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Crónica de uma sentida despedida

por João Távora, em 12.06.15

Acontece que um tio, um bom tio, é uma instituição familiar preciosa, a testemunha privilegiada de que os nossos pais não são uns extraterrestres. Porque um tio tem a vantagem de reflectir os valores da nossa família sem o “peso” das responsabilidades parentais que tanto condicionam o “convívio”. O Tio Manel era isso tudo, pôde ser isso tudo. Aqui deixo o meu modesto tributo: Que Deus o tenha na Sua infinita Glória.

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Os males do mundo

por João Távora, em 02.09.11

 

Há pessoas cuja vida é uma crescente desilusão com os outros e com o mundo até o resumirem à expressão mínima, que em casos extremos toma a forma dum caniche. Ao contrário o meu percurso tem sido uma gradual aceitação de mim mesmo, sujeito aliás por quem ainda conservo algumas perplexidades. Além disso a desilusão, não é mais do que o saudável desfazer de uma ilusão.

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Sem a casa que pusemos no lugar da noite

por João Távora, em 19.02.11

 

O meu menino resiste ao sono, como se fora um cálice de morte; tem medo do escuro. Daquele momento em que se lhe silencia a alma entre a última brincadeira e o sono profundo. Conheço bem esse território de ninguém, que de tão silencioso se nos ouvem as entranhas, num ritmo batido pelo coração. Onde mora um ensurdecedor silêncio que amplifica o medo de não se voltar do fundo do fundo, onde se estabeleceram demónios dançantes, auroras boreais, aterradores animais: como num infindável castigo de existir, solto no frio do eterno espaço.

O meu menino tem medo da noite e implora-me mais uma história, mais uma canção. Agarra-me a mão com a sua mãozinha sôfrega, para que eu o ampare na descida à profundeza do vazio sem memórias, risos nem afagos, como um quarto escuro sem frestas, onde do nada se desenham os monstros pavorosos, de não ter colo nem pertença.

Estremunhado a meio da noite escura, qual heróico cavaleiro do apocalipse, o meu menino salta da cama, e com a bravura dos insanos atravessa os corredores das sombras, e as portas dos murmúrios. Num salto aninha-se ao meu lado de olhos esbugalhados, exausto da demente batalha, como quem privou com a morte, nos rumores do vazio. A salvo de volta a casa, o meu amor.

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Sem cedências

por João Távora, em 02.10.09

A existência tende para o caos, para o desalinho, para a corrupção e para morte. Cabe aos homens, unidos nos mais variados contextos, contrariarem com teimosia esse destino: a criar, a construir, a manter, a restaurar, a empreender e a amar: numa constante ressurreição, para triunfo da vida.

 

Na imagem: Guernica de Picasso.

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Uma nova etapa

por João Távora, em 04.09.08

 

O meu pequenote vai amanhã pela primeira vez para o colégio. Irresistível com a sua figura de anjo renascentista, já leva dezanove meses de existência e tornou-se num miúdo alegre, irrequieto e obstinado. É fanático por automóveis e bolas (mesmo antes de dizer mãe adoptou duas onomatopeias para evocar esses seus objectos de culto) e nos últimos tempos tem sido a “alegria do lar”. Uma alegria tão irresistível quanto possessiva e omnipresente, que tantas vezes desafia a paciência dos irmãos e os limites da resistência dos vetustos progenitores.

Mas eu já notei que aquilo que o petiz verdadeiramente mais gosta é de espaço e de brincar com os seus iguais: na praia ou no parque fica esfusiante na presença de outras crianças. E é à distância, confrontado com a sua individualidade, que eu verdadeiramente me emociono. De resto, no colégio, estou certo que ele vai conquistar o seu espaço e ser feliz. À descoberta, a correr e a trepar, a rir e chorar, vai continuar a fazer-se gente. Isso comove-me e deixa-me muito feliz. É isto que eu sinto sobre o assunto, Maria Inês.

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Pai de família

por João Távora, em 24.06.08

 

Quando em qualquer contexto me adjectivam como “pai de família”, sinto um misto de orgulho e decepção, já que a paternidade para mim, mais do que um papel é um "estado" sem mérito, tão inevitável quanto eu ser homem ou ter olhos azuis. Depois, é a minha  traiçoeira imodéstia que aspira a distinta adjectivação, como se tal fosse importante ou influísse na realidade da minha existência.
Por fim até aceito o relevo desse meu traço: acreditem que o mais despudorado e horrível dos filmes de terror, por mais elaborado nos efeitos ou perverso no argumento, pouco me amedronta comparando com uma qualquer cena de drama familiar com crianças à mistura. As mais inocentes histórias de família com mortes ou desaparecimento de miúdos são para mim um suplicio total. E das mais sofisticadas nem se fala: não me esqueço como me contorci de sofrimento com algumas cenas de "Babel", de Alejandro González Iñárritu, quando a Amélia a baby sitter perde as criancinhas algures na fronteira mexicana, ou com as trágicas desventuras de Yussef e Ahmed nas montanhas de Marrocos. Simplesmente insuportável.
 

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Uma história sem moral

por João Távora, em 27.02.08
No outro dia, ao contornar a sumptuosa estátua do Marquês de Pombal, a minha filha de sete anos perguntou-me quem era aquele personagem de cabeleira lá em cima de tão magnificente pedestal. Falei-lhe então do Sebastião José, politico astuto, ambicioso e visionário. Acontece que por razões óbvias e para não faltar à verdade não pode ignorar o seu carácter facínora. Logo notei como criara a confusão naquela cabecinha maniqueísta e cheia de conceitos absolutos. Perguntou-me a seguir como é que aquele senhor, depois de ter mandado matar os Távoras e os padres Jesuítas não tinha sido preso pela polícia; ao que eu, encurralado, elucidei-a  que era ele que mandava na policia, e que na realidade a vida era complicada e nem sempre era justa. Expliquei-lhe ainda, com afecto, que ao contrario das histórias do Tintim que lhe leio à noite, e dos contos da Disney que ela consome deliciada, na vida real nem sempre ganham os bons. Já em silêncio, cruzámo-nos então com a estátua do António José de Almeida a caminho da casa da avó que agora mora ali prá Almirante Reis.

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A Quaresma

por João Távora, em 17.02.08
Na Quaresma o grande desafio é o da conversão. Do próprio, que esse é um processo do foro íntimo de cada um. Agora, a minha prioridade é o profundo e redentor encontro com Jesus. Como homem completo, sozinho, em comunidade ou em família. Mesmo no epicentro da vida, com o barulho e as luzes do mundo, no agitado quotidiano que não dá tréguas. O desígnio é um divinal Encontro como o de Pedro, Tiago e João no monte Tabor. Por força da liberdade que nos concede o despojamento e a oração. Isto é uma procura, um fito, uma utopia. Possível a quem um dia olhou a morte nos olhos, e conheceu a longa, longa, noite escura. Possível ao Homem que se cumpre inteiro.
Na Quaresma, com despojamento do orgulho, vaidades e preconceitos, é tempo de aprofundar a relação com o Cristo crucificado, o Deus filho redentor da humanidade ajoelhada. Da humanidade verdadeira, não da mitológica. Do ser único, profundo e frágil, que eu sou. Mas ao qual mesmo na sua trágica precariedade, lhe é dada a graça do Amor, da reminiscência do Divino e do Perfeito.
A pouco menos de trinta dias da Páscoa de Nosso Senhor, alerto-me para o caminho de conversão e renúncia que me falta fazer. Sem a serenidade do monte Tabor, mas com o Jesus concreto da minha relação. Assim almejo uma renovação interior, a liberdade e a serena felicidade de quem sabe que nunca estará só.
.
Na imagem, o Monte Tabor em Israel, daqui.

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Amanhã é dia de quê?

por João Távora, em 13.02.08
Diz que amanhã é Dia dos Namorados. Mas o "dia dos namorados" não é quando "o homem quiser". De nada serve um ramo de rosas congeladas compradas à noite, à vinda de Cascais, onde vou buscar o rapaz ao treino. No trabalho não há escapatória, que amanhã é dia da newsletter... e ainda não temos a versão em inglês. E o bebé ainda estará com aquela constipação que tanto nos afligiu esta noite? Será que aquilo é uma otite?
E que, tal despachados os miúdos, aproveitarmos a última réstia de energia e escaparmos para um jantar a dois? Depois dum longo dia que começou de madrugada, isso é um risco e um provável desperdício de recursos. Para revirar a disposição e as energias não há um restart que nos valha.
Mas os condenados são aqueles namorados que só quererem a lua, quando têm a esplanada ao sábado de manhã, ou uma comédia inglesa noite dentro... quando as crianças já dormem.
Mas um dia destes garanto que vamos fugir só os dois por aí no carro pequeno. Mesmo que seja só por um dia, assim de sol como o de hoje, e sem culpas ou remorsos.

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Sólidos rituais

por João Távora, em 01.12.07
Com a casa meia engripada, sinusites e gargantas inflamadas, a tarde correu ensimesmada e morna, com muito Canal Disney e jornais de fim de semana. Mesmo assim o pequeno mais pequeno, deploravelmente ranhoso, viu hoje surgir a um canto da sala a sua primeira árvore de Natal. Radiante, a árvore iluminará durante mais de um mês o Presépio, ritual que se repete indefinidamente por forma a lembrar-nos que estamos em festa, preparando-nos para o nascimento do nosso Salvador.

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O que me vale é que sou católico...

por João Távora, em 28.11.07

Ontem à noite, depois do jogo Manchester vs Sporting, telefona-me o meu sogro, bem humorado, e diz: "Eh pá, você é sportinguista, de direita e monárquico - é bom que não tenha tendências suicidas, hem!”
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Um epíteto equivocado

por João Távora, em 26.10.07
Nas caixas de comentários do Corta-fitas são recorrentes provocações maliciosas que me atribuem um carácter puritano ou moralista. Por achar o epíteto francamente estranho e até um tanto engraçado, tomo-o aqui como desafio a algumas considerações que julgo pertinentes.
O puritanismo como putativo reflexo de uma vivência religiosa é um cliché vazio, posso garanti-lo. Tomo, na verdade, o puritanismo como um modo de autocastração com origem numa deficiente auto-estima, e muito aquém, aliás, de uma inspiração religiosa, qualquer que seja. Nessa perspectiva, o epíteto é ingénuo ou imanado de má-fé, pois o cristianismo não significa uma conduta moral. Ao contrário, essa ética resulta do contínuo aprofundamento da vivência espiritual apontando, por natural consequência, para uma maior exigência estética e, logo, ... moral.
Esse longo e intrincado percurso de aprendizagem e aperfeiçoamento é construído com as contingências subjectivas de cada indivíduo e sua história pessoal, não sujeitável a tribunais mundanos ou a juízos superficiais.
Assumem-se porventura os cristãos como os mais imperfeitos dos homens, tendo sido a estes que Jesus desejou acolher, “incluir”, como agora se diz. (Não deveríamos antes recear os integralíssimos virtuosos que por aí pululam, alienados de si próprios e da realidade, utopicamente empenhados em mudar o impassível “mundo” à sua volta?)
Voltando aos meus presumidos pudores e puritanismos, tenho a sorte de ter crescido numa família tradicional e sem “complexos” de maior. Se me foram transmitidos com veemência valores morais básicos, também me foi transmitida uma tranquila vivência dos assuntos do sexo e da sexualidade. Por outro lado, o meu desenvolvimento nesse campo não me trouxe qualquer trauma digno desse nome, o que me confere uma vida afectiva gratificante.
Considero-me uma pessoa inteiramente normal: vivo, cresci e actuo neste agitado contraditório e apaixonante mundo, sem fugas, em estrita relação com a realidade, como a maioria dos católicos que conheço. E foi de pequeno que aprendi a apreciar a vida, a beleza, em toda a sua acepção, até como reflexo da divina criação. Sem desnecessárias complicações moralistas. Não, não foi na rua que apreciei as primeiras imagens eróticas. Nunca a mais inquietante beleza feminina me foi apresentada como transgressiva. É que, por detrás da mais espampanante ou provocadora modelo fotográfica, por detrás da mais curvilínea actriz de cinema, há sempre uma pessoa inteira.
Finalmente, apetece-me dizer que antes do advento dos neo-moralistas de inspiração freudiana e da da prosélita “inteligentzia” regimental, havia já uma tradição de boa-educação e de bom-senso.
Mesmo para além (ou aquém) da religião. Não misturemos, pois, as coisas.

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Tomando sempre novas qualidades...

por João Távora, em 26.08.07
A maior "revolução" operada na sociedade contemporânea, subtil e orgânica, é aquela que aconteceu à relação entre o pai e os seus filhos. Mais até do que as conquistas femininas, de lugares nos estádios ou em promissoras carreiras.
Apercebo-me hoje que o meu pai ainda esboçou uns tímidos esforços, desajeitadas tentativas de intimidade, inspiradas nos inevitáveis sinais de mudança. Mas a rigidez dos "papéis" estava-lhe demasiado impregnada. Assim como aquela solidão.
A maior "revolução" dos tempos modernos é a revelação da plena paternidade. Hoje, conhecemo-nos cedo, com a ajuda da pele e de uma orgânica cumplicidade. Com muitas canções, lenga-lengas, banhos de banheira, de mar e de mundo. Depois de tudo isto, que venha a vida toda, com os seus anunciados terrores e tempestades. Seremos mais fortes, por certo, o que já não é pouco.

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Dasein*

por Corta-fitas, em 20.07.07
Este dia está a tornar-se demasiado longo. Acabei de ler a biografia de Victor Espadinha e não tenho obra substituta à altura. Descobri que vou pagar à minha dentista o equivalente ao orçamento de um pequeno país (por exemplo a Madeira). O post prometido pela nossa Teresa tarda em chegar. Houve um debate no Parlamento, o que também não contribuiu para que sinta um particular sentido para a minha vida ou a emoção de jubilosa alegria por estar-no-mundo. Aborreço-me, enfim. Só o comunicado aos accionistas do BCP, assinado por José Manuel Rodrigues Berardo, me iluminou a manhã. Aqui, umas portas ao lado da minha, alguém colocou uma marquesa que é um sério convite à sesta. Ora bem.
*Título roubado a Martin Heidegger, esse grande maluco

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Aprender a vida toda

por João Távora, em 14.07.07
Hoje de manhã, pela primeira vez, o José Maria foi à praia. Cuidadosamente, sentei-me com ele à beira-mar. Debaixo do seu panamá, abriu de tal modo os olhos brilhantes que por momentos receei cair lá dentro.

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