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Os portugueses são dos povos menos satisfeitos com a vida, é o que se lê neste relatório da OCDE que avalia o bem-estar em 36 países europeus, apoiando-se em indicadores como a Saúde, a Educação, Trabalho, ou a própria “satisfação de vida” ponto em que rasamos o fundo da tabela.
É empírico, uma mera opinião, mas parece-me que os portugueses são infelizes porque se sentem bem assim. Entretidos com os nossos medos e ressabiamentos, desconfiamos do sucesso e da felicidade, condenamos a sua exibição. E nada tem a ver com Salazar, talvez o próprio emerja de tudo isto, assim como os vários regimes e demais frustradas engenharias a que nos vimos sujeitando na expectativa duma redenção.
Talvez porque seja lenta a libertação de séculos e séculos de fome e pobreza, ao sabor das pragas e acidentes climáticos, que nos legaram estes genes desconfiados e amargos. Da herança do cristianismo sobreveio uma prática pagã de supersticiosidade, sem relação, sem densidade. E nem esta solar luminosidade imperial nos aquece o coração cinzento. Debruçados sobre um infinito esplendoroso Oceano, este inspirou-nos a diáspora e a saudade. Ah, pois! e a culpa, a culpa, essa inconfessável culpa, que se esconde sempre nos outros e nas circunstâncias, como um canto de sereia que nos enleia para os abismos da impotência. Acomodados à infelicidade.
Notícia daqui
O problema dos portugueses não está na incapacidade de grandes feitos e gestos nobres, está na falta de feitos médios, por gente média. Para sermos mesmo grandes falta-nos massa crítica na intervenção média, na cidadania média, na iniciativa empresarial média. Não é só devido às "gerações de fome" que pesam no nosso ADN que em pleno século XXI Portugal se mantém endemicamente pobre. É também porque temos a mania das grandezas, contradição em que tropeçamos todos dias para nos rendermos à inércia da maledicência de café.
Um dia destes, numa reunião dum grupo político em que milito com alguns amigos, eu disse um lugar-comum ao qual deveríamos porventura dar mais atenção: para cumprirmos o nosso ideal não é obrigatório sermos todos Deputados, Ministros ou Secretários de Estado. O espaço intermédio de atuação é imenso. Assim como para (nos) salvarmos (d)a economia portuguesa, não podemos ser todos grandes empresários ou executivos de topo. O que falta ao português médio é deixar-se de lamúrias e meter mãos à obra, com coragem, arte e engenho. Porque uma crise é por natureza o fim de qualquer coisa e o início de uma nova, que por definição comporta sempre oportunidades inexploradas.
Texto reeditado.
Como reacção a 48 anos da ditadura, cuja propaganda (como resposta a dezasseis anos de caos e violência) se fundou nos valores da família, a religião e trabalho, tivemos trinta e cinco anos de democracia em que a estética imperante os proscreveu liminarmente. Exemplo disso é o que sucedeu à agricultura nacional, que de tão glorificada em tempos, foi votada ao abandono a seguir ao 25 de Abril, amaldiçoada pelos poderes como actividade quase indigna. Como resultado estabeleceu-se, uma cultura de indolência, especulação e irresponsabilidade: o “trabalho” é palavra de ordem banida, o desvelo é indício fraqueza, e a máxima aspiração indígena é ascender à fidalguia cortesã do regime, ancestral vício congénito, que os partidos se constituíram pródigos promotores.
A realidade actual seria irónica se não fosse a nossa desgraça: pobreza e árduo trabalho é a herança que temos e o testamento que deixamos. Como acontecerá esta inevitável revolução em democracia, é a minha maior perplexidade.
Texto reeditado
Se é verdade que o analfabetismo, a iliteracia ou a ignorância não se reduzem por decreto, constituindo antes combate para muitas gerações; se é verdade que o desígnio da liberdade individual depende dum tanto quanto possível equilíbrio entre a autoestima e conhecimento do indivíduo, não deveriam as elites do país de Abril pautar o seu discurso com muito mais modéstia? Verificando os disparates verberados na disputa política e a nossa proverbial incapacidade de mudar alguma coisa que se veja, leva-me a suspeitar que, como Povo, a distância cultural que nos separa duma “idade das trevas” não é substancial, o que nos deveria inquietar.
Acontece que a redenção de Portugal está dramaticamente dependente duma democratização do saber, aprofundada por várias gerações. A nossa evolução civilizacional carece da generalização dum julgamento e arbítrio mais sóbrio e mais fundamentado, liberto tanto quanto possível de feridas recalcadas e preconceitos sociais. Quantas mais pessoas pudessem reconhecer a sua História e ascendência com orgulho, sem preconceitos ou complexos, mais livres seriamos para acreditar num futuro que todos somos chamados a construir com responsabilidade.
Libertar um Povo das amarras da ignorância e ensiná-lo pensar é tarefa para muitas gerações, que em Portugal começou tarde demais. Mas tal é a única forma de aliviar o país do predomínio da grosseria e do ressabiamento, o único caminho que vale a pena trilhar.
Texto reeditado
Os portugueses dizem à boca cheia que a culpa do seu atávico conformismo e da sua proverbial mediocridade é da inveja (dos outros), sentimento que pelos vistos (os outros) são especialmente atreitos.
Ora, quanto mais ambicioso é um desempenho, maior será a “reacção” alheia (inveja) e essa coisa até poderá causar algum incómodo ou inquietação.
É assim que, como profilaxia ao conflito, o português prefere então não fazer nada: é usual escutarmos lamentos dos derrotados, vítimas da inveja. O fenómeno, que actua nos portugueses como se de uma praga se tratasse, amputa-lhes pela raiz a quaisquer resquícios criatividade ou ambição. O sentido de responsabilidade é a cedência final da vítima, vencida pelos envenenados olhares dos seus colegas, adversários ou concorrentes.
Sendo "a inveja", como "o ódio" ou "o amor", um inevitável sentimento humano, transversal a todas as raças ou credos, pergunto-me afinal como agem os indivíduos de outros povos mais bem sucedidos, onde a iniciativa, o empreendedorismo ou a excelência são propósitos vulgares e por tantas vezes compensadores? Presumo que o que os distingue de nós é o pragmatismo e a coragem com que se empenham nos seus projectos, em contraste com a nossa proverbial pieguice e... o nosso medo, o mais perverso dos sentimentos. O medo é que nos tolhe: afinal somos é uma cambada de medricas.
Texto reeditado.
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