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Foto-fitas do dia

por Luísa Correia, em 26.04.14
(Lisbon Story Center)

 

Diz-se que a China entrou no século XX ainda mergulhada no seu esquema e mentalidade feudais. Esta circunstância, a falta de uma Idade Moderna, «renascentista», humanista, iluminista, explicaria a aterradora desumanidade revelada nas mudanças políticas e sociais que depois empreendeu.

Mas nem tudo por ali entroncava na mesma linha de instinto.

Não sendo eu uma acabada feminista, sinto-me particularmente solidária com o espírito feminino, desde sempre incompreendido pelos protagonistas culturais maioritários de cada momento. Por isso me impressionaram tanto a discreta história de sofrimento e o legado escrito de Kai-hui, a segunda mulher de Mao, abandonada por este aos vinte e seis anos - com três crianças nos braços - e executada aos vinte e nove às mãos das forças governamentais, pelo crime de ser ex-mulher do «bandido» comunista:

 

“I was born extremely weak, and would faint when I started crying … At the time, I sympathised with animals … Every night going to bed, horrible shadows such as the killing of chickens, of pigs, people dying, churned up and down in my head. That was so painful! I can still remember that taste vividly. My brother, not only my brother but many other children, I just couldn’t understand them at all. How was it they could bring themselves to catch little mice, or dragonflies, and play with them, treating them entirely as creatures foreign to pain?

If it were not to spare my mother the pain—the pain of seeing me die—if it were not for this powerful hold, then I simply would not have lived on.

I really wanted to have a faith!…”

 

Sobre as suas convicções políticas, de início concordantes com as de Mao, escreve:

 

“Now my inclination has shifted into a new phase. I want to get some nourishment by seeking knowledge, to water and give  sustenance to my dried-up life … Perhaps one day I will cry out: my ideas in the past were wrong!"

 

E termina com este grito desesperado:

 

"Ah! Kill, kill, kill! All I hear is this sound in my ears! Why are human beings so evil? Why so cruel? Why?! I cannot think on! I must have a faith! I must have a faith! Let me have a faith!!”

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Opinião feminina

por Luísa Correia, em 26.03.13

Impressionantes, as imagem da "manif para todos" de Domingo, em Paris, contra o "casamento para todos". Um sucesso que os organizadores dizem esperar reforçar na próxima oportunidade, duplicando o número de manifestantes com a adesão de desempregados e trabalhadores descontentes.
O desejo de que este segmento populacional participe no movimento precisa, de certo modo, os seus objectivos: é sair em defesa da família tradicional, sim, mas reclamar, sobretudo, contra a ordem de prioridades do governo Holland, que passa por um pino de impopularidade.
Este quadro é-nos, a nós, portugueses, muito familiar, da experiência recente que temos de socialismo no poder.
Incapaz de promover a geração de riqueza, pela ambiguidade das posições (e políticas) que advoga, e, consequentemente, incapaz de distribuir riqueza - porque só se distribui o que se tem - o socialismo vem-se apegando a uma agenda muito própria, feita de todas as causas que são matéria ética ou de consciência de vanguarda, causas que respeitam, quase sempre, a minorias e cujo interesse prático é reduzido em tempos economicamente críticos. Em Portugal, o socialismo tem feito também gosto em se antecipar a todos os outros, como é característico dos que querem parecer maiores ou melhores do que o que são. Para o essencial, o socialismo não apresenta soluções, porque as únicas minimamente eficazes pressupõem cedências a perspectivas conservadoras básicas.
A vida é "conservadora" por natureza. É por isso que é tão difícil ser-se socialista e coerente. É por isso que os socialistas que conhecemos falam sempre com sete pedras na mão. E é por isso que o socialismo que conhecemos cada vez convence menos... se é que não tem, como suponho, os dias contados.

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Opinião feminina

por Luísa Correia, em 22.03.13

A contratação de José Sócrates pela RTP parece-me, sobretudo, uma enorme falta de senso e de gosto. Numa altura que é de amesquinhamento, senão de dificuldade, para tanta gente, assume contornos quase insultuosos que aquela estação pública imponha, como serviço público, a presença e as opiniões "ex cathedra" do primeiro responsável objectivo pela situação.
É, portanto, legítimo supor que existam agendas escondidas sob a iniciativa, cada interveniente ou interessado tendo a sua. Recordo, por exemplo, que o PS é useiro e vezeiro em lavar as imagens chamuscadas dos seus militantes com um "estagiozinho" de três anos no estrangeiro, seguido de reentrada de viés na política interna; e que Sócrates ascendeu à governação depois de cumprir uns tempos de comentário televisivo com jeitos de escrupuloso analista de dossiês (jeitos que a aparente leviandade de Santana ainda realçou).
Não excluo, naturalmente, a hipótese - que é quase certa - de que também a RTP, o PSD, o CDS, os restantes partidos, o Governo, o Presidente da República, o Presidente da Câmara, o Procurador-Geral, o Marinho Pinto, o Mexia, o Salgado, o Belmiro, o Figo e até o Raul da leitaria e o Sr. Manel do lugar da fruta tenham definidas estratégias claras para o aproveitamento deste retorno socrático. O que não consola e antes agudiza a vergonha que sinto pela fraqueza de carácter de alguns de nós, que, se calhar, são muitos mais do que imaginava...

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Desabafo...

por Luísa Correia, em 01.03.13

É verdade que "água mole em pedra dura tanto dá até que fura". Mas pode acontecer - e geralmente acontece - que o furo não danifique a essência da pedra e apenas sirva para pôr termo à persistência da água, fazendo que se escoe para outras paragens.
Nós, por cá, convivemos com muitas águas moles. Mas pior do que moles, sujas. Já tínhamos a comunicação social. Temos agora umas movimentações peregrinas, que se entretêm a imolar animais na ara das ideias ocas. No meu tempo de estudante, sempre se lutava por coisas mais substanciais, elevadas, exequíveis. E nunca vi que se sacrificassem os mais fracos. Por estes dias, confesso, sinto vergonha de pertencer à corporação dos que trabalham com leis.
Não há, felizmente, nada que a pedra dura - a gente, e a portuguesa como todas - tanto abomine como o descarado facciosismo e a descarada manipulação. É que tentem, sem a menor subtileza, lavar-lhe o cérebro; é que desdenhem da sua inteligência ou da sua capacidade de entrever a realidade que está para além dos punhados de areia grossa que lhe lançam aos olhos.
A pedra vai furar, sim, mas o furo servir-lhe-á de cano de esgoto.

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"La dolce vita"

por Luísa Correia, em 27.02.13

Tive, há uns anos, oportunidade de participar, com italianos e outros dos países que integravam a então CEE, numa espécie de grupo de trabalho com a missão de avaliar um pacote legislativo aplicável em vários domínios do mundo laboral. A experiência valeu, não tanto pela matéria em análise, como pela teia de cumplicidades que logo se estabeleceram no grupo. Eram três as posições defendidas: a maioritária, alinhada com um forte intervencionismo europeu, politicamente correcta, e liderada pela representação espanhola; a portuguesa, contrastante com a anterior por razões de desconfiança na eficácia das regulamentações "exaustivas"; e a italiana, igualmente contrastante por razões de enérgico repúdio das regulamentações "invasivas".
É talvez por estas mesmas razões que os indígenas da bota, reunidos há pouco mais de século e meio num único Estado/nação, preferem delegar o poder executivo em gente tão sobrecarregada com os seus próprios, problemáticos, "affairs", que não tenha como ocupar-se dos alheios; ou seja, gente sem muito tempo, nem jeito para o exercício da política "profunda" e inerentes operações de rapina. Gente, enfim, que possam não levar a sério, rindo ou olhando simplesmente para o lado. "And the show may go on", se e enquanto os actores se confinarem ao palco e não cederem à modernice de interagir e perturbar o sossego da plateia.

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Opinião...

por Luísa Correia, em 06.02.13

Por que é que a violência sobre animais me desgosta tão profundamente? Mesmo se falamos em violência que retribui violência?
Porque, de uma forma geral, os outros bichos são mais vulneráveis do que o bicho-homem. Podem, circunstancialmente, parecer mais fortes, manhosos ou adaptados, mas não detêm o poder absoluto, de vida ou de morte, que o bicho-homem, do topo da pirâmide a que o eleva a sua inteligência, se arroga e, de facto, exerce sobre tudo o que mexe no planeta.
Fica-nos, portanto, muito mal tratar os animais com arrogâncias de representatividade divina... designadamente, pontapeando porquinhos por essas estradas fora.
E depois há o argumento do futuro. Sabendo-se da finitude das coisas, é de admitir que a era do bicho-homem possa, um dia, ceder lugar à era de outro ou outros bichos quaisquer; que a evolução venha a dotar da mesma inteligência outra ou outras espécies, e que estas passem a dominar o mundo como nós hoje dominamos. Então, como falará de nós a História escrita pelos novos senhores da Terra? Seremos mais do que uma memória de predadores insaciáveis e cruéis, os T-Rex do Cenozoico Quaternário? E se ainda existirmos, como seremos - como mereceremos ser - tratados?

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Opinião...

por Luísa Correia, em 30.01.13
Cevou por aí, há dias, uma polémica ridícula em torno de não sei que declarações racistas de não sei que dirigente sindical. Não procurei, realmente, saber coisa nenhuma, porque a nota era dissonante, uma evidente fífia de execução. Mas agora, com Costa a perfilar-se tão extemporaneamente no PS, a polémica parece reenquadrar-se. Para um herdeiro do "socratismo", o melhor - ou único! - argumento para a vitória, num cantinho provinciano como o nosso, onde o "efeito imitação" encontra terreno fertilíssimo, é fazer dele - do cantinho - um pioneiro ocidental, o primeiro, na Europa, a subscrever os princípios da vanguarda "politicamente correcta", que alçou Obama à presidência do país mais poderoso do mundo. Saltar da cauda económica para a testa moral do velho continente é uma tentação irresistível para muito português. Insista-se, pois, na fífia, apele-se, acto contínuo, a uma "ética de modernidade", e ter-se-á cegado muito português para a circunstância de que Costa, sendo um homem simpático e bem falante, tem o currículo de um indeciso e de um inoperacional.

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Não sei se já aqui o disse, mas as minhas simpatias políticas orientam-se pela personalidade e pelo carácter dos actores - que vou deduzindo dos seus actos - muito mais do que pelas ideologias. É por isso que não deixo de lastimar o ex-ministro Mendonça, tão cruelmente surpreendido e tão vivamente inconformado com o cenário de chocas lazarentas em que teve de se mover. E a Sócrates, consigo reconhecer qualidades de liderança, com a mesma "objectividade" com que afirmo que o seu entendimento e capacidade de gestão são pouco elásticos, no sentido de se ajustarem - talvez... - às dimensões de um lugar ou mercearia de bairro, mas não às de um país que, embora pequeno, sempre teve e vai tendo uns orçamentos e alguns vestígios de economia.
Do actual Governo evito falar - fica mal falar bem de políticos... Sendo certo que também nele detecto umas quantas personagens bastante indigestas. Mas gosto - confesso a heresia - do ministro Gaspar. Gosto das bolsinhas de cansaço que carrega sob os olhos; gosto do balanço lento do seu discurso, próprio de quem o filtra para reter a asneira; e gosto do seu ar sereno, meio ingénuo, modesto, mas "cuidado" - sexy, ao seu jeito - que não abjura o direito à falaciazinha de circunstância, mas que, no essencial, preserva a autenticidade. E não discordo, sequer, da tal austeridade que me propõe, ou impõe. É que, sobre o forrobodó da última década, já me tinham criado expectativas de ter de o pagar muito, mas muitíssimo, mais caro!

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Cantinho de escárnio e maldizer

por Luísa Correia, em 19.12.12

Já li algumas biografias de Churchill e todas elas me souberam a pouco; ou seja, o percurso do biografado nem sempre terá correspondido às expectativas que o seu nome, a sua reputação e algumas das suas palavras ditas e escritas tinham criado em mim. O programa televisivo que vi ontem sobre o seu comportamento para com uma Polónia aliada e agredida é a gota que me leva a esvaziar aqui o copo da latente decepção.
Churchill foi, tanto quanto posso ajuizar, um homem corajoso, um excelente soldado, e um homem perspicaz, bom analista de personalidades. Mas, à semelhança do que tenho visto suceder a gestores e estadistas britânicos, di-lo-ia estratega medíocre, fraco planeador, e intransigente, implacável mesmo, no que considerava, de forma mais impulsiva do que racional, ser a melhor defesa dos interesses do seu país, com prejuízo, se necessário, dos sentidos de equilíbrio, de honra e de humanidade. O fracasso dos Dardanelos, a traição dos polacos e o bombardeamento de Dresden ensombram-lhe o retrato, não havendo sucessos pessoais estrondosos que o iluminem - a guerra, convenhamos, foi ganha pelos americanos! É certo que lá vejo - e é um gentil retoque fotográfico - um casamento feliz de seis ou sete décadas. Defendido, este sim, com a apuradíssima visão estratégica que lhe faltou na política, à custa de longas ausências e férias separadas: é que cônjuges que mal se encontram, podem esquecer que existem... mas lá cansar, não cansam.

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Renovações...

por Luísa Correia, em 12.09.11

 

 

Adenda: depois do grande acidente de percurso chamado Sócrates, um Seguro é, seguramente, um seguro. Mas convém não esquecer as palavrinhas miúdas que há sempre no verso das apólices...

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Tansos...

por Luísa Correia, em 27.07.11

 

(... à beira-rio)

 

Nos «media», a austeridade continua no cerne do debate. Há gente que, nem perante as evidências de um estado de calamidade, se conforma. E o primeiro argumento é sempre que não pagam todos: não pagam os detentores de juros e dividendos (que são a classe média trabalhadora!), não pagam os detentores de acções, não pagam as empresas... Subjacente, o eterno «complexo do tanso», o nosso mais arreigado e inibidor complexo, que não me canso de analisar. O complexo impõe-nos, desde logo, que não façamos nada, para que terceiros, que também não fazem - para não ser tansos -, não beneficiem, nem possam rir-se de ter beneficiado do que poderíamos ter feito... Deste modo se estabelece a infinita cadeia de inacção, responsável, desde há uns anos, pelo caminho do subdesenvolvimento que trilhamos a passo estugado. Talvez sejam a pequenez e a periferia (vulgo «provincianismo») que nos fazem assim. Ou talvez não. O certo é que estamos dispostos a tudo - ou quase tudo - para não sermos tansos. Para não sermos tansos, somos desconfiados, egoístas e cépticos. Para não sermos tansos, não investimos um átomo de energia em causas colectivas, receosos de que o resto não entre na marcha. Para não sermos tansos, não trabalhamos nem mais, nem melhor, mas só para «ganhar o nosso». Para não sermos tansos, «vamos com calma», usando, de preferência, da boa velha «chico-esperteza». Felizmente, há no mundo uns quantos que não se importam de ser tansos e que, de quando em quando, aparecem a dar-nos a mão. Mas nós, que tansos não somos, nem mesmo enfiando a esmola ao bolso aceitamos lições de brio de quem quer que seja, muito menos pressões! O caminho vai-se fazendo, cheio de vagares, pontuado de queixumes. Para uns, emburrámos desta maneira na espera do D. Sebastião. Mas para mim, emburrámos na espera uns dos outros.

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Distorções

por Luísa Correia, em 25.07.11

 

(... em S. Pedro de Alcântara)

 

Vejo frequentemente colocada, em inquéritos a figuras públicas, a questão sobre qual o pior defeito que encontram nas pessoas. A mim, naturalmente, nunca ninguém ma colocou, mas eu - no que é, realmente, um desabafo - vou responder. E não, não respondo com as clássicas falsidade, hipocrisia, meia sapiência… O pior defeito, para mim, é maltratar, abusar, desconsiderar ou trair a confiança dos mais fracos, decorra essa fraqueza da idade ou do estado de saúde, decorra ela da posição social ou profissional, de uma subalternidade ou de uma subordinação. Quem violenta a fragilidade alheia revela, para mim, a mais inominável mesquinhez.

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Fauna (II)

por Luísa Correia, em 24.07.11

 

(... no Parque das Nações)

 

Fui, há pouco, informada de que um conjunto alargado de elementos das nossas forças policiais, em protesto contra o castigo de dois colegas, decidiu boicotar o serviço, mas tratou de apresentar outros tantos atestados médicos falsos para se poupar aos concomitantes cortes salariais. Quem pratica esta forma de protesto «enviesado» – muito frequente em processos grevistas -, quem não assume todas consequências dos seus actos afigura-se-me completamente desprovido de verticalidade. Assusta-me, por isso, saber que a minha segurança repousa – pelo menos em parte – no arbítrio de invertebrados.

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Noruega

por Luísa Correia, em 23.07.11

 

 

Não pode haver qualquer magnanimidade com terroristas. Ser terrorista não é um imperativo de moda ou um impulso irreprimível de esquizofrenia colectiva. Ser terrorista é uma opção pessoal e - arriscaria – vitalícia. Quem não hesita em matar dezenas ou centenas dos seus semelhantes, mesmo que a coberto de uma ideologia, mesmo que em resposta a um comando, não o faz porque o mundo não lhe oferecia outros caminhos, mas porque escolheu esse caminho, porque odeia tudo e todos, e porque não resiste à volúpia de dispor da vida alheia. Estas pessoas, felizmente poucas, são uma ameaça que não dorme. Enquanto existem, não desistem. Para estas pessoas, que estremecem as minhas convicções na bondade da razão humana, seria capaz de defender a pena capital.

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Semânticas...

por Luísa Correia, em 23.07.11

 

(... no Parque Eduardo VII)

 

O noticiário televisivo apresentou, esta noite, uma peça de fôlego sobre a questão que dominou a comunicação social na última quinzena: a questão do «desvio colossal». A peça aprofundava as origens da expressão, a fidedignidade das fontes, as deduções dos analistas – merece registo, pela sua espantosa ousadia especulativa, o entendimento de uns quantos de que o Governo, ao cabo de um mês, já falava a duas vozes – as críticas das oposições, o «turmoil» político, a mentira da verdade, a verdade da mentira, etc., etc., etc. A peça dava ainda – um pouco a contragosto... – a questão por resolvida e a ordem, a quantidade, as propriedades e as relações das palavras empregues cabalmente esclarecidas. Com o que o país, de respiração suspensa durante a quinzena, pode, enfim, suspirar de alívio. Pela minha parte, vejo no processo uma enorme virtude: a de ter contribuído para arrancar às páginas esquecidas dos dicionários de língua portuguesa o único adjectivo, «colossal», capaz de caracterizar a dimensão da toleima de algum do nosso jornalismo.

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Europa

por Luísa Correia, em 20.07.11

 

(... em Santa Apolónia)

 

O que é precisamente a Europa? É, desde logo, um continente. É, depois, o sonho político de uns quantos visionários que, sobre as sementes da paz lançadas à terra no rescaldo de 39-45, germinaram a ambição de um grande Estado aglutinador, capaz de responder aos desafios da globalização e de equilibrar nos pratos da balança os poderes jovens, sôfregos e incontidos da América e das economias emergentes. E a Europa é isto; só isto. Para ir além disto, continente e sonho, não bastariam nunca as vontades daqueles quantos, poucos, visionários. Seria necessária uma identidade europeia, que não bebesse apenas da contiguidade geográfica, menos ainda dos interesses mercantis, que dividem, mas que se fundasse numa cultura e numa língua, que unem. Seria necessário que as paredes do edifício se alicerçassem numa qualquer afinidade entre as gentes e que a ausência de fronteiras significasse muito mais do que o mero fecho dos postos de controlo das entradas e saídas. Infelizmente, os visionários, na sua pressa de ver obra feita, começaram a construir o edifício pelo telhado. E pelo telhado ficaram: não há paredes, nem há alicerces. É por isso que a palavra «solidariedade» me parece, nas actuais circunstâncias, tão hipócrita. Os meus sentimentos pelos alemães frios e disciplinados que têm subsidiado o meu país são reservados. A simpatia dos alemães por povos que consideram madraços e pedinchões tem de situar-se abaixo da linha de água. E a «abominável mulher das neves», Senhora Merckel, limitar-se-á, com toda a probabilidade, a dar voz aos pontos de vista de quem a mandatou.

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Flores no Parlamento

por Luísa Correia, em 20.07.11

 

(... nos Jardins da Gulbenkian)

 

A televisão transmitia, há momentos, o debate parlamentar sobre uma qualquer proposta do PC respeitante à nossa dívida – tema tristemente incontornável por estes dias - e eu olhava sem ver para o bisonho hemiciclo, quando a câmara, num «volte-face», se fixou na mesa da presidência. E, de repente, passei a ver. Naquela mesa, onde nem há dois meses se sentavam uns «jarrões» – respeitáveis jarrões, mas sempre jarrões – floresciam agora três vistosas florinhas em gentil e sofisticado «bouquet». Naquela mesa, só mulheres! E mulheres loiraças, «produzidas», elegantes! O que é que semelhante facto pode significar para o nosso futuro colectivo não sei dizer. Mas adivinho que coisa má não é, com certeza!!!

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(... em S. Vicente de Fora)

 

Gostei de ouvir Rui Moreira, há dias, na entrevista que concedeu a Mário Crespo. Rui Moreira é um observador arguto, experiente e desassombrado da nossa realidade, e comentou, expressivamente. «O novo imposto [...] é o preço que nós, as formigas, vamos ter de pagar pelo lastro que as velhas cigarras nos deixaram». Uma ironia tanto mais contundente, quanto é certo que algumas dessas «velhas cigarras» já reivindicaram, nos seus cantares de antanho, o estatuto de formigas. Nunca, em Portugal, La Fontaine foi tão prestadio! Num único ponto discordei de Rui Moreira. O passado, para mim, ainda não está julgado. O julgamento das urnas não me basta, enquanto não compreender todas as razões da situação em que nos encontramos, ou enquanto não conseguir libertar-me da desconfiança de que houve dinheiros públicos que serviram fraudulentamente interesses privados. O meu farmacêutico, homem melhor informado do que nenhum outro neste mundo, já me falou de umas transferências para contas suíças, revelando nomes, anos e valores. E só não revelando – o que se lastima – NIB's. Mas chamem-se os serviços secretos e o enigma deslinda-se. E se o pessoal dos serviços não chegar, reforça-se-lhes o quadro. Pelo volume de investigação a fazer, será um bom contributo para a redução das taxas de desemprego.

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Reflexões ociosas

por Luísa Correia, em 17.07.11

 

(... no Terreiro do Paço)

 

1. Todos os países têm serviços secretos. Para que servem? Não sei. Presumo que investiguem o passado e o presente de pessoas individuais ou colectivas em prol da segurança do Estado que os criou. Também todos os países têm um Governo. Para que serve? Tenho dúvidas. Mas não tenho a menor dúvida de que, estando em causa o exercício de um poder naturalmente forte sobre um povo naturalmente fraco, os seus elementos devem ser pessoas idóneas e acima de qualquer suspeita, e que, nesse sentido, nenhuma investigação às suas vidas públicas e até privadas (dentro de certos limites) é demais. Não compreendo, por conseguinte, onde se está a querer chegar com esta ridícula exploração mediática do caso Bairrão.

 

2. O imposto extraordinário para 2011 foi anunciado há coisa de um mês (em meados de Junho, portanto). Os termos precisos da sua aplicação foram esclarecidos, de forma exaustiva e suficiente, há coisa de uma semana (em meados de Julho, portanto). E entretanto, já todo o mundo opinou sobre a sua necessidade, a sua oportunidade e a sua justiça, incluindo responsáveis do anterior [des]governo. Posto o que, sabendo-se que só no final do ano se fará a execução da medida, aqui formulo o desejo – na falta de esperança – de que a comunicação social consiga arranjar, para os seis meses que ainda restam até ao momento fatal, outros temas de «conversa».

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Corte e costura

por Luísa Correia, em 16.07.11

 

(... Nova Iorque)

 

Não sou uma entusiástica, nem sequer complacente «obamista». Se fosse cidadã americana, teria, em devido tempo, votado McCain - mesmo apreciando o valor simbólico da eleição do democrata. E nunca, por conseguinte, acreditei no «milagre Obama», nem que a face da Terra mudasse, com grande proliferação de pombas e erradicação de falcões, pelo simples facto da subida ao poder da personagem. Obama tem-me parecido, nestes anos entretanto passados, uma espécie de actor, e não dos que trocam – ou já trocaram - o brilho de Hollywood pela sobriedade da Casa Branca, mas dos que trazem Hollywood para a Casa Branca. Confesso também as minhas reservas quanto a alguns dos papéis que ali tem representado, incluindo aquele de um eufórico «assassino» de moscas. Assim sendo, não encontro explicação, nem para a surpresa que tive, nem para o incómodo que senti com a sua recente referência a Portugal. Talvez, afinal, esperasse mais do homem... ou contasse que os anos entretanto passados lhe tivessem alargado o «mundo» e apurado o tacto diplomático. Mesmo notando que Obama se excede na auto-confiança oratória e é, por isso, pessoa para, em situações de aperto, não travar no discurso o que quer que seja que lhe venha à cabeça.

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