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Acontece que um tio, um bom tio, é uma instituição familiar preciosa, a testemunha privilegiada de que os nossos pais não são uns extraterrestres. Porque um tio tem a vantagem de reflectir os valores da nossa família sem o “peso” das responsabilidades parentais que tanto condicionam o “convívio”. O Tio Manel era isso tudo, pôde ser isso tudo. Aqui deixo o meu modesto tributo: Que Deus o tenha na Sua infinita Glória.
Há pessoas cuja vida é uma crescente desilusão com os outros e com o mundo até o resumirem à expressão mínima, que em casos extremos toma a forma dum caniche. Ao contrário o meu percurso tem sido uma gradual aceitação de mim mesmo, sujeito aliás por quem ainda conservo algumas perplexidades. Além disso a desilusão, não é mais do que o saudável desfazer de uma ilusão.
O meu menino resiste ao sono, como se fora um cálice de morte; tem medo do escuro. Daquele momento em que se lhe silencia a alma entre a última brincadeira e o sono profundo. Conheço bem esse território de ninguém, que de tão silencioso se nos ouvem as entranhas, num ritmo batido pelo coração. Onde mora um ensurdecedor silêncio que amplifica o medo de não se voltar do fundo do fundo, onde se estabeleceram demónios dançantes, auroras boreais, aterradores animais: como num infindável castigo de existir, solto no frio do eterno espaço.
O meu menino tem medo da noite e implora-me mais uma história, mais uma canção. Agarra-me a mão com a sua mãozinha sôfrega, para que eu o ampare na descida à profundeza do vazio sem memórias, risos nem afagos, como um quarto escuro sem frestas, onde do nada se desenham os monstros pavorosos, de não ter colo nem pertença.
Estremunhado a meio da noite escura, qual heróico cavaleiro do apocalipse, o meu menino salta da cama, e com a bravura dos insanos atravessa os corredores das sombras, e as portas dos murmúrios. Num salto aninha-se ao meu lado de olhos esbugalhados, exausto da demente batalha, como quem privou com a morte, nos rumores do vazio. A salvo de volta a casa, o meu amor.
A existência tende para o caos, para o desalinho, para a corrupção e para morte. Cabe aos homens, unidos nos mais variados contextos, contrariarem com teimosia esse destino: a criar, a construir, a manter, a restaurar, a empreender e a amar: numa constante ressurreição, para triunfo da vida.
Na imagem: Guernica de Picasso.
O meu pequenote vai amanhã pela primeira vez para o colégio. Irresistível com a sua figura de anjo renascentista, já leva dezanove meses de existência e tornou-se num miúdo alegre, irrequieto e obstinado. É fanático por automóveis e bolas (mesmo antes de dizer mãe adoptou duas onomatopeias para evocar esses seus objectos de culto) e nos últimos tempos tem sido a “alegria do lar”. Uma alegria tão irresistível quanto possessiva e omnipresente, que tantas vezes desafia a paciência dos irmãos e os limites da resistência dos vetustos progenitores.
Quando em qualquer contexto me adjectivam como “pai de família”, sinto um misto de orgulho e decepção, já que a paternidade para mim, mais do que um papel é um "estado" sem mérito, tão inevitável quanto eu ser homem ou ter olhos azuis. Depois, é a minha traiçoeira imodéstia que aspira a distinta adjectivação, como se tal fosse importante ou influísse na realidade da minha existência.
Por fim até aceito o relevo desse meu traço: acreditem que o mais despudorado e horrível dos filmes de terror, por mais elaborado nos efeitos ou perverso no argumento, pouco me amedronta comparando com uma qualquer cena de drama familiar com crianças à mistura. As mais inocentes histórias de família com mortes ou desaparecimento de miúdos são para mim um suplicio total. E das mais sofisticadas nem se fala: não me esqueço como me contorci de sofrimento com algumas cenas de "Babel", de Alejandro González Iñárritu, quando a Amélia a baby sitter perde as criancinhas algures na fronteira mexicana, ou com as trágicas desventuras de Yussef e Ahmed nas montanhas de Marrocos. Simplesmente insuportável.
Na Quaresma o grande desafio é o da conversão. Do próprio, que esse é um processo do foro íntimo de cada um. Agora, a minha prioridade é o profundo e redentor encontro com Jesus. Como homem completo, sozinho, em comunidade ou em família. Mesmo no epicentro da vida, com o barulho e as luzes do mundo, no agitado quotidiano que não dá tréguas. O desígnio é um divinal Encontro como o de Pedro, Tiago e João no monte Tabor. Por força da liberdade que nos concede o despojamento e a oração. Isto é uma procura, um fito, uma utopia. Possível a quem um dia olhou a morte nos olhos, e conheceu a longa, longa, noite escura. Possível ao Homem que se cumpre inteiro.A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.