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Sarna para nos coçarmos

por João Távora, em 02.11.19

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Extraordinária é a capacidade de atracção que têm os extremos em política, totalmente desproporcional à sua real representatividade nas comunidades. É um pouco como o fascínio que exerciam na populaça os circos de horrores do século XIX, com a mulher de barba ou o homem elefante. Na verdade, o Livre de Joacine, por exemplo, obteve em termos nacionais 57.000 votos (menos 10.000 que André Ventura), coisa que em relação aos 10.800.000 votantes significa pouco mais que 0,5%: ou seja, uma em cada duzentas pessoas com idade de votar. O facto é que nas últimas semanas a estreia destes protagonistas em São Bento domina as conversas de café, as redes sociais e a opinião publicada. Hoje por exemplo, a troca de galhardetes entre o comentador Daniel Oliveira e a deputada guineense no Twitter (estão bem um para o outro) está em destaque no Observador.

Mas o que interessa é pôr os pés no chão: será que as preocupações de Joacine e de Ventura reflectem a realidade do meu país? Vive a Nação o perigo de desagregação e a insegurança oprime os portugueses de tal forma que receiam andar na rua com o relógio no pulso? Vive-se em Portugal um mal disfarçado apartheid e as pessoas de cor são estigmatizadas pela segregação racial? A percentagem de votos que os elegeu indica o contrário.

Pela minha parte o meu testemunho vai pelo mesmo caminho: nos sítios por onde circulo faço-o em segurança, seja na praia do Estoril onde convivem pacificamente mundos diferentes (?) como o dos turistas e das famílias em harmonia com a rapaziada que vem dos bairros periféricos mergulhar ao paredão, seja na cidade de Lisboa e nos transportes públicos em que um homem de meia-idade, de fato e gravata como eu, é tolerado sem problemas de maior – ando à vontade pela cidade e já por mais que uma vez jovens corteses me ofereceram lugar sentado nos transportes públicos, sem que na realidade eu precise. Depois há os "afro-descendentes" com quem me cruzo amiúde, seja o empregado da pastelaria com um sorriso benevolente, seja a graciosa mãe com dois filhos pequenos no banco da frente do comboio que partilhamos, ou o padre em Cascais que celebra a missa de domingo. Contrariamente ao discurso fracturante e de ódio que os extremos nos querem impingir, prevalece em mim a sensação de que somos uma nação integradora e tolerante, na qual os meus filhos têm espaço para crescer com valores hoje minoritários – que são os da minha casa. Mas essa é outra conversa, uma outra luta que dificilmente pode ser travada na arena política, porque é eminentemente cultural. A prosperidade de Portugal depende de problemas graves e complexos por resolver, mas definitivamente não são as guerras que André Ventura e Joacine Katar Moreira nos querem impingir. Mero entretenimento ou sarna para se coçarem.

Debatam, mas não muito!

por João Távora, em 27.09.19

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É um costume pouco democrático mas o facto é que há demasiados políticos e "fazedores de opinião" sempre prontos a moralizarem sobre as formas mais ou menos legítimas de fazer política, na ânsia de limitarem a disputa e o espectro das ideias, sobre o que deve ou não ser tema de debate ou de campanha, quais as temáticas verdadeiramente elevadas ou rasteiras, populistas ou sofisticadas. Nessa lógica, recordemos que em tempos se pretendiam proscritos da agenda os temas económicos, que eram afinal meras "contas de mercearia", porque havia "mais vida para além do deficit". Por estes dias não são poucos os que consideram que os casos judiciais devem ficar de fora de discussão até que as decisões transitem em julgado, uma esperteza saloia para promover a impunidade dos protagonistas visados. Mas a temática que mais incomoda a intelligentzia regimental e de modo crescente à medida que as eleições se aproximam, são sem dúvida as chamadas questões de costumes que se eclipsaram dos debates. Como se houvesse questão mais determinante para o sucesso de uma civilização que a dos costumes. Curioso como as propostas dos partidos sobre o aborto (um assunto que o regime pretende arrumado e bem escondido das nossas consciências), a eutanásia, a adopção de crianças por homossexuais, o casamento, a família, a autodeterminação de género (o que quer que isso seja), as barrigas de aluguer, a liberdade religiosa ou até o multiculturalismo, acabam censurados dos discursos partidários, condicionados por um estranho puritanismo higiénico. O que há afinal de mais importante para uma comunidade do que os "costumes" em que as suas relações assentam, aquilo que ninguém quer debater e muito menos levar a votos? No fim, somos todos pela igualdade, social-democratas, ecologistas e anda toda a gente a brincar às alternativas. Depois queixem-se da abstenção. 

Sentido único

por João Távora, em 07.08.19

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A questão que deixa livre o terreno para o crescimento do BE aqui referido por José Manuel Fernandes é que ela deixou de ser a economia - esse assalto fica adiado para futuras núpcias, se a coisa se proporcionar. O BE socialdemocratalizou-se (o modelo económico obrigatório em Portugal) e cavalga, entranhado com outros "progressistas" nas redacções dos media de massas (Obesrvador incluído), a batalha cultural. Desse modo, sem pudor, estabelecem os parâmetros do que é um discurso politicamente aceitável - veja-se a forma "activista" como as televisões abordam o Brexit, os migrantes, ou, nos últimos dias relacionam os assassinatos em massa nos EUA com o discurso (!) de Trump. Sem contraditório nem lugar à complexidade, pura propaganda, um proselitismo tão descarado que enjoa. Não vos quero estragar as férias, mas abram os olhos: eles são muitos, e o mais grave é que, no recreio do regime de que se sustentam, eles são os donos da bola. Nós só jogamos quando eles querem e na posição que lhes apetece. Para não estorvarmos deixam-nos ir à baliza, já não e mau - sem demérito para os bons guarda-redes, que são o último reduto e às vezes fazem milagres.

As contas fazem-se no fim

por João Távora, em 16.07.19

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Parece-me que já vi este filme algumas vezes. Com o prenúncio de um resultado histórico das esquerdas, que arriscam em Outubro alcançar 2/3 dos lugares no parlamento pela primeira vez desde o 25 de Abril, a direita a dois meses da campanha eleitoral entretém-se furiosamente à caça da própria cauda. São indisfarçáveis as contagens de espingardas, os julgamentos e distribuição de culpas que escapam entre dentes dos barões, sargentos e soldados que gravitam neste espectro político. Por exemplo, a  liderança e os actores principais do CDS passaram de bestiais a bestas, surgem crenças messiânicas, e voltam a ser invocadas as maiorias silenciosas adormecidas desde 1975, eternamente escondidas no espectro da abstenção. As razões apontadas para o anúnciado descalabro (uma profecia auto-realizável) são muitas: há quem diga que pagamos o preço duma má governação durante a Troika, que não há projecto nem mensagem,  que a Assnção Cristas declarou-se a favor do casamento entre homossexuais, que falta um líder para o povo seguir.
O que há é uma conjugação extraordinária de circunstâncias negativas, por demais evidenciado nas eleições europeias; e o prodigioso erro na questão dos professores não explica tudo, há que considerar o histórico não muito distante: houve a humilhação da direita em 2015 (que não chegou à maioria porque com os anos de chumbo do resgate perdeu a sua quota de funcionários do Estado e seus familiares) por uma coligação inimaginável dos socialistas com a extrema esquerda que arrefeceu de forma radical a conflitualidade social, que evitando agitar em demasia as águas (reformas) apanhou boleia da inevitável retoma e abrandamento da austeridade... e o diabo não veio, que a Europa nos proteja. 

É em consequência destas fragilidades que se assiste, a par com um fenómeno meramente emocional de desmotivação, a um perigoso fraccionamento da direita em novos projectos mais ou menos pessoais mais ou menos ideológicos. Os liberais já não querem nada com os conservadores, que cortam com os democratas cristãos que viram costas aos sociais-democratas. E há os oportunistas.  

Mas de nada serve ter razão antes de tempo. A dinâmica para ser vencedora deveria ser exactamente no sentido contrário, de unidade, para uma alternativa clara ao fado do socialismo. Acontece que um partido vencedor terá sempre de ser uma federação de opiniões que concorram entre si sem se anularem. Afinal a pureza ideológica que muitos reclamam é um sinal de perigosa decadência, simplesmente porque tal coisa não existe, e quando e existir certamente será proveniente dos últimos dois militantes em véspera de uma cisão. 

Por agora há que fazer das tripas coração e evitar uma humilhação à direita. Os próximos meses serão decisivos no alerta e na mobilização contra uma esmagadora hegemonia da esquerda que torne o ambiente do país ainda mais fracturado e irrespirável. As contas fazem-se no fim.

Sondagens, para que vos quero!

por João Távora, em 18.04.19

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Segundo a sondagem de Abril da Aximage, enquanto o PSD alcança o PS, o PCP e o BE sobem ligeiramente, o CDS recua para os 6,4% e os partidos novos não obtêm expressão significativa. Dir-me-ão que o inquérito é para as Europeias, não replicável para as legislativas, que é só mais uma sondagem (sempre erradas no que refere ao CDS e pouco fiáveis com votações exíguas como será o caso do PAN, do IL e do Aliança); mas o que é inegável é que ela reflecte a já proverbial inamovibilidade do “mercado” eleitoral português.

Como é que se explica tudo isto? As coisas às vezes são muito mais simples do que parecem:  Ontem quando ouvia o final do Debate Quinzenal no parlamento confesso que fiquei chocado com o discurso radical socialista. Fiquei com a ideia de que, em desespero com as recentes broncas e casos, o PS está a cometer um erro ao extremar-se à esquerda, quando, como se sabe é tradicionalmente ao centro que se ganham eleições.

Quanto ao CDS, tenho há muito a convicção de que o seu espaço de crescimento é relativamente limitado num país pobre como o nosso. É um partido de nicho, e tem o seu espaço entre os conservadores e os liberais (à antiga), que em vez de assumir esse discurso com clareza, cai demasiadas vezes na tentação de querer “apanhar tudo” (veja-se a ambiguidade do partido na questão dos professores). O sucesso eleitoral autárquico (em Lisboa) não é replicável numas eleições legislativas, e muito bom será se Assunção Cristas nas europeias ou legislativas alcançar os resultados de Portas, que admitamos, tinha outro carisma.
Mas a grande surpresa destas sondagens é a performance de Rui Rio. O que é que ele tem feito para isso? Tem-se fingido de morto, que é a única estratégia que lhe permite chegar vivo a Outubro (em coerência com esta tese foi um erro ontem no parlamento o PSD ter pegado no pavoroso assunto da sustentabilidade da Segurança Social). O PSD sabe, como António Costa deveria saber, que em Portugal as eleições se ganham ao centro e não fazendo muitas ondas. Acontece que a grande maioria dos portugueses vive no limiar da pobreza e só anseia manter a cabeça de fora deste pântano imundo.  

Crónica dum destino miserável

por João Távora, em 03.04.19

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Há quem estranhe os casos de endogamia e nepotismo denunciados no governo e gabinetes por aí abaixo. Este fenómeno, mais do que demonstrar-nos que a elite socialista tem recursos limitados e é pouco permeável (sinal dos tempos de austeridade), revela-nos que perdeu o pudor. A vida é dura, o Estado é um apetecível salão de banquetes, mas também serve uma sandocha se for suplicada nos canais certos: em tempos soube de uma feroz disputa partidária por um lugar subalterno (de ordenado mínimo) numa junta de freguesia de Lisboa. Mas os lá de cima conhecem-se todos uns aos outros há décadas, e como nas famílias da antiga nobreza (como a minha) dão muita importância aos apelidos porque eles revelam parentescos e fidelidades sempre úteis. Frequentam os mesmos restaurantes e vernissages, encontram-se nas férias em selectos destinos de veraneio, os filhos frequentam as mesmas escolas privadas e laicas, enfim, falam a mesma linguagem, são a reserva da Nação. Quando um dia por improvável e injusto acaso os socialistas tiverem de saír do governo para alguém vir arrumar a casa, esta pseudofidalguia retornará aos seus lugares, a minar as autarquias, institutos, arrumadas em direcções e gabinetes de empresas entretanto recuperadas para a esfera do Estado, na certeza de que o inverno será curto. E que, com as relações certas, alguma dedicação ao partido e um pouquinho de sorte, em breve se reencontrarão com o estrelato nos corredores do Terreiro do Paço e muitas viagens para Bruxelas. Entretanto, cá em baixo os portugueses contentam-se com um ordenado de menos mil euros (a única forma de não serem esmagados por impostos) e um desconto no passe social (que dá para pagar pão, leite e frangos, dizia ontem um popular na TV). Esses portugueses que ainda não perceberam que eles são muito poucos e não andam armados, só vivem à nossa custa e ainda por cima riem-se de nós como alarves.

 

Fotografia Lusa

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Chegou o Movimento 5.7 (5 de Julho de 1979 foi a data da fundação da A.D.), um movimento cívico e cultural que veio para auxiliar os partidos, na assunção de que a Direira atravessa hoje uma crise política e cultural, com o intuito de abrir um espaço de reunião de toda a família não-socialista. Um manifesto será publicado no próximo dia 23 de Março. A acompanhar.

Mediocridade

por João Távora, em 16.11.18

Em Portugal não se cultiva o diálogo e o apelo à moderação (agora tão na moda) o mais das vezes parece um convite ao silêncio de uma das partes, e já se equipara o conservadorismo ao fascismo. Velhos hábitos são difíceis de cortar: nos últimos duzentos anos tivemos uma guerra civil, um regicídio intervalando meia dúzia de revoluções. Em resultado disso hoje a pobreza e o fosso das desigualdades é aberrante no contexto europeu, a liberdade tem dias, e a fraternidade é o que sabemos. Portugal está longe de ser uma nação civilizada em que as diferentes ideologias coexistem num saudável conflito, franco e aberto, sem preconceitos, sem amputações provocadas por velhos ódios recalcados, escondidos, latentes, perversos. Temos a mediocridade que merecemos.

Transportes

por João Távora, em 18.10.18

Para a minha filha se deslocar diariamente do Estoril para a Cidade Universitária pago um passe de estudante de 54,00€ de comboio e metro. Hoje por causa da greve ela teve que adquirir um cartão "Zapping" (estranho nome estrangeiro) para apanhar o autocarro em Alcântara. Lá se foi o desconto prometido do Costa e receio que não tenha chegado a horas à faculdade. 
Isto para dizer que não nos podemos deixar enlear nos artifícios socialistas e prescindir de atender à raiz dos nossos principais problemas: há décadas que somos reféns do socialismo, um país sequestrado pela força de (alguns) sindicatos e do peso de um Estado que consome os parcos recursos da nossa economia. E a conversão do povo aos transportes públicos exige que os resgatemos ao Partido Comunista.

É importante manifestarmos a nossa zanga sem temores ou tibiezas.

Não nos deixemos iludir

por João Távora, em 22.03.18

A palavra “ilusionismo” utilizada neste artigo pela Helena Garrido é um adjectivo simpático para definir o governo de aldrabões que nos calhou em desgraça, aquilo ao que os portugueses têm direito e que, segundo as sondagens, gostam. A gestão à vista da conjuntura pela geringonça, se não nos acelera alegremente para o precipício, adia irresponsavelmente as reformas que o País necessita para ser sustentável. O maior truque do diabo foi convencer o mundo de que não existe. 

Portugal precisa do PSD

por João Távora, em 19.12.17

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Santana Lopes lançou no passado domingo as bases para um programa política, uma mão cheia de banalidades, as quais, à excepção da redução do IRC para as empresas e a rejeição da eutanásia, o partido Socialista também subscreveria. Do lado de Rui Rio também não se lhe conhece uma ideia que contraste com o discurso do poder instalado que nos consome a todos há mais de duas décadas. Essa assunção de impotência do maior partido da oposição perante as reformas que foram sendo adiadas e as reversões que um país moderno e liberal exige é preocupante. Aliás as duas candidaturas à liderança do PSD são o reflexo de um partido com grandes dificuldades em renovar-se, em assumir uma dinâmica vencedora e reformista como é sua tradição, que preencha as expectativas dos portugueses que exigem a mudança. Acontece que Portugal precisa desse PSD, hoje mais do que nunca. 

A luta pela liberdade

por João Távora, em 09.12.17

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Não deixando de ser um assunto de suprema importância, a temática da gestão da contabilidade do país, mais décima, menos décima de déficit, mais décima ou menos décima de crescimento, não pode monopolizar da discussão política nacional. O pudor, se não vergonha, assumida nos tempos mais recentes pelos partidos da direita no que refere a uma perspectiva ideológica distintiva sobre as reformas preconizadas para um resgate do País do atoleiro em que vivemos imersos, vem empobrecendo o debate político, tornando-o árido e desmobilizador. É assim que se vai tomando como natural a prevalência da mensagem das esquerdas radicais, que aproveitam o vazio do contraditório ideológico para fazer vingar a ideia da fatalidade dos portugueses viverem submissos a um Estado omnipresente que com o seu centralismo sufoca a sociedade civil nas suas mais diversas formas de afirmação.

Sob este ponto de vista, parece-me fundamental que os partidos da direita (nomeadamente o meu CDS) assumam um discurso que saiba honrar as suas tradições liberais e conservadoras, promovendo as suas próprias reversões, recuperando causas que foram sequestradas pelo despotismo do unanimismo progressista imperante, atrevendo-se mesmo nas questões de costumes, mesmo que se afigurem de difícil afirmação. A redução do Estado a funções subsidiárias, a liberdade de ensino, a soberania e a identidade nacional, a família natural e o valor absoluto da vida, a valorização do território, a “descentralização” administrativa e ideológica na convocação da sociedade civil, são Causas que parecem utópicas mas que são bandeiras alternativas ao estaticismo imperante, na prática e no discurso. Estou convencido que a coerência aos princípios próprios, mesmo que contra o discurso politicamente correcto promovido pelos media institucionais, ganha pontos, se não imediatos, a prazo.

-------X--------

Passei ontem o dia entre amigos numa comunidade católica do conselho de Almada, o Vale d’ Acór, que, liderada pelo Pe. Pedro Quintela, há mais de 20 anos instituiu um projecto de tratamento e recuperação (repito, re-cu-pe-ra-ção) de toxicodependentes com base numa terapêutica fundada em Itália, o “Projecto Homem”. Por lá passaram ao longo do tempo, com mais ou menos sucesso, centenas de rapazes e raparigas com problemas graves de adição, muitos deles que após um duro processo terapêutico e de reinserção são hoje pessoas válidas na sociedade, protagonistas anónimos das suas próprias vidas. Triste foi constatar que, passados estes anos, esse projecto terapêutico se encontra ameaçado pelos programas de drogas de substituição e pela resistência do serviço nacional de saúde indicar este tipo de profilaxias aos utentes que nele pretendem ingressar, porventura mais dispendiosas e de resultados estatísticos mais atractivos. Ouvi um testemunho de um rapaz em sucessivas entrevistas no CAT foi insistentemente desaconselhado a integrar aquele programa no qual tinha intenção de aderir por já o conhecer numa experiência anterior. É triste constatar como alguns daqueles rapazes e raparigas que em tempos violentamente se confrontaram com o fim da linha, e que a contragosto ingressaram e estoicamente lutaram contra os seus fantasmas e fraquezas no duro programa terapêutico que lhes prometia a recuperação da dignidade duma pessoa livre, se fosse hoje, seriam convidados pelo Estado para um indigno perpetuar de uma vida humilhante de dependência e infantilização, que são os programas da metadona.

O que é que este parágrafo tem a ver com o assunto abordado nos anteriores? Tudo: a luta pela liberdade tem de ser a nossa maior Causa.

Harmonia e progresso

por João Távora, em 03.04.17

O Jornal da Noite da SIC promete para quarta-feira um "especial" sobre Passos Coelho na contingência dum “governo Socialista que soma vitórias”. Pela minha parte começo a acreditar que, bem vistas as coisas, para o País alcançar a harmonia e o progresso, ao regime basta um partido, o PS.

Tempos estranhos

por João Távora, em 12.12.15

Desgosta-me muito e desinteresso-me da política por estes dias em que os reaccionários recuperaram o poder, desconstruindo à golpada todas as convenções em que se foi fundando a nossa jovem democracia. As convenções que afinal deveriam ser preservadas e respeitadas como regras de uma constituição não escrita, emanada da da experiência e aplicada para o bem (mesmo) comum. Não é só o recuo das (poucas) difíceis reformas instituídas pelo governo do resgate, em favor das mais poderosas corporações que teimam bloquear o mérito e a exigência como valores cruciais, mas a estética revolucionária e desconstrutiva com que teremos de conviver impotentes, que esse é o preço que os socialistas pagam aos seus parceiros para aplicarem mais “austeridade”, tolerada agora como virtuoso "rigor". A semântica é uma batata. É tempo da comunicação social assobiar para o lado, para as ameaças da ascensão das extremas-direitas na Europa ou do fenomenal papão Donald Trump nas eleições americanas. Por cá o regime foi devolvido aos seus donos e a nova oposição está condenada a uma longa noite assombrada pelos seus esqueletos nos armários. Ou de crescimento e reconstrução.

40 anos do 25 de Novembro

por João Távora, em 25.11.15

25 de Novembro.jpeg

Tenho para mim que, se celebramos a liberdade no 25 de Abril, deveríamos festejar a democracia no dia 25 de Novembro. Num país cujas efemérides sacralizadas são tantas vezes duvidosas, é importante relembrar os acontecimentos e os protagonistas que, faz hoje quarenta anos, travaram o "Processo Revolucionário" que então paulatinamente instaurava um regime militar comunista em Portugal. É bom hoje lembrar esses tempos agitados, com as cadeias cheias de presos sem culpa formada, a comunicação social condicionada pelos comunistas, uma deriva de nacionalizações e muitas empresas e propriedades ocupadas por piquetes revolucionários. Hoje é bom lembrar que foi a partir do 25 de Novembro de 1975 que as armas e os militares iniciaram a sua lenta recolha aos quartéis e uma verdadeira transição democrática pode ser finalmente negociada entre as forças politicas sobreviventes. Encaremos a democracia não como uma conquista, mas uma tarefa que não acaba mais. 

Afeições

por João Távora, em 08.06.15

José Sócrates ao fim de seis meses já sofre do Síndrome de Estocolmo: não quer sair da prisão de Évora

O regime a chafurdar da lama

por João Távora, em 19.03.15

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O barulho causado por este “caso” das listas VIP confunde e desvia a atenção daquilo que deveria ser a preocupação primeira das pessoas: como se promover a protecção eficaz do sigilo fiscal, defender os cidadãos do simples voyeurismo do funcionário das finanças e no limite à sua utilização como arma de arremesso ou exibição pública na comunicação social. Parece-me muito pertinente que a Autoridade Aduaneira estude e ensaie estratégias profilácticas para esta perversão. Parece-me também bastante óbvio que há um conjunto de cidadãos que, pelo seu protagonismo social e político se encontram mais expostos a abusos e ataques, aspecto que em nome da eficácia legitima que se trate de forma diferente aquilo que é diferente – é evidentemente pouco provável que algum funcionário das finanças perca tempo a bisbilhotar ilicitamente a declaração de IRS do Manuel dos Anzóis vice-presidente do Grupo Recreativo e Cultural de Alguidares de Baixo. Pelo que venho lendo aqui e ali (seria interessante a comunicação social fazer uma pesquiza do que é a metodologia utilizada nos outros países) estas listas são prática comum onde impera a norma do sigilo fiscal para defesa da confidencialidade dos dados de cidadãos mais expostos à ira sectária de alguns ou sentimentos baixos da turba.

Custa por isso a entender como o governo, e principalmente o CDS cujo grupo parlamentar se reduziu a um silêncio ensurdecedor, se deixou tiranizar pelo igualitarismo politicamente correcto - proteger toda a gente é o mesmo que não proteger ninguém, como é fácil entender: por exemplo, não se preparam contingentes especiais de polícia onde o perigo de tumulto seja mais evidente, ou de vigilância numa exposição de preciosidades artísticas? Também me parece certo que António Costa ao cavalgar este caso, se no imediato ganha com a confusão - a mensagem que passa é de que o governo quer proteger os poderosos de serem fiscalizados -  a prazo compromete e enterra com mais lama o regime de que depende a sua carreira.  

Amargura

por João Távora, em 26.02.15

Pouca gente terá notado que ontem à noite Freitas do Amaral deu uma “Grande Entrevista” à RTP Informação a qual com alguma amargura resisti assistir aos primeiros 10 minutos. O caso José Sócrates suscita muitas dúvidas a Freitas do Amaral, constato... E Freitas do Amaral nunca teve dúvidas sobre a actuação de José Sócrates, pergunto-me?
O que explica esta patética irrelevância alcançada, que triste fim de vida este, de um político que tanto prometeu e acabou passando totalmente ao lado da História. A falta que faz a um homem inteligente e culto ter um carácter forte.

Epifania

por João Távora, em 26.02.15

Alfredo Barroso teve uma epifania e enquanto dormíamos anuncia o abandono do PS. A realidade não se cansa de nos surpreender. 

O desespero é mau conselheiro

por João Távora, em 31.01.15

salgadoesocrates.png

Com os patéticos ataques de Ana Gomes a Paulo Portas e da Comissão de Inquérito ao BES a Passos Coelho e ao Presidente da República está lançada a chicana politica em que o Partido Socialista aposta na tentativa de radicalizar um discurso vazio de soluções. Com José Sócrates na cadeia, o último primeiro-ministro que governou numa relação íntima com a oligarquia dos negócios, a António Costa restam poucas alternativas além de lançar a confusão e ajavardar a disputa para gáudio dos canais de notícias sedentos de conteúdos sensacionais e baratos. Acontece que a "merdização" da política apenas favorece a descredibilização dos partidos do "arco da governação" e promove as franjas radicais: em Ana Gomes já poucos acreditam, e a tentativa de aproveitamento da carta de Ricardo Salgado ainda vai virar o bico ao prego - trata-se afinal de atirar lama para a ventoinha. Como escreve o insuspeito Pedro Santos Guerreiro hoje no Expresso, “Querem falar da relação entre Salgado e políticos? (…) Então chamem ao Parlamento outras pessoas: Rosário Teixeira e Carlos Alexandre. Eles sabem.” Eu cá por mim obrigava os socialistas (e não só!) a assistir a um seminário sobre a decadência e queda do nosso rotativismo liberal no século XIX.



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