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Emoções básicas (59)

por Luís Naves, em 15.06.09

A crítica

Fui à ópera em São Carlos sabendo que Don Giovanni, de Mozart, merecera a hostilidade ou indiferença da maior parte da crítica. Era a última récita e não estava à espera de tal qualidade. A encenação, a música, os cantores, o final invulgarmente forte, enfim, houve perfeição. Isso reforçou a minha desconfiança em relação aos críticos.

Sobre cinema, já pouco leio do que se publica. Nos anos 80, lembro-me de ter visto um filme que achei genial, Blade Runner, que acabou desancado nos jornais. Tive de me beliscar, julgando que estava louco. Numa revista literária do início dos anos 90, que li recentemente, fazia-se um inquérito aos críticos sobre escritores e a estes sobre os críticos. Nas respostas, os autores mediam as palavras, apenas levemente de censura, enquanto os críticos demoliam, entre outros, António Lobo Antunes (como ele foi detestado antes de ser um génio que já ninguém se atreve a atacar).

Não quero ser mal interpretado: tenho pena de que os jornais estejam a abandonar a crítica. No entanto, penso que em Portugal esta tende a ser demolidora em excesso, pois a notoriedade ganha-se sobretudo ao arrasar obras, não a defendê-las. A crítica é muito tribal, a ponto de causar nojo a tribo do lado. Quase nunca procura aspectos positivos e acho que existe demasiada confusão entre personalidade do autor e a sua obra, entre gosto pessoal do crítico e valor artístico do trabalho analisado.

Os críticos deviam meditar na história do grande libertino: Don Giovanni via em cada mulher uma obra de arte e apaixonava-se genuinamente por ela, tentando ver em cada uma o seu lado mais formoso, identificando as fragilidades, mas habilmente não as revelando totalmente. Era polémico e acabou mal, mas morreu consolado.

 

 

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Emoções básicas (35)

por Luís Naves, em 18.11.08

 

 

As declarações polémicas

As sociedades contemporâneas, muito mediatizadas, aceleraram o tempo e não deixam pensar. A reacção às declarações de Manuela Ferreira Leite, hoje, ilustrou bem o que quero dizer: a imagem do arrastão mediático não me parece a mais ajustada, porque o arrastão é uma grande rede presa a um elemento exterior ao sistema. O cardume de peixes traduz melhor aquilo que somos. Blogosfera, media, a sociedade em geral.

 

Vida no aquário

Os cardumes têm um mecanismo interno interessante. Eles servem para proteger os peixes do perigo dos predadores; quando um animal maior se aproxima, fica confuso com a dimensão do grupo e a sua coesão, não conseguindo fixar-se num só elemento, distraindo-se por instantes da presa. É assim que a maioria escapa.

Os media contemporâneos parecem cardumes, pois também eles se baseiam em seguir líderes informais, em rede. Ninguém gosta de ficar isolado ou de falar sozinho, de não parecer sensato. O líder informal pode ser qualquer peixe, que é seguido por dois ou três, de súbito por quinze, depois por cem, enfim por mil. E durante muito pouco tempo. O peixe que não aderir ao cardume pensa ter poucas hipóteses de sobreviver. Na blogosfera, por exemplo, não se é linkado.

Estas coisas até estão estudadas pelos biólogos, nos peixes; e sabe-se que existe tendência para as pessoas seguirem a maioria, um pouco à maneira dos cardumes. Isto é visível na opinião, daí que se forme a opinião pública, um vasto cardume de opiniões, que são na realidade micro-gestos de seguir o comentador que pareceu mais acertado em determinado momento.

 

Mau uso da ironia

Manuela Ferreira Leite usou a ironia, mal. O João Villalobos explicou muito melhor do que eu, alguns posts mais abaixo, as consequências mediáticas. MFL queria desferir um ataque ao Governo e dizer uma coisa que me parece de puro bom senso: não é possível fazer reformas contra as pessoas que as vão aplicar (excepto em ditadura). É assim com os professores, os médicos, os juízes, os militares, os jornalistas, os funcionários públicos, os metalúrgicos, os mineiros. Mas desta explicação demasiado heterodoxa na nossa era do soundbyte e da testosterona política foi retirada a parte irónica, rapidamente transformada pelo partido no poder em mais uma prova de que a senhora é fascista. Pretende-se crispar o debate, criar hostilidade, dizendo a todos os peixinhos do aquário para terem nojo da declaração, nem que seja preciso tirá-la das respectivas proporções.

 

As questões

Ora, a meu ver, este episódio é útil para ninguém se debruçar sobre os números do desemprego e do crescimento económico débil. Está a desenvolver-se uma crise gravíssima e o circo mediático em torno de uma declaração infeliz, mas irrelevante, serve para distrair a malta e fazer rir durante algum tempo. Mas, meus amigos, isto é panem et circenses (só a segunda parte), não é política séria. As declarações de um e outro não têm longevidade. O importante é que o Governo enfrenta o seu buzinão nas escolas e está cada vez mais difícil sair dele. O PS está profundamente dividido. A táctica de virar a população contra os professores não funciona, martelar números também não funciona, a realidade faz sempre uma visita. Os spin doctors não resolvem os problemas, apenas os atiram para debaixo do tapete, durante algum tempo, que entretanto se esgota. A verdadeira luta política, aquela a que temos de estar atentos, não é a da ironia que caiu mal, “a declaração estranha”, como apropriadamente dizia a SIC, nem sequer da falsa agressividade do lado do poder ou dos falsos comentadores com agenda.

Façam o favor de tentar evitar as armadilhas do cardume. É que pode ser muito confortável (o pessoal sente-se seguro), mas quanto maior for o grupo de peixes todos muito juntinhos, mais fácil é apanhar toda a gente nas redes de arrastão que chegam de fora.

 

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