de séries como Dallas e Dinastia, para ela na mesma faixa cronológica que as peripécias de Abelardo e Heloísa).
- O blogue não é só meu, minha princesa do plie. Não sou mais do que 1/12 avos, perdão, agora 1/9 avos de uma portentosa obra colectiva. Pensei que andavas mais preocupada com o divórcio da Madonna do que as cisões da blogocoisa.
(Isto disse eu na intenção de mudar rapidamente de assunto, aliás com sucesso como se irá ver a seguir).
- E é caso para isso! Como é que uma relação tão linda como aquela já anda de advogado em advogado? É muito triste. Só tu com esse coração de pedra é que consegues desdenhar uma história de amor como esta.
- Olha que o rapaz parece que vai receber 77 milhões, minha lacrimejante devoradora de vidas alheias incluindo a minha. Quanto aos advogados, não podia estar mais de concordo contigo. Foi por isso que nunca me casei.
- Hás-de morrer velho e solitário, sem ninguém que te ature a caturrice. E olha que nessa altura nem à varanda vais poder ir. Dizem que faz muito mal ao reumático.
- Sabes que caturrice tem origem em Gaius Valerius Catullus?
- E tu sabes que latim a mais e acções a menos tornam os homens mais pequenos?

(...)

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Mais um Waterloo (17)

por João Villalobos, em 07.10.08

Descobri ontem, numa fugaz visita à Ritinha, que parte da minha fortuna se encontra investida em sapatos. E algum ouro e diamantes. Mas principalmente sapatos. Tentei fazer uma avaliação de exactamente quanto é que aquilo poderia render no eBay, mas a tarefa estava acima dos meus conhecimentos sobre o mercado de calçado de luxo. O diálogo que se seguiu não foi dos melhores:

- Minha perdulária orquídea doméstica, exactamente de quantos sapatos pode necessitar uma mulher que nunca anda a pé?  
- Não me aborreças. Estou a ver o Dirty Dancing.
- O quê? Tu não tens idade para ver uma coisa dessas. O Patrick Swayze podia ser teu pai, valha-me Deus! O que é que pode haver nessa piroseira capaz de pôr as mulheres todas aos saltinhos? E por falar em saltinhos e voltando à pergunta que te fiz: De quantos sapatos de salto alto precisam os teus delicados pezinhos? Os que tens aqui guardados já calçavam a população toda do Mónaco.   
- Mas o que queres tu, afinal? Que eu ande para aí nas festas com sapatos do ano passado? Não sabes que cada estação tem cores e modelos diferentes? Percebes alguma coisa de moda sequer, para justificar esta conversa durante a minha cena preferida?
- Na verdade não. Estou com o Oscar Wilde: “A moda é o que nós usamos, o que os outros usam está fora de moda”. Mas percebo de contas bancárias. Não sabes que atravessamos uma crise? Achas bem gastar num par de sapatos o mesmo que o ordenado de uma família?
- Ouve o que te digo: O que vestes só será moda quando já não existir uma única mulher à face da terra. Além disso, não aceito conselhos de alguém que pendura um pano da louça ao pescoço.
- Deixa a minha gravata sossegada. Lamento dizer-te, meu diamante eternamente em bruto, mas a mesada que te dou vai ser reduzida até os tempos melhorarem.
- Ah sim? E eu lamento dizer-te que as tuas horas de prazer… perdão, os minutos…também terão que ser reduzidos. O que é uma pena. Estava a pensar, quando o filme acabasse, vestir aquele body vermelho rendado que me ofereceste. E já agora, achas bem gastar o ordenado de uma família numa peça de lingerie, só para satisfazer os teus fetiches?
(…)  

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Mais um Waterloo (16)

por João Villalobos, em 16.09.08

A Ritinha leu este artigo de sábado no DN sobre a nossa Filipa e não gostou do que viu. Com ciúmes, mesmo os mais irracionais, ela fica tão belicosa quanto um AH-64 D carregado de mísseis.  

- Ela é muito nova, não é?
- Nem por isso, minha pérola enegrecida pela má disposição. Tem exactamente a tua idade, mais dia menos dia.
- E o que é que faz na vida? Escreve livros?
- Faz muitas coisas. E mesmo que fizesse só uma já estaria em vantagem.
- Gostas do género não é? Assim novinha e com ares de intelectual. Ficas a saber que, quando quiseres ir ter com ela, a porta está sempre aberta.
- E mesmo que não estivesse eu tenho a chave, ó criatura em quem Deus não colocou um coração. É a vantagem de ser o proprietário...Mas que disparate de conversa é esta? E onde é que compraste essa mini-saia, se é que posso chamar tal a uma peça com menos tecido do que o meu lenço de bolso? Espero que não saias à rua assim despida.
- Não sejas parvo, é a moda deste ano. E nem tentes mudar de assunto.
- Não estou a mudar de assunto. Não existe assunto. A Filipa tem um namorado que parece um actor de cinema e não me liga nenhuma.
- Ah! Se não tivesse namorado já te ligava! É isso?
- Esquece. Quando metes uma ideia na cabeça não sobra lugar para mais e tão pouco para a lucidez. Quando a Filipa apresentar o livro dela vamos os dois e fica o caso arrumado. Que dizes, minha sumarenta romãzinha?
- O caso? Mas há um caso?
Desisti.  
(…)

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Mais um Waterloo (15)

por João Villalobos, em 01.09.08

A Ritinha bem podia aprender com a Dr.ª Manuela. A rapariga consegue falar de qualquer assunto com um tom de “isto-nem-se-discute” que não imaginam. Um ouvinte mais incauto poderia até acreditar que há lugar para pensamentos autogerados naquele cérebro de cereja. Mas niente. Nihil. Rien. Apenas palavras assimiladas logo depois de ouvidas num qualquer programa da Júlia, da Fátima ou do Goucha. Ou ainda na conversa com o trio de cabeleireiras que nutrem com produtos caríssimos e de efeitos invisíveis os seus cabelos de Malibu Barbie.

É bem verdade o que disse Margaret Miller: «A maior parte das conversas são monólogos feitos na presença de uma testemunha». E a Ritinha aproveita sempre para proferir os ditos monólogos quando me sabe indefeso e sem fuga.
Hoje, por exemplo, o tema dela enquanto esfoliava a pele no duche (em gestos tão sugestivos, ritmados e vigorosos que me provocaram dois cortes no queixo ao fazer a barba) foi a proposta do CDS-PP quanto à violência conjugal:
- Acho muito bem que vão todos presos e espero que deitem fora a chave. Tinha que ser uma mulher a vir finalmente dizer estas coisas, pois está claro.  
- Hmm…é só uma proposta…Au!...Preventivamente…– tentei eu balbuciar colocando ao mesmo tempo a Myrcia sphaerocarpa(*) sobre o corte que sangrava com abundância.
- Vou já dizer à minha prima Nita para avisar o sacana do Ricardo: Da próxima vez que ele levantar a mão, vai de cana e não sai de lá senão quando ela já tiver netos de outro gajo!
- Argh! - berrei eu baixinho – Se for só levantar…Ufa!...Não deve dar prisão.
- Ah não?…Ai achas que não!? Isso é o que vais ver! Estás do lado daquela besta quadrúpede, é!?
- Claro que não, minha borboletazinha nocturna. Bem sabes que só te bato quando és tu a pedir. Repara como nesta casa só há uma vítima: Até estou a sangrar por tua causa.

Em vão. Inútil. Quando finalmente as feridas cicatrizaram e saí, ainda ela vociferava ao telefone com a prima sobre os benéficos efeitos do cárcere no comportamento do cônjuge. Fechei-me no elevador e deixei-me estar assim uns minutos, em silêncio.

(*Pedra Ume)

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Mais um Waterloo (14)

por João Villalobos, em 14.07.08

Aqui que ninguém nos ouve confesso-vos que, após uma semana de ausência do leito extraconjugal, já antecipava encontrar a Ritinha mais gelada do que a calote polar. Avisadamente, aproveitei a passagem por Paris não só para um jantar no Lasserre mas também para um raid ao saldos das Galerias Printemps de onde resgatei um par de camisas de homem Christian Lacroix  a 180€ cada uma. Não fui egoísta, a Ritinha adora vestir as minhas camisas desabotoadas sem mais outra peça de roupa para além de um par de meias que lhe terminam nos delicados tornozelos. Uma imagem tantalizante e capaz de produzir milagres na revitalização da minha depauperada carcaça, mas adiante. Isto para dizer que estava mais do que preparado quando abri a porta do apartamento. Só não esperava o que se seguiu:

- Só agora é que voltas? Fazes alguma ideia daquilo por que passei?
- Nem por isso. Mas recordo-me que te deixei livre para trocares opiniões sobre o Paulo Coelho com o brasileiro da piscina.
- Não brinques com coisas sérias. Não fosse o Vítor ter sido campeão de Vale-Tudo e já tinha largado o condomínio. Este país está um filme de terror. Há bandos de pretos e ciganos aos tiros! Não posso sair com o Mercedes com medo de ser assaltada e sabe-se lá mais o quê. E tu nunca estás ao meu lado quando preciso.
- Minha gatinha de pêlo curto, se estivesse ao teu lado os gatunos esfregariam as luvas de contentamento pelo saque a dobrar. Não devias era ter ligado a televisão na TVI, pensei que já te tinha avisado.
- Não foi a TVI, foi a SIC.
- A sério? Ena pá! Já percebo o teu receio de tensões raciais na Quinta da Bicuda. Vamos já fazer as malas e mudar-nos para a Penha Longa. Parece que lá só vivem monhés e chinocas.
- Tens uma grande lata para gozar comigo depois do que sofri. Só espero que me tenhas trazido uma prenda de jeito e não um anel como aquele do aeroporto que me faz os dedos pretos.
- Nem vais acreditar, meu botão de rosa eternamente por abrir. Deslumbra-te só com este par de camisas, mais sedosas do que a tua própria pele.
- Camisas de homem!? Estás uma semana em França e trazes-me camisas de homem?!
- Mas tu adoras vesti-las Ritinha! Não te lembras daquela noite que até levou a administração do condomínio a escrever-nos uma carta? O que nós rimos!
- Ah sim? Então ri-te com esta: Vais voltar a sair, comprar uma coisa de jeito e, quando regressares daqui a umas boas horas, vou fingir que é a primeira vez que temos esta conversa. E de caminho, avisa o Vítor que já não preciso do gás mostarda.
(…)      
Aviso: A fotografia não é da Ritinha mas da candidata brasileira, a minha favorita no concurso de Miss Universo que hoje se inicia. Oxalá ganhe. 

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Mais um Waterloo (13)

por João Villalobos, em 03.07.08

Eu e a Ritinha, por vezes (menos do que as que gostaria), envolvemo-nos em «burlescos regabofes». Por outro lado, como é já de todos sabido, não somos casados. Esse facto, e também o outro adicional de não ser igualmente casado com a minha-apesar-de-tudo-para-mim-legítima-mulher transportou-me até ao território da dúvida, pelo que decidi questionar a opinião sempre original da minha segunda concubina: 

- Ritinha, minha florzinha de estufa fria, talvez tenha chegado a altura de pôr um fim na nossa relação. Começo a olhar para o que temos como apenas mais uma das minhas «decadentes  exibições de intemperança», o que só prejudica a minha imagem.
- Imagem? Qual imagem? Em casa de ferreiro espeto de pau! Devias era olhar para o espelho e tirar esses pelos que te saem das orelhas. Quanto ao resto de que estás para aí a falar não percebi nada.
- Referia-me a algo que escreveu o teu ídolo João Távora. Diz-me, serias capaz de procriar fora do casamento?
- O quê?! Ter um filho teu?! Só se batesse com tanta força na borda do jacuzzi que ficasse com amnésia.
- Não, meu bolinho de arroz sem estrias, estou a perguntar-te se engravidarias de qualquer um sem antes assinares o papelinho.  
- Escuta o que te digo: À Ritinha, quem a quiser emprenhar tem que lhe colocar primeiro a aliança no dedo. Além disso, o papelinho não chega. Quero casar de branco e com um vestido igual ao da Carrie no Sexo e a Cidade. E agora deixa-te de parvoíces e chega-te mais para lá que estou cheia de calor.
(..)
  

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Mais um Waterloo (12)

por João Villalobos, em 27.06.08

Tudo na Ritinha é verdadeiro, desde a raíz dos cabelos louros de trigo (que poeta sou. Quase me comovo) até às unhas azul cobalto dos pés. O que vemos é aquilo que agarramos. Por exemplo um par de coxas tão sedosas que nem um Cohiba se enrolaria nelas sem exclamar algo de prazenteiro. Ena! Upa upa! Ou assim.

Era nisso que eu meditava ainda há poucos minutos enquanto ela me enxotava os avanços, tão concentrada que estava na leitura do portátil enroscado entre as pernas. Quando lê, o que é coisa rara, nascem-lhe umas ruguinhas mesmo no meio da testa que…mas enfim, saiu-se desta maneira:
- O teu amigo escreve muito bem.
- Quem? O Adolfo? Já teve melhores dias. Aquela cabeleireira com quem ele finge que anda deve ter dado uma tesourada fatal nos poucos neurónios que lhe restavam por fundir.  
- Não é esse, é o outro. O João Távora. Olha aqui o que ele escreveu: «Somos gente matreira, irresponsável, preguiçosa e por consequência deprimida». Tem toda a razão. Ele diz que devíamos mobilizarmo-nos.
- Agora? Só se for daqui a 2 anos, por altura do Mundial. E a chamar-nos preguiçosos? Ainda por cima com esta canícula?! Mas o homem gosta de trabalhar ou quê!? Não tarda um fósforo ainda dá em protestante.
- És é invejoso. Eu gostava muito de conhecê-lo. Podíamos convidá-lo para jantar…
- Estás doida? Mas por quem te tomas? Achas que podia dizer ao Távora que a minha amante o quer convidar para jantar?
- Eu não sou tua amante. Tu não és oficialmente casado.

- Hã?

(…)

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Mais um Waterloo (11)

por João Villalobos, em 20.06.08

A Ritinha é, por natureza, irrequieta. Consegue pintalgar as unhas dos pés - amorosamente protegidas com bocadinhos de algodão – e em simultâneo fazer outra qualquer coisa igualmente performativa (a qual por vezes  me envolve, o que é gratificante). É raro optar pela leitura, mas já aconteceu.

Hoje, por exemplo, enquanto eu fazia o nó da gravata na casa de banho, ensaiando uma desculpa original para ter dormido fora a noite inteira, ouvi um grito:
- O que é isso do Bloco Central de que todos os jornais falam?!
- É quando o PS e o PSD governam juntos. Já aconteceu, sabias? Quando ainda não eras nascida.
- Estás sempre a fazer piada com a minha idade. Por que é que não arranjas uma velha caquéctica de 40 anos, se é isso que preferes?
- Já arranjei, meu doce de ovos ainda dentro do prazo. E a esta hora deve estar bem aborrecida, a senhora minha esposa. Mas por que surpreendente acidente do universo é que pode interessar-te o Bloco Central?
- Acabei de ler uma notícia e não percebi nada. Pensava que era o Bloco de Esquerda que se ia juntar ao CDS que é do Centro. Não é isso?
- Nunca se sabe! Podes ter criado neste instante um novo tema de debate para a agenda política e o blogue da Atlântico se entreter. Louçã e Portas no mesmo Governo…Hmm…Até telefonava já ao FAL, mas deve estar a aturar quadrilheiros no congresso.
- Às vezes não consigo mesmo perceber se estás ou não a fazer troça de mim.
- Valha-nos isso.

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Mais um Waterloo (10)

por João Villalobos, em 18.06.08

Dei um salto no sofá da Divani & Divani quando a Ritinha emitiu um grito daqueles em que parte da frequência só deve ter sido ouvida por elementos da raça canina.  Digo isto porque, subitamente, a vizinhança foi assolada por uivos diversos, cujo leque incluiu desde o tom seco dos pastores-alemães aos mais agudos e acanichados gritinhos daqueles bichos sexualmente confusos que as «tias» da Bicuda levam a defecar na relva do condomínio.

Não percebem? É fácil: Estava eu em estado catatónico a conferir o saldo bancário, quando a Ritinha pegou no meu exemplar do Diário de Notícias e leu a manchete do dia:

«Depilações a laser sem regulamentação e controlo». Daí o grito. Sucede que a Ritinha não tem um único pêlo no corpo e tal taxa de sucesso na guerra contra as hormonas não se deve a causas naturais. Para além disso, questionar a depilação a laser é para ela o mesmo que, para alguns amigos meus, duvidar dos mecanismos do inside trading, da lógica de criação das off-shores ou insinuar que a nossa Banca está na realidade tão falida como um sem-abrigo e dependente das esmolas e boa disposição dos estrangeiros.

- Calma querida (disse eu), não te preocupes. Se alguma coisa correr mal e pelo preço da tua depilação, tens pelo menos direito a um retiro para o resto da vida num mosteiro do Butão.

- Não te faças de parvinho (disse ela). Tu é que devias ter um botão para ligar e desligar as estupidezes que dizes da boca para fora. Não vês que podia ter ficado queimada! Com cicatrizes!?

- Eu gostava de ti na mesma, minha querida. E até ficava muito menos preocupado com os olhares vorazes do teu personal trainer. Aliás meu, se considerarmos que o cliente é na realidade a pessoa que assina o cheque.

- João! (berrou ela) Há coisas com que nem tu podes brincar: Se não posso confiar na depilação a laser acredito em quê? Já nada é sagrado? Teremos que passar a vida com medo de tudo!?

(E, aqui, esbugalhou-se em lágrimas)

Ora eu, sempre que uma mulher chora e como bom cavalheiro que sou, vou à procura de um lenço de linho egípcio daqueles à antiga. Na maior parte das vezes, demoro muito tempo a encontrá-lo. 

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Mais um Waterloo (9)

por João Villalobos, em 11.06.08

Quem conhece a Ritinha mesmo que superficialmente (aliás a única forma), sabe que é bem mais fácil «enfrentar o choque petrolífero sem pejo» como escreve o nosso Távora - ou até um grupo de camionistas tatuados e em carência de cevada levedada - do que a dita cuja rapariga quando a mostarda lhe trepa ao narizinho.

É curioso que uma das suas tácticas, nessas alturas, é a mesma que a das senhoras observadas pelo Pedro Correia no Allgarve: Despe-se, volta a vestir-se e despe-se outra vez para novamente se vestir. Infelizmente para mim, a Ritinha não possui «um par de bolsas flácidas». Se assim fosse não teria com que me preocupar porque estaria a milhas do seu T2 na Quinta da Bicuda e dos preços absurdos do respectivo condomínio, o qual inclui a manutenção do jovem e bronzeado Sr. Universo que limpa a piscina. Em compensação está armada, isso sim, com dois argumentos quase gémeos e dotados de uma capacidade inaudita para saírem vitoriosos de uma discussão.
- Então sempre vamos onde eu quero?  
(Isto pergunta ela tirando a camisola)
- Não.
(Digo eu pestanejando nervoso após uma longa pausa).
- Vamos ficar em casa outra vez, é?
(Interroga-se ela já amuada enquanto veste a camisola)
- Calma. Há outras alternativas.
(Respondo eu para criar o suspense necessário)
- Ah! É a festa na discoteca privada de que te falei ontem?
(Exclama então, batendo palmas e voltando a despir o trapinho de cachemira)
- Hã…quer dizer…não. Essa é que nem pensar.
(Isto estrebucho eu enquanto ela enfia a camisola pelo pescoço para não mais a tirar).
E assim por diante. Nem imaginam como invejo quem tem que lidar com outro tipo de paralisações.  

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Mais um Waterloo (8)

por João Villalobos, em 05.06.08

Lembro-me, como se fosse hoje, de quando a Ritinha disse que estava feliz por mim. Na realidade foi ontem. Eu tinha acabado de confessar, num momento de fraqueza, que recebera um vale de viagem no valor de balúrdios, por serviços prestados à Nação. Os seus olhos brilharam de antecipação. Quando isso acontece, é sempre acompanhado por um movimento de pernas que recolhe a saia até ao hemisfério norte, revelando lugares onde um homem se perde mesmo acompanhado por um sherpa e bússola.

- Estou muito feliz por ti, queridinho.

- A sério? Que curioso, minha florzinha de estufa fria. Pensei que ias ficar chateada quando te dissesse que vou gastá-lo numa viagem solitária a Samarcanda.

- Solitária?! A onde?!!!

(Quando a vozinha dela sobe uma oitava, até o Limoges estala no louçeiro).

- Samarcanda. É no Uzbequistão. Quer dizer «lugar de encontro» ou então de «conflito». Os peritos em sânscrito dividem-se, sabes como são as línguas mortas.

- Morto vais ficar tu! Estás a gozar comigo. não estás? Prometeste que iamos à Califórnia aproveitar a baixa do dólar.

- Isso foi para te fazer passar a enxaqueca. Como é que eu ia justificar lá em casa ir contigo à Califórnia? Mas não te preocupes que este fim de semana levo-te ao outlet de Alcochete. 

Ping! Crash! Zing! Foram algumas das onomatopeias que me ocorreram, enquanto desembestava para a saída e o horroroso candeeiro de design se espatifava a dois centímetros da minha nuca. Parece-me bem que a Ritinha não vai estar feliz por mim nos próximos dias. E noites.

 

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Mais um Waterloo (7)

por João Villalobos, em 03.06.08

Ao ver a nossa Teresa Ribeiro chamar «inutilidade» aos livros de auto-ajuda, recordei um diálogo recente com a Ritinha. Ultimamente, a conversa dela resume-se a moer-me o juízo para que arranje convites e a leve à ante-estreia de O Sexo e a Cidade. Quer deslumbrar e provocar taquicardias empoleirada nos seus Manolo Blanik e armada em Samantha, com um “vestido” que começa no pescoço e parece acabar ainda acima do umbigo. Mas regressando ao diálogo e tal como o recordo, foi mais ou menos assim:

Eu: Estás a ler um livro?! Quem és tu? E porque escolheste o corpo da Ritinha entre tantos outros para te manifestares?
Ela: Não sejas parvo. Posso não ler essas estopadas que só te fazem ainda mais míope, mas também não sou analfabeta. Além disso, este livro vai ajudar-me a obter finalmente o sucesso que mereço, já que tu pareces não querer contribuir.
- Contribuir? Minha querida e desmemoriada boneca de luxo. Se eu contribuísse ainda mais, superava o PIB de um pequeno país. Olha, um assim como o nosso. Que milagre da literatura é esse, afinal?
- Chama-se “O Segredo”. Ensina a enriquecer através do poder da vontade, uma coisa que parece andar a faltar-te nos últimos tempos.
- Vês? Quando queres também consegues mergulhar nas águas ácidas do humor. Com a minha idade e uma mulher em casa tens sorte que não te adormeça no tapete. Seja como for, parece-me uma óptima ideia. Se enriqueceres podes prescindir perfeitamente dos meus cartões de crédito. E repara que uso o termo no plural sem elevar a voz, apesar do estado dos nervos.  
- Não te preocupes. Depois de ler isto ficas livre de mim para sempre. E mando-te um postal da Califórnia com a fotografia aérea da propriedade, para engolires esse sorrisinho.  
- (suspiro)

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Mais um Waterloo (6)

por João Villalobos, em 30.05.08

A Ritinha descobriu que fui convidado pela Elisabeth Butterfly, juntamente com a nossa Maria Inês, para escrever um texto sobre escorts de luxo. Enciumou. O que é como quem diz: Encomendou duas garrafas de Krug Clos du Mesnil 1995 e uma embalagem tamanho jumbo da "La Maison du Chocolat". Sinal de tempestade e de um telefonema histérico do meu gestor de conta não tarda um fósforo. Ainda tentei pôr água na fervura, mas é líquido que não se mistura com os azeites da rapariga:

- Estás a fazer uma cena sem sentido. Sabes bem que és a única estrela no universo das minhas acompanhantes. E quanto a luxos, ao pé de ti qualquer escort é mais poupadinha do que um Smart.
- Estás a comparar-me com mulheres a quem pagas para te fazerem companhia!!!?
- O meu ponto é esse, precisamente. Se quisesse pagar-lhes não tinha como. Sabes que cada garrafa dessas custa mais de 600€?
- Ah, é por isso? Pensei que era porque me amavas!
- Que parvoíce. Estás farta de saber que só amo a minha mulher. Por falar nisso, passa para cá a caixa de chocolates antes de a abrires.
- A tua mulher bem pode ser um anjo na terra, mas eu cá não tenho asas. A escolha é tua, queridinho: Se responderes a essa Elisabeth-não-sei-quantas, mudo-te o código da fechadura.  
(Nessa altura, peguei na segunda garrafa do Krug e preparei-me para lhe fazer saltar a tampa. À garrafa, entenda-se).

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